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O Comércio Justo no Contexto da Globalização

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Academic year: 2021

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MESTRADO

ECONOMIA E GESTÃO INTERNACIONAL

O Comércio Justo no Contexto da

Globalização

Mafalda Sousa Costa Ferraz Alves

M

2018

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O COMÉRCIO JUSTO NO CONTEXTO DA GLOBALIZAÇÃO

Mafalda Sousa Costa Ferraz Alves

Mestrado em Economia e Gestão Internacional

Orientado por

Professora Doutora Maria da Conceição Pereira Ramos

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i

Resumo

Na conjuntura atual da dicotomia Norte-Sul, onde de um lado estão os países do Norte que desfrutam das externalidades positivas do comércio internacional e veem a sua qualidade de vida aumentar, e do outro lado encontram-se os países do Sul sem acesso às vantagens da globalização, nem ao comércio internacional e sofrendo cada vez mais as consequências do seu atraso, o estudo do comércio justo é fundamental. Este apresenta-se como um movimento social cujo objetivo é reduzir estas diferenças e promover a prosperidade das populações dos países em desenvolvimento.

Como a importância do comércio justo tem aumentado, tem também aumentado o número de artigos e estudos sobre este assunto. No entanto, nenhum se debruçou sobre os motivos que levam produtores, que não têm acesso ao comércio internacional ou que, se o têm, é em condições muito desiguais e injustas, a aderir ou não ao comércio justo. É a este aspeto do comércio justo que esta dissertação se vai dedicar, tentando perceber as motivações por detrás da adesão ao comércio justo, estimulado também pelas críticas a este movimento que alegam, nomeadamente, que os ganhos das vendas através do comércio justo são diluídos na burocracia do mesmo.

Palavras-chave:

Comércio justo, globalização, motivação dos produtores, desenvolvimento Norte-Sul

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Abstract

In the current reality of the North-South dichotomy, where, on the one side, we can find the northern countries that benefit from the positive externalities of international trade and see their quality of life increase, and, on the other side, we may find the countries of the South, without access to the advantages of globalization or international trade and increasingly suffering the consequences of their lag, fair trade is fundamental. Fairtrade is as a social movement whose purpose is to reduce these differences and promote the prosperity of the populations of developing countries.

As the importance of fair trade has increased, the number of articles and studies on this subject has also increased. However, none so far has considered the motives that lead producers (who do not have access to international trade or who, if they have, are in very unequal and unfair terms) to join or not fair trade. It is to this aspect of fair trade that this dissertation is dedicated: trying to understand the motivations behind the adhesion to the fair trade, also stimulated by the critics to this movement that, in particular, argue that the sales gains through the fair trade are diluted in their own bureaucracy.

Key-words:

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Índice

Resumo ... i Abstract ...ii Índice ... iii Índice de gráficos ... iv Índice de tabelas ... v

1. Introdução: motivações, objetivos e questão de investigação ... 1

2. Revisão de literatura ... 3

Globalização, sustentabilidade, responsabilidade social ... 3

Comércio justo ... 5 Origem ... 5 Funcionamento ... 7 Limitações ... 9 Apreciação ... 12 Possíveis alternativas ... 14 Benefícios ... 15 Síntese ... 17 3. Metodologia ... 20 4. Análise de dados ... 25 5. Conclusão ... 35 6. Referências ... 37 7. Anexos ... 40 Anexo 1 – Questionário ... 40 Anexo 2 – Respostas ... 42 Anexo 3 – Gráficos ... 58

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iv

Índice de gráficos

Gráfico 1 – Percentagem vendida na rede do Comércio Justo ... 26

Gráfico 2 – Motivos que originaram a adesão ao comércio justo ... 28

Gráfico 3 – Distribuição por área melhorada pela existência de Comércio Justo ... 30

Gráfico 4 – Distribuição pelas principais vantagens do Comércio Justo ... 31

Gráfico 5 – Distribuição por género ... 58

Gráfico 6 – Distribuição por continente ... 58

Gráfico 7 – Distribuição por pertença a uma cooperativa ... 59

Gráfico 8 – Distribuição por considerar se o Comércio Justo tem ou não aspetos negativos ... 59

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Índice de tabelas

Tabela 1 – Teste de normalidade Amostra: Número de anos de adesão; Organização em

cooperativa; Percentagem vendida ... 22

Tabela 2 – Teste de normalidade Amostra: Motivos de adesão ao comércio justo ... 23

Tabela 3 – Caracterização da amostra por género ... 25

Tabela 4 – Caracterização da amostra por continente ... 26

Tabela 5 – Quadro-resumo dos aspetos negativos ... 27

Tabela 6 – Distribuição por motivo que originou a adesão ao comércio justo ... 29

Tabela 7 – Quadro-resumo das áreas a melhorar ... 32

Tabela 8 – Coeficiente de Correlação de Spearman entre Percentagem vendida através do comércio justo e a Longevidade ... 33

Tabela 9 – Coeficiente de Correlação de Spearman entre Percentagem vendida através do comércio justo e a Participação ou não em cooperativas ... 33

Tabela 10 - Respostas às perguntas 1, 2, 3, 4, 5 e 6 ... 44

Tabela 11 - Respostas às perguntas 7, 8 e 9 ... 46

Tabela 12 - Respostas à pergunta 10 ... 48

Tabela 13 - Respostas à pergunta 11 ... 50

Tabela 14 - Respostas à pergunta 12 ... 52

Tabela 15 - Respostas às perguntas 13 e 13.1 ... 54

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1. Introdução: motivações, objetivos e questão de investigação

O tema desta dissertação é “O Comércio Justo no contexto da globalização”, e a questão a investigar será: “Quais os motivos que originam a adesão ao comércio justo por parte dos produtores do Sul?”1.

No momento em que vivemos, e como consequência da evolução dos últimos anos (que se pode caracterizar por uma melhoria geral do bem-estar da população, nos países ocidentais), como mencionado por Stiglitz (2013), seria de esperar que por todo o mundo se atravessasse uma fase de desenvolvimento que permitisse uma melhoria global do nível de vida das populações. No entanto, a prosperidade esperada não está a ser sentida da mesma forma em todas as regiões do mundo, podendo ser identificadas zonas do globo onde este desenvolvimento ainda não se fez sentir. Em 2013, de acordo com o Banco Mundial (2016b), 10% da população mundial vivia em condições de extrema pobreza (sendo que, na África Subsariana, era de 41% a percentagem da população que se encontrava nesta situação). O Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos países de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) baixo corresponde a menos de metade do PIB per capita dos países de IDH médio e a menos de um décimo do PIB per capita dos países de IDH muito alto, encontrando-se, em 2016, de acordo com o Banco Mundial (2016a), aproximadamente nos USD 979. Por último, e recorrendo a um indicador de caráter qualitativo, em 2015, quase 40% da população da África Subsariana não tinha acesso aos serviços básicos de fornecimento de água, como apresentado pelo Banco Mundial (2017). Apesar destes dados se referirem mais especificamente ao continente africano, as disparidades entre Norte e Sul também se fazem sentir na Ásia e na América Latina.

É verdade que esforços têm vindo a ser feitos no sentido de procurar fazer chegar o progresso a um nível global. Ainda assim, em 2013, e de acordo com as Nações Unidas (2017), 767 milhões de pessoas viviam abaixo do limiar da pobreza e a percentagem de exportações de bens no comércio mundial dos países menos desenvolvidos era de, aproximadamente, 1% como apresentado pela Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (2015). Tendo em conta que a participação no comércio

1 Por produtores do Sul pretende-se referir os produtores nomeadamente dos países em

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internacional é encarada como um meio fundamental para alcançar o crescimento económico e, consequentemente, melhorar o bem-estar da população, esta realidade afigura-se preocupante.

