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Feminua a busca pelo empoderamento feminino através da fotografia

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Academic year: 2021

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MILENA ABREU DE OLIVEIRA

FEMINUA: A BUSCA PELO EMPODERAMENTO FEMININO

ATRAVÉS DA FOTOGRAFIA

Salvador

2016.2

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Memorial de conclusão de curso de graduação em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia.

Orientação: Profa. Dra. Leonor Graciela Natansohn

Salvador

2017

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trabalho, e também a Ravena Maia, que contribuiu bastante para a construção e finalização do projeto, assim como Wendell Wagner, que participou da minha banca e contribuiu bastante para o enriquecimento do projeto.

Agradeço a todas as mulheres que conseguiram deixar de lado seus medos e suas preocupações a fim de me ajudarem com esse projeto. Esse projeto não teria sido a mesma coisa sem alguma delas.

Faço um agradecimento especial à minha tia Mercia Silva Abreu, que contribuiu imensamente para que eu pudesse concluir esse trabalho.

Às minhas melhores amigas, Vecchia e Helena Moura. que, além do apoio, me ajudaram a construir esse projeto.

Agradeço a Diego Santoro, que contribuiu com sugestões, inclusive em relação ao título. Aos meus colegas de faculdade, que enfrentaram tantas coisas junto comigo, principalmente Ailma Teixeira, Caíque Bouzas, Mariana Sales e MichElle Vivas.

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encontrados durante a pesquisa, o Feminua busca apresentar mulheres de várias etnias, tamanhos e idades, mostrando a diversidade feminina. As fotografias não possuem qualquer tipo de interferência na estética das participantes e suas participantes participam de forma ativa de todo o processo de construção das imagens. O projeto busca mostrar as mulheres de forma mais crua, ressaltando seus detalhes como parte de quem são. A narrativa do fotolivro é construída a partir da junção de fotografias resultantes de nove ensaios fotográficos com frases ditas pelas fotografadas. Observa-se que a insegurança e o medo iniciais das mulheres em serem fotografadas dão lugar ao amor próprio, à coragem de ousar e à aceitação de seus corpos, evidenciando uma evolução rumo ao empoderamento feminino.

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2.1 A BUSCA PELA PADRONIZAÇÃO E A IMPUREZA DOS CORPOS NÃO PADRONIZADOS...8

2.2A MULHER NA FOTOGRAFIA...9

2.2A REPRESENTAÇÃO DA MULHER EM PROJETOS FOTOGRÁFICOS...10

3. A FOTOGRAFIA E O ENSAIO FOTOGRÁFICO...24

3.1 A FOTOGRAFIA COMO ARTE...24

3.2 FOTOGRAFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA: CONCEITOS E TRANSIÇÃO...25

2.2.1 Fotografia moderna...25

3.2.2 Fotografia contemporânea...26

3.3 ENSAIO ARTISTICO OU AUTORAL...27

4. METODOLOGIA...28 4.1 DESCRIÇÃO DO PRODUTO...28 4.2 A ORIGEM DO PROJETO...28 4.3 AS FOTOGRAFADAS...29 5. A CRIAÇÃO DO FEMINUA...31 5.1 OS ENSAIOS...32

5.1.1 Ensaio com Helen Fernandes...32

5.1.2 Ensaio com Carolina Su...35

5.1.3 Ensaio com Laísa Gabriela...37

5.1.4 Ensaio com Amanda Brito...38

5.1.5 Ensaio com Malaika Kempf...41

5.1.6 Ensaio com Sandra Santos...42

5.1.7 Ensaio com Sandra Muñoz...44

5.1.8 Ensaio com Ana Vaneska...46

5.1.9 Ensaio com Pryscila Machado...47

5.1.10 Conclusões pós-ensaios...48 5.2 PRODUÇÃO FOTOGRÁFICA...49 5.2.1 Equipamento...49 5.2.2 Tratamento...49 5.2.3 Seleção...50 5.3CIRCULAÇÃO...50 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS...50 REFERÊNCIAS...51

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1. INTRODUÇÃO

Por meio deste memorial, busco traçar o percurso por mim percorrido desde a concepção do projeto intitulado Feminua: A Busca Pelo Empoderamento Feminino Através

da Fotografia, realizado no curso de jornalismo da Universidade Federal da Bahia, até as

considerações finais sobre os seus resultados. Partindo da análise de outros ensaios e com base nos referenciais teóricos adotados, descrevo e contextualizo todo o processo de desenvolvimento e criação do projeto Feminua e de seu tema. Descrevo também o fotolivro de ensaios Feminua, resultado de nove ensaios fotográficos realizados com mulheres de diferentes idades, etnias e características físicas.

As fotografias se organizam a partir de frases citadas pelas fotografadas ao longo dos ensaios e das entrevistas que foram realizadas. As primeiras declarações e reações das fotografadas revelam receios e dúvidas sobre suas relações com seus corpos e com a exposição deles. Contudo, à medida em que elas vão se envolvendo com os ensaios, essas declarações vão se tornando mais positivas, questionadoras, afirmativas, empoderadas. Consequentemente, assim se apresentam as mulheres nas imagens fotográficas.

As questões relacionadas ao feminismo e as críticas às formas como a mulher e seu corpo são apresentados pela mídia e pela sociedade vêm chamando cada vez mais a atenção das pessoas. Com essa discussão em pauta, tem havido um aumento de ensaios fotográficos femininos que debatem as questões do corpo da mulher, tanto em revistas, como a Trip e a

Playboy, como em projetos autorais publicados na internet, que, segundo seus autores,

buscam representar “mulheres reais”, como os projetos Ela Crua, Apartamento 302 e o A

Olho Nu.

Tem se tornado cada vez mais popular entre o meio artístico fotográfico representar imagens de mulheres nuas, sem o uso de photoshop, com o pretexto de que há uma busca pela autoafirmação de seus corpos e afirmação ao empoderamento feminino. Contudo, podemos notar que os ensaios, muitas vezes, acabam por se encaixar em determinados padrões, com cenários, poses e composições semelhantes, resultando em imagens que não exatamente retratam aquelas mulheres fotografadas, suas personalidades ou mostram um pouco de quem são. O que se percebe, pelo contrário, é que esses ensaios se tornam cada vez mais semelhantes entre si, criando, de certa forma, uma padronização dos ensaios.

O interesse pela fotografia de mulheres cresceu em mim por diversos motivos. Além de eu ter realizado outro projeto em que fotografava mulheres, há algum tempo já seguia o

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trabalho de alguns fotógrafos que realizam ensaios femininos, como o Jorge Bispo e o Alberto Prado. Por muitas vezes, senti-me incomodada com a forma como alguns ensaios que continuam a reproduzir diversos padrões, segundo os quais as mulheres apresentadas são magras, com corpos definidos e traços europeus. As fotografias costumam ser feitas em lugares muito parecidos, como dentro de casa ou entre plantas, e o discurso dos seus fotógrafos é sempre sobre estar mostrando “mulheres reais”. Contudo, a grande maioria dos ensaios, ao invés de buscarem representar a fotografada em si, sua personalidade, um pouco de suas características, são centrados em realizar fotografias que se importam apenas com a estética, sem muito significado além do que se vê a primeira vista.

Decidi como meta para esse projeto, portanto, criar um projeto fotográfico em que as mulheres tivessem as suas vontades representadas, onde pudessem participar como sujeito ativo. O Feminua convida suas fotografadas a se despirem de seus medos, de suas inseguranças e de qualquer dúvida em relação a seus corpos e suas imagens para revelarem um pouco sobre quem são, buscando construir e reforçar o amor próprio através da aceitação de sua imagem. O projeto quer dar voz a essas mulheres que, ao meu lado, podem fazer escolhas, tanto de ambiente, como de figurino e poses que consideram mais confortáveis. contribuindo para a construção de fotografias que consigam representar um pouco do que são. A concepção do projeto Feminua partiu da construção de um projeto do qual participei anteriormente e de pesquisas feitas durante o semestre 2016.1 de COM 166, matéria de Elaboração de Projeto em Comunicação. Os ensaios começaram a ser realizados a partir de Julho de 2016 e terminaram em Janeiro de 2017. Contudo, os tratamentos e escolhas das fotos apenas foram realizadas a partir do mês de Novembro de 2016, quando a maioria dos ensaios já haviam sido realizados, e a montagem do livro em Janeiro de 2017, após a conclusão de todos os ensaios.

