RANIELLE LEAL MOURA
GÊNEROS JORNALÍSTICOS NA IMPRENSA BRASILEIRA
DO SÉCULO XX
_Revista O Cruzeiro_
Universidade Metodista de São Paulo
Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social São Bernardo do Campo – SP
RANIELLE LEAL MOURA
GÊNEROS JORNALÍSTICOS NA IMPRENSA BRASILEIRA
DO SÉCULO XX
_Revista O Cruzeiro_
Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências
do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da
Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), para a
obtenção do grau de Mestre.
Orientador: Prof. Dr. José Marques de Melo
Universidade Metodista de São Paulo
Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social São Bernardo do Campo – SP
FOLHA DE APROVAÇÃO
A dissertação de mestrado sob o título “GÊNEROS JORNALÍSTICOS NA IMPRENSA BRASILEIRA DO SÉCULO XX, REVISTA O CRUZEIRO ”, elaborada por RANIELLE
LEAL MOURA foi apresentada e aprovada em 29 de março de 2011, perante banca
examinadora composta por José Marques de Melo (Presidente/UMESP), Laan Mendes de Barros (Titular/UMESP) e Sandra Lúcia A. de Assis (Titular/USP).
__________________________________________ Prof. Dr. José Marques de Melo
Orientador/a e Presidente da Banca Examinadora
__________________________________________
Prof. Dr. Laan Mendes de Barros Coordenador/a do Programa de Pós-Graduação
Programa:Pós- Graduação em Comunicação Área de Concentração:Processos Comunicacionais
Linha de Pesquisa:Processos Comunicacionais Midiáticos Projeto Temático: Midiologia Brasileira
A minha mãe, a minha vida, Ana Regina Rêgo
Nós, jornalistas, não vivemos numa torre de marfim, mas no torvelinho humano
que nos empolga. A imprensa é obra de homens, não de anjos.
Danton Jobim
AGRADECIMENTOS
A DEUS, criador da vida e fonte constante de inteligência e inspiração.
À minha amada mãe, ANA REGINA Rêgo, que, com muito amor, carinho e apoio, não mediu esforços para que eu chegasse até esta etapa de minha vida. Obrigada por ser minha mãe!
Ao meu pai JÚLIO César Medeiros Costa, pelo exemplo de profissional, homem, pai e marido; por seu amor, sua amizade e dedicação à família; por estar sempre presente, mesmo que de longe.
Aos meus FAMILIARES, por acreditarem em mim, em especial ao meu avô José Rêgo, à minha avó Francisca Rêgo, a minha avó Iná Monteiro, ao meu pai Romildo Moura, às minhas irmãs (minha vida) Dalila Leal Costa e Clara Leal Costa, ao meu irmão Júlio Afonso.
A minha tia MARIA DE FÁTIMA Medeiros, por todo companheirismo e acompanhamento ao longo do Mestrado, pelo acolhimento no Rio de Janeiro (RJ), durante a pesquisa na Biblioteca Nacional e durante as longas visitas aos “sebos” para compra das edições da Revista O Cruzeiro.
Ao repórter-fotográfico JOSÉ MEDEIROS (in memoriam), por ter sido fonte de inspiração em trabalhos passados e, por ter “me apresentado” a O Cruzeiro por meio de suas reportagens fotográficas.
À minha prima MICHELE Moura e à sua família (Pedro, Eliane, Daniele e Eraldo), por palavras de estímulo nas horas certas.
Ao meu querido mestre, JOSÉ MARQUES DE MELO, pela confiança e paciência na orientação, pelo constante incentivo e por ser fonte de inspiração e de conhecimento.
Aos PROFESSORES do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo (PÓS-COM), pelos ensinamentos compartilhados e pelo apoio, em especial, Daniel Galindo, Sandra Reimão e Cecília M. Krohling Peruzzo.
A LAAN Mendes de Barros, por sua contribuição durante e depois do exame de qualificação.
À amiga MARIA DAS GRAÇAS Targino, por sua revisão zelosa e dedicação, por seu acompanhamento e apoio.
À minha amiga-irmã, companheira de todas a horas, TYCIANE Cronemberger Viana Vaz, por sua atenção e colaboração.
Aos AMIGOS E COLEGAS do PÓS-COM, por contribuírem com meu crescimento pessoal e profissional, em especial, Rosa E. Rocha, Tatiane Carvalho, Maria de Jesus Daiane Rufino Leal e Francisco de Assis.
A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela concessão de bolsa de estudos.
À equipe da CÁTEDRA UNESCO, principalmente, Rônia Barbosa, sempre disposta a ajudar. Aos funcionários da BIBLIOTECA NACIONAL (RJ), por seu pronto e eficiente atendimento.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 Visão do programa da Semana de Arte Moderna 31
Figura 2 Notícia do anúncio do Estado Novo ao povo brasileiro por Getúlio
Vargas, 11 nov. 1937 49
Figura 3 Inauguração de Brasília por Juscelino Kubitschek, edição de O
Cruzeiro, edição 7 maio 1960 64
Figura 4 Ilustração da matéria sobre a inauguração de Brasília por Juscelino Kubitschek, edição de O Cruzeiro, edição 7 maio 1960 65 Figura 5 Capa sobre o Comando de Caça aos Comunistas, edição de O Cruzeiro,
edição 9 nov. 1968 76
Figura 6 Visão de reportagem sobre o Comando de Caça aos Comunistas, edição
de O Cruzeiro, edição 9 nov. 1968 77
Figura 7 Visão de capa da revista Kosmos 88
Figura 8 Visão de capa da revista Fon-Fon!, por Di Cavalcanti 89 Figura 9 Capa inaugural da revista Careta, Presidente Affonso Penna 90 Figura 10 Capa da revista Manchete, edição sobre a construção de Brasília 92 Figura 11 Capa inaugural da revista Veja, edição 11 set. 1968 93
Figura 12 O Cruzeiro, edição especial 1930 (I) 101
Figura 13 O Cruzeiro, edição especial 1930 (II) 101
Figura 14 O Cruzeiro, edição especial 1930 (III) 102
Figura 15 O Cruzeiro e capas, incluindo primeira (1928) e última (1975) 104 Figura 16 Capa inaugural da Revista O Cruzeiro, 10 nov. 1928 107 Figura 17 Capa da Revista O Cruzeiro sobre discos voadores, 17 maio 1952 118 Figura 18 Reportagem da Revista O Cruzeiro sobre a morte de Getúlio Vargas,
edição especial 25 ago. 1954 121
Figura 20 Gênero Informativo: Reportagem: O Rio de Janeiro de 1950 213 Figura 21 Gênero Informativo: Notícia: As Mulheres que estão fazendo história 215 Figura 22 Gênero Informativo: Foto-notícia: As manobras do exército alemão 215 Figura 23 Gênero Informativo: Foto-nota: Embaixador da Bélgica e Ministro do
Trabalho
216
Figura 24 Gênero Opinativo: Artigo : Pode-se mudar de sexo a‟ vontade? (sic.) 218 Figura 25 Gênero Opinativo: Resenha/Crítica: Tragédia de uma Paixão 218 Figura 26 Gênero Opinativo: Foto-coluna: Panorama Mundial 219
Figura 27 Gênero Opinativo: Coluna: Cinelândia 219
Figura 28 Gênero Opinativo: Coluna Caricatura: Caricatura Estrangeira 220 Figura 29 Gênero Interpretativo: Foto-perfil: Bailarinas de Nosso Theatro-Alice
Spletzer
221
Figura 30 Gênero Utilitário: Roteiro Theatro (sic.) 221
Figura 31 Gênero Utilitário: Roteiro Cinemas 222
Figura 32 Jornalismo Diversional -História de Interesse Humano: Os projectos de Joan Crawford
223
Figura 33 Política Internacional: Itália: no Passado, no Presente e no Futuro 228 Figura 34 Astros alemães: Brigitte Helm na intimidade 230 Figura 35 Gênero Informativo: Notícia: Futuro Verão 233 Figura 36 Gênero Informativo: Reportagem: Os que foram abraçar Jesus 234 Figura 37 Gênero Informativo: Entrevista: Forças Armadas apreensivas 236 Figura 38 Gênero Informativo: Fotorreportagem: Os guerreiros da Barriga
Pintada..
