SEM MOLDE
NEM
PRECEDENTE
1
Darcy Ribeiro
APRESENTAÇÃO EM NOME DA DISCIPLINA “AVALIAÇÃO DE PÓS-OCUPAÇÃO DE
INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR”.
Darcy Ribeiro nasceu em Montes Claros em 26 de outubro de 1922, e faleceu em Brasília, em fevereiro de 1997.
Formado em Antropologia, trabalhou com Anísio Teixeira em projetos educacionais relacionados à universidade brasileira. O maior projeto conjunto desses educadores foi a criação da universidade de Brasília, da qual Darcy foi o seu primeiro reitor. Após com o período de exílio político, Darcy retorna ao governo com Leonel Brizola [1983 – 1987]. Nesse período ele idealiza a Universidade Estadual do Norte Fluminense, que veio a ser efetivamente criada no final da década de
1 Excerto do Texto Original de Darcy Ribeiro, “Sem Molde Nem Precedente”, parte do livro – esgotado -
1980. Essa nova universidade veio receber o seu nome: Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro.
O período do governo Brizola, como Vice-Governador do Estado do Rio de Janeiro, também foi marcado pela criação planejamento implantação dos centros integrados de ensino público, um projeto de educação em tempo integral voltado para crianças e das periferias urbanas. Também foi Senador da República, eleito em 1991, mas faleceu antes de concluir o mandato.
Darcy Ribeiro foi pessoa enorme, merecedor de admiração: íntegro, corajoso, libertário. Este importante texto de Darcy Ribeiro
introduz os estudantes de nossa
disciplina Avaliação de Pós-Ocupação de
Instituições de Ensino Superior no
que podemos chamar História
Crítica da Educação Brasileira. Vamos discutir esse texto em sala. Para nós
Sem Molde Nem Precedente
Darcy Ribeiro (1978)
A UnB nasce sem molde anterior em que inspirar-se, e até mesmo sem precedente vivo e bem sucedido com que emparelhar, tão pobre fora a nossa experiência universitária anterior, e tão infaustas as tentativas de revitalizá-la e lhe dar autenticidade. Só nos consola dessa estreiteza pensar que a própria carência teria, talvez, dado à UnB uma liberdade de se inventar que, provavelmente, seria tolhida em um país melhor servido por universidades que realizassem satisfatoriamente suas próprias ambições.
Toda a história da educação superior no Brasil, aliás, se caracteriza pela tacanhez. Começa com os portugueses, que nunca permitiram que se abrissem cursos superiores na sua colônia, ao contrário dos espanhóis, que criaram dezenas de universidades, na América, a partir de 1536.
O Brasil veio a conhecer seu primeiro curso de nível superior depois da transferência forçada da corte para a colônia americana. Tais cursos, porém, não tinham caráter propriamente acadêmico, uma vez que correspondiam, antes, a preocupações de ordem militar. Um deles se destinava a formar oficiais da marinha; outro, oficiais do exército; e os dois últimos à preparação de cirurgiões militares. Só depois de formalizada a independência foram dados passos para a criação de dois cursos de direito, um em São Paulo, outro em Olinda.
XIX, as autoridades brasileiras se recusaram a aglutinar as escolas superiores do país em universidades. Agora, por uma razão acadêmica que era o acatamento a orientação francesista, que desde Napoleão se opunha à criação de universidades, negando conveniência de submeter as grandes escolas profissionais a uma cúpula autônoma de coordenação. Lá, porém, se contava com a Normal Superior e outras instituições dedicadas ao cultivo e ao ensino dos ramos não profissionais saber, enquanto aqui não tínhamos nenhuma.
Nossa primeira instituição de ensino superior não-profissionalista, organizada para promover a pesquisa e o ensino no campo das ciências humanas surgiu fora da universidade. Foi a Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, criada logo após a derrota da revolução constitucionalista de 1932, com o objetivo expresso de alcançar uma compreensão científica da realidade nacional, que permitisse melhor descortinar as perspectivas de desenvolvimento de São Paulo dentro da civilização industrial. Integraram seu corpo docente alguns dos melhores intelectuais paulistas que, contando com a cooperação de diversos professores estrangeiros, principalmente norte-americanos, atraíam a seus cursos iniciais a elite empresarial e administrativa de São Paulo. Foi a escola de sociologia que inaugurou no Brasil os estudos e as pesquisas de nível universitário no domínio da sociologia, da antropologia, da economia, da história, da psicologia e da estatística. Regida, porém, por uma direção gerencial medíocre, ela só pode realizar discretamente suas enormes potencialidades.
