REVISTA O CRUZEIRO: HISTÓRIA E JORNALISMO
2.1 Revistas brasileiras: informação e entretenimento
Folhear uma revista consiste em hábito presente na vida cultural do cidadão brasileiro há quase 200 anos, quando os primeiros exemplares começam a ser aqui editados. Graficamente, as primeiras revistas se assemelham aos livros e / ou aos jornais da época. Com o passar do tempo, vão se modificando e, em termos de conteúdo, também sofrem significativas mudanças, uma vez que passam a incluir em suas páginas, notícias culturais, colunas de opinião, ilustrações e fotografias.
Historicamente, há registro de que, na Bahia, em 1812, surge a primeira revista não oficial, lançada pelo jornal Idade d’Ouro do Brasil, sob o título As Variedades ou Ensaios de
Literatura. Ambos, jornal e revista, criados na tipografia pertencente a Manoel Antonio da Silva
Serva, são editados graças ao protecionismo do Conde dos Arcos, título instituído pelo rei Filipe II de Portugal (III de Espanha), em 8 de fevereiro de 1620, em favor de Luís de Lima Brito e Nogueira. Como redatores, o título conta com Diogo Soares da Silva de Bivar e com o padre
Ignácio José de Macedo, que seguem linha editorial marcadamente conservadora. Por isto, suas duas edições defendem, com veemência, o absolutismo monárquico português, o que justifica as duras palavras de Werneck et al. (2000, p. 16):
Quem chamaria aquilo de revista? Nem mesmo seu editor, o tipógrafo e livreiro português Manoel Antonio da Silva Serva: ao colocá-la à venda, em Salvador, no mês de janeiro de 1812, Silva Serva apresentou As Variedades ou Ensaios de Literatura como “folheto” – embora o termo – “revista” já existisse desde 1704, quando Daniel Defoe, o autor de Robinson Crusoé, lançou em Londres A Weekly Review of the Affairs of France. Saíram só dois números, mas foi o que bastou para fazer de As Variedades [...] a primeira revista brasileira – ainda que o rótulo só viesse a ser adotado em 1828, ano em que surgiu no Rio [de Janeiro] a Revista Semanaria dos Trabalhadores Legislativos da Câmara dos Senhores Deputados.
Ainda de acordo com os autores ora referendados, as primeiras revistas não mantêm preocupação em refletir os acontecimentos da vida social. Configuram-se como publicações muito mais eruditas do que noticiosas, de modo que nem se destacam perante a sociedade nem causam fortes impactos. Esta situação começa a se alterar no início da década de 1860. É quando as revistas passam a oferecer ao leitor notícias de interesse social que abrangem desde aspectos mais “sublimes” a momentos trágicos. É também quando se dá a inserção de fotografias e ilustrações nas diferentes edições.
Em 1865, por exemplo, a Guerra do Paraguai (1864-1870) merece especial atenção da
Semana Ilustrada, periódico de Henrique Fleuiss, desenhista alemão radicado no Brasil. Ao
tempo em que os jornais se limitam a transcrever informações oficiais ou publicam cartas enviadas por correspondentes que se encontram no campo de batalha, a Semana Ilustrada, que vai do ano de 1860 a 1876, coliga-se a um grupo de oficias que estão no front. Estes se tornam os mais novos repórteres do semanário, que recebe, com efetiva periodicidade, informações e fotografias.
Para Werneck et al. (2000, p. 44), nasce com “[...] aqueles repórteres de última hora, um gênero jornalístico novo no Brasil: a fotorreportagem, sob a forma de textos curtos que acompanhavam a imagem”. No entanto, a bem da verdade, trata-se de um “nascimento” sem pretensões fotojornalísticas: os oficiais usam a fotografia apenas como base para ilustrar a informação. Outro destaque da Semana Ilustrada, ainda no século XIX, é a utilização da charge padrão. Assemelha-se a uma foto em dois planos (corpo pequeno – cabeça grande), cujo autor é o próprio Henrique Fleuiss.
