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Velhice e subjetividade na contemporaneidade

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Academic year: 2021

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SUL – UNIJUÍ

JULIANE GUISSO

VELHICE E SUBJETIVIDADE NA CONTEMPORANEIDADE

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UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL – UNIJUÍ

DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO CURSO DE PSICOLOGIA

VELHICE E SUBJETIVIDADE NA CONTEMPORANEIDADE

JULIANE GUISSO

ORIENTADORA: PROF. DRA. LÁLA CATARINA LENZI NODARI

Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito parcial para conclusão do curso de formação de Psicólogo

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Dedico esta escrita aos meus pais, por todo incentivo e ajuda, para que esta conquista se tornasse possível.

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AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus pelo dom da vida e por ter me proporcionado chegar até aqui, dando-me forças e saúde mental para transpor as barreiras.

A minha família por toda a dedicação e paciência, contribuindo diretamente para que eu pudesse ter um caminho mais fácil e prazeroso durante esses anos de formação.

Aos meus amigos, que me apoiaram e estiveram ao meu lado, durante esses anos, a eles meu muito obrigada. Não citarei nomes, pois eles sabem quem são.

A minha orientadora Lála Catarina Lenzi Nodari, pela dedicação e compreensão da minha escrita e pelos seus apontamentos necessários para o desenvolvimento deste trabalho.

A professora Carolina Baldissera Gross, que aceitou o convite para compor a banca examinadora e, também, pela sua dedicação na leitura deste texto.

A todos que, indireta ou diretamente, contribuíram para a minha formação como futura Psicóloga.

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Como se morre de velhice ou de acidente ou de doença, morro, Senhor, de indiferença.

Da indiferença deste mundo onde o que se sente e se pensa não tem eco, na ausência imensa.

Na ausência, areia movediça onde se escreve igual sentença para o que é vencido e o que vença.

Salva-me, Senhor, do horizonte sem estímulo ou recompensa onde o amor equivale à ofensa.

De boca amarga e de alma triste sinto a minha própria presença num céu de loucura suspensa.

(Já não se morre de velhice nem de acidente nem de doença, mas, Senhor, só de indiferença.)

“Como se Morre de Velhice” Cecília Meireles, in. Poemas

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RESUMO

O presente estudo é uma pesquisa bibliográfica que tem por objetivo a discussão do lugar histórico que o velho ocupa na sociedade. Elencando os aspectos biológicos, históricos e sociais da velhice, assim como seus aspectos psíquicos. Abordará sobre segregação do velho na sociedade contemporânea atual e as formas possíveis de sublimação que este sujeito pode encontrar dentro desta.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...8

1. A VELHICE: ASPECTOS BIOLÓGICOS, HISTÓRICOS E SOCIAIS ... 10

1.1. A Velhice ... 11

1.2. Aspectos Biológicos da Velhice ... ...12

1.3. Aspectos Histórico-culturais Sobre a Velhice ... ...18

2. A VELHICE: ASPECTOS PSÍQUICOS E FORMAS DE RELACIONAMENTOS NO SOCIAL ... 26

2.1. Aspectos Psíquicos da Velhice ... 27

2.2. Segregação do Velho na Sociedade Contemporânea ... 32

2.3. Os grupos e a Psicologia com idosos...35

CONSIDERAÇÕES FINAIS...38

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INTRODUÇÃO

A escolha dessa temática se deu pela minha experiência no estágio de ênfase social, no qual tive a oportunidade de acompanhar um grupo composto por velhos, sujeitos em processo de envelhecimento. Durante esse período, pude observar o quanto essas pessoas eram limitadas pela sua idade, eram vistas como incapazes e desvalorizadas, tanto pelo social quanto pela própria instituição.

É importante o desenvolvimento de estudos nessa área de atuação, principalmente para o acolhimento, escuta e possíveis intervenções no recebimento e atendimento de pacientes velhos. Pois ampliar o conhecimento a respeito de algo é certamente a melhor maneira de encontrar soluções e modos de amparar o paciente em questão no processo terapêutico.

O envelhecimento é um processo natural, que ocorre com os seres humanos que, diferentemente dos animais, possuem consciência de que a cada dia que se passa, mais velho se fica.

Em determinadas culturas primitivas, o velho ocupava um lugar central e fundamental na sociedade. Era visto como portador de um saber sobre a comunidade e sobre a vida, um sujeito experiente que teria contribuições para os mais novos. Esses velhos eram procurados pela comunidade para que transmitissem o conhecimento já que, nessas culturas, tinham muito a oferecer.

Na sociedade contemporânea atual, o velho foi destituído do lugar que antes ocupava, parecendo estar ás margens da sociedade. Não é mais procurado e, seu conhecimento é considerado ultrapassado. Nesta sociedade, onde tudo muda constantemente e aquilo que ontem era importante hoje não é mais. O velho perde assim o seu lugar.

O questionamento que cabe aqui, refere-se a que lugar ocupa o velho na atualidade? Como se deu essa desvalorização em relação ao lugar do velho?

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Portanto, busco entender o papel que o velho assume na sociedade capitalista em que vivemos e qual a consequência disso para a psique do mesmo.

Este trabalho será realizado em dois capítulos, onde será trabalhada a contextualização da velhice, entendendo a visão que o social tem do velho, compreendendo as consequências psíquicas do lugar ocupado pelo velho no social.

No primeiro capitulo definir-se-á a velhice em seus aspectos biológicos, históricos e sociais. Tratar-se-á de um estudo histórico acerca de como a velhice era vista ao longo do tempo até os dias atuais. Estudando o papel do velho durante a passagem do tempo nas diversas culturas;

No segundo capitulo será trabalhado os aspectos psíquicos da velhice e o ponto de vista social contemporâneo sobre o velho. Sobre segregação, o motivo dela existir e se tornar cada vez mais corriqueira em nossa sociedade, assim como os efeitos que ela causa para esses sujeitos. E, para finalizar, o papel fundamental que a psicologia pode exercer e desenvolver nesse contexto.

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CAPÍTULO I

A VELHICE:

ASPECTOS BIOLÓGICOS, HISTÓRICOS E SOCIAIS

Por céus e mares eu andei Vi um poeta e vi um rei

Na esperança de saber o que é o amor Ninguém sabia me dizer

E eu já queria até morrer

Quando um velhinho com uma flor assim falou

O amor é o carinho

É o espinho que não se vê em cada flor É a vida quando

Chega sangrando Aberta em pétalas de amor

“O Velho e a Flor”

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1.1. A Velhice

O envelhecimento é um processo natural e ocorre com todos os seres humanos que, diferentemente dos animais, possuem consciência de que a cada dia que se passa, mais velho se fica. A velhice, excepcionalmente, só ocorre com aqueles que ultrapassam todas as particularidades do desenvolvimento, até chegar em uma determinada idade na qual o sujeito adentra uma etapa de modificações mais intensas no seu corpo e, consequentemente, no seu psiquismo.

Analisando sob a ótica do discurso médico, Mucida (2017), destaca como as perdas e reduções de algumas funções se acentuam e evidenciam com a chegada da velhice. Esta, porém, não se reduz apenas à essas perdas, doenças e ao declínio físico. O processo de envelhecimento acarreta peculiaridades a cada sujeito e, segundo Hervy (2001) apud Mucida (2017, p. 24), “o envelhecimento é um processo que impõe uma tomada de posição, e cada sujeito responderá a partir de suas capacidades de reserva nas dimensões fisiológicas, psicológicas e sociais. ”.