Por conta da grande quantidade de ensaios e da dificuldade de locomoção, as fotos foram tiradas apenas na cidade de Salvador. Todas as fotografadas residem em Salvador, contudo, são de diferentes classes sociais, profissões e etnias. A escolha das fotografadas foi de forma bem natural, em alguns casos elas vieram se oferecer, em outros, foi através da indicação de alguma conhecida.

O fotolivro busca, portanto, representar as oito mulheres participantes, contemplando sua diversidade, a fim de que suas leitoras se sintam representadas e seus leitores reconheçam nas imagens as características de cada mulher que nele aparece, seja esta sua amiga, mãe, conhecida ou aquela a quem passam a conhecer. É importante, portanto, perceber cada

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elemento que compõe as imagens, pois eles se misturam entre as escolhas da fotógrafa com as de suas fotografadas, contando histórias que vão muito além do que se vê à primeira vista.

2. CONSTRUÇÃO DO PADRÃO DE BELEZA E SENSUALIZAÇÃO DO CORPO FEMININO PELA MÍDIA

Quando falamos da relação mulher e corpo, logo somos levados a pensar nas questões da estética, da beleza e da sedução. Apesar de ser antiga essa construção de um padrão feminino, esse pensamento sobre um padrão idealizado de beleza, principalmente feminina, ganhou uma maior força e homogeneidade com a massificação da mídia, pela qual o corpo feminino vem sendo utilizado mídia como forma de convencer e persuadir o público ao consumo.

Dessa maneira, a mídia tornou-se responsável por influenciar os desejos e frustrações das mulheres, que começaram a se comparar com as modelos e famosas e passaram a desejar ser como elas. Contudo, é preciso entender que a mídia, para a construção de seus padrões e imposições, se baseia na sociedade. Segundo Nestor Persio Alvim Agrícola, “os padrões estéticos que se constituem não se fazem de forma espontânea, mas estruturados na vida existente, nas realidades sociais que se encontram presentes no tempo e no espaço” (AGRICOLA, 2011, p. 164). Portanto, essa construção midiática compartilha dos pensamentos estéticos, sociais e econômicos formulados pela própria sociedade.

A TV, os jornais, as revistas, o cinema e, agora, a internet são responsáveis por enviar informações para as pessoas e acabam por criar conceitos e ditar valores, moldando pensamentos e comportamentos e ditando como deve ser o mundo real. Nesse contexto, as imagens e, portanto, a fotografia, servem como forma de ilustrar esse mundo construído pela mídia.

Com o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, a ditadura da beleza veio como forma de substituir a obrigação da mulher de ser dona de casa pela obrigação de manter-se dentro dos padrões estéticos impostos pela sociedade, abrindo espaço para o mito da beleza atuar de forma mais significativa. Segundo Naomi Wolf, “à medida em que as mulheres se liberaram da mística feminina da domesticidade, o mito da beleza invadiu esse terreno perdido, expandindo-se enquanto a mística definhava, para assumir sua tarefa de controle social.” (WOLF, 1992, p. 12). Portanto, a indústria vê nessa nova mulher uma forma de lucro e a objetifica, utilizando os padrões de beleza para criar uma busca constante das mulheres por produtos que as mantenham jovens e belas a longo prazo.

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Grande parte dessa criação de uma imagem padrão a ser alcançada, portanto, está associada à questão da indústria, venda de produtos e ao capitalismo. A base dessa construção imaginária do ideal feminino é pensada a partir de uma visão masculina e machista sobre esse ideal, como já dito antes, que acaba sendo aceita tanto pelos homens como pelas mulheres. Essa criação masculina tornou-se coletiva, pois, apesar de moldada através do imaginário da mulher perfeita de acordo com a visão masculina, essa visão acabou sendo enraizada e, de certa forma, aceita pela sociedade.

2.1 A BUSCA PELA PADRONIZAÇÃO E A IMPUREZA DOS CORPOS NÃO PADRONIZADOS

Com a padronização da beleza feminina e o estabelecimento de uma beleza padrão “ideal” e “perfeita”, torna-se cada vez mais visível que muitas mulheres que não fazem parte desse padrão esperado pela sociedade acabam sendo consideradas feias, inferiores, com uma estética “imprópria”. Seja por estarem acima do peso “ideal”, seja por não apresentarem o tom de pele claro, cabelos lisos, altura, entre outras características reconhecidas como “belas” pela sociedade e pela mídia, tais mulheres são excluídas em representações imagéticas, não tendo suas características representadas pelos meios de comunicação, senão de forma negativa, como algo que precisa ser mudado. Afinal, como diz Sibilia,

Todas as culturas possuem um certo ideal de “corpo belo”, que dissemina seu cânone e propaga uma “normalização” da população em torno dessa proposta ideal. Na sociedade contemporânea, entretanto, tal modelo parece se impor de maneira cada vez mais opressiva e generalizada, investindo os corpos e as subjetividades com uma potência inédita. A força incomum desse imperativo na época atual decorre, sem dúvida, da importância que vem ganhando o mercado das aparências. Cada vez mais, a subjetividade parece se ancorar na exterioridade da pele, nos sinais visíveis emitidos por um corpo que rivaliza constantemente pela captação dos olhares alheios em um mundo saturado de estímulos visuais. (SIBILIAa, 2004, pg. 70).

A falta de reconhecimento de si próprias diante da mídia acaba por gerar, consequentemente, o apagamento dessas mulheres diante da sociedade, tornando-as esquecidas, excluídas ou até mesmo humilhadas, desprezadas e desvalorizadas em ambientes sociais ou de empregos.

Muitas dessas mulheres “fora dos padrões” acabam por viver em uma constante busca por alcançar a perfeição mostrada na mídia, empreendendo grandes esforços em relação a sua alimentação, ao uso de produtos diversos e até mesmo a quantidades exageradas de exercícios físicos. A essas mulheres é vendida a ideia de que é através de muito esforço e dedicação que elas conseguirão alcançar o corpo desejado e, consequentemente, a felicidade,

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diretamente associada ao “embelezamento” dos seus corpos. Contudo, como é dito por Siqueira e Faria (2007), o interessante para a mídia não está em mostrar o espetáculo de sofrimento e dificuldades enfrentados por essas mulheres para conquistar esse ideal, mas, sim, o espetáculo resultante desses esforços, as transformações possíveis às quais podem chegar, as conversões que seus corpos realizam. Ou seja, o espetáculo está na conversão desse corpo ao modelo que segue implementado pela mídia e pela sociedade.

Dentro dessa cultura de consumo em que o corpo é o foco principal, ele serve, também, como forma de exclusão, uma vez em que aqueles que não se encaixam nos padrões estabelecidos estão infringindo as regras e indo em direção oposta ao que se espera de um corpo feminino ideal. Fontanella (2005) explica que a exclusão se dá uma vez em que aqueles que fogem da concepção estética estabelecida como o correto, e de seus estereótipos, acabam sendo colocados em situações de extremo constrangimento, principalmente pela mídia.

2.2 A MULHER NA FOTOGRAFIA

Em ensaios fotográficos produzidos pela grande mídia, dificilmente são encontradas imagens e fotografias de mulheres que estão fora das características padrões desejadas. As construções fotográficas serão voltadas para o ideal de “perfeição” criado. Para fugir das “imperfeições”, serão utilizadas pelas mulheres formas exageradas de dietas e atividades físicas em busca do chamado corpo “fitness”, mostrado pela mídia e buscado por todos que procuram alcançar a perfeição. Em muitos casos, serão utilizados bisturis reais, que farão aplicações e mudanças nos corpos de homens e, principalmente, de mulheres, a fim de atingirem os seus ideias através das cirurgias plásticas.

No caso das imagens, para construir essas pessoas perfeitas, serão utilizados diversos programas que abusam de forma bastante exagerada da tecnologia de edição de imagens para fazer alterações nos corpos apresentados. Em revistas, propagandas e qualquer outro grande conteúdo produzido pela mídia, mesmo as mulheres famosas, conhecidas como ideais de beleza, sofrem alterações em seus corpos. Isso é feito com a utilização desses efeitos e manipulações, que criam nas imagens um nível de “pureza” extremo, apresentando corpos impossíveis de serem atingidos com tamanha “perfeição”. Segundo Paula Sibila,

Esse intenso “amor pelo liso, pelo polido” aplicado ao próprio corpo encontrará sua inspiração e seu máximo esplendor em um tipo bem específico de pureza: aquela que emana das imagens digitalizadas. Pois esse modelo corporal fat-free que está se espalhando nas culturas aglutinadas pelo mercado global parece se aproximar, cada vez mais, de um ideal de pureza digital. Não é por acaso que programas de edição gráfica como o Photoshop desempenham um papel fundamental na construção das

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imagens publicitárias e midiáticas que expõem “corpos belos”, e que constituem uma poderosa fonte de imagens corporais no mundo contemporâneo. Com esses bisturis de software, todos os “defeitos” e outros detalhes demasiadamente orgânicos presentes nos corpos fotografados são eliminados, retocados ou corrigidos na tela do computador. Assim, as imagens expostas no mercado de produtos, serviços e aparências aderem a um ideal de pureza digital, longe de toda imperfeição toscamente analógica e de toda viscosidade orgânica demais. (SIBILIA,2006).

