VALÉRIA MENDES DE OLIVEIRA
REFORMA AGRÁRIA E ENSINO DE GEOGRAFIA: REFLEXÕES E PROPOSTAS
Nova Venécia-ES 2019
REFORMA AGRÁRIA E ENSINO DE GEOGRAFIA: REFLEXÕES E PROPOSTAS
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Coordenadoria do Curso de Licenciatura em Geografia do Instituto Federal do Espírito Santo como requisito parcial para obtenção do título de licenciada em Geografia.
Orientador: Prof. Dr. Jaime Bernardo Neto.
Nova Venécia-ES 2019
Declaro, para fins de pesquisa acadêmica, didática e técnico-científica, que este Trabalho de Conclusão de Curso pode ser parcialmente utilizado, desde que se faça referência à fonte e ao autor.
Primeiramente agradeço a Deus por tudo, principalmente pela minha vida e proteção.
Agradeço aos meus pais, que sem eles eu não seria nada, dona Tereza e seu José, que sempre tiveram do meu lado me dando força e hoje eu sei que sempre me propuseram o melhor que pude ter.
O meu muito obrigado ao meu orientador Dr. Jaime que foi absurdamente muito paciente comigo, tem toda minha admiração não só como professor, más como pessoa, através dele decidir desenvolver esse trabalho.
Aos meus professores da graduação, em memória Mizael Fernandes, eterno tio Miza, professor Hedeone, Carol, Pirola, Adilson, Amanda, Eglieni, Curbani,Thiago, Bozzeti, Weliton e ao queridíssimo professor Júlio gratidão.
As minhas sobrinhas Louyse Victória e minha pequena Isadora. Aos meus tios, primos, amigos que me ajudaram e estiveram comigo.
Agradeço as amizades que o Ifes me proporcionou da graduação turma GEO 2, aos gêmeos, Thais, Ju e exclusivamente minha professora de estágio supervisionado Marlene Jorge.
Aos meus amiguinhos de quatro patas Bile e Laica.
A todos os camponeses, que seja debaixo de sol e de chuva não deixam de trabalhar com dignidade e de contribuir para alimentar esse nosso Brasil.
O trabalho aborda as contradições do desenvolvimento do capitalismo na agricultura brasileira. De um lado a agricultura camponesa, e a monopolização do território, quando o capital não entra diretamente no campo e recria possibilidades para sua existência. Do outro, o agronegócio e a territorialização do capital, quando o capital entra diretamente no campo. Desvenda o agronegócio e seu mundo, onde foi possível demonstrar de fato sua contribuição e comprovar que as pequenas e médias propriedades são responsáveis pela maior parte da produção agropecuária do país. E que os países centrais do capitalismo, tiveram como base o predomínio das pequenas propriedades, que foram fundamentais e contribuirão para eles serem considerados grandes potências mundiais. O trabalho traz também a importância dos possíveis benefícios socioeconômicos de uma reforma agrária, e o breve histórico dos porquês que não ocorreu no Brasil. Através dos contrastes entre a agricultura camponesa e o agronegócio no Espírito Santo usado como forte exemplo, foi possível apresentar proposta de ensino, uma atividade lúdica, desenvolvida para os discentes terem fácil compreensão sobre a estrutura fundiária. Sendo possível compreender os reflexos das pequenas propriedades rurais através da atividade, com base nos dados dos municípios que possui o predomínio da pequena, médias e grandes propriedades. Palavras-chave: Agricultura Camponesa, Agricultura Capitalista, Reforma Agrária, Campesinato, Ensino,
agriculture. On the one hand, peasant agriculture, and the monopolization of the territory, when capital does not enter directly into the countryside and recreates possibilities for its existence. On the other, agribusiness and the territorialization of capital, when capital enters the field directly. Unravel agribusiness and its world, where it was possible to demonstrate its contribution and prove that small and medium-sized properties are responsible for most of the country's agricultural production. And that the central countries of capitalism, were based on the predominance of small properties, which were fundamental and will contribute to them being considered great world powers. The work also brings the importance of the possible socioeconomic benefits of an agrarian reform, and the brief history of the whys that did not occur in Brazil. Through the contrasts between peasant agriculture and agribusiness in Espírito Santo used as a strong example, it was possible to present a teaching proposal, a playful activity, developed for students to have an easy understanding of the land structure. It is possible to understand the reflexes of small rural properties through activity, based on data from municipalities that have a predominance of small, medium and large properties.
Keywords: Peasant Agriculture, Capitalist Agriculture, Agrarian Reform, Peasantry, Education.
Figura1 – Carta de Representação do Jogo Didático ...42
Figura2 – Representação dos Municípios de Conceição da Barra e Domingos Martins...44
Figura3 – Representação do Município de Pedro Canário e Iconha...45
Figura4 – Grupo 01 ...50
MAPA 1 – Pequenos Imóveis Rurais nos Municípios do Espírito Santo (2006)...36 MAPA 2 – Grandes Imóveis Rurais nos Municípios do Espírito Santo (2006)...37 MAPA 3 – Distribuição Espacial dos Projetos de Assentamentos no Espirito Santo (2007) ...38
Tabela 1 - Empregos Diretos nas Atividades Agropecuárias Brasileiras ...21 Tabela 2 - Distribuição da Terra por Grupo de Área - Brasil e Espírito Santo ... 35 Tabela 3 - Valor da Produção Agropecuária por Hectare Média Nacional...46
CPT - A Comissão Pastoral da Terra.
CEASA- Centrais de Abastecimento do Espírito Santo. CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. EUA - Estados Unidos da América
FAO - Food and Agriculture Organization FUNAI - Fundação Nacional do Índio
IBGE- Instituto Brasileiro Geografia Estatística
IECLB - Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil. IBRA - Instituto Brasileiro de Reforma Agrária
INCAPER - Instituto Capixaba De Pesquisa, Assistência Técnica E Extensão Rural. INCRA - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária
INDA - Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário MDB - Movimento Democrático Brasileiro
MDA- Ministério da Agricultura MST- Movimento Sem Terra
PNRA - Plano Nacional de Reforma Agrária SAF- Secretaria da Agricultura Familiar UDR- União Democrática Ruralista
1.INTRODUÇÃO ... 13
2.OBJETIVOS ... 16
3. DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO NO CAMPO E O PAPEL DA REFORMA AGRÁRIA ... 17
3.1A AGRICULTURA CAMPONESA E A MONOPOLIZAÇÃO DO TERRITÓRIO.. ... 17
3.2 O AGRONEGÓCIO E A TERRITORILIZAÇÃO DO CAPITAL... ... 21
3.3 AGRICULTURA CAMPONESA E REFORMA AGRÁRIA NO DESENVOLVIMENTO SOCIOECONÔMICO NOS PAÍSES CENTRAIS DO CAPITALISMO ... 24
3.4 A QUESTÃO AGRÁRIA NO BRASIL ... 27
3.5 A QUESTÃO AGRÁRIA DO ESPIRITO SANTO ... 34
4. INTERVENÇÃO PEDAGÓGICA: O LÚDICO NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM SOBRE A QUESTÃO AGRÁRIA NO BRASIL...39
4.1 CONHECENDO A PROPOSTA ... 40
4.2 APLICAÇÃO DO JOGO COM DISCENTES DO ENSINO MÉDIO ... 47
4.3 AVALIAÇÃO DA ATIVIDADE ... 52
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 53
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 54
1.INTRODUÇÃO
A modernização alcança pouco a pouco o espaço rural, deriva através da entrada do capital direto na produção agropecuária. A imagem passada do latifúndio/ agronegócio aborda essa modernização da agricultura capitalista. Todavia, mesmo com essas contribuições, o latifúndio ou agronegócio não é mais relevante que a agricultura camponesa, que destaca-se no papel de maior fonte de emprego e renda no campo brasileiro.
Essa discussão é o cerne deste trabalho, que trata sobre a importância dos possíveis benefícios socioeconômicos de uma reforma agrária e dos porquês disso não ter ocorrido no Brasil como ocorreu em outros países que hoje são considerados grandes potências mundiais, como vários países da Europa Ocidental, o Japão e os Tigres Asiáticos.
