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(2) 2. IGOR POHL BAUMANN. O SALMO DE JEREMIAS 20.7-18 NA PERSPECTIVA DA LINGUAGEM DA LAMENTAÇÃO DO ANTIGO ISRAEL. Dissertação apresentada em cumprimento às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, para obtenção do grau de Mestre.. Orientação: Prof. Dr. Milton Schwantes. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2011.
(3) 3. FICHA CATALOGRÁFICA. B327s. Baumann, Igor Pohl O salmo de Jeremias 20.7-18 na perspectiva da linguagem da lamentação do antigo Israel / Igor Pohl Baumann -- São Bernardo do Campo, 2011. 325fl. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Faculdade de Humanidades e Direito, Programa de Pós Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo Bibliografia Orientação de: Milton Schwantes 1.. Aflição 2. Bíblia – A.T. – Jeremias - Crítica e interpretação I. Título CDD 224.206.
(4) 4. IGOR POHL BAUMANN. O SALMO DE JEREMIAS 20.7-18 NA PERSPECTIVA DA LINGUAGEM DA LAMENTAÇÃO DO ANTIGO ISRAEL. Dissertação apresentada em cumprimento às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião, para obtenção do grau de Mestre.. Área de concentração: Literatura e Religião no Mundo Bíblico. Data da defesa:. 25 de setembro de 2011.. Resultado:. Aprovado.. BANCA EXAMINADORA: Milton Schwantes Universidade Metodista de São Paulo. Prof. Dr.. _________________. Tércio M. Siqueira Universidade Metodista de São Paulo. Prof. Dr.. _________________. José Ademar Kaefer Instituto Teológico de São Paulo. Prof. Dr.. _________________.
(5) 5. Dedico este trabalho à Jesus de Nazaré e à memória de minha avó Alda Pacheco Pohl.
(6) 6. AGRADECIMENTOS. Agradeço a Deus, meu Criador, Salvador e Consolador. Pois ―tudo vem de ti, e nós apenas te demos o que vem das tuas mãos‖. À Bruna, minha esposa e às minhas filhas amadas Maria e Liz que me apoiaram e por vezes dividiram minha presença e atenção com as viagens, estudos e o trabalho de escrever a dissertação. Aos meus pais e irmãos, minha gratidão. À minha igreja, a Primeira Igreja Batista de Curitiba, que me apoiou de todas as formas possíveis; especialmente ao Pr. Paschoal Piragine Junior que tem investido em minha vida e ministério com liberalidade e sabedoria; aos colegas de ministério na Primeira Igreja Batista de Curitiba, todos abençoados por Deus e preciosos na missão de Jesus, a quem tiveram paciência comigo e demonstraram seu incentivo e agora são parte da minha alegria neste tempo. À Martha e ao Silas de Morais, colegas de ministério, mas principalmente amigos mais chegados que irmãos. Faço questão de mencionar o empenho da Anne Beyer, minha secretária e todos da equipe do Ministério de Educação Cristã da Primeira Igreja Batista de Curitiba: professores, voluntários e amigos. Aos colegas professores da Faculdade Teológica Batista do Paraná, especialmente pelo Dr. Antônio Renato Gusso, Dr. Jaziel Guerreiro Martins, Ms. Eduardo Getão e outros representantes do corpo docente que me apoiaram neste projeto. Aos amigos, pessoas indispensáveis que me ajudaram a manter minha mente em ordem. Ao Dr. Albert Friesen e ao Pr. Manfred Schwalb que estiveram mais perto de mim, me ouvindo, exortando e ensinando nas circunstâncias difíceis que passei no período. Aos irmãos em Cristo e pessoas queridas que ouviram alguns ―nãos‖ de minha parte para que eu pudesse dedicar a este projeto. Ao Dr. Milton Schwantes, meu orientador e ao professor Tércio Machado Siqueira, pois apenas dez ou quinze minutos de conversa com eles sobre a pesquisa esclareciam vários pontos e rendiam algumas páginas de qualidade. Aos funcionários da pós-graduação em Ciências da Religião, especialmente a equipe da biblioteca ecumênica que me ajudou a encontrar os artigos e enviavam por e-mail quando eu não podia ir à São Bernardo do Campo. Também sou grato à CAPES, pela bolsa flexibilizada, a qual possibilitou o pagamento das mensalidades nos primeiros dois anos deste projeto..
(7) 7. “Bem-aventurados os que choram, pois serão consolados” (Mateus 5.4).. “Jerusalém, Jerusalém, você, que mata os profetas e apedreja os que lhe são enviados! Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vocês não quiseram. Eis que a casa de vocês ficará deserta (Mateus 23.37,38)”.. “Tudo depende de como lemos, de como entramos no círculo mágico dos significados de um texto; de como nos introduzimos em suas palavras e permitimos que a textura de um texto teça a sua trama ao nosso redor”. Michael Fishbane.
(8) 8. RESUMO. A presente dissertação se situa no campo das Ciências da Religião. É um estudo da perícope de Jeremias 20.7-18 na perspectiva do fenômeno de lamentação na área da literatura e religião do mundo bíblico. Jeremias 20.7-18 é um dos textos de lamentação representativos dentre os que se encontram fora do saltério, na literatura profética. O tema desenvolvido visa analisar este salmo em sua forma, lugar e conteúdo na perspectiva da linguagem de lamentação. O conteúdo que nos atemos foram as imagens de Yhwh reconhecidas na perícope: sedutor irresistível, Deus violento, fogo consumidor, guerreiro violento e vingativo, Senhor dos exércitos, libertador do pobre e subversor das cidades impenitentes. O estudo desta perícope foi possível mediante a compreensão da linguagem de lamentação como um fenômeno religioso universal. Localizamos a lamentação na sociedade do antigo Oriente Próximo, pois foi o contexto que tornou possível tal experiência para o antigo Israel. A lamentação na história da religião de Israel só é possível ser construída a partir de hipóteses. As hipóteses para uma história da lamentação em Israel que averiguamos nesta dissertação foram distribuídas entre o período pré-exílico, exílico e pós-exílico, a partir dos principais textos de lamento que marcam tal linguagem em cada período. Reconhecemos o gênero de lamentação nos documentos sagrados de Israel, como gênero literário e as estruturas simbólicas que permeiam os salmos de lamentação. Dessa forma, nos aproximamos da linguagem de lamentação de Jeremias 20.7-18 como parte do fenômeno do antigo Israel. Portanto, a linguagem de lamentação se torna a linguagem do sofrimento. Em outras palavras, a lamentação dá voz ao ser que sofre. O livro de Jeremias se situa num período de intenso sofrimento e violência contra a nação de Israel. É adequado, pois, no âmbito das lamentações, a presença deste salmo peculiar no livro seu profético. Com isso, estudamos exegeticamente nossa perícope perguntando o seu gênero principal. Em seguida, verificamos o lugar vivencial e, em termos de conteúdo quais são as imagens ou quadros ali demonstrados e como os dois se ajustam. Palavras-chave: Antigo Testamento; livro de Jeremias; Lamentação; Lamentos de Jeremias; Jeremias 20.7-18..
