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Academic year: 2021

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(1)UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL. RENAN MARCHESINI DE QUADROS SOUZA. OS PROCESSOS COMUNICACIONAIS DO MOVIMENTO PUNK NA DITADURA MILITAR. São Bernardo do Campo 2017.

(2) UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO ESCOLA DE COMUNICAÇÃO, EDUCAÇÃO E HUMANIDADES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO SOCIAL. RENAN MARCHESINI DE QUADROS SOUZA. OS PROCESSOS COMUNICACIONAIS DO MOVIMENTO PUNK NA DITADURA MILITAR. Dissertação apresentada em cumprimento parcial às exigências do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), para obtenção do título de Mestre. Orientador: Prof. Dr. José Salvador Faro.. São Bernardo do Campo 2017.

(3) FICHA CATALOGRÁFICA. So89m. Souza, Renan Marchesini de Quadros Os processos comunicacionais do movimento punk na ditadura militar / Renan Marchesini de Quadros Souza. 2017. 155 p.. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) --Escola de Comunicação, Educação e Humanidades da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2017. Orientação de: José Salvador Faro.. 1. Punks 2. Processos comunicacionais 3. Ditadura militar 4. Produção cultural I. Título. CDD 302.2.

(4) A dissertação de Mestrado, sob o título: Movimento Punk e seus processos comunicacionais nos anos da ditadura militar, elaborada por Renan Marchesini de Quadros Souza, defendida no dia 02 de outubro de 2017, tendo sido: ( ) Aprovada, mas deve incorporar nos exemplares definitivos modificações sugeridas pela banca examinadora, até 60 (sessenta) dias, a contar da defesa (X) Aprovada ( ) Aprovada com louvor, perante banca examinadora composta por: Prof.Dr.José Salvador Faro (orientador);. ___________________________________ Prof. Dr. José Salvador Faro (orientador). _____________________________________. _____________________________________. _____________________________________. Programa: Pós-Graduação em Comunicação Social Área de concentração: Processos Comunicacionais Linha de Pesquisa: Comunicação Midiática nas Interações Sociais.

(5) Dedico este trabalho Aos mestres Danilo Di Manno de Almeida e Fernando Vilar. E aos sempre punks Édson “Rédson” Lopes Pozzi e Antonio Carlos “Kid Vinil” Senefonte. (in memorian)..

(6) Agradecimento À CAPES e à Universidade Metodista de São Paulo, por possibilitarem a realização da presente pesquisa..

(7) AGRADECIMENTOS À Marli dos Santos, pelas conversas e esclarecimentos que ajudaram a entender a pós-graduação e o funcionamento do programa. À Cicília Peruzzo, pela sinceridade e carinho com os quais sempre me tratou. Ao Sebastião Squirra, pelas conversas que diminuíram a angústia. À professora Magali Cunha por aceitar minhas palhaçadas e piadas e, algumas vezes, até rir delas. Ao professor Herom Vargas, por mostrar a cada dia que é possível pesquisar e compreender o que se ama, no nosso caso, a música. E, a todos por me ajudarem ao longo do curso e da dissertação, indicando bibliografia, aconselhando-me nos percalços e momentos de dificuldade, além dos ensinamentos e explicações. Ao professor e orientador José Salvador Faro, por ter aceito ao projeto de pesquisa, que hoje, se materializa, graças às suas orientações. Por ter me mostrado os caminhos e o amor pela docência oferecendo a oportunidade de ministrar três oficinas de leitura, ocasiões em que pude descobrir minha paixão profissional. Aos ensinamentos e visão crítica que hoje muito me ajudam a entender a realidade e o cotidiano. Muito obrigado Faro, por tudo! Aos. colegas. do. Póscom. e. da. Cátedra. Unesco. pelas. angústias. compartilhadas, conversas e momentos de distração que ajudaram a aliviar a tensão, de algum modo. Ao Zé Geraldo, Carlos e Arthur (meu rei), eu sobrevivi! As galeras de Mauá, o tempo nos separa, mas as memórias nos unem (Fabs, Carlos, Lucas, Gui, Doug, Piruca, Brucin, Daltin, Felps, Biel, Rika, Vini, Rafa, Lukinhas, Joeybinho, Morcis, Bruno, Dani e Thaís). Ao pessoal das Oficinas por ter ido no primeiro dia e, incrivelmente, decidir aparecer nos outros, fazendo a coisa fluir! Obrigado! Agradeço também aos colegas de graduação Felipe Dótoli, Rafael Cabeça, Caio Latorre, Césão, Gui Escapacherri (por me arrastar para os rolês e coletivos punks/hardcore) e Pedro Fernandes da Silva (o único do começo ao fim). Ao Marcão (Diet), por te me ensinado tantas coisas acerca da nossa profissão. Por ter ajudado a realizar meu sonho, pelas diversas oportunidades, pelas conversas, e por todo apoio de sempre..

(8) Agradeço imensamente à Eclenir P. Ferraz, por documentar os quarenta anos do movimento punk paulista e, por gentilmente, ceder seu acervo sem o qual seria impossível a realização desse trabalho. Aos amigos que sempre se fazem presentes senão física, mental e virtualmente. Ao mestre Aílton Pessoa. Aos irmãos que a vida me deu Pah e Wil, o casal vinte. À minha família, pela paciência, compreensão e apoio. Minha mãe (Dona Solange) e meu pai (Sr. Dr. Rojão), por todos os rangos, apoio, conselhos, carinho e amor que me deram e me dão todos os dias ao longo da vida que me levaram até onde estou hoje. Ao meu irmão pelas brigas, porradas, brincadeiras, risadas e, por ser meu melhor amigo. À Camilla, por ter tirado meu irmão de casa e, por toda paciência que nunca teve (só para provocar). Aos meus tios e tias: Ary, Eunice, Joel, Saint Clair e Selma, que mesmo distantes se fazem presentes e sempre mandam beijos e abraços, tenho orgulho e sorte por ser da mesma família que vocês. A Márcia Lopes pelo carinho, compreensão e apoio. A minha filha Julhoca Minhoca, por me mostrar que a vida é mais simples do que eu sempre imaginei ser. E, à minha Nanda, por chamar a atenção quando preciso e pelos momentos de carinho quando necessário (e, enquanto você lia..., eu vi isso)..

(9) LISTA DE SIGLAS AI -5. Ato Institucional número 5. CBS. Columbia Broadcasting System. CD. Compact Disc. CGT. Confederação Geral dos Trabalhadores. CIA. Central de Inteligência Americana. CUT. Central Única dos Trabalhadores. DIY. Do It Yourself. DOI-CODI. Destacamento de Operações de Informação - Centro de Operações de Defesa Interna. DOPS. Departamento de Ordem Política e Social. EUA. Estados Unidos da América. FVM. Faça Você Mesmo. GBH. Grievous Bodily Harm. INTELSAT. Sistema Internacional de Satélites. LP. Longplay. LSD. Lysergsäurediethylamid (Ácido Lisérgico). MPB. Música Popular Brasileira. PM. Polícia Militar. POSCOM. Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social. SESC. Serviço Social do Comércio.