Paula Sibilia (2006) chamará o uso dessa tecnologia que transforma e altera corpos de bisturi de software, por fazer modificações digitais nos corpos das pessoas fotografadas, assim como o bisturi cirúrgico, a fim de retirar qualquer característica que não se encaixa no ideal construído (como gordura, celulite, espinhas, entre outras coisas). Dessa forma, as imagens conseguem fugir ao máximo possível da possibilidade de mostrar as diversidades do corpo feminino, consideradas como defeitos, buscando uma pureza corporal aliada a uma beleza digital.

2.2 A REPRESENTAÇÃO DA MULHER EM PROJETOS FOTOGRÁFICOS

Com o crescimento e a força das imagens diante da nossa sociedade, a mulher acabou sendo transformada em simples objeto, moldada em um estereótipo idealizado a fim de servir como atrativo para a venda de produtos e como forma de exibição para agradar a sociedade. Apesar de homens e mulheres estarem sujeitos às questões da estética e do padrão, o número de ensaios fotográficos femininos exibidos em revistas e internet é muito maior e mais comum do que o de homens, assim como o uso do photoshop e as alterações no corpo são utilizadas de forma muito mais intensa, aceitas e até consideradas comuns nas fotografias femininas.

Outra característica comum de ser encontrada ao se observar diferentes ensaios femininos é a composição da fotografia, que costuma ser planejada em seus mínimos detalhes e é voltada para contribuir com a imagem de sensualização das mulheres. Segundo Barthes, a fotografia se constitui como componente da cultura de massa ao ser utilizada como reprodutora de imagens. Destinada à massa da população, ela carrega significados socialmente estabelecidos, como mensagens que adquirem sentido em um contexto específico. A fotografia é detentora de grande poder para formar comportamentos, uma vez em que se considera o emissor e receptor da mensagem como um dos elementos que a compõem. Desta forma, diversos meios se utilizam da fotografia para representar ideais de beleza femininos.

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Como grande exemplo de objetificação e produção imagética da mulher sensualizada, temos a revista Playboy. As fotografias da Playboy, como é explicado por Agrícola (2011) em sua análise sobre a revista, são planejadas em cada detalhe para a composição de uma imagem sensual e “atraente”. O ambiente, os objetos, a roupa, a posição das modelos, tudo que compõe a imagem é voltado para a construção de um mesmo significado.

De acordo com sua análise sobre a Playboy, reconhecemos diversos elementos em comum utilizados nas imagens para o mesmo propósito de sensualizar e impulsionar o imaginário e as fantasias masculinas. As mulheres são colocadas com roupas, acessórios e ambientes temáticos que as fazem variar entre imagens femininas inocentes, porém sensuais, ou de mulheres “provocativas”, em posições mais sexualizadas e envolvendo elementos como danças exóticas ou climas tropicais, criando uma fantasia de mulher ousada e bastante erotizada. Enfim, as imagens buscam atender aos diversos ideais de mulheres “perfeitas” construídos pelo homem, mulheres que seriam capazes de ser boas, ou independentes, entre outras características, mas, acima de tudo, que estão ali para servir e alimentar os prazeres sexuais masculinos.

Contudo, as revistas voltadas para o público feminino, assim como algumas voltadas para o masculino, mas que não são consideradas eróticas, como a Trip, vêm tentando reformular os conceitos dos ensaios femininos. Provavelmente esse antigo formato de nudez completa e, de certa forma, apelativa, que os ensaios da Playboy apresentavam, não estava mais chamando atenção e vendendo como antes, uma vez em que os conceitos de sensualização, hoje, estão descartando a exibição do corpo nu por completo, algo que tem sido visto como banal por ser fácil de ser encontrado. Cada vez mais, pelas imagens novas de ensaios que podemos observar em revistas como a Playboy e a Trip, essa sensualidade é encontrada na forma como o corpo nu é apresentado, com poses similares entre os ensaios, em que elas lidam com cadeiras, ou camas, entre outros elementos, assim como a forma como seus olhares e expressões são conduzidos, as vezes direto para a câmera, encarando-a, ou o olhar desviado, mas ainda com uma expressão de certo prazer e sensualidade.

Nos Estados Unidos, o conselheiro executivo da revista Playboy, Scott Flanders, justificou o fim da nudez como uma imposição da internet. Segundo ele informou ao jornal The New York Times, com "apenas um clique já há acesso livre a qualquer imagem sobre sexo”. A justificativa da Playboy, portanto, seria a de que a revista continuaria publicando imagens de mulheres “com poses provocativas”, ou seja, com poses que supostamente incitam

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homens e são consideradas sensualizadas, contudo, não mais mostraria mulheres em “nu integral”.

Para ser sensual e interessante, segundo a nova lógica desses ensaios, não basta o corpo estar nu, mas a forma como esse nu é apresentado precisa ser diferenciada para voltar a chamar a atenção. Podemos perceber que o corpo aparece com certas regiões encobertas, de maneira que se consiga transmitir uma ideia de “provocação” e de sensualidade. Percebemos isso, por exemplo, na comparação de como era a capa da Playboy antes de ser reformulada e como ela é agora:

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Capa da Playboy Junho de 2012 EUA

As imagens acima permitem-nos perceber que as capas antigas da Playboy eram mais apelativas, além de exporem mais o corpo das mulheres apresentadas. Contudo, em todas é possível notar um alto nível de sensualização das mulheres, colocadas em posições consideradas “sexy”, “provocativas”, intenções da revista como dito pelo próprio CEO da revista. Em todas, a mulher é colocada como um objeto para ser apreciado pelo homem,

Partimos, então, para a análise de fotografias produzidas pela revista Trip, que se mostra não como uma revista que realiza ensaios artísticos sensuais de nu feminino. Apesar de exibir imagens de mulheres nuas, a ideia de ser uma Trip Girl, como são chamadas as mulheres que são fotografadas pela revista, não é encarada da mesma forma pejorativa como o é uma modelo da Playboy. Mesmo mostrando mulheres nuas em imagens semelhantes às da nova Playboy, a justificativa dessas imagens é a construção estética diferenciada que é dada pela revista. São escolhidas mulheres que possuem carreiras de sucesso e têm suas vidas apresentadas em detalhes junto às fotografias.

A objetificação da mulher é camuflada pelas imagens que buscam mostrar não apenas um corpo nu, mas, também, toda uma construção sobre quem é aquela mulher apresentada, misturando-se arte e beleza, sendo a nudez um detalhe a mais para que o interlocutor se sinta ainda mais íntimo daquela mulher. Não são usados somente ensaios com mulheres famosas, mas com “todo” tipo de mulher. Digo “todo” porque, apesar de a Trip

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tentar variar, grande parte das mulheres faze parte do padrão estético estabelecido pela mídia: a maioria tem cabelos lisos, corpos magros e definidos.

Segundo a própria revista diz em seu site,

[...] a Trip não fotografa apenas mulheres nuas. Nós registramos gente de carne e osso, com suas rotinas, hábitos, paixões, frustrações e desejos. E são elas que falam isso. Foram elas que nos apresentaram seus sucessos, frustrações, sonhos, desejos, qualidades e defeitos. Com elas visitamos praias paradisíacas e conhecemos a intimidade de quartos, casas e hotéis alheios. As Trip Girls existem desde o início da Trip, há 30 anos. Cada uma delas, ao se verem estampadas em uma capa de revista, tiveram sensações que vão da liberdade e busca por autoestima, passando pela insegurança e curiosidade. (Redação Revista Trip 8.09.2016)

Com isso, a revista cria uma intimidade com as fotografadas e constrói uma noção de estar mostrando a mulher com intimidade para o seu próprio prazer e não de estar invadindo seu espaço e seu corpo. Contudo, quando observamos as imagens apresentadas, podemos perceber características de poses, composições e elementos muito semelhantes aos encontrados em fotografias de revistas como a Playboy.