237
Figura 39 Gênero Informativo: Foto-notícia: O casamento de Marilyn Monroe 238 Figura 40 Gênero Informativo: Foto-nota: Ritual de Fogo 239
Figura 41 Gênero Informativo: Foto-nota: Quem 239
Figura 42 Gênero Opinativo: Editorial: Conversa com o leitor 242 Figura 43 Gênero Opinativo: Artigo: O Polígono das secas 242
Figura 44 Gênero Opinativo: Comentário: Carrossel do Mundo: Chefes de Polícia em dificuldade
243
Figura 45 Gênero Opinativo: Resenha/Crítica: Teatro Rio 243
Figura 46 Gênero Opinativo: Crônica: Dicionários 244
Figura 47 Gênero Opinativo: Foto-Opinião: Rua David Nasser 244 Figura 48 Gênero Opinativo: Carta: Opinião do Leitor 245 Figura 49 Gênero Opinativo: Coluna: Da Mulher para a Mulher 245
Figura 50 Gênero Opinativo: Coluna: Sete Dias 246
Figura 51 Gênero Opinativo: Coluna-Charge: O Amigo da Onça 246 Figura 52 Gênero Opinativo: Coluna-Caricatura: Pif-Paf 247 Figura 53 Gênero Diversional: História de Interesse Humano: Minha vida de
casada
248
Figura 54 Gênero Interpretativo: Enquete: Marilyn Monroe: Acordo, Desacordo e Conhecimento
249
Figura 55 Gênero Interpretativo: Foto-Perfil: Alvinho 249 Figura 56 Gênero Interpretativo: Dossiê: O Brasil na 3ª Guerra Mundial 250 Figura 57 Outras temáticas: Religião: XXXVI Congresso Eucarístico
Internacional
257
Figura 58 Outras temáticas: 250 Leprosos encenam a Paixão de Cristo 259 Figura 59 Astros Nacionais: O novo amor de Dalva de Oliveira 261 Figura 60 Gênero Informativo: Nota: Vênus na linha Russa 264 Figura 61 Gênero Informativo: Foto-Nota: Sindicato dos leiloeiros do Estado da
Guanabara
265
Figura 62 Gênero Informativo: Notícia: O Retorno de Garrincha 265 Figura 63 Gênero Informativo: Foto-Notícia: Balduíno e Fabíola no Brasil 266 Figura 64 Gênero Informativo: Entrevista: Maria Helena Dias 266 Figura 65 Gênero Informativo: Reportagem: Chico Xavier- O Paulista Iluminad 267 Figura 66 Gênero Informativo: Fotorreportagem: O verão na Rússia 268
Figura 67 Gênero Opinativo : Editorial: Começo de Conversa 272
Figura 68 Gênero Opinativo: Carta: Cartas 273
Figura 69 Gênero Opinativo: Artigo: Da contradição de um povo 273 Figura 70 Gênero Opinativo: Comentário: O último Holandês 274 Figura 71 Gênero Opinativo: Resenha/Crítica: O filme da semana 274 Figura 72 Gênero Opinativo: Crônica: O Leão doente 276 Figura 73 Gênero Opinativo: Foto-Opinião: Os problemas de ZSA ZSA 276 Figura 74 Gênero Opinativo: Charge: Pílula que pílula! 277
Figura 75 Gênero Opinativo: Coluna: Cinelândia 277
Figura 76 Gênero Opinativo: Coluna: Pelo Brasil e Pelo Mundo 278
Figura 77 Gênero Opinativo: Coluna: Em Confiança 278
Figura 78 Gênero Opinativo: Coluna-Charge: Carlos Estevão 279 Figura 79 Gênero Opinativo: Coluna-Caricatura: Pi-Paf 279 Figura 80 Gênero Opinativo: Foto-Coluna: Fotofofocas 280 Figura 81 Gênero Diversional: História de Interesse Humano: Cinco Vezes
Venezuela
281
Figura 82 Gênero Diversional: História Colorida: Os Cavalheiros do Deserto 281 Figura 83 Gênero Interpretativo: Dossiê: A Lua sem Mistério 283 Figura 84 Gênero Interpretativo: Perfil: Ilclemar – O Pintor Erótico 284 Figura 85 Gênero Interpretativo: Enquete : Casar ou não Casar eis a questão. 285 Figura 86 Temática Cultura : 15 anos do Museu de Arte Moderna de São Paulo 291 Figura 87 Temática Política: Sucessão com segurança na Aliança – Costa e Silva
com Castelo
294
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 Gêneros Jornalísticos na Revista O CRUZEIRO - 1º período 224
Gráfico 2 Gênero Informativo - 1º Período 224
Gráfico 3 Gênero Opinativo - 1º Período 225
Gráfico 4 Gênero Utilitário - 1º Período 225
Gráfico 5 Gênero Diversional - 1º Período 226
Gráfico 6 Temáticas – 1º Período 227
Gráfico 7 Gêneros Jornalísticos na Revista O CRUZEIRO - 2º Período 252
Gráfico 8 Gênero Informativo - 2º Período 253
Gráfico 9 Gênero Opinativo- 2º Período 254
Gráfico 10 Temáticas – 2º Período 256
Gráfico 11 Temáticas - Outros – 2º Período 257
Gráfico 12 Gêneros Jornalísticos na Revista O CRUZEIRO -3º Período 287
Gráfico 13 Gênero Informativo- 3º Período 288
Gráfico 14 Gênero Opinativo – 3º Período 289
Gráfico 15 Temáticas- 3º Período 290
Gráfico 16 Gêneros Jornalísticos na Revista O CRUZEIRO- Todos os Períodos 297
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 Classificação de gêneros e formatos, Luiz Beltrão 146
Quadro 2 Classificação de gêneros e formatos, José Marques de Melo 147
Quadro 3 Classificação atualizada de gêneros e formatos, José Marques de Melo
148
Quadro 4 Formatos do gênero interpretativo, José Marques de Melo 183
Quadro 5 Formatos do gênero utilitário, José Marques de Melo 187
Quadro 6 Formatos do gênero utilitário, Tyciane Cronemberger Viana Vaz 187
Quadro 7 Formatos do gênero diversional, José Marques de Melo 189
Quadro 8 Formatos dos gêneros fotojornalísticos, Jorge Pedro Sousa 201
Quadro 9 Categorias de Análise iniciais –Gêneros e Formatos de Marques de Melo
206
Quadro 10 Categorias de Análise complementares- Formato e Tipos localizados em O Cruzeiro
207
LISTA DE SIGLAS, ABREVIATURAS E SIMBOLOS
ABL Academia Brasileira de Letras
AI Ato Institucional
AIB Ação Integralista Brasileira
AL Alagoas
ANL Aliança Nacional Libertadora ABI Associação Brasileira de Imprensa API Associação Paulista de Imprensa
Arena Aliança Renovadora Nacional
BA Bahia
BB Banco do Brasil
BNDE Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico BNH Banco Nacional de Habitação
CCC Comando de Caça aos Comunistas
CE Ceará
CIB Centro Industrial do Brasil
CLT Consolidação das Leis de Trabalho
CO Centro-Oeste
CODI Centro de Operações de Defesa Interna
DEIP Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda DIP Departamento de Imprensa e Propaganda
DOI Destacamento de Operações de Informações
DVD digital video disc / digital versatile disc
Elacom Escola Latino-Americana de Comunicação Embratel Empresa Brasileira de Telecomunicações EUA Estados Unidos da América
FAB Força Aérea Brasileira
FGTS Fundo de Garantia por Tempo de Serviço FMI Fundo Monetário Internacional
FNT Fundo Nacional de Telecomunicações
GO Goiás
Ibope Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística INPS Instituto Nacional de Previdência Social
JB Jornal do Brasil
JK Juscelino Kubitschek / Juscelino Kubitschek de Oliveira
MA Maranhão
MASP Museu de Arte de São Paulo Mcm meios de comunicação de massa
MDB Movimento Democrático Brasileiro
MG Minas Gerais
MS Mato Grosso do Sul
NE Nordeste
OAB Ordem dos Advogados do Brasil ONU Organização das Nações Unidas
PA Pará
PAEG Plano de Ação Econômica do Governo
PB Paraíba
PCB Partido Comunista Brasileiro PDC Partido Democrático Cristão PDS Partido Democrático Social PDT Partido Democrático Trabalhista
PE Pernambuco
Petrobras Petróleo Brasileiro S/A
PI Piauí
PIB Produto Interno Bruto
PMDB Partido do Movimento Democrático Brasileiro