(10) LISTA DE FIGURAS Figura 1. Capa do disco “Secos & Molhados”, lançado em 1973. ............................. 71 Figura 2.Capa do disco “Made In Brazil, lançado em 1974. ...................................... 74 Figura 3. Capa do disco “Jack, o estripador”, lançado em 1976, pelo “Made in Brazil.” ....................................................................................................................... 75 Figura 4. Página do fanzine “Lixo Cultural”, n. 4,março de 1984............................... 92 Figura 5. Fanzine Vix Punk, n. 10, maio de 1982, com a matéria “o que são punks e os adolescentes” .................................................................................................... 93 Figura 6. Capa do Fanzine Vix Punk ......................................................................... 95 Figura 7. Roupas e postura estadunidense (The Ramones) ..................................... 99 Figura 8. Roupas e postura britânica do grupo GBH – Grievous Bodily Harm (em tradução livre, Dano Físico Grave) .......................................................................... 100 Figura 9. Punks no Sesc Fábrica Pompéia,São Paulo ............................................ 101 Figura 10. Punks reunidos em lugar não identificado de São Paulo ....................... 102 Figura 11. Foto do vocalista da banda “Ratos de Porão” e um punk exibindo as costas de sua jaqueta ............................................................................................. 104 Figura 12. Flyer de festival punk e, em destaque a frase ao final do impresso: “Punk – destrua o fascismo” .................................................................................... 105 Figura 13. Ensaio de banda punk paulista .............................................................. 106 Figura 14. Apresentação da banda “Ratos de Porão”, na casa de show Napalm, em São Paulo. ......................................................................................................... 107 Figura 15. Alguns amigos punks conversando em uma rua da cidade de São Paulo ....................................................................................................................... 109 Figura 16. “Roda de pogo” no festival “O Começo do Fim do Mundo” realizado no Sesc Fábrica, no bairro da Pompéia, São Paul ....................................................... 110 Figura 17. Roda de pogo em show punk paulista ................................................... 111 Figura 18. Mauricinho, então vocalista da banda “Inocentes”, borrando as fronteiras entre banda e público, algo comum nos shows punks ............................ 113 Figura 19. O punk Vitor, mais conhecido como Morto, sobe no palco em show da banda “Ratos de Porão”, suas calças são remendadas e o cabelo do guitarrista Jão (de cor verde) ................................................................................................... 113 Figura 20. Capa do disco Grito Suburbano ............................................................. 122 Figura 21. Contracapa do disco “Grito Suburbano” ................................................. 123 Figura 22. Capa do disco “O começo do fim do mundo” ......................................... 127 Figura 23. Contracapa do disco “O começo do fim do mundo” ............................... 128 Figura 24. Pôster, flyer e encarte do disco referente ao festival punk “O começo do fim do mundo”, no SESC Fábrica, Pompéia,SP ................................................. 129 Figura 25. Capa da coletânea Sub .......................................................................... 132 Figura 26. Contracapa da coletânea Sub ................................................................ 133.

(11) SUMÁRIO RESUMO................................................................................................................... 12 ABSTRACT............................................................................................................... 13 RESUMEN ................................................................................................................ 14 INTRODUÇÃO .......................................................................................................... 16 CAPÍTULO 1. ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO PUNK: DE 1930 A 1970......... 21 1.1 LITERATURA E MÚSICA, OS MOVIMENTOS DE CONTRACULTURA ............ 21 1.2 A GERAÇÃO BEAT E O FIM DA DÉCADA DE 50 .............................................. 25 1.3 O RENASCIMENTO DA MÚSICA FOLK............................................................. 29 1.4 GAROTOS DE LIVERPOOL ............................................................................... 31 1.5 A ERA DOS FESTIVAIS - ALTAMONT E WOODSTOCK ................................... 33 1.6 JIMI HENDRIX E JANIS JOPLIN ....................................................................... 36 1.7 DIREITOS CIVIS – O PACIFISMO ...................................................................... 37 1.8 A FÚRIA NEGRA ................................................................................................ 40 1.9 O CINEMA E O MEIO ARTÍSTICO, A PARTIR DOS ANOS 60 .......................... 43 1.9.1 DIRTY LENNY .................................................................................................. 44 1.9.2 CINEMA CONTRA OS PADRÕES ................................................................... 44 1.10 ROCK DE GARAGEM ....................................................................................... 47 1.10.1 DO TÉDIO E DA FALTA DE PERSPECTIVA SURGIU O PUNK ................... 49 CAPÍTULO 2. NUM PAÍS TROPICAL ...................................................................... 54 2.1 ENQUANTO ISSO, NO BRASIL ......................................................................... 54 2.2 A ERA JK ............................................................................................................ 56 2.3 DE JÂNIO A JANGO ........................................................................................... 59 2.4 GOLPE E DITADURA MILITAR .......................................................................... 60 2.5 ROCK NO BRASIL - A JOVEM GUARDA ........................................................... 63 2.6 PUNK À PAULISTA ............................................................................................. 77 2.6.1 AS CARACTERÍSTICAS DO MOVIMENTO PUNK BRASILEIRO ................... 79 CAPÍTULO 3. MOVIMENTO PUNK E O FAÇA VOCÊ MESMO COMO PROCESSO COMUNICACIONAL ............................................................................ 85 3.1 O FAÇA VOCÊ MESMO: DESENVOLVENDO UM MODELO ALTERNATIVO DE PRODUÇÃO E DISTRIBUIÇÃO DE BENS CULTURAIS E COMUNICACIONAIS ................................................................................................ 85 3.2 FANZINES........................................................................................................... 89 3.3 O IMAGÉTICO PUNK: UMA FORMA DE COMUNICAÇÃO................................ 97 3.4 A PERFORMANCE: O GESTUAL E O VOCAL PUNK...................................... 110.

(12) 3.5 OS DISCOS E COMPOSIÇÕES: LETRA E MÚSICA ....................................... 116 3.6 GRITO SUBURBANO ....................................................................................... 119 3.7 O COMEÇO DO FIM DO MUNDO .................................................................... 124 3.8 SUB ................................................................................................................... 131 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................... 138 REFERÊNCIAS ....................................................................................................... 144 ANEXO .................................................................................................................. 152.

(13) 12. RESUMO QUADROS SOUZA, Renan Marchesini de. Os processos comunicacionais do movimento punk na ditadura militar. 2017. 155f. Dissertação de Mestrado em Comunicação Social – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo. Esta pesquisa tem como objetivo identificar quais formas de comunicação o movimento punk utilizou para difundir e lutar por seus ideais, no período final da ditadura militar (1977-1985). Discute-se aqui a história do surgimento do punk nos Estados Unidos e na Inglaterra (países berços do punk), sua repercussão e, especificamente, seu desenvolvimento na cidade de São Paulo e região do Grande ABC. Busca também identificar a importante produção cultural do movimento punk, por meio do faça você mesmo, assim como seu significado enquanto conjunto de processos comunicacionais que se contrapôs à cultura hegemônica. Para isso, foi realizada a análise da produção material do movimento punk, por meio de músicas, discos, fanzines e corpo (entendendo como corpo: a voz, performance, roupas, comportamento, postura e atitude).Para essa discussão foram utilizados referenciais teóricos, com destaque, para os Estudos Culturais, a Semiótica da Cultura, as teorias dos movimentos sociais e a literatura musical, tendo como foco o punk rock. Conclui-se que o movimento punk realizou seus protestos voltados, sobretudo ao período da ditadura militar, fazendo uso de formas alternativas de comunicação. Palavras-chave: Movimento Punk; Processos Comunicacionais; Ditadura Militar; Produção cultural..

(14) 13. ABSTRACT QUADROS SOUZA, Renan Marchesini de. The Comunication process of the punk movement along the military dictatorship. 2017.155f. Dissertação de Mestrado em Comunicação Social – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo. This research aims to think about the cultural impacts of the punk movement in São Paulo, through the final period of the military dictatorship (1977 - 1985). Looking to identify under which communication forms, the movement used to spread and fight for his ideals, in a period when they were repressed furiously. Debating the history of the punk movement in the world and his repercussion and, specifically, his development in São Paulo and the ABC area. Whereas the cultural impacts the movement had in the Brazilian and São Paulo society, the ways of resistance they applied, as like possible clashes that had been stablished with the militaries and the hegemonic culture at the period. For this discussion were used as references theorists, the cultural studies, the semiotic of culture, the theories of social movements and the musical literature, with focus the punk rock. This research can/may identify the value of the cultural production of the punk movement using the model do it yourself, just as its significances while a set of communication process that counterpoint to the hegemonic culture impose at the period. Keywords: Punk Movement; Comunication; Military Dictatorship; Cultural production..