É neste contexto que surge o comércio justo: como forma de permitir o acesso dos produtores do Sul a alguma desta prosperidade. É importante, neste ponto, explicar que se pode estar a falar de dois conceitos de comércio justo: um, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), e outro ao abrigo das organizações de comércio justo, como a Fairtrade International.

Ao nível da Organização Mundial do Comércio (2017), fala-se de comércio justo porque esta organização tem como propósito que todos os países possam aceder ao mercado internacional (com os mesmos direitos e deveres), de preferência com o menor número de barreiras possíveis, e ainda visa ajudar a promover o desenvolvimento nos países mais necessitados.

Já as organizações do comércio justo, como explicado pela Fairtrade International (2017), pretendem incrementar os rendimentos dos produtores do Sul, através de uma parceria com os consumidores de todo o mundo, em que estes últimos concordam em pagar um preço premium em troca da melhoria da qualidade de vida dos primeiros.

Apesar de existirem diversos artigos que se debruçam sobre o comércio justo, até ao momento nenhum analisou direta e empiricamente o que leva os produtores do Sul a aderirem a esta forma alternativa ao comércio convencional. Sendo assim, a questão a investigar será: “Quais os motivos que originam a adesão ao comércio justo por parte dos produtores do Sul?”.

Esta questão surge depois da análise da literatura existente, a qual aponta para a existência de reduzidos benefícios para os produtores, visto que o custo da certificação é elevado, e esta não garante o escoamento da produção através da rede de comércio justo. Como consequência, as vendas no âmbito do comércio justo podem não chegar para cobrir os custos de produção.

Dentro da questão de investigação apresentada, tentar-se-á ainda verificar quais os requisitos do comércio justo que estão efetivamente a ser aplicados; e quais os principais benefícios percebidos pelos produtores do Sul como sendo originados pela sua presença nesta rede de comércio alternativo.

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2. Revisão de literatura

Globalização, sustentabilidade, responsabilidade social

A globalização que se vive atualmente com a abertura das fronteiras e o aumento do comércio internacional devia traduzir-se em melhores condições de vida para toda a população mundial, no entanto não é esta a realidade mundial dos dias de hoje.

Como demonstrado por Dollar e Kraay (2004), a abertura da economia de um país ao comércio internacional potencia a melhoria das condições de vida da população desse país. Mas, como referido anteriormente, esta teoria não se verifica na maioria dos países em desenvolvimento. De acordo com Allee e Scalera (2012) este caso deve-se ao facto do processo de abertura ao comércio internacional divergir de país para país – através dos diferentes processos de adesão à OMC, para estes autores os efeitos diferentes que a abertura comercial tem tido nos diversos países em desenvolvimento deve-se ao facto de a uns ter sido concedido a adesão automática à OMC porque eram antigas colónias dos países-membros da OMC e assim não terem feito nenhuma mudança ou reforma nas instituições dos seus países. Já os países que passaram por todos os passos do processo de adesão à OMC e tiveram de diminuir taxas alfandegárias e reformar as suas instituições alcançam maior desenvolvimento e melhoria das condições de vida, pois as mudanças impostas pela OMC representaram inovações e potenciaram o desenvolvimento das suas economias.

Como mencionado por Mobariz (2016), e explicado em profundidade por Stiglitz e Charlton (2009), a participação na OMC não é equitativa para países desenvolvidos e países em desenvolvimento, tendo os primeiros mais poder do que os segundos: onde os países desenvolvidos exigem que os países em desenvolvimento diminuam as suas tarifas e não apoiem as suas indústrias; o que para os últimos significaria não incentivar o desenvolvimento do seu país e apenas importar bens de outros países, pois as tarifas mais baixas significariam para muitas indústrias que os produtos importados ficariam mais baratos do que os bens produzidos nacionalmente, o que teria como consequência no longo prazo o abandono de várias indústrias e o não desenvolvimento dos países. A Ronda de Doha, como também explicado por Stiglitz e Charlton (2009) e por Tadem (2016), tinha como objetivo tornar as regras do comércio internacional à luz da OMC mais justas para os países em desenvolvimento, potenciando o seu desenvolvimento e, idealmente, possibilitando que estes começassem o processo de “catch-up”. No entanto, por causa das ambições dos países

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desenvolvidos, não foi possível chegar a acordo e a Ronda de Doha acabou por ainda não ter sido concluída.

Podemos assim concluir que a OMC não tem conseguido garantir que o comércio internacional promova os mesmos benefícios para todos os países, nomeadamente por causa do poder que os países desenvolvidos detêm. Apesar deste facto, a população mundial está cada vez mais preocupada com a sustentabilidade da globalização, a qual está sustentada em três pilares, como apresentado por Beumer et al. (2018): sustentabilidade económica, social e ambiental, o que significa garantir uma economia capaz e estável, condições de vida para toda a população e que a utilização dos recursos hoje não prejudique a sua utilização no longo prazo.

De acordo com a Comissão Mundial sobre a Dimensão Social da Globalização (2005), tal realidade não se está a concretizar: as alterações climáticas e o aquecimento global, bem como o número de pessoas a viver abaixo do limiar da pobreza, são dois indicadores de que a sustentabilidade da globalização ainda não está garantida. Para esta comissão, a solução passa, por um lado, pela criação de um organismo internacional com capacidade de legislar e decidir sobre assuntos globais que não esteja dependente dos partidos nacionais e de eleições cíclicas, e, por outro lado, pela maior consciencialização e consequente ação dos governos nacionais para aspetos que é preciso serem alterados para garantir o futuro da globalização.

Numa perspetiva mais microeconómica, a preocupação da sociedade com a sustentabilidade da globalização tem tido efeitos positivos nas empresas, que, como apresentado por Fernández et al. (2015), estão a ser obrigadas a adaptar a sua produção e o seu modo de agir de acordo com as regras da responsabilidade social, umas porque se preocupam efetivamente com a sustentabilidade da globalização, outras porque perceberam que os consumidores valorizam este aspeto das ações da empresa enquanto membro de uma sociedade, o que se traduz em maiores vendas para a empresa.

É neste contexto que se insere o comércio justo: como forma de fazer chegar os benefícios da globalização aos produtores marginalizados do Sul que, sozinhos, não conseguem participar no comércio internacional de forma a garantir o seu próprio sustento. É assim que o comércio justo lida com todos os pilares da sustentabilidade da globalização: permitindo através do pagamento do preço justo que os produtores continuem a produzir e a melhorar as suas condições de vida, potenciando o desenvolvimento destes produtores e das suas comunidades através do pagamento do premium, e garantindo uma produção

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ambientalmente sustentável, não permitindo o uso de áreas naturais protegidas nem de pesticidas. Como será explicado mais detalhadamente de seguida.

Comércio justo

O comércio justo, como apresentado pelas diversas organizações de comércio justo internacional, nomeadamente a Fairtrade International (2017) e a World Fair Trade Organization

(2017), é uma parceria estabelecida entre produtores do Hemisfério Sul e consumidores do

Hemisfério Norte cuja finalidade é a melhoria das condições de vida dos produtores do Sul através do pagamento de um preço premium por parte dos consumidores.

“Fair Trade is a trading partnership, based on dialogue, transparency and respect, that seeks greater equity in international trade. It contributes to sustainable development by offering better trading conditions to, and securing the rights of, marginalized producers and workers – especially in the South. Fair Trade Organizations, backed by consumers, are engaged actively in supporting producers, awareness raising and in campaigning for changes in the rules and practice of conventional international trade.” (World Fair Trade Organization e Fairtrade Labelling Organizations International, 2009)

Esta forma de comércio é promovida por diversas instituições internacionais de comércio justo, as quais garantem que são cumpridos os requisitos estipulados por estas para a comercialização dos produtos das empresas que estão associadas às diferentes organizações no âmbito do comércio justo. Para tal, e de acordo com De Janvry et al. (2015), exigem que os produtores sejam certificados pela FLO-CERT, a qual verifica o cumprimento das regras e emite posteriormente o selo de comércio justo.