Por meio desse conteúdo considerado complexo, a aplicabilidade do material pedagógico de forma lúdica foi possível abordar aos educandos discussões a respeito da importância da agricultura camponesa, para que possa de alguma formar levar aos alunos da educação básica independentemente de sua origem, se rural ou urbana, a se importar com a realidade atual do campo e a compreender os benefícios que a reforma agrária poderia trazer ao país. E para tal fim, buscou-se a contribuição da ludicidade para estimular a reflexão sobre o tema e a estruturação do conhecimento a ser adquirido pelo aluno, e assim contribuir para os processos de ensino e aprendizagem em sala de aula.
O interesse pelo tema deste trabalho de conclusão de curso surgiu ao decorrer das aulas e das conversas com professor Jaime Bernardo Neto ao longo do curso de graduação em Licenciatura em Geografia do Instituto Federal do Espirito Santo –
campus Nova Venécia. Em suas conversas em sala de aula, o referido professor sempre relatou a grande importância da agricultura camponesa, e para nos demonstrá-la ele sugeriu, em nosso primeiro semestre no curso, que fizéssemos
uma aula de campo nos municípios de Vila Pavão, localizado na região noroeste do estado, e em Mucurici, localizado no extremo norte do estado, visitando tanto as áreas rurais como a sede desses municípios.
O município de Vila Pavão possui cerca de 9 mil habitantes, dos quais, segundo o censo demográfico do IBGE de 2010, 79% habitam em áreas rurais, e sua economia está diretamente ligada à agricultura. Trata-se de um município que é constituído a base da agricultura camponesa.
Observamos no decorrer do percurso até Mucurici as diferenças entre esse município de camponeses em relação ao extremo norte do estado. O município de Mucurici possuía, segundo o censo demográfico de 2010, um total de 5.552 mil habitantes, dos quais, apenas 39% residem em áreas rurais nas quais predominam as grandes propriedades. A contraste ficou bem visível, pois o município é regido pela pecuária, cercado por grandes fazendas pertencentes a empresários que sequer residem na cidade, e mesmo sendo de grandes extensões, esses imóveis não requerem muitas pessoas para o trabalho e o êxodo rural nesse município é evidente. Conforme fomos adentrando em sua área rural, em sentido ao distrito de Itabaiana e ao assentamento Córrego da Laje, observamos grandes áreas despovoadas, escolas do campo fechadas e o predomínio quase absoluto de pastagens. Percebe - se que há mais bois do que pessoas no município.
Uma outra de aula de campo que também me chamou a atenção para esse tema foi na região serrana do estado, já na disciplina de Geografia Rural, quando estava no quinto período. Visitamos várias propriedades nos município de Itarana e Santa Tereza, e o que mais chamou atenção foi a grande quantidade de hortaliças, verdadeiras lavouras de alface, cebola, couve, alho, uvas etc. que são cultivadas em pequenas propriedades e são responsáveis em abastecer a região metropolitana da Grande Vitória e o Ceasa do nosso estado. Chamou-me a atenção a concentração de pessoas no campo, o que se refletia em sua própria cultura e a identidade, muitos descendentes de alemães e italianos. O relevo em geral montanhoso, de clima mais ameno, que contribui para tais cultivos, sendo
outro fator favorável a localização geográfica que facilita o escoamento de sua produção, devido à sua proximidade com o maior centro urbano do Estado – a Região Metropolitana da Grande Vitória.
Por conta desse contraste entre a agricultura camponesa e o latifúndio ou agronegócio, fiquei inquieta sobre como a agricultura camponesa é importante socialmente, contribuindo para nossa subsistência com sua policultura ou mesmo produzindo commodities, e igualmente por apresentar grande geração de empregos e renda no campo.
2.OBJETIVOS
Propor metodologias para viabilizar a discussão na educação básica sobre a importância da agricultura camponesa e dos possíveis benefícios socioeconômicos de uma reforma agrária a um público-alvo heterogêneo, muitas vezes sem nenhum contato com a realidade rural do Brasil, através da elaboração de estratégias de ensino com material lúdico.
• Desenvolver material lúdico, estilo card game, para facilitar a abordagem dessa temática nas diversas séries da educação básica (ensinos fundamental e médio). • Discutir a importância da agricultura camponesa, destacando seu papel de maior fonte e emprego e renda no campo (em comparação aos latifúndios) e, consequentemente, os benefícios de uma possível reforma agrária para o Brasil, demonstrando-os a partir de dados dos municípios capixabas.
• Demonstrar ao educando o caráter contraditório do desenvolvimento do capitalismo no campo, que acaba por recriar possibilidades para a existência camponesa, e fazer um breve histórico da questão agrária no Brasil;
3 – DESENVOLVIMENTO DO CAPITALISMO NO CAMPO E O PAPEL DA REFORMA AGRÁRIA
Segundo OLIVEIRA (2007), os marxistas mais ortodoxos acreditavam que o capitalismo se disseminaria pelo campo controlando a produção de forma generalizada, e, por consequência, esses capitalistas donos de terras explorariam a mão de obra dos camponeses, tornando-os trabalhadores assalariados, como se fossem uma espécie de proletariado rural. Mas, segundo esse autor, isso não ocorreu. Nunca se verificou essa tendência generalizada de expansão de relações capitalistas na agricultura, persistindo o campesinato como uma peça chave da economia capitalista.
Adverso da teoria dos marxistas ortodoxos, OLIVEIRA (2007), criou dois conceitos de natureza geográfica para melhor compreender esse processo contraditório. Segundo BERNARDO NETO (2012, p. 58):
Uma significativa contribuição de Ariovaldo de Oliveira na compreensão desses processos territoriais contraditórios sobre o espaço agrário foi feita mediante a formulação de dois conceitos: territorialização do capital e monopolização do território (OLIVERIA,1986). Segundo o autor, a territorialização do capital é o processo pelo qual o capital adquire o controle da terra, seja por meio da compra ou do arrendamento, e faz uso de trabalhadores assalariados para realizar sua produção, consistindo em uma relação de produção tipicamente capitalista. Na monopolização do território, por sua vez, o capital se apropria da renda da terra e do excedente gerado pelos camponeses por meio da monopolização de toda a cadeia logística da mercadoria a ser gerada, seja seu destino a indústria ou o consumidor final. Nesses casos, os camponeses tendem a permanecer na produção, que ocorre geralmente por relações não capitalistas, como o trabalho familiar, a meação, parceria, etc.
Atualmente, percebe-se essa dualidade no campo brasileiro, onde convivem modelos de produção distintos: a agricultura camponesa e o latifúndio/agronegócio.
A agricultura camponesa é constituída por pequenos proprietários e membros da própria família, que utilizam sua própria força de trabalho, com eventual utilização de meeiros e/ou diaristas. Concentra-se em propriedades menores, atuando tanto em commodities, como a Pimenta do Reino e o Café (principais
produtos do noroeste do Espírito Santo) como para o abastecimento urbano (via Ceasa) e por vezes produzem para sua própria subsistência e para comercialização em feiras da própria região ou em mercados locais.
Já o agronegócio é o oposto da agricultura camponesa, pois é realizada em grandes propriedades, pertencentes a empresários e latifundiários. Nele o trabalho é desenvolvido predominantemente com mão de obra assalariada, possuindo maquinários de alta tecnologia, que não requer a utilização de muita mão de obra, e tem uma produção monocultora, destinada a mercados distantes ou ao fornecimento de matéria-prima para a indústria, como são os casos da silvicultura e dos cultivos de cana que ocupam a maior parte da área agrícola do extremo norte do Espírito Santo.
