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Função e tarefa da Faculdade de Teologia da IECLB

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Academic year: 2021

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Função e tarefa da Faculdade de

Teologia da IECLB

G. Brafcemeier

I.

De acôrdo com a opinião de m uitos membros d a nossa Ig reja e mesmo de m uitos dos seus pastores cabe à Faculdade de Teolo­ gia essencialm ente e exclusivamente a form ação dos futuros m i­ nistros eclesiásticos. A ta re fa está cum prida no m om ento em que- õ índice de aprovações no prim eiro exam e teológico p erm itir o suprim ento das paróquias e os formados disporem das convicções e do cabedal de conhecimentos necessários p a ra o exercício ade­ quado das atividades pastorais. À Faculdade de Teologia, p o rtan ­ to, é atrib u íd a a função de u m a “escola”, cuja finalidade consiste em p re p a ra r e tre in a r os estudantes p a ra a su a fu tu ra profissão.

Devemos p erguntar, no en tan to , se essa finalidade poderá ju s­ tificar a existência e a m anutenção dispendiosa de um a faculda­ de (!) e, se form ação teológica realm ente não passa de simples trein am en to profissional, orientado unicam ente nas necessidades da p rática do m inistério. Se assim fôsse, a preparação dos candi­ datos ao m inistério poderia ser delegada a Escolas Bíblicas ou a Seminários de nível inferior, as exigências do estudo poderiam ser reduzidas e a escolha dos respectivos professôres e educadores poderia obedecer a outros critérios. A designação “Faculdade de Teologia”, porém, engloba um determ inado program a e reivindica seja oferecido ao estu d ante u m certo tipo de formação, a saber, formação teológica em nível científico. A seguir tentam os tra ç a r as implicações dessa concepção.

Com boas razões todo cristão, desde que êle raciocine sôbre assuntos de fé, pode ser cham ado de teólogo, embora seja claro haver enormes diferenças de g ra u e de profundidade n a s reflexões teológicas dos respectivos indivíduos. Não obstante perm anece inegável que o em preendim ento d a teologia não constitui privilé­ gio de um certo grupo ou de um a certa, instituição n a Igreja, m as é incum bência de todo aquêle que se responsabiliza pela su a fé e que n ão se satisfaz em reproduzir e em aceitar cegam ente o que a sua Ig reja lhe propõe como doutrina. Se, pois, a Faculdade de Teologia arrogasse a si a função de prom otora e g u ard iã exclusiva d a teolo­ gia, ela iria privar as com unidades d a su a responsabilidade teoló­ gica e iria com bater o processo de crescim ento dos cristãos p a ra a maioridade. Todavia, a Faculdade de Teologia exerce, no âm bito d a Igreja, funções peculiares. Mais do que o u tras instituições ela se sabe devedora d a teologia científica, promovendo o pensam ento teológico m etodicam ente. Visto que ela dispõe de possibilidades

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p a ra a pesquisa científica que norm alm ente ultrapassam as possi­ bilidades m ateriais, tem porais e tam bém intelectuais d a m aioria dos integrantes da Igreja, ela cum pre u m a função vicária, por ordem e em benefício d a Ig reja tiôda. A Faculdade de Teologia pretende ser, por excelência, fôro de pesquisa científica e de livre discussão teológica, responsável apenas p eran te aquela verdade, d a qual a Ig reja vive. Sendo “ex officio” advogada e prom otora d a teologia em moldes científicos, a Faculdade exerce êste seu carism a em função do Corpo de Cristo.

A p a rtir dessas prem issas podemos form ular os objetivos d a formação teológica como segue. Estudo n a Faculdade de Teologia sòm ente poderá ser estudo científico. Isso im plica em que o estu ­ d an te n ão é doutrinado nem sim plesm ente fam iliarizado com téc­ nicas e métodos práticos p a ra poder aplicá-los posteriorm ente n as comunidades, m as que êle é confrontado com a ciência d a teologia n a incum bência de u m a procura autônom a pela verdade. Em diálogo com correntes teológicas an tig as e m odernas, com ideolo­ gias e filosofias, o estu d an te é induzido a a ch a r o seu cam inho próprio e a justificar com argum entos sólidos a su a fé. Quer dizer, a Faculdade de Teologia visa à form ação através d a pesquisa, leva­ d a a efeito pelo esforço conjugado de docentes e estudantes. No estudo acadêmico a form ação está vinculada à pesquisa. E sta é o meio de form ação e determ ina, a té certo ponto, o método d a mes­ m a, concedendo ao estu d an te u m m áxim o de liberdade, ta n to no que se refere à escolha d a tem ática a ser tra ta d a , como tam bém no que se refere à exteriorização de convicções e à defesa de teses, com a única restrição de que essas deverão ser aprovadas por meio de u m a argum entação condizente com os métodos de trabalho científico.