Alguns dos produtos vendidos sob o selo do comércio justo são: bananas, café, cacau, algodão, flores, açúcar, chá, mel, artesanato, joias e bolas de futebol. Relativamente aos produtores, estes encontram-se na África e Médio Oriente, na América Central e do Sul e na Ásia. Já os compradores são, principalmente, da Europa, da América do Norte e da Oceânia.

Origem

Este movimento surgiu, de acordo com nomeadamente Wielechowski e Roman (2012), com a perceção por parte da população do Norte de que a prosperidade que se estava a sentir no Norte, decorrente do desenvolvimento do comércio internacional e da

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globalização, não estava a chegar aos produtores dos países pobres do Sul. Como tal, desenvolveu-se uma nova forma de comércio que tem como objetivo promover o desenvolvimento dos produtores do Sul e garantir que estes tenham acesso a melhores condições de comércio, nomeadamente, mais justas e mais equitativas.

O movimento por trás do comércio justo, ou seja, o movimento que mais tarde se materializaria no comércio justo começou na Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Este teve a sua origem, como referido, na preocupação existente no Norte pelas condições de vida dos produtores do Sul onde a prosperidade não estava a ser sentida. Esta preocupação originou, como descrito por Doherty et al. (2015), um movimento político e social que apoiava os produtores do Sul ao apresentar-se como uma alternativa ao comércio regular, oferecendo melhores condições comerciais a estes e vendendo em igrejas e lojas especiais. Mais tarde, em 1988, na Holanda, surgiu o primeiro selo de comércio justo: Max Havelaar. O sucesso desta iniciativa espalhou-se a toda a Europa, onde várias organizações de comércio justo nacionais surgiram. Em 1997, 17 organizações de comércio justo europeias juntaram-se para formar a Fairtrade Labelling Organizations International (FLO).

Este tipo de comércio não teria surgido em primeiro lugar se, como apontado por Samuel et al. (2014), houvesse concorrência perfeita – situação em que todos os produtores disporiam das mesmas condições de acesso aos mercados internacionais – e se as instituições fossem suficientemente fortes para conseguirem eliminar os monopólios, ou, pelo menos, conseguissem reduzir os seus poderes e promover condições básicas de vida para as suas populações. No entanto, estas condições não se verificam nos países em desenvolvimento, onde se encontram os criadores de produtos sob o selo de comércio justo. É neste contexto que surge o comércio justo: como forma de dar uma oportunidade aos produtores que, sozinhos, não conseguem alcançar o comércio internacional, e de promover o desenvolvimento social e as condições de vida destas populações.

O crescimento e a sustentabilidade deste movimento são justificados pela perceção de valor por parte dos consumidores que adquirem estes produtos. Este valor, como explicado por Dammert e Mohan (2015), não é tangível, nem se deve à qualidade superior destes bens, mas sim ao sentimento de um “warm glow” originado pela noção de que, ao comprá-los, se está a ajudar alguém.

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Funcionamento

Para que um produtor possa vender os seus produtos na rede de comércio justo e com isso garantir a venda a um preço justo e o recebimento de um preço premium, as organizações internacionais de comércio justo obrigam à observância de vários requisitos.

Os principais requisitos são, de acordo com Mann (2008) e Adriani e Becchetti (2014), a organização em cooperativas por parte dos pequenos produtores, a promoção da democracia e a não discriminação em relação a qualquer raça ou grupo social, a proibição do trabalho forçado e da utilização de mão-de-obra infantil (crianças com menos de 15 anos). As preocupações ambientais estão igualmente presentes nesta forma de comércio, nomeadamente através da proibição da utilização de químicos nocivos à saúde dos trabalhadores e da interdição de colheita de flora em áreas protegidas.

As relações entre produtores e compradores devem ser de longo prazo, através de contratos anuais, sendo que idealmente deveriam ter duração superior a um ano, e os compradores devem pagar uma parte do contrato adiantado (normalmente 60%), promovendo assim a estabilidade financeira dos produtores do Sul e reduzindo a sua exposição às flutuações dos mercados internacionais, como apontado por Arnould et al. (2009), Doherty et al. (2013) e Dragusanu et al. (2014).

Os produtos transacionados na rede de comércio justo têm de ser vendidos a um preço superior ao preço mínimo estabelecido pela organização de comércio justo em que se inserem, ao qual acresce o premium. O preço mínimo, de acordo com Adriani e Becchetti (2014), Doherty et al. (2013) e Dragusanu et al. (2014), é determinado tendo em consideração as condições económicas locais, o custo da produção e a intenção de proporcionar condições de vida dignas. Os compradores têm de pagar aos produtores do Sul o preço mínimo ou o preço de mercado, consoante o que for mais elevado. Por sua vez, o preço premium deve ter como destino o investimento no desenvolvimento da comunidade onde os produtores estão inseridos. Dammert e Mohan (2015) e Bäthge (2016) explicam que a sua aplicação deve ser decidida por uma assembleia representativa de todos os produtores que a constituem. De acordo com as organizações de comércio justo internacional, este deverá ser aplicado, nomeadamente, nas seguintes áreas: promoção da escolaridade, de habitação com condições mínimas e do acesso a cuidados gratuitos de saúde.

As organizações de comércio justo funcionam como intermediários, ligando os produtores do Sul aos consumidores do Norte através de compradores certificados que vão

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aos países em desenvolvimento buscar os produtos para posteriormente os venderem no Norte.

Pelo lado dos consumidores, o comércio justo só é possível existir porque estes reconhecem que estes produtos são diferentes dos produtos “normais”, conforme indicado por Hayes (2008), motivo pelo qual estão dispostos a pagar um preço mais elevado para adquiri-los. Como explicado por diversos autores – Arnould et al. (2009), Bäthge (2016), Darko et al. (2017), Dragusanu et al. (2014), LeClair (2002) e Renard (2005) – as características dos produtos vendidos sob o selo de comércio justo que levam os consumidores do Norte a vê-los como produtos distintos não são físicas nem tangíveis, mas sim intrínsecas: são a noção de que ao pagar um preço mais alto estão a aumentar os rendimentos dos produtores do Sul e a potenciar a melhoria das condições de vida dos mesmos, bem como a certeza de que os produtos representam os seus próprios valores sociais como a proibição do trabalho infantil, a igualdade de género e a produção sustentável. É esta consciência que acrescenta valor a estes produtos do ponto de vista dos consumidores do Norte, pois a compra destes bens gera um sentimento de “warm glow” – sentem-se bem consigo mesmos – porque estão a ajudar os outros. Em suma, e de acordo também com Richardson e Stähler (2014), este “warm glow” não surge apenas pela transferência de rendimentos para os produtores do Sul (através do pagamento do premium), mas também, e principalmente, pelo sentimento de que, ao adquirirem estes produtos, estão a promover o desenvolvimento das condições de vida destes produtores, em aspetos que os consumidores consideram importantes.

A certificação é importante neste processo, como mencionado por Renard (2005), porque é a única maneira de garantir aos consumidores que o motivo que os leva a pagar um valor mais alto pelos produtos está efetivamente a acontecer. Daí a credibilidade da certificação ser vital para o comércio justo, pois é apenas a confiança dos consumidores no que a certificação transmite que os leva a adquiri-los. Para tal, a certificação de todos os atores envolvidos neste processo é feita por uma organização independente criada só para este fim – a FLO-CERT – que por sua vez é certificada pela norma ISO-65 que estabelece a não-discriminação e a independência.