PÓS-COM Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social [Universidade Metodista de São Paulo]
PP publicidade e propaganda
PRM Partido Republicano Mineiro PRR Partido Republicano Riograndense PSB Partido Social Brasileiro
PSD Partido Social Democrata PSP Partido Social Progressista PT Partido dos Trabalhadores PTB Partido Trabalhista Brasileiro
RJ Rio de Janeiro
RN Rio Grande do Norte
RS Rio Grande do Sul
SE Sudeste
SM salário mínimo
SNI Serviço Nacional de Informações
SP São Paulo
STF Supremo Tribunal Federal TBC Teatro Brasileiro de Comédia
TV Televisão
UDN União Democrática Nacional
UMESP Universidade Metodista de São Paulo UnB Universidade de Brasília
UNE União Nacional dos Estudantes
Unicap Universidade Católica de Pernambuco URSS União das Repúblicas Socialistas Soviéticas USP Universidade de São Paulo
Vasp Viação Aérea São Paulo
SUMÁRIO
RESUMO RESUMEN ABSTRACT INTRODUÇÃO CAPÍTULO IO BRASIL DO SÉCULO XX: DA REPÚBLICA VELHA AO REGIME
MILITAR 26
1.1 República Velha: os anos 20 e as grandes transformações 26
1.2 De Vargas a Vargas: a construção de uma identidade nacional pela vontade
política 43
1.3 O Regime Liberal Populista no Brasil (1945-1964) 55
1.4 A Ditadura Militar e sua relação com a mídia (1964-1985) 69
CAPÍTULO II
REVISTA O CRUZEIRO: HISTÓRIA E JORNALISMO
85
2.1 Revistas brasileiras: informação e entretenimento 85
2.2 Poder e influência de Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo: a construção de um Império
93 2.3 Assis Chateaubriand e Getúlio Vargas: o ufanismo de uma época 99
2.4 O Cruzeiro: a grande estrela do Império 104
2.4.1 David Nasser e Jean Manzon 110
2.4.2 A reportagem fotográfica em O Cruzeiro 113
2.4.3 O Cruzeiro: nova equipe ou “esquadrão de ouro” da reportagem brasileira 116
2.4.4 O Cruzeiro: declínio 123
CAPÍTULO III
JORNALISMO E GÊNEROS JORNALÍSTICOS
125
3.1 O grande campo do jornalismo 125
3.1.1 A essência do jornalismo 126
3.1.3 Jornalismo: concepções e categorias 139
3.2 Gêneros e gêneros jornalísticos 142
3.2.1 Gêneros jornalísticos 143
3.2.1.1 Formatos do gênero informativo 152
3.2.1.2 Formatos do gênero opinativo 164
3.2.1.3 Formatos do gênero interpretativo 183
3.2.1.4 Formatos do gênero utilitário 187
3.2.1.5 Formatos do gênero diversional 189
3.3 Fotojornalismo: modalidade do jornalismo 191
CAPÍTULO IV
OS GÊNEROS NA REVISTA O CRUZEIRO
203
4.1 Metodologia 203
4.1.1 Paradigma Teórico Metodológico 203
4.1.2 Metodologia 204
4.2 Análise 211
4.2.1 Os Gêneros e as Temáticas da Revista O Cruzeiro : 1928- 1943 211
4.2.2 Os Gêneros e as Temáticas da Revista O Cruzeiro: 1944- 1962 231
4.2.3 Os Gêneros e as Temáticas da Revista O Cruzeiro: 1963- 1975 261
4.2.4 O Perfil de O Cruzeiro
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
LISTAGEM DAS EDIÇÕES PESQUISADAS DA REVISTA O CRUZEIRO
295
299
309
RESUMO
MOURA, Ranielle Leal. Gêneros Jornalísticos na Imprensa Brasileira do Século XX - Revista O Cruzeiro. O Cruzeiro. 2011. 320 p. f. Dissertação (Mestrado em Processos Comunicacionais) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo – SP. 2011.
Esta dissertação apresenta um estudo da Revista O Cruzeiro tendo como f oco principal os gêneros jornalísticos praticados por essa publicação ao longo dos 47 anos em que pertenceu a Assis Chateaubriand/ Diários Associados. Com dois objetivos principais, procurou-se identificar, primeiramente, os gêneros, formatos e tipos de textos jornalísticos presentes na revista entre 1928 e 1975, além de definir as peculiaridades do jornalismo informativo do periódico. Por outro lado, procurou-se descobrir quais as principais temáticas abordadas pela mesma. Ambos os esforços foram realizados com o intuito de definir o perfil de O Cruzeiro. O trabalho foi pautado em duas metodologias, a primeira, Análise Formal que foi utilizada, sobretudo, na identificação dos gêneros a partir da Teoria dos Gêneros Jornalísticos. A segunda metodologia foi a Análise de Conteúdo por Construção Iterativa utilizada no momento da identificação das temáticas. Ao final conclui-se que O Cruzeiro era predominantemente uma revista Opinativa e que seu jornalismo Informativo diverge do praticado hoje, quanto ao modelo de construção da notícia. No que concerne aos assuntos jornalísticos tratados, vemos que os temas relacionados ao ambiente social predominavam inicialmente, tendo a política ganho destaque ao longo dos anos. Por outro lado, sua marca registrada, as grandes reportagens fotográficas realizadas com temas inéditos como candomblé e manicômios, dentre outros, dão a essa publicação um destaque no cenário brasileiro, contribuindo para que a mesma permaneça até os dias atuais como uma das melhores revistas de todos os tempos.
RESUMEN
MOURA, Ranielle Leal. Gêneros Jornalísticos na Imprensa Brasileira do Século XX - Revista O Cruzeiro. O Cruzeiro. 2011. 320 p. f. Dissertação (Mestrado em Processos Comunicacionais) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo – SP. 2011.
Esta tesis presenta un estudio de la revista O Cruzeiro, centrándose principalmente en los géneros del periodismo realizado por esta publicación sobre los 47 años que pertenecía a Assis Chateaubriand / Diários Associados. Con dos objetivos principales, se buscó identificar, en primer lugar, géneros, formas y tipos de textos periodísticos en la revista entre 1928 y 1975, además de definir las peculiaridades del periodismo informativo. Por otra parte, trató de descubrir cuáles son los temas principales tratados por ella. Ambos esfuerzos se realizaron para definir el perfil de O Cruzeiro. El trabajo se basó en dos métodos, el primero, Análisis Formal que se utiliza principalmente en la identificación de los géneros de la teoría del periodismo. El segundo método es el Análisis de Contenido por la construcción iterativa utilizada en el momento de los temas. El documento concluye que O Cruzeiro fue predominantemente una revista y un boletín obstinado que difiere del periodismo practicado hoy, con respecto a el modelo de construcción de las noticias. Con respecto a los asuntos periodísticos tratados, vemos que las cuestiones relacionadas con el medio social predominó inicialmente, y los temas políticos en los últimos años. Por otra parte, sus aspectos más destacados, como las reportajes de foto con temas inéditos como el candomblé y asilos, entre otros, dan a esta publicación un énfasis en la escena brasileña, contribuyendo a la misma sigue siendo hoy en día como una de las mejores revistas de todos los tiempos.
.
ABSTRACT
MOURA, Ranielle Leal. Gêneros Jornalísticos na Imprensa Brasileira do Século XX - Revista O Cruzeiro.O Cruzeiro. 2011. 320 p. f. Dissertação (Mestrado em Processos Comunicacionais) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo – SP. 2011.