Sob a ótica de alguns autores da visão psicanalista, a tese é de que o sujeito, associado à ideia do inconsciente, não envelhece. Porém, há ainda uma grande dificuldade em definir o conceito de velhice, tanto por não existir uma clínica especifica para estes sujeitos, quanto ao que “algo escapa àquilo que se constitui a velhice”, de acordo com Mucida (2017, p. 27).

Mucida (2017) ainda salienta que, apesar da velhice ter um olhar mais pessimista na obra de Beauvoir (1990) esta não deixa de colocar em evidencia os efeitos que a cultura exerce sobre a velhice e a entrada do real em cena, retomando estes importantes pontos de vista da psicanálise.

(...) o sujeito vê o seu envelhecimento, diríamos sua velhice, pelo olhar do Outro ou ele se vê velho pela imagem que o Outro lhe devolve. Não existe para o sujeito algo palpável sinalizando sua velhice, pois “velho” é sempre o Outro. (MUCIDA, 2017, p. 27).

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Beauvoir (1990), salienta que a imagem da velhice varia de acordo com o tempo e lugar, sendo assim indeterminável e ambígua, acarretando sentidos e pontos de vista opostos daqueles que tentam determiná-la. Esses sentidos diferem visivelmente, defendendo da forma e dos interesses da classe à qual pertencem. Entretanto, a autora entrelaça duas formas de pensar e destaca que:

A imagem da velhice é incerta, confusa, contraditória. Importa observar que, através dos diversos testemunhos, a palavra “velhice” tem dois sentidos diferentes. É uma certa categoria social, mais ou menos valorizada segundo as circunstâncias. É, para cada indivíduo, um destino singular – o seu próprio. (BEAUVOIR, 1990, p. 109)

Mucida (2017, p.28), retoma a velhice descrita como um destino, conforme compreendido por Beauvoir (1990, p.109) dizendo assim, que a maneira como cada sujeito envelhece é singular, não se tratando de uma “velhice natural” mesmo existindo um corpo que envelheça, trata-se de um “destino pessoal”, portanto, não se pode reduzir a velhice à “idade cronológica”.

É consensual o fato de que a idade cronológica é muito escorregadia para se determinar a velhice, já que, por exemplo, dentro de algumas categorias esportivas, se fala de velhice aos 30 anos. Há também um determinado consenso de que a velhice não modifica o psiquismo. (MUCIDA, 2017, p. 29).

De fato, a velhice existe, embora o sujeito do inconsciente não envelheça como nos dizem os autores psicanalíticos, não podemos desconhecer o real do corpo, o efeito do tempo sobre este, que traz consigo suas marcas do processo de envelhecimento. E, apesar de podermos considerar a velhice um “estado de espirito” como aponta Mannoni (1995) apud Mucida (2017, p. 31), ela ainda está associada à doença e à decrepitude do corpo biológico.

1.2. Aspectos Biológicos da Velhice

O corpo é o primeiro que aponta a chegada da velhice. Os cabelos brancos vão aparecendo sorrateiramente, linhas de expressão vão se tornando mais salientes, as rugas, a flacidez se tornam cada vez mais visíveis. A visão que outrora era perfeita, vai se tornando turva. É necessário que frases sejam repetidas por

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aqueles que estão ao redor, pois a audição não é mais a mesma, até o olfato e o paladar não estão mais tão aguçados. Os movimentos que antes eram ágeis, vão ficando lentos. O cansaço chega rapidamente até nas tarefas rotineiras. A velhice chega e faz morada nesse corpo que era cheio de vigor. De acordo com Mucida (2017, p. 31), “não há como passar pela vida sem passar pela velhice”.

Conforme Beauvoir (1990, p. 33), “cada organismo já contém desde o início sua velhice, inelutável consequência de sua completa realização” sendo hoje em dia, um processo comum a todos os seres vivos.

Segundo o Relatório Mundial de Envelhecimento e Saúde de 2015 elaborado pela OMS, estima-se que em 2050 o número de pessoas com idade superior a 60 anos irá ultrapassar 2 bilhões e, para que essa população venha a ter um envelhecimento saudável, é necessário que seu lugar na sociedade seja redefinido e valorizado.

Considerando o elevado número de sujeitos que se tornarão idosos nos próximos anos, parece ser necessário que se produza melhor compreensão acerca dos efeitos de uma imensa população idosa na sociedade. Nesse sentido, como já expusemos anteriormente, existem campos de conhecimento como a gerontologia, que estão se desenvolvendo com a preocupação de compreender, pesquisar, produzir e integrar novas evidências, que poderão vir a ser de subsídio para o trabalho com esses sujeitos.

De acordo com FREITAS et al. (2013, p. 209) “a Gerontologia estabeleceu-se a partir da associação entre velhice e doença, inerente ao modelo biomédico aplicado ao envelhecimento”. Esse termo foi utilizado pela primeira vez pelo cientista russo Elie Metchnikoff em 1904, entre outros estudiosos da época, que trouxeram uma visão mais otimista sobre esse campo de conhecimento.

Para Beauvoir (1990, p. 32), “a gerontologia desenvolveu-se em três planos: biológico, psicológico e social” e em todos eles mantem um “posicionamento positivista”. A autora acredita que esta ciência não trata de apenas explicar por que

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os fenômenos se produzem, mas sim de descrever da forma mais exata possível as suas manifestações.

Jordão Netto (1997, p. 33) apud GROISMAN (2002, p. 63), apresenta, em termos gerais, o conceito desta ciência, salientando, assim como Beauvoir, que “a gerontologia, no seu todo, é o conjunto de conhecimentos científicos aplicados ao estudo do envelhecimento humano, nos aspectos biológicos, psicológicos e sociais”. E, de acordo com GROISMAN (2002, p. 63,64):

Ela se dividiria em duas subáreas: a geriatria e a gerontologia social. A geriatria seria o ramo da medicina que visa tratar as doenças associadas ao processo de envelhecimento. Já a gerontologia social incorporaria uma série de disciplinas, tais como a psicologia, o serviço social, o direito, a nutrição e outras, para o estudo do envelhecimento. (GROISMAN, 2002, p.63,64)

Torna-se importante explanar aqui, a respeito de duas expressões conhecidas dentro do campo da gerontologia, trata-se de senilidade e senescência, as quais podem ser amplamente difundidas dentro da psicologia, principalmente no que cada uma acarreta dentro do campo psíquico. Analisando-as, podemos compreender suas peculiaridades mais intrínsecas, podendo vir a ajudar no atendimento de um paciente com idade avançada.

Senilidade e Senescência são dois termos que se opõe em significado, mas que caminham juntos quando se trata de definir o envelhecimento humano. O primeiro trata do envelhecimento acompanhado de doenças, do declínio físico e mental. O segundo traz o que Beauvoir (1990, p.37) chamaria de “velhice no estado puro”, ou seja, o envelhecimento sadio, que ocorre espontaneamente.