(9) 9. ABSTRACT. This dissertation is located in the field of Science of Religion. It is a study of the passage of Jeremiah 20.7-18 in view of the phenomenon of mourning in the area of literature and religion of the biblical world. Jeremiah 20.7-18 is a representative of the texts of lamentation among those who are outside the Psalter, in the prophetic literature. The theme is aimed at analyzing this psalm in its form, place and content of language from the perspective of mourning. The content that we keep the images were recognized in the passage of Yhwh: irresistible seducer, violent God, consuming fire, violent and vengeful warrior, the Lord of hosts, the liberator of the poor and subverter of unrepentant cities. The study of this passage was made possible by understanding the language of mourning as a universal religious phenomenon. We have located the mourning in ancient Near Eastern society, as was the context that made this experience possible for ancient Israel. The mourning in the history of Israel's religion is only possible to be built from hypotheses. The chances for a story of mourning in Israel that we ascertain this dissertation were distributed between the pre-exilic, exilic and postexilic, from the main texts of mourning to mark such language in each period. We recognize the genre of mourning in Israel's sacred documents as literary genre and the symbolic structures that permeate the psalms of lamentation. Thus, we approach the language of lamentation of Jeremiah 20.7-18 as part of the phenomenon of ancient Israel. Therefore, the language of lament becomes the language of suffering. In other words, the lamentation gives voice to be suffering. The book of Jeremiah is in a period of intense suffering and violence against the nation of Israel. It is appropriate, therefore, within the lamentations, the presence of this particular psalm in his prophetic book. Thus, our study passage exegetically asking your primary genre. Then we found the place and experiential in terms of content which are images or pictures shown here and how the two fit together.. Keywords: Old Testament; Book of Jeremiah; Lament; Lament of Jeremiah; Jeremiah 20.718..
(10) 10. SUMÁRIO. INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 14 1 A UNIVERSALIDADE DA LAMENTAÇÃO .................................................................. 19 1.1 A LAMENTAÇÃO NA PESQUISA CIENTÍFICA .......................................................... 19 1.2 A LAMENTAÇÃO EM DOCUMENTOS RELIGIOSOS ................................................ 21 1.3 O FENÔMENO DA LAMENTAÇÃO .............................................................................. 24 1.4 O LAMENTO ENTRE CULTURAS ................................................................................. 27 2 A LAMENTAÇÃO NO ANTIGO ORIENTE PRÓXIMO ............................................. 31 2.1 LAMENTOS SUMÉRIOS PELAS CIDADES DESTRUÍDAS ........................................ 31 2.2 LAMENTOS BABILÔNICOS .......................................................................................... 35 2.3 LAMENTOS EGÍPCIOS ................................................................................................... 36 2.4 A RELAÇÃO LAMENTAÇÃO E MALDIÇÕES NA POESIA DO ANTIGO ORIENTE PRÓXIMO ................................................................................................................................ 37 3 A LAMENTAÇÃO NO ANTIGO ISRAEL ...................................................................... 41 3.1 A LAMENTAÇÃO NA ÉPOCA PRÉ-EXÍLICA .............................................................. 43 3.1.1 O paradigma do Êxodo: do lamento de escravos à religião mosaica .............................. 45 3.1.2 Oficiais itinerantes dos grupos primários da sociedade israelita ..................................... 49 3.2 A LAMENTAÇÃO NO PERÍODO EXÍLICO .................................................................. 52 3.2.1 A lamentação entre os remanescentes ............................................................................. 53 3.2.2 A lamentação entre os exilados ....................................................................................... 59 3.3 A LAMENTAÇÃO NO PERÍODO PÓS-EXÍLICO.......................................................... 67 3.3.1 A compilação do saltério ................................................................................................. 69 3.3.2 A lamentação e a literatura apocalíptica .......................................................................... 71 3.4 A LAMENTAÇÃO NA SOCIEDADE E RELIGIÃO DO ANTIGO ISRAEL ................ 73 3.4.1 A lamentação nos ritos e liturgias do antigo Oriente Próximo ........................................ 74 3.4.2 A lamentação como ritual simbólico na sociedade de Israel ........................................... 77 3.4.3 As lamentações fúnebres e as carpideiras do antigo Israel .............................................. 79 3.4.4 A liturgia de lamentação nos cultos individuais e coletivos ............................................ 82 3.4.4.1 A lamentação em prol do indivíduo ............................................................................. 84 3.4.4.2 A lamentação nos cultos de valor nacional .................................................................. 86 4 GÊNERO E TEOLOGIA DA LAMENTAÇÃO NA BÍBLIA HEBRAICA .................. 89.
(11) 11. 4.1 OS SALMOS DE LAMENTAÇÃO .................................................................................. 91 4.1.1 As lamentações nacionais no Antigo Testamento ........................................................... 94 4.1.2 As lamentações individuais no Antigo Testamento ........................................................ 96 4.1.3 Subcategorias e tipos de lamentações no Antigo Testamento ....................................... 100 4.1.3.1 Os lamentos de inocência, de penitência e de vingança ............................................. 100 4.1.3.2 O lamento fúnebre e o lamento da angústia ............................................................... 101 4.1.3.3 O sofrimento como mediação a Deus ......................................................................... 102 4.1.3.3.1 O sofrimento e lamentação no livro de Jó ............................................................... 103 4.1.3.3.2 O sofrimento e lamentação no Segundo Isaías ........................................................ 104 4.1.3.3.3 O lamento do mediador ........................................................................................... 107 4.1.3.4 Os lamentos de Deus .................................................................................................. 108 4.1.4 A estrutura dos salmos de lamentação ........................................................................... 108 4.1.4.1 Introduçao ou invocação ............................................................................................. 110 4.1.4.2 Desenvolvimento ou súplica....................................................................................... 111 4.1.4.3 Conclusão ou voto de louvor ...................................................................................... 114 4.2 A SITUAÇÃO VIVENCIAL DOS SALMOS DE LAMENTAÇÃO .............................. 115 4.2.1 Contexto social das lamentações ................................................................................... 116 4.2.1.1 Contexto cúltico.......................................................................................................... 117 4.2.1.2 Orações privadas......................................................................................................... 120 4.2.2 Contexto composicional e autoria ................................................................................. 122 4.2.3 Função literária e destinatários ...................................................................................... 125 4.3 IMAGENS E SUJEITOS DO GÊNERO DE LAMENTAÇÕES .................................... 128 4.4 A TEOLOGIA DA LAMENTAÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO............................ 131 4.4.1 Relação com o Êxodo .................................................................................................... 132 4.4.2 Distinção entre o lamento fúnebre e o lamento da angústia .......................................... 134 4.4.3 O significado da lamentação na teologia do Antigo Testamento .................................. 135 4.4.4 Considerações gerais sobre a perspectiva de lamentação na análise dos salmos .......... 137 4.2.4.1 Os salmos de lamentação fora do saltério .................................................................. 140 4.4.4.2 Sitz im Leben das lamentações proféticas ................................................................... 144 5 O SALMO DE JEREMIAS 20.7-18: ANÁLISE EXEGÉTICA .................................... 148 5.1 CONTEXTO HISTÓRICO DO LIVRO DE JEREMIAS ................................................ 149 5.1.1 O profeta Jeremias ......................................................................................................... 149 5.1.2 Situação política do antigo Oriente Próximo e em Israel na época de Jeremias ........... 153.