As primeiras tentativas de criação de universidades entre nós ocorrem no fim do primeiro quartel do século XX. Nossa universidade pioneira, que foi a primeira a realizar um gesto propriamente acadêmico - a universidade do Rio de Janeiro, instituída, aliás, com este propósito específico - tinha por fim conceder um título de doutor honoris causa ao rei da Bélgica que visitava o Brasil para as festas de comemoração do
centenário da independência. Depois do gesto, desapareceu.
educação", o Estatuto prescrevia uma estruturação não apenas profissionalista para a universidade. Apesar disto, todas as tentativas de concretizar a foram larvares, não passando de vagos esforços por aglutinar escolas preexistentes. Como tal não tiveram conseqüência prática. Assim foi até o surgimento da universidade de São Paulo (1934), por iniciativa do governo do Estado, que a instituiu de acordo com o plano orgânico de estruturação que visava a alcançar simultaneamente três objetivos fundamentais:
- Cobrir todos os campos do saber e cultivá-los por seu valor em si, e não por sua eventual aplicabilidade na formação de profissionais liberais.
-Superar o caráter de meros conglomerados de escolas das faculdades preexistentes através da instituição de uma faculdade integrativa que articulasse seus vários componentes de modo a possibilitar uma vivência universitária fecunda.
-Promover a formação universitária de professores para o nível secundário.
A fim de alcançar estes três objetivos, foi criada a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, cujos cursos iniciais foram entregues a uma dezena de professores especialmente contratados na Europa. Seria uma faculdade de novo tipo, planejada para operar como o núcleo central e integrativo - a alma mater, como se dizia na época - da
nova universidade. Lamentavelmente, a oposição das grandes escolas, sobretudo dos professores de medicina, engenharia e direito, faculdades preexistentes a que as novas disciplinas básicas passassem a ser ministradas, na nova faculdade, frustrou a realização daquela inspiração integrativa que teria constituído a primeira universidade brasileira organicamente estruturada. Ainda assim, a nova faculdade representou um papel importante na formação de algumas das principais equipes nacionais de cientistas sistematicamente formados. Acabou, porém, ela também convertida numa escola profissionalista: a fábrica de professores secundários de ciências e de letras.
anos seguintes para levar à prática suas metas. Também ela contou com a colaboração de professores europeus-16-que trabalhavam conjuntamente com uma equipe brasileira com a experiência de estudos no exterior. Seu objetivo era cobrir os novos campos do saber além dos correspondentes às profissões liberais de tipo tradicional, através de um complexo sistema de Escolas e Institutos articulados com Centros de pesquisa e experimentação que buscariam, conjuntamente, cultivar e difundir as ciências exatas e as ciências humanas, além de tomar a si, em nível superior, o estudo da problemática da educação.
Partindo do zero, a UDF não teve que enfrentar a hostilidade das grandes escolas profissionais como ocorrera em São Paulo. Sediada, porém, no Rio de Janeiro, e criada por iniciativa de autoridades municipais revestidas do maior prestígio popular, atraiu sobre si a hostilidade do Ministério da Educação, que acabou por destruí-la quando se implantou o Estado Novo.
A Universidade de Brasília ao nascer não contava, portanto, com nenhum modelo experimentado de organização universitária que pudesse adotar, depois de rever e melhorar. Os que mais se aproximaram de constituir um padrão brasileiro de universidade haviam sido, um deles degradado - o de São Paulo; o outro, destruído - o do Rio de Janeiro.
O que existia, então, dominador, como instituição vivente, era a chamada Universidade do Brasil, implantada no Rio de Janeiro pelo governo federal como o instituto-padrão, cujas formas de organização e de exercício da vida universitária se tornavam obrigatórios para todo o país.
