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(1)1. UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO DIRETORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. HELENA RAQUEL DE FRANÇA COSTA. EDELARZIL MUNHOZ CARDOSO, A “MULHER DO ALGODÃO”: SUA PERFORMANCE RELIGIOSA, SEU UNIVERSO SIMBÓLICO SUBJACENTE E A RELIGIOSIDADE POPULAR BRASILEIRA. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2019.

(2) 2. UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO DIRETORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. HELENA RAQUEL DE FRANÇA COSTA. EDELARZIL MUNHOZ CARDOSO, A “MULHER DO ALGODÃO”: SUA PERFORMANCE RELIGIOSA, SEU UNIVERSO SIMBÓLICO SUBJACENTE E A RELIGIOSIDADE POPULAR BRASILEIRA. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo sob a orientação do Prof. Dr. Helmut Renders.. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2019.

(3) 3. FICHA CATALOGRÁFICA C823e. Costa, Helena Raquel de França Edelarzil Munhoz Cardoso, a “mulher do algodão”: sua performance religiosa, seu universo simbólico subjacente e a religiosidade popular brasileira / Helena Raquel de França Costa -- São Bernardo do Campo, 2019. 197 f. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) -Diretoria de Pós-Graduação e Pesquisa, Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo. Bibliografia Orientação de: Helmut Renders. 1. Cardoso, Edelarzil Munhoz – Estudo de caso 2. Curandeiros 3. Religiosidade popular – Brasil 4. Imaginário religioso I. Título CDD 248.290981.

(4) 4 A dissertação de mestrado intitulada: “Edelarzil Munhoz Cardoso, a ´mulher do algodão´: sua performance religiosa, seu universo simbólico subjacente e a religiosidade popular brasileira”, elaborada por Helena Raquel de França Costa foi apresentada no dia 10 de abril de 2019, perante banca examinadora composta por Prof. Dr. Helmut Renders (Presidente/UMESP), Prof. Dr. Vitor Chaves de Souza, (Titular UMESP), Prof. Dr. Ênio Brito Pinto (Titular PUC-SP).. Prof. Dr. Helmut Renders Orientador e Presidente da Banca Examinadora. Prof. Dr. Helmut Renders Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Ciências da Religião Área de Concentração: Linguagens da Religião Linha de Pesquisa: Teologias das Religiões e Cultura.

(5) 5. Dedico essa dissertação de mestrado, primeiramente à Trindade Santa, centro e fonte de tudo em minha fé. Aos meus pais, Pedro P. Costa e Marilena B. F. Costa, cuja dedicação e amor foram essenciais e fecundos para a minha formação humana. A eles todo meu respeito, admiração,. reconhecimento e amor. Me orgulho deles. Também dedico à Santa Mãe de Deus, Maria Santíssima, à Beata Elena Guerra e a São João Paulo II, aos quais consagrei toda essa pesquisa..

(6) 6. AGRADECIMENTOS. Agradeço, em primeiro lugar, a oportunidade que tenho como graça divina, de participar da história deste PPG em Ciências da Religião, a todos os professores e colegas de mestrado, com quais tive a honra de conviver, dividir experiências e trocar conhecimentos. Assim como a solicitude de todos os funcionários do PPG e da Universidade Metodista de São Paulo. Aliás, sou grata à UMESP. Em especial, agradeço ao meu orientador, Professor Helmut Renders, que desde o começo de meu mestrado e em todos os momentos, me acompanhou, conduziu e, por vezes, desafiou, mas sempre com sua maneira sábia, gentil e competente. Não há palavras para agradecer a compreensão e paciência de Professor Helmut. Sou grata a todos os professores que passaram por minha vida e deixaram um pouco de seus preciosos conhecimentos. Em particular, agradeço a Professora Marília Brizola, minha primeira professora. Ela não apenas alfabetizou-me, como também soube enxergar minha paixão pela leitura, me emprestando livros da escola, me desafiando a escrever histórias e aguçando ainda mais minha curiosidade pelo universo encantado das letras. Agradeço ao CNPQ, cujo financiamento foi fundamental nesta caminhada de dois anos. Agradeço ao suporte da Casa do IEPG (Instituto Ecumênico de Pós Graduação em Ciências da Religião), onde residi neste tempo, a todos os meus colegas moradores da casa, a toda direção e em particular à Ana Maria Fonseca, secretária administrativa do instituto, uma querida amiga, sempre dedicada a fazer sempre o melhor para todos os moradores da casa, mesmo tendo tantos compromissos cabidos à sua função. Grata! Agradeço a todos que de alguma forma me foram suporte, meus amigos do Grupo de Oração “Presença de Deus” de Sete Barras, Nilson C. de Oliveira, Robson de Sá Leite, Dalma C. Pauluk, Cezário T. de Jesus. Agradeço ao presidente Estadual do Movimento da Renovação Carismática Católica de São Paulo, Marcelo Marangon, que antes de o poder chamar de coordenador, pude chamá-lo de amigo, ser acolhida e amada pelo meu Movimento através dele..