(12) 12. 5.1.3 O exílio babilônico e sua teologia ................................................................................. 154 5.1.4 O livro de Jeremias ........................................................................................................ 158 5.2 ANÁLISE DA FORMA ................................................................................................... 161 5.2.1 Delimitação e tradução da perícope............................................................................... 162 5.2.1.1 Delimitação da perícope ............................................................................................. 162 5.2.1.1.1 Indicadores de um novo começo ............................................................................. 163 5.2.1.1.2 Indicadores ao longo do texto.................................................................................. 167 5.2.1.1.3 Indicadores de término ............................................................................................ 168 5.2.2 Tradução literal do texto ................................................................................................ 170 5.2.2 Problemática quanto à unidade da perícope .................................................................. 173 5.2.3 Forma e estrutura das unidades literárias de Jeremias 20.7-18 ..................................... 178 5.2.3.1 Forma de Jeremias 20.7-13 ......................................................................................... 179 5.2.3.1.1 Primeira estrofe, v.7................................................................................................. 179 5.2.3.1.2 Segunda estrofe, v.8,9 ............................................................................................. 183 5.2.3.1.3 Terceira estrofe, v.10 ............................................................................................... 188 5.2.3.1.4 Quarta estrofe, v.11,12 ............................................................................................ 191 5.2.3.1.5 Quinta estrofe, v.13 ................................................................................................. 197 5.2.3.2 Forma de Jeremias 20.14-18 ....................................................................................... 200 5.2.3.2.1 Primeira estrofe, v.14............................................................................................... 202 5.2.3.2.2 Segunda estrofe, v.15-17 ......................................................................................... 205 5.2.3.2.3 Terceira estrofe, v.18 ............................................................................................... 213 5.3.4 A estrutura de Jeremias 20.7-18 .................................................................................... 214 5.3 ANÁLISE DO CONTEXTO VIVENCIAL ..................................................................... 221 5.3.1 Problemática quanto ao lugar vivencial da perícope ..................................................... 222 5.3.2 Lugar e situação vivencial de Jeremias 20.7-13 ............................................................ 226 5.3.3 Lugar e situação vivencial de Jeremias 20.14-18 .......................................................... 234 5.3.4 Autoria, composição e compilação da perícope ............................................................ 242 5.3.4.1 Autoria da passagem................................................................................................... 243 5.3.4.2 Redação e compilação da passagem ........................................................................... 247 5.3.4.3 A mensagem profética de Jeremias 20.7-18 ............................................................... 249 5.4 IMAGENS DE YHWH NA LAMENTAÇÃO DE JEREMIAS 20.7-18 .......................... 250 5.4.1 A imagem do sedutor irresistível ................................................................................... 252 5.4.2 A imagem do Deus violento .......................................................................................... 255.
(13) 13. 5.4.3 A imagem do fogo consumidor ..................................................................................... 259 5.4.4 A imagem do salvador vingativo ................................................................................... 261 5.4.5 A imagem do Senhor dos exércitos ............................................................................... 263 5.4.6 A imagem do libertador do pobre .................................................................................. 267 5.4.7 A imagem do subversor das cidades impenitentes ........................................................ 273 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 278 REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 287.
(14) 14. INTRODUÇÃO. A presente dissertação está localizada no campo das Ciências da Religião cuja linha de pesquisa é Literatura e Religião no mundo bíblico. O objeto de estudo é a perícope da Bíblia Hebraica do livro de Jeremias conhecida como a última de uma série de suas ―confissões‖. A terminologia ―confissões‖ não nos pareceu adequada para a presente pesquisa, dado o gênero literário em que nossa perícope de estudo se encontra, a saber, o gênero de lamentação. A perspectiva do estudo do gênero de lamentação é bastante complexa e não se enquadra no conceito de ―confissão‖. O termo confissão se adequa melhor quando tais lamentos são analisados sob o ponto de vista da linguagem espiritual da oração. A lamentação, em termos religiosos, é oração que fora registrada. Mas nem toda oração é do gênero de lamentação. Em outras palavras, o objeto de estudo é um salmo e deve ser interpretado como tal: primeiro, porque se trata de uma poesia hebraica, marcada por repetições e imagens simbólicas comuns à linguagem poética; segundo, porque se apresenta como gênero distinto do texto imediatamente anterior e imediatamente posterior, a textura de Jeremias 20.7-18 é poesia da mais alta qualidade com características mesmo no âmbito dos padrões das lamentações dos salmos; terceiro, está alocada numa estrutura de cadeias narrativas e poesias intencionalmente organizadas no plano de construção redacional do livro de Jeremias; quarto, por se tratar de linguagem poética, imagética e simbólica pode possuir múltiplos níveis de interpretação correlacionados com diferentes períodos da história vinculada à história do livro de Jeremias e da própria pessoa histórica do profeta. Quito, definir data e autoria de um salmo é uma tarefa bastante difícil, porém, necessária à interpretação. Portanto, preferimos a nomenclatura de lamentação. A ideia da confissão envolve um caráter de tradição religiosa entre tais poesias (essencialmente as que se encontram entre os capítulos 11 a 20) e a pessoa histórica do profeta. Alguns estudiosos vinculam nesta delimitação os capítulos 1 a 26. Por conseguinte, falar em confissão é imediatamente estabelecer que o gênero literário da perícope é o de lamentação individual e está diretamente ligado ao profeta Jeremias. A questão do gênero, porém, é mais complexa do que parece. Nem sempre o ―eu‖ poético de um texto se trata de um indivíduo; pode, pois, assumir a personificação de várias vozes que cantam. Estas vozes podem ter encontrado ecos na pregação de Jeremias, que serviu-lhes de referencial ou vice-.
(15) 15. versa. Ao assumirmos que a origem (autoria) da poesia como jeremiana, a definição do gênero necessita de um exame minucioso. A função do texto em seu contexto literário também é importante de ser observada. Não obstante, o Sitz im Leben do texto, isto é, seu lugar vivencial é bastante incerto, uma vez que Jeremias profetizou por um longo e diversificado período da história do antigo Israel. Contudo, temos bons indícios para datação uma datação aproximada do texto e localizar a situação vivencial. A questão que nos chama mais a atenção é a intensidade emocional do poema. Principalmente, a terminologia empregada pelo salmo-salmista atribui a Yhwh, imagens de sedução, violência, fogo consumidor, guerreiro, senhor de exércitos, libertador e subversor. Algumas delas parecem estranhas ao leitor moderno, muito mais àqueles vinculados à instituições religiosas e que utilizam o texto em suas confissões de fé e sermões. Portanto, o objetivo geral da presente dissertação é situar a perícope de Jeremias 20.718 no campo da linguagem da lamentação e, com isso, apontar o salmo como parte de uma linguagem que tem uma função significativa na história, religião e teologia do antigo Israel. Mais especificamente, queremos nos aproximar da perícope de estudo contextualizados com tal linguagem. Para chegar ao nosso objetivo levantamos as seguintes hipóteses, ou seja, se a perícope de Jeremias 20.7-18 pode ser situada situa no campo da linguagem de lamentação é necessário, em primeiro lugar, verificar se a lamentação é um fenômeno religioso universal, isto é, se é possível encontrar em outras sociedades e culturas a lamentação como um fenômeno; em segundo lugar, se for possível verificar essa universalidade da linguagem de lamentação, necessitamos estabelecer um modelo de sociedade do mundo antigo, mais precisamente anterior a Israel, que tenha influenciado os costumes de lamentação daquela sociedade; em terceiro lugar, necessitamos nos aproximar da reconstrução de uma história da lamentação do antigo Israel; em quarto lugar, importa averiguar os estudos e pesquisas acerca do gênero literário de lamentação; por fim, a investigação termina com a análise exegética da perícope em si para confirmar a presença de tal linguagem. Com isso, poderemos especificar as imagens de Yhwh dentro do âmbito da linguagem de lamentação do antigo Israel. O primeiro capítulo, portanto, faz um apanhado histórico da pesquisa e fenomenológico em busca da universalidade da lamentação. Começaremos por investigar como se tem dado a pesquisa no âmbito das lamentações; em seguida, verificar a presença de lamentação em textos sagrados, isto é, em documentos religiosos que registram sua presença e funções em sociedades e culturas de todas as épocas; caracterizaremos o fenômeno da.