3.1 A AGRICULTURA CAMPONESA E A MONOPOLIZAÇÃO DO TERRITÓRIO.
Segundo OLIVEIRA (2007), nem sempre o capitalismo vai optar por entrar diretamente na produção agropecuária, dando preferência, em alguns casos, que os próprios camponeses desenvolveram essas atividades. Isso tem um reflexo positivo no espaço geográfico, uma vez que regiões marcadas por atividades em que o capitalismo não entra diretamente no processo produtivo tendem a ter uma área rural cheia de camponeses e com predomínio de pequenas propriedades, contribuindo, portanto, para a permanência do homem no campo, maior geração de emprego e renda, assim como sua melhor distribuição, com menor desigualdade social.
O trabalho na maior parte é desenvolvido por membros da própria família: pai, mãe, filhos, avós, tios etc.:
Em se tratando de famílias nucleares, a força de trabalho do chefe de família é somada a da esposa e a dos filhos, cuja intensidade também varia de acordo com a conjuntura. Há casos em que a unidade reine várias famílias constituídas com o casamento dos filhos que juntas ou separadamente, dividem a utilização produtiva do sitio. (PAULINO,2012 p.125).
Nesse contexto, as relações sociais entre eles mantém, de certa forma, seus costumes e a cultura local, como a vida social que gira entorno da igreja, os campeonatos de futebol, as festas de interior que passam de geração para geração, resistindo assim às transformações, à modernização, ainda que sofrendo adaptações.
Na produção da agricultura camponesa geralmente não há uma grande preocupação em contabilizar o valor do tempo de trabalho. Não há contratos, nem registros em carteira de trabalho e nem salários, propriamente. O serviço é coletivo, ‘’familiar”, desenvolvido de acordo com o tempo da produção e com a disponibilidade da família. PAULINO, (2007,p.125), relata que:
Ocorre que a unidade camponesa tem como marca a diversificação. É pouco comum a dedicação exclusiva a uma atividade, de modo que os trabalhadores dividem seu tempo, o que é regido por um calendário sazonal. Isso significa que a margem de manobra na depreciação da matéria- prima aumenta, já que os camponeses incrementam a renda com outras fontes. [...]. Por isso, várias atividades paralelas se combinam, o que, por fim, representa aproveitamento máximo da força de trabalho e, por conseguinte, da geração ampliada da renda bruta.
Diferentemente da agricultura camponesa, o trabalho desenvolvido na agricultura capitalista é assalariado, sendo o empregador obrigado a assinar a carteira de trabalho, pagar férias, décimo terceiro, previdência social, sindicatos etc. E trabalhar no máximo oito horas por dia. Segundo PAULINO, (2007, p.126), é difícil conciliar tal regime de trabalho ao tempo de produção de grande parte das atividades agropecuárias:
Conciliar essas exigências a um contrato de trabalho não é uma saída desejável aos capitalistas, regidos por leis fundamentais na lógica da indústria’.
Hipoteticamente, caso os capitalistas as empreendessem, deparar- se - iam com períodos de ócio dos trabalhadores assalariados, com o agravante de que os contratos legais não tem a fluidez que as respectivas atividades requerem. Isso representaria pagamento de salário por horas não trabalhadas, em si incompatível com a lógica de reprodução de capital.
As atividades que geralmente ficam a cargo do campesinato nessa divisão do trabalho são aquelas que não puderam ser automatizadas e que demandam
muita mão-de-obra, em um país cujas leis trabalhistas foram pensadas segundo a lógica da indústria e do comércio.
Por isso, em alguns casos, o capitalismo prefere monopolizar a distribuição da produção ou o seu beneficiamento do que ingressar no processo produtivo propriamente dito, dando margem para que o campesinato ocupe esse nicho na cadeia produtiva. Nestes espaços, predomina o que OLIVEIRA (2007, p.40) chama de “movimento de vender para comprar”, ou seja, o objetivo maior da agricultura camponesa não é o lucro em si, a acumulação de mais-valia, mas a satisfação de suas necessidades familiares. O camponês vai ‘’vender seu produto para adquirir outro’’, e é aí que entra a lógica do capital: o capitalismo vai se beneficiar da compra dessas mercadorias, monopolizando seu comércio e/ou seu beneficiamento, acumulando o valor excedente e a renda da terra camponesa desse processo. Desta forma:
Na agropecuária atual coexistem poucos setores onde há uma penetração plena do capital na produção e outros, em quantidade bem maior, onde os trabalhadores rurais se mantêm como proprietários de terras e, nesse caso, a extração pelo capital de seu excedente produzido e da renda da terra se deu historicamente por meio do monopólio da comercialização e/ou beneficiamento da produção e, mais recentemente, também pela venda de sementes, insumos, agrotóxicos e, é claro, pelo próprio financiamento dos recursos
necessários a aquisição destes bens. (BERNARDO NETO, 2012, p.58).
Conforme a tabela abaixo, percebe-se que as atividades típicas do agronegócio (como os cultivos de cana-de-açúcar, milho, soja, e pecuária de corte) exigem muito menos mão-de-obra do que aquelas que são típicas da agricultura camponesa.
Tabela 1 - Empregos Diretos nas Atividades Agropecuárias Brasileiras. (equivalente homem/ano para cada 100 hectares).
Atividade Nº de Empregos Tomate Cebola Café Mandioca Batata Arroz Feijão Cana de Açúcar Milho Soja Pecuária de Corte 245 52 49 38 29 16 11 10 8 2 0,24
Fonte: Fundação Seade/Sensor Rural,200(apud Shlesinger,2010).Organizado por BERNARDO NETO (2012).
Desta forma, fica nítido que a agricultura camponesa é responsável por garantir que no campo haja uma produção de alimentos diversificada, sendo também responsável por uma boa geração de emprego e renda, seja de maneira permanente ou sazonal. Isso de certa forma contribui para a diminuição do êxodo rural e uma melhor qualidade de vida no campo, e isto e benéfico tanto para o indivíduo quanto para a economia como um todo, pela ampliação do mercado consumidor interno.
Além disso, a agricultura camponesa é particularmente importante para o abastecimento das demandas do mercado interno, sobretudo aquelas de caráter local. Segundo a Secretaria de Agricultura Familiar (SAF, 2018), 70% dos alimentos consumidos por nós brasileiros são produzidos pela agricultura familiar camponesa.
Historicamente, a terra no Brasil funcionou como uma forma de reserva de valor. Não é de se impressionar que muitos empresários e latifundiários detenham terras improdutivas, como uma forma de especular mais dinheiro. Tradicionalmente, o latifúndio no Brasil é marcado pelo uso especulativo da terra, disfarçado sob a forma de uma pecuária ultra-extensiva.
A utilização da terra como reserva de valor sempre foi historicamente uma das características mais marcante do campo brasileiro. O capital investido na compra da terra será valorizado independente da utilização produtiva desta, acrescente- se a isso o fato de que toda a política de crédito sempre foi baseada na área de terra nua. (ROMEIRO 1990, p.45).
A Revolução Verde, entretanto, transformou a produção agropecuária e deu origem a uma ideia da ‘’agricultura moderna’’ (em contraponto a uma suposta “agricultura atrasada”), na qual a produção agrícola passara a ser mecanizada viabilizando a expansão de monocultivos por áreas de gigantesca extensão, como foram os casos das monoculturas da soja, cana, eucalipto, etc., originando o chamado agronegócio, que se tornou uma espécie de unificação do capital financeiro com os proprietários de terra.
Um mercado mundializado (commodities) como o de grãos impõe à agricultura um elevado padrão científico e tecnológico tornando-a extremamente dependente do capital, bastando observar que, excluída a terra, são os fertilizantes, herbicidas, inseticidas, praguicidas, sementes e as máquinas que mais pesam na estrutura de custos totais por hectare [...] (PORTO-GONÇALVES, 2006, p.233)
Sob esta forma de produção, o campo é marcado pelo êxodo rural resultante do desemprego estrutural ocasionado por essas transformações, que levaram muitos camponeses a serem expulsos do campo pela parca necessidade de mão-de-obra. Além disso, houve um aumento significativo do uso de fertilizantes, sementes transgênicas e, principalmente, os agrotóxicos, agora chamados de “defensivos agrícolas”:
O uso da palavra defensivo procura inverter o significado e, assim, aquele que é acusado de agressor do meio ambiente procura ser visto como defensor. O mais interessante é que o uso da expressão
defensivo agrícola revela a lógica de guerra que subjaz a essas práticas e, por isso, precisa... defender-se. (PORTO-GONÇALVES, 2006, p.266).