Entre o final do século XIX e o primeiro decênio do século XX, acontece, mais sistematicamente, a inserção de fotografias em jornais e revistas. É uma fase que coincide com o
declínio do folhetim e a chegada da informação como cerne das publicações periódicas. A inclusão de temas políticos, esportivos e policiais como também de colaborações literárias faz com que essas matérias comecem a ser separadas da paginação dos jornais como um todo, e apareçam à parte. E, ao que tudo indica, é, também, por conta dessas transformações que as revistas ilustradas proliferam com relativa rapidez. Se, inicialmente, têm a charge como principal manifestação imagética, posteriormente, as revistas transformam-se em principais veículos de difusão de imagens fotográficas. Este é o momento histórico de diversos títulos. Exemplificando:
Semana Ilustrada; Revista da Semana; O Malho; Kosmos; Fon-Fon!; Careta; A Cigarra; Revista Ilustrada São Paulo; Diretrizes; Manchete; Realidade; e Veja.
A Revista da Semana, fundada por Álvaro Tefé, em 1900, consta como a primeira publicação brasileira a utilizar a fotografia para ilustrar suas reportagens. Em momento posterior, passa à propriedade do Jornal do Brasil, circulando como seu suplemento literário. Desvincula- se do JB em 1915, quando é adquirida pela Companhia Editora Americana. Nesse mesmo ano, obtém maquinários modernos vindos dos EUA. E acompanha, com propriedade, as inovações tecnológicas e os avanços da fotografia da época inerentes à virada do século XX. Nessa nova fase, sob a direção de Carlos Malheiros Dias, desde o citado 1915, a pauta da Revista da Semana é ocupada por atualidades sociais, políticas e policiais. Torna-se leve, alegre e elegante, com ilustrações dos cartunistas Raul Paranhos Pederneiras (Raul); Calixto Cordeiro (K. Lixto); Artur Lucas (pseudônimo Bambino); Amaro do Amaral; e Luiz Carlos Peixoto de Castro (Luiz Peixoto), ao ponto de se transformar, a partir de 1915, em mais uma revista feminina. Sua edição prossegue até 1962 (SODRÉ, 1999).
Mais adiante, ano 1902, aparece O Malho, outra importante revista de conteúdo humorístico e, posteriormente, também político, fundada por Luís Bartolomeu. Durante sua sobrevivência – vai até 1954 –, sofre várias mudanças. Sua especialidade é a crítica política, que aparece, com freqüência, sob a estratégia de famosas caricaturas assinadas por J. Carlos [José Carlos de Brito e Cunha], Raul Pederneiras, pelo citado K Lixto e outros cartunistas. Como conseqüência, O Malho é uma publicação vista até os dias de hoje como uma das mais importantes revistas de crítica, na fase da República Velha. A partir de 1904, seu caráter político se consolida ainda mais, mediante a colaboração de grandes nomes, como Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (Olavo Bilac); Pedro Rabelo e Emílio de Rebelo.
Em janeiro de 1904, é a vez de Kosmos (Figura 7). Circula somente por dois anos, e, portanto, suas edições vão até 1906. Seu conteúdo privilegia crônicas, manifestações artísticas e reportagens sobre eventos sociais da elite carioca. Além disto, mantém certo rigor, o que lhe assegura popularidade, sem contar com o fato de que, dentre seus colaboradores, tal como ocorre
com O Malho, estão nomes respeitados e consagrados, a exemplo de Olavo Bilac, Francisco Braga e Artur Azevedo.
FIGURA 7 – Capa da revista Kosmos
Fonte:http://bibliomanias.no.sapo.pt/Mindlin.htm
Ainda dentre as personalidades de Kosmos está uma figura de destaque. Trata-se de João do Rio, pseudônimo do jornalista e escritor carioca João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto. Com pautas ousadas para o momento, João do Rio aparece como um dos primeiros jornalistas a sair à rua para buscar / checar notícias. Mesmo assim, o que faz, à época, não se enquadra na concepção vigente de reportagem, porquanto não há em seus textos preocupação com a objetividade. Em contraposição, sua narrativa se sobressai por trazer subjacente intensa preocupação com a fidelidade em sua observação da realidade.