(16) 16. lamentação em si como um aspecto da experiência religiosa; e, trataremos de algumas formas de lamento entre culturas. O segundo capítulo localiza a linguagem de lamentação do antigo Oriente Próximo como matriz para a lamentação do antigo Israel. A abrangência da lamentação no antigo Oriente Próximo é grande, envolve vários impérios e países em diversas épocas: lamentos babilônicos, lamentos sumérios por cidades e lamentos egípcios. Certamente, a lamentação do antigo Israel foi influenciada pela cultura babilônica e suméria mediada pela religião dos canaanitas. A lamentação no antigo Israel é o assunto que dedicamos o capítulo três. Verificamos o vocabulário hebraico para lamentação, ou seja, as palavras hebraicas que identificam na literatura sagrada dos judeus os termos para lamentar. Em seguida, apontamos os aspectos principais do que seria uma provável história da lamentação no antigo Israel, abordando as prováveis a presença desta linguagem em época anterior ao exílio, na época do exílio e no período pós-exílico. Obviamente, estamos conscientes da limitação desta perspectiva histórica da lamentação, afinal, trata-se de uma hipótese. E por mais bem argumentada que tenha sido feita ao longo dos anos por hábeis pesquisadores, configura-se ainda sim em uma hipótese. Neste terceiro capítulo, nos dedicamos às funções sociais (incluindo proféticas) religiosas (cúlticas) e teológicas que a linguagem de lamentação precisamente executa no antigo Israel. O quarto capítulo é reservado para uma analise do gênero de lamentação na Bíblia Hebraica. Conhecemos a linguagem de lamentação de Israel através de seus documentos religiosos. Neste capítulo, destacamos as diferenças entre os tipos de salmos: nacionais, individuais, de inocência, de penitência e de vingança. Em outras palavras, realizamos um apanhado geral do conteúdo da pesquisa do gênero. Em seguida, nos dedicamos a salientar a presença de salmos fora do saltério, assunto de nosso especial interesse no capítulo, uma vez que nossa perícope se trata de um salmo deste tipo. É provável que nosso salmo não tenha sido entrado como um dos salmos oficiais do saltério, consequentemente, do culto do Israel pós-exílico, devido seu caráter altamente intransigente para com Yhwh. Mas ainda assim foi considerado um salmo importante e colocado como parte das palavras de um dos profetas mais importantes da história de Israel. Passamos a estudar a estrutura dos salmos de lamentação até chegar em características peculiares do gênero, tal como lugar social, funções e nas imagens e sujeitos que permeiam as lamentações bíblicas. O quinto e último capítulo é a análise exegética da perícope escolhida. Atentamos para o pano de fundo do livro e características peculiares do livro de Jeremias. Adentramos no texto bíblico, começando pelo teste de delimitação da perícope e, em seguida, sua tradução.
(17) 17. literal. A tradução da perícope é bastante literal, porém, o objetivo é mantê-la mais perto do original, com a finalidade de uma maior precisão nos termos e frases em suas particularidades morfológicas e linguísticas. Analisamos a forma do texto, o Sitz im Lebem e os conteúdos. Os conteúdos são desenvolvidos com ênfase e busca pelas imagens de Yhwh da lamentação em questão. Este último capítulo visa demonstrar que a perícope no livro de Jeremias possuí características próprias dentro da linguagem de lamentação, bastante influenciada pelos acontecimentos do exílio. É provável que o profeta tenha exercido uma espécie de função de articulador da linguagem de lamentação, sendo que a época do exílio fora determinante para o desenvolvimento da religião do antigo Israel. O profetismo, representado por Jeremias, mais uma vez marca presença na religião e teologia do povo de Deus do passado. Na dissertação foi conservado o caráter de pesquisa bibliográfica somado a métodos exegéticos dos quais o método histórico-crítico abre caminho para o andamento da pesquisa bíblica científica. O principal referencial teórico foi a Bíblia Hebraica Stuttgartensia (Stuttgart, Deutsche Bibelgeschlschaft, 1997). Seguido esta principal fonte, seguem outras versões do livro de Jeremias. Os demais referenciais teóricos e de referencias foram alistados em notas de rodapé e seguem ao final da dissertação. No horizonte desta pesquisa os livros de introduções ao Antigo Testamento, teologias do Antigo Testamento, livros mais específicos de exegeses e comentários bíblicos que contribuem para a apropriação de conceitos vinculados a perspectiva da lamentação e uma aproximação ao tema proposto. Propomo-nos a examinar e situar Jeremias 20.7-18 na perspectiva da linguagem de lamentação. No entanto, ao desenvolver o tema nos deparamos com a problemática do sofrimento humano. Não podemos ignorar a presença do sofrimento no mundo, em todos os segmentos sociais e étnicos; principalmente por estarmos envolvidos nele. Descobrimos que a linguagem de lamentação é a linguagem do sofrimento. ―A queixa integra como componente essencial o processo de libertação‖ (WESTERMANN, 2005). Ela dá voz àquele que fora aviltado em sua dignidade e em outras áreas da vida. No livro de Jeremias, a linguagem de lamentação alcança tonalidades proféticas das acusações, críticas quanto à injustiça social e desespero diante das calamidades do período que o livro abarca. A pesquisa bíblica deve encontrar espaço para além dos campos científicos e alcançar o ser humano e responder às suas necessidades. Importa destacar algumas questões sobre terminologia usadas ao longo desta dissertação. A título de acessibilidade na leitura utilizamos algumas vezes a ideia de Bíblia Hebraica como correspondente para o Antigo Testamento cristão, mas sabemos que se trata de fenômenos diferentes (SMITH, 2006). Assim acontece com a palavra ―Bíblia‖, que denota.
(18) 18. uma única obra, mas é composta por vários livros. A ideia de ―livro bíblico‖ também é usada para simplificar, porém, é claro que os escritos que vieram a ser reconhecidos como ―livro‖ ou ―livros‖ bíblicos têm origem em um longo processo e história iniciada na tradição oral e, por conseguinte, trabalho em forma de literatura. Por vezes, entre a fala do profeta ou a memória do mesmo até sua constituição literária final, temos a criação de ―panfletos‖. Os documentos sagrados nascem da experiência coletiva. Suas forças provem da força da coletividade. Estas ganham referencia e autenticidade quando vinculadas ao memorial de alguém importante. O que chamamos de livro bíblico é produto de reflexão comunitária ao longo dos anos, obviamente, ligadas a um predecessor autorizado e eternizado na memória religiosa do povo transformado em literatura, literatura sacra. Com relação a datas também é preciso frisar que nem sempre colocamos as siglas ―a.C.‖ para antes de Cristo e ―d.C.‖ para depois de Cristo. Questão também complexa no âmbito de terminologia cientifica. O contexto da leitura naturalmente nos mostrará se se trata antes ou depois de Cristo. Pelo trabalho se concentrar nas páginas da Bíblia Hebraica Stuttgartensia é natural que as datas sejam vinculadas à época anterior a Cristo. A tradução utilizada para as citações da perícope da pesquisa é a nossa, sempre o mais literal possível. Porém, em outras citações é utilizada a versão Nova Versão Internacional, em português. Se trata de uma versão atual e de fácil acesso a consulta. Ainda que, quando necessário utilizamos outra versão em português, como a Bíblia de Jerusalém, fazendo a devida referência. Outras vezes optamos por utilizar termos anacrônicos para situar o leitor no entendimento geral, como o termo Palestina, por exemplo..