(15) 14. RESUMEN QUADROS SOUZA, Renan Marchesini de. Movimiento punk y sus processos comunicacionales en los años de la dictadura militar.2017.155f. Dissertação de Mestrado em Comunicação Social – Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo. Esta investigación tiene como finalidade reflectar a respecto de los impactos culturales del movimiento punk en São Paulo, durante el período final de la dictadura militar (1977 - 1985). Se busca identificar en qué formas de comunicación, el movimiento utilizó para difundir y luchar por sus ideales, en un período en que fueron duramente reprimidos. Se discute la historia del surgimento del movimiento punk en el mundo y su repercusión y, especificamente, su desarrollo en la ciudad de São Paulo y en la región del gran ABC. Se complementa considerando los impactos culturales que el movimiento ha tenido en la sociedad brasileña y paulista, las formas de resistência que utilizaron, así como, los posibles choques que se establecieron con lo régimen militar y la cultura hegemónica en el período indicado. Para esa discusión se han utilizados como referenciales teóricos los estúdios culturales, la semiótica de la cultura, las teorias de los movimientos sociales y la literatura musical, teniendo como foco el punk rock. Esta investigación puede identificar la importante producción cultural del movimiento punk por medio del modelo hágalo usted mismo, así como su significado como conjunto de procesos comunicacionales que se contrapusieron a la cultura hegemónica impuesta en el período de la dictadura militar. Palabras-clave: Movimiento punk; Comunicación; Dictadura militar; Producción cultural..

(16) 15. Eu estive em uma caminhada sem fim, acreditava em milagres pois eu era um, fui abençoado com o poder de sobreviver, depois de tantos anos e eu continuo vivo [...] Eu acredito em milagres, eu acredito em um mundo melhor, para mim e para você. (I BELIVE IN MIRACLES - RAMONES).. Eles dizem que você é doente e que isso é fase adolescente, mas não, não vá se entregar. Gostaria de te ajudar, gostaria de te entender, porque você! Você é alguém! Puta mundo desumano, crueldades. Se de um lado te humilham, pelo outro vão bater! (ADOLESCENTES – CÓLERA ).. Oi, tudo bem? Tudo Bem... Fora o tédio que me consome, todas as 24 horas do dia, fora a decepção de ontem a decepção de hoje, e a desesperança crônica no amanhã, tenho vontade de chorar, raiva de não poder, quero gritar até ficar rouco, quero gritar até ficar louco, isso sem contar com a ânsia de vômito, reação a tal pergunta idiota. [...] Fora tudo isso, tudo bem. (OI! TUDO BEM? GAROTOS PODRES)..

(17) 16. INTRODUÇÃO Quando ingressei no programa de pós-graduação da Universidade Metodista de São Paulo, sabia que queria pesquisar o punk como comunicação, mas ainda não tinha certeza sobre como abordar o tema. À medida que frequentava as aulas, lia os textos indicados, participava de reuniões, simpósios, congressos e de eventos, passei a compreender melhor o tipo de pesquisa que gostaria de fazer e vislumbrei um caminho para realizá-la. Desta forma, o trabalho tem um corpus teórico baseado (em sua maioria) nas disciplinas oferecidas no PÓSCOM (Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social), com as quais pude relacionar meu tema, como por exemplo: cotidiano, comunicação comunitária dos movimentos populares, cidadania e sociabilidade, estudos culturais, indústria cultural e semiótica da cultura. Não enquadraria a pesquisa, exclusivamente, em nenhuma das teorias, mas acredito que este estudo resulta dos diálogos estabelecidos entre as diversas abordagens que se complementam, tratadas no conjunto de matérias e textos sobre os quais me debrucei nos últimos dois anos. Desde minha adolescência fui atraído pelo rock, não somente pela música, mas pela postura, atitude, questionamentos, letras, história e contextos políticos, sociais e econômicos (não somente das bandas, mas a história do rock em dimensões sociais, políticas, mas principalmente, culturais). Além do rock, sempre fui fascinado pelas histórias de resistência, por aqueles pequenos grupos contrahegemônicos, que lutaram contra um poder estabelecido, a autoridade ou contra a repressão, justamente por aceitaram o desafio de lutar contra um status-quo, não só político, mas econômico, social e cultural. O punk no Brasil, desde seu início, foi uma mescla dos dois, do rock e da resistência. As letras que abordam o cotidiano da periferia das cidades e as angústias dos adolescentes, as roupas e comportamento fortes e agressivos que rompiam estéticas anteriores, o som visceral, mesmo gravado com poucos recursos, é intenso, e para quem partilha das mesmas angústias, do incômodo, da fúria, da agressividade e da náusea (no sentido Sartriano), o som atinge níveis profundos..

(18) 17. Ao longo dos últimos anos fui me constituindo um pesquisador informal e assíduo leitor de revistas e livros sobre música e política, além de literatura geral, lia diversos assuntos sobre rock e acerca da ditadura militar que destruiu e torturou nosso país, de 1964 a 1985. O ponto de partida dessa pesquisa surgiu de um questionamento pessoal, qual seja, de como os punks construíram um movimento em uma época em que pequenas aglomerações eram duramente reprimidas pelo regime militar? Respostas a essa pergunta surgiam de forma fragmentada, o que me deixava ainda mais ávido a entender, principalmente, como o movimento fez de seus símbolos e produções uma forma de comunicação? Com o intuito de responder aos pontos centrais ora levantados, o presente estudo vale-se, inicialmente, de pesquisa teórico-conceitual com base em levantamento bibliográfico sobre o tema em questão, incluindo contribuições de autores que versam sobre teorias da comunicação. Complementa-se esta investigação com a análise documental e de imagens, dados obtidos na literatura específica e em bases de dados nacionais e internacionais. Para a realização das análises propostas toma-se como referencial teórico, as contribuições de: Cicília Maria K. Peruzzo e Maria da Glória Gohn, e suas obras Comunicação nos movimentos populares: a participação na construção da cidadania e História dos movimentos e lutas sociais: a construção da cidadania dos brasileiros, respectivamente no que tange aos fanzines. Na abordagem das roupas e postura, estudo de símbolos e performance, tem-se como referência os estudos de Douglas Kellner, em sua obra A cultura da mídia; de Norval Baitello Júnior, A era da iconografia, bem como textos do professor Herom Vargas. No que concerne à análise de identidade gerada pelo e para o movimento punk e sua globalização adota-se como referência as obras de Stuart Hall e Nestor Garcia Canclini. O faça você mesmo conseguiu constituir-se como alternativa à indústria cultural e ao mercado capitalista de bens de consumo, conferindo materialidade à expressão cultural dos grupos Punks ao difundir seus ideais? Tal questionamento inicial e outros permitiram lançar no presente estudo, a seguinte questão problematizadora:.

(19) 18. Em que medida o Punk constituiu-se como movimento alternativo nos anos 1970 e 80 e rompeu com os paradigmas estéticos e musicais hegemônicos? Para tanto, este estudo tem como objetivo geral: Abordar o movimento punk na cidade de São Paulo e na região do ABC paulista e suas formas de comunicação, além de considerar os possíveis embates travados com as forças hegemônicas, durante o período da Ditadura Militar, no Brasil, com foco no final da década de 1970 e início da década de 1980. Segue-se como objetivo específico: Identificar elementos que justificam como e porque os adeptos a esse movimento criaram sua própria cultura e identidade, como forma de contraposição à ideia de uma identidade nacional (Hall, 2005) padronizada. Segundo Hall (2005), As culturas nacionais, ao produzir sentidos sobre "a nação", sentidos com os quais podemos nos identificar, constroem identidades. Esses sentidos estão contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que conectam seu presente com o passado e imagens que dela são construídas. (HALL, 2005, p. 51).. O movimento punk representa a ponta de um amplo iceberg. Mais claramente, por meio dessa analogia, se quer afirmar que a ponta de um iceberg é uma pequena parte de algo mais amplo e complexo, que no caso em estudo, é a contracultura ou a cultura alternativa e seu surgimento, como processo histórico e social. Sua constituição deve-se aos fatos, grupos, movimentos culturais e artísticos que se desenvolveram no século XX e influenciaram no surgimento e consolidação do movimento punk. A contracultura não se encerra no punk; como dito anteriormente, o punk é apenas uma de suas formas de expressão. Para compreensão ampliada do movimento e sua produção cultural analisase no terceiro capítulo alguns fanzines selecionados, segundo critérios de época e de disponibilidade; três álbuns musicais; o corpo do punk constituído por roupas, postura, atitude e comportamento, analisados em fotos, documentários, entrevistas, material disponível na web, de acervo pessoal e cedido por particulares aos pesquisador, os quais constituíram-se em objetos de análise fundamental para.