This thesis presents a study of magazine O Cruzeiro, focusing mainly on the genres of journalism done by this publication over the 47 years that belonged to Assis Chateaubriand / Diários Associados. With two main goals, we sought to identify, first, genders, shapes and types of journalistic texts present in the magazine between 1928 and 1975, besides defining the peculiarities of the informative journalism. On the other hand, sought to discover what the main issues addressed by it. Both efforts were performed in order to define the profile of O Cruzeiro. The work was guided by two methods, the first, Formal Analysis which was used mainly in the identification of genres from the Theory of Genres News. The second method was to Content Analysis by Iterative construction used at the time of those themes. At the end that O Cruzeiro was predominantly an opinionated magazine and its Informative journalism that differs from his journalism practiced today, as the model-building news. As regards to journalistic themes dealt with, we see that the issues related to social environment dominated initially, and the political gain prominence over the years. Moreover, his trademark big photo reports held with unreleased themes as Candomblé and asylums, among others, give this publication an emphasis on the Brazilian scene, contributing to the same remains to this day as one of the best magazines of all time.
INTRODUÇÃO
Depomos nas mãos do leitor a mais moderna revista brasileira. Nossas irmãs mais velhas nasceram por entre as demolições do Rio colonial, através de cujos escombros a civilização traçou a reta da Avenida Rio Branco, uma reta entre o passado e o futuro. Cruzeiro encontra já, ao nascer, o aranha-céu, a radiotelephonia e o correio aéreo: o esboço de um mundo novo no Novo Mundo. Seu nome é o da constelação que, há milhões incontáveis anos, cintila, aparentemente imóvel, no céu austral e o da nova moeda que ressuscitará a circulação do ouro. Nome de luz e opulência, idealista e realístico, sinônimo de Brasil na linguagem da poesia e dos símbolos “(sic.) (Primeiro parágrafo do editorial de O Cruzeiro, ano I, nº 1, 10 nov 1928).
Foi quase ao final da segunda década do século XX que surgiu no mercado editorial de periódicos brasileiros a revista que se tornaria um ícone entre todas as publicações até os dias atuais. O Cruzeiro, como visto no parágrafo que transcrevemos acima, nasceu moderna e assim se colocava. Surgiu em um cenário em que o país e, sobretudo, os estados do sudeste iniciavam um acelerado processo de desenvolvimento econômico e social. A intenção de seus redatores era traduzir os ares do novo momento que se anunciava no Brasil e no mundo.
O Cruzeiro nasceu como uma revista semanal ilustrada e evoluiu para uma publicação na
qual o jornalismo chegou a predominar sobre os demais conteúdos. Seus primeiros exemplares eram de fato ousados, traziam matérias futurísticas que anunciavam um Brasil completamente adaptado às novas tecnologias e planejado para se tornar uma potência econômica.
Durante muitos anos, O Cruzeiro ocupou o primeiro lugar entre as preferências da população que a aguardava ansiosa a cada semana. Na década de 1950 sua ousadia foi incrementada com a política editorial das grandes reportagens fotográficas e da realização de matérias com temas não comuns à mídia de então, como índios, negros, religião africana, doentes mentais, leprosos, nordestinos, etc. O veículo trazia, deste modo, os assuntos comumente considerados tabus para o centro do debate e tentava aproximar os diversos “brasis” do Brasil do sudeste.
A trajetória de O Cruzeiro, no entanto, foi repleta de altos e baixos. Enfrentou momentos de grandes dificuldades, assim como, momentos de muito sucesso, sobretudo, na década de 1950 quando as reportagens fotográficas proporcionaram uma nova experiência ao leitor brasileiro. Contudo, nas duas últimas décadas de vida, passou por dificuldades até julho de 1975, quando encerrou sua participação como veículo dos Diários Associados.
O Cruzeiro como revista ilustrada tratava de temas que iam de dicas de moda, de
decoração, a assuntos sociais, educação, saúde, obras e, em meio a tudo isso, a política tanto em âmbito nacional como internacional sempre teve seu espaço na publicação. No início dos anos de 1930 a revolução e a morte de João Pessoa, assim como, o desenrolar da mesma e a ascensão de Getúlio Vargas ao poder, ocuparam muitas páginas, inclusive, edições especiais. Em outro prisma, a situação política internacional da mesma década, sobretudo, a tensão que pairava no ar e que prenunciava a guerra que estava por vir, a partir das posições dos regimes totalitários nazista e fascista, também eram pauta certa de O Cruzeiro. E assim, a revista seguiu acompanhando todos os grandes momentos políticos das décadas pelas quais passou.
Diante deste contexto, faz-se mister conhecer com maior acuidade os gêneros jornalísticos praticados pela revista brasileira que alcançou maior aceitação popular em todos os tempos, possuindo tiragens quase inultrapassáveis (só foi ultrapassada pela Revista Veja, mas, somente no século XXI), porém se formos levar em consideração o desenvolvimento de um país e o crescimentos de sua população, vê-se que o feito de O Cruzeiro não foi superado por nem uma outra revista em termos relativos. Por isso, tornou-se objeto comum entre os pesquisadores dizer que durante o período em que esteve atuante (1928-1975) O Cruzeiro significou para o Brasil o que a TV Globo passou a significar nas décadas seguintes. A revista aqui estudada foi, portanto, um meio de comunicação que exerceu grande influência na formação da opinião dos brasileiros ao longo de mais de quatro décadas de existência, com grande destaque nos momentos de crise e mais críticos da história do Brasil, como no suicídio de Getúlio Vargas, quando elevou sua tiragem a números impensáveis mesmo para os padrões atuais do mercado editorial.
Para tanto, algumas perguntas são válidas, dentre elas a que nos guia na atual pesquisa: _Que tipo de jornalismo era praticado pela revista ainda hoje considerada a maior entre as maiores? É bem verdade, que muitas histórias, lendas e acusações pairam sobre O Cruzeiro, contudo, o que de fato era veiculado na revista? É certo que não poderemos responder a questões internas ou elucidar casos de supostas reportagens fictícias, porque não é a isto que nos propomos na presente investigação, porém desejamos compreender e identificar o perfil jornalístico de O Cruzeiro, e, para tanto, utilizaremos como base a Teoria dos Gêneros Jornalístico e seu aporte teórico brasileiro.
O estudo dos gêneros jornalísticos no Brasil é contemporâneo das primeiras faculdades de comunicação. Na década de 1950, período chave para nossa análise, jornalistas e estudiosos se diziam preocupados com a falta de bibliografia nacional sobre as temáticas concernentes ao jornalismo. Em 1953, durante o Congresso Nacional de Jornalistas realizado na cidade de
Curitiba, debatia-se um tema ainda hoje em voga, qual seja: Liberdade de Imprensa e Formação Profissional, relacionando desde então a boa prática do jornalismo a uma formação plena, no entanto, naquele contexto o diagnóstico era de que a ausência de bibliografia nacional era uma das grandes dificuldades no processo. Esta realidade levou Luís Beltrão a publicar os primeiros livros sobre jornalismo. Sua obra compõe um amplo campo de teorização sobre o jornalismo em nosso país1.
Posteriormente, seu discípulo Marques de Melo continuou as pesquisas iniciadas por seu mestre e passou a estudar a fundo não somente o jornalismo, mas os gêneros e seu processo evolutivo.
As pesquisas realizadas por ambos os autores supra mencionados trazem os gêneros para o centro da discussão acerca das formas de jornalismo praticadas no Brasil e mais, projetam a importância dos gêneros no modo de transmitir as notícias.
O conhecimento dessa realidade teórica constatada em pesquisas científicas dentro do jornalismo brasileiro nos levou a uma inquietação, muito mais do que uma simples curiosidade, muito embora, o ponto de partida tenha sido a curiosidade. O fato é que fez nascer a necessidade de se desvendar os gêneros jornalísticos praticados na imprensa brasileira de projeção nacional antes e durante o processo de teorização iniciado por Beltrão entre as décadas de 1960 e 1980, sobretudo, para conhecermos o processo evolutivo do jornalismo nacional. O veículo que vislumbramos como ideal para nossa pesquisa foi a revista O Cruzeiro nem tanto por sua longevidade e abrangência, ou por seu pioneirismo em diversos aspectos como nas ações de marketing e nas grandes reportagens fotográficas, mas, principalmente, por peculiares práticas de jornalismo ali verificadas, como a descontinuidade das matérias, a alternação aleatória com a publicidade e o forte peso da opinião em suas páginas.