Tal era a sua rigidez estrutural que cada ciência era obrigada a adjetivar-se previamente para ingressar nas faculdades e o fazia para servir não assim mesma, mas à mera ilustração nos programas de formação profissional. Em conseqüência, multiplicava-se exponencialmente o número de unidades de ensino de cada disciplina sem que elas jamais se aglutinassem para instituir a massa mínima indispensável para cultivar fecundamente a ciência e menos ainda para o exercício do ensino em nível de pós-graduação. Tal foi o despautério que ela chegou a contar, aí por 1960, com nada menos de 36 cátedras de química, repetidas em 9 escolas; 16 de matemática, distribuídas por 7 escolas; e 13 de física, dispersas por 7 faculdades distintas. Esta multiplicação repetitiva, além disso, onerosa, era altamente inconveniente porque se fazia confiando o ensino a professores sem qualquer qualificação específica, e exercendo a docência em escolas sem capacidade de controlar a qualidade de ensino que ministravam.
A instituição desta super-universidade, a sombra do Ministério da Educação e dentro de um regime centralista, matou as iniciativas locais fecundas, como a paulista e a carioca, para colocar em lugar delas o regime uniformemente medíocre. O que ficou desta experiência lúgubre de autoritarismo educacional foi:
- O faraonismo do planejamento do campus universitário, que há mais de 40 anos vem sendo edificado nos mangues do Fundão, como a cidade universitária mais absurda do mundo;
- A degradação da faculdade de filosofia e sua multiplicação por todo o país como meras escolas normais formadoras do magistério secundário através da improvisação mais abusiva dos seus próprios quadros docentes;
- E, finalmente, a instituição de um sistema cartorial que, burocratizando a educação superior brasileira, a conduziu a extremos de irresponsabilidade e de clientelismo.
títulos que elas outorgassem. Tratando-se, porém, de exigências meramente formais, seu cumprimento era examinado com tanta complacência pela burocracia do Ministério da Educação, que qualquer político poderoso podia criar as faculdades que quisesse, tivesse ou não casas para abrigá-las, livros em que se estudasse, ou professores minimamente competentes. Em conseqüência, multiplicaram-se às centenas as falsas escolas superiores, deteriorando até níveis risíveis um ensino já muito precário. Nessa circunstância, a instituição da Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, como um padrão federal, teve como efeito prático a emissão, nos anos seguintes, de dezenas de licenças para criar simulacros dela.
Era imperativa, portanto, a tarefa de repensar criticamente a universidade brasileira, a fim de avaliar a situação calamitosa de degradação autoperpetuante em que caíra e de reabrir perspectivas de renovação. A oportunidade de proceder a este balanço crítico e de promover esta inovação seria dada precisamente com o projeto de criação da Universidade de Brasília. Assim foi, porém, porque JK entregou seu planejamento não aos custódios da velha universidade, orgulhosos dela, mas exatamente aos descontentes. E porque a UnB surgindo a partir do zero, sem enfrentar a resistência de antigos donos, pôde retomar as linhas de criatividade interrompidas em São Paulo e no Rio de Janeiro para, a partir da experiência de seus logros e fracassos, desenhar a nova universidade brasileira.
Os planejadores da UnB estavam desafiados, como se vê, a superar a feição que assumira entre nós uma universidade inspirada em padrões napoleônicos que, ignorando até mesmo as razões de sua estruturação original na França, era, no Brasil, uma excrescência por não ser nossa nem nos servir.
estruturação universitária, simplesmente porque nenhum deles era copiável, nem respondia às nossas necessidades. De fato, foi a partir da constatação sistemática das carências da precária universidade brasileira - da qual, antes, apenas suspeitávamos - e, sobretudo, da verificação de sua total incapacidade para atender aos requisitos exigidos do centro cultural de uma cidade capital recém-inaugurada, que se desenhou um modelo original de universidade para Brasília.