(20) 19. compreender parte dos processos comunicacionais dos Punks. O material analisado marca o início do punk em São Paulo e indica o caráter comunitário e de união de algumas facções do movimento paulista. A escolha dos álbuns se fez por relevância, além de serem os primeiros registros da música punk no Brasil, tem importância no movimento, não só brasileiro, mas também mundial. O disco Grito Suburbano é o primeiro registro do estilo no país, além disso, a capa repleta de recortes revela parte importante na estética punk. O disco conta com a participação de três bandas - Cólera, Olho Seco e Inocentes - que apresentam doze músicas, quatro de cada conjunto e uma duração total de dezenove minutos e trinta e três segundos. Os punks de São Paulo e do ABC viviam uma rivalidade (melhor explicada no capítulo II e III) e, cansados das brigas, no final de 1982 organizaram um festival no SESC Pompéia (também conhecido como SESC fábrica), que teve duração de dois dias. Para esse evento foram convidadas vinte bandas punks, com um cachê para cada banda de participação com gravação de uma música, em um longplay (LP). O referido disco foi lançado um ano após o festival, com o mesmo título do evento. Em sua capa, também diversos recortes traziam a arte e a estética moldadas pelo movimento. Apesar de o festival contar com vinte bandas, no disco apenas 19 (dezenove) músicas foram gravadas, uma vez que a banda Ulster recusou ter sua música gravada, isto porque acreditava ter sido prejudicada pela organização e pelos equipamentos do evento (segundo a banda, a gravação não faria jus ao que desejava apresentar). Já o disco SUB, lançado em 1983, pelos Estúdios Vermelhos, do vocalista e guitarrista da banda Cólera, contou com outras três bandas (Ratos de Porão, Psykoze e Fogo Cruzado). O disco deveria ter sido o primeiro registro de uma banda só, mas, como Rédson sempre teve a ideia de coletividade e do movimento se autogerir e auto ajudar, convidou duas bandas que queriam gravar também. Para tanto, os custos foram divididos com o grupo Psykoze e o Fogo Cruzado. Por sua vez, a banda Ratos de Porão, mesmo não tendo participado dos custos do disco, deveria ser incluída, por constituir-se em um grupo relevante na época e pela condição de amizade mantida com os demais..

(21) 20. Uma vez delimitados os pontos de investigação dessa temática, propõe-se no presente estudo, a estruturação desta investigação em três capítulos, assim constituídos: O primeiro capítulo – Antecedentes históricos do Punk: de 1930 a 1970 contempla um histórico do surgimento do punk nos Estados Unidos e na Inglaterra, países responsáveis pelo embrião do estilo. No segundo capítulo - Num país tropical - recupera-se o panorama histórico que levou o punk a eclodir no Brasil e, finalmente tornar-se um movimento cultural que incomodou a ditadura militar, principalmente em contraposição aos hábitos e costumes padronizados. O terceiro capítulo – Movimento Punk e o Faça você mesmo como processos comunicacionais - reserva-se a apresentar a pesquisa documental e de imagens, examinadas à luz das teorias da comunicação que contribuem como referenciais para a compreensão dos processos comunicacionais de contraposição à cultura hegemônica desenvolvida pelo movimento punk. Ainda neste capítulo, incluem-se análises do movimento, considerando a atitude, o comportamento, as roupas, a postura, a estética punk e a agressividade, situações expressas também por meio de materiais produzidos pelos próprios punks, como fanzines, trajes e discos, constituindo o denominado movimento faça você mesmo. Nas Considerações finais ao concatenar os diversos aspectos históricos com o fim de compreender o surgimento e o desenvolvimento do punk enquanto movimento mundial e, especificamente no Brasil, buscamos ressaltar a importância desse processo na medida em que ao constituir-se, parece apropriar-se de aspectos diversos dos acontecimentos que o antecederam. Complementamos apontando também as mudanças ocorridas no pós-surgimento do movimento punk e o impacto por ele provocado na realidade social..

(22) 21. Capítulo 1. ANTECEDENTES HISTÓRICOS DO PUNK: de 1930 a 1970 Desde seu início, a contracultura ou cultura alternativa tem sido um processo constante na sociedade. Para tanto, apresenta-se breve histórico desse tipo de expressão cultural buscando a ambientação e a fomentação daquilo que fez o movimento punk eclodir nas ruas de São Paulo e do ABC paulista. Com este intuito, o capítulo versa sobre o período compreendido pelas décadas de 30, 40, 50, 60 e início dos anos 70, do século passado, com ênfase nos Estados Unidos e Inglaterra, locais considerados “berços” dos movimentos de cultura alternativa que influenciaram e culminaram com o surgimento do movimento punk. 1.1 Literatura e Música, os movimentos de contracultura Considera-se como ponto de partida para a retrospectiva histórica sobre a contracultura, denominada lost generation (geração perdida), as produções de um grupo de escritores, no período entre primeira e segunda grande guerra mundial, que apontavam o exaurir da crença em valores tradicionais. Um dos maiores expoentes foi Ernest Hemingway1. O escritor desenvolveu um novo estilo literário, tanto para suas matérias e colunas, quanto para contos e livros factuais ou ficcionais. Em entrevista concedida ao portal Uol, o escritor brasileiro Hélio Pólvora discorreu sobre o novo estilo inaugurado por Hemingway, afirmando que: [...] Ele foi o corifeu dos que procuram a palavra exata, sem adorno a palavra capaz de resumir situações e temperamentos. Escreveu com simplicidade - mas uma simplicidade enganosa, produto de despojamento e depuração. Fez literatura superior, na medida em que, em vez de descrever ações e sentimentos de personagens, deixou-os transparecer no que eles diziam e, sobretudo, no que faziam, na maneira como reagiam à vida (Informação verbal). 2. Seu tipo de narrativa pungente seria copiada e influenciaria diversos outros escritores. Enquanto Hemingway escrevia sobre a guerra Civil Espanhola, na Suíça, A este respeito é interessante ler o artigo Sonhos e ilusões de uma geração perdida – o romance norte-americano entre as duas guerras de Eduardo Jorge da Silva Ribeiro.Disponível em: https://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/21924/2/eduardoribeirohumanidades3000090452.pdf. Acesso em: 29 mar.2016. 2 Entrevista de Hélio Pólvora concedida ao Portal UOL e reproduzida em Castro Jr, 2013. 1.

(23) 22. em 1938, o cientista Albert Hofmann, descobria Lysergsäurediethylamid, também conhecido como Ácido Lisérgico, ou LSD, que teria papel fundamental na cultura dos anos 60. O romancista estadunidense John Fante, por meio de seu alter-ego, Arturo Bandini, escreveu Espere a Primavera Bandini (1938) e Pergunte ao Pó (1939), nos quais descreveu a realidade de ser um escritor amador no período pós-grande depressão americana e pré-segunda guerra mundial. O personagem tenta publicar para receber e poder comer alguma coisa, além das frutas. Fante escreveu de forma ácida, demonstrando posições ateístas: Aqui estava a Igreja de Nossa Senhora, muito antiga, a argila escurecida pela idade. Por motivos sentimentais apenas. Não li Lenin, mas o ouvi citado: a religião é o ópio do povo. Falando comigo mesmo nos degraus da igreja: sim, o ópio do povo. Quanto a mim, sou ateu: li O Anticristo e o considero uma obra capital. Acredito na transposição de valores, cavalheiro. A Igreja precisa acabar, é o refúgio da burroguesia, de bobos e brutos e de todos os baratos charlatões. (FANTE, 2009, p. 24).. Ao longo das referidas obras, o autor descreve algumas experiências com drogas e exacerbação do álcool, além do envolvimento com mulheres, algumas brigas, fome, suicídio, e diversas outras questões que se antagonizam a qualquer modelo conservador de prosa. Obviamente que sua escrita confrontava os padrões e a tradicional burguesia americana. Durante a guerra, os jovens tiveram que sair do país para enfrentar os nazistas na Europa. Muitas famílias americanas ficaram tentando entender a perda do pai, do irmão, dos primos, etc., a guerra se fazia, cada vez mais presente. Do ponto de vista econômico, a guerra ampliava o nível de industrialização estadunidense, processo que não se verificou nos países periféricos. Os países envolvidos, considerados de primeiro mundo, começaram uma corrida por apoio. Logo os Estados Unidos ofereceram uma usina hidrelétrica para Getúlio Vargas, como abordado no capítulo II..