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Ensaio de Mara Gabrili para a Revista Trip

Ensaio de Ilka Cyana para a revista Trip

Podemos perceber um certo padrão nas fotos: as expressões das mulheres são sempre bem parecidas, variando entre estarem sorridentes e olhando para o lado ou para baixo, estarem com um meio sorriso, vendido como algo “sexy” ou estarem sérias, com a boca meio aberta. Em todos os ensaios, há pelo menos uma foto em que a mulher fotografada está encarando a câmera de forma considerada “provocadora”, como é visto em outros ensaios. Apesar de todo o discurso apresentado pela revista Trip, que se diz moderna e inovadora, a construção das suas imagens não difere muito da construção das imagens de revistas como a

Playboy, pois elas seguem uma fórmula de poses, olhares, expressões e composições (roupa,

ambiente, acessórios) bastante similares e perfeitamente encaixáveis ao ideal planejado e criado pela mídia, conforme podemos observar na comparação dasimagens abaixo:

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Ensaio para a revista Trip

Ensaio de Nara Costa para a revista Playboy

Saindo do universo das revistas e indo para produções mais independentes de fotógrafos amadores ou profissionais, é possível encontrar tipos diferentes de projetos sobre corpos femininos. Grande parte desses projetos ainda é de fotógrafos homens, mas isso não define a construção das imagens como fotografias objetificadas sobre as mulheres, uma vez que ensaios construídos por fotógrafas mulheres também podem trazer esse significado. Além disso, os ensaios sobre mulheres encontrados são na maioria das vezes de nu ou seminu. É

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muito difícil encontrar projetos sobre mulheres e empoderamento feminino em que essas estejam vestidas.

Contudo, infelizmente, grande parte dos ensaios ainda é resultante da “fórmula” padrão vendida pela mídia, ainda que muitos deles preguem uma argumentação de serem ensaios inovadores, voltados para as próprias mulheres e para a construção e melhoria de suas autoestimas. Grande parte ainda apresenta apenas mulheres dentro do padrão, assim como a maioria ainda vende imagens de mulheres em poses consideradas sensuais, em ambientes voltados à ideia do que é ser feminino e sexy, fotografando essas mulheres em apartamentos, camas, sofás, cadeiras, ou então em ambientes de natureza como praias ou florestas, com poses prontas e a ideia do “carão” (uma expressão forte e marcante), do olhar, da expressão “sensual”. Além disso, a maioria dos ensaios é de mulheres nuas, pois, além de ter se tornado, de certa forma, moda e de ser uma forma de chamar atenção, ainda é entendida a ideia de que, para a mulher se representar por completa, e para a fotografia ser mais facilmente bela, o corpo feminino precisa ser amplamente explorado. Muitos ensaios acabam parecendo, portanto, com editoriais de moda ou com ensaios sensuais de revistas.

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Ensaio do projeto Ela Crua

Em muitos ensaios, o resultado não termina como algo sensual, mas acaba resultando em um outro problema: a ideia de que um ensaio de mulheres precisa ser construído sobre a percepção do que é ser feminino. Dessa forma, o universo feminino nas imagens acaba se resumindo a uma construção de que precisa ser delicada, deve estar entre a natureza, ou, quando em casa, deve estar apresentada de forma meiga ou sensualizada.

As fotos acabam por se resumir em uma fórmula comum, segundo a qual não importa a mulher que está presente nas imagens: basta ser mulher que uma foto no meio da natureza fará sentido. Podemos ver esse padrão, por exemplo, nas seguintes imagens de diferentes mulheres, feitas por diferentes fotógrafos:

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Ensaio do projeto Nu Real

Ensaio do projeto Ela Crua

Fica clara a concepção de que o belo e o feminino são uma junção do corpo feminino com a natureza. Isso é mostrado pelas imagens como algo natural, mesmo se a mulher fotografada nada tenha a ver com esse ambiente. Contudo, a padronização nessas fotos, assim como nas anteriormente apresentadas, não está somente no ambiente. Podemos perceber que a forma como as modelos se portam nas imagens e as posições em que se encontram são muito semelhantes.

Obviamente, semelhanças entre fotografias são inevitáveis, pois, com a quantidade de fotos produzidas na atualidade, é muito difícil ser completamente original em poses e

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figurinos. Contudo, em diversos ensaios, grandes semelhanças são muito comuns, o que nos faz perceber que não se trata apenas de uma mera coincidência, mas, sim, de um padrão já organizado e percebido como algo que dará certo. Por exemplo: nas fotografias que mostram mulheres sentadas em cadeiras as mulheres estão completamente nuas ou seminuas, com seus olhares voltados para baixo e com o corpo posicionado de forma a ser visto como sensualizado, e, ao mesmo tempo, delicado e “sexy”.

Nas imagens que exploram a natureza, podemos perceber que a mulher é colocada entre as plantas. Em todas, podemos ver que há uma tentativa de não mostrar o rosto da fotografada por completo, o que contribui para a ideia de mostrar um certo “mistério”, uma “sensualidade natural” das mulheres.

O projeto Ela Crua, de Alberto Prado, é um dos muitos projetos que existem hoje com a intenção de apresentar fotografias das mulheres “como elas são”. Em um workshop que participei realizado em Salvador com o criador do projeto, Alberto Prado, conta que a intenção é a de fotografar a real beleza das mulheres, de forma natural e sem sensualizá-las, mostrando todo tipo de mulher. Apesar de mostrar uma certa diversidade de mulheres, a prevalência das imagens ainda são mulheres magras e brancas.

Contudo, o que realmente chama a tenção no projeto é que, por mais bonitas que sejam as imagens, é inegável que todos os ensaios, não importa qual modelo seja, passam uma certa impressão de sensualização das mulheres. As escolhas da grande parte das poses, ângulos e composições escolhidas pelo fotógrafo não fogem muito do que já vem sendo produzido em ensaios femininos e , apesar de muito belas, muitas acabam caindo em um certo clichê.

Muitas das imagens são bastante parecidas entre sí, no quesito da composição em geral, o que faz imaginar que não existe uma personalidade das fotografas sendo mostrada, ou o menor tipo de tentativa de apresentar uma história, apenas serem imagens bonitas que poderiam ser feitas com qualquer mulher.

O projeto Apartamento 302, do fotógrafo Jorge Bispo, é um exemplo de projeto que traz fotografias mais naturais e espontâneas das mulheres. Apesar de estarem todas colocadas em um mesmo ambiente ou, mais precisamente, no mesmo cenário, que é a parede do apartamento, podemos perceber a singularidade de cada mulher fotografada.

Mesmo que a fórmula das fotografias seja bem simples, o resultado se dá pela forma como o ensaio é conduzido. As mulheres, que são convidadas a ir tirando a roupa durante o ensaio, também têm a liberdade de se posicionar e se colocar da forma como querem aparecer. Além disso, elas dão depoimentos sobre suas relações com o corpo e a nudez.

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Ensaio do projeto Apartamento 302

Ensaio do projeto Apartamento 302

Pelas imagens apresentadas, é possível perceber a naturalidade das mulheres e as suas possibilidades de escolha durante a sessão. Cada uma delas se coloca de uma forma, com expressões que parecem particulares, com colocações corporais diferentes umas das outras. Podemos ver que há uma expressividade das fotografadas sendo posta para fora, assim como

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escolhas do fotógrafo de momentos a serem fotografados, que pareçam mais espontâneos e únicos de cada fotografada.

Nesse projeto, podemos ver um ensaio mais característico e que busca, de fato, mostrar a pluralidade feminina. Mesmo estando nuas, a nudez não é o único aspecto que se destaca nas fotografias. Ganham também destaque suas expressões, suas poses, o que as mulheres, por si mesmas, transmitem nas imagens.

O fotógrafo Pedro Fonseca tem o projeto A Olho Nu, o qual se destaca pela naturalidade que consegue trazer em suas fotos. Apesar de fotografar em ambientes muito parecidos com os já utilizados pelos demais fotógrafos, ele se destaca pelas escolhas estéticas do fotógrafo, a naturalidade e a espontaneidade apresentadas pelas participantes.

Ao contrário de muitos projetos, o nu feminino não se torna sensualizado, muito menos é o que mais chama atenção nas fotografias. O que se destaca é a capacidade de Fonseca perceber detalhes e a tranquilidade que ele consegue transmitir às modelos fotografadas, que lhe são desconhecidas mas que não deixa transparecer nas fotografias apresentadas.