Conseqüentem ente o objetivo d a form ação teológica n ão poderá consistir, desde já, n a criação de “funcionários” p a ra a Igreja, pois o estudo d a teologia deve abstrair, por algum tempo, d a fu tu ra p rática profissional dos form andos p a ra dar-lhes a liberdade de u m a busca engajada da verdade, sem compromissos prem aturos e sem qualquer pressão que eventualm ente resulte de u m a tu te la doutrinal inconveniente. Não é necessário que a decisão de estudar teologia coincida de antem ão com a decisão de servir posterior­ m ente como m inistro n a Igreja. Em bora seja n a tu ra l o estudante m atricular-se n a Faculdade de Teologia com certas ambições pro­ fissionais, êle deverá te r a liberdade de reexam inar a sua decisão d u ra n te o estudo ou mesmo após a conclusão do curso. Esperamos que o estudo d a teologia desperte a alegria de cooperar n a difusão do evangelho, m as qualquer tipo de m anipulação por p a rte de te r­ ceiros viajLa os direitos do indivíduo.

Com essas teses, possivelmente, nos expusemos ao perigo de sermos m al entendidos. De form a algum a afirm am os que trab alh o teológico seja legítim o ao lado d a Ig reja ou independentem ente dela. A Faculdade de Teologia n ão é autosuficiente e ela n ão d eter­ m in a arb itràriam en te a tem ática que form a o objeto dos seus estu­ dos. Pelo contrário, teologia científica, preocupada em evitar o

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perigo de se to m a r estéril, necessita das experiências d a Igreja, ela necessita d a com unidade como base, recebendo dela os impulsos p a ra um trab alh o proveitoso e frutífero. O assu n to cen tral de tôda teologia cristã é o evangelho, m as a p rá tic a fornece à teologia as perspectivas, sob as quais êste evangelho será interrogado e a n a ­ lisado. Teologia c ristã semptre tem dimensões práticas, ela tem implicações com a realidade em que vivemos, de modo que pode­ mos dizer: A su a ta re fa consiste n a confrontação d a n o ssa realidade com o evangelho e do evangelho com essa realidade. U m a teologia que não é a tu a l nesse sentido, ig n o ra u m lado im po rtan te daquilo que é e dificilm ente estará a serviço d a “viva vox evangelii”. Por outro lado, porém, cabe-nos enfatizar que teologia imo é simples­ m ente o conjunto de teorias sôbre como aplicar verdades evangéli­ cas im utáveis. A tualidade e aplicabilidade d a teologia são duas coisas distintas. Por essa razão devem ser distinguidos igualm ente estudo d a teologia e trein am en to profissional. Não contestam os a necessidade de um bom preparo profissional dos estudantes, sendo que a pergunta, como coordená-lo com o estudo científico n o cu rrí­ culo d a Faculdade, constitui um problem a especial. Defendemo- nos, en tretanto , co n tra o perigo de su b stitu ir u m a coisa pela o u tra. Entendem os ser ilícito considerar a teologia preferencialm ente sob o aspecto d a su a aplicabilidade, porque im porta saber a n tes o que deve ser “aplicado”. Ju stam en te as Igrejas com a tradição d a Re­ form a do século XVI n ão poderão dispensar-se de um contínuo esforço pelo quê d a pregação, isto é, pelo evangelho e por u m a compreensão co rreta do mesmo nos dias atuais.