(19) 19. 1 A UNIVERSALIDADE DA LAMENTAÇÃO. A lamentação é um fenômeno universal. É uma experiência religiosa que existe deste o mundo antigo até os dias atuais. Esse fenômeno não está restrito apenas ao antigo Israel, pois vai além dos limites da religião de Israel, literatura hebraica e influências israelitas. O antigo Israel faz parte de um ambiente maior na qual a lamentação se apresenta. Em outras palavras, o mundo antigo antes de Israel já testemunha a presença de lamentações em seu modo de ser. As maneiras como se apresentam os lamentos são diferentes de uma cultura para outra. Suas variantes dependem dos símbolos, dos mitos, dos textos e rituais que perfazem cada cultura. No entanto, essa diversidade de expressar o lamento possuí pontos comuns. Ou seja, há um núcleo básico que permite ao pesquisador verificar e analisar tal experiência a partir de várias perspectivas (fenomenológica, psicológica, antropológica, sociológica, filológica, teológica, etc.)1.. 1.1 A LAMENTAÇÃO NA PESQUISA CIENTÍFICA. O tema da lamentação é de grande interesse dos pesquisadores tanto no campo das Ciências das Religiões quanto da Teologia. Ele tem ocupado espaço nas observações e análises fenomenológicas do mundo antigo e da religião de Israel e nos estudos teológicos da literatura hebraica, isto é, do Antigo Testamento. Principalmente, foi a pesquisa da crítica das formas que possibilitou maiores avanços e contribuições para que a pesquisa da lamentação tivesse tal reconhecimento. Ao longo da história da pesquisa da lamentação (que está bastante vinculada à pesquisa dos salmos) podemos verificar progressos que auxiliaram no avanço da pesquisa e interpretação. Coetzee sugere seis períodos como base2, mas o estudo da lamentação se desenvolveu a partir da classificação ―salmos de lamentação‖ amplamente difundida pelo 1. Nossa perspectiva se dá no campo das Ciências da Religião e se concentra particularmente na área das Ciências Bíblicas, isto é, da exegese e da hermenêutica da literatura e da religião do mundo bíblico em geral. Porém, uma ou outra visão interdisciplinar torna-se parte do transfundo hermenêutico e exegético que queremos nos ater ao longo desta dissertação. 2 Os períodos sugeridos por Coetzee são: primeiro século d.C., patrística, igreja medieval, hermenêutica da reforma protestante, pós-reforma (séculos XVII a XIX) e o século XX, que foi a época em que a base da pesquisa dos salmos de lamentação mais se desenvolveu2. A lamentação começa a ser estudada, a partir do século XX, como um gênero literário devido à perspectiva da crítica das formas. Consulte: COETZEE, J.H. A Survey of Research on the Psalms of Lamentation. Old Testament Essays. Pretoria: OTSSA, n.5, p.151-155, 1992..
(20) 20. trabalho de Hermann Günkel (1862-1932), reconhecido como o pai da crítica das formas. A partir do século XX, várias escolas surgiram e ainda perduram. É o caso da Gattungforschung, ou melhor, a crítica das formas, cujo precursor foi Günkel. Portanto, grande parte da literatura que visa o estudo da lamentação e/ou do lamento em si concentra-se a partir do exame acurado do gênero literário dos salmos bíblicos, dentre os quais encontramos o de lamentação. Reconhecemos, porém, que a crítica das formas não é a única perspectiva de leitura da lamentação. É correto afirmar que ela abriu caminhos para outros pesquisadores e novas abordagens de aprofundamento na análise da lamentação. Claus Westermann (1909-2002) discorda de alguns pontos da classificação pormenorizada de Günkel para os salmos e sugere uma mais simples: louvor e lamento, apenas (WESTERMANN, 1981, p.15-35). Westermann considera os salmos bíblicos não só na perspectiva literária, mas da perspectiva da experiência religiosa (comum à humanidade). Cada período identificado por Coetzee contribuiu para o avanço da pesquisa dos Salmos de lamentação, de nosso interesse. É certo que com Günkel ela expandiu-se, porém, posteriormente, surgiram os estudos de Mowinckel com as interpretações cúlticas dos salmos e outros estudos mais amplos, como os de Westermann (2005), no âmbito da teologia. E estudos mais específicos, como os de Gerstenberger (1970). Estes e outros são igualmente importantes na pesquisa dos salmos de lamentação e, concomitantemente, no da linguagem de lamentação. Seguindo Coezee (1992, p.167,168) podemos direcionar algumas possíveis tendências na pesquisa da linguagem de lamentação: a) os exegetas não podem desprezar as formas de lamentação da atualidade, pois elas são restritas a cada cultura e idiossincrasia; b) nenhuma abordagem exegética usada no passado ou no presente pode ser destacada a partir de raízes históricas e filosóficas; c) a diversidade de perspectivas de pesquisa da lamentação deve ser respeitada, pois todas elas possuem seus méritos e contribuições; d) as aplicações hermenêuticas das lamentações dependem da situação de vida do leitor ou ouvinte; e) o excesso de ênfases nas tendências de interpretação específica deve levar os estudiosos a retificarem suas ações no pensamento exegético; f) o conhecimento da história de Israel, do ambiente social, cultural e religioso do pano de fundo do Antigo Oriente Médio, da arqueologia do mundo antigo, da língua hebraica, do ugarítico, das perspectivas exegéticas antigas e modernas, princípios hermenêuticos e perspectivas teológicas são indispensáveis para o crescimento das pesquisas dos salmos de lamentação; g) realizar o exame mais detalhada nos pontos de estagnação da pesquisa, para tornar mais efetivo e relevante o uso dos.
(21) 21. salmos de lamentação na experiência religiosa da igreja e das comunidades de fé, de um modo geral. As várias situações de sofrimento no mundo, por exemplo, no sul da África e do chamado Terceiro Mundo, têm requerido novas perspectivas na pesquisa da lamentação devido às circunstâncias de constantes lamentos e dores na conjuntura da história atual. Uma dessas novas perspectivas é a da fenomenologia religiosa aplicado às lamentações, dentro do campo das Ciências das Religiões. Ela procura verificar através dos documentos bíblicos a ―experiência‖ não teológica, isto é, a manifestação religiosa da qual deriva e dá sentido à prática tão antiga e universal que é a lamentação. Portanto, ela se torna uma forma de expressão do fenômeno religioso em torno do antigo Oriente Próximo, do antigo Israel e de outras culturas que a utilizam como recurso sócio, religioso, cultural e literário.. 1.2 A LAMENTAÇÃO EM DOCUMENTOS RELIGIOSOS. A humanidade produziu textos e documentos que registram suas percepções religiosas, sua narrativa mítica de origem e suas práticas rituais; e assim o fez através de sua capacidade de comunicação escrita. O ser humano é capaz de utilizar a linguagem para perfazer suas relações3. A linguagem de um modo geral pretende ser organizada e organizadora das relações da humanidade com o sagrado. A linguagem religiosa pretende, através de símbolos4, estabelecer a relação com o sagrado5. O símbolos são ―eternos em sua mensagem e ilimitados em seu conteúdo‖6. ―As 3. Para Rosenstock-Huessy, existe a linguagem formal, genuína, a linguagem em si. Antes dela, os estudiosos concentram-se em perceber uma pré-linguagem formal. Depois dela, fala-se em linguagem informal. A linguagem informal é desleixada, a formal é organizada e organizadora. ROSENSTOCK-HUESSY, Eugene. A Origem da Linguagem. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.40. 4 ―O símbolo em seu significado primitivo era um signo de reconhecimento, por meio do qual o mundo tornava-se legível, traduzindo em termos de realidade objetos irreais, os quais constituíam pensamentos eternos. Tanto a imagem como o ícone ou o próprio símbolo constituem representações, porém a imagem ou ícone difere do símbolo, à medida que o símbolo tem um caráter de estar presente no interior do funcionamento social com um movimento afetivo dos seres humanos sobre uma mesma figura sintética [...] O símbolo sintetiza a histórias e as emoções de povo determinado e serve de alicerce, ainda, para a construção da própria cultura‖. Conforme: GOMES, Antônio M.; COLONHEZI, Laura. ―A Religião como Linguagem Simbólica: Aproximações entre Durkheim e Jung‖. Revista Ciências da Religião – História e Sociedade. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, n.1, v.3, 2005, p.225. 5 Os símbolos religiosos são a linguagens do mistério e atuam para dar significação à vida do ser humano e, portanto, ao simbolizar o sujeito está construindo uma representação sensível, ou seja, um significado. O simbolismo religioso serve de mediação entre a experiência individual e a experiência coletiva, universalizando a linguagem sagrada e possibilitando ao místico a participação na experiência transcendente primordial. GOMES, Antônio M.; COLONHEZI, Laura. ―A Religião como Linguagem Simbólica: Aproximações entre Durkheim e Jung‖. Revista Ciências da Religião – História e Sociedade. São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, n.1, v.3, 2005, p.230,231. 6 ―Símbolos assemelham-se a horizontes. Horizontes: onde se encontram eles? Quanto mais deles nos aproximamos, mais fogem de nós. E, no entanto, cercam-nos atrás, pelos lados, à frente. São o referencial do nosso caminhar. Há sempre os.