No que concerne à senilidade encontram-se as doenças mais associadas à velhice, entre elas estão o Alzheimer, que é uma doença degenerativa do cérebro, caracterizada por perda das habilidades de pensar, raciocinar, memorizar, afetando as áreas da linguagem e produzindo alterações no comportamento, podendo levar a demência. Assegura-se que a pessoa acometida por este mal perde a memória recente e conserva a memória remota. Trata-se de uma doença que não tem cura

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conhecida. Messy (2002) apud Mucida (2017) aponta que o Alzheimer não trata apenas de fatores biológicos:

A dificuldade encontrada no trabalho de luto das perdas, a dificuldade com a imagem que se odeia e seu retorno ao próprio eu, o isolamento do mundo, a restrição maciça de laços sociais, a falta de investimento libidinal podem ser fatores importantes na constituição do Alzheimer. (MESSY, 2002, apud MUCIDA, 2017, p. 25)

Temos ainda o Parkinson ou Mal de Parkinson, que é uma doença que se caracteriza por uma desordem progressiva nos movimentos. Manifesta-se normalmente a partir dos 60 anos, podendo ocorrer a partir dos 35 anos também. O mal de Parkinson é um distúrbio cerebral que provoca deterioração progressiva, com rigidez muscular e tremores involuntários. É caracterizada por quatro sinais: rigidez, tremor, lentidão dos movimentos e instabilidade postural. Não há cura para o mal de Parkinson, mas existem medicamentos que são eficazes no controle dos sintomas.

A Catarata é outra doença associada à senilidade, e consiste em uma alteração da transparência do olho, causa a turvação da imagem. Catarata tem tratamento, na maior parte das vezes de forma cirúrgica, dando assim a recuperação visual.

A Osteoporose muito presente em idosos é uma doença silenciosa que afeta a estrutura dos ossos tornando-os frágeis e diminuindo a capacidade de suportar o peso corporal. Ocasionando fraturas comuns principalmente no fêmur, quadril, coluna e punho.

Outro aspecto importante que se associa a senilidade é a sexualidade do idoso, bastante rodeada de mitos. Entre esses, surge o de que a partir de determinada idade o sujeito torna-se assexuado, de forma que as doenças sexualmente transmissíveis são pouco explanadas para esse público. A cada ano vem ocorrendo um aumento considerável de casos de Aids entre a população idosa, em função do aumento da expectativa de vida, viagens, bailes da terceira idade, medicamentos para disfunção erétil, os idosos encontram-se mais ativos sexualmente. A Aids é uma doença causada pelo vírus HIV, que é transmitida por

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relações sexuais sem proteção ou por compartilhamento de seringas e agulhas contaminadas. Esta doença ainda não tem cura e pode levar a morte, por isso é necessário orientá-los para o uso de preservativos em todas suas relações sexuais para que os casos não continuem aumentando.

Para Beauvoir (1990, p. 33), o que caracteriza a senescência do ponto de vista fisiológico seria a uma “transformação pejorativa dos tecidos”, que é quando ocorre uma diminuição dos tecidos considerados metabolicamente ativos e o aumento dos que são metabolicamente inertes, ocasionando desidratação e degeneração gordurosa. A diminuição da capacidade de regeneração celular entre outros, acarretaria “uma involução dos principais órgãos e um enfraquecimento de certas funções que não cessam de declinar até a morte”.

Nesse processo a aparência do sujeito se transforma e de acordo com Beauvoir (1990, p.34), é possível atribuir uma idade a ele. A autora aponta alguns traços comuns como os “cabelos que embranquecem e que se tornam rarefeitos”. Devido a desidratação, ocorre a “perda de elasticidade do tecido dérmico subjacente” ocasionando o enrugamento da pele. “Os dentes caem”, “se formam papos sob os olhos. O lábio superior mingua; o lóbulo da orelha aumenta”. “A atrofia muscular e a esclerose das articulações acarretam problemas de locomoção. O esqueleto sofre de osteoporose”. A autora afirma que o coração é um dos poucos órgãos que não se modificam, mas que seu “funcionamento se altera”, levando a redução das atividades para que possa ser poupado. O sistema circulatório é atingido e a arteriosclerose, apesar de não ser a causa da velhice, é uma das características mais constantes. É notável a lentidão da circulação cerebral, devido a diminuição do consumo de oxigênio, pois a capacidade respiratória torna-se reduzida. Os nervos motores se excitam e reagem de forma mais lenta. Os rins, glândulas digestivas e o fígado sofrem uma involução. Os órgãos dos sentidos são atingidos, assim como o poder de acomodação.1

1 O parágrafo referenciado é produzido a partir da obra de Beauvoir, tem também, entre aspas, ideias originais

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Os órgãos sexuais são atingidos pela involução das glândulas de secreção endócrinas, ocasionando nos homens, na maioria das vezes, disfunção erétil e impotência, mas o que, segundo a autora, não acarreta na extinção da libido. Na mulher ocorre a menopausa e a função reprodutora é interrompida de forma brutal, numa idade consideravelmente jovem, por volta dos 50 anos.

Apesar da velhice ser quase sempre associada à doença, Beauvoir (1990, p.37) não compactua com essa ideia, afirmando que “a doença é um acidente; a velhice é a própria lei da vida”. Há uma correlação entre velhice e doença, em que a última é um fator que acelera a senilidade e a idade avançada predispõe às patologias.

A saúde e longevidade pode ser influenciada por diversos fatores, sendo os psicológicos e sociais os mais determinantes, mesmo num estado de deterioração física. Beauvoir (1990), evidencia que nem sempre as idades cronológicas e biológicas coincidem, sendo que muitos fatores podem contribuir para que este processo de declínio se torne retardado ou acelerado. A autora fala que muitas vezes um sujeito que aparentava a idade que tinha ou até menos, sofre repentinamente um “ataque de velhice”:

Quando há doença, stress, luto, fracasso grave, não são os órgãos que se deterioram bruscamente: a construção que dissimulava suas insuficiências desmorona. O sujeito tinha realmente sofrido em seu corpo a involução senil; mas conseguira compensá-la por automatismos ou comportamentos conscientes: de repente, ele se torna incapaz de recorrer a essas defesas e sua velhice latente se revela. Esta queda moral repercute sobre os órgãos e pode levar a morte. (BEAUVOIR, 1990, p. 40-41)

Podemos destacar o progresso da medicina como algo que contribuiu para a melhoria da saúde e, consequentemente, prolongamento da vida. A ciência, sempre se equiparando com as questões relativas à humanidade na tentativa de transpor os obstáculos que são colocados em seu caminho, juntamente com a indústria cosmética e farmacêutica, propõe tratamentos rejuvenescedores, trazendo uma promessa de retardar o envelhecimento através de métodos, remédios, cremes, tudo para que o corpo permaneça agradável aos olhos de quem o habita e daqueles que o veem.

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Mas a velhice não é representada só pelo contexto biológico. A senilidade ou a ausência dela, dependerá estreitamente da sociedade e do lugar que o velho ocupa dentro desta. Só a partir da análise destas questões é possível significar a velhice.

1.3. Aspectos Histórico-culturais Sobre a Velhice

Não há como nos aprofundarmos no estudo da velhice sem considerarmos o lugar que o velho ocupa no social. Assim como não podemos alegar sobre seu papel e posição na sociedade atual sem nos remetermos ao passado e ao que está arraigado desde os primórdios da humanidade sobre a concepção do que é a velhice.

Em seu livro intitulado A Velhice, Simone de Beauvoir descreve como eram as atitudes das sociedades históricas para com os velhos e como elas os concebiam. A autora abrange as diferentes posições de interpretação da velhice e como estas oscilam com o passar dos séculos e em diferentes épocas. Por vezes, estes tinham a função de intermediar e evitar rivalidades e sua autoridade não era questionada. Por outras, representando apenas uma parcela da população e que quando já não possuem utilidade, são eliminados. Contudo, contribuem positivamente para a coletividade, relatando suas memórias e experiências.