Essas transformações permitiram que o que antes era colhido apenas em determinada época do ano passasse a estar disponível praticamente o ano inteiro, o que contribuiu para a má qualidade desses alimentos que vão para as indústrias e chega nas nossas mesas, “envenenados”.
A monocultura de alimentos (e outras) é, em si mesma, a negação de todo um legado histórico da humanidade em busca da garantia da segurança alimentar na medida em que, por definição, a monocultura não visa a alimentar quem produz e, sim, a mercantilização do produto. (PORTOGONÇALVES, 2006, p. 213).
Com tais transformações, aquilo que era tido como atrasado passa a ser glorificado e divulgado nas grandes mídias em campanhas publicitárias (“Agro é Pop é Tech, agro é tudo”), o que gerou uma imagem mascarada e contraditória de seus efeitos nocivos, tanto ambientais quanto sociais. A grande propriedade se colocou como a protagonista do desenvolvimento da agricultura brasileira a dominar todo o processo de formação socioespacial do país. Mas como nos lembra OLIVEIRA (2003,p.23):
O predomínio, em área, dos latifúndios tende a nos levar a achar que eles sãos grandes produtores da agricultura brasileira. As estatísticas, entretanto, nos revelam que essa ideia que é amplamente alimentada pelos meios de comunicação em massa, subordinados aos detentores do “status qüo” (que no meio rural consiste nos grandes latifundiários e nas empresas ligadas ao agro-negócio), não passa de um verdadeiro “mito moderno”, já que absolutamente não condiz com a realidade.
O estado também é fortemente favorável a esse modelo baseado no latifúndio e na monocultura, e em suas estratégias de desenvolvimento, criou mecanismos legais para garantir as condições para a constituição, reprodução e consolidação da grande propriedade. E ao fazer essa escolha, o Estado brasileiro está criando adversidades no acesso à terra pelos trabalhadores rurais e à difusão da agricultura familiar, bem como excluindo esses sujeitos sociais das políticas agrícolas implementadas no país, pois são muitos subsídios e créditos que o
governo libera para o agronegócio, quando comparado à reforma agrária e à agricultura camponesa em geral.
As transformações desencadeadas pela modernização vinculada a Revolução Verde, entretanto, não se restringiram aos latifúndios e também chegaram às pequenas propriedades rurais: as sementes geneticamente modificadas demandam intenso uso de fertilizantes e de “defensivos agrícolas” e uma nova demanda de mão-de-obra especializada, como agrônomos, operadores de maquinários etc. Em suma: uma série de elementos que aumentam o capital inicial necessário à produção:
A inserção direta do capital no setor agropecuário ocorreu tanto mediante sua participação direta na produção, sobretudo nos complexos agroindustriais, como indiretamente, através da mercantilização dos insumos necessários à produção, atuando na produção de sementes, agrotóxicos, adubos, etc. Essa forma de inserção se combinou com o que seria, segundo Harvey (2011), uma das novas manifestações do imperialismo no capitalismo contemporâneo: a propriedade intelectual e os direitos de patente. No que tange à agricultura, por exemplo, como bem menciona Porto-Gonçalves (2006), praticamente todo o mercado mundial de sementes e insumos é atualmente oligopolizado por meia dúzia de grandes transnacionais que detêm as patentes sobre os mesmos. (BERNARDO NETO, 2012, p.54).
O resultado é que essas áreas onde predomina o que OLIVEIRA (2007) chama de Territorialização do Capital, ou seja, atividades onde ele se insere diretamente na produção, tornando-se proprietário de terras, tornam-se desertos, um campo sem camponeses, sem pessoas, sem natureza.
3.3 AGRICULTURA CAMPONESA E REFORMA AGRÁRIA NO DESENVOLVIMENTO SOCIOECONÔMICO NOS PAÍSES CENTRAIS DO CAPITALISMO.
Tradicionalmente, por reforma agrária entende-se as políticas públicas que tem como o principal objetivo alterar a estrutura fundiária de uma região/país/município mediante a redistribuição de terras na forma de propriedades destinadas a famílias camponesas, algo que diversos países ditos “desenvolvidos” fizeram ao longo de sua história. O fato é que praticamente
todos basearam suas economias em uma estrutura fundiária com predomínio de pequenas propriedades, fosse isso uma herança histórica, como o caso dos Estados Unidos, ou uma política de Estado visando o desenvolvimento econômico, como foram os casos de Japão, Coreia do Sul e Taiwan, por exemplo.
Nos Estados Unidos, após a Guerra Civil, o norte, que era sua parte mais industrializada e desenvolvida, se sagrou vitorioso. E quando esse novos governantes viram a necessidade de expandir a colonização e a economia do país para o Oeste, tal processo foi feito com base nas pequenas propriedades por meio da Homestead Act, lei datada de 1862, segundo a qual as “novas” terras seriam vendidas por um valor acessível, o que tornou-as atrativas aos olhos dos imigrantes europeus e para os próprios americanos, consolidando assim uma estrutura baseada fundiária baseada em pequenas propriedades.
Nos Estados Unidos, onde as oligarquias escravocratas foram derrotadas militarmente, as elites formadas de imigrantes e descendentes militarmente, tinham uma clara consciência do país como uma nação em formação. Esta consciência se expressa claramente com o ‘’Homestead Act. “de 1862, que visava garantir legalmente a abertura do oeste para as levas de imigrantes que começavam a fluir em massa da Europa.( ROMEIRO,1990 p.129).
O Japão, em seu processo de modernização, não mecanizou de início sua produção agropecuária. Além das adversidades por conta do relevo montanhoso e pouco favorável a utilização desses meios, o Estado sabia que isso causaria grandes impactos no campo, sobretudo em um país com fortes resquícios feudais. O que chama atenção no caso japonês é a ligação dessas pessoas com a terra e com suas comunidades e a reforma agrária veio para garantir uma modernização que não implicasse na perda desses vínculos. Segundo ROMEIRO, (1990, p.32) “um laço de solidariedade comunitária tradicional unia as populações camponesas. Neste aspecto a herança feudal foi mantida”.
Os japoneses apostaram em melhorar a qualidade e as variedade de sementes/plantas, se especializaram nas técnicas agrícolas e de acordo com as produções e demandas foram introduzindo outras atividades, como a sericultura, sem optar por novos meios de produções que fomentassem a expulsão do campo, o que promoveu um equilíbrio mediante a conscientização que a retirada em massa dessas pessoas das áreas rurais não beneficiaria ninguém e só promoveria mais desigualdades e eventualmente problemas urbanos:
O processo de crescimento econômico foi acompanhado de uma distribuição de renda. E isso só é possível onde existem amplas oportunidades de emprego e educação. Umas das características destes países é justamente o cuidado especial com que são encaradas a educação e a formação técnica. (ROMEIRO 1990, p.135).
Com os Tigres Asiáticos também não foi diferente do Japão (Coréia do Sul e Taiwan, particularmente). A reforma agrária possibilitou a esses países se desenvolver economicamente, melhorando a distribuição de renda e a qualidade de vida e poder de consumo dessas pessoas.
No caso de Taiwan, depois da guerra e dos bombardeios esse pais precisou se reconstituir. Sua agricultura era muito defasada tecnicamente e com forte concentração fundiária. Segundo ROMEIRO (1990), “Em 1949, Chiang Kai-Shek desembarcou na ilha à frente de 2 milhões de fugitivos da conquista da China continental pelo partido comunista chinês”. O partido, então vendo a necessidade de Taiwan se desenvolver, colocou um fim na então oligarquia rural que existia no país e com a “ajuda” dos Estados Unidos estimulou o desenvolvimento rural optando pela policultura e pequenas propriedades. Segundo ROMEIRO (1990,p.137), a reforma agrária em Taiwan se desenvolveu em três momentos:
A reforma agrária se processou em três etapas. Na primeira, a ênfase foi posta na redução da taxa de meação e na maior segurança dos contratos de parceria. Na segunda, procedeu se ao parcelamento e á venda das terras públicas aptas para o cultivo. Finalmente, na terceira etapa, sob o lema ‘’ a terra a quem trabalha”, foram parcelados os latifúndios, sendo os grandes proprietários indenizados com o dinheiro da venda das terras públicas.