(7) 7 Agradeço ao meu amigo, Padre Adelson Rosa de Souza e ao Diácono Hélio Paulo da Cruz, que em momentos muito específicos, me ouviram e ajudaram com sábios conselhos. Agradeço a minha amiga Rita de Cássia Golim, que sempre esteve presente, mesmo longe, em meus momentos de conflito pessoal, me ouvindo e orando comigo. Agradeço ao meu amigo Altierez Sebastião dos Santos – também pesquisador e cientista da religião – um amigo muito querido que esteve presente durante todo o meu percurso de mestrado, me apoiando sempre, sendo como só um verdadeiro amigo consegue ser, uma presença incondicional e um esteio em minha fé. Também agradeço por suas contribuições na revisão de minha dissertação e apontamentos históricos preciosos, enquanto historiador, enriquecendo as fontes de minhas pesquisas. Amigos verdadeiros para as quais não existem palavras para descrever a importância em minha vida. Muitas são as pessoas que nos conhecem, porém, poucas têm o dom de atravessar o nosso íntimo e saber como realmente somos. Só me resta a gratidão mais sincera pelo apoio desses meus queridos. Gratidão..

(8) 8 “Quando você estiver com a sua vida toda bloqueada, às vezes. com. problemas. de. saúde.... profissionais,. financeiros, desempregos, sentimentais, imóveis para vender ou dinheiro para receber e não consegue... não se desespere, falando que tua vida é uma desgraça. Porque sem chamar ela já vem e se você chamou ela aposenta com você. Então quando a gente está com tudo bloqueado na vida da gente, a gente tem que pedir a Deus: Dai-me força, Senhor, pra mim suportar a minha cruz. Todos nós temos a nossa. “Dai-me paciência! Ei de vencer todos os obstáculos da minha vida, porque Deus está comigo. Quem é que vai poder me destruir?”. Se você tiver fé, você pode ter caído, você levanta e começa tudo de novo, isto é certeza, mas pela fé. Porque, eu tenho muita fé, eu faço a minha parte e cada um faz a sua”. Edelarzil M. Cardoso “A Mulher do Algodão”.

(9) 9 COSTA, Helena Raquel de França. Edelarzil Munhoz Cardoso, a “mulher do algodão”: sua performance religiosa, seu universo simbólico subjacente e a religiosidade popular brasileira. Dissertação de Mestrado em Ciências da Religião) - Programa de PósGraduação Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, SP, 2019.. RESUMO. Esta pesquisa tematiza a performance mediúnica, ritual, simbólica e visual de Edelarzil Munhoz Cardoso, mais conhecida como a “Mulher do Algodão” ou “Médium do Algodão”, sobre a qual se alega ter o dom de realizar curas físicas e espirituais de forças negativas mediante a materialização de objetos no algodão. Especificamente nos atemos à sua performance religiosa e universo simbólico. Partimos da teoria da Matriz Cultural Religiosa e apresentamos sua trajetória de vida. Na perspectiva da Cultura Visual e Material, documentamos imagens que puderam nos dar pistas sobre seu universo simbólico e finalmente analisamos seu imaginário, permeado em seu espaço, seu rito e sua performance a fim de compreender seu papel dentro da religiosidade popular brasileira. Utilizamos como referencial teórico-metodológico as reflexões sobre Matriz Cultural Religiosa Brasileira de Mendonça, Bittencourt Filho, Darcy Ribeiro; as teorias de Hoffmann-Horochovski e Quintana sobre as benzedeiras. Panofsky, Renders e Eliade para os estudos acerca da Cultura Material e Visual e dos espaços. Os estudos de Vilhena, Gennep, Turner para analisarmos os ritos Schechner para as reflexões acerca da performance de Edelarzil Munhoz Cardoso. Além da documentação de imagens, também utilizamos da interpretação de performance por meio de arquivos de mídia. Toda nossa pesquisa levou-nos a uma melhor aproximação do imaginário religioso da “Mulher do Algodão” nos mostrando que essa tem muito mais a revelar por meio de pesquisas quanto a sua originalidade e hibridismo religioso dentro da religiosidade brasileira. PALAVRAS CHAVES: Mulher do Algodão. Benzedeiras. Imaginário. Universo Simbólico. Religiosidade e Matriz Cultural Religiosa Brasileira. Cultura Visual e Material..