Dragusanu et al. (2014) explicam que o processo de certificação começa quando os produtores submetem uma candidatura. A FLO-CERT envia posteriormente profissionais para verificarem a observância dos requisitos, sendo estes técnicos que, depois de validarem as informações e o cumprimento das regras, emitem o certificado em como são produtores que produzem de acordo com os valores do comércio justo, permitindo-lhes, assim, vender

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os seus produtos neste mercado, e através desta rede. Tanto a certificação inicial como as posteriores renovações são pagas pelos produtores, o que originou diversas críticas como será apresentado posteriormente. Para os consumidores do Norte, esta certificação materializa-se num selo – símbolo do comércio justo – que aparece nas embalagens dos produtos como tal criados, de forma a diferenciá-los dos bens produzidos “normalmente”.

Como se pode perceber pelo descrito anteriormente, e sublinhado por Renard (2005), a certificação acaba por se revelar, de certa forma, uma barreira ao mercado do comércio justo, pois só tem acesso a este os produtores e os compradores certificados.

Hayes (2006) aponta duas outras formas em que as organizações de comércio justo atuam: por um lado, como exportadores, ajudando os produtores do Sul a conseguirem alcançar os mercados do Norte, sem necessitarem de recorrer aos intermediários monopolistas; por outro lado, fornecendo aos produtores do Sul acesso a matérias-primas a preços acessíveis, nos casos em que o único fornecedor das mesmas aproveita o seu monopólio para vender os bens essenciais à produção por parte destes produtores a preços muito elevados.

Importa ainda fazer uma referência a um aspeto menos estudado do comércio justo: o seu marketing. Como Doherty et al. (2015) demonstram, este varia de acordo com o local para onde está a ser dirigido. Enquanto que o marketing do comércio justo no Norte aposta numa visão de solidariedade e da promoção do desenvolvimento dos países pobres, nos países do Sul o marketing concentra os seus esforços na promoção dos produtos e da cultura nacional.

Limitações

As principais limitações que o comércio justo enfrenta, de acordo com a revisão de literatura, são: a oferta excessiva (há menos quantidade procurada do que quantidade oferecida), o aparecimento de novos selos com critérios mais flexíveis, não conseguir alcançar os trabalhadores contratados das cooperativas, a cultura de cada país em relação às mulheres e, por último, os consumidores passivos.

O aumento do rendimento dos produtores torna o comércio justo muito atrativo para estes; no entanto, não há procura suficiente para todos os bens produzidos sob o selo do comércio justo. O elevado número de produtores certificados para vender sob o selo do comércio justo cria mais oferta e mais opções de compra para os consumidores, diluindo

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assim o benefício para cada produtor, visto que existe o mesmo número de consumidores – procura – para um maior número de produtores – oferta. Uma solução para mitigar este problema, de acordo com De Janvry et al. (2015), seria a criação de requisitos mais restritivos, tentando diminuir o número de produtores habilitados a participar nesta rede. No entanto, e devido à existência de muitos produtores pobres no Sul, esta opção colidiria com os princípios do comércio justo, e de acordo com Dragusanu et al. (2014) tolheria o alcance do desenvolvimento que esta forma de comércio potencia.

Uma dificuldade enfrentada pelas diversas organizações internacionais de comércio justo, como exposto por diversos autores, entre os quais Renard (2005), é o surgimento de novos selos de comércio justo criados pelas diversas redes de distribuição multinacionais que têm como principal objetivo o próprio lucro. A criação de outros selos não é negativa em si mesma, podendo até ter um impacto positivo, se isto significar que mais produtores estão a receber um preço justo pelos seus produtos e que mais pessoas estão a ter acesso a melhores condições de vida. Porém, pode assumir uma feição negativa se acontecer pelo menos uma das duas situações seguintes, como também é apontado por Dragusanu et al. (2014): confusão por parte dos consumidores devido à existência de diversos selos e a consequente desconfiança quanto a estes produtos, duvidando da sua real origem e do cumprimento do seu objetivo; ou a eventual existência de critérios mais leves para a comercialização sob os selos das diversas redes de distribuição, os quais não garantem em si o desenvolvimento das populações mas que atraem os consumidores, não chegando aos produtores o benefício do preço premium pago pelos consumidores.

Doherty et al. (2013) encontraram evidências de que os receios de Renard se estão a concretizar. O aparecimento de novos selos de comércio justo criados por multinacionais que vendem os produtos certificados pelos seus próprios selos está a ser acompanhado pelo abandono de alguns dos requisitos característicos do comércio justo, nomeadamente a organização democrática e a existência de relações entre produtores e compradores de longo prazo. Esta situação torna-se crítica porque os consumidores adquirem estes produtos convictos de que estão a auxiliar os produtores do Sul, mas na realidade só estão a aumentar os lucros destas empresas, sem que estas tenham de fazer algum esforço para isso.

As normas estabelecidas pelas organizações internacionais de comércio justo relativamente aos trabalhadores contratados por produtores inseridos em cooperativas são ambíguas, não lhes conferindo proteção significativa. Esta realidade traduziu-se nos dias de hoje no facto de que os trabalhadores contratados das cooperativas não estarem a receber

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parte dos benefícios do comércio justo: como Dragusanu et al. (2014) encontrou em cooperativas de café, e a Fairtrade Foundation (2012) em cooperativas de algodão; e mesmo em plantações de bananas onde os requisitos das organizações internacionais de comércio justo são mais rígidos e mais dirigidos aos trabalhadores contratados, Darko et al. (2017) encontraram as mesmas evidências. Apesar desta realidade, num estudo levado a cabo por Dragusanu et al. (2014), estes descobriram que os trabalhadores reconheciam que o comércio justo contribuiu para a melhoria das suas condições de vida. Isto demonstra que as organizações de comércio justo internacionais precisam de analisar a situação dos trabalhadores contratados por produtores certificados de comércio justo para garantir que todos os agentes envolvidos nesta rede beneficiam de fazê-lo.

Relativamente à igualdade de géneros e ao papel da mulher, as evidências encontradas são dispares. Enquanto que a Fairtrade Foundation (2012) encontrou evidências de que, com o surgimento do comércio justo, as mulheres têm sido capazes de se envolver no processo produtivo e com isso contribuir para o rendimento familiar, a mesma organização (Fairtrade

Foundation, 2012) aponta, por outro lado, para o facto de ainda lhes ser barrado o acesso aos

meios de produção. E juntamente com Darko et al. (2017) indicam que a sua representatividade nas assembleias é apenas simbólica. Como resposta a esta realidade a

Fairtrade Foundation (2012) admite que ainda há um longo caminho a percorrer no que toca à

igualdade de géneros, principalmente devido às características culturais de cada país que fazem com que uma abordagem única para todos as cooperativas não seja possível.

Associado ao fenómeno do aparecimento de novos selos, estão os meios de vendas dos produtos de comércio justo: online, loja física e grandes superfícies. A compra online e em lojas físicas, de acordo com Doherty et al. (2013), é feita por consumidores “radicais” que acreditam que só através deste meio chegam efetivamente os benefícios aos produtores e que esta é a única maneira de efetivamente mudar o mundo, nomeadamente, a redistribuição da riqueza. Já as compras de produtos “justos” em grandes superfícies são feitas por dois tipos de consumidores: pragmáticos e passivos. Os primeiros querem contribuir para o melhoramento das condições de vida dos produtores do Sul, mas não estão dispostos a alterar a sua rotina para tal; enquanto que os últimos não percebem que estão a comprar produtos “especiais”, só os compram porque são os únicos disponíveis. À partida, a existência de consumidores passivos não é negativa em sim mesma, porque, apesar de não terem noção do que estão a fazer, estes estão efetivamente a contribuir para o aumento das vendas do comércio justo e consequentemente para a melhoria das condições de vida dos

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produtores do Sul. No entanto, é a consciencialização das pessoas para os problemas do mundo que provoca mudanças, logo seria mais vantajoso para os produtores do Sul que os consumidores passivos soubessem da existência do comércio justo, estivessem cientes do facto de que estão a ajudar e que tivessem vontade de se envolverem efetivamente neste movimento.