Beauvoir (1990), evidencia que, no decorrer da história da humanidade, pouco é falado sobre os velhos pobres e este fato se estende até o século XIX, pois poucos eram os que chegavam à determinada idade, devido às condições de vida precárias. Somente os nobres usufruíam desse privilégio.

A autora percorre diferentes épocas, fazendo menções às sociedades nelas estabelecidas. Seu ponto de partida é a China e esta é a única sociedade não ocidental estudada por Beauvoir, em virtude da condição privilegiada que proporciona aos velhos.

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Na cultura chinesa, a experiência vale mais do que a força, portanto toda a casa devia obediência ao homem mais idoso. A velhice era sinônimo de sabedoria e jamais foi denunciada como um flagelo, mas sim como a vida sob sua forma suprema.

Entretanto, no ocidente, o primeiro texto encontrado que fala sobre a velhice, é datado do século 2500 a.C, Ptah-Hotep apresenta alguns aspectos de como era envelhecer na sociedade egípcia antiga. É possível que não se possa considerar essas características de maneira positiva, visto que apontam somente para a decrepitude do corpo biológico. A velhice era tida como “a pior desgraça que poderia acometer o homem”, nas palavras do próprioPtah-Hotep (BEAUVOIR, 1990, p.114). E é importante ressaltarmos a pertinência deste tema, em todas as épocas.

O povo judeu é conhecido pelo respeito de que cercou a velhice, tendo em seus ancestrais, os eleitos de Deus. A longevidade era uma recompensa da virtude. A velhice é abençoada por Deus e exige obediência e respeito. Os anciãos desempenhavam importante papel político.

Beauvoir salienta a pouca informação proveniente sobre os velhos nos outros povos da Antiguidade. E interroga a respeito da relação entre costumes e fábulas, inscritos na mitologia, em que a grande parte delas aborda a velhice somente nos conflitos geracionais.

O que podemos perceber na atitude dos gregos em relação à velhice, são as raras informações fornecidas através da mitologia. Para os gregos a velhice era um flagelo pior até do que a morte, muitos sonhavam com a juventude eterna. Mas mesmo nesses termos, a condição de velhice na Grécia Antiga significa honra, privilégios. Segundo Homero citado por Beauvoir (1990), a velhice está associada à sabedoria. Tratando-se de propriedades e aquisição de bens, o velho é colocado à sombra, pois já não possui vigor físico para merece-las ou até mesmo defender o que já lhe pertence. Os deuses repudiam a velhice.

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No século VII, a aristocracia muda de caráter e a classe que antes era inferior, enriquece, ocorrendo uma revolução econômica. A indústria, o comércio e o dinheiro passam a ser fontes de riquezas. A frente da Polis havia um Conselho, no qual apenas os mais velhos tinham direito de entrar e permanecer até a morte. Os jovens eram barrados das magistraturas mais importantes. Era assim em Éfeso, Creta, entre outras. A velhice era, portanto, uma qualificação. Os poetas da época consideravam a velhice como uma categoria social.

Em Esparta a velhice é honrada e respeitada, os anciões eram encarregados de formar a juventude. Em Atenas, as leis de Sólon conferiram poder as pessoas idosas.

Platão e Aristóteles chegaram a conclusões opostas sobre a velhice. O primeiro criticava duramente o regime e costumes políticos e defendia que só os homens que conhecessem a verdade eram dignos de governar. Ele almeja uma gerontocracia, onde “os mais idosos devem mandar, e os jovens, obedecer. ” (BEAUVOIR, 1990, p. 135). Já a concepção de Aristóteles, leva a afastar do poder os idosos, por ver neles indivíduos enfraquecidos, tendo na ideia de experiência, não o progresso, mas sim a involução.

Na Roma Antiga, havia um grande contraste entre os velhos pertencentes à elite e aqueles pertencentes às massas. Se antes os velhos eram eliminados, agora não se cogitaria mais em atentar sobre a vida deles, pois são respeitados enquanto proprietários, pois a propriedade privada torna-se garantida por lei quando as instituições romanas se estabelecem e tornam-se sólidas. Entre os ricos somam-se inúmeros velhos. Eram os ricos que detinham o poder, principalmente no Senado e possuíam nesse contexto, total autoridade sobre a diplomacia e os comandos militares. Só se chegava às altas magistraturas com uma idade bastante avançada. O voto dos velhos tinha mais peso do que dos outros cidadãos. Inclusive, dentro da própria família esse poder é afirmado, conhecido como paterfamilias. A matrona romana também tinha forte influência no lar.

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Beauvoir (1990), destaca como é surpreendente constatar a decadência desse sistema oligárquico, no qual os privilégios dos velhos diminuem e depois desmoronam. As conquistas romanas entram num processo de decomposição política e social. O Senado perde poder e por volta de 271, seus privilégios financeiros e monetários. Os magistrados são liberados de suas funções e o poder do paterfamilias, antes ilimitado, é restringido.

Dois acontecimentos marcam o fim do mundo antigo: o primeiro trata da invasão dos bárbaros. Nessa sociedade, os velhos deviam ser escassos e desvalorizados. Frequentemente eram mortos aqueles que se encontravam doentes ou em uma idade avançada e desejassem morrer, já que para essas hordas guerreiras e conquistadoras a força para guerrear tornava-se o mais importante. Já, entre os germanos, as chamadas bocas inúteis eram tratadas com mais humanidade e sustentadas pelas famílias.

Para Beauvoir (1990), outro acontecimento foi o triunfo do cristianismo que se impôs no seio do Império romano, mas só conseguiu ser adotado por diferentes povos dobrando-se aos costumes deles. A partir do século III a igreja assimilou a cultura clássica, que fazia da imagem da velhice, algo sombrio. Mas é possível destacar um ponto positivo da Igreja, que foi a criação, a partir do século IV, de asilos e hospitais, garantindo o sustendo dos órfãos e doentes. Certamente os velhos se beneficiaram dessas caridades, mas nunca foram mencionados. Durante o Baixo-Império e a Alta Idade Média, eram os jovens que conduziam o mundo, portanto os velhos foram praticamente excluídos da vida pública.

Por volta do ano 1000, há uma expansão econômica, o que faz a civilização emergir das trevas e a sociedade feudal se organizar. O idoso possui um papel apagado neste contexto, pois, é necessária a força para defender o feudo com a espada. Era o guerreiro ativo, na força da idade que ocupava a cena. Entre os plebeus, o declínio físico obrigava o homem velho a se aposentar e afastar-se da vida ativa. O pai enfraquecido era destituído de seus bens pelos filhos, sendo frequentemente maltratado por seus herdeiros. Os velhos eram, inclusive, reduzidos

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a mendicância, sua situação torna-se totalmente desfavorecida. A classe dos velhos não existe mais.

Até o século XIII ou XIV, apenas o adulto é considerado. Não havia preocupação com as crianças, muito menos com os velhos. O único lugar que constitui uma exceção é Veneza, onde o doge era velho e eleito pela nobreza. Mas a partir da metade do século XII, ele fica proibido de decidir sobre qualquer coisa e seu papel torna-se meramente decorativo.

A grande influência que o cristianismo exerceu na Idade Média, fez a passagem de poder do pai ao filho, nos séculos XI e XII, tornar-se um modelo de supremacia do filho sobre o pai. O jovem toma o lugar do velho. E com essa mesma influencia, a Igreja, nos séculos que se seguem, começa a usar uma imagem mais humanizada de Jesus, e do Eterno. Jesus é retratado como um menino e Deus, ou o Eterno como se refere Beauvoir, é representado como um velho, assemelhando-se aos patriarcas. Na literatura, o velho é representado, por vezes, como um homem cheio de experiência, mas na maioria dos casos, como um “indivíduo lamentável” (BEAUVOIR, 1990, p. 168).