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Ensaio do projeto A Olho Nu

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Ensaio do projeto A Olho Nu

Podemos perceber que não há uma preocupação com a construção de mulheres idealizadas nas imagens. Por exemplo: as mulheres não estão com suas posturas eretas, muito menos estão posando diretamente para a câmera ou parecendo se preocupar com ela. É possível perceber movimento nas imagens e uma sensação de esquecimento por parte das mulheres de que há um fotógrafo ali. Dessa forma, as fotografias mostram as mulheres de forma mais natural, espontânea, trazendo uma beleza mais sincera nas imagens.

Por meio dessas imagens, é possível perceber tranquilidade e uma certa despreocupação das mulheres em relação a se fazerem belas ou perfeitas. Uma vez que não há a preocupação em mostrar somente o rosto das fotografadas, mas seus detalhes, seus corpos por completo e tudo o que as faz serem quem são, a identificação não se faz pelo rosto apenas, mas de forma ampla, em que percebemos a beleza de cada mulher nos mínimos detalhes que são apresentados.

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3. A FOTOGRAFIA E O ENSAIO FOTOGRÁFICO

O capítulo a seguir pretende abordar os principais instrumentos teóricos que fundamentaram a construção deste trabalho. Em sua extensão, será dividido em duas partes: a primeira, trará um resumo histórico acerca da fotografia e sua importância para a construção do mundo moderno, abordando suas principais teorias, conceitos e a transição da fotografia moderna para a contemporânea; em seguida, será trabalhado o conceito de ensaio e os motivos do projeto ser apresentado através de ensaios que, juntos, formam o fotolivro apresentado.

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A primeira fotografia reconhecida na história da humanidade data de 1826 pelas mãos do químico francês Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) durante a Revolução Industrial, período de significativas mudanças na forma de processamento das informações e do tempo. A partir desse momento, o mundo tornou-se capaz de acompanhar o significativo aumento da velocidade de produção e transmissão de informação. Em resumo, a fotografia surge da necessidade moderna de registrar e documentar, com rapidez, os acontecimentos vividos ao redor do mundo, fortemente impactado pelas mudanças de paradigma da história atual.

Desde o seu invento, a fotografia passou por mudanças e foi se aperfeiçoando com o tempo. Em 1839, surgiram os primeiros esboços do que conhecemos hoje como as câmeras fotográficas, os quais ganharam o nome de daguerreótipos. Posteriormente, surgiram os primeiros negativos fotográficos, chamados de calótipos. Em 1858, os daguerreótipos foram substituídos pela fotografia instantânea e, somente em 1880, vieram as câmeras portáteis de mão e o filme em rolo. Com a fundação da Kodak em 1888, por George Eastman, a fotografia passou por um processo de popularização e acessibilidade, incentivando a produção de câmeras leves, portáteis, de fácil manuseio e baixo custo. A criação da fotografia digital veio, posteriormente, como forma de impulsionar ainda mais esse processo de popularização.

Com a democratização da fotografia no decorrer dos últimos anos, grandes mudanças passaram a ser notadas em relação a sua funcionalidade e suas técnicas de uso. A fotografia, que inicialmente era associada a uma forma de documentação baseada na crença de sua reprodução exata do real (DUBOIS, 1990), passa a ser colocada em questão a partir do momento em que se torna necessária a notoriedade de que o valor documental das imagens varia de acordo com a recepção que as imagens estão tendo, estas, influenciadas por crenças pre-existentes a respeito do conteúdo apresentado.

Em um mundo onde a informação e o conhecimento se constituem como os bens de maior valor para a humanidade atual (CASTELLS, 2003), a fotografia surge como uma necessidade dessa nova Era (traduzida por Castells como a Era da Informação). Com o declínio do valor documental das imagens, resultado de uma maior preocupação com a quantidade de informações transmitidas e repassadas em detrimento da qualidade em si, a “fotografia-expressäo” ou autoral surge em resposta a esse novo contexto mundial em que vivemos hoje.

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3.2 FOTOGRAFIA MODERNA E CONTEMPORÂNEA: CONCEITOS E TRANSIÇÃO

2.2.1 Fotografia moderna

Historicamente, a influência dos movimentos modernistas, em especial das vanguardas europeias, trouxeram diversas mudanças para o contexto artístico mundial por volta dos anos 20. A estética da fotografia, em especial, foi redefinida, deixando de lado o tradicionalismo e marcando o início do movimento pictorialista.

Sobre o Pictorialismo, Fabris (2011) afirma que este buscou “defender seu movimento como arte independente e propor novas possibilidades de promoção” (FABRIS, 2011, p.32) através de técnicas como a manipulação do negativo. Ou seja, os pictorialistas acreditavam que a fotografia era capaz de conter o mérito artístico tanto quanto uma pintura e, ao pé da letra, expressavam o desejo de “se fazer pintura” através das fotos. Leite (2014) esclarece que:

“A emancipação da fotografia ocorre no momento em que esta deixa de ser mero instrumento de registro da verossimilhança e passa a ser um meio para que o fotógrafo ou mesmo o produtor da imagem técnica exteriorize de maneira clara e objetiva a sua real visão de mundo e de si mesmo. (LEITE, 2014, p. 211)

Em resumo, com um movimento massivamente romântico e funcional, a fotografia moderna estava ligada à estética cognitiva (SCHAEFFER, 2012) e à formalização do visual como expressão autônoma de cada artista envolvido através da variação de ângulos, filtros, iluminação, etc. (EDWARD WESTON, 1980).

3.2.2 Fotografia contemporânea

A forma como se deu a transição entre a idade moderna e o início da era contemporânea ainda é motivo de debates ao redor do mundo. Mais do que um período histórico, no caso da fotografia, essa transição ocorreu da seguinte forma: a fotografia contemporânea veio para questionar seus próprios limites e expandir seu espaço dentro da arte (CAUQUELIN, 2005). Ou seja, a fotografia contemporânea rompe com todo o tradicionalismo do pré-modernismo e, ao mesmo tempo, rompe com a ideia de protagonismo

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da representação do real e do cotidiano, características do modernismo do século XIX. Para Bracchi, “O que parece se modificar quanto à produção fotográfica anterior diz respeito às formas de produzir sentido e às estratégias enunciativas empregadas, de modo a repropor o papel do enunciatário e de seu fazer interpretativo diante desses textos visuais” (BRACCHI, 2014, p. 47).

A renovação de paradigmas e de linguagem e estética da fotografia contemporânea surge através de cada imagem. Agora, o cotidiano deixa de ser o protagonista e passa a ocupar um espaço como estratégia de experiência, enquanto a expressão autoral, o individualismo e a unicidade de cada fotógrafo e artista ocupam o papel principal.

3.3 ENSAIO ARTISTICO OU AUTORAL

Inicialmente, é importante deixar claro que o conceito de ensaio vem da literatura. Segundo Machado,

[…] Toda reflexão sobre o ensaio, entretanto, sempre pensou essa “forma” como essencialmente “verbal”, isto é, baseada no manejo da linguagem escrita, mesmo que a relação do ensaio com a literatura seja, como vimos, problemática. [...] Embora teoricamente seja possível imaginar ensaios em qualquer modalidade de linguagem artística (pintura, música, dança, por exemplo), uma vez que sempre podemos encarar a experiência artística como forma de conhecimento [...]. (MACHADO, 2002).

Sobre ensaio fotográfico, Parente e Fiuta (2008), em O conceito de ensaio

fotográfico, conseguem perpassar quase toda a história do fotoensaio. Resumidamente,

as autoras abordam suas características, os conceitos usados e seu surgimento no decorrer da história. Para o desenvolvimento do trabalho, é importante ressaltar a seguinte parte do texto:

É através do ensaio que o fotógrafo pode expressar com mais intensidade sua visão sobre determinado tema, e é importante que se sinta a singularidade que a presença do ponto de vista do autor permite ao trabalho. Ao mergulhar em um ensaio o autor se vê inserido em um processo que exige muito mais que a captura de imagens. Exige uma reflexão sobre a conexão entre estas imagens, sobre a edição que melhor pode expressar sua intenção no trabalho (tendo assim mais efeito que a

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simples exposição de tudo que se pode revelar a respeito do assunto em questão) e sobre a apresentação que seja mais eficiente para tocar o outro, seu apreciador” (PARENTE, FIUTA. 2008, p. 171)

Segundo Beatriz Cunha e Cristiana Parente (2008), é através do ensaio que o fotógrafo pode expressar com mais intensidade sua visão sobre determinado tema, e é importante que se sinta a singularidade que a presença do ponto de vista do autor permite ao trabalho. Há uma reflexão sobre a conexão entre as imagens apresentadas, a edição que melhor expressa a intenção do autor com o trabalho e a melhor forma de apresentar.