Apreciação

Como Wielechowski e Roman (2012) expõem, o comércio justo tem sido alvo de várias críticas, podendo ser destacadas entre elas: a inexistência de valor acrescentado que justifique o pagamento de preços mais altos por parte dos consumidores; o facto de a componente premium do preço ter muitas vezes como destino a obtenção da certificação, e não o investimento no desenvolvimento da comunidade, e, por último, o incentivo à concentração da produção dos mesmos produtos, diminuindo assim a diversificação da produção do país (fator fulcral para a mitigação de riscos como o choque em alguns mercados).

Ainda que vários autores critiquem o comércio justo pela existência de um preço mais elevado sem a existência de valor acrescentado, Adriani e Becchetti (2014) defendem uma nova teoria: que o preço pago pelos produtos sob o “guarda-chuva” do comércio justo seria o preço para o produto se não houvesse monopólios e todos os intervenientes económicos tivessem o mesmo poder negocial. Richardson e Stähler (2014) vai ainda mais longe sugerindo que, ao adquirir-se este produto, não se adquire apenas o bem como também um serviço, ou seja, o bem fixo e a doação para apoiar os produtores desfavorecidos do Sul. Há ainda, como referido anteriormente, quem contraponha a falta de justificação do pagamento de preços mais altos com a existência de um “warm glow” nos consumidores que adquirem estes produtos. Sendo que Mann (2008) encontrou evidências de que estas características são consideradas pelos consumidores como atributos que acrescentam valor ao produto tangível. A valorização deste tipo de produto por parte dos consumidores do Norte é ainda provada por Arnot et al. (2006) – e apoiada por Doherty et al. (2013) – que demonstraram a menor sensibilidade ao preço por parte dos consumidores destes produtos, do que a sensibilidade ao preço por parte dos consumidores de produtos convencionalmente produzidos, ou seja, de acordo com Arnot et al. (2006), o “efeito negativo na procura de café com o selo do comércio justo do aumento do seu preço é menor do que o efeito do mesmo

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acontecimento no café normal” (p. 9). O que vai de encontro às teorias que apontam para a existência de valor nestes produtos para os consumidores que os compram através do “warm

glow”, pois mostra que os consumidores estão mais interessados na parte ética do produto do

que no preço do mesmo.

Apesar de o surgimento do preço premium ser justificado pela necessidade de ajudar ao desenvolvimento de zonas mais pobres do mundo, Mann (2008) demonstra que o cumprimento das condições inerentes ao comércio justo obriga os produtores que vendem neste âmbito a ter custos mais elevados do que os produtores que não se preocupam com estas questões sociais e ambientais, fazendo com que o premium seja em parte absorvido pela observância dos requisitos.

Uma outra crítica muito presente nos artigos sobre o comércio justo, e como apresentado por De Janvry et al. (2015), é o facto de a certificação ser suportada pelos produtores, através do seu pagamento, constituindo um custo elevado para os próprios. Se a certificação garantisse o escoamento de todos os produtos produzidos de acordo com as regras do comércio justo, o peso do pagamento da certificação poderia ser reduzido. No entanto, a certificação não garante a venda de todos os produtos fabricados, fazendo com que o premium pago pelos consumidores não chegue aos produtores e acabe na agência de certificação.

Relativamente ao aparecimento de novos selos de comércio justo criados por multinacionais, como explicado anteriormente, as organizações de comércio justo estão a ser severamente criticadas por não impedirem o surgimento dos mesmos. No entanto, estas organizações são não-governamentais, não dispondo, por conseguinte, de poderes para se imiscuírem nos negócios e na forma de agir destas empresas. Uma possível solução seria a existência de campanhas publicitárias a explicar quais os “verdadeiros” selos de comércio justo que asseguram a observância dos requisitos, mas esta situação provavelmente levaria os consumidores a duvidarem de todos os produtos vendidos sobre o “guarda-chuva” do comércio justo.

Associada às vendas em grandes superfícies, está a crítica à circunstância de os trabalhadores das mesmas não saberem explicar em que condições foram adquiridos estes produtos, nem qual é a sua origem. Apesar das críticas apontadas, Doherty et al. (2013) encontraram evidências de que a ausência deste canal de distribuição compromete o crescimento do mesmo, e consequentemente, chegam menos benefícios aos produtores do

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Sul, pois alcança-se um número muito mais reduzido de consumidores, logo vendem-se menos produtos.

A maioria das críticas a esta forma alternativa de comércio prende-se com o facto de incentivar a insistência por parte dos produtores do Sul na produção de bens cujo valor acrescentado é muito reduzido e cujo fabrico não ajuda no desenvolvimento do país, como apontado, nomeadamente, por LeClair (2002, 2008). Esta crítica, no entanto, assume o pleno emprego e que os produtores podem facilmente abandonar a produção destes produtos para começarem a criar bens de elevado valor acrescentado. No entanto, como salientado por Hayes (2008), esta não é a realidade dos países onde se localizam estes produtores – países em desenvolvimento, tecnologicamente atrasados e com níveis de desemprego elevados. Sendo ainda de referir que a questão da diversificação é mais macroeconómica do que microeconómica, havendo pouca margem de manobra para o que os produtores do Sul conseguiriam fazer para alterar a situação se não houvesse leis e infraestruturas preparadas para a exportação de produtos tecnologicamente mais avançados. Hayes (2008) defende que é, portanto, uma questão mais governamental do que individual, o que continua a não ser uma solução, porque os países onde vivem os produtores visados pelo comércio justo são, geralmente, países pobres com governos deficitários.

Dentro das cooperativas de café, Dragusanu et al. (2014) apontam para a existência de desvio de fundos e o não surgimento de melhorias salariais e de condições de trabalho para os trabalhadores, apesar de os produtores receberem preços mais altos por produzirem bens dentro desta rede. No entanto, nas plantações “91% dos trabalhadores diz que pertencer a esta rede melhorou as suas condições de vida” (Dragusanu et al., 2014, p. 232).

Doherty et al. (2013), citando Bacon, refere a crítica deste às organizações internacionais de comércio justo – nomeadamente à Fairtrade International – de que os aumentos do preço mínimo não são adequados nem suficientes, pois não tiveram em conta a inflação e o aumento nos custos de produção e de vida, ou seja, o preço mínimo estabelecido não está a acompanhar a realidade económica mundial.

Possíveis alternativas

As bases inerentes ao comércio justo têm dado origem a diversas críticas, nomeadamente pela aparente falta de valor acrescentado e pelo incentivo à produção dos mesmos produtos, como demonstrado anteriormente. É neste contexto que diversos autores

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decidiram apresentar alternativas ao comércio justo com o objetivo de promover as mesmas mudanças, mas utilizando outros mecanismos: restrições éticas às importações ou o não consumo de bens “não justamente” produzidos.