Dessa forma com agricultura fortalecida e com grande produção de matéria prima, formou-se a industrialização nesses países. Ambos começaram artesanalmente e com isso conseguiram produzir e formar um mercado próprio, forte, produtor e consumidor, sendo hoje potências mundiais. Em grande medida, isso deve-se, dentre outras coisas, ao acesso à terra promovido pela reforma agrária, que ampliou o mercado interno por meio da redistribuição de renda, e diminuiu os custos da produção industrial por meio da ampliação da produção dos alimentos básicos e a diminuição de seus preços no mercado interno.
3.4 A QUESTÃO AGRÁRIA NO BRASIL.
A concentração de terra nas mãos de poucas pessoas no Brasil é fruto de uma série de fatores históricos. A começar pelos primórdios da sua colonização, aproximadamente em 1530, quando a Coroa Portuguesa decide efetivamente colonizar o território então recém descoberto.
Os capitães-donatários que recebiam os títulos da Coroa Portuguesa para exploração das terras as doavam na forma de sesmarias visando garantir a instalação do "plantation", principalmente para a produção da cana de açúcar para exportação, o trabalho era realizado através do uso de mão de obra escrava.
Após a independência, a Lei de Terras de 1850, estabeleceu que todas as terras devolutas do território nacional pertenciam ao estado brasileiro e somente poderiam ser adquiridas por meio da compra. A edição dessa lei estava intimamente ligada às estratégias adotadas pelo governo para que as terras não fossem apropriadas por camponeses pobres, algo restrito apenas a quem possuía condições de comprá-la, relegando os camponeses a uma condição de subalternidade e dependência para com os latifundiários.
Tal lei se fazia necessária para garantir os interesses do status quo, uma vez que esse mesmo ano (1850) marca o fim do tráfico negreiro e o vislumbre de uma “ameaça” à abolição da escravatura em vistas. Nesse contexto, para suprir as demandas de mão de obra nas fazendas incentivou-se a entrada de imigrantes estrangeiros no país. Como forma também de europeizar o território brasileiro, italianos e alemães e outras etnias, que vinham no intuito para trabalhar nas lavouras. .
Ao longo das primeiras décadas do século XX, quando o país começa a se industrializar, a concentração de terras resultou em conflitos, que foram desencadeando principalmente no Nordeste. OLIVEIRA (2007, p.106) afirma que que “o final da década de 40, os anos 50 e o início da década de 60 foram marcados por esse processo de organização, reivindicação e luta no campo brasileiro”.
Foi, portanto, com as Ligas Camponesas, nas décadas de 40 a 60, que a luta pela reforma agrária no Brasil ganhou dimensão nacional. Nascidas muitas vezes como sociedade beneficente dos defuntos, as ligas foram organizadas principalmente no nordeste brasileiro, a luta dos camponeses foreiros, moradores, rendeiros pequenos proprietários e trabalhadores assalariados rurais da Zona da Mata, contra o latifúndio. (OLIVEIRA,2007, p.106)
Esses movimentos, obviamente, não eram bem vistos pela oligarquia agrária que controlava o país, pois influenciava aos trabalhadores a irem contra seus patrões. Não obstante, as ligas ganharam dimensões e visibilidade em todo país, por onde ocorriam mobilizações em prol dos direitos e a reforma agrária no país, havendo mesmo alguns setores da classe dominante que apoiassem a ideia de realização de uma reforma agrária:
O problema da miséria dos camponeses e do seu êxodo para o sul era explicado como resultado do latifúndio subutilizado, que impede a ocupação da terra por quem precisa. Uma política regional de desenvolvimento baseado na industrialização deveria sustar e inverter o círculo vicioso da pobreza de uma agricultura monocultura e latifundiária. (OLIVEIRA ,2OO7,p. 109).
O auge desse movimento pró reforma agrária ocorreu no governo João Goulart (1961-1964), quando pela primeira vez um Presidente da República vai colocá-la como uma pauta importante, como ‘’prioridade’, parte de suas Reformas de Base. Tratava-se de reconhecer que a reforma agrária é algo fundamental para o desenvolvimento do país, pois uma melhor distribuição de suas terras ampliaria o mercado consumidor interno e diminuiria a pobreza no campo, sendo imprescindível ao desenvolvimento de economia de mercado, juntamente com uma reforma tributária (retirando os impostos dos mais pobres em detrimento dos mais ricos e grandes empresas). Segundo MOREIRA (1998, p. 07):
“A esquerda nacionalista responsabilizava a concentração fundiária pelas péssimas condições de vida da população rural, pela incapacidade de o Brasil produzir os alimentos necessários à população e ainda considerava o latifúndio como um dos principais entraves à constituição de um mercado interno consumidor que sustentasse um desenvolvimento industrial voltado para o mercado interno’’.
As leis que coincidiam a favor da reforma agrária do governo João Goulart não foram bem vistas no congresso nacional. Segundo OLIVEIRA (2007, p.120), “Em 1 de abril de 1964, João Goulart foi deposto e o Brasil entrou em um período de sua história, que durou 21 anos de ditadura militar’’, a qual passou a perseguir os movimentos sindicais e as lideranças das ligas camponesas afim de suprimir a luta em favor da reforma agrária no país.
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O Regime Militar foi, de certa maneira, o responsável pela entrada da Revolução Verde no campo brasileiro e incentivou amplamente a expansão agrícola para o Centro-oeste e para o Norte do país. Como resposta à tensão que imperava no campo, a Ditadura cria o Estatuto da Terra, estabelecendo as diretrizes para a realização de uma reforma agrária no país:
A desapropriação de imóveis rurais para fins de reforma agraria foi instituída no Brasil pelo estatuto da terra ( Lei 4.504, 20 de novembro de 1964), o qual condicionou a propriedade dos imóveis rurais ao cumprimento de sua função social, que é assegurada com base em diferentes aspectos; produtividade, respeito a legislação ambiental e trabalhista e favorecimento do bem estar dos proprietários e trabalhadores que nela atuam. (BERNARDO NETO,p.3. 2012).
O regime militar não tinha a reforma agrária como meta. Ao invés disso, fez o que alguns chamaram de reforma agrária conservadora, pois não mexeram na estrutura fundiária do Nordeste, Sudeste e o Sul. Para não contrariar os interesses da oligarquia agrária brasileira, estimularam as migrações para a colonização do Centro oeste e da Amazônia, tentando então minimizar os conflitos do campo sem mexer nos latifúndios que já existiam nas partes mais densamente povoadas do Brasil. Incentivos diversos foram criados para fomentar a migração para região Norte, desde investimentos em infraestrutura como criação/fortalecimento do aparato estatal:
Com a criação do Estatuto da Terra, tratou logo o governo militar de extinguir a Supra e criar a IBRA - Instituto Brasileiro de Reforma Agrária, e o INDA -Instituto Nacional de Desenvolvimento Agrário. Mas passaram alguns anos e a reforma agrária do estatuto não saia do papel. (OLIVEIRA, 2007, p.121).
A atuação desses órgãos nas políticas de colonização do Centro-Oeste e na Amazônia ficaram marcados pela corrupção, com registros de cartórios fraudulentos (“grilagem” de terras), adulterações de documentos para venda de terras para estrangeiros etc. Com isso chegou a ser instaurada uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar tais casos, com a comprovação da corrupção que acontecia. Foi nesse contexto que houve então o surgimento do INCRA (Instituto Nacional de Reforma Agrária) que é até hoje o órgão responsável pela Reforma Agrária no país.