Foi a partir desses conceitos que resolvi utilizar o ensaio como forma de expressão das minhas fotografias. A junção das fotografias das mulheres representa o tema do empoderamento feminino e a relação da mulher com o seu corpo. A conexão das imagens é desenvolvida ao longo do ensaio, através da evolução das mulheres de um capítulo ao outro, em que elas vão cada vez mais se mostrando mais confortáveis e felizes com as imagens. Os ensaios de mulheres que foram fotografadas em momentos, ambientes e contextos diferentes são unidos por uma mesma intencionalidade, representação e significados dessas imagens.

As fotografias se unem em um ensaio que pretende abordar as mulheres e suas relações com seus corpos e com o ser mulher diante de uma sociedade patriarcal e machista, expondo seus medos, suas frustrações, mas também suas lutas e suas buscas pelo empoderamento feminino. A construção das fotografias, as formas como elas se relacionam com as frases, umas com as outras e em um conjunto total, resulta em um ensaio fotográfico que pretende debater as questões da mulher em relação ao ser mulher diante da sociedade.

4. METODOLOGIA

4.1 DESCRIÇÃO DO PRODUTO

O livro do Feminua apresenta ensaios fotográficos que foram transformados em um fotolivro. Foram fotografadas 9 mulheres, que se ofereceram para participar do projeto e que possuem diferentes idades, etnias e estilos. As fotografias foram feitas em diferentes

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momentos e ambientes, com diferentes figurinos. Elas se relacionam e são narradas por meio de frases, selecionadas pela autora, que foram ditas pelas modelos após entrevistas sobre o projeto.

4.2 A ORIGEM DO PROJETO

Em 2015, fui convidada por Leonardo Lorenzo, estudante de Design na Universidade Federal da Bahia na época, a realizar fotografias de mulheres nuas ou seminuas em estúdio, para que ele pudesse realizar desenhos baseados nas fotografias. Os desenhos tinham a intenção de compor um livro de ilustrações, produto do seu TCC.

No primeiro ensaio, percebemos que apenas a presença da mulher parecia ser pouco em um ambiente como o de um estúdio, em que não há um cenário que contribui para a composição da imagem. A primeira modelo fotografada levou um short estilo samba canção do qual gostava e foi aí que percebemos o que faltava nas imagens: elementos que tornassem as fotografias mais características com relação às mulheres fotografadas.

Definimos que todas as meninas precisavam escolher uma temática e levar objetos e acessórios que contribuíssem para a ilustração. Com isso, as fotos foram apresentando diferenças entre si, pois cada uma apresentava particularidades da mulher fotografada. A escolha da temática e dos objetos pelas modelos também contribuíram para deixá-las mais confortáveis em serem fotografadas.

O projeto foi crescendo e resolvemos colocar na internet as fotografias. O projeto foi chamando a atenção de outras mulheres na internet, que começaram a mandar mensagens em que demonstravam interesse em ser fotografadas e fazer parte do projeto. Mas já tínhamos o número de meninas que Leonardo gostaria de desenhar. Quando Leonardo decidiu que já possuía as fotos necessárias para finalizar o seu projeto, acabamos encerrando os ensaios por um tempo.

Como o sucesso do projeto só aumentava, pensei que ainda não era tempo para terminá-lo, pois senti que faltava algo a ser feito. Pensei em dar continuidade ao projeto para utilizá-lo em meu TCC. Contudo, a ideia de continuar a fotografar em estúdio não me agradava, pois me parecia muito limitante, uma vez que, de certa forma, contribuía para a construção de um padrão entre as fotografadas. Essa ideia de limitação e padronização vai de encontro à intenção de demonstrar variedades entre os ensaios femininos. Foi com essa intenção que comecei a esboçar o projeto do meu TCC.

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Resolvi que os ensaios agora seriam feitos em lugares externos. Isso traria muito mais variedade para as imagens e lançaria um novo e maior desafio para as mulheres: o de se expor. Por conta disso, a necessidade da nudez não foi imposta, para que fossem evitados desconfortos por parte das modelos, além de que tal imposição não sairia natural nas fotografias. Porém, foi discutido e acordado com as modelos que a intenção das fotografias era a de mostrar seus corpos sem qualquer tentativa de esconder ou disfarçar quem são.

4.3 AS FOTOGRAFADAS

De início, ao invés de convidar as mulheres a serem fotografadas, foi lançado na

internet um edital para recrutar novas participantes, já que havíamos recebido tantas

mensagens de interessadas em participar do projeto. Publiquei as chamadas no Facebook e no

instagram, por se tratarem de redes sociais que utilizávamos e nas quais tínhamos um público

considerável de seguidores. Os editais publicados foram os seguintes:

1 - Primeiro edital:

QUER PARTICIPAR do nosso projeto?? As inscrições estão abertas para novos ensaios! Algumas pessoas serão selecionadas para a nova fase do nosso projeto. Para se inscrever você deve:

1- curtir a nossa página.

2- responder o questionário (http://goo.gl/forms/XwsvWSI7NT), 3- compartilhar o post.

As inscrições estão abertas até o dia 22 de abril! Não perde não!!!

P.S.: Gente, deixando claro que queremos TODO tipo de mulheres, gordas, magras, altas, baixas, negras, brancas, amarelas, azuis, rosa, o que for. E com todas as suas qualidade de celulites, estrias, espinhas, e, se nao tiver nada disso, pode participar tambem émoticône tongue TODAS AS MULHERES QUE TIVEREM INTERESSE. Obrigada !

Por conta de a primeira imagem apresentada ter sido a de uma modelo branca, dentro dos padrões estéticos de ser magra, de olhos claros, com o corpo definido, recebemos diversos comentários com críticas ao projeto. Embora tivéssemos separado fotografias de outras meninas, na hora da escolha não atinamos para o fato de que a opção por uma modelo branca poderia ser vista como uma atitude racista. Após a repercussão, resolvemos fazer uma mensagem de retratação, com fotos de outras mulheres que fugissem ao padrão. A ação foi elogiada e reconhecida pelo público das páginas.

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2- Segundo edital:

Retratação e chamada para ensaios.

Chegaram a nós críticas sobre a escolha que fizemos da moça que ilustra a primeira peça de divulgação da nova fase de ensaios do projeto, que serão parte do TCC de Milena, e por isso resolvemos esclarecer a situação para evitar mal-entendidos. O nosso projeto visa problematizar a representação da mulher ao gerar imagens, através de um método colaborativo, que sirvam de contraponto à lógica “objetificante” que é imposta aos corpos femininos.

Entendemos que foi leviano de nossa parte usar a imagem de uma moça dentro dos padrões para a nossa primeira publicação, que deveria traduzir em imagem nossa intenção de representar mulheres das mais variadas belezas. Acreditamos que conseguimos traduzir isso em nossa abordagem e trabalho já feito e consideramos importantíssimo que expressemos essa preocupação também em nosso discurso. Dito isso, reafirmamos nossa vontade que é a de representar as mais diversas mulheres e suas respectivas belezas. Agradecemos pelas críticas, pelo apoio e por acompanharem esse projeto que nos é tão querido.

As inscrições para a nova fase de ensaios continuam abertas até o dia 22 de abril e para se inscrever você precisa:

1. Curtir a nossa página.

2. Responder o questionário (http://goo.gl/forms/XwsvWSI7NT). 3. Compartilhar esse post.

As perguntas para a inscrição foram criadas com base nas mesmas perguntas que fazíamos ao longo dos ensaios de estúdio, com apenas algumas informações a mais porque, dessa vez, ele foi feito pensando não nos desenhos, mas nas fotos. A seleção, portanto, não se daria pelo físico das meninas, mas, pelas informações colocadas nesse questionário.

Os formulários mais importantes seriam aqueles que mostrassem respostas mais bem elaboradas, que apresentassem uma identificação entre a candidata e o tema a ser desenvolvido no ensaio. Além disso, as respostas dos questionários deveriam apresentar ideias que mostrassem diferenças físicas umas entre as outras. Por exemplo, muitas mulheres queriam fotos com flores, caindo no lugar comum de ensaios padronizados. Procurei, então, fugir das ideias que são comuns a certos ensaios fotográficos.