Uma alternativa ao comércio justo apresentada por Mann (2008), e que também é defendida por diversos outros autores, poderia ser a existência de restrições éticas às importações, impostas pelos governos dos países desenvolvidos como forma de mitigar as desigualdades sentidas entre estes e os países em desenvolvimento. Desta forma evitar-se-iam algumas das críticas que são apontadas ao comércio justo, como a promoção da ineficiência – o critério para comprar produtos sobre o selo de comércio justo por parte das organizações de comércio internacional não é o preço mais baixo possível, o qual, desde que os requisitos sejam cumpridos, seria a forma mais eficiente de os escolher – e as barreiras à entrada (certificação) que impedem alguns produtores de alcançarem o comércio justo, continuando assim fora do comércio internacional e dos benefícios inerentes. Estas restrições poderiam ser, por exemplo, a proibição da importação de bens produzidos com mão-de-obra infantil ou trabalho forçado ou a interdição à importação de bens cuja produção envolve a utilização de determinados pesticidas prejudiciais à saúde e ao ambiente. No entanto, esta alternativa tem recebido diversas críticas, porque assume que todos os consumidores dos países desenvolvidos reconhecem valor na melhoria das condições de vida da população dos países em desenvolvimento, o que pode não ser verdade, fazendo com que estes paguem um preço mais alto levando a uma perda no bem-estar destes consumidores.

Outra alternativa, apresentada por Adriani e Becchetti (2014), seria a recusa por parte dos consumidores em comprar produtos que não fossem produzidos de uma maneira socialmente responsável. No entanto, esta solução não resolveria o problema, pois não aumentaria os rendimentos dos produtores do Sul, apenas agravaria a situação e não levaria as empresas que não produzem de acordo com estes princípios a fazê-lo, pois continuaria a haver consumidores a comprar os produtos.

Benefícios

Dragusanu et al. (2014) encontraram os seguintes benefícios derivados da participação na rede de comércio justo: maiores rendimentos, mais vendas, maior estabilidade e acesso a financiamento. Já Hayes (2006) aponta, ainda, a redução do risco como benefício derivado da produção de acordo com os princípios do comércio justo.

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Os produtores que não comercializam os seus produtos sob o comércio justo beneficiam também da existência destes na sua região, através do desenvolvimento dos sistemas de saúde e de educação promovidos pela aplicação do preço premium na comunidade; e “pela redução do poder dos intermediários gerada pela existência do comércio justo” (Dragusanu et al., 2014, p. 233).

Apesar de não promover diretamente a diversificação da produção nos países em desenvolvimento do Sul, o comércio justo potencia o seu desenvolvimento através do incentivo à produção, como apontado por Hayes (2006), por parte das pessoas que, antes do surgimento do comércio justo, produziam para consumo próprio, mas que, com o aparecimento do mesmo e a existência do preço mínimo, consideram que produzir para vender é mais rentável do que produzir para autoconsumo. O que significa, e como defendido por Samuel et al. (2014), que a existência do comércio justo incentiva também o abandono da economia paralela e a produção através da economia formal, pois só através desta é possível participar no comércio justo e com isso receber preços mais altos pelos mesmos bens.

Promove também o desenvolvimento das gerações futuras ao aumentar o rendimento do agregado familiar, deixando de ser necessário que as crianças participem na produção para alcançar o rendimento necessário para a sobrevivência da família, permitindo– lhes assim estudar. O aumento do rendimento familiar é, de acordo com Adriani e Becchetti (2014), essencial para a não existência de trabalho infantil nestes países, circunstância sem a qual tal não seria possível. O facto de o comércio justo recompensar a inexistência de trabalho infantil apoia ainda mais a adesão a este tipo de produção. Arnould et al. (2009) encontraram evidências de que é muito mais provável uma criança de uma família que produz sob o selo do comércio justo estar a estudar, do que uma criança de uma família que produz para o comércio regular (não comércio justo).

Importa ainda referir que a participação nesta forma de comércio traz vários benefícios ao nível do desenvolvimento dos seus produtos para os produtores do Sul. Por um lado, a organização em cooperativas permite-lhes aprender novas e melhores técnicas com os outros produtores da região através da partilha de know-how; a estabilidade das relações de longo prazo permite-lhes planear e tirar melhor proveito das suas terras, bem como desenvolver os seus produtos e a qualidade dos mesmos com a ajuda dos compradores que têm interesse em fazê-lo para terem acesso aos melhores produtos; o acesso ao mercado internacional permite-lhes conhecer os seus consumidores e adaptar os seus bens à procura.

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Por outro lado, as próprias organizações fornecem diversos serviços como marketing, desenvolvimento do produto e distribuição.

Schiesari e Grüninger (2014) no seu estudo do comércio justo do Brasil encontrou um exemplo em como o comércio justo promove a diversificação: uma cooperativa de agricultores de laranjas que vende os seus bens para a produção de sumo de laranja utilizou o premium por eles recebido para construir uma fábrica de processamento de laranjas, passando assim para o próximo nível da cadeia de valor.

Um benefício menos falado, mas derivado da aplicação das normas de comércio justo por parte dos produtores é a produção ambientalmente sustentável, que, no Brasil, para dar um exemplo, e referido por Schiesari e Grüninger (2014), teve como consequência o reaparecimento de aves que tinham abandonado determinada zona.

Por último, apesar de ser verdade que a existência do preço premium pode encorajar o comodismo, não incentivando estes produtores a diversificarem a sua produção como indicado por LeClair (2002, 2008) – meio reconhecido como essencial para o crescimento económico de um país e para reduzir a sua vulnerabilidade a flutuações no mercado internacional –, este é também um meio que as organizações têm para investir em novas indústrias.

Síntese

Como evidenciado por diversos autores e defendido pelas duas principais organizações internacionais de comércio justo – a World Fair Trade Organization e Fairtrade

Labelling Organizations International (2009) – na sua carta conjunta sobre o comércio justo, os

principais objetivos deste são: “acesso ao mercado por parte dos produtores marginalizados”, “relações comerciais equitativas e sustentáveis”, “preparação e qualificação dos produtores”, “consciencialização dos consumidores” e a “promoção dos direitos dos trabalhadores”.

Este tipo de comércio teve a sua origem – por parte dos consumidores – nos objetivos sociais da população do Norte, que queria proporcionar as mesmas condições em que vive e nas quais participa no comércio internacional à população do Sul. Sendo sustentada, atualmente, pelo “warm glow” que os consumidores do Norte continuam a sentir ao adquirir produtos produzidos de acordo com os princípios do comércio justo. Por parte dos produtores do Sul, a origem deste movimento deve-se às condições precárias e desiguais em que conseguiam participar no comércio internacional. Atualmente, o comércio justo

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foca-18

se em alcançar produtores em países em desenvolvimento que se caracterizam pela existência de governos fracos, corrupção elevada, economia paralela muito significativa e a existência de monopólios em áreas essenciais para o desenvolvimento.

Apesar das diversas críticas de que é alvo – que estão referidas acima – o comércio justo contribui para a melhoria das condições de vida das populações onde se encontra, como evidenciado anteriormente; e como, nomeadamente, a Fairtrade Foundation (2012) aponta, permite que as famílias consigam suportar os custos para garantir que as suas necessidades básicas sejam satisfeitas.

Por último, esta forma de comércio assume que os produtores do Sul têm os mesmos valores e ambições que a população ocidental, que pretendem que os seus filhos tenham uma educação como nos países do Norte e que estão interessados em melhorar as suas condições de vida. Esta presunção parece estar certa, pois a adesão ao comércio justo é voluntária, e o número de produtores a aderir está sempre a aumentar.

É importante referir que a Fairtrade International e a World Fair Trade Organization não são as únicas organizações a trabalhar para melhorar as condições de vida da população mundial e para fazer chegar os benefícios da globalização a todo o mundo.

O Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (2018a) é a organização das Nações Unidas que tem como missão potenciar o desenvolvimento sustentável e equitativo de todos os países (tanto desenvolvidos como em desenvolvimento), e ajudar estes últimos a desenvolverem-se para alcançarem a prosperidade que já se vive nos primeiros. É através dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que este organismo contribui para levar os benefícios da globalização a todo o mundo, sendo 4 os objetivos que se dirigem a áreas onde o comércio justo também se foca:

“8 – Promover o crescimento económico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos

9 – Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação

10 – Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles

17 – Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável” (Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas, 2018d)

Os três primeiros objetivos percebem-se apenas pela leitura do objetivo. O último (17º) é mais difícil de perceber, mas pretende, entre outras, que os países consigam atingir os

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ODS através dos seus próprios meios. Para tal, apostam em ajudar a fomentar o comércio internacional originado nos países em desenvolvimento.

Esta organização apoia a participação no comércio internacional através de vários projetos que têm como objetivo melhorar as práticas comerciais nas diversas regiões e países do mundo, como por exemplo, o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (2018b) tem um projeto que tem como objetivo facilitar as exportações nos países da Ásia Central e o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (2018c) tem também um projeto que pretende reduzir o comércio ilegal ligado à vida selvagem na Indonésia através da capacitação das organizações e do governo local e do desenvolvimento de um comércio legal e sustentável de vida selvagem.

Ao contrário da OMC que, como apresentado por Stiglitz e Charlton (2009), não consegue aplicar regras justas no comércio internacional, porque os países que fazem parte da OMC têm mais poder do que os países que pretendem aderir, o que significa que podem impor regras com vista a fomentar as suas próprias economias e indústrias, o que tem como consequência o não desenvolvimento dos países em desenvolvimento, o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas tem a vantagem de não estar sujeita a estas pressões, e ser assim capaz de criar projetos dirigidos às áreas que precisam de desenvolvimento em cada país/região para tentar assegurar o cumprimento dos ODS até 2030.

A nível nacional, o Centro de Intervenção para o Desenvolvimento Amílcar Cabral (CIDAC) (2018) tem, tal como a Fairtrade International e a World Fair Trade Organization, o comércio justo como missão. Para tal, tem a Loja do Comércio Justo, local onde vende não só bens produzidos de acordo com as regras do comércio justo em países em desenvolvimento, como produtos portugueses produzidos por pequenos produtores cuja participação no comércio convencional não era suficiente para garantir condições básicas de vida e para assegurar que conseguiam cobrir os custos de produção com os valores que recebiam pela venda dos seus produtos.

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3. Metodologia

O método de investigação utilizado é a investigação quantitativa cujo objetivo é “a generalização dos resultados (…), o estabelecimento de relação causa-efeito e a previsão de fenómenos” (Ferreira e Carmo, 2015, p. 159). Para tal, e como característica deste método, a revisão de literatura foi fundamental para a definição das variáveis e foram definidos objetivos claros. A escolha deste método deve-se ao facto de ser o método que permite “a identificação e apresentação de dados” (Sousa e Baptista, 2011, p. 53), e foi possível porque havia a perspetiva de se conseguir recolher dados sobre a questão de investigação diretamente da fonte.

A metodologia escolhida para efetuar o estudo será a realização de inquéritos por questionário, devido ao facto de o público-alvo deste estudo se encontrar fisicamente distante, tornando a realização de entrevistas pouco realista. No entanto, apresenta a desvantagem de ser um método que não permite uma maior exploração e aprofundamento das respostas.

O público-alvo deste inquérito, como sugerido anteriormente, é constituído pelos produtores do Sul. Como o contacto com este público-alvo será difícil, pois são pessoas que se encontram fisicamente longe, em países em desenvolvimento onde o acesso a computadores não é garantido, o método de amostragem será a amostra por conveniência, ou seja, a amostra será composta pelos produtores que responderem ao questionário.

Os questionários foram enviados por e-mail, pelas redes sociais (nomeadamente

Facebook) e através dos formulários de contacto embutidos no website dos diversos produtores

identificados. Para identificar os produtores, e garantir que se encontram certificados de acordo com as regras do comércio justo, recorreu-se aos membros apresentados nos websites das duas organizações internacionais de comércio justo: Fairtrade International e World Fair

Trade Organiatizon. Foram encontrados 545 produtores.

Escolheu-se contactá-los através de todos os métodos que disponibilizavam: e-mail,

Facebook e formulários de contacto. Isto significa que há organizações contactadas pelos três

métodos, tendo-se, no caso do e-mail, optado por enviar um e-mail para todos os endereços apresentados. Esta decisão ficou-se a dever ao facto de o objetivo ser perceber o que leva os produtores como indivíduos a juntar-se ao comércio justo e não as motivações da organização. Sendo assim, foram enviados 726 e-mails, preenchidos 238 formulários de

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contacto e entrou-se em contacto via Facebook com 291 organizações. Importa referir que se assumiu que, se fosse a mesma pessoa responsável por responder aos três métodos de contacto, esta só responderia uma vez ao questionário. Por último, há que referir que, uma semana antes da recolha final das respostas, enviou-se um novo e-mail na esperança de se obter mais respostas.

A construção do questionário teve por base a literatura, tendo-se decidido pela elaboração de um questionário estruturado, constituído principalmente por perguntas fechadas, cujo objetivo é validar as evidências encontradas na literatura e a recolha de dados diretamente da fonte. Sendo assim, as respostas aos questionários já se encontraram pré– codificadas, através das opções colocadas como respostas a cada pergunta.

Os questionários estão disponíveis em português, espanhol, inglês e em francês, pois os países onde se encontram estes produtores são essencialmente ex-colónias de países desenvolvidos. Como não foi possível a realização de um teste preliminar (pré-teste) antes do envio dos questionários, como indicado por Ferreira e Carmo (2015) como sendo útil para o sucesso do questionário, e para se garantir que os inquiridos interpretavam as questões da mesma maneira, cujo objetivo é assegurar que o que é perguntado é o mesmo que é respondido, em todas as formas de envio dos inquéritos para os produtores foi manifestada a disponibilidade para esclarecer qualquer dúvida que surgisse e facultado um método de contacto. Como, apesar de poucos, houve contactos para clarificar perguntas, considera-se que o risco de as perguntas não estarem a ser interpretadas corretamente foi minimizado.

Para aumentar o número de respostas aos questionários, e como sugerido por Quivy e Campenhoudt (2008), o questionário tem poucas perguntas e apenas contém as perguntas necessárias para a realização deste estudo, não fazendo perguntas originadas apenas pela curiosidade ou pela oportunidade que dispersariam a atenção dos inquiridos. Mais, e como sugerido por Hill e Hill (2016), o inquérito foi dividido em secções que têm “tema homogéneo” de forma a permitir um preenchimento mais claro. A divisão em secções contribui também para que os inquiridos não tivessem uma sensação de sobrecarga ao verem diversas perguntas, o que poderia fazer com que desistissem de responder ao questionário, seguindo assim a sugestão de Hill e Hill (2016) de que um layout “esteticamente atraente” potencia a obtenção de respostas.

Do questionário pretendia-se concluir quais os principais motivos que originam a adesão ao comércio justo por parte dos produtores, como mencionado anteriormente. E

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perceber se existe alguma relação entre os anos de adesão ao comércio justo e da organização em cooperativas com a percentagem de bens vendida através deste canal.

Uma primeira análise dos dados recolhidos é feita com recurso à estatística descritiva, tendo como objetivo, essencialmente, organizar os dados recolhidos por forma a demonstrar ao leitor da dissertação as respostas dadas de uma forma resumida e pouco exaustiva.

A análise profunda das respostas é muito influenciada pelos dados recolhidos, como será explicado de seguida. No entanto, importa referir que a intenção é utilizar métodos para estudar relações e correlações quando os dados o permitirem.