Essas considerações nos perm item dizer agora positivam ente em que reside o objetivo d a form ação teológica. E la quer levar o estu d an te a um trab alho teológico autônom o, ela quer desenvolver o juízo teológico, dando ao estu d an te a chance de ach a r critérios que o capacitam a proceder ao carism a do “discernim ento dos espíritos”, postulado pelo apóstolo Paulo ( l.a Cor. 12). Por isso for­ m ação teológica n ão poderá lim itar-se à transm issão e à aquisição de conhecimentos, nem a um a introdução em questões teológicas possivelmente superadas ou n u m a dogm ática qualquer. O teólogo deverá ser capaz de decidir problem as teológicos, com os quais êle se vê defrontado n a m ultiform e realidade da vida diária, em res­ ponsabilidade própria p eran te o evangelho, êle deverá ser capaz de dizer o mesmo evangelho de todos os tem pos de m an eira nova e válida nos dias a tu ais e êle devem ser h ab ilitad o p a ra o diálogo crítico com o mundo. Form ação teológica represento um processo de emancipação, no decorrer do qual ocorre a libertação gradativa de autoridades interm ediárias, tom ando-se norm ativa apenas aquela verdade que, segundo o evangelho de João, é Deus n a sua revelação em Cristo.

A Faculdade de Teologia seria arrogante, se ela perseguisse a m eta de produzir teólogos prontos. Isso n ão é possível por dois motivos. Em prim eiro lu g a r consta que u m estudo de nove a onze sem estres n ão b a sta p a ra alcan çar o alvo pleno d a form ação teoló­ gica. E sta n ão poderá lim itar-se ao período d a adolescência hum

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a-na, m as deverá perdurar, de c erta forma, a vida tôda. Assim como o hom em jam ais deixa de aprender e d e colhêr experiências, assim tam bém não existem os definitivam ente formados em m atéria de teologia. Como tô d a formação, assim tam bém a form ação teológica permanece, em ú ltim a análise, inacabada, necessitando de cons­ ta n te com plem entação e aperfeiçoam ento. Mas tam bém u m outro motivo impede que a Faculdade seja, no que diz respeito aos resul­ tados dos seus trabalhos, demais pretensiosa: Formação de homens é u m processo com caracteres m uito individuais. Por isso a Facul­ dade pode oferecer as chances p a ra a formação, ela pode m otivar, incentivar e de certo modo tam bém o rien tar a form ação dos estu­ dantes, m as ela deve abster-se de todo dirigism o e de tô d a interfe­ rência au to ritá ria n a mesma. É claro que isso, p a ra o formando, não significa perm issão p a ra arbitrariedades ou p a ra abusos d a liber­ dade oferecida, e, não obstante, devemos e sta r cientes de que for­ mação teológica será a u tên tica apenas, se puder processar-se nu m clima de liberdade e se concedermos a cada indivíduo a possibili­ dade de p ro cu rar e de trilh a r o seu cam inho insubstituível. Lògica- m ente a Faculdade não pretende proporcionar n a d a m ais do que u m a iniciação no trab alh o e pensam ento teológico científico, alen­ tan d o p a ra que seja dado o prim eiro passo n a senda d a auto-for- m ação que n ão cessa com a prestação do exame final.

P a ra a Ig reja e p a ra a própria Faculdade u m a ta l formação a ca rre ta riscos e perigos, pois tr a r á consigo um pluralism o de con­ cepções, po r vêzes co ntrárias um a à outra. Ela significa que a Igreja desiste de exercer contrôle rígido ou fiscalização d ireta do trabalh o pesquisador d a Faculdade, firme n a confiança de que a fôrça d a verdade e do Espírito S anto seja suficiente p a ra se impór. Não obstante, a Ig reja arrisca eventuais fracassos e decepções. Além disso, professôres e dirigentes d a Ig reja deverão expor-se às críticas que provêm do círculo dos estudantes, e, o próprio convívio dos estudantes e sta rá sujeito a tensões que podem ser suportadas ou superadas unicam ente pelo espírito d a compreensão e d a tole­ rância m ú tu a. O in stru m en to capaz de g a ra n tir o êxito e de aper­ feiçoar a form ação é, em ta l am biente, o diálogo sincero que não som ente pressupõe conhecim ento de causa e habilidade de arg u ­ m entação, m as, talvez em escala ain d a m aior, qualidades hum anas. Form ação teológica científica é com prada pelo preço dêsses riscos, riscos aliás, que, como a experiência dem onstra, geralm ente não são tã o grandes como m uitos tem em e opinam.