Muitos, entretanto, não conseguiram realizar o sonho de se tornarem proprietários de terra, pois o foco das políticas governamentais era precisamente o estimulo à pecuária e à mineração.
O final da Ditadura Militar e o enfraquecimento da repressão conduziram ao ressurgimento dos movimentos sociais em prol da reforma agrária, dentre os quais se destaca o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. Suas origens remontam à modernização que vinha ocorrendo no campo brasileiro nos anos 70, especificamente na região sul do país, até então a maior
produtora de grãos, cuja mecanização da produção gerou grande expulsão de famílias camponesas.
Mas foi no início da década de 1980 que o movimento efetivamente se constituiu. Segundo STÉDILE (2012), esse fato coincidiu com a “crise da indústria”:
As transformações profundas que a agricultura brasileira passou nas últimas décadas do século XX, revela suas condições presentes no interior da estrutura agrária e revela sua componente contemporânea: a luta pela Reforma Agrária. Mais do que isso, revela a relação orgânica entre a luta pela terra e a conquista da democracia por esses excluídos. Conquista da democracia que se consuma na conquista da terra, na conquista de sua identidade camponesa, enfim, na conquista da cidadania. (OLIVEIRA, 2007, p.139).
O MST obteve grande apoio de alguns setores das Igrejas Luterana e, principalmente, Católica, sobretudo dentre os adeptos da Teologia da Libertação e com a Comissão Pastoral da Terra:
A Comissão Pastoral da Terra (CPT) nasceu em junho de 1975, durante o Encontro de Bispos e Prelados da Amazônia, convocado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizado em Goiânia (GO). Foi fundada em plena ditadura militar, como resposta à grave situação vivida pelos trabalhadores rurais, posseiros e peões, sobretudo na Amazônia, explorados em seu trabalho, submetidos a condições análogas ao trabalho escravo e expulsos das terras que ocupavam. Nasceu ligada à Igreja Católica. O vínculo com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ajudou a CPT a realizar o seu trabalho e a se manter no período em que a repressão atingia agentes de pastoral e lideranças populares. Logo, porém, adquiriu caráter ecumênico, tanto no sentido dos trabalhadores que eram apoiados, quanto na incorporação de agentes de outras igrejas cristãs, destacadamente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB. Comissão Pastoral da Terra (CPT) - Secretaria Nacional. ( COMISSÃO PASTORAL DA TERRA,2010 )
Ainda segundo STÉDILE, (2012, p. 22):
A CPT foi a aplicação da teologia da libertação na prática, o que trouxe uma contribuição importante para a agentes pastorais, religiosos e pastores discutiam com os camponeses a necessidade de eles se organizarem .a igreja parou de fazer trabalho messiânico e dizer para o camponês : “Espera que tu terás terra no céu”. Ao contrário, passou
a dizer: Tu precisas te organizar para lutar e resolver os teus problemas aqui na terra’’.
Com a CPT, o MST passou a desenvolver articulação em âmbito nacional, ligando todo o país em uma causa só, na luta pela terra.
Contra os movimentos do campo, a resposta dos ruralistas não tardou e veio por meio da criação da União Democrática Ruralista, que foi criada de maneira informal com o objetivo de defender os interesses dos latifundiários. Nesse novo período democrático, ocorreram diversas embates entre o governo, a U.D.R. e os camponeses sem terra, com os interesses dos ruralistas prevalecendo e a reforma agrária não saindo do papel.
A nova constituição elaborada em 1988 instituiu a não desapropriação de pequenas propriedades e propriedades registradas como empresas rurais. Consta nela também que propriedades produtivas não poderiam ser desapropriadas, independentemente de sua extensão, e as que fossem desapropriadas seriam pagas mediante indenizações. Segundo OLIVEIRA (2007,p.127), a Bancada Ruralista teve forte participação nesta decisão:
Os ruralistas conseguiram incluir a Constituição o caráter insuscetível de desapropriação da propriedade produtiva e transferiram para a legislação complementar a fixação das normas para o cumprimento dos requisitos relativos a sua função social da terra. Com a vitória da política fundiária dos latifundiários, o governo Sarney sepultou o I PNRA. Primeiro, a medida Provisória n° 29,de 15/01/1989, extinguiu o cargo de Ministro de Estado da Reforma Agrária e do Desenvolvimento Agrário, e transferiu as atribuições do MIRAD para o Ministério da Agricultura. A reforma agrária da “Nova República” terminava institucionalmente da mesma forma como os governos militares a tinha tratado.
Com a posse de Itamar Augusto Cautiero Franco (1992-1995), no governo após a cassação Fernando Affonso Collor de Mello (1990-1992), em comparação aos governos anteriores, o governo de Itamar Franco (1992-1995) foi o que realizou mais desapropriações para fins de reforma agrária, sobretudo em virtude devido da pressão social decorrente das altas taxas de desemprego e da miséria que marcava tanto o campo quanto as cidades naquela época.
As pressões e lutas dos movimentos sociais resultou a lei 8.629/93, citada abaixo, a qual regulamentou a desapropriação para fins de reforma agrária. Foi aprovada pelo congresso nacional em 25 de fevereiro de 1993:
Art. 2º A propriedade rural que não cumprir a função social prevista no art. 9º é passível de desapropriação, nos termos desta lei, respeitados os dispositivos constitucionais. (Regulamento)
§ 1º Compete à União desapropriar por interesse social, para fins de reforma agrária, o imóvel rural que não esteja cumprindo sua função social. (BRASIL,1993).
No governo Fernando Henrique Cardoso (1995-1998), houve grandes conflitos agrários. Não obstante, a luta pela terra continuou e os massacres de pessoas ligadas a movimentos como o MST não tardaram a ocorrer. Os massacres de Corumbiara e, sobretudo, o de Eldorado dos Carajás, no Pará, são exemplos disto. Segundo OLIVEIRA (2007, p.141) esses conflitos violentos ‘’representavam a posição das elites latifundiárias em não ceder a questão da reforma agrária’’, más não conseguiram abafar a luta pela reforma agrária.
O Governo FHC ampliou as desapropriações para implantação de assentamentos de reforma agrária. Também instituiu programas para a diminuição da pobreza para amenizar a pressão social da época.
Comparando-se o governo de Fernando Henrique Cardoso com os anteriores (Sarney, e Collor/Itamar) verifica-se pelos dados divulgados pelo INCRA, que nos primeiros seis anos tinha assentado 373.210 famílias em 3.505 assentamentos rurais. Entre estes assentamentos inclui-se as regularizações fundiárias (as posses),os remanescentes de quilombos, os assentamentos extrativistas, os projetos Casulo e Cédula Rural e os projetos de reforma agrária propriamente dito.(OLIVEIRA,2007p.142)
Em seu segundo mandato, o governo Fernando Henrique Cardoso (1999-2002), elaborou manobras para dificultar a desapropriações e atuação dos movimentos socais que lutavam em prol da reforma agrária, como a Medida Provisória 2.109, de 2001, que impede as vistorias de áreas ocupadas e decreta sua
impossibilidade de desapropriação por dois anos. Além disso, a Portaria n°62 de 27/03/2001 estabeleceu a exclusão dos beneficiários da reforma agrária envolvidos em ações de ocupação a propriedades privadas (OLIVEIRA, 2007) .
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010), teve grande apoio dos movimentos sociais, principalmente do MST, mas o governo Lula não foi muito diferente dos anteriores e não prosseguiu com a reforma agrária. O segundo PNRA foi apresentado no então governo, mas o governo não prosseguiu com o que fora ali estabelecido e muitos números falsos foram divulgados:
O número total de famílias assentadas divulgado, referente ao ano de 2003 foi 36.301. Entretanto, este número total escondia a seguinte subdivisão: Meta 1 – assentamentos novos 14.327 famílias; Meta 2- regularização fundiária 1524 famílias; demais metas – reordenação fundiária 20.450 famílias. Dessa forma, se a meta 01, de 2003 era assentar 30 mil famílias o INCRA deixou de assentar 21.974 famílias, ou seja, cumpriu apenas 47,8% da Meta.