Quando a Idade Média finda, a vida permanece precária e a longevidade é rara. Mas é a partir do século XIV que há um renascimento da vida urbana. A burguesia prospera e constitui-se uma nova nobreza. A propriedade funda-se em contratos e não mais na força física. Através da acumulação de riquezas, a posição do velho se modifica e este torna-se poderoso. A preocupação das pessoas velhas torna-se a morte e, para o cristão é o momento de assegurar a salvação. Entretanto, a idade avançada não é valorizada.

Século XVI, a Renascença exalta a beleza do corpo e a feiúra dos velhos torna-se ainda mais detestável, o velho quando enamorado suscita a repulsa. Da Antiguidade até o Renascimento, a velhice é tratada e estereotipada da mesma forma, sendo considerada o “inverno da vida” (BEAUVOIR, 1990, p. 200).

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Na França, o século XVII foi extremamente duro com os velhos. Os adultos regiam uma sociedade que era autoritária e absolutista, não abrindo espaço para quem não pertencia à mesma categoria que eles. O trabalho é visto como uma das mais valiosas virtudes, a mendicância foi considerada imoral. Os velhos miseráveis, por não terem mais o vigor físico de outrora para trabalhar, padeceram. Mas na burguesia, a velhice foi valorizada, o avô era o símbolo da família, o qual deveria ser respeitado.

A Europa do século XVIII experimenta um rejuvenescimento de sua população, graças a prática de uma melhor higiene. Ao mesmo tempo que a longevidade era favorecida devido à melhoria das condições materiais. Nesta época os homens octogenários e centenários das classes privilegiadas multiplicaram-se, sendo um fato incomum antes de 1745. Os costumes se abrandaram e a vida social exigia uma certa qualidade de inteligência, experiência e menos esforço físico. Mas a medida em que os homens de classes inferiores sobreviviam e chegavam até uma idade avançada, eram condenados à indigência. Todavia, o homem idoso adquire importância e simboliza a “unidade e permanência da família”. O adulto se reconhece no velho que será um dia (BEAUVOIR, 1990, p. 224).

Mas é somente no século XIX que as transformações produzidas na Europa, tem forte influência na condição do velho e no modo como a sociedade o vê. Com o aumento da população em todos os países, o índice de velhos aumenta consideravelmente.

Com o progresso da ciência, busca-se entender a velhice, o que permite à medicina tratar e curar as pessoas idosas. Torna-se impossível silenciar tudo aquilo que diz respeito a velhice e esta passa a ser retratada. Velhos privilegiados e das classes inferiores são descritos pela primeira vez, sem distinção. Contudo, as circunstâncias não se tornaram mais favoráveis para os idosos, pelo contrário, muitos deles são vítimas da revolução econômica que se desenrolou ao longo do século, mais precisamente na segunda metade, na qual a mão de obra era explorada ao máximo, principalmente por não haver proteção alguma a esses

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trabalhadores. Aqueles que envelheciam não conseguiam acompanhar o ritmo de trabalho e sucumbiam. Aqueles que conseguiam sobreviver, caiam na miséria.

Beauvoir (1990), aponta o contínuo avanço da urbanização da sociedade e que este fato tem como consequência o desaparecimento da família patriarcal. Os cultivadores encontram-se menos isolados, o que faz com que idosos incapacitados, tornem-se mais raros do que no século anterior. Nas classes dirigentes os requisitos ainda eram a experiência e a inventividade, os homens idosos ocupavam lugares importantes nas sociedades conservadoras, que iam na contramão dos grandes movimentos políticos liderados por jovens.

A célula familiar se dissolve frente aos impulsos do progresso da industrialização e com o aumento considerável do envelhecimento da população, a sociedade assume o lugar de família para esses velhos, instaurando uma política da velhice, sendo estipulada também, uma pensão para aqueles que se encontram incapacitados de exercerem uma profissão ou que já atingiram uma determinada idade.

A aposentaria é um benefício concedido em várias situações que acometem o trabalhador. No caso da aposentadoria por idade, o trabalhador deve ter idade mínima de 65 anos se homem e 60 anos se mulher, que é o caso do Brasil, devendo comprovar ter no mínimo 180 meses de trabalho.

Se para a sociedade industrial e capitalista é um alivio o funcionário velho se aposentar e ser substituído por um jovem com mais agilidade e mão de obra mais barata, para o velho a aposentadoria não se coloca desta forma, na maioria dos casos.

Geralmente, encontramos sujeitos que desempenharam a mesma função a vida inteira, sem abrir brechas para aprender um novo oficio. Talvez por falta de tempo, outras por comodidade, não buscam novos aprendizados ou se adequar às novas tecnologias. Quando a aposentadoria se coloca como inevitável, torna-se um

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momento desesperador pois, na maioria das vezes, a renda diminui consideravelmente, acometendo o velho a um orçamento limitado e até à miséria.

Se por um lado o fator econômico causa desconforto material, a aposentadoria acarreta uma série de questões psíquicas e sociais, nas quais o sujeito experimenta o sentimento de inutilidade, de que é substituível. Seu status diminui perante a sociedade. Eles encontram dificuldade de reformular as suas vidas.

Alfredo Jerusalinsky em “O Valor Simbólico do Trabalho e o Sujeito Contemporâneo” (2000, p.37), coloca em evidência a maneira como a sociedade industrial vê o homem e que este, tentaria equiparar o seu valor ao objeto que ele mesmo produz, ou seja, quanto mais produz, mais valor se tem. Ressaltando aqui, um dos fatores de desvalorização do velho, pois este não produz tanto quanto produzia em sua juventude e no caso dos aposentados, não produzem mais nada.

Ao fazer uma breve leitura da sociedade contemporânea, verificamos que o velho foi destituído do lugar que antes ocupava. Não é mais procurado em seu saber. Seu conhecimento e experiência são tidos como ultrapassados. Em tempos onde tudo muda constantemente e aquilo que ontem era importante, hoje não é mais. O velho perde assim o seu lugar e, de acordo com Mucida (2017, p. 82), “a velhice tende a experimentar o desamparo de maneira cruel”.

Com isso, começamos um processo de compreensão acerca da necessidade que venham ocorrer mudanças significativas no lugar que o velho ocupa na sociedade. Nesse sentido o campo da gerontologia deveria ser explorado profundamente pela psicologia. Desse modo os conceitos dessas ciências se entrelaçariam e evoluiriam como campo de conhecimento. Tal interface permitiria compreender o lugar do velho na sociedade contemporânea e os efeitos desta em seu psiquismo, tentando evidenciar quais meios usaríamos para a nossa finalidade, que é a promoção do reposicionamento do velho frente ao social. Essas questões serão objeto de estudo do próximo capitulo.

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CAPÍTULO II

A VELHICE:

ASPECTOS PSÍQUICOS E FORMAS DE RELACIONAMENTOS NO SOCIAL

Tão velho estou como árvore no inverno, vulcão sufocado, pássaro sonolento. Tão velho estou, de pálpebras baixas, acostumado apenas ao som das músicas,

à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético dos provisórios dias do mundo:

Mas há um sol eterno, eterno e brando e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada: já não é a minha, mas a do tempo,

com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu: mas um fantasma de tudo.

Recebereis em mim muitos mil anos, é certo, com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda:

que os destroços, mesmo os da maior glória, são na verdade só destroços, destroços.