O diagnóstico e a crítica da universidade brasileira tradicional a que procedemos, então, assinalavam como suas características distintivas:
- Seu caráter de federação de escolas profissionais autárquicas e estanques, desprovidas de qualquer sistema a integrativo que lhes permitisse comunicar-se, interagir e cooperar;
- Sua estrutura profissionalista e unitarista que, fazendo corresponder a cada carreira uma escola, restringia ao mínimo as modalidades de formação oferecidas; submetia o saber fundamental ao saber aplicado, infecundando a ambos; aplicava onerosamente e ineficazmente os meios de ensino de pesquisa; e disfarçava seu atraso pela imposição de currículos repletos de matérias dispensáveis e de planos de estudo de caráter ridiculamente enciclopédico;
- Sua ambigüidade essencial de uma universidade colonizada e alienada que, sendo por um lado, dependente de matrizes estrangeiras e propensa ao mimetismo cultural era, por outro lado, inautêntica por sua infidelidade aos padrões internacionais de cultivo e difusão do saber, além de irresponsável na concessão de títulos e graus acadêmicos;
- Seu elitismo, expresso tanto na política de estreitamento progressivo das ofertas de matrícula nas escolas públicas gratuitas e de qualidade razoável, como na expansão desbragada de escolas privadas de nível precaríssimo que funcionavam como empresas lucrativas;
- Sua sujeição à hegemonia catedrática que entregava o controle de cada área do saber a um professor vitalício todo-poderoso, propenso a agir paternalisticamente, predisposto a escolher seu sucessor e a dificultar a formação de pessoal mais qualificado;
- Sua carência de programa de pós-graduação para formar o magistério universitário, expandir as atividades de pesquisa e aprofundar o conhecimento da realidade brasileira;
- Seu apego aos concursos retóricos, como sistema formal de seleção de professorado; mas utilizado, de fato, para disfarçar a prática corrente de efetivação burocrática de todos os admitidos na docência;
- Seu temor à prática de co-governo que, comprometendo os estudantes com a condução da vida acadêmica, os interessasse nos problemas de organização interna na universidade e estimular sua participação responsável nos esforços para enfrentar as tarefas de aprimorar e democratizar a universidade, e fazê-la servir devotamente aos interesses nacionais e populares;
- Seu pendor ao esbanjamento de recursos públicos escassos, tanto negativamente pela subutilização das disponibilidades materiais e humanas; como positivamente pelo faraonismo das edificações e pela mania subdesenvolvida de comprar equipamentos vistosos mas dispensáveis;
entre estudantes e professores - nem da universidade com a cidade o país, através de programas efetivos de difusão cultural e a extensão universitária;
- Seu burocratismo, que reduzia os atos acadêmicos a rotinas cartoriais; convertia os professores em funcionários nomeados por decreto; transformava os cursos em ditados enfadonhos e fazia do estudo a decoração de apostilas para provas;
- Seu verbalismo que florescia na expansão desproporcionada dos cursos jurídicos, de estudos sociais e de letras, em prejuízo das carreiras que requeriam formação científica e treinamento prático.
Este diagnóstico cru e esta crítica veraz - os primeiros que se formavam no Brasil com tal vigor e autenticidade - tiveram uma enorme repercussão. Provocaram, dentro das universidades, um movimento de amplitude sem precedentes para o debate do que se começou a chamar a crise universitária. Também fora da universidade, os estudantes realizaram encontros e conferências em todo o país para debater a crise e programar a luta pela Reforma Universitária.
Esta campanha, que de 1961 a 1969 só encontra oposição ativa nos catedráticos mais reacionários, não podia ser mais oportuna. Vinham de ser consagrados na nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação as linhas profissionalistas e ratificado o poderio catedrático da velha universidade, visivelmente obsoleta, mas ainda poderosa. A lei de criação da Universidade de Brasília, promulgada quase simultaneamente, constituía apenas uma exceção que dava à nova capital tão inovadora em tudo, a liberdade de experimentar, inovar, também na organização de sua própria universidade. Desde então, existiam no Brasil dois padrões opostos de organização universitária: o obsoleto, que regulava estruturação de todas as universidades existentes, inclusive as recém-criadas pelo governo, e o novo, que modelava a nascente Universidade de Brasília.