Em 2004, o procedimento não foi diferente, foram divulgados no total 81.254 famílias assentadas. Novamente, o número total escondia, portanto, a incapacidade do MDA/INCRA em cumprir as metas que eles mesmos colocaram no II PNRA. Desagregando o dado total, foram realizadas 26.130 novos assentamentos- Meta 01; 9.657 regularizações fundiárias, Meta 02; 45.467 referentes as demais Metas as reordenações fundiárias. Logo o governo deixou de cumprir novamente a meta de 2004, que era de 115 famílias, e a diferença foi de 105.343 famílias, ou seja cumpriu apenas 8,4%dela. (OLIVEIRA, 2007, p. 165).
Durante oito anos de mandato do governo Lula, não houve prioridade nem para a criação de novos assentamentos e nem paras as famílias assentadas como fora prometido ao longo de sua campanha eleitoral. O que ocorreu realmente foi a contribuição do governo para a expansão do agronegócio, tendência que se manteve nos Governos Dilma (2011-2016) e Temer (2016-2018).
3.5 A QUESTÃO AGRÁRIA NO ESPIRITO SANTO.
Segundo o Censo Agropecuário, IBGE (2006), o Espírito Santo possui cerca de 67.414 estabelecimentos agropecuários onde é praticada a agricultura
camponesa e 16.947 estabelecimentos de maior dimensão, voltados para a o agronegócio.
Ao contrário do Brasil, onde o predomínio em área é dos latifúndios no Espirito Santo as pequenas propriedades ocupam cerca de 46,72% de sua área agropecuária total.
Tabela 2 - Distribuição da Terra por Grupo de Área – Brasil e Espírito Santo.
Tamanho dos imóveis
Brasil Espírito Santo
Menos de 100 ha 21,43% 46,72%
Menos de 1000 ha 34,16% 35,33%
Mais de 1000 ha 44,42% 17,95%
Fonte: IBGE. Censo Agropecuário 2006. Organizado por BERNARDO NETO, (2012).
Todavia, como ressalta BENARDO NETO (2012,p.5) “O território capixaba também apresenta profundos contrastes internos”. Em algumas partes “há o predomínio quase absoluto dos pequenos imóveis rurais, como é notório o caso de sua porção Centro-Sul’’ enquanto em outras os latifúndios são predominantes, como é o caso de seu Extremo Norte. Segundo o autor, essas regiões de predomínio de pequenas propriedades foram áreas onde houve a colonização com base em imigrantes Alemães e Italianos, que geralmente recebiam ou compravam a preços módicos pequenos lotes de terra.
A ocupação do solo capixaba, dinamizada com a imigração europeia, principalmente a italiana e a alemã, se viabilizaram com a distribuição das colônias (áreas de 25 ha), no território estadual, onde o café foi a principal atividade econômica indutora desse processo. Escravos abolidos e colonos europeus, enfrentando o clima tropical, as florestas, as montanhas e as epidemias, construíram, em solo capixaba, a base de nossa estrutura agrária e do nosso modo de produção. Constituíram, anonimamente, o grande capital social – a agricultura familiar. (PEDEAG, 2007).
Mapa 1. Pequenos Imóveis Rurais nos Municípios do Espírito Santo (2006).
Fonte: BERNADO NETO (2012)
A maior presença da pequenas propriedades ocorre nos arredores da região metropolitana da grande Vitória, em município que são responsáveis pelo abastecimento da Central de Abastecimento do Espírito Santo (CEASA).
A urbanização e inserção do território capixaba na rede urbana nacional influenciaram esse processo de especialização produtiva e reconfiguração da produção agrícola camponesa. O rápido crescimento da população urbana (muito embora esta tenha se concentrado na região metropolitana, que chega a ter cerca de metade da população estadual a partir da década de 1990, e outros poucos centros urbanos, como Colatina e Cachoeiro de Itapemirim e, mais recentemente, São Mateus e Linhares), fez surgir um grande demanda de gêneros alimentícios de todas as espécies e de derivados da pecuária (carne e leite) para abastecimento da “cidade”. (BERNARDO NETO, 2012, p.243).
As pequenas propriedades mais afastadas desse “centro” têm produções menos diversificadas, voltadas a commodities como o café Arábica e Conilon.
Mapa 2 – Grandes Imóveis Rurais nos Municípios do Espírito Santo (2006).
Fonte: BERNADO NETO (2012)
Conforme Mapa 3, as áreas com maior concentração fundiária no estado são aquelas que se destacam na pecuária de corte e monoculturas como a cana-de- açúcar, e silvicultura, situadas no extremo norte e no litoral norte.
Mapa 3 - Distribuição Espacial dos Projetos de Assentamentos no Espirito Santo.
Fonte: BERNADO NETO (2012)
A maioria dos projetos de assentamento da reforma agrária existentes no Espírito Santo situa-se em áreas onde há o predomínio da prática da pecuária extensiva, sobretudo seu extremo norte. Nas palavras de BERNARDO NETO (2012):
Percebemos que a maioria esmagadora dos assentamentos está situada nos municípios que apresentam maior área dedicada a pecuária, o que explica também o porquê do número significativo de
assentamentos no extremo sul do Estado, apesar de sua estrutura fundiária não ser tão concentrada como o verificado no norte capixaba. (BERNARDO NETO, 2012, p.12-13).
Os municípios de Nova Venécia, São Mateus, Ecoporanga, Montanha, Mucurici, Pedro Canário, Pinheiros e São Mateus têm uma grande quantidade de projetos de assentamento, que são verdadeiras ilhas de povoamento em meio ao vazio demográfico que caracteriza a maior parte de sua zona rural.
4. INTERVENÇÃO PEDAGÓGICA: O LÚDICO NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM SOBRE A QUESTÃO AGRÁRIA NO BRASIL.
A ludicidade, particularmente a gameficação, por ser uma “ferramenta” dinâmica, atrativa, é capaz de promover fácil aproximação dos discentes (interação e integração) e colaborar com aprendizagem:
[...] o jogo confere ao aluno um papel ativo na construção dos novos conhecimentos, pois permite a interação com o objeto a ser conhecido incentivando a troca de coordenação de ideias e hipóteses diferentes, além de propiciar conflitos, desequilíbrios e a construção de novos conhecimentos fazendo com que o aluno aprenda a fazer, o relacionar, o constatar, o comparar, e o questionar (SILVA, 2006, p. 143).
Trazer essa metodologia para o ensino de Geografia permite que o educador possa transformar a sala de aula em um ambiente favorável, sendo possível explorar recursos que favoreçam na aprendizagem e no interesse dos alunos, fugindo das aulas e atividades cotidianas que se tornam cansativas e pouca atrativas no decorrer do período letivo.
O material pedagógico produzido se torna em um mecanismo capaz de atrair atenção dos alunos e eficaz para o ensino, pois através dele é possível analisar, explorar, refletir sobre a realidade atual do assunto proposto e com o uso do material lúdico é possível obter esses objetivos além de ser possível abranger outras questões.
Almeja-se que o jogo se torne mais uma alternativa de material (elemento gerador) heurístico para o professor, pois permite ao aluno por meio de regras e métodos construir por si mesmo a descoberta, o conhecimento e dinamizar a aula, já que o jogo é uma atividade pelo prazer, ao passo que a atividade séria tende a um resultado útil e independe de seu caráter agradável. (PIAGET, 1964, p. 19).
O jogo proporciona a teoria e a prática e contribui na participação de todos discentes, sendo possível realizar análise e revisão do conteúdo proposto, tornando importante aliado e estimulo que favorece aprendizagem.
Para auxiliar na compreensão do tema, foi desenvolvido um material didático lúdico. Trata-se de um jogo de cartas (um cardgame), com os dados captados do Censo Agropecuário 2006 e do Censo Demográfico 2010, do IBGE, com foco na produção agropecuária dos municípios do estado do Espírito Santo.