(22) 22. religiões empregam essas imagens simbólicas e as utilizam para se exprimir justamente porque o ser humano busca nelas, e por meio delas, a representação da totalidade da vida e o sentido da própria existência e do universo‖ (GOMES; COLONHEZI, 2005, p.227,228). A religião e seus símbolos fornecem caminhos para que os seres humanos se relacionem com seu mundo interior e exterior7. A linguagem religiosa escrita, por sua vez, reorganiza a estrutura simbólica e subjetiva de determinado grupo religioso e impede o surgimento de maus entendidos advindos de lógicas contrárias aos seus sistemas religiosos. Os documentos religiosos impedem a elucubração dialógica que descaracterizaria os componentes essenciais que definem tal grupo8. É na linguagem escrita que os componentes dos grupos são vinculados entre si e ela se torna um veiculo promotor de uma religião (PINTO, 2002, p.81-98). A literatura religiosa torna perceptível, no momento necessário (geralmente num ritual cúltico), a individualização e distinção do outro; e em outro momento, a identidade coletiva. A linguagem apresentada nos documentos religiosos aponta para o ideal de uma religião (BAUMANN, 2010). Os documentos sagrados de um grupo é que proporcionam uma observação do universo simbólico próprio de sua religião9. A literatura religiosa é uma das formas de comunicação que pretende influenciar o outro e seu ―[...] objetivo é sempre o convencimento dos ouvintes ou leitores a adotarem uma atitude ou comportamento ideal, de acordo com certos padrões religiosos já estabelecidos ou, ao contrário, como ocorre na profecia bíblica, novos‖ (MALANGA, 2005, p.31).. horizontes da noite e os horizontes da madrugada... As esperanças do ato pelo quais os homens criaram a cultura, presentes no seu próprio fracasso, são horizontes que nos indicam direções. E esta é a razão pela qual não podemos entender uma cultura quando nos detemos na contemplação dos seus triun fos técnico-práticos. Porque é justamente no ponto onde ele fracassou que brota o símbolo, testemunha das coisas ainda ausentes, saudade de coisas que ainda não nasceram [...]‖. ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Martins Fontes, 1991, p.22. 7 ―[...] E é aqui que surge a religião, teia de símbolos, rede de desejos, confissão da espera, horizonte dos horizontes, a mais fantástica e pretensiosa tentativa de transubstanciar a natureza [...] A religião se nos apresenta como um discurso, uma rede de símbolos. Com esses símbolos os homens discriminam objetos, tempos e espaços, construindo, com o seu auxílio, uma abobada sagrada com que recobrem o seu mundo. Talvez porque sem ela o mundo seja por demais frio e escuro. Com seus símbolos sagrados o homem exorciza o medo e constrói diques contra o caos‖. ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Martins Fontes, 1991, p.24. 8 Girard dividiu a simbologia da Bíblia, que é de nosso maior interesse na presente pesquisa, em quatro grupos ―ancorados cada um numa experiência humana fundamental e universal (manifestação divina, relação com o útero materno, hostilidade das forças do mal, aspiração à transcendência)‖. GIRARD, Marc. Os Símbolos Na Bíblia: Ensaio de Teologia Bíblica Enraizada na Experiência Humana Universal. São Paulo: Paulus, 1997, p.789. Porém, cada elemento simbólico na Bíblia Hebraica deve ser interpretada diferentemente, de acordo com o contexto em que se encontra. 9 Os textos sagrados ―são mais importantes para sacerdotes do que para leigos‖, porque a vida religiosa ―é mais abrangente do que apenas a doutrina e sua interpretação‖. Em outras palavras, nem sempre o texto sagrado reconhecido de uma comunidade irá proporcionar a última palavra acerca de sua religião, mas sim a sua prática derivada (ou não, no caso das chamadas religiões ―primitivas‖) deste texto reconhecido como definidor da vida religiosa. Isto é, a vida religiosa também pode ser perceptível através dos mitos, ritos e símbolos constituintes de determinado sistema religioso. Os documentos sagrados potencializam essa descoberta e envolvimento do pesquisador. GRESCHAT, Hans-Jürgen. O que é Ciência da Religião? São Paulo: Paulinas, 2005, p.63..
(23) 23. Em vários segmentos religiosos na história da humanidade atesta-se a presença de documentos religiosos. Onde são, por vezes, registrados a partir de tradições orais com a finalidade de responder às tensões externas ao meio e definir a identidade religiosa-cultural do grupo. O antigo Oriente Próximo testemunha essa produção literária de feitio religioso. O povo de Israel, sobremaneira, contribuiu com esta perspectiva legando o que chamamos de Bíblia Hebraica (a parcela que interessa nesta pesquisa). As tradições religiosas (por vezes, milenares) que produziram literatura (sacra) foram oralmente transmitidas e registradas para delimitar a identidade e status quo de determinada sociedade (GRESCHAT, 2005, p.49-57). Para o antigo Israel, a produção da Bíblia Hebraica, isto é, o seu conjunto oficial de textos sagrados, consistiu num longo período e passou por diversas etapas até a definição de um cânon oficial. Para Alter, a ―evidência dos textos sugere que o impulso literário no Israel antigo eram inextricáveis, de modo que para entender o segundo é preciso levar plenamente em conta o primeiro‖ (ALTER; KERMODE, 1997, p.29). Em outras palavras, o fenômeno literário em Israel está intimamente relacionado com sua religião. Segundo Rainer, podemos localizar intensa atividade editorial em Israel durante o período da monarquia e do exílio, épocas de tensões e ressignificações na compreensão da realidade para Israel (RAINER, 2003). Na época do exílio, principalmente, instaurou-se em Israel a necessidade de ressignificação de seu universo religioso. Os textos da Bíblia Hebraica interpretam e descrevem os eventos passados à luz de sua cosmovisão [presente] e, nesse contexto, os ―artefatos que refletem este contexto‖ (SMITH, 2006, p.36). A literatura sagrada de Israel é uma narrativa interpretada e ―suplementada‖ ao longo dos anos que retrata a memória religiosa do povo. É por meio da narrativa que Israel constrói sua compreensão da realidade: de Deus, de si, do indivíduo e do mundo (SMITH, 2006, p.190-203). Portanto, a Bíblia Hebraica é a fonte da qual nos aproximamos das lamentações. A textura na qual esses lamentos se apresentam é a poesia. Cerca de um terço de toda a Bíblia Hebraica é composto de poesia. Essa descoberta é de certo modo recente na história da pesquisa. Foi somente em 1753 que Robert Lowth (1710-1787), bispo da igreja Anglicana, influente professor de poesia e língua inglesa da Oxford University, chegou à conclusão de que certas partes da Bíblia Hebraica se tratavam de poesia. Seu livro Lectures on the Sacred Poetry of the Hebrews deu início aos estudos que envolvem a estrutura da poesia hebraica.