(10) 10 COSTA, Helena Raquel de. F. Edelarzil Munhoz Cardos, la "Mujer del Algodón": su performance religiosa, su universo simbólico subyacente y la religiosidad popular brasileña. Disertación de Maestría en Ciencias de la Religión. São Bernardo do Campo: Universidad Metodista de São Paulo, 2019.. RESUMEN. Esta investigación enfoca la actuación mediúmnica, ritual, simbólica y visual de Edelarzil Munhoz Cardoso, más conocida como la "Mujer del Algodón" o "Médium del Algodón", sobre la que se alega tener el don de realizar curas físicas y espirituales de fuerzas negativas mediante la materialización de objetos en el algodón. Específicamente nos atemos a su desempeño religioso y universo simbólico. Partimos de la teoría de la Matriz Cultural Religiosa y presentamos su trayectoria de vida. En la perspectiva de la Cultura Visual y Material, documentamos imágenes que pudieron darnos pistas sobre su universo simbólico y finalmente analizamos su imaginario, permeado en su espacio, su rito y su performance a fin de comprender su papel dentro de la religiosidad popular brasileña. Utilizamos como referencial teórico-metodológico las reflexiones sobre Matriz Cultural Religiosa Brasileña de Mendonça, Bittencourt Filho, Darcy Ribeiro; las teorías de Hoffmann-Horochovski y Quintana sobre las bendecidoras. Panofsky, Renders y Eliade para los estudios acerca de la Cultura Material y Visual y de los espacios. Los estudios de Vilhena, Gennep, Turner para analizar los ritos Schechner para las reflexiones acerca del desempeño de Edelarzil Munhoz Cardoso. Además de la documentación de imágenes, también utilizamos la interpretación de rendimiento por medio de archivos de medios. Toda nuestra investigación nos llevó a una mejor aproximación del imaginario religioso de la "Mujer del Algodón" nos muestra que esa tiene mucho más que revelar por medio de investigaciones en cuanto a su originalidad e hibridismo religioso dentro de la religiosidad brasileña. PALABRAS CLAVES: Mujer del Algodón. Sanadores. Imaginaria. Universo Simbólico. Y en el caso de la Iglesia. Cultura Visual y Material..

(11) 11 COSTA, Helena Raquel de França. Edelarzil Munhoz Cardoso, the "Cotton Woman": her religious performance, her underlying symbolic universe, and Brazilian popular religiosity. Master Degree in Religious Science. Graduate Program for the Study of Religion of the Methodist University in São Paulo, São Bernardo do Campo, SP, 2019.. ABSTRACT. This research focuses on the mediumistic, ritualistic, symbolic and visual performance of Edelarzil Munhoz Cardoso, better known as the "Cotton Woman" or "Cotton Medium", who is alleged to have the gift of performing physical and spiritual healing of negative forces through the materialization of objects in cotton. Specifically we hold to its religious performance and symbolic universe. We start from the theory of the Religious Cultural Matrix and present its life trajectory. In the perspective of Visual Culture and Material, we document images that could give us clues about its symbolic universe and finally analyze its imaginary, permeated in its space, its rite and its performance in order to understand its role within the Brazilian popular religiosity. We use as theoreticalmethodological reference the reflections on Brazilian Religious Cultural Matrix of Mendonça, Bittencourt Filho, Darcy Ribeiro; the theories of Hoffmann-Horochovski and Quintana on the benzedeiras. Panofsky, Renders and Eliade for studies on Material and Visual Culture and spaces. The studies of Vilhena, Gennep, Turner to analyze the Schechner rites for the reflections on the performance of Edelarzil Munhoz Cardoso. In addition to image documentation, we also use performance interpretation through media files. All our research has led us to a better approximation of the religious imagery of the "Cotton Woman" showing us that this has much more to reveal through research as to its originality and religious hybridism within Brazilian religiosity.. KEYWORDS: Cotton Woman. Wound heels. Imaginary. Symbolic Universe. Religiosity and Brazilian Religious Cultural Matrix. Visual Culture and Material..