Fon-Fon!, título nitidamente inspirado em buzina de automóveis, em seus primeiros oito
anos, entre 1907 e 1915, é editada por três intelectuais de filiação simbolista, Luís Gonzaga Duque Estrada, Mário Pederneira e Lima Campos. Trata-se de uma revista de costumes e de notícias e que enfatiza o esnobismo carioca da época, com uso de muita ilustração, muitas fotografias e muitas matérias literárias. Um de seus pontos de maior impacto é a contribuição do
famoso artista plástico e pintor Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, mais conhecido como Di Cavalcanti, como capista de algumas edições, como a Figura 8, alusiva a um número de 1915, exemplifica. Vai até o ano 1958.
FIGURA 8 – Capa da revista Fon-Fon!, por Di Cavalcanti
Fonte:http://www.joaodorio.com
No dia 6 de junho de 1908, Jorge Schimdt lança a primeira Careta, cujo diretor artístico é J. Carlos, até 1921. Passa, então, a exercer a função de diretor gráfico do grupo Pimenta de Melo, responsável também pela publicação de O Malho, o que corresponde a uma significativa mudança no mercado editorial de então. A primeira capa de Careta traz divertida caricatura do Presidente Afonso Augusto Moreira Pena (Figura 9), que governa o Brasil de 15 de novembro de 1906 a 14 de junho de 1909.
Careta constrói verdadeiras críticas políticas. Seus textos e suas ilustrações estão
carregados de forte dose de ironia e de humor, de tal forma que suas matérias consistem em verdadeiras crônicas acerca da Capital (Rio de Janeiro) e do Brasil dos primeiros anos de século XX. Tudo isto concorre para que se mantenha nas bancas por mais de 50 anos, até que chega ao último número, em 5 de novembro de 1960.
FIGURA 9 – Capa inaugural da revista Careta, Presidente Affonso Penna
Fonte: http://www.assis.unesp.br/posgraduacao/letras/mis/pdf/v8/clara.pdf
No ano de 1914, chega ao mercado outra revista, A Cigarra, com periodicidade quinzenal. Alcança popularidade durante o início do século XX, uma vez que reflete, com relativa fidedignidade, o comportamento da época. Para tanto, lança mão de fotografias, ilustrações, jogos e textos assinados por escritores como José Oswald de Sousa Andrade, José Renato Monteiro Lobato (o precursor da literatura infantil no Brasil), e, novamente, Olavo Bilac. As mulheres aparecem nas capas e são contempladas em seções, como Vida Doméstica, que veicula notícias sobre bailes, saraus e espetáculos da cidade. Em 1934, passa às mãos do proprietário dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, e sai de circulação, em 1948.
As revistas ilustradas supracitadas marcam a história do Brasil, porém não como O
Cruzeiro, tema específico do item 2.4, por constituir foco central da presente monografia. A
respeito de sua edição primeira, esclarecemos que, apesar de algumas fontes bibliográficas e eletrônicas se referirem a 10 de dezembro de 1928, na realidade, ela data de 10 de novembro de 1928. Esta divergência se dá por conta da impressão em novembro, divulgação tão-somente em 5 de dezembro de 1928 (por meio de panfletos) e colocação nas bancas, em 6 de dezembro, no RJ. Nos demais Estados, em 10 de dezembro (ACCIOLY NETTO, 1998).
Em termos cronológicos e / ou seqüenciais, outra publicação que não podemos deixar de mencionar é a Revista Ilustrada São Paulo, publicação do Governo paulista dos anos 30, século XX, ano 1936, sob a responsabilidade editorial de Armando de Sales Oliveira. Com projeto gráfico arrojado, valoriza tanto o fotojornalismo como a fotomontagem. Aqui, vale o adendo de que nessa fase histórica, sobretudo, em 1939, imigram para o território brasileiro alguns fotógrafos de origem alemã. Trazem consigo influências do movimento Bahaus, com ênfase nas formas, no grafismo e no uso de recursos, tais como ampliação e montagem. Chamam a atenção os trabalhos de Alice Brill, Hans Gunter Flieg, Hildegard Rosenthal e Fred Kleeman. Quanto aos colaboradores, citamos Benedito Junqueira Duarte, que assinava Vamp, e Theodor Preising.