Começando pelo segundo objetivo (estudar como é afetada a percentagem de bens vendidos através do comércio justo pelo número de anos de adesão e pela organização em cooperativa), e através dos estudos de Hill e Hill (2016) e de Howell (2007), a regressão linear múltipla seria o melhor modelo estatístico para analisar a relação entre estas três variáveis e permitiria até encontrar uma fórmula que permitisse prever – com relativa confiança – a percentagem vendida sabendo os outros dois valores. No entanto, esta técnica tem como pressuposto a distribuição normal da amostra: como se pode concluir pela análise da Tabela 1 conseguida através do SPSS que apresenta o Teste de Shapiro-Wilk para verificar a normalidade de uma amostra cujo N<50, tal não se verifica. O facto de a amostra não ter uma distribuição normal compromete a utilização de qualquer outra técnica paramétrica.

Teste de normalidade: Teste de Shapiro-Wilk

H0: amostra segue distribuição normal vs H1: amostra não segue distribuição normal

Como p < 0,05 rejeita-se H0, pelo que se rejeita a normalidade da amostra

Tabela 1 – Teste de normalidade

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Sendo assim, recorreu-se ao Coeficiente de Correlação ρ (Rho) de Spearman para concluir se estas variáveis teriam alguma relação entre si – importa ressalvar que este teste só estuda a relação entre duas variáveis de cada vez.

Relativamente ao principal objetivo desta dissertação – perceber quais os motivos que levam à adesão ao comércio justo por parte dos produtores do Sul – a sua análise é dificultada porque, para além dos obstáculos acima mencionados como o tamanho da amostra e a falta de distribuição normal (ver a Tabela 2), o facto de serem apenas variáveis qualitativas reduz ainda mais o número de modelos estatísticos que estudam relações entre variáveis que se podem utilizar para analisar estes dados.

Teste de normalidade: Teste de Shapiro-Wilk

H0: amostra segue distribuição normal vs H1: amostra não segue distribuição normal

Como p < 0,05 rejeita-se H0, pelo que se rejeita a normalidade da amostra

Tabela 2 – Teste de normalidade

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A análise loglinear que “é uma teoria não paramétrica que analisa as relações entre duas ou mais variáveis nominais” (Hill e Hill, 2016, p. 209) permitindo analisar, por exemplo, a motivação por detrás da adesão ao comércio justo por parte dos produtores do Sul (variável dependente), seria a única opção viável; no entanto, depois de se recorrer ao SPSS para testar esta técnica, conclui-se que os dados recolhidos não cumprem os pressupostos para se obter resultados fiáveis, de acordo com Howell (2007).

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4. Análise de dados

Para analisar quais são as razões que motivam a adesão ao comércio justo por parte dos produtores, como mencionado anteriormente, optou-se por utilizar inquéritos por questionário enviados por meios eletrónicos. Conseguiram-se obter 46 respostas aos mesmos. De seguida, procede-se à análise dos dados recolhidos. Este número comprova a dificuldade em contactar o público-alvo – produtores do Sul – pois dos 545 produtores contactados, 10 demonstraram a impossibilidade de participar no estudo, uns por falta de tempo e outros por falta de interesse e apenas se obtiveram 46 respostas. Nos Anexos, encontram-se o Anexo 1 – Questionário enviado (Anexo 1) e as Anexo 2 – Respostas obtidas (Anexo 2 – Respostas.

Obteve-se um número aproximadamente equivalente de respostas por género: 59% dos respondentes eram homens e 41% eram mulheres (ver Gráfico 5 em Anexos). Todos os 4 continentes onde há comprovadamente comércio justo estão representados na amostra, sendo a Ásia o continente de onde se conseguiu obter mais respostas (52%), seguido da América com 26%, e, por fim, África e Europa ambas com 11% (ver Gráfico 6 em Anexos). Optou-se por agrupar a análise por continente, visto que a maior parte dos países dos inquiridos era diferente, sendo o Bangladesh o país de onde se obteve maior número de respostas (6), seguido da Índia, da Indonésia e do Nepal, países representados com 3 respostas cada.

As tabelas que se seguem – Tabela 3 e Tabela 4 – servem para apresentar aos leitores uma caracterização da amostra. Importa referir que os dados foram agrupados e que a informação detalhada se encontra nos Anexos: Tabela 10 e Tabela 11Anexo 2 – Respostas.

Género Nº de respostas Média de idades

Média de anos desde adesão ao comércio justo Quantos estão inseridos numa cooperativa Feminino 19 45 12 6 Masculino 27 41 14 20

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Produto

Continente Artesanato Bens Alimentares Roupa Serviços Outros Total

África 1 1 1 0 2 5

América 3 5 3 1 0 12

Ásia 15 2 4 0 3 24

Europa 1 1 1 0 1 42

Tabela 4 – Caracterização da amostra por continente

Dos produtores de comércio justo que responderam aos questionários, 57% fazia parte de uma cooperativa, enquanto que os restantes 43% não estavam inseridos em nenhuma cooperativa (consultar Gráfico 7 em Anexos). Como se pode concluir através da análise do Gráfico 1, a percentagem de bens vendidos através do comércio justo varia significativamente de produtor para produtor, sendo importante referir que há produtores que escoam 100% da sua produção através deste canal, mas também há produtores que não vendem nada através desta rede.

Gráfico 1 – Percentagem vendida na rede do Comércio Justo

2 Obteve-se 5 respostas de produtores europeus, no entanto um respondente não especificou o

produto 0 10 20 30 40 50 60 70 80 90 100 0 10 20 30 40 50

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Para aferir se as críticas mencionadas nos diversos artigos sobre o comércio justo são motivo de descontentamento por parte dos produtores certificados, perguntou-se aos mesmos se a participação no comércio justo teria aspetos negativos. Apesar de a maioria das respostas (78% – consultar Gráfico 8 em Anexos) negar a existência de aspetos negativos, 22% afirma que sim, existem aspetos negativos e as principais causas apontadas são a elevada concorrência, o facto de os preços elevados não permitirem alcançar um mercado maior (encontrarem-se num nicho de mercado), o custo da certificação – como apresentado por De Janvry et al. (2015) – e a desadequação dos standards com a realidade dos produtores – como apresentado na Tabela 5, as respostas completas dos produtores encontram-se nos Anexos.

Aspetos negativos Nº de respostas Custo da certificação 2

Standards 4

Dimensão do mercado 3 Falta de promoção 1

Tabela 5 – Quadro-resumo dos aspetos negativos

Relativamente à questão de investigação: “Quais os motivos que originam a adesão ao comércio justo por parte dos produtores do Sul?”, apresenta-se de seguida o Gráfico 2 com as respostas obtidas a esta questão. Como mencionado no capítulo da metodologia, as opções de respostas tiveram origem na revisão de literatura conduzida para a elaboração da presente dissertação.

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Gráfico 2 – Motivos que originaram a adesão ao comércio justo

Como se pode ver a partir da análise do Gráfico 2, “Responsabilidade social” foi o principal motivo que originou a adesão ao comércio justo. Esta realidade apresenta novos dados à investigação sobre o comércio justo, visto que na literatura a responsabilidade social é maioritariamente referida apenas como sendo a razão que leva os consumidores a comprar bens a um preço justo (mais elevado que os bens “normais”), não relacionando produtores e responsabilidade social. Por outro lado, a “Obtenção do premium” tantas vezes referida na literatura como o potencial motivador dos produtores é um dos dois motivos menos selecionados, juntamente com a “Promoção de democracia”.

A Tabela 6Tabela 6 – Distribuição por motivo que originou a adesão ao comércio justoTabela 6 apresenta os motivos assinalados pelos produtores de acordo com a sua ordem de importância (medida pelo número de vezes em que a razão foi selecionada).

Referências

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