(12) 12. SUMÁRIO. AGRADECIMENTOS ..........................................................................................6 RESUMO ...............................................................................................................9 FIGURAS ............................................................................................................16 INTRODUÇÃO ...................................................................................................18 CAPÍTULO 1. A RELIGIOSIDADE. POPULAR BRASILEIRA E FENÔMENO DE EDELARZIL, A “MULHER DO ALGODÃO” ........................................................................................................24 Introdução .................................................................................................................24 1.2 Matriz religiosa brasileira ...................................................................................25 1.1.1 A matriz indígena ............................................................................................26 1.1.2 Matriz católica lusitana....................................................................................29 1.1.3 A matriz Africana ............................................................................................31 1.1.4. A Matriz Espírita .......................................................................................36. 1.2 Catolicismo popular brasileiro ...........................................................................38 1.3 As benzedeiras: o protagonismo feminino no meio popular ..............................46 1.4 A trajetória de Edelarzil Munhoz Cardoso: “A Mulher do Algodão” ...............54 1.4.1 A história de Edelarzil Munhoz Cardoso ........................................................54 1.4.2. A atuação de Natalino Alves Cardoso na trajetória religiosa de Edelarzil 61. Considerações intermediárias ...................................................................................65 CAPÍTULO 2.......................................................................................................67 A CULTURA MATERIAL DA ESTÂNCIA CASA CAMINHO E LUZ: INDICADORES DE RAIZES E RELAÇÕES RELIGIOSAS ...........................67 Introdução .................................................................................................................67 2.1 A importância da cultura visual e material para os estudos da religião ............68 2.2 A Estância Casa Caminho e Luz como conjunto: o terreno e a distribuição de prédios com distinção das suas funções ...................................................................72 2.2.1. A Estância Casa Caminho e Luz como terreno acolhedor: descrição. detalhada dos espaços auxiliadores dedicados ao bem-estar e ao descanso físico dos/as visitantes......................................................................................................74.

(13) 13 2.2.2. A Estância Casa Caminho e Luz como espaço sagrado: descrição detalhada. dos espaços com função religiosa localizados ao redor do espaço reservado ao ritual da materialização....................................................................................................75 2.2.3. A Estância Casa Caminho e Luz e seu espaço mais sagrado: descrição. detalhada dos espaços diretamente relacionados com o ritual da materialização ..78 2.3 O rito celebrado na “Estância, casa caminho da luz”: os passos da preparação, da recepção e da materialização ...............................................................................91 2.3.1 As caravanas como parte do preparo para o ritual ..........................................92 2.3.2. A recepção e o preparo final no terreno ....................................................93. 2.3.3. O ritual de materialização ..........................................................................94. 2.3.4. As materializações .....................................................................................98. Considerações intermediárias ...................................................................................99 GALERIA ..........................................................................................................100 Foto 1: Mapa para o centro “Nossa Senhora do Rosário” 1997 .............................100 Foto 2: Mapa Estância Casa Caminho e Luz .........................................................101 Foto3: Livro 1997- A vida para mim .....................................................................103 Foto 4: Livro 1997- tragédias na vida ....................................................................102 Foto 5: Livro 1997- Amor e pureza........................................................................104 Foto-6 : Edelarzil 1997 ...........................................................................................105 Foto: 7 Edelaril 1997 ..............................................................................................106 Foto: Edelarzil 2018 ...............................................................................................107 Print: Veronica Parallax - het onderzoek 1990.......................................................108 Print: Globo Repórter 1994 ....................................................................................108 CAPÍTULO 3.....................................................................................................109 ANÁLISE DO IMAGINÁRIO DE EDELARZIL MUNHOZ CARDOSO ......109 “A MULHER DO ALGODÃO” .......................................................................109 Introdução ...............................................................................................................109 3.1 Imaginário, imaginação ...................................................................................110 3.2 Análise do espaço profano ..............................................................................111 3.3 Análise dos espaços sagrados ..........................................................................112 3.3.1. Casa Cartomancia e Búzios .....................................................................112. 3.3.2. Ermida de Nossa Senhora do Rosário e Fonte de Água Benta................113. 3.3.3. O jardim e a imagem do Cristo Redentor ................................................114. 3.3.4. Espaço de Espera .....................................................................................114.