Se tivermos delineado corretam ente função e tarefa, encerradas n a própria designação d a Faculdade de Teologia, a razão de ser da m esm a depende d a resposta a duas perg u n tas de c aráte r decisivo:

1) A Ig reja necessita realm ente d a teologia científica?

2) Será necessário que a totalidade dos pastôres a serem for­ m ados gozem de u m a form ação teológica científica?

II.

Teologia é o esfôrço racional pela compreensão adequada da revelação de Deus em Cristo. Em bora saibamos que o homem não pode crer por pró p ria razão ou fôrça em Deus nem chegar a Êle

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(M. Lutero n a explicação do terceiro a rtig o ), é exigida dêle não sòmente a fé, m as sim tam bém o conhecimento. Fé verdadeira jam ais é cega. D estarte ela não pode sèr atitu d e de u m a m era p a rte do cristão, qual seja o seu coração, m as é um a form a de existir, abrangendo tôdas as faculdades que o homem possui. Re­ su lta daí a necessidade de o homem conscientizar-se da su a fé, de justificá-la e de distitnguir doutrina falsa e pura. Por isso, teologia é sempre trab alh o crítico, consistindo n u m a avaliação e nu m exa­ m e criterioso da tradição d a Igreja, de su a d o u trin a a tu a l e do seu agir. De um modo geral podemos dizer que tôda e qualquer form a de testem unho hum ano a respeito d a revelação perfaz objeto do estudo crítico d a teologia, sendo por êsse motivo inserida nos obje­ tos da análise crítica a própria Bíblia. Teologia é o constante exa­ me do conteúdo e das bases d a fé cristã. 1

Dêsse exame científico e crítico a Igreja não pode prescindir por várias razões:

1) Uma Ig reja que julga supérfluo o trab alh o teológico crítico, por vêzes penoso e incômodo, será prêsa fácil de heresias, ideologias ou até d a superstição. Â com unidade de Cristo vive no m undo sujeita a tentações, ao perigo sempre im inente de aberra­ ções e p articip a de tôda sorte de fraquezas hum anas. Ela sòmente poderá defender-se co n tra vozes ou correntes deturpadoras do evangelho, sejam elas oriundas do seu próprio am biente ou não, se ela estiver em co n stan te estado de alerta, exam inando conscien­ ciosam ente ta n to o seu próprio falar e ag ir como tam bém as influências ideológicas, doutrinárias e políticas, às quais ela se vê exposta. T rabalho teológico exerce função de vigia e ao mesmo tem ­ po um a função profética, conscientizando a Ig reja de ameaças.

2) Uma Igreja que n ão perm ite trab alh o teológico crítico não pode livrar-se da suspeita de te r domesticado o evangelho. A palavra de Deus, porém, é livre, ela critica inclusive a própria Igreja, promovendo nela sempre novas reformas. Não sendo dona do evangelho, a Ig reja não pode esperar que seja constantem ente confirm ada em sua apresentação atual. Onde crítica teológica fôr proibida, temos um a Igreja que perdeu a capacidade de obedecer a seu Senhor, de ser renovada e de ser viva. Também o mêdo de heresias não justifica que a Igreja cerre as p o rtas ao trab alh o teo­ lógico crítico, pois ta l procedim ento não só impede a identificação clara de u m a eventual d o u trin a herética, não só im possibilita um a verdadeira superação d a mesma, m as tam bém fom enta um tradi- cionalismo perigosíssimo que se recolhe ao b alu arte supostam ente seguro das verdades de ontem , acorrentando o Espírito Santo à tradição e extinguindo, dessa forma, o dinam ism o e a vida d a p ala­ v ra de Deus. T rabalho teológico crítico tem a função de fazer valer a liberdade d a palavra de Deus co n tra tôdas as tendências de do­ mesticação do evangelho n a Igreja.