(24) 23. Ao longo deste período, na América do Norte, devido principalmente ao final da guerra e início da guerra fria3, a industrialização e a modernização foram aceleradas. O American way of life começou a se consolidar como padrão. Nesse cenário a música tornou-se agente catalisador da contracultura influenciando até mesmo escritores e pintores. O Jazz começou a impor mudanças. Público e músicos não queriam mais o padrão “encaixotado”, da forma como estava estipulado nas partituras. A industrialização permitiu o barateamento dos instrumentos musicais. As pessoas comuns passaram a ter condições de comprá-los e a eles se dedicar. Em sua maioria os negros, que se recusavam a trabalhar por valores monetários irrisórios em serviços de baixo escalão. Dessa forma, surgiram os grandes músicos de jazz, difundindo um estilo musical fortemente técnico e sofisticado. Alguns dos baluartes foram: Jelly Roll Morton e Earl "Fats" Hines; Louis Armstrong e Bessie Smith, entre outros. Os três últimos passaram a tocar para os brancos, frequentando clubes e casas comerciais que produziam grandes shows. Em curto espaço de tempo tiveram ampliadas as demandas junto a esse público. E assim, o jazz perdeu gradativamente seu caráter de transformação, tornando-se mais um entretenimento da classe média e um bem de consumo cultural vendável. No início da década de 1940, os EUA entraram na guerra e o jazz começou a mudar seu estilo para tornarse mais rápido e complexo, como afirma Pellegrini (2004): Em termos musicais, o bebop contém uma estrutura cuja música se inicia com a execução de um tema curto, geralmente repleto de contrapontos, abre espaço para todos os instrumentos do combo (sejam eles do front line ou não) executarem seus solos ou dialogarem no compasso 4/4 e finaliza com a volta ao tema. Com o bebop, o músico passou a tocar mais livremente, impondo uma expressão toda pessoal à sua participação no grupo e estabelecendo um novo tipo de diálogo com os demais instrumentos. (PELLEGRINI, 2004, p.106).. 3. A Guerra Fria foi uma disputa pela superioridade mundial entre Estados Unidos e União Soviética após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). É chamada de Guerra Fria por ser uma intensa guerra econômica, diplomática e ideológica travada pela conquista de zonas de influência. A disputa dividiu o mundo em blocos de influência das duas superpotências e provocou uma corrida armamentista que se estendeu por 40 anos. Disponível em: http://www.sohistoria.com.br/resumos/guerrafria.php Acesso em: 09 mar.2016..

(25) 24. Dizzy Gillespie mudou o jazz e cunhou pela primeira vez o termo bebop. Um estilo mais complexo, mais rápido, visceral e natural de tocar. O jazz clássico mantinha-se na mesma nota e as escalas usadas obedeciam ao padrão musical4. O bebop, por sua vez, quebrou esse padrão, causando intencional e deliberadamente choques, usando notas que destoavam do tom principal da música. Alguns músicos logo se converteram ao bebop, como: Miles Davis, trompetista, o saxofonista John Coltrane e o pianista Thelonious Monk. Porém, entre o grupo de músicos houve um que mais se destacou – Charlie Parker. O novo jazz de Charlie Parker, com sua sonoridade áspera, suas frases retorcidas, sua harmonia exótica e sua improvisação. O jazz criado pelo negro que permaneceu marginal na sociedade americana, mesmo na opulência. (MACIEL, 1978, p. 31).. Charlie "The Yardbird" Parker, ou "Bird" (pássaro) surgiu com consciência de sua música e de seus interesses. Sabia da revolução que poderia promover por intermédio de seu saxofone, de sua sensibilidade, ousadia, da intuição criativa única. Parker tornou-se o principal músico dessa nova linguagem do jazz. As inovações harmônicas, rítmicas, as durações das notas, as pausas, a criatividade e técnica para o improviso determinam o bebop. Bird transmitia por meio do sax e do jazz: paixões e alegrias, medos, angústias e conflitos causados pelo estilo de vida do jazz - estrada, mulheres, drogas, ensaios e álcool. Tudo em excesso, foi uma combinação fatal que levou o pássaro a alçar um voo meteórico, porém curto. Segundo Hobsbawm (2012), Existem histórias de vidas inteiras nesse meio, como a do primeiro e maior de todos os modernos, e talvez único gênio dentre eles, Charlie “Yardbird” Parker, que trazem a horripilância da inevitabilidade contra a qual nada se pode fazer, dos lobos solitários na cultura romântica moderna. Não houve mais prazer ou sucesso na vida de Parker do que na de Van Gogh, embora seu talento tenha sido mais prontamente apreciado. Havia simplesmente uma total incapacidade de chegar a um acordo com o mundo, e a compulsão de tocar o que tinha de ser tocado, em face do mundo. O artista se tornou uma besta selvagem que, por definição, está sempre enjaulada, pois qualquer sociedade imaginável se configura uma prisão para ela. (HOBSBAWM, 2012, p. 280).. 4. Por exemplo, se a música fosse em dó, o improviso e os solos seriam sempre em escalas que combinam com a tonalidade da música, ou seja, com o dó; o jazz convencional não causava tensão nem choque das notas musicais..

(26) 25. Em 1953 foi lançado O Selvagem que trazia como ator principal, o galã Marlon Brando interpretando o líder de uma gangue de motociclistas, Johnny Strabler - destemido e ouvinte do bebop -, e dessa forma mostrava o novo padrão comportamental da juventude. Além de Brando, James Dean também trouxe esse novo padrão. 1.2 A Geração Beat e o fim da década de 50 Nessa mesma época, estudantes tiveram contato com a esquerda, com o existencialismo e a literatura. Interessados nesse novo modo de vida passaram a adotar uma postura crítica e pessimista. O otimismo pós-guerra, começou a ser confrontado pelo pessimismo da guerra fria. Os jovens passaram a confrontar os pais. Houve o surgimento de gangues, que se vestiam da mesma forma de Dean e Brando, com jaquetas de couro e botas, mascavam chicletes e usavam gel nos cabelos, faziam viagens, ouviam jazz, usavam drogas e alguns desenvolviam comportamentos homossexuais. Esses estudantes precisavam se expressar, mas não tocavam como os músicos que admiravam e, por esta razão se deslocaram para a escrita, como caminho mais barato e acessível. Assim é que segundo Santos (2012), Já no fim da década de 1940, alguns jovens se reuniram e compuseram um cenário artístico fora dos grandes eventos culturais da época, adotando, ao mesmo tempo, os ideais existencialistas dos boêmios parisienses e o comportamento hipster. A esse grupo foi dado o nome de geração beat. Os beats, jovens inconformados e interessados por artes, demonstravam gosto pela leitura, o que os tornaria escritores e críticos. Acostumados ao submundo das ruas, sua literatura trata de temas como filosofia, drogas, homossexualismo, política, etc. Nos Estados Unidos da década de 1950 foram os beats que assumiram o controle da cena underground. Por meio da literatura e da música, desenvolveram nas artes características peculiares, tanto no que diz respeito à forma quanto ao conteúdo de suas produções. (SANTOS, 2012, p.46).. Alguns escritores, inspirados no jazz de Charlie Parker, escreviam de forma livre, improvisada, sem corrigir, ou revisar textos longos e poesias herméticas. Destaca-se Allen Ginsberg que deixou seu texto fluido como se fosse um improviso de jazz, o escreveu de uma vez, em uma folha de rolo e por diversas páginas discorreu Howl (O Uivo). Dedicado a Carl Solomon, seu parceiro de hospício,.