“A Velhice Pede Desculpas”

Cecília Meireles, in. Poemas 1958

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2.1. Aspectos Psíquicos da Velhice

A velhice é algo inominável, pois pode mudar de sentido e ser sentida de maneiras diferentes em diferentes contextos sociais e psicológicos. Como falar de algo que não se sabe, pois não se conhece e quando se torna conhecido, não há palavras suficientes para descreve-lo? Quais questões psíquicas estão presentes nesse sujeito? Para que obtenhamos as respostas, torna-se necessário nomeá-la, primeiramente.

Ora, se não tem um nome, pode tê-los todos, e então a velhice vira uma espécie de buraco negro, onde qualquer interpretação pode entrar, qualquer representação ser possível e onde permanecemos ignorantes sobre o que realmente contém. (GOLDFARB, 1998, p. 9)

Conforme nos diz Jack Messy em “A Pessoa Idosa Não Existe” (1993, pág 33) “Se o envelhecimento é o tempo da idade que avança, a velhice é o da idade avançada, entenda-se, em direção à morte”. A proximidade com a morte, a mera visão de finitude, coloca o sujeito face à face com a sua própria incompletude e com o desenrolar do envelhecimento e a chegada da velhice. O único destino tido como certo é a morte. Entretanto, sabemos que a morte é desconhecida, apesar de inevitável e, de acordo com Mucida (2017, p. 144) “Amedronta na velhice a morte do desejo e não outra coisa, amedronta o sentido da repetição e do gozo, e é aí que a morte reina soberana”.

De acordo com a psicanálise, o sujeito do inconsciente não envelhece, o que acontece é um apagamento do desejo do sujeito, que o torna fadado a esperar a morte real, pois morrendo o desejo, podemos dizer que morre simbolicamente o sujeito.

Também podemos nos referir ao apagamento do desejo como uma “desnarcisação”, que incide na “economia libidinal” do velho, fazendo com que o

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desejo fique inerte, não circule, pois não há uma perspectiva de futuro, portanto, não é possível “refazer qualquer traço de sua existência”. (BIRMAN, 1995, p. 39)

O envelhecimento em si, causa grande sofrimento, em virtude de acontecimentos que vão ocorrendo no decorrer da vida do sujeito. Alfredo Jerusalinsky em “Psicologia do Envelhecimento” (1996), vai salientar o fato de que é na velhice que as queixas irão tornar-se reais, deixando de ser imaginárias. Ele denomina esse quadro de Neurose do Envelhecimento, caracterizada por traumas que abalam a estrutura do sujeito.

São elencados oito traumas, conforme o autor que se estuda, os quais passamos a apresentar. O primeiro é a perda dos “pais reais”, que lançaria o sujeito a confrontar a sua própria morte ao identificar-se com os “pais perdidos”.

O segundo trauma trata-se da “constatação do definitivo”, daquilo que pertence ao sujeito desde os primórdios de sua estruturação e que não pode mais ser mudado, devido à repetição que já atingiu “tal grau de insistência” o qual não permite o sujeito “negar a constância de seu fantasma e de seus sintomas”.

O terceiro trauma é a “diminuição da potência”, que representa o atenuar da “consistência fálica”, da diminuição do simbolismo que o corpo reproduz e da “potência imaginária” que equivale ao “reconhecimento social”.

O quarto trauma vem de forma que “os protagonistas são os outros”, sendo o momento no qual os velhos acreditam não ter mais nada a oferecer à sociedade e vão saindo de cena “para não suportar as consequências – devastadoras – dum esvaziamento do valor narcísico de sua imagem”, deixando o lugar para os mais jovens (Jerusalinsky, 1996, p. 4-5).

O quinto trauma vem de encontro ao “futuro mínimo”, “uma minimização do futuro, da qual se extraem as principais significações da vida que ainda resta”, isto é, o fantasma encontra-se no futuro, mas um futuro limitado.

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O sexto trauma é a “perda dos pares”, que é quando o sujeito se depara com a morte daqueles “capazes de escutá-lo” e compreendê-lo e é quando há a “extinção de fragmentos extensos da rede de significações com as quais o sujeito se representava no discurso social”.

O sétimo trauma é a “degradação do corpo”, fato que angustia mais a mulher. Mas, devido às mudanças ocorridas na sociedade, atualmente vemos os corpos masculinos e femininos se igualarem nessa angustia, que tende à conservação dos corpos, numa tentativa de “negar a castração”.

O oitavo trauma é “o diálogo com a morte”, que é o momento em que todas as tentativas defensivas fracassam e, como última alternativa, ocorre “o dialogo cotidiano com a morte”, de forma que o sujeito negocia com ela para que não seja “tomado de surpresa”. Essa é a forma de elaborar as fases encontradas diante da morte: indignação, rebelião, depressão, renúncia, resignação. (Jerusalinsky, 1996).

Delia Catullo Goldfarb em “Corpo, Tempo e Envelhecimento” (1998), enfatiza a falta de investimento que o social oferece em contrapartida a tudo que o sujeito, velho, já ofereceu e proporcionou à sociedade. Na velhice, assim como na adolescência, o sujeito tem certo estranhamento quanto à imagem e passa pela fase do chamado “espelho negativo” que, de acordo com a autora, seu reflexo no espelho social, viria impregnado de declínio e desvalorização, reflexo representado e proveniente do olhar do outro, que seria a sociedade. O sujeito não se reconhece na própria imagem e tem dificuldade de reconhecer também seu significado e valor. (GOLDFARB, 1998, p.36).

O estranhamento, acima referido, tem a ver com a relação especular, na qual o sujeito duplicaria sua imagem, de forma a sobreviver ao que lhe é estranho. Duplicando-a o sujeito é capaz de transferir para o outro a sua agressividade, mas também o seu fascínio, tendo neste outro um rival e um igual.

Encontramos também em Mucida (2017, p. 102), o pensamento freudiano acerca desse fenômeno. Ela entende então, “que a ideia de duplo não desaparece

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após a passagem do narcisismo primário ao secundário; ela receberá um “novo significado nos estágios posteriores, como a função de observar e de criticar””.

A partir desta reflexão, podemos dizer que “o velho é sempre o outro”, pois o sujeito, o velho, não vê seu próprio envelhecimento, mas sim e somente o do outro. E, quando se depara com aquele que era no passado, o qual não é mais, perde qualquer “possibilidade de realização futura”. A lembrança do que ele foi um dia, toma sentido de “enlaçamento com algum traço do ideal do eu”, passando do “eu serei assim” ao “eu fui/era assim”. Esta denominação, que remete ao passado e apenas a ele, pesa sobre os ombros do sujeito, ao idealizar um passado e não conseguir viver o presente.

O estranho familiar é a lacuna diante do qual o sujeito não tem palavras para nomear, restando-lhe buscar, entretanto, na cadeia significante – no tesouro significante – representações possíveis disso que escapa. Diríamos que o estranho é o efeito do encontro do sujeito com o real sem um suporte adequado do imaginário e do simbólico, ou quando esses dois registros se encontram incapazes, mesmo que momentaneamente, de dar um tratamento ao real. (MUCIDA, 2017, p.105)

De acordo com Mucida (2017), é na velhice que o sujeito se depara com o real das perdas, é o momento em que há o declínio fálico, a perda da potência, o enfraquecimento dos laços. A velhice compele o sujeito à atualização de seu passado de forma que venha a se enlaçar com o seu futuro, revestindo o seu desejo.