O Cruzeiro, como afirmado, teve quase meio século de vida e atravessou e presenciou
momentos marcantes da história brasileira e mundial. Esteve favorável ao nazismo e ao fascismo quando o Governo brasileiro também o era. Esteve a serviço de Getúlio Vargas ou contra este, conforme se posicionava Chateaubriand, seu proprietário. Esteve presente na morte de João Pessoa. Documentou o suicídio de Getúlio Vargas com grande destaque. Presenciou a criação de Brasília, momento que confirmou o que prenunciava o seu primeiro número, ainda em 1928, ou seja, um Brasil desenvolvido e moderno.
1
Beltrão publicou, dentre outros livros: Introdução à Filosofia do Jornalismo (1960); A Imprensa Informativa (1969);Jornalismo Interpretativo (1976) e Jornalismo Opinativo (1980).
AS ESCOLHAS
Muitos se perguntarão do porque da escolha de um objeto histórico analisado sobre o prisma de um referencial teórico do jornalismo moderno. Na verdade o objeto de certa forma, já estava escolhido desde a época da realização do meu TCC- Trabalho de Conclusão de Curso na Universidade Federal do Piauí quando estudei o fotojornalismo de José Medeiros na mesma revista O Cruzeiro. Na época, a riqueza do material encontrado me fez ver que serão necessários muitos e muitos estudos para dissecar completamente o jornalismo dessa publicação.
Assim, considerando que já possuía tanto a paixão pelo objeto de estudo escolhido, como um acervo de exemplares impressos e matérias digitalizadas, optamos por manter a revista como foco desta investigação.
Posteriormente, já cursando o mestrado entrei em contato novamente com a Teoria dos Gêneros Jornalísticos só que agora de forma bem mais aprofundada do que durante a graduação. Essa teoria me deu o aporte teórico necessário para tentar compreender melhor o jornalismo praticado por O Cruzeiro e foi deste modo que terminei “casando” o meu objeto de pesquisa com o paradigma em pauta, que se colocou como ideal para pesquisá-la neste momento, pois conhecer os gêneros jornalísticos implica em conhecer as formas como são construídas as notícias e de que maneira os assuntos selecionados são encaixados em cada gênero no processo de transformação de um fato em notícia, procedimento que ao final, objetiva guiar e facilitar a vida do leitor.
O PROCESSO
Foi, portanto, nesse panorama que o projeto de pesquisa, cujas linhas norteiam o desenvolvimento desta dissertação, foi assim composto, pelas inquietações que nasceram a partir de um primeiro olhar sobre a revista O Cruzeiro quando analisávamos, principalmente, as reportagens fotográficas, em outro ambiente analítico. Esse primeiro olhar nos mostrou um periódico completamente diferente dos que existem nos dias atuais. Com descontinuidade das matérias, com ausência de editorias definidas, com textos informativos e opinativos dividindo o mesmo espaço e com o último dominando a cena jornalística da publicação. Esse olhar inicial
nos permitiu ainda visualizar a riqueza do material histórico disponível em um veículo de comunicação que acompanhou todo o processo político e o desenvolvimento econômico e social do país durante quase meio século. E tudo isso nos permitiu a elaboração das hipóteses que guiaram a presente pesquisa, qual sejam:
A Revista O Cruzeiro praticou um jornalismo predominantemente opinativo.
O jornalismo informativo da Revista O Cruzeiro não adotava a objetividade e a estrutura do lead.
A Revista O Cruzeiro praticou o gênero interpretativo e diversional. Não existia jornalismo de serviços nas páginas da Revista.
Diante destes desafios iniciamos nossa pesquisa pelas páginas de O Cruzeiro em uma viagem de quase 50 anos pela história brasileira e, principalmente, pela história do jornalismo brasileiro. Os objetivos a perseguir se concentravam em quatro linhas principais:
Determinar o perfil da revista O Cruzeiro a partir da identificação do gênero jornalístico predominante praticado por esta publicação.
Identificar gêneros e formatos praticados pela mesma.
Identificar o tipo de jornalismo informativo praticado pela revista O
Cruzeiro.
Identificar as temáticas mais recorrentes no periódico ao longo dos anos localizados no recorte temporal definido para a pesquisa.
Essa “viagem” pelas páginas da revista nos proporcionou observar atentamente os processos evolutivos pelos quais passou o jornalismo da mesma e, é bem provável, que toda a mídia jornalística impressa nacional do mesmo período tenha passado pelos mesmos processos, já que O Cruzeiro, literalmente, “ ditava moda”.
COMPOSIÇÃO DA DISSERTAÇÃO
Esta dissertação encontra-se estruturada em quatro capítulos. Os dois primeiros de caráter histórico, já o terceiro apresenta caráter teórico e, o último possui fundo analítico. No primeiro capítulo realizamos extenso percurso histórico contextual acerca do ambiente político e social em que nasceu, cresceu e desapareceu O Cruzeiro. Aqui vale ressaltar que o aporte histórico adotado constitui-se como embasamento importante para o processo de análise posterior, pois reúne nas primeiras páginas deste documento informações sobre acontecimentos históricos que mudaram os rumos do país e influenciaram na condução dos processos jornalísticos. Já o segundo capítulo tem como foco a história da revista aqui estudada, desde o lançamento ao final de 1928 à decadência lenta vivenciada pela publicação entre as décadas de 1960 e 1970.
O terceiro capítulo, por sua vez, possui caráter contextual e teórico e tem como foco principal a Teoria dos Gêneros Jornalísticos, vista aqui, a partir de diversas visões e autores, com destaque para Marques de Melo.
O quarto capítulo é o lugar da análise, onde a partir de duas metodologias, a saber: Análise Formal e Análise de Conteúdo por Construção Iterativa, dissecamos todo o conteúdo da revista, explorado nos 51 exemplares da amostra, que, por sua vez, estão localizados, temporalmente, entre 1928 e julho de 1975. O objetivo como citado antes, visa localizar e identificar os gêneros praticados por O Cruzeiro através da Análise Formal, como também, identificar os temas mais assíduos no periódico através da Análise de Conteúdo. É válido informar que ambas as metodologias encontram-se detalhadas no início do quarto capítulo.
Por fim, as conclusões nos mostram que a revista é um repositório de práticas jornalísticas em construção e que suas lições podem nos servir de guia para a melhoria dos processos atuais. O Cruzeiro com certeza superou as previsões de seus criadores e, principalmente, foi veículo de aperfeiçoamento da imprensa brasileira, pois em suas páginas tanto a informação quanto a opinião foram sendo moldadas até chegarem à configuração que possuem hoje. E, mesmo que se pese o processo evolutivo constante do jornalismo, cremos que sempre haveremos de considerar as práticas de O Cruzeiro como importantes pontos de partida. E assim, o estudo dos gêneros na revista terminou por nos comprovar que a evolução do discurso jornalístico se constituiu durante o século XX entre os dois pólos: o opinativo e o informativo.
CAPÍTULO I
O BRASIL NO SÉCULO XX: DA REPÚBLICA VELHA AO
REGIME MILITAR
Conhecer os acontecimentos do século XX, no Brasil, principalmente, os que se situam no período que vai do final da República Velha ao Regime Militar, com seu conseqüente legado, é de extrema importância para compreender o caráter contextual do universo brasileiro, no qual nasceu, cresceu e desapareceu uma das revistas de maior expressão e influência da nação, a Revista O Cruzeiro. Assim, tratamos, neste capítulo, de alguns dos principais fatos do século XX, a maioria dos quais abordados pela principal revista dos Diários Associados (Diários e
Emissoras Associados), com a ressalva de que, ao mesmo tempo, esses fatos se mostraram
decisivos para que a gestão de O Cruzeiro sofresse modificações para o bem ou para o mal, ou seja, positivas ou negativas.