(14) 14 3.4 Análise do Santo dos Santos: A Capela Ritual................................................118 3.5 O Altar da Benzedeira .....................................................................................125 3.6 Análise do imaginário simbólico de Edelarzil Munhoz Cardoso: aspectos centrais....................................................................................................................126 3.6.1.. O rito ........................................................................................................126. 3.6.2.. O rito transformação e espaço religioso como hierofania .......................129. 3.6.3 o arquétipo da mulher sagrada ......................................................................133 3.6.4. Alguns símbolos utilizados por Edelarzil Munhoz Cardoso ...................150. 3.7 As materializações de Edelarzil Munhoz Cardoso ..........................................153 3.7.1. A experiência estética mediante o abjeto no ritual de Edelarzil Munhoz153. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................159 REFERÊNCIAS ................................................................................................164 Referências bibliográficas ......................................................................................164 Sítios e vídeos consultados .....................................................................................171 Figuras ....................................................................................................................173 ANEXOS ...........................................................................................................175 TRANSCRIÇÃO DE VÍDEOS ..............................................................................175 Ipsis Litteris ............................................................................................................175 Transcrição 1 ..........................................................................................................175 Transcrição 2 ..........................................................................................................183 Transcrição 3 ..........................................................................................................186 Transcrição 4 ..........................................................................................................189 CATÁLOGO DE SUGESTÕES DE SIGNIFICADO DE ALGUNS OBJETOS: 191 RECORTES DE JORNAL .....................................................................................194 Jornal Regional 1994 - Parte 1 ...............................................................................194 Jornal Regional 1994 - Parte 2 ...............................................................................195 Krantenbank Zeeland - 4 set. 1990/ Anúncio da grade horária da TV holandesa ..196 Krantenbank Zeeland - 11 set. 1990/ Anúncio da grade horária da TV holandesa 197.

(15) 15. ABREVIATURAS E SIGLAS CIC. Catecismo da Igreja Católica. FEB. Federação Espírita Brasileira. TRV. Transcrição de vídeo. PE. Padre.

(16) 16. FIGURAS. Figura 1: Edelarzil, a “Benzedeira do Algodão” ................................................ 54 Figura 2: Natalino Cardoso: Marido de Edelarzil............................................... 58 Figura 3: Casa de Edelarzil no sítio em Parisi após seu casamento ................... 59 Figura 4: Candidatura de Natalino em 2004 ....................................................... 63 Figura 5: Homenagem à Natalino e Edelarzil..................................................... 64 Figura 6: Edelarzil e Natalino ............................................................................. 64 Figura 7: Mapeamento do “Espaço Estância Casa Caminho e Luz” – os prédios principais............................................................................................................. 73 Figura 8: Entrada da Estância Casa Caminho e Luz .......................................... 73 Figura 9: Restaurante Comida Caseira ............................................................... 74 Figura 10: Dormitórios Coletivos Gratuitos ....................................................... 74 Figura 11: Casa de Atendimento Cartomancia e Búzios .................................... 75 Figura 12: Ermida de Nossa Senhora do Rosário e Fonte de Água Benta ......... 76 Figura 13: Detalhe da Ermida – Caixa para orações e doações .......................... 77 Figura 14: Imagem do Cristo Redentor em meio ao Jardim ............................... 77 Figura 15: Local de espera .................................................................................. 79 Figura 16: Mensagem Próxima à Capela ............................................................ 79 Figura 17: Lei de proteção ao culto .................................................................... 79 Figura 18: Propaganda de Hotel ......................................................................... 80 Figura 19: Estante de livros disposta no pátio .................................................... 81 Figura 20: Relógio de Boas Vindas .................................................................... 82 Figura 21: Cruz na porta de entrada da capela ................................................... 83 Figura 22: Visão geral da Capela........................................................................ 84 Figura 23: Visão espacial da capela ritual .......................................................... 85 Figura 24: Pintura: PLE ...................................................................................... 86 Figura 25: Quadro: PLE...................................................................................... 86 Figura 26: Quadro (PLD).................................................................................... 86 Figura 27: Quadro (PLD).................................................................................... 86 Figura 28: Quadros (PEC) .................................................................................. 87 Figura 29: Quadros (PDC) .................................................................................. 87 Figura 30: Oratório (PLD) .................................................................................. 88.

(17) 17 Figura 31: Tabuleiro com cristais (PFC) ............................................................ 89 Figura 32: Oratório PFC ..................................................................................... 89 Figura 33: Oratório PFC ..................................................................................... 89 Figura 34: Espaço Cúltico Principal (PF) ........................................................... 90 Figura 35: Placa PF ............................................................................................. 91 Figura 36: Placa PF ............................................................................................. 91 Figura 37: Placa PLD.......................................................................................... 91 Figura 38: Formação da procissão de entrada .................................................... 95 Figura 39: Edelarzil efetuando materialização ................................................... 96 Figura 40: Edelarzil Materializando ................................................................... 96 Figura 41: Cobert. para análise (fora .................................................................. 97 Figura 42: Cobert. para Análise (dentro) ............................................................ 97 Figura 43: Objetos extraídos do algodão durante o ritual de materialização...... 98 Figura 44: Nossa Senhora do Rosário Pintura e estátua - PF ........................... 119 Figura 45: Santo Antônio de Pádua – Estátua e Pintura (PF) ........................... 121 Figura 46: Cigana Sara ..................................................................................... 123 Figura 47: Cigano Ogolé .................................................................................. 123 Figura 48: Experiência Liminóide .................................................................... 128 Figura 49: Retrato de Edelarzil (PCD) ............................................................. 136 Figura 50: Significado do nome Edelarzil ........................................................ 137 Figura 51: Jornal Regional 31 jul 1994 ............................................................ 139 Figura 52: Título de Cidadã Parisiana – 8 out. 1996 ........................................ 140 Figura 53:Diploma de Honra por excelência em dons de materialização”, concedido pela Ordem Melquisedeque em sete de setembro de 2010 ............. 141 Figura 54: Verso do Diploma de Honra, 2010. ................................................ 142 Figura 55: Propaganda Excursão Cura espiritual .......................................... 143 Figura 56: Propaganda Excursão Espiritual ................................................... 143 Figura 57: Edelarzil orando com Imposição de Mãos ...................................... 144 Figura 58: Objetos extraídos para a autora no dia da visitação ........................ 157.