(27) 26. Ginsberg narrou em seu poema diversas angústias vividas pelos jovens americanos que não se adaptavam aos padrões. Ele recorreu ao jazz e ao seu ritmo para as frases que não obedeciam métrica; algumas longas e com seu próprio ritmo. O autor conferia a leitura quando apresentava o texto ao vivo. No trecho a seguir, pode-se observar a construção textual de um poema. Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa, (1) hipsters (2) com cabeça de anjo ansiando pelo antigo contato celestial com o dínamo estrelado na maquinaria da noite, (3) pobres, esfarrapados e olheiras fundas viajaram fumando sentados na sobrenatural escuridão dos miseráveis apartamentos sem água quente, flutuando sobre os tetos das cidades contemplando jazz, que desnudaram seus cérebros ao céu sob o Elevado (4) e viram anjos maometanos cambaleando iluminados nos telhados das casas de cômodos, (5) que passaram por universidades com olhos frios e radiantes alucinando Arkansas e tragédias à luz de Blake entre os estudiosos da guerra, (6) que foram expulsos das universidades por serem loucos & publicarem odes obscenas nas janelas do crânio, (7) que se refugiaram em quartos de paredes de pintura descascada em roupa de baixo queimando seu dinheiro em cestos de papel, (8) escutando o Terror através da parede, que foram detidos em suas barbas púbicas voltando por Laredo (9) com um cinturão de marijuana para Nova York. (GINSBERG, p. 25).. A poesia foi apreciada pelos companheiros e amigos de Ginsberg. Cada número que aparece no texto representa uma pausa, uma respiração, sendo assim, o poema manifestava seu ritmo próprio. O Uivo tinha tudo para ser um sucesso somente entre os amigos do autor; ficaria restrito às poucas pessoas que tivessem interesse nesse tipo de literatura. Mas o conservadorismo teve seus caprichos e, devido ao fanatismo direitista da era McCarthy, um advogado tentou proibir o texto declarando que era obsceno. Dessa forma, com a tentativa de censura da poesia, Ginsberg e todos seus amigos ganharam atenção. Na sentença final do julgamento o juiz Clayton W. Horn declarou: A vida não pode ser empacotada numa única fórmula, de modo que todos sejam da mesma maneira ou se conformem a um esquema particular. Não há duas pessoas que pensem da mesma maneira. Somos todos feitos do mesmo molde, mas em formas diferentes. Não haveria liberdade de imprensa e de expressão se reduzíssemos o vocabulário e eufemismo insípidos e inócuos. Um autor deve ser.

(28) 27. verdadeiro ao tratar seu assunto e devemos permitir que expresse seus pensamentos e ideias com suas próprias palavras. (MACIEL, 1978, p. 32 - 33).. Por conta de tal declaração, Ginsberg e outros escritores passaram a ser cultuados por uma multidão que estava perdida naquela sociedade opressora e queriam viver a vida em sua forma bruta. Ginsberg tornou-se uma espécie de guru, e O Uivo representou o manifesto daquela geração. Logo, muitos autores da beat passaram a ser formadores de opinião. Enquanto a geração beat5 escrevia, outra explosão cultural estava prestes a acontecer. O blues ao ser mesclado com o country fez surgir o rock. Ray Charles, um pianista negro e cego do interior da Georgia, gravou em 1953 a música "Mess Around" (baderna, confusão, ou mexer no sentido de dançar). Era diferente de tudo, um blues standard mais rápido, em que na introdução o som do piano se deslocava do agudo para o grave, seguido pela entrada da bateria, depois da voz e dos metais. O ritmo imprimido rápido e forte, em que Ray iniciava com um solo de piano, depois seguido pelo saxofone, permitia que o conjunto rítmico se mantivesse em harmonia e sincronização até seu final. No ano seguinte Ray lançou outro single. "It Should've Been Me" - um jazz blues em que cada fraseado do piano permitia um ataque dos metais na última nota; Ray declamava a letra com voz mansa, como se estivesse “cantando” uma moça, o instrumental prosseguia respondendo a voz, até que se chegava ao refrão ritmado e swingado, com um coral de apoio. Ray tornou-se o principal influenciador do estilo motown de fazer música, uma oscilação de funk e outros ritmos negros com pop e rock. Além de Ray Charles, Richard Wayne Penniman cresceu ouvindo corais das igrejas do sul dos Estados Unidos, além de blues, jazz, country e bluegrass. Com essa bagagem, as produções de Penniman refletiam as influências recebidas, sobretudo, no piano, aliando a sua voz única, a sua homossexualidade extravagante e sua beleza exótica. Assim nasceu o rock and roll, nas mãos do agora conhecido 5. Movimento literário originado em meados dos anos 1950 por um grupo de jovens intelectuais que estava cansado do modelo quadradinho de ordem estabelecido nos EUA após a Segunda Guerra Mundial. Com o objetivo de se expressarem livremente e contarem sua visão do mundo e suas histórias, esses escritores começaram a produzir desenfreadamente, muitas vezes movidos a drogas, álcool, sexo livre e jazz – o gênero musical que mais inspirou os beats. Além da obra indicada de Allen Ginsberg, outras se destacam como Naked Lunch (1959), de William S. Burroughs e On the Road (1957), de Jack Kerouac..

(29) 28. Little Richard. Seus contemporâneos, influenciados por sua música, trejeitos e atitude, ficaram mais conhecidos e, ainda na atualidade são lembrados: Jerry Lee Lewis, Johnny Cash, e o rei do rock, Elvis Presley, todos gravados pela Sun Records que apostou nesses garotos de forma visionária e empreendedora. Além deles, não podemos deixar de citar Muddy Waters e Chucky Berry – esse que foi o primeiro front man que se tem notícias - à frente do palco com uma guitarra, fazendo danças e cantando. Todos eles estavam começando a carreira, mas as notícias sobre o rock and roll cresciam país afora. Esse estilo arrebatou adolescentes da época, devido não somente à sonoridade das músicas, mas às letras desafiadoras, à velocidade das músicas, às performances, à nova atitude. Tem-se por exemplos, o jeito rebelde de se portar, de dançar, a forma sensual e sedutora de Elvis rebolar e mascar chiclete; a forma agressiva com a qual Jerry Lee tocava piano; as letras reais de Johnny Cash sobre prisões, entre outros, permitiram o aceite rápido desse gênero musical. A novidade da década de 1950 foi que os jovens das classes alta e média, pelo menos no mundo anglo-saxônico, que cada vez mais dava a tônica global, começaram a aceitar a música, as roupas e até a linguagem das classes baixas urbanas, ou o que tomavam por tais, como seu modelo. O rock foi o exemplo mais espantoso. Em meados da década de 1950, subitamente irrompeu do gueto de catálogos de “Raça” ou “Rhythm and blues” das gravadoras americanas, dirigidos aos negros pobres dos EUA, para tornar-se o idioma universal dos jovens, e notadamente dos jovens brancos. Os jovens operários almofadinhas do passado, às vezes tomavam seus estilos da alta moda na camada social alta ou de subculturas de setores da classe média, como a boêmia artística; as moças operárias, mais ainda. (HOBSBAWM, 1997, p. 258).. Esses fatores foram fundamentais para que o rock and roll fosse a porta e a válvula de escape da geração que crescia apoiada na literatura beat, nos filmes de Brando e Dean. Em 1957, foi lançado o livro On The Road (Pé Na Estrada), de Jack Kerouac. A obra foi escrita de forma corrida, assim como faziam os músicos de jazz que improvisavam por horas, que Kerouac tanto admirava. Escrevia por horas, todos os dias, sem correção ou revisão..