1.1 República Velha: os anos 20 e as grandes transformações
A Primeira República, também conhecida como República Velha, corresponde ao período de 1889 a 1930, e se caracteriza como uma época de grandes lutas no Brasil, numa tentativa de encerrar a violenta dominação política existente. As principais mudanças então ocorridas no Brasil são: crescimento das cidades de São Paulo (SP) e do Rio de Janeiro (RJ); processo de industrialização; e surgimento de nova classe social, a classe média.
Anos 20
Modernos! Revoltosos! Fabulosos! Loucos! Rumorosos! Assim ficaram conhecidos os anos 20. Após o final da Primeira Guerra Mundial, em 1918, uma onda de otimismo passa a tomar conta do mundo. É o momento em que os povos comemoram a paz e enterram (ou tentam enterrar) velhos preconceitos. Enquanto os Estados Unidos da América (EUA) aproveitam a prosperidade da fase pós-guerra, a Europa reergue-se esperançosa e consolida as tendências artísticas surgidas com os movimentos vanguardistas. No Brasil, artistas e intelectuais, influenciados por essas tendências, promovem a denominada Semana da Arte Moderna, no ano
de 1922. A indústria cresce no País e a opinião pública se divide entre os que aderem às idéias anarquistas e às comunistas. Modernidade e mudanças. Simbologia na história política e cultural brasileira. Introdução de novos hábitos, ângulos de visão, procedimentos, diagnósticos, polêmicas, consensos e dissensos, crises, superações, decepções, contradições, rupturas, questionamentos, novas concepções, novos atores, novos problemas, marcos simbólicos, descontinuidade... Este é o Brasil dos anos 20.
Marcado por grandes disputas e levantes militares, sem dúvida, o ano de 1922 corresponde a um dos momentos mais críticos para o Governo brasileiro. À época, este decide comemorar o Centenário da Independência do Brasil. Sem medir esforços, o então Presidente Epitácio da Silva Pessoa (governa de 1919 a 1922) investe em empreendimentos e muda a “cara” do RJ, Capital Federal naquele tempo e proporciona a realização de importante evento – a Exposição Universal do Rio de Janeiro.
Aqui, retomamos o fato de que a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) muito concorre para significativas mudanças mundo afora. A Guerra, que varre a Europa, traz uma dura realidade e retira do cenário o tempo de otimismo e de expansão da Belle Époque. A França, mesmo devastada, estimula suas tropas em busca de lhes despertar sentimento de nacionalismo. Este fato, mesmo de forma indireta, afeta o Brasil, uma vez que as elites brasileiras vêem neste quadro um motivo de preocupação: o despreparo militar da nação. É quando a Liga da Defesa Nacional passa a defender o serviço militar obrigatório e a imprensa começa a discutir o assunto, levando a sociedade a refletir sobre a necessidade de modernização do Exército Brasileiro (FAUSTO, 2010).
A passagem da década de 1910 para a de 1920 corresponde a um período de grandes transformações tanto na área industrial quanto no campo social. Considerando que o Brasil está proibido de comprar produtos manufaturados das nações envolvidas na citada Grande Guerra, se vê obrigado a produzi-los, e, como conseqüência, as indústrias nacionais crescem consideravelmente entre 1914 e 1918. Porém, nesse meio tempo, eclodem sérias greves nas principais cidades.
Em 1917, se registra a primeira manifestação operária com impacto nacional, sob a liderança de organizações sindicais e de partidos operários. Não se trata de movimento apenas de natureza reivindicatória. Assume caráter revolucionário, uma vez que visa à transformação do sistema de Governo. A este respeito, Jorge Caldeira et al. (1997, p. 251) acrescenta: “[...] a greve geral de 1917 conseguiu paralisar São Paulo e o Rio de Janeiro e obter o atendimento de grande parte das reivindicações. Deu ânimo aos movimentos operários. Nos quatro anos seguintes, greves parciais pipocaram em diversas cidades brasileiras”. Acrescentamos que a referida greve,
além de acontecer durante a Primeira Guerra Mundial, acontece quando no momento em que a Revolução Russa surpreende a todos e, portanto, alguns meses antes da implantação do regime social na Rússia. Desde então, o movimento operário cresce à medida que a industrialização brasileira ganha força. Este é um dos temas que mobiliza diferentes setores da imprensa e da intelectualidade.
Em meio a todos esses eventos, o Centenário da Independência do Brasil aproxima-se. Cem anos de soberania, Primeira República (1889-1930), regida pela Constituição de 1891. Trata-se da primeira Constituição republicana, promulgada em fevereiro de 1891. Inspira-se no modelo norte-americano e consagra a República Federativa. A referida Constituição inaugura o sistema presidencialista de Governo. O Poder Executivo, antes exercido pelo Imperador, passa ao encargo do Presidente da República, eleito pelo povo por quatro anos. À semelhança da fase do Império, o Legislativo se divide em Câmaras dos Deputados e Senado.
A eleição dos deputados, em cada um dos Estados, obedece à proporcionalidade: são eleitos em número proporcional ao total de habitantes, por três anos. Os senadores deixam de ser vitalícios, e sua eleição, por nove anos, obedece a um número predeterminado: três senadores por cada Estado e o mesmo número para o Distrito Federal. Fixa-se o voto direto universal, com supressão do censo econômico. De acordo com colocações de Boris Fausto (2010, p. 141), “[...] foram considerados eleitores todos os cidadãos brasileiros maiores de 21 anos, excluídas certas categorias, como analfabetos, os mendigos, os praças militares. A Constituição não fez referência às mulheres, mas considerou-se implicitamente que elas estavam impedidas de votar”. O estudo do Centenário da Independência exige, além da menção à Constituição de 1891, compreensão acerca da política externa do Brasil, responsável por sua participação na Primeira Guerra Mundial, garantindo, assim, assento na Conferência de Paz de Paris e, também, na Liga das Nações. Esta conquista constitui, na ocasião, outro motivo de comemoração: o Brasil está em destaque no cenário internacional.
Meses antes da comemoração do Centenário (celebrado em 7 de setembro de 1992), o clima de paz sofre alterações e se agrava a crise política. O desafogo proporcionado pela Primeira Guerra Mundial permite que as disputas políticas internas se abrandem até o final do mandato de Epitácio Pessoa, em 1922. Porém, as intensas contendas sobre sua sucessão revelam a precariedade da propalada estabilidade. Não há acordo entre as lideranças estaduais na escolha do candidato oficial. As divergências se transformam em crise e revolta militar. Lideranças militares não aceitam a derrota do candidato oposicionista Nilo Peçanha nas eleições presidenciais desse ano. Posicionam-se contra a posse do candidato eleito Artur Bernardes e com isto, dão início ao movimento tenentista.
No início de julho, a situação se torna mais grave com a prisão do Presidente do Clube Militar, marechal Hermes da Fonseca. E, no dia 5 de julho de 1922, acontece o movimento revolucionário no Forte de Copacabana conhecido como a Revolta dos 18 do Forte:
O clima de ofensas falsas ou verdadeiras ao Exército e a repressão contra o Clube Militar levaram a jovens “tenentes” a se rebelar, com um protesto destinado a “salvar a honra do Exército”. A revolta não se estendeu a outras unidades. Depois de lançar os primeiros tiros de canhão, os rebeldes sofreram bombardeios e ficaram cercados. No dia seguinte, centena deles se entregaram, atendendo a um apelo do Governo. Um grupo, porém, se dispôs a resistir. O forte voltou a ser bombardeado por mar e por aviões. Dezessete militares, com a adesão ocasional de um civil, decidiram sair pela praia de Copacabana, indo de encontro às forças governamentais. Na troca de tiros morreram dezesseis, ficando feridos os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes. Os “Dezoito Fortes” começavam a criar a lenda do “tenentismo” (FAUSTO, 2010, p. 172).
O Governo reage e decreta estado de sítio, que se mantém até os fins de 1922. E é em pleno estado de alerta que, em setembro, o Presidente da República Epitácio Pessoa começa a receber os visitantes estrangeiros para a célebre Exposição do Centenário da Independência.