3) Uma Ig reja que não d á m argem ao trab alh o teológico, de­ m o n stra não estar interessada sinceram ente n a verdade. Ela esquece ou ignora que a revelação de Deus não consiste n u m a soma

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de sentenças com c ará te r de verdades perpétuas, m as n u m evento que teve lu g ar n u m determ inado m om ento histórico e n u m deter­ m inado país do nosso globo. Deus se revelou naquele homem, Jesus de Nazaré, n um israelita que viveu nos prim eiros decênios da nossa era, n a Palestina, ora dom inada pelos romanos. O evangelho é a notícia dêste evento, u m a notícia aliás que se reveste d a form a de testem unho hum ano. Êsse testem unho representa um a te n ta ti­ va de com preender a revelação de Deus e de expressar o seu signi­ ficado não somente p a ra a pessoa d a testem unha, m as tam bém p a ra o mundo, isto é, p a ra a totalidade dos povos e das nações que vivem em época e am biente específicos. N enhum a geração pode desfazer-se desta incum bência: Expressar em testem unho próprio o significado do evento de Cristo p a ra o m undo em que vivemos e que p a ra cada geração se apresenta de form a diferente. Em o utras palavras podemos dizer que o tesouro do evangelho nos é acessível apenas em vasos de b arro (2.a Cor. 4), isto é, em form a de palavra hum ana. Por isso temos o dever de p erg u n tar sempre de nôvo pelo conteúdo dêsses vasos p a ra dar-lhe nova forma. Também essa nova form a certam ente não passará de testem unho hum ano, m as con­ te rá o evangelho p a ra os dias de hoje.

Se a Ig reja se esquivasse dêsse serviço de u m questionam ento sempre nôvo do evangelho n a intenção de descobrir-lhe a verdade, se ela não procurasse um modo de dizer o evangelho de m aneira compreensível no tem po atual, a sua proclamação tornar-se-ia esté­ ril, m o rta e sem vigor. Ela iria tran sfo rm ar a verdade n u m a m úm ia e seria acusada pelo seu Senhor de te r enterrado o talen to a ela confiado em vez de tra b a lh a r com êle. T rabalho teológico crítico é o esfôrço pela sempre nova redescoberta do evangelho e pela liber­ tação do evangelho das incessantes ten tativ as do homem de pren ­ dê-lo nos seus conceitos, seus dogmas e suas tradições.

A teologia tem, portanto, u m c ará te r duplo: Ela é por um lado um a função da própria Igreja. Isso significa que a Igreja é a pro­ m otora da teologia; ela necessita dela e é por ela beneficiada. Igre­ ja viva te rá um interêsse vital n a teologia, porque dela não pode prescindir sem graves prejuízos e danos p a ra a sua própria exis­ tência. Por outro lado teologia científica, desde que ela seja levada a efeito com sinceridade e em espírito de radical responsabilidade peran te o evangelho, será um elem ento de constante inquietação, de crítica, de revisão de posições e até de tensões n a Igreja. Mas tam bém essa função d a teologia não deixa de ser positiva, embora ela inclua a possibilidade de destruição d a uniform idade. No en ­ tanto, unidade da Ig reja jam ais é idêntica com uniformidade, antes com solidariedade, que su p o rta elementos de índole diversa no mesmo corpo que é Cristo. Teologia é u m a promoção eclesiástica e científica ao mesmo tempo. Que ela seja eclesiástica diz que teo­ logia cristã legítim a nasce no seio d a própria Igreja e que ela é pro­ movida pela mesma. Que ela seja científica diz que ela se sabe responsável unicam ente p eran te a verdade, fugindo dessa forma à domesticação e ao controle arb itrário da Igreja. Também através d a teologia Deus rege a sua Igreja.

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A pergunta, se todos os pastores deverão gozar de u m a in stru ­ ção acadêmica, continua persistindo, não obstante ser a teologia científica m atéria indispensável p a ra u m a Ig reja viva, como aca­ bamos de ressaltar. Freqüentem ente são apontados os seguintes argum entos contra um a form ação acadêm ica geral dos pastôres:

1) O estudo científico n a Faculdade de Teologia u ltrap assa as capacidades intelectuais de m uitos jovens, aos quais, pôsto que dedicados e em penhados n a causa do evangelho, lam entàvel- m ente é vedado o ingresso no pastorado.