Essa fuga dos ensaios mais comuns foi feita a fim de tentar mostrar novos formatos de ensaios fotográficos femininos. Afinal, o projeto tem como intenção buscar construir ensaios que sejam significativos para cada mulher e com os quais elas se relacionem buscando agradar a si próprias e não reproduzir padrões para que elas possam exibir fotografias que se encaixem no que é esperado. Além disso, as fotografias buscam mostrar noções de força, aceitação e empoderamento dessas mulheres em relação a seus corpos e ao que pensam sobre o que é ser mulher.

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Foram selecionadas oito meninas entre as que se inscreveram, por elas terem sido as que mais chamaram atenção no sentido de proporem ensaios com ideias mais elaboradas e únicas. Contudo, muitas não foram encontradas ou então pararam de responder as mensagens. Como a comunicação via internet se mostrou muito mais difícil, foi necessário, então, recorrer a novas mulheres, que me foram indicadas por minha orientadora ou por outras que haviam sido fotografadas. As escolhas seguiram os mesmos critérios das escolhidas anteriormente.

5. A CRIAÇÃO DO FEMINUA

Foi ao longo desses processos e do início dos ensaios que percebi que o projeto já não mais se tratava do Moças Bonitas. Esses novos ensaios tornaram-se, então, o Feminua. O

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Feminua é um projeto que convida as mulheres a se despirem dos preconceitos e

pré-definições que a sociedade carrega para expor seus corpos crus, seus medos e seus “defeitos”. As mulheres são convidadas a esquecerem por um momento suas inseguranças e mostrarem seu lado livre, amplo e, quem sabe, até inesperado diante das câmeras.

A partir do resultado do ensaio de cada mulher, pude perceber diversas diferenças que as definem como únicas. Contudo, seus medos e inseguranças sobre seus corpos as uniam. Pude perceber como cada uma tinha um comportamento diferente, um estilo diferente, formas de pensar diferente, mas, as mesmas preocupações com o corpo, as mesmas incertezas com suas aparências e belezas.

Assim surgiu a ideia de escolher frases que eram ditas nas entrevistas ou ao longo dos ensaios pelas modelos. As frases que escolhi, da forma como estão escritas no fotolivro do Feminua foram expressas pelas fotografadas ao longo dos ensaios e nas entrevistas feitas após as fotos.

São frases que mostram como somos prejudicadas por nós mesmas e pelos demais em relação à nossa autoestima e nosso amor próprio, por acreditarmos que não somos da forma como esperam que sejamos. Elas revelam que ainda são fortes os estereótipos de uma certa “perfeição” que nos é imposta todos os dias pela mídia e sociedade. Só que, ao longo das imagens, elas se tornam frases que demonstram resistência a essas imposições, luta e empoderamento por parte de cada uma.

5.1 OS ENSAIOS

5.1.1 Ensaio com Helen Fernandes

“A vida é muito séria e quanto mais elementos que sejam divertidos, incomuns, pouco padrão e que me alegram só de olhar, inseridos no meu dia a dia, melhor.”

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Comecei fotografando as mulheres que haviam se inscrito pelo processo de seleção. A primeira fotografada foi Helen, uma mulher jovem, de 25 anos, que escolheu fazer fotos no Porto da Barra. O motivo de escolher o Porto foi o apreço que tem ao mar e àquele lugar, por se sentir segura, e foi, também, a tranquilidade e beleza da sua vista, que ela gosta de apreciar. Helen, contudo, não escolheu ser fotografada só de biquini: ela decidiu que gostaria de usar sua máscara de polvo. Antes de fazer o ensaio, conversamos um pouco para acertamos como as coisas aconteceriam. Expliquei o projeto, ela resolveu mudar o que havia escrito no questionário, e me perguntou sobre o que poderia levar para fazer as fotos.

Foi aí que ela apareceu na praia com o gorro de polvo. Segundo ela, seu apreço pelo gorro, que era completamente inusitado e diferente dos gorros com os quais estamos acostumados, vem justamente por sua aparência incomum. Ela explicou que, para ela, “a vida é muito séria e quanto mais elementos divertidos, incomuns e pouco padrão, que me alegram só de olhar, inseridos no meu dia a dia, melhor”. Por isso, utilizava o gorro quando ia andar de bicicleta no intercâmbio, fase importante e de muitas transformações em sua vida.

Contudo, desde o intercâmbio, o gorro não possuía grande uso. Foi aí que ela resolveu trazê-lo para o ensaio. Apesar de não estar exatamente copiando um personagem existente, ela explicou que gosta muito de bichos marinhos e, por isso, inclusive, teve uma certa inspiração em se imaginar como uma deusa do mar. Além do gorro, ela utilizou uma saia longa e braceletes com a intenção de criar uma imagem mais misteriosa, além de serem acessórios que ela utiliza muito no dia-a-dia, pelos mesmos motivos.

Helen conta que todo o figurino que utilizou já tinha sido planejado por ela antes e tinha sido utilizado também em um vídeo que ela havia gravado dançando. “Achei legal combinar isso com mar, foi tipo um combo de muitas coisas que eu gostava. Dança, mar, expressão estética…. Sinto que me expresso bem da forma que me visto, acho que todo mundo é assim. Dessa forma, é possível ler um pouco as pessoas”, explicou sobre a escolha.

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Contudo, ela contou que nunca chegou a publicar ou mostrar o video para ninguém por sentir vergonha.

Sem ter ainda muita noção do que eu esperava desse início de ensaios em lugares externos, comecei com Helen de forma mais aberta, sem muita certeza de como iríamos construir as fotos. Decidimos começar mergulhando no mar, e a deixei livre para se movimentar da forma como gostaria: dentro ou fora da água. Ela optou por começar as fotos com a saia longa, que acabou tirando, e com a máscara de polvo, que permaneceu durante todo o ensaio.

Debaixo da água, tivemos um pouco de dificuldades porque a máscara subia e planejar movimentos ideais na água, principalmente do mar, é algo mais complicado. Tentei fazer fotografias em que o foco principal fosse o rosto, com a máscara, e que buscassem dar uma ideia mesmo de uma mistura entre Helen mulher e polvo, o animal. Apesar de não ser uma personagem específica, o polvo acabou se tornando uma certa representação que fez Helen se sentir mais confortável na praia, pois, além de as pessoas não a reconhecerem, lhe dava mais ideias de poses e movimentos que poderia fazer para se encaixar nas fotos.

Perguntei se ela aceitaria, e gostaria, de fazer fotos que fossem fora do mar. Ela aceitou, mas ficou a dúvida sobre o que fazer. Foi aí que ela pensou em ligar os seus movimentos com os do mar através de movimentos da dança tribal. Contudo, segundo ela, o resultado foi de uma “dancinha de encantamento marinho meia-boca, que foi uma mistura de movimentos da dança tribal com vergonha das pessoas olhando e minha timidez e insegurança com a dança”. A dança fluiu e foi criando uma certa sincronia, nas fotografias, entre os gestos dos seus braços e corpo com o movimento do mar, criando, nas imagens, uma sensação de que ela é um ser mágico, que movimenta o mar, como uma Deusa do Mar, ou algo do gênero.

Helen contou que se considera muito tímida para algumas coisas, mas gosto de vencer sua timidez, e foi isso que fez no ensaio. Ela não acreditava que fosse ser chamada para participar e contou que ficou feliz e lisonjeada por ter passado pela experiência, que a surpreendeu, pois acreditava que as fotos seriam somente em estúdio. Quando perguntei sobre a experiência, ela explicou que havia sido ótimo porque “eu sempre acho ótimo ir para praia, o dia estava lindo, e você foi muito legal. Achei interessante poder ficar imaginando o que as pessoas estavam pensando. Foi uma experiência massa e única. Foi melhor do que eu esperava, pois eu achei que seriam fotos em estúdio branco, mas foi na praia! Amei muito”.

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5.1.2 Ensaio com Carolina Su

“Das encruzilhadas a tua vida: mulher livre é Padilha.”

(Carolina Su)

Carolina Su foi uma das mulheres selecionadas a participar do projeto pelo edital

online. Apesar de ela ter bastante clara na mente a ideia da roupa, dos gestos e da personagem

que gostaria de representar, que era Maria Padilha, ela não sabia exatamente qual era a melhor opção de local.