(18) 18. INTRODUÇÃO. A cultura popular brasileira se formou desde o princípio a partir da mescla de variadas culturas e religiosidades como a indígena, católica lusitana e africana, comungantes de um fator em comum, o pensamento “mágico-religioso”. Após a separação Igreja e Estado, com o golpe republicano, as terras brasileiras ganharam mais autonomia religiosa permitindo que novas religiões aflorassem em seu território. Em fins do século XIX chegou ao Brasil o espiritismo de Alan Kardec que foi bem acolhido e ressignificado pela concepção católica de religião e pelo misticismo já arraigado na cultura até então. Essa aproximação de religiões diferentes é o que teria sido um berço propício para o nascimento de inúmeras expressões de fé de carácter distintos uma das outras e também um dos quesitos responsáveis pelo surgimento de lideranças religiosas carismáticas no cenário nacional. Algumas muito conhecidas como Chico Xavier, Edir Macedo, Padre Marcelo Rossi, dentre outros, que têm em comum a capacidade de mover um razoável número de pessoas, que buscam contato com os mistérios do mundo espiritual. Em meio a esta efervescência da religiosidade popular brasileira, diversa e criativa na construção do imaginário religioso, destacamos Edelarzil Munhoz Cardoso, que ficou conhecida como a “Mulher do Algodão”, “Médium do Algodão” ou “Benzedeira do Algodão” pela suposta capacidade de materializar objetos, figuras, ossos, animais vivos ou partes deles no algodão. Ao longo de sua vida tem dedicado mais de 60 anos dos seus 73 anos trabalhando com este ritual que ela denomina como “transporte e materialização”. O ritual se baseia na possibilidade de materializar os “fluídos” negativos que estão “amarrando” a vida das pessoas. Ela acredita que espíritos obsessores vagueiam pelo mundo para atormentar a paz das almas, na força dos espíritos demoníacos e magia negra, em influências negativas decorrentes de maus-olhados e de inveja, também crê na lei do “olho por olho, dente por dente”, que “aqui se colhe o que se planta”, ela crê que boa parte dos males que decaem sobre os seres humanos são atraídos pelo próprio mal retido por elas mesmas. Segundo ela, esses males são materializados em objetos e que assim as pessoas são libertas, através de uma limpeza espiritual. No início de nossas pesquisas, trabalhamos com a hipótese de Edelarzil ser uma.