(24) 24. (LOWTH, 1815). Tal pesquisa já avançou bastante, mas ainda promove discussões e descobertas dos pesquisadores de diversas áreas do conhecimento10. A linguagem de lamentação, portanto, no contexto de nossa pesquisa pode ser acessada através da verificação e análise das fontes na qual esse tipo de linguagem se manifesta, isto é, a Bíblia Hebraica. Ou seja, é a partir da análise dos textos de lamentações neste conjunto literário sagrado da religião de Israel que analisamos as lamentações e, significativamente, as lamentações no livro de Jeremias.. 1.3 O FENÔMENO DA LAMENTAÇÃO. A prática da lamentação é uma experiência internacional ligado às tradições do antigo Oriente Próximo, anterior e além de Israel. Mas esta experiência perpassa toda e qualquer cultura, pois está vinculada à experiência religiosa do ser humano. O Israel que encontramos nas páginas da literatura canônica estava imbuído num universo maior que si mesmo. O Israel corporativo foi influenciado pelas culturas que encontrou no contexto geográfico e cultural em que se estabeleceu. Somente assim, eles puderam, mais tarde, influenciar outros com sua prática e literatura de lamentação. O pressuposto de que a lamentação é um fenômeno universal pode ser devidamente localizado entre as ciências humanas e das religiões porque: envolve a existência humana e suas relações, incluindo sua relação com o sagrado; e, demonstra que o sofrimento é universal, para além das diferenças culturais. O sofrimento humano possuí dimensões individuais e sociais. É resultado de diversos fatores como perdas, fracassos, doenças, morte, violências, medos, conflitos inter e intrapessoais. Em outras palavras, o sofrimento é parte integrante da vida. Os danos e perdas têm seu retrato tanto na configuração física e psicológica do ser, quanto na sua dinâmica social. As perdas provocam perplexidade e inconformidade à existência humana (GERSTENBERGER, 2007, p.7-16). Os sofredores ao longo da história, especialmente a história das religiões, recorriam à prática da lamentação para dar voz ao seu sofrimento; recorriam aos lamentos em diversos contextos para fazer algo quando não havia mais nada o que fazer. Através da lamentação, expressavam em liturgias, textos e canções as questões profundas e complexas da existência. 10. Consulte: ALTER, Robert. The Art of Biblical Poetry. New York: Basic Books, 1987; ALTER, Robert. ―As Características da Antiga Poesia Hebraica‖. In: ALTER, Robert; KERMODE, Frank. Guia literário da Bíblia. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997, p.653-666..
(25) 25. humana; e ao cantar suas injustiças expunham suas emoções dolorosas e perplexidades. Com isso, o sofredor não poderia acomodar-se diante da dor de suas perdas. Nos lamentos, as pessoas atestam que a vida não deveria ser do jeito que é. Elas têm a consciência do caos estabelecido em suas relações (com o mundo, com outros indivíduos, com o grupo humano de modo geral e com o sagrado, isto é, com Deus). Lamenta quem atesta sua finitude, fragmentação de ser e falta de sentido (CROATTO, 2010, p.41-46). Lamenta-se pela ausência. O lamento é realizado, segundo as palavras de Wolterstorff, por ―tudo o que poderia ter sido, e que nunca mais será‖ (2007, p.26). A prática da lamentação envolve a experiência humana/religiosa como tal. Considerando isso, a prática da lamentação constituí na interioridade humana o desejo (inato) de organização de seu universo e a possibilidade de esperança de salvação (CROATTO, 2010, p.46-48). Naturalmente estamos considerando como pressuposto básico o ser humano como ser inerentemente religioso, isto é, como homo religiosus (homem religioso) (ELIADE, 2008, p.170). Portanto, a lamentação pode ser uma experiência (hierofania) deste ser humano religioso com o mysterium (mistério, divindade, Deus) por causa da vivência inevitável do sofrimento. Como toda experiência religiosa, ela é constituída de: um universo simbólico peculiar ao lamentador e à coletividade no qual o individuo está incluso; e da possibilidade de relação com o sagrado para que o ser humano liberte-se da dor ao experimentar transcendência. Daí a importância da prática da lamentação estar voltada para o sagrado, que é o que acontece visivelmente na tradição judaico-cristã. A lamentação adentra aos limites das linguagens da experiência religiosa. Por isso, em uma dentre várias formas de lamentação, o sofredor ou suplicante realiza em um ato de contestação contra sua divindade, originada a partir do desconforto na relação de um ―eu/nós‖ com o ―Tu‖. Às vezes, esse tipo de lamentação não exige reverência, nem qualquer pomposidade litúrgica como vemos na presente pesquisa: os lamentos do livro de Jeremias são como desabafos perplexos de quem se sente humilhado pela própria divindade. Peterson (PETERSON, 2007, p.210) parafraseia Buber (BUBER, 1949, p.164,165) exemplificando essa relação conturbada que existe na experiência religiosa da lamentação: Ele, a quem e por meio de quem a palavra é falada, é uma pessoa no pleno sentido da palavra. Antes da palavra ser proferida por ela na linguagem humana, ela lhe é falada em outra linguagem, da qual é traduzida para a humana, para ele esta palavra é dirigida como ocorre de pessoa a pessoa. Com o propósito de falar ao homem, Deus deve tornar-se uma pessoa, mas para falar a ele, Deus deve torná-lo uma pessoa também... De todos os.