Equiparando-se à intensidade com que se coloca um passado presente e um futuro incerto, a morte atrelada à velhice vem colocar fim à vida do sujeito e dos seus anseios, de forma que o sujeito, ao negar a velhice, nega a própria morte e o sentimento de finitude. Conforme Mucida (2017, p. 135), “A conjunção tão frequente entre velhice e morte desloca a morte para um futuro sempre incerto e, imaginariamente, sempre longe e no qual não nos vemos. ”. A morte é causadora de angustia, pois assemelha-se à castração, impõe um limite e, de certa forma, introduz a condição do impossível.

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Ao pensar em sua breve passagem pela vida, mais propriamente por se dizer, sua transitoriedade, o sujeito insere-se de maneira inevitável e imediatamente na antecipação do “luto pela perda”2, extraindo do “real seu caráter de inesperado”3.

Nessas perdas se incluem o ideal de corpo, o qual outrora era macio e “abrigo de sonhos”. É substituído pela flacidez e impossibilidade de futuro, comprometendo também a sexualidade e o desejo do sujeito. Quando falamos de sexualidade e desejo não nos referimos apenas ao que é físico e orgânico, mas sim ao que é estrutural do sujeito.

De acordo com Freud (1905) apud Mucida (2017, p. 156), “o desejo e a libido não têm idade, e a sexualidade adulta é a sexualidade infantil”, ou seja, a sexualidade encontra-se irrefutável durante toda vida do sujeito, se realizando através das pulsões parciais, não fixando-se apenas à função biológica e irá se apresentar na relação que cada sujeito tem com o objeto do seu desejo, estabelecido pelo seu fantasma.

A realidade do inconsciente é a realidade sexual; é o fantasma que estrutura a relação do sujeito com seu objeto de desejo e o sustenta como desejante; o sujeito “se sustenta como desejante em relação a um conjunto significante cada vez mais complexo. ”4. Não é a idade que determina a

ausência do desejo e, muito menos, a ausência ou a presença de relações sexuais, mesmo que estas possam ser inscritas na velhice sob tecidos diferentes daqueles encontrados na adolescência, nos quais computar os orgasmos é uma forma usual. (MUCIDA, 2017, p. 157)

O desejo pode encontrar outras formas de inscrição para o velho, uma nova roupagem. Cabe ao sujeito saber vestir esse desejo e se apropriar dele. Nesse sentido, entende-se que, cada indivíduo busca ou desenvolve uma satisfação que lhe é singular.

2 MUCIDA, 2017, p.135 3 MUCIDA, 2017, p.135

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Em uma sociedade na qual o imperativo é o gozo a qualquer custo e que acredita ser possível recuperá-lo através de objetos quaisquer, o sujeito cede de seu desejo para encontrar prazer momentâneo, porém, não encontra equivalência sexual, pois o encontro sexual é sempre faltoso e, só um corpo marcado pelo desejo é capaz de desejar. Portanto a sexualidade do velho, torna-se um tabu, pois acarreta limites ao gozar, expondo o real da castração.

A menopausa, as modificações corporais, as mudanças de desempenho sexual, tudo isso não é indiferente ao processo de envelhecimento e exige, como outras perdas ou modificações, um trabalho de luto, porque tocam diretamente naquilo que toda sexualidade expõe ao ser falante: a realidade do inconsciente. (MUCIDA, 2017, p.161)

Indubitavelmente, o envelhecimento acarreta diversas perdas e para que possam ser ressignificadas é necessária uma elaboração, para que o sujeito não venha a cair em uma depressão. O processo de elaboração do luto implica a presença do Outro, assim como a de recursos simbólicos, de forma que o sujeito venha simbolizar todas essas perdas.

2.2. A Segregação do Velho na Sociedade Contemporânea

O lugar do velho oscila constantemente no decorrer da história da humanidade, por ora é o indivíduo mais importante da sociedade em que vive e em outros momentos, todo o seu poder é retirado. Apesar de ser valorizado em algumas culturas, em outras subestima-se sua experiência de vida e seu saber.

Com a chegada da contemporaneidade e as mudanças que ocorreram na sociedade, houve um momento em que o velho deixou totalmente de ser referência de poder e saber. O seu lugar dentro do social, sofre uma mudança drástica. O velho é colocado à margem e desvalorizado culturalmente, por não possuir o mesmo vigor físico de outrora, em uma sociedade onde o capitalismo predomina.

É com essa sociedade contemporânea e capitalista que o velho se depara hoje e, não só se sente desconfortável com a sua situação e vulnerabilidade, como

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também parece causar desconforto ao seu redor, pois traz à tona muitas questões que comprometem a satisfação completa dos sujeitos.

Sabemos que o discurso é o formador do laço social e nada é mais prejudicial para a velhice do que o discurso e a prática capitalista. Esse destitui o velho e seu saber, afastando-o sorrateiramente da sociedade, deixando isso explicito no seu “horror a decrepitude”, que despreza tudo que possa vir barrar ou colocar limites ao gozo. Pois, segundo Freud (in. 2010), no sujeito:

Surge a tendência de segregar do eu tudo que possa se tornar fonte de semelhante desprazer, de lança-lo para fora, de formar um eu de prazer, ao qual se contrapõe um exterior desconhecido, ameaçador. (FREUD, p. 47, in.2010)

O que nos faz pensar na segregação asilar do velho, que é cada vez mais frequente. Com o pretexto de que em uma casa de repouso ou asilo, ele será melhor cuidado, acompanhado e amparado, a família se desfaz de seu velho. Então, as visitas, que eram regulares, tonam-se mensais, até se esvaírem.

Em uma instituição para idosos, os sujeitos lá inseridos, costumam ter horários definidos para sua rotina diária, de forma com que se adaptem ao andar da instituição. Entretanto, traços da personalidade individual vão sendo apagados. Para se encaixar e pertencer a um determinado grupo, o sujeito opta por deixar a sua individualidade de lado, para acompanhar a coletividade. Já, na segregação asilar, não é uma decisão espontânea, voluntária do sujeito de se inserir no grupo e ali permanecer, é uma necessidade, pois o velho já não tem para onde ir. Dessa forma, perde-se o pouco de identidade que ainda resta ao sujeito, principalmente quando lhes são retirados objetos pessoais, para que ninguém seja diferente do outro, uniformizando a coletividade.

Nessa empreitada, além do excesso de medicamentos antidepressivos e inúmeros “calmantes” que buscam calar sob qualquer preço aquilo que insiste em não calar, impera a uniformização dos quartos, dos utensílios a serem utilizados, das atividades. Os sujeitos devem deixar para trás todas as lembranças, todos os hábitos, todos os gostos e escolhas para se adequarem ao grupo. (MUCIDA, 2017, p. 87)

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E o ser humano tem a tendência de excluir de seu convívio tudo que lhe causa estranhamento e a velhice provoca isso, pois o sujeito está defronte ao seu futuro. Então, cria-se uma comunidade separada (ou à parte) da sociedade, para que o mal-estar seja silenciado, pois em sua velhice, não é só trabalho e cuidado que o velho irá demandar de seus familiares e o “fardo” que começa a pesar, não tem a ver só com o estado físico, mas daquilo que o velho vem representar para aqueles que o cercam: um limite para o gozo.