(30) 29. Pé Na Estrada, uma produção que teve por objetivo fazer um resgate histórico de sete anos da vida de Kerouac, marcadamente por suas viagens de caronas, ônibus, e em determinados momentos a pé. Atravessou os Estados Unidos para encontrar amigos, beber, fumar maconha, ouvir jazz, divertir-se, aventurar-se e conhecer pessoas novas. Essas viagens viraram seu livro. A carona passou a se tornar comum pelo país, cada vez mais jovens saiam de suas casas, sem rumo, indo para onde a estrada os levassem. Kerouac foi responsável por inspirar um novo espírito que duraria até o início dos anos 1970. Simultaneamente, nos EUA emergiam lutas pelos direitos civis. Segundo Pereira (1992), [...] toda a movimentação em torno das várias manifestações da cultura jovem, indo do flower power aos estudantes e intelectuais da Nova Esquerda, passando por movimentos como o gay power, o poder negro, cuja luta teve como ponto de partida a revolta de outros grupos a difícil batalha pelos direitos civis [...] Pela posição que o negro ocupa na sociedade americana, visivelmente oprimido e radicalmente excluído frente ao American Way Of Life, ele não apenas detém um enorme potencial de revolta, como também se constitui num aliado quase que natural do jovem branco de camadas médias que se rebela diante do sistema, recusando suas eventuais ofertas e vantagens, ainda que não seja possível omitir a diferença racial existente entre os dois grupos. Para este jovem branco o negro é, ao mesmo tempo, um corajoso símbolo de rebeldia diante da opressão e de recusa de um estilo de vida contra o qual aquele mesmo jovem - filho do Establishment - luta desesperadamente. Deste modo, o negro assume, de certa forma, o papel de depositário de valores já nostalgicamente perdidos para o branco, e o encontro com ele, suas tradições, sua música, sua cultura, enfim, é o encontro com a força de uma vigorosa fonte 'natural' de rebeldia e recusa. Não é de estranhar, portanto, todo o peso e o significado que o negro vai ganhar - e, por aí, o poder negro - aos olhos daquela cultura jovem... e branca. (PEREIRA, 1992, p. 41 - 42).. 1.3 O renascimento da música folk Até o início da década de sessenta valem ser mencionados dois representantes da música Folk. Leadbelly ou Lead Belly, nome artístico de Hudy William Ledbetter, um músico negro nascido na Luisiana que sabia tocar diversos instrumentos, mas tocava música considerada de brancos, até então, o country. Ledbetter foi preso diversas vezes por motivos diferentes: porte ilegal de arma, assassinato, esfaqueamento de uma pessoa branca, além de algumas passagens.

(31) 30. por brigas e perturbação da ordem. Suas obras versavam sobre preconceito, prisão e cowboys, além de músicas que tratavam da realidade da época e de personalidades como, Roosevelt e Hitler. O outro nome que merece destaque é o de Woody Guthrie, músico branco nova-iorquino que escreveu em seu violão: “This Machine Kills Fascists”6. Mesmo não sendo membro, nunca se declarou comunista. Guthrie defendia posições libertárias associadas à esquerda, principalmente em sua música “This Land is Your Land” (Essa terra é sua terra) – na qual não só ataca o ode ao patriotismo americano “God Bless America”, como defende o livre acesso, por parte das pessoas, à propriedade e, principalmente, à terra e ao solo. Os efeitos desses músicos e dos anos cinquenta, foram sentidos pela juventude. No começo dos anos 60, a música folk ganhou um novo representante. Com uma voz fraca acompanhada de gaita e violão, Robert Allen Zimmerman, fez letras fortes que contavam histórias, questionavam e exigiam mudanças. Robert criou um nome artístico, e passou a ser chamado de Bob Dylan. Cantor folk, porta-voz da Nova Esquerda americana, guru dos hippies, inovador do rock, estes são alguns dos rótulos com que ele teve que se defrontar naqueles anos quentes e difíceis. De um modo ou de outro, o fato é que Dylan alcançava um sucesso estrondoso, não apenas como artista, mas basicamente, como um dos líderes de toda uma geração. (PEREIRA, 1992. p. 52).. O primeiro disco de Dylan (1962) foi quase um sucesso, só faltou vender. Quem o comprava, decorava as letras em duas semanas. No ano seguinte, por meio do disco The Freewheelin' Bob Dylan, o cantor passou a ter status de porta voz da nova esquerda. A música "Blowing In the Wind", tornou-se um hino do movimento dos direitos civis. Outra artista a representar a música folk foi Joan Baez - tão intelectual e contestadora, quanto seu amigo Dylan. As declarações de Dylan e Baez à imprensa reforçam suas posições e lideranças. 'minhas canções protestam contra a guerra, contra as bombas, e os preconceitos raciais, contra o conformismo', dizia Bob 6. Em livre tradução: Essa máquina mata fascistas..

(32) 31. Dylan. De sua parte, Joan Baez afirmava: 'Há coisas que me chocam profundamente: o assassinato de crianças por poeira radioativa ou o assassinato dos espíritos pela segregação racial. Gosto de cantar e não posso esquecer tudo isso quando canto'. (PEREIRA, 1992, p. 54).. No mesmo ano Dylan e Baez participaram da Marcha dos Direitos Civis, em Washington (Capital). Em 1964, Dylan lançou dois discos The Times They Are Changing, em janeiro, ratificando a bandeira que Dylan viria a carregar pelo resto da vida, de um modelo a ser seguido. Em agosto foi lançado ‘Another Side Of Bob Dylan’: [...] nela, Dylan tematizava a liberdade de espírito e, acima de tudo, os efeitos das 'viagens' de drogas. Se antes havia se tornado o arauto da Nova Esquerda, agora o público mais específico que conquistava eram os hippies. (PEREIRA, 1992, p. 55).. Em 1965, Dylan lançou o disco “Bringing It All Back Home”, um de seus maiores clássicos que contém a música “Mr. Tambourine Man”, fortemente criticado por trazer um flerte com o rock. Seu disco seguinte: “Highway 61 revisited” não só trouxe o rock, como também apresentou-se eletrificado, fato que deixou seus fãs furiosos e, ao mesmo tempo, lhe custou o fim da amizade com Joan Baez: “Cada vez mais suas novas posições apareciam, para o seu público de esquerda mais tradicional, como uma verdadeira traição ao movimento de contestação”. (PEREIRA, 1992, p. 55). Mas, vale ressaltar, que nesse mesmo álbum, Dylan nos brindou com um dos maiores clássicos de sua carreira “Like a Rolling Stone”. Desde então, Dylan passou a se preocupar mais em fazer aquilo que satisfazia a si próprio. Lançava discos regularmente, com letras que refletiam os ideais da esquerda tradicional e da Nova Esquerda, alguns com uma sonoridade mais country folk, outros mais folk rock. 1.4 Garotos de Liverpool Neste mesmo período, na Inglaterra, no The Cavern Club, em Liverpool, quatro rapazes influenciados por Elvis Presley, Eddie Cochran e Bill Halley formaram um dos grupos mais importantes da história da música – Os Beatles..

(33) 32. Rapidamente, a palavra Beatles passava a significar não apenas música, mas, especialmente, todo um novo estilo de vida que, ao lado de novos comportamentos, incluía também humor, invenção, novas roupas e até mesmo, um novo corte de cabelo. Aos poucos, uma verdadeira beatlemania tomava conta da juventude, o que evidentemente era acompanhado de perto pela indústria da comunicação de massa. Certamente não era à toa que, em 1966, Lennon afirmava que: 'Somos mais populares que Jesus Cristo'. Afinal de contas, apenas um ano antes, eles haviam sido condecorados pela rainha da Inglaterra, fato que provocou uma enorme onda de protestos na tradicional Câmara dos Lordes. (PEREIRA, 1992, p. 45).. O grupo surgiu no underground de Londres e, em 1963, já havia lançado dois discos, ao mesmo tempo, que mantinha quatro músicas nas paradas de sucesso: "Love Me Do", "Please, Please Me", "Twist and Shout", "Please Mister Postman”. Mas, para os integrantes do grupo, isso ainda não era o suficiente. Eles queriam ir para a terra do rock'n'roll. No entanto, o grupo almejava deslocar-se para a terra do “tio Sam”, somente quando lá suas músicas estivessem nas paradas e em primeiro lugar. Em 1964, os Beatles lançaram outros dois discos: “A Hard Day's Night” e “Beatles for Sale”, sucessos absolutos no Reino Unido e nos Estados Unidos. Mas, o que os colocou à frente de outras músicas nos EUA foi o single “I Want To Hold Your Hand”. Tal fato foi o suficiente para se deslocarem da Europa. Ao comparecem no programa de televisão de Ed Sullivan foram “assistidos por mais de setenta milhões de pessoas. Suas apresentações no Washington's Coliseu e no Carnegie Hall foram um estrondoso sucesso”. (PEREIRA, 1992, p. 48). Em 1965, o disco “Help”, assim como, “A Hard Day's Night” ganhou um filme homônimo. Lançaram Rubber Soul no mesmo ano. Este álbum marcou o início de uma nova era na carreira do conjunto. As músicas não seguiam mais o padrão do rock adolescente com letras românticas. Tratava-se de um disco mais maduro, no qual George Harrison (guitarrista solo) compôs três músicas, incluindo "Norwegian Wood", em que fez uso da cítara indiana. No ano seguinte, os Beatles lançaram Revolver, no qual introduziram a psicodelia e a mostra do efeito das drogas nas composições. As músicas "Eleanor Rigby" e "Yellow Submarine" representaram esses elementos..