A única certeza de Carolina era a de que ela queria um lugar que tivesse um bar, cerveja e cigarros para compor o cenário. Pensamos juntas e decidimos fazer na Feira de São Joaquim, lugar não somente pelo qual ela tem muito apreço, como se encaixaria perfeitamente com a personagem, devido aos significados que o local carrega em relação à cultura negra, principalmente religiosa. Em seu formulário foi escrito:

Ana Carolina Suzart da Conceição 32 anos

Qual tema que você escolheria para o seu ensaio e fundo da ilustração. Por quê?

Prefiro que seja à escolha dos envolvidos mas algo que lembre africanidades seria muito legal. Tenho muito orgulho de ser mulher e negra. Poderia ser Orixá. Ou outra entidade que conote as religiões de matriz africana. A Maria Padilha eu acho ótimo. Pois é uma figura icônica e que é extremamente objetificada como mulher, prostituta, mulher livre. Poderia ser o fundo de um bar. Ou melhor ainda: a esquina de qualquer rua. Já que trata-se de uma entidade da rua.

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Como escrevi de forma aleatória acredito que se focar em África/Orixás será uma ótima oportunidade de homenagear os meus ancestrais que eu cultuo. Além de descaracterizar algum tipo de preconceito e retaliação à religião/culto. Maria Padilha é uma figura comum ao entendimento mas muito mal julgada, deturpada e sexualizada por demais.

Resuma o texto em uma frase:

Das encruzilhadas à tua vida: mulher livre é Padilha.

O que você levaria para ajudar a ilustrar o tema?

Com toda certeza rosas vermelhas para enfeitar os cabelos, cigarro, leque, bebidas e uma gargalhada escandalosa.

De que forma você acha que as fotos do ensaio podem se relacionar com o tema?

Problematizando a hiper sexualização de uma entidade oriunda de matriz africana com cultos brasileiros. Entidade esta que destaca a feminilidade, a ousadia, a liberdade feminina.

O que você espera desse ensaio? *

Quebrar barreiras de preconceitos sejam eles raciais, religiosos, sexuais e também o machismo. Destacar a mulher livre, de personalidade forte como Diva de sua própria vida.

Através dessas informações, foi fácil ficar em harmonia com a fotografada para a construção das fotografias. Apesar de estar assumindo uma personagem, é possível notar diversas características da própria Carolina se misturando com as da personagem encarnada durante a fotografia: o sorriso grande, a alegria contagiante, a energia. Sua personificação foi baseada em um imaginário de representação de Padilha, construído em terreiros de axé, cultura religiosa seguida pela modelo.

Apesar dos olhares dos transeuntes, no início, a deixarem um pouco desconfortável, ao longo do ensaio era possível notar que ela estava tomando a forma da personagem. Explorando cada vez mais o ambiente, ela pensava em muitas poses também, e o ensaio foi sendo construído e foi alcançando imagens interessantes para o projeto.

Conversávamos ao longo das fotografias e dávamos muitas risadas, resultado do contexto das conversas ou da situação em que estávamos. Foi possível perceber que ela se sentia confortável com a representação, que também parecia lhe dar mais coragem e vontade de continuar o ensaio, mesmo com muita gente presente.

Como o ambiente era bastante interessante e o cenário dava força ainda maior à personagem, contextualizando-a no ambiente, além do figurino e acessórios (como o cigarro, copo de cerveja, sapato, a saia longa), busquei fazer fotografias abertas, para dar mais

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fizeram com que eu buscasse também fotos mais fechadas, que acabaram resultando em fotografias que mostram a dualidade entre Carolina e Padilha.

5.1.3 Ensaio com Laísa Gabriela

“Não quero ser tolerada, quero ser respeitada.” (Gabi )

Gabi foi convidada por mim para fazer parte do projeto. A decisão de convidá-la partiu do pressuposto de que as fotos poderiam ajudá-la a se animar, uma vez em que se encontrava com diversos problemas pessoais relacionados a questões financeiras, e, também, emocionais, com as quais estava envolvida à época. Ao contar como o projeto funcionava, ela logo aceitou participar e escolheu abordar nas fotografias justamente um dos temas que lhe haviam causado tristeza durante o ano, que foi a questão da intolerância religiosa.

Nova no candomblé, Gabi passou por diversos problemas e conflitos por conta da sua escolha religiosa recente. Segundo ela, vinha passando por muitas questões de intolerância e desrespeito, e a escolha desse tema foi uma forma de criar resistência: “ Me sinto bem quando estou no terreiro, quando estou envolta às coisas do candomblé, com a minha roupa, quando vou me arrumar. Chegar no terreiro, tomar meu banho para poder mudar de roupa e tomar benção, tudo isso me faz me sentir bem”, explicou na entrevista.

Gabi explicou que muitas pessoas não aceitam sua fé e sua crença e a julgam mal por fazer parte do candomblé: “As pessoas não aceitam minha fé nos orixás e minha crença em

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olorum. Elas acabam me julgando, associando os orixás a coisas ruins, ao demônio, várias coisas. Me sinto mal com isso e decidi escolher isso como tema para o ensaio justamente para combater esses tipos de comentário”. Ela disse acreditar que as pessoas discriminam porque não conhecem e, por isso, precisam conhece-la.

Gabi acreditou que o projeto serviria como forma de empoderamento no que diz respeito tanto à sua escolha religiosa, como à relação que tem com o seu corpo, principalmente após passar por uma cirurgia bariátrica e ter dificuldades de gostar da sua nova aparência. Segundo ela, o projeto é uma forma de se empoderar e se fortalecer, além de poder ver que não é nada daquilo do que os outros julgam que ela seja. “Eu sou isso aqui, uma mulher forte, guerreira, e não posso me deixar abater por comentários depreciativos. É uma forma de me fortalecer, de ver como sou bonita e me sinto bem com a roupa que estou, como estou, com a fé que eu tenho. Acredito que o projeto me ajuda a fortalecer um pouco, já me fortaleceu só de ver algumas fotos”, falou Gabi.

Gabi escolheu ser fotografada no Pelourinho, por ser um lugar de grande representação à resistência negra. Apesar da escolha e de sentir forte relação com o lugar, ela não conhecia tão bem as suas ruas e ambientes. Mesmo assim, tirou os sapatos e logo se sentiu à vontade, algo que não era esperado, pois ela já havia falado da sua timidez em ser fotografada.

Fomos percorrendo diversos ambientes do Pelourinho, ela avistava lugares que a interessavam, enquanto eu escolhia ambientes que ficariam interessantes por conta da luz ou por conta da representatividade que a imagem daria ao tema que ela havia escolhido. De certa forma, não parecia haver um lugar mais significativo para o ensaio do que o Pelourinho, onde negros viveram uma forte e intensa história de repressão devido à cor da sua pele e a questões culturais.

Tirei muitas fotos pensando em valorizar seu figurino, por ser parte importante das fotos devido não somente á sua representação, mas também às expressões dela, que, pela primeira vez, estava vestida com a roupa que usa no terreiro na rua. Mesmo ficando um pouco apreensiva no início, logo se soltou e conseguiu ficar mais confortável para fazer as fotos.

Gabi explicou que não estava muito animada em ser fotografada porque não se sente muito bonita e fotogênica, muito menos à vontade. Contudo, durante o ensaio, ela conseguiu se soltar mais, principalmente quando via o resultado das fotos. “Percebi que tenho a capacidade de ficar bonita e isso pôde elevar meu animo”, contou animada.

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5.1.4 Ensaio com Amanda Brito

“Eu posso porque eu penso que posso.”

(Amanda Brito)

Conheci Amanda Brito por indicação da professora Graciela Natansohn, orientadora deste TCC. Sentia que faltava ainda muitas representações no meu projeto, não queria me fechar às imagens de mulheres que estamos acostumadas a vermos nos ensaios. Pensei, então, que era fundamental também a participação e a visão de mulheres portadoras de necessidades no projeto. Amanda conseguiu ilustrar a força, a beleza e a batalha do que é ser uma mulher com necessidades especiais.

Amanda rapidamente aceitou fazer parte do projeto e propôs fazer uma imagem de uma mulher executiva, como a Miranda Priestly, do filme norte-americano Diabo Veste Prada. Apesar da certa caracterização sobre a personagem, Amanda também é uma mulher trabalhadora e bem-sucedida. Hoje, ela trabalha na Petrobrás no Rio de janeiro e vive sozinha lá.

Quando cheguei para fazermos o ensaio, fiquei surpresa com tamanha independência e alegria vindas de Amanda. Envergonho-me em dizer que tinha uma visão muito mais

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