Modernismo: arte e cultura
O início do século XX registra verdadeira explosão de busca pelo conhecimento. São nítidas as preocupações em discutir a identidade e o futuro da nação brasileira. A conseqüência de tais preocupações e discussões resulta na entrada do Brasil na modernidade. Configura-se como processo um tanto complexo em que se entrecruzam diferentes dinâmicas. Na década de 20, acontece aceleramento da industrialização e da urbanização, além de acentuado crescimento do proletariado e do empresariado. Em contrapartida, a tradição colonialista, os latifúndios, o sistema oligárquico e o crescimento desigual das regiões permanecem. Não obstante este fato, o crescimento dos centros urbanos acarreta transformações no que concerne aos valores da cultura cotidiana e aos padrões da comunicação social.
Rádio, cinema, jornais e revistas ilustradas captam um mundo moderno. Parece inevitável que a arte expresse as transformações advindas da modernidade. Neste sentido, acreditamos que o modernismo brasileiro é um movimento de amplo espectro cultural. Desencadeado tardiamente nos anos 20, com a convergência de elementos das vanguardas registradas na Europa antes da Primeira Guerra Mundial, tem como seu primeiro marco,
[...] a exposição de telas de Anita Malfatti, em 1914, logo após seu regresso da Europa, causando alvoroço no meio intelectual paulista, pela ruptura dos
moldes acadêmicos. Esse prenúncio de modernidade alastrou-se pelos salões da intelectualidade aristocrática e da refinada burguesia paulista, impregnada, não raro, de requintes duvidosos de ricos fazendeiros, sendo, por isso, um movimento elitista. Em 1915, foi editada a revista portuguesa Orpheu, inaugurando a modernidade lusitana, encontrando-se ali Ronald de Carvalho que logo se entusiasmou com os ares de vanguarda e, em seu regresso ao Brasil, acabou por tornar-se hábil mediador entre a Belle Époque e a Semana de Arte Moderna. Coube à pintura a missão de preparar o terreno para a Semana de Arte Moderna quando, em 12 de dezembro de 1917, Anita Malfatti tornou a reunir a mais alta sociedade paulista, escritores e artistas, muitos deles futuros modernistas de 20, em animada e ruidosa exposição (CONTIER, 2005, p. 3-4).
No começo do modernismo brasileiro, os artistas tentam adotar nova visão para interpretar o País, baseada na realidade nacional. Procuram mostrar que são capazes de criar estilo próprio, apesar das influências européias, assegurando ao Brasil o status de um país autêntico. Entre 1917 e 1919, ocorre aproximação dos que são a favor das idéias modernistas. Como decorrência, forma-se um grupo inseparável de intelectuais. São eles: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Monteiro Lobato, Manuel Bandeira, todos da literatura; na pintura, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Di Cavalcanti; na música, Heitor Villa-Lobos e Guiomar Novais; e na escultura, Victor Brecheret, escritor italiano modernista, que passa a residir no Brasil, em 1919.
No ano de 1920, Mário de Andrade escreve sua obra poética Paulicéia desvairada, publicada tão-somente em 1922. Em 1921, acontece o Manifesto do Trianon, com o propósito de homenagear Paulo Menotti Del Pichia. Poeta, jornalista, romancista, cronista, pintor e ensaísta paulistano, além de bacharel em Direito, ano 1913, Menotti chega a ser membro da Academia de Letras, em 1942. Sua poesia vincula-se à primeira geração do modernismo. Nascido no dia 20 de março de 1892, falece em 1988.
Ainda em 1921, Oswald de Andrade publica o artigo O meu poeta futurista, referindo-se ao amigo Mário de Andrade, e Di Cavalcanti realiza exposição de suas telas na livraria O Livro. Apesar de todas essas manifestações, o marco simbólico do modernismo é a citada Semana da Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, com três festivais englobando literatura, música e artes plásticas, conforme a Figura 1 permite visualizar.
FIGURA 1 – Visão do programa da Semana de Arte Moderna
Fonte: http://www.febf.uerj.br/pesquisa/semana_22.html
Em outras palavras, o ano de 1922, reconhecidamente,
[...] foi o divisor de águas entre o espírito e a modernidade tecnológica, provocando, para alguns críticos, aculturação prematura por queimar etapas: o Brasil era ainda movido, em grande parte, por carros de boi, enquanto a Europa se entregava à velocidade do automóvel e do avião (CONTIER, 2005, p. 5).
A Semana da Arte Moderna simboliza o desafio público que demonstra a ruptura dos padrões culturais vigentes. No entanto, a ambigüidade dos intelectuais em se manterem como parte de uma elite e, ao mesmo tempo, se aproximarem do povo acelera maior pressão por efetiva participação política, pela luta dos direitos civis e sociais e pela moralidade no trato do público. A ideologia organicista e antiliberal, que se radicaliza nas críticas, traz a perspectiva do Estado como unificador do País, em termos culturais, políticos, sociais, e, ainda, como construtor de uma nação moderna.
A imprensa no tempo da Primeira República
Com a era republicana, a imprensa atravessa novo ciclo de transmutações. Os anos 20 do século XX marcam o apogeu. Com o surgimento da cultura de massa, o homem passa, agora, a conviver com a troca de informações num volume e numa velocidade jamais sonhados para a época. A comunicação assegura informação, lazer / entretenimento e, quiçá, educação. A música escapa das salas de concerto e invade os lares dos cidadãos comuns. As empresas jornalísticas passam a emergir como resultado de mudanças vinculadas à ascensão burguesa e ao capitalismo principiante. Com o capitalismo se infiltrando, pouco a pouco, no meio jornalístico, há maior facilidade na venda de opinião via jornais. Ocorre, também, a chegada de novos equipamentos de impressão, como o linotipo, máquina que mecaniza a composição de um texto para ser impresso em colorido.
Paralelamente, a imprensa periódica avança nas demais nações, entre o final do século XIX e o início do século XX, reiterando as palavras literais de Bahia (1990a, p. 131):
[...] é no curso da Primeira Guerra Mundial que a imprensa assimila os efeitos de profundas mudanças na sociedade e nas relações dos povos com o sistema de comunicação de massa. De 1910 a 1920 são mais visíveis os sinais de evolução no conteúdo e na produção dos jornais e das revistas. Um estágio que irá se aperfeiçoar.
No Brasil, isso se dá, sobretudo, a partir do século XX. O crescimento da imprensa está diretamente atrelado ao progresso do País, como, por exemplo, o aumento dos níveis de industrialização, a democratização da vida política e a urbanização, sem contar as conquistas tecnológicas que possibilitam o incremento da produção e a conseqüente redução do custo de produção de jornais e de revistas. Ainda para o autor supracitado, “[...] o progresso da imprensa reflete o do País, a retificação de concepções, teorias e práticas que rompem com velhas fórmulas e redescobrem valores, caminhos, objetivos, inspirados nas suas imensas potencialidades naturais” (BAHIA, 1990a, p. 203). Esse período, na realidade, representa o marco final da fase artesanal do jornalismo brasileiro.
Ao tempo em que a forma do fazer jornalístico se modifica, o caráter opinativo da imprensa começa a ceder espaço ao caráter informativo. A atuação de Euclides da Cunha, no século XIX, sobre a Guerra de Canudos (1896-1897) e, ainda, de João do Rio, no século XX, com suas crônicas-reportagens (designação adotada por Patrícia de Castro, em sua dissertação de mestrado, ano 2009, sobre o Rio da Belle Époque) são exemplos da transição da imprensa para a adoção de textos mais informativos. Desde então, os diários passam a incorporar outros gêneros,
como: notas, reportagens, entrevistas, crônicas e, ao lado da produção ficcional, que só lentamente perde espaço nos grandes matutinos, constam os inquéritos literários. Surgem seções especializadas. Há, agora, espaços dedicados ao público feminino, aos esportes, ao lazer, à vida social e cultural, à crítica literária, aos assuntos policiais e aos internacionais. Aos poucos, se delineia a distinção entre matérias de caráter informacional ou propriamente jornalística (supostamente neutra e objetiva) versus (vs.) textos de opinião, que assumem posições e defendem idéias e valores.