Em 1938, surge um periódico mensal de impacto, Diretrizes. Segundo Bahia (1990b), se impõe como o único veículo de comunicação que se opõe abertamente ao Estado Novo, o que é decisivo para seu fechamento, em 1944, por ordem direta do Governo Vargas. Criada por Samuel Wainer, importante figura da imprensa brasileira e mais conhecido pela posse do jornal
Última Hora, Diretrizes também está vinculada à figura de Azevedo Amaral, intelectual de
renome e alinhado ao pensamento de direita. Produzida no RJ, a revista é distribuída em diferentes Estados brasileiros e se imortaliza por suas reportagens memoráveis.
A revista Manchete, por sua vez, lança seu primeiro número, em 1952, graças à iniciativa do imigrante russo naturalizado brasileiro Adolfo Bloch, que chega ao Brasil em 1922. Manchete (Figura 10) adota concepção moderna inspirada, nitidamente, na ilustrada Paris Match. E mais, é reconhecida como o semanário que mais utiliza a fotografia como principal forma de linguagem. Atinge, logo de início, rápido sucesso. Em poucas semanas, alcança o posto de a segunda revista semanal de circulação nacional mais vendida, aquém apenas da renomada e, até então, hegemônica O Cruzeiro.
Não obstante o predomínio dos dois títulos – O Cruzeiro e Manchete – no mercado de revistas da época, neste meio termo, a Editora Abril lança Realidade, ano 1966. Anunciada como a publicação semanal de homens e mulheres inteligentes “[...] que querem saber mais a respeito de tudo”, como anuncia seu fundador, Victor Civita, Realidade, segundo colocações de Werneck
et al. (2000, p. 53) reúne “ousadia dos temas, investigação aprofundada, texto elaborado e
ensaios fotográficos antológicos”.
FIGURA 10 – Capa da revista Manchete, edição sobre a construção de Brasília
Fonte: http://midiaclipping.blogspot.com/2008_05_01_archive.html
Porém, com a promulgação do citado AI-5, em dezembro de 1968, Realidade passa à sofrer pressão da censura, fato que perdurou por anos e, acabou por resultar no fechamento desta revista, em janeiro de 1976. De qualquer forma, confirmando as palavras dos autores ora referendados, ainda hoje é lembrada por sua abordagem criativa, pela novidade de textos escritos em primeira pessoa, e por fotos que deixam visualizar a existência de fotógrafos e designers gráficos inovadores.
Pouco antes do AI-5, em pleno Regime Militar (1964-1985), surge uma revista até hoje presente na vida dos brasileiros e que, atualmente, século XXI, figura como o semanário brasileiro de informação com maior circulação e tiragem. Estamos nos referindo à Veja, cuja primeira edição data de 11 de setembro de 1968, Figura 11.
Em sua fase inicial, Veja enfrenta sérios problemas com os órgãos de censura, com edições mutiladas e / ou apreendidas, até porque, de acordo com Werneck et al. (2000), um dos fundamentos da linha editorial adotada é oposição ao Regime Militar, sem abrir mão de expor opiniões críticas.
FIGURA 11 – Capa inaugural da revista Veja, edição 11 set. 1968
Fonte:http://veja.abril.com.br/revistas
Sob os moldes da publicação norte-americana, Time, sua intenção inicial é ser uma resenha da semana, com espaço para coberturas exclusivas e destacado viés interpretativo. Assim, a partir dos primeiros fascículos, já se caracteriza por um texto pessoal e padronizado, e, ao longo de sua existência, Veja consegue sobreviver e resistir bravamente a todas as dificuldades iniciais, a ponto de festejar, no dia 2 de fevereiro de 2011, sua 2.2002a edição.
2.2 Poder e influência de Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo: a