E, para o idoso, é isso que a velhice representa, pois, a partir do momento em que o sujeito se torna mais velho e se dá conta de seu envelhecimento, certas práticas, que muitas vezes propiciam prazer, deixarão de ser convenientes, de acordo com as normas e valores culturais impostos. Como forma de resistência a estas imposições, diversas reações podem aparecer no humor do velho, como forma de contestar o apagamento de seus traços subjetivos, por exemplo, a teimosia e o acumulo de objetos que ganham os mais diversos significados. Entretanto:

Outras formas menos silenciosas de recusa à ordem imposta podem surgir, e, no melhor dos casos, a contestação pela palavra – pouco tolerada pelas instituições. Alguns idosos resistem ao apagamento de seus próprios traços mesmo que seja pela via do ódio ou da pirraça, como afirmam. (MUCIDA, 2017, p.87)

Mas o silêncio e a depressão, acompanhados da solidão que sentem, mesmo estando inseridos entre tantos outros iguais, são os mais preocupantes para a vida psíquica dos velhos. Portanto, torna-se imprescindível que um olhar mais atento e especializado seja dado ao velho, para que ele possa “fazer furos à segregação”5

através de seu sintoma, pois está pode ser uma das vias pela qual a sublimação acontece.

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2.3. Os grupos e a Psicologia com idosos

Quando o sujeito identifica-se com o significante idoso, produz muitos sintomas e delega ao Outro a sua “administração”6, deixando de fazer por si, coisas

que anteriormente eram habituais e faziam parte de sua rotina, o que o tornava independente. Esta dependência do Outro, causa uma certa acomodação, onde, mesmo havendo queixas, o sujeito permanece nesta posição, pois torna-se mais fácil não ser responsável por si mesmo e não ter que lidar com seus próprios desejos. Volta a prevalecer o desejo do Outro.

Freud (1898) acreditava que a partir de determinada idade avançada, a análise não era indicada, devido a plasticidade da mente que não permitiria ao sujeito ressignificar as suas questões. Mas como sabemos, o sujeito do inconsciente não envelhece, é crucial que o sujeito encontre um destino para sua pulsão7 e este

se daria através da sublimação8.

Vê-se que o próprio trabalho psíquico pode ser fonte sublimatória juntamente com outras atividades, tais como a criação artística, a criação cientifica e todas atividades livremente escolhidas que se ligam às inclinações existentes em cada sujeito. (MUCIDA, 2017, p. 91)

Entretanto, Freud apud Mucida (2017, p. 91), enfatiza “o efeito temporário da sublimação”, e que esta não seria forte o suficiente para o sujeito esquecer a “aflição real”, pois não é possível sublimar tudo e um suposto fracasso vem impor um “mais ainda”, pressupondo que “algo de real e de impossível resida em seu desenlace”.

Todos os caminhos sociais que foram abertos durante a vida do sujeito, com a chegada da velhice, tornam-se inacessíveis. Com a aposentadoria que vem

6 MUCIDA, 2017, p. 89.

7 Limite entre o psíquico e o somático; sua fonte é corporal; a pulsão se dirige a um objeto, mas não o

encontra, pois trata-se de um objeto perdido, então, o cria e volta-se sobre si mesma, encontrando sua meta que é sempre a satisfação. É a origem do conflito que determina a formação dos sintomas. FREUD (1915).

8 Um dos destinos da pulsão; Mecanismo de defesa; transforma impulsos indesejados em algo menos

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diminuir consideravelmente o poder aquisitivo do velho, reduz também, de acordo com Mucida (2017, p. 92), “as possibilidades de participação em atividades pelas quais o idoso poderia encontrar caminhos da sublimação, por exemplo, as advindas nos campos da arte e da cultura”.

Geralmente, nos grupos e oficinas dedicados aos idosos, a prática de produção de objetos serviria apenas para preencher um espaço vazio no dia do velho, o que o faz produzir de maneira automática, sem perspectivas, não dando espaço à sublimação. Não que estas atividades não sejam importantes, de fato o são, pois faz com que o velho crie ou mantenha laços sociais. Mas o que percebe-se é que estas atividades não são voltadas para os traços particulares de cada sujeito, não colocando em evidencia a sua subjetividade, de um modo que não há a possibilidade de satisfação pela sublimação.

Para isso é necessário que para além dessas atividades, o velho tenha um espaço de escuta, onde possa enlaçar seu passado e futuro, de forma que venha a ressignificar sua existência e revestir o seu desejo, através da palavra. E, conforme Mucida (2017, p. 193), “sabemos que o passado é reatualizado no presente e, ao falar do presente, é o passado que está em causa”.

Cada caso coloca-se de maneira diferente, o que exige uma maleabilidade do terapeuta em sua condução. A direção que o tratamento irá tomar, depende da relação que o sujeito tem com seu sintoma e o gozo, o que vai para além da idade. E torna-se importante salientar que, apesar da estrutura do sujeito não poder ser modificada, é possível “modificar a relação do sujeito com aquilo que o determinou”9,

colocando o sujeito como responsável por essa determinação.

(...) a velhice traz, como demonstramos, um confronto entre o sujeito que não envelhece e a velhice – momento em que dadas as intensas perdas e modificações corporais -, impõe, sobretudo, a construção de um saber que possa tratar o encontro com esse real. Aliás, a exigência de trabalho advém do próprio aparelho psíquico; os investimentos não cessam e muito menos a força do recalque. (MUCIDA, 2017, p. 194)

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Quando o velho chega para o atendimento clínico psicológico, raramente ele busca esse serviço por decisão própria. Geralmente a demanda inicial vem por parte de um familiar, o qual o levou para o tratamento. Mas, é fundamental que, com o andar da terapia, o psicólogo interrogue sobre a demanda do próprio paciente e busque uma implicação subjetiva do sujeito com a mesma. A terapia pode e deve ser um dispositivo que permite ao velho se implicar e se responsabilizar pelo seu desejo, mesmo quando se encontra dependente do Outro.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com a elaboração deste trabalho, pude perceber o quanto o lugar do velho sofreu oscilações no decorrer da história da humanidade. Estando em alguns momentos em evidencia dentro do social e, outrora, à margem da sociedade ou como um elemento meramente ilustrativo.

E a perda deste lugar no social é mais uma, dentro das tantas outras perdas, que o sujeito sofre com o passar dos anos e a chegada da velhice. No qual o declínio físico e biológico se acentua, ocasionando também marcas psíquicas, que fazem com que o velho não tenha perspectiva de futuro.

O envelhecimento que é considerado algo natural, pode não ser tão bem aceito pelo sujeito, que buscará inúmeras maneiras de retardá-lo, como forma de negar a sua finitude e tudo que venha a se relacionar a ela. Porém, sabemos que este é um processo singular de cada sujeito. Cada um envelhece à sua maneira.

A maneira com que a sociedade contemporânea concebe a velhice, faz com que os indivíduos pertencentes a ela, coloquem o velho em um grupo separado, para que convivam com seus iguais. Segregando, desta maneira, o sujeito. Isso quando o próprio sujeito não segrega a si mesmo, em vista do desconforto que causa com sua presença.

O papel da Psicologia é possibilitar a compreensão desse estágio da vida por parte do sujeito. Fazendo com que ele se implique em sua própria demanda, se responsabilize por si mesmo e seus desejos, venha a sair de sua zona de conforto e confronte a atual situação na qual se encontra. Acomodar-se acarretaria no apagamento desse sujeito e do seu desejo, o que o coloca à mercê do Outro.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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FREUD, S. (1915). As pulsões e suas vicissitudes. In: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996, vol. XIV.

GOLDFARB, D. C. (1998) Corpo, Tempo e Envelhecimento. Casa do Psicólogo, São Paulo. In: DELALIBERA, M. A. A imagem do corpo e a angústia do corpo no

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Referências

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