(19) 19 benzedeira católica, tendo como diferencial esse ritual de materialização. Porém, muitas coisas foram sendo levantadas no decorrer do caminho e percebemos que teríamos mais trabalho do que o esperado para poder situá-la no cenário religioso brasileiro. A primeira dificuldade que encontramos diz respeito à sua documentação. Não encontrando documentações acadêmicas até então (2019), tivemos que começar por documentar o máximo de informações possíveis. Utilizamos para este trabalho a transcrição de alguns documentários da década de 90 do século XX e vídeos mais atuais, como palestras e mensagens por ela gravadas em alguns canais em plataformas de vídeos na internet. Recorremos aos sites esotéricos e matérias jornalísticas. Encontramos neste processo, alguns comentários internacionais em blogs de Portugal, Argentina, Holanda (inclusive, um documentário em fins da década de 1980) e também um site de curiosidades paranormais em inglês. Montar a biografia de Edelarzil foi como montar um quebracabeças, colhendo pistas nessas fontes e também indo visitá-la. Na verdade, participar de seu ritual. Depois de muito procurar, conhecemos a senhora Márcia G., uma coordenadora de caravanas que realiza excursões para “O fenômeno do Algodão” e uma das poucas pessoas que têm acesso à vida íntima da médium, no entanto, uma pessoa discreta, apesar de receptiva, é com algum esforço que conseguimos algumas informações sobre Edelarzil. Os organizadores de caravanas, os poucos que são autorizados pela médium para a realização de excursões, possuem portais de viagens e páginas em redes sociais, as quais utilizamos como fonte de pesquisa. Também, como dissemos, fomos ao sítio de Edelarzil para conhecer de perto o ritual de materialização. Apesar de não conseguirmos entrevista com a mesma, tivemos a liberdade de documentar fotos de todo o local e pudemos conhecer alguns frequentadores. Nesse dia a Estância Casa Caminho e Luz, distribuiu um livro contendo 34 páginas com uma curta biografia de Edelarzil e orações compostas por ela. Mais próximo ao fim de nossa pesquisa, encontramos finalmente, um documento na internet datado em 1997, um livro intitulado “Edelarzil: A história de um dos maiores fenômenos espirituais do Brasil” escrito por Adriano B. Santos, feito em gráfica comum (Tatuí – SP), contendo 58 páginas sobre a vida da médium. Haviam colocado para venda num Sebo um dia antes de o encontrarmos e, o único exemplar disponível em toda a web após vasculharmos até este ano, o que nos foi um grande achado, com informações que não tínhamos e pudemos descobrir novos dados sobre sua biografia. Até o presente ano (2019) não encontramos quaisquer registros acadêmicos além de um agradecimento em tese de uma doutora em Direito, alguém que recebeu.

(20) 20 ajuda espiritual de Edelarzil. Também recorremos a um dos pesquisadores que visitaram Edelarzil, Dr. Wellington Zangari, que confirmou não ter realizado quaisquer artigos referentes e que possivelmente seríamos os primeiros a registrar o fenômeno da materialização de Edelarzil. Uma boa notícia que, no entanto, nos trouxe uma responsabilidade um pouco maior. Precisávamos de um foco e optamos por delimitá-lo dentro do campo da Cultura Visual em nossa área de “Linguagens da Religião”, unido a estudos históricos da religiosidade popular brasileira, estudos do imaginário simbólico e performance. Cremos ter sido o melhor caminho para nós, pois sua visualidade tanto em termos de imagens materiais como de imaginário simbólico, muito pode nos revelar sobre a personalidade original de Edelarzil Munhoz Cardoso, “A Mulher do Algodão”. Em nosso primeiro capítulo, “A religiosidade popular brasileira e o fenômeno de Edelarzil, a Mulher do Algodão”, a fim de situar o fenômeno dentro do cenário brasileiro, achamos conveniente uma introdução histórica na perspectiva teórica da Matriz Cultural Religiosa Brasileira, apresentada por autores como Antônio G. de Mendonça, José B. Filho e Darcy Ribeiro. Apontamos as matrizes mais condizentes ao imaginário religioso da médium, as matrizes: indígena, católica lusitana, africana e espírita. Considerando a profissão católica de Edelarzil, aprofundamos sobre a formação religiosa do catolicismo popular e as consequentes ações leigas provenientes da mesma, apresentando nesse cenário o protagonismo das mulheres benzedeiras ou rezadeiras, para então chegarmos à história de Edelarzil e sua trajetória até se tornar a conhecida “Mulher do Algodão”. Para fundamentar nossos estudos, utilizamos teóricos em religiosidade popular como Orlando Espín, Carlos R. Brandão, Laura de Mello e Souza (essa com sua obra “O diabo e a Terra de Santa Cruz” sendo uma pioneira nos estudos acerca do imaginário da feitiçaria no período colonial). Espín tem uma contribuição muito particular em nosso trabalho sobre os estudos do catolicismo popular, em “A fé do povo” ele parte de sua experiência ao mudar-se para a República Dominicana deparando-se com o estranhamento, num choque cultural que o levou a uma percepção humanizada que toca não somente o catolicismo popular, tendo a capacidade de estender-se à conceitualização de religiosidade popular que nos direciona a uma reflexão pela busca da compreensão do que nos é diferente. Brandão também tem essa percepção de inculturação religiosa e nos apresenta o entrelaçamento do pensamento religioso com as relações cotidianas nesse meio popular. Onde o agente religioso participa e consome os bens simbólicos, atuando como mediador para obtenção de graças para o “fiel.