O material foi desenvolvido para facilitar no entendimento do conteúdo, para que os alunos possam relacionar e identificar a real importância da agricultura camponesa a partir da comparação da situação socioeconômica do campo de municípios com estruturas fundiárias diversas, já que em geral os municípios com predomínio da agricultura camponesa tem melhores indicadores, tanto sociais quanto econômicos.
Descrição do Jogo:
O jogo da estrutura fundiária dos municípios do Espírito Santo. Jogadores – recomenda-se até 6 ou 7.
Peças – 78 cartas.
Figura 1- Carta de Representação do Jogo Didático.
Fonte: Acervo da autora (2019).
As cartas apresentam dados da estrutura fundiária e produção agropecuária de cada município do estado do Espírito Santo. Cada uma possui o mapa do estado, a localização do município no mapa, apresentam ao lado a bandeira e também o brasão do respectivo município. O nome do município é exposto logo abaixo das imagens, juntamente à estrutura fundiária do mesmo, que foi dividida em áreas ocupadas pelos imóveis conforme grupos de tamanhos, sendo elas: pequenas (de até 100ha), médias (+de 100ha a -500ha) e grandes propriedades (+500ha). Abaixo dessas informações estão localizados os atributos do jogo, com os valores da densidade demográfica da zona rural, número de empregos gerados para cada 100ha da área agropecuária, número do valor total da produção agropecuária e por fim o valor médio da produção agropecuária por hectare utilizado (Figura1).
As cartas contam com a estrutura fundiária dos municípios para que os alunos as associem que os bons indicadores estão relacionados às pequenas propriedades rurais. Desta forma, o aluno conseguirá associar e perceber que
quanto maior o percentual da área agropecuária do município ocupada pelas pequenas propriedades rurais, melhores serão os atributos da carta. Logo, a presença da estrutura fundiária na carta tem como objetivo induzir o jogador a seguinte relação: que o número do percentual das pequenas propriedades poderá levá-lo a vencer o jogo, pois se o município da carta tiver o predomínio de pequenas propriedades, automaticamente os atributos serão favoráveis para vencer a rodada e o jogo. Caso contrário, se outro jogador tiver uma carta com a estrutura fundiária concentrada, baseada em latifúndios, não terá chance nenhuma de vencer (a menos que as demais cartas daquela rodada tenham uma estrutura fundiária também muito concentrada).
Como exemplo, usaremos as cartas do município de Conceição da Barra, que possui uma estrutura fundiária concentrada de grandes propriedades, e do município de Domingos Martins, com predomínio de pequenas propriedades (Figura 2).
O jogo consiste nas seguintes etapas:
1. Formar um grupo com 6 ou 7 pessoas. 2. Embaralhar as cartas.
3. O jogador que embaralhou as cartas deverá distribuir 3 cartas para cada
jogador e deixar as demais em um monte ao centro do grupo.
4. Determinar quem irá iniciar o jogo, devendo as demais rodadas seguir em sentido horário ou anti-horário (a critério do grupo).
5. O jogador que iniciar a rodada deverá escolher qual carta irá jogar e qual
atributo ele vai utilizar: o atributo da densidade demográfica ou de empregos gerados a cada 100ha de área agropecuária, ou do valor total da produção agropecuária, ou valor médio da produção agropecuária utilizada. Os adversários também deverão escolher uma carta cada um.
6. Vence a rodada o jogador que possuir carta com o maior atributo
escolhido. O ganhador da rodada recolherá todas as cartas jogadas. 7. No fim de cada rodada os jogadores terão que recolher uma carta no
monte e prosseguir com o jogo.
ganhado o maior número de cartas vencerá o jogo.
Figura 2 - Representação dos Municípios de Conceição da Barra e Domingos Martins.
Fonte: Acervo da autora (2019).
Os círculos em vermelho demonstram os indicativos do tipo de estrutura fundiária que predomina em cada município. No quadrado em vermelho estão os respectivos atributos de cada um, deixando claro que quem ganharia essa rodada, em qualquer atributo, seria o município de Domingos Martins (carta da direita), com atributos claramente melhores.
O primeiro atributo de cada carta é a densidade demográfica da zona rural, que é a medida de habitantes por km² que vivem na zona rural. Este atributo é muito importante porque mostra a quantidade de pessoas que vivem naquela região. Portanto, se o atributo na carta mostrar uma grande quantidade de habitantes é então um indicativo de que o município apresenta permanência do campesinato
no campo, o que neste sentido é positivo. Se há pessoas vivendo no campo significa que existem meios delas viverem ali e conseguirem ter uma vida razoável, e por isso não optaram por migrar para áreas urbanas.
O segundo atributo descrito na carta é o número de empregos gerados para cada 100h da área agropecuária, que ratifica a ideia que a densidade demográfica trouxe. Esse parâmetro demonstra se de fato vai existir grande geração de emprego nas pequenas propriedades, maior que nas das cartas que possuem uma estrutura fundiária em que predomina o latifúndio. A figura abaixo apresenta os municípios de Pedro Canário e de Iconha e exemplificam a lógica desse atributo.
Figura 3 – Representação do Município de Pedro Canário e Iconha.
Fonte: Acervo da autora (2019).
O município de Pedro Canário (carta da esquerda) possui estrutura fundiária em que predomina o latifúndio e apresenta total de 1 emprego gerado a cada 100ha
dedicados à agropecuária. Já o município de Iconha (carta da direita), apresenta uma estrutura fundiária com predomínio de pequenas propriedades rurais e gera em média 9 postos de trabalho para cada 100ha dedicados à agropecuária.
O terceiro atributo descrito é o valor total da produção agropecuária. Neste ponto fica nítido a relação entre valor de produção e mercado. Se o município for marcado por atividades que tem alta geração de valor de mercado por unidade de área a tendência do valor de produção é ser alta. Se o predomínio do município for de atividades que geram pouco valor de mercado em função da área ocupada, a tendência da economia do ponto de vista agropecuário é ser muito baixa. Esse fato comprova a importância da agricultura camponesa praticada nas pequenas propriedades para a geração de renda e dinamização da economia local/regional.
O quarto atributo apresentado nas cartas é o valor médio da produção agropecuária por hectare utilizado, que mostra que as pequenas propriedades se dedicam às atividades que geram valor de mercado mais alto em função da área que elas ocupam. Diferente disso, o que o latifúndio produz só é viável em larga escala e isso ocorre porque o rendimento por área é muito baixo. Em sua maioria o latifundiário vive porque possui grande número de hectares, que é que torna viável as atividades por eles praticadas. A tabela abaixo deixa nítido esse exemplo, pois é natural do latifúndio produzir culturas que geram pouca mão de obra. Na Tabela 6, a soja, a cana, o milho e a pecuária representam os latifúndios, o restante são atividades típicas da agricultura camponesa, que possuem os maiores indicadores no valor da produção por hectare.
Tabela 3 – Valor da Produção Agropecuária por Hectare Média Nacional – Censo de 2006.
Atividade Valor da Produção (por hectare) -
Média Nacional Café Arábica Café Colinon Soja Limão Manga Pimenta Alho Batata Cana Feijão Mandioca Milho Tomate Pecuária 4.400 2.400 1.100 8.700 6.700 8.000 8.800 5.400 3.800 738 2.200 980 3.500 317
Fonte: IBGE. Censo Agropecuário 2006. Organizado por BERNARDO NETO,(2012).
Portanto, o foco do jogo didático é destacar a importância das pequenas propriedades rurais e da agricultura camponesa. Parte-se do pressuposto de que a partir da relação entre a estrutura fundiária e os atributos de cada município, os alunos entenderão a importância das pequenas propriedades para geração de emprego e renda e, desta forma, presumisse que eles entenderão automaticamente a importância da reforma agrária para o país: seria como pegar a carta de municípios como Mucurici, Pedro Canário e Ecoporanga e trocá-la pela carta de Santa Maria de Jetibá, por exemplo.
Exemplificaremos a seguir o jogo, usando nomes fictícios.
Suponhamos que na primeira rodada, a jogadora Ana usou a carta de Santa Maria de Jetibá, a jogadora Bruna a de Jaguaré, e o jogador Carlos a de Boa