O nascimento do chamado jornalismo sensacionalista, ainda nos anos 20 do século XX, também ganha destaque nesse período de mudanças do fazer jornalístico. Nessa fase, estudantes de Direito constituem a maioria dos jornalistas em busca de provento e de notoriedade. Este gênero tem no apelo emocional sua principal característica. Abusa de imagens sensacionais que, com freqüência, retratam violência e flagrantes do ser humano em atitudes extremas e / ou em situações-limite.
Em termos gerais, porém, no Brasil da Primeira República, há jornais influentes e formadores de opinião. Entre eles, estão:
O Estado (Florianópolis, 1915), Jornal do Comércio (Recife, 1918), O Jornal (Rio de Janeiro, 1919-1974), Folha da Noite (São Paulo, 1921-1960), O Globo (Rio de Janeiro, 1924), Folha da Tarde (São Paulo, 1924), A Manhã (Rio de Janeiro, 1925-1953), Diário de Notícias (Porto Alegre, 1925-1979), Folha da Manhã (continuada pela Folha de S. Paulo, São Paulo, 1925), Diário da Noite (São Paulo, 1926-1979), A Manhã ( Rio [de Janeiro] – São Paulo, 1926-1952), O Povo (Fortaleza, 1928), Diário Carioca (Rio de Janeiro, 1928-1965), Diário de São Paulo (São Paulo, 1929-1979) [...] (BAHIA, 1990a, p. 180).
Mesmo como representantes da grande imprensa da época, os jornais não reinam sozinhos. É, também, a fase das revistas semanais ilustradas. De início, destacamos os títulos paulistas de vanguarda: Klaxon (1922), que conta com a colaboração de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Sérgio Milliet e Manuel Bandeira; Revista de Antropofagia (1928), dirigida na primeira fase por Antônio de Alcântara Machado e na segunda, por Geraldo Ferraz. No RJ, ganha projeção Estética (1924), dirigida por Prudente de Morais Neto e Sérgio Buarque de Holanda; e Festa (1927), organizada por Tasso da Silveira e Andrade Murici, com a colaboração de Cecília Meireles. Além das revistas de vanguarda, sobressaem-se ainda no RJ: a literária
Revista da Semana (1900-1962); O Malho (1902-1954), a primeira revista a editar histórias em
quadrinhos; Tico-Tico (1905-1977); a revista de costumes e de notícias intitulada Fon-Fon! (1907-1958); e o título humorístico Careta (1908-1960), com a ressalva de que alguns destes títulos serão retomados mais adiante.
Porém, dentre as revistas mais proeminentes da época, uma que não consta desta listagem, é estrela única por várias décadas. Distinta das demais, em certo sentido, transforma as diretrizes do periodismo nacional. Considerada como a principal revista ilustrada brasileira do século XX, O Cruzeiro, primeiro título de circulação nacional, é lançado em 1928 pela cadeia jornalística Diários Associados, do jornalista e empresário Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, mais conhecido como Assis Chateaubriand ou Chatô. Revista formadora de opinião constitui um marco no processo de evolução do jornalismo de informação – alia reportagem, notícia, fotografia, literatura amena, humor, publicidade, recursos textuais e ilustrados modernos com grandes nomes da cultura nacional, em linguagem ágil e textos curtos e acessíveis e, sobretudo, diversificados. Desta conjunção de fatores resulta sucesso absoluto de vendas, posicionando O Cruzeiro como modelo para um jornalismo mais dinâmico e moderno no conteúdo e no diálogo sugerido entre discurso textual e apresentação gráfica, que pretende se impor como vitrine da nova sociedade do século XX.
É perceptível o elevado número de títulos em meados dos anos 20. Isto garante que a imprensa se torne poderosa. A República, que segue doutrina similar estabelecida ao longo do Império, anseia pelo domínio total dos veículos de comunicação. Assim sendo, recusa-se a publicar uma lei de imprensa. Argumenta que “[...] não existiam crimes de imprensa, mas crimes cometidos pela imprensa, bastando para isso a Constituição e o Código Penal como instrumentos jurídicos normativos” (SOUZA, 2003, p. 25).
A partir desta premissa, e ainda segundo o autor supra, advém uma sucessão de dispositivos controladores da imprensa, sempre com a intenção explícita de “combater os inimigos da República”. Dentre eles, em 1889, o Decreto n. 85-A, conhecido como “decreto-rolha”, figura como a primeira forma de censurar a imprensa, uma vez que visa processar e julgar sumariamente os abusos da manifestação do pensamento. Outra medida de cunho repressivo é a chamada “lei infame”, promulgada em 1923, após quase dois anos em discussão no Congresso: o Governo passa, agora, a ter poderes legais para controlar os veículos de comunicação. Ao final da década de 20, especificamente no ano de 1927, é a vez da “lei celerada”. Com o intuito de ceifar liberdades políticas e ideológicas, avalia quaisquer publicações antes de sua circulação.
Ao apagar das luzes dos anos 20, século XX, podemos dizer que este foi o tempo da revolução das formas de comunicação, do tempo da aceleração das descobertas tecnológicas em todos os setores do conhecimento humano. Entretanto, sem os rápidos meios de comunicação, o avanço científico e tecnológico permaneceria restritos a pequenos grupos, até porque a imediaticidade dos acontecimentos é diretamente proporcional à sua divulgação.
A história de imediaticidade da comunicação começa com a radiodifusão. O rádio delineia tanto uma paisagem marcada pela presença de objetos técnicos como configura outras sensibilidades, subjetividades e formas de convívio social. Eficiência, pressa, velocidade e mobilidade tornam-se marcas distintivas do modo de vida urbano e a imprensa participa ativamente do processo de aceleração.
A este respeito, lembramos que a primeira estação brasileira de rádio corresponde à fundação, em 23 de abril de 1923, da Sociedade Rádio do Rio de Janeiro. Consiste em iniciativa dos pesquisadores Roquette Pinto e Henrique Morize, ambos da Academia Brasileira de Ciências. Na visão de Juarez Bahia (1990a, p. 198),
[...] o nascimento do rádio no Brasil em 23 é precedido de uma experiência que o Rio de Janeiro acompanha com grande interesse: em 1922, nas festas do centenário da Independência, o Presidente Epitácio Pessoa lança as transmissões provisórias da Rádio Corcovado, montada pela Westinghouse como demonstração.
Para testar o novo meio de comunicação, os norte-americanos da Westinghouse
Electric instalam uma estação de 500W e uma antena no pico do Morro do Corcovado, onde,
atualmente, está o Cristo Redentor. O público ouve o pronunciamento do Presidente Epitácio Pessoa e a ópera O guarani, de Carlos Gomes, transmitida diretamente do Teatro Municipal, além de conferências e outras atrações. A primeira transmissão radiofônica do discurso de Epitácio Pessoa é captada em Niterói (RJ), Petrópolis (serra fluminense) e, também, em SP.
A viabilização das emissoras brasileiras de rádio nasce atrelada à dupla determinação: veículo de comunicação privado e subordinado às regras do mercado econômico e, ao mesmo tempo, controlado pelo Estado. Este é o responsável tanto pela liberação da concessão para o funcionamento das emissoras quanto por sua eventual cassação, no caso de desrespeito às leis do código de comunicação em vigência. Isto significa que
[...] O rádio nasceu controlado pelo Estado e assim continuou. Ao contrário da imprensa de opinião que manteve um constante embate entre liberdade de opinião e controle estatal, ou o cinema, que neste período sofreu um processo de sujeição à censura em nome da saúde mental do povo brasileiro, o rádio emergiu da Coleção das Leis como um parágrafo a mais na pletórica legislação sobre comunicações, sempre atenta aos inventos presentes ou futuros da indústria elétrica (o Decreto de 1932, regulamentando os serviços de comunicação no seu Art. 3° já estipulava que os processos de transmissão de imagens e sons destinados ao público, fossem por radiotelevisão ou radiocomunicação, como de alçada da União) (SOUZA, 2003, p. 41).