(34) 33. “O ano de 1967 foi uma época de grande influência oriental, através principalmente do contato com o Maharishi - o guru da meditação transcendental”. (PEREIRA, 1992, p.49). A banda, muito influenciada pelo orientalismo e pela LSD (droga que para muitos abria as portas da mente, da imaginação e da percepção), lançou o disco “Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band”, um dos sucessos mais influentes de todos os tempos. A segunda música "With a Little Help From My Friends", ao trazer a temática de paz e amor, anunciava que os problemas poderiam ser resolvidos por meio de uma vida mais comunitária. Já a última canção "A Day In The Life", foi proibida por fazer alusão explícita às drogas. Em dezembro de 1967, o disco “Magical Mistery Tour” ao ser lançado, foi duramente criticado. Em 1968, ao ser lançado o disco “The Beatles”, tornou-se mais conhecido como disco branco. Nessa época, os Beatles demonstravam o desgaste de tantos anos juntos. Em 1969, lançaram o que é considerado por muitos, o pior disco da carreira – “Yellow Submarine”. Este foi o único a não alcançar o primeiro lugar das paradas e, por isso, ficou marcado como “o pior”, mesmo se tratando de uma obra genial. Por sua vez, o lançamento de “Abbey Road” colocou o quarteto, novamente, em primeiro lugar nas paradas. O grupo resolveu, em 1970, fazer seu último show. Então, no dia quatro de janeiro de 1970, os Beatles subiram no telhado da gravadora Apple e tocaram algumas músicas do álbum, com edição prevista para o mês de maio. Após o lançamento do disco “Let It Be”, os Beatles anunciaram seu termino. 1.5 A era dos festivais – Monterey, Altamont e Woodstock No final da década de 1960 surgiram muitas bandas e músicos importantes, como por exemplo: Led Zepelin, Black Sabbath, Deep Purple, Yes, Genesis, Pink & Floyd, The Who, Animals, Jethro Tull, Focus, Cream, Yardbirds, Blue Cheer, Alice Cooper, Eric Clapton, The Mamas & The Papas, Otis Redding, Jefferson Airplane, Grateful Dead, Simon and Garfunkel, The Byrds, entre outros. A maioria das bandas e artistas se apresentaram nos festivais mais importantes que aconteceram no período, dentre eles, o primeiro, o Festival de Monterey. Esse evento foi gratuito e contou com a primeira apresentação em solo americano do “The Who”, banda conhecida pela fúria impetuosa com a qual destruía seus equipamentos ao final de.

(35) 34. seus shows e Jimi Hendrix que para impactar, ainda mais, a audiência, não só destruiu seu instrumento, como ateou fogo em sua guitarra, imagem icônica que entrou para história e para o imaginário geral coletivo. Vale, no entanto, destacar entre as bandas, o grupo dos Rolling Stones, um quinteto britânico que emplacou diversos sucessos entre 1964 e 1969. Os Stones tinham uma veia mais ocultista, e além de tratar de temas mais obscuros, soavam mais pesado que qualquer outra banda da época, com músicas como: "Sympathy For The Devil" e "Paint It Black". Considerados perigosos, sempre estavam associados a polêmicas com drogas. O ano de 1969 foi fortemente turbulento para a banda. O ex guitarrista, porém ainda amigo dos integrantes da banda, Brian Jones, morreu afogado na piscina de sua casa. As suspeitas recaíram em duas possibilidades: uso exacerbado de drogas, ou ataque de asma enquanto nadava. Abalados, porém na ativa, os Stones continuaram a tocar. Foram convidados para participar de um festival em Altamont, no norte da Califórnia. Como se tratava dos Stones previu-se a presença de grande público, daí porque a organização do evento decidiu contratar como segurança, o moto clube Hell's Angels, na época definidos como: Nós somos o um por cento, cara. O um por cento que não se ajusta e não está nem aí. Então não venha me falar das suas despesas com hospital e das suas multas de trânsito. Quer dizer, você tem sua mulher, sua moto e seu banjo e você está seguindo sua vida. Saímos a socos e pontapés de centenas de brigas, sobrevivemos com as nossas botas e os nossos punhos. Nós somos a nobreza entre os motoqueiros fora da lei, baby. (THOMPSON, 2011, p. 14).. Os Angel's eram motociclistas foras da lei que faziam alguns biscates como: atuavam como mecânicos de moto, traficavam drogas ou armas, batiam ou matavam alguém, se contratados. Essa gangue foi chamada para fazer a segurança de um bando de hippies em um festival onde todos consumiam drogas e bebidas alcoólicas, como se fosse água. Tinha tudo para dar errado, fato que ocorreu. Durante o show dos Stones, um jovem negro de apenas 18 anos, Meredith Curly Hunter Jr., foi assassinado pelos Angels que estavam batendo em todos que tentavam se aproximar do palco. Meredith tentou se aproximar e foi afastado, ele tentou novamente e fez que tinha um revólver, então, o motociclista Alan Passaro o esfaqueou. O conjunto saiu do palco após o incidente. Alan foi a julgamento e.

(36) 35. obteve a sentença de absolvição, sob alegação de legítima defesa. Os Stones demoraram mais de dois anos para lançar outro disco; no entanto, apesar deste incidente, seguiram juntos até hoje, como uma das poucas bandas sobreviventes daquele período. Entre os dias 15 e 18 de agosto de 1969 aconteceu o principal festival musical da história - o Woodstock. Evento que durou três dias, gratuito, teve um público de aproximadamente duzentas mil pessoas e contou com 34 bandas e músicos. Destacaram-se: Ravi Shankar (músico indiano que havia ajudado os Beatles em diversas músicas a incluir instrumentos orientais nos arranjos); Joan Baez; Santana (um guitarrista mexicano que tinha uma banda que tocava jams e improvisos com muita percussão e ritmos latinos); Mountain; Grateful Dead; Creedence Clearwater Revival (quarteto que misturava country, R&B, funk e soul com rock); Janis Joplin; The Who (até hoje, uma das maiores bandas de rock da história), com forte influência do blues, notadamente percebida na voz de Roger Daltrey e nos riffs pesadíssimos de Pete Townshend. Foi a primeira banda a quebrar instrumentos no palco, não somente a guitarra de Pete era partida ao meio, mas Keith Moon destruía sua bateria completamente a cada apresentação; Jefferson Airplane; Joe Cocker (cantor que ficou famoso no próprio festival ao fazer uma versão belíssima de "With a Little Help From My Friends", dos Beatles (para muitos é melhor que a versão original); Johnny Winter; Crosby, Stills, Nash & Young (super grupo de country rock, formado por quatro grandes músicos: David Crosby, Stephen Stills, Graham Nash e Neil Young, todos tocavam violão e cantavam ao mesmo tempo, formando assim uma música doce, suave e gostosa de se ouvir); e Jimi Hendrix (que ao longo de sua apresentação fez seu protesto na guitarra, tocou o hino norte-americano e, em meio ao hino inseriu, por conta do próprio instrumento, efeitos que imitavam bombas caindo, deixando explícito o protesto contra a ação norte-americana na guerra do Vietnã). O mais impressionante de tudo isso, é que realmente foram três dias, de paz, diversão, música e muitas drogas. Apesar de algumas pessoas terem passado mal devido ao consumo das drogas, falta de comida e/ou água, não houve nenhuma morte, não foi registrada nenhuma briga ou incidente mais grave..

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