2) O estudo científico conduz, não raro, a um “academicismo” nocivo, sendo que os estudantes, por causa d a sua formação teológica superior, perdem as condições de se com unicarem com pessoas simples nas comunidades. O estudo científico produz, assim se alega, um tipo de prédica, acessível à cam ada dos intelectuais, mas com pletam ente estranho às cam adas humildes. Além disso, formação acadêm ica cria possivelmente um a certa consciência de classe nos estudantes, despertando desejos por um certo padrão de vida, etc. Em sum a, form ação acadêm ica dificulta ou até rompe o contato com as classes humildes, impedindo um verdadeiro agir m issionário d a Igreja.

3) Um terceiro argum ento questiona o próprio proveito d a teo­ logia científica p a ra o trabalh o com unitário. C ertam ente não podemos p a rtir da hipótese que n as comunidades reina o mes­ mo espírito crítico como n a Faculdade e que elas estão interessadas em todos os problemas e assuntos, ventilados no decorrer de um estudo teológico acadêmico. £ levantada a p erg u n ta fundam ental, se atingim os com a nossa teologia o ouvinte das nossas prédicas e os que já não m ais as querem ouvir. Estarem os tra ta n d o n a F a ­ culdade de algo que talvez, p a ra a Ig reja seja de im portância, m as que as comunidades individualm ente não aceitam nem exigem?

Apesar de serem de pêso diverso, os argum entos citados obvia­ m ente indicam perigos ou desvantagens de u m estudo rigidam ente acadêmico. Uma certa justificação, portanto, não lhes podemos negar. Por outro lado, piorém, será necessário levar ao conhecimen­ to tam bém as considerações que proíbem um a condenação preci­ p ita d a do sistem a a tu a l d a form ação dos pastôres. As dúvidas, m anifestadas com relação ao estudo n a Faculdade, n ão deveriam conduzir a falsas alternativas, contrapondo-se ao estudo científico u m a form ação acentuadam ente profissional. Dessa form a os pro­ blemas não são resolvidos. Fortes argum entos fazem com que con­ tinuem os optando a favor de u m aprofundado estudo científico de todos (!) os futuros pastôres, reconhecendo, aliás, tam bém a neces­ sidade de u m a intensificação do preparo prático dos candidatos ao ministério. Êsses argum entos form arão o tem a das nossas conside­ rações finais.

Na m edida em que au m en ta a instrução geral da população do nosso país, au m en ta tam bém a responsabilidade intelectual e espi-III.

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ritu a l dos pastôres. N um a sociedade exigente a fa lta de formação teológica conduzirá a frustrações do p asto r que se vê insuficiente­ m ente preparado p a ra o diálogo com pessoas céticas e críticas. Qualidades hu m an as nem sem pre poderão com pensar o “déficit” de instrução e qualificação intelectual. C oncom itantem ente não admitimos que u m elevado g rau de instrução seja b arreira in tra n s ­ ponível p a ra a com unicação com o povo hum ilde, visto que o teó­ logo n ão tem o dever de suscitar problem as inexistentes e de complicar desnecessariam ente a proclamação cristã, m as de reagir a problem as existentes e de o rien tar cuidadosam ente aquêles aos quais êle serve. Não é a form ação científica em si que constitui o perigo, m as u m a soberbia intelectual, que, porém, deveria ser proi­ bida ao teólogo já pela causa, n a qual êle se engaja. Em prol dos interêsses dos próprios m inistros, portanto, será necessário insistir n u m a form ação de alto nível.

Em conexão com essas ponderações será necessário enfatizar que, quem não cultiva a teologia e quem n ão procura instruir-se perm anentem ente, incorre no perigo de u m esgotam ento espiritual e de derram ar, por isso, domingo após domingo as velhas ladainhas sôbre a infeliz comunidade, transform ando dessa form a a boa nova em algo cansativam ente enfadonho. Também em prol de u m a pro­ clam ação viva, atu alizad a e co rreta será necessário in sistir n u m m áxim o de form ação científica. A teologia nos forja as arm as, ta n to p a ra defender a fé co n tra os violentos ataques, dos quais hoje é vítima, como tam bém p a ra agredir u m m undo acomodado ou revoltoso co n tra o seu Criador. Quem não estiver disposto ou capaz de se revestir dessas arm as, n atu ralm en te continua sendo cristão, m as êle n ão deveria am bicionar o pastorado, no qual é indispensável lu tar.