(26) 26. profetas israelitas, somente Jeremias ousou notar esta corajosa e devota vida de conversação do totalmente inferior para com o absolutamente superior – em tal medida que o homem aqui se torna uma pessoa. Todo relacionamento de fé israelita é dialogal; onde o diálogo atinge a sua mais pura forma. O homem pode falar e é autorizado a tal; se apenas ele falar verdadeiramente com Deus, não há nada que o homem não possa dizer a Ele.. A lamentação, como fenômeno humano-religioso que é, dá inteligibilidade ao caos existencial que o ser humano não pode e nem consegue viver, proporcionando através de sua prática a possibilidade de reestruturação da vida. Do ponto de vista fenomenológico, a lamentação retrata o universo do sofredor e suas convicções religiosas. Por isso, em nosso entendimento, o palco genuinamente religioso do antigo Israel torna-se paradigmático para identificação desta universalidade do lamento e do universo simbólico da linguagem de lamentação. Isso nos dará legitimidade para aproximarmos do tema dentro dos limites do livro de Jeremias. Toda lamentação tem um ―eu/nós‖ (implícito ou explícito) que sofre algum infortúnio causado por outrem (inimigos ou algo semelhante a isso como expressões simbólicas). Quem sofre é porque perdeu algo e encontra-se sem esperanças de restituições imediatas e equivalentes ao dano ocorrido. Para tanto, o lamento é o choro mais profundo da alma que procura sair da tragédia rumo à transformação. Ele dá o tom da interioridade nas palavras e das ações de quem tem fé mesmo sem esperanças evidentes ao seu redor. É uma experiência que preenche a lacuna entre as hesitações humanas de crer e descrer diante as desgraças da vida. Quem chora, lamenta para além de suas angústias e pode se tornar simpático em relação às feridas alheias. A prática da lamentação expande o universo interior do sofredor para além de si mesmo, tornando-o solidário às experiências dos solitários sofredores. O lamento de um encontra eco na experiência de outros. É isso que queremos ao nos envolver com a experiência de lamento do livro do profeta Jeremias; embora a lamentação seja, muitas vezes, de linguagem estritamente pessoal, ela tem identificação com o choro de outros que choram. Portanto, é algo voltado para o individuo em si, mas encontra sua expressão também no coletivo. Em suma, lamenta quem sofre. Isto faz com que a experiência do lamento seja universal. A presença de lamentações na literatura do mundo antigo é prova de que desde épocas remotas aguardava-se a salvação de seus ―deuses‖ por causa do sofrimento, ora causado pela própria degeneração da humanidade, ora causado por inimigos da vida e deturpadores do amor. Todavia, a lamentação atesta através da riqueza poética do individuo e.
(27) 27. de sua sociedade que é possível interagir com Deus mesmo quando não há nada o que fazer e nem dizer. Em outras palavras, a lamentação é o choro que atraí Deus, rememora a consciência da presença viva dele e expressa o clamor da alma sem formalidades mesmo na escuridão mais sombria das dificuldades da vida. A lamentação presente na sociedade e literatura do oriente médio, especialmente nas páginas das Escrituras hebraicas e cristãs é história e literatura, mas também o veredito de que a humanidade chora suas dores; chora diante de Deus, aguardando a intervenção salvadora do Senhor. A lamentação permite que o ser humano veja o mundo através das lágrimas, para então, ser possível ver coisas que se vêem com os olhos secos (WOLTERSTORFF, 2007, p.30).. 1.4 O LAMENTO ENTRE CULTURAS. A lamentação, como vimos, trata-se de um fenômeno universal, comum aos seres humanos. Fundamentalmente, ela surge a partir de um senso de perda. A linguagem na qual se expressa, isto é, o seu discurso, é particular. Normalmente, as expressões de lamento estão associadas às canções e à poesia. Elas são produto da alma de quem sofre. Cada qual em sua intensidade própria. O sofrimento humano perpassa as épocas, culturas e tradições. Principalmente, em culturas onde a violência e a exploração espreitam a vida. Os lamentos na tradição cultural do Antigo Oriente e do Israel bíblico, que são de interesse de nossa pesquisa, eram encontrados em forma de poesia, envolviam o culto e a comunidade, e chegam a nós através de seus textos sagrados. É interessante notar que além da literatura sagradas dos judeus, sabemos que o mundo greco-romano também atesta a presença de lamentações em seus textos e em sua mitologia. Os pesquisadores da literatura grega encontram e analisam os lamentos da Ilíada (PERKEEL, In: SUTER, 2008, 93-117): lamentos que falam de várias temáticas, como morte e assassinato, miséria e dor, etc. Suter identifica outras expressões de lamento são registradas nesta cultura, especificamente àquelas identificadas com a época micênica (SUTER, 2008, 258-280). A diferença que reside entre estes lamentos gregos e os salmos hebraicos é que estes são escritos para servir de funções artísticas somente ou para temática referente às boas e más escolhas da vida; enquanto aqueles além de retratar a situação vivencial de uma comunidade,.
(28) 28. também possui seus aspectos rituais e litúrgicos. Não obstante, os lamentos hebraicos nascem da experiência que passa da tradição oral para a escrita; os lamentos gregos nascem em forma de literatura. A literatura moderna também incluiu textos de lamentação e poesia de sofrimento. São textos que relatam determinadas situações culturais e locais. Podemos encontrar nos poemas de T.S. Eliot lamentos que descrevem desolações sociais e individuais. Através de seus personagens, Eliot expressa dramas poéticos em forma de lamentação. Um de seus poemas é considerado um grande lamento, com título em inglês ―The Waste Land‖ (Terra Desolada), datado de 1922. Neste poema percebem-se claramente algumas temáticas semelhantes aos lamentos dos profetas bíblicos, como: personificação da cidade, personificação da natureza, morte e sepultura, e imagens peculiares do seu tempo: fogo, afogamento, trovões e cenas apocalípticas (RION, 2006). Estas imagens, diga-se de passagem, são bem comuns para o homo religiosus (homem religioso)11. Antes de Eliot, Dostoiévski escreveu um livro que pode ser considerado um lamento: ―Crime e Castigo‖, publicado em 1866 na Rússia. Nesta obra ele lamenta a maldade humana representada pela soberba de Svidrigailov e Lujin (DOSTOIÉVSKI, 2002). É notório o lamento que o escritor transparece por uma sociedade injusta. Retrata a solidão humana de forma desesperadora, semelhante ao sofrimento dos salmistas. Ainda que sob a ideologia do existencialismo e com conexões religiosas, Dostoiéviski enfoca predominantemente o tema da salvação por meio do sofrimento. Alguns anos mais tarde, em ―Os Irmãos Karamazov‖ (1879) ele escreve que ―as lamentações só se acalmam roendo e dilacerando o coração. Uma dor assim não quer consolações, alimenta-se da idéia de ser inextinguível. As lamentações são apenas a necessidade de irritar cada vez mais a ferida‖ (DOSTOIÉVISKI, 2001, p.59). Atualmente, Lee tem se dedicado neste tipo de pesquisa da lamentação utilizando como ponto de partida de seus pressupostos os lamentos bíblicos. Ela entende que a literatura bíblica não deve ficar restrita somente as especulações acadêmicas, mas deve responder às questões relativas à vida humana. Lee entende que o lamento bíblico, essencialmente voltado para Deus, é um recurso elementar para as pessoas na contemporaneidade; para aqueles que anseiam dar voz ao seu sofrer, auto afirmar-se e encontrar esperança em meio às dificuldades sociais e individuais pertinentes à sua cultura12. 11. Segundo Croatto, o símbolo é a linguagem primordial da experiência religiosa. Veja mais sobre a configuração simbólica na experiência religiosa em: CROATTO, José S. As Linguagens da Experiência Religiosa: Uma Introdução à Fenomenologia da Religião. 3ª.ed. São Paulo: Paulinas, 2010, p.81-128. 12 Consulte as obras de Lee sobre o assunto: LEE, Nancy. Lyrics of Lament: From Tragedy to Transformation. Minneapolis: Fortress Press, 2010; e, LEE, Nancy. The Singers of Lamentations: Cities Under Siege From Ur to Jerusalem to Sarajevo. Leiden: Brill, 2002..
Outline
A lamentação entre os remanescentes
A lamentação entre os exilados
A lamentação nos ritos e liturgias do antigo Oriente Próximo
As lamentações fúnebres e as carpideiras do antigo Israel
A lamentação nos cultos de valor nacional
As lamentações individuais no Antigo Testamento
Desenvolvimento ou súplica
Contexto cúltico
Contexto composicional e autoria
O exílio babilônico e sua teologia
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Diante da afirmação acima podemos dizer que a identidade construída por diferentes tipos ou formas está sempre correlacionada e/ou engendrada a um contexto social, sendo a religião