Essa lu ta se m anifesta hoje em dia, e n tre o utras coisas, n u m esforço por remodelação e reestruturação das atividades pastorais em suas formas herdadas. Será necessário precaver-se co n tra o malôgro dêsses esforços, resultando do diletantism o e d a fa lta de penetração e de fundam entação teológica. A elaboração de novos modelos e novos padrões exige não sòm ente experiências práticas, m as tam bém alto g rau de reflexão teológica — um a ta re fa que não poderá ser realizada por u m grupo de pioneiros especializados, m as pelo empenho coletivo de todos os que b atalh am n as frentes das comunidades. Não podemos entregar-nos ao luxo de enfrentarm os o dia de am anhã, trazendo-nos incisivas transform ações n o modo de trab alh ar, com u m a legião de pastôres incapazes de dom inar a situação com a aju d a das suas habilidades teológicas. J á temos salientado que form ação teológica tem a finalidade de increm entar a responsabilidade própria e de desenvolver o pensam ento teológico produtivo, qualidades, portanto, que no processo d a evolução vin­ doura, perfazem requisito indispensável dos que têm o papel de liderar. As exigências do pastorado de a m an h ã não perm item que negligenciemos a formação teológica dos seus futuros titulares.

Enfim, a própria n atu reza d a form ação teológica faz com que continuemos adeptos do sistem a de um estudo científico. Um

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sim-pies treinam ento profissional, relegando a pro cu ra pela verdade ao segundo plano ou restringindo-a ao mínimo, não condiz nem com as m etas d a educação teológica, nem com a autonom ia do indivíduo. Firm eza de íé não poderá ser alcançada através de um a fuga dos problem as e das perguntas, m as unicam ente através de lim a confrontação corajosa com os mesmos, que, u m a vez suporta­ da, im uniza ta n to co n tra u m falso fanatism o como tam bém contra u m a labilidade, cedendo ao m ais leve soprar do vento do ceticismo. Firm eza de fé deve ser conquistada pela. oração e pela procura engajada d a verdade, p a ra a qual n ão existem tabus, criados por

convenção h um ana. i

A nossa apologia do estudo científico n a tu ralm en te n ão signi­ fica legitim ação acrítica e incondicional do a tu a l currículo d a F a ­ culdade. Êste, sem dúvida, deverá ser sujeito a sempre novos exa­ mes e revisões, conforme as circunstâncias o exigirem. Em especial deveria ser estudado o problem a de como coordenar adequada­ m ente form ação científica e treinam ento profissional. D a mesm a form a a integração d a análise do nosso m undo am biental e da pesquisa especificamente teológica constitui assu nto de especial im portância. Não é possível discutir essa problem ática de m omen­ to. C ertam ente u m a condição básica p a ra a solução dêsses proble­ m as será cum prida, se fôrmos unânim es em afirm ar que o estudo d a teologia n a Faculdade deverá te r resguardado o seu caráter científico. As modalidades dêsse estudo poderão form ar objeto de atenção especial em o u tra oportunidade.

Teologia não é m atéria sêca nem m orta. Ela leva ao cerne da nossa existência, exigindo de nós não só o esforço intelectual, mas tam bém a nossa participação engajada e a nossa dedicação in te ­ gral. Em bora h a ja várias barreiras a vencer no currículo d a Facul­ dade, em bora o trab alh o e a pesquisa sejam árduos e m u itas vêzes não levem a resultados imediatos, exigindo por isso paciência, ela é capaz de nos em polgar e de promover em nós u m a libertação singular, sem a qual o exercício d a nossa missão sublime sofreria graves danos.

LITERATURA PARA O LEITOR INTERESSADO:

r L. WEINGÃRTNEBí O objetivo da educação teológica, Estudos Teológicos, Nova Seqüência Ano 5, 1965, p. 161ss

H. ALPERS: Freude a n d er Theologie, Fôlha Dominical, Ano 85, n.° 45, p. 3ss

H. DIEM: Theologie als kirchliche W issenchaft, M ünchen 1951 J. C. MARASCHIN: Novas estru tu ra s p a ra a educação teológica.

Revista Teológica d a ASTE, Simpósio n.° 5, São Paulo, 1970, p. 3ss

R. A. ALVES: Educação teológica p a ra a liberdade, ibidem, p. lOss

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