(21) 21 religioso” ou “cliente religioso”. Caminhando por essa linha no meio popular, também trazemos pesquisadores de campo da chamada “arte de curar”, resgatando memórias das rezadeira ou benzedeiras como Marisete T. Hoffmann-Horochovski no litoral paranaense, de Elma Sant’Ana e Alberto M. Quintana acerca das benzedeiras do Rio Grande do Sul, Francimário V. do Santos sobre as benzedeiras do Rio Grande do Norte, dentre outros pesquisadores que contribuiram com suas pesquisas em diversas partes do país. Pesquisas preciosas para que tivéssemos uma maior compreensão dessa prática antiga. No segundo capítulo, detalhamos na perspectiva da Cultura Visual e Material, nos valemos dos estudos de Erwin Panofsky, Helmut Renders e Mircea Eliade, sob o título “Estância Casa Caminho e Luz: Indicadores de Raizes e Relações Religiosas”, onde documentamos através de fotos e comentários o universo simbólico de Edelarzil Munhoz Cardoso, seus aspectos visuais e rituais. Mapeamos em ilustração o espaço Estância Casa Caminho e Luz e também sua Capela Ritual. Antes de tudo, porém, dedicamos algumas linhas introdutórias a respeito da importância do estudo da Cultura Visual e Material para a compreensão das religiões no Brasil, ao que Renders nos vem a ser um importante referencial da área, dedicando anos de pesquisa sobre a importância de se fazer essa leitura. Utilizamos o método de Panofsky e complementamos com estudos analíticos do imaginário simbólico de Eliade para detalhamentos dos espaços e assim estarmos familiarizados com a Estância Casa Caminho e Luz. Finalmente, no capítulo três, “Análise do Imaginário de Edelarzil Munhoz Cardoso A Mulher do Algodão”, introduzimos a diferença ente imaginário e imaginação – distinção necessária para mergulharmos no conceito da construção de realidade, aqui especificamente, a realidade religiosa, capacidade simbólica e seus efeitos, tanto para o agente religioso como para os seus adéptos – e, a partir das fotos apresentadas no capítulo dois, analisamos os espaços, seu rito, sua performance como agente mediadora religiosa e alguns dos símbolos utilizados por ela. Não poderíamos deixar de utilizar os estudos antropológicos de Gilbert Durand, cujas pesquisas sobre imaginário foram internacionalmente reconhecidas, numa percepção que nega a conceitualização reducionista do imaginário com que frequentemente esse costumava ser tratado por seus predecessores, apresentando uma hermenêutica em que esse aparece como importante mediador de realidade. Esse capítulo é marcado por uma característica mais analítica do capítulo anterior, portanto fizeram-se necessárias a retomada de vários pontos. O que as imagens.

(22) 22 do espaço Estância Casa Caminho e Luz, seus prédios e elementos iconográficos têm a nos revelar sobre a construção do imaginário religioso da “Mulher do Algodão”? Quais são as imagens mentais acerca da mesma, tanto na perspectiva de Edelarzil como também a imagem transmitida ao público que a ela recorre? Onde Edelarzil se encaixa em meio o cenário religioso brasileiro? São muitas as questões que se erguem em torno de nosso objeto de pesquisa. No entanto, não temos a pretensão de sanar aqui todas as dúvidas a respeito da “Mulher do Algodão” e cremos que esta pesquisa está longe de esgotar as possibilidades de estudo sobre ela. Ao contrário! A medida em que fomos pesquisando, um leque de possibilidades foi aberto, o que deixa margem para futuros interesses de estudo fenomenológico, antropológico, etnológico etc. O que consideramos positivo e coerente com a complexidade de nossa agente religiosa. Aqui nos limitaremos às características simbólicas-rituais e performáticas de Edelarzil, nos valendo das teorias de Arnold V. Gennep, que apesar datarem em primórdios do século XX, essas tornaram-se bases importantes para os estudiosos acerca dos ritos como Victor Turner, que aprofundou e ampliou o conceito de liminaridade de Gennep. Assim como as contribuições de Richard Schechner, uma referência no que se diz respeito aos estudos da performance, estudos que vão além da performance artística, pois para ele quase tudo pode ser estudado a partir do ponto de vista performático com a afirmativa que a cultura humana é originalmente performativa e ritualizada. Visão essa, compartilhada e trabalhada por Maria Angela Vilhena em sua obra “Ritos: expressões e propriedades”, onde a socióloga brasileira analisa o rito como uma expressão da vida social, atentando especialmente para o rito religioso e diversidade cultural. Assim, as perspectivas de nossos autores vêm a entrelaçar-se para nos ajudar a esclarecer gradualmente o complexo “mosaico” da religiosidade da “Mulher do Algodão”. Também contando com contribuições de pesquisadores da área da Cultura Visual e Material Religiosa do Grupo de Pesquisa Rimago da UMESP – Universidade Metodista de São Paulo – com pesquisas muito atuais da área. Há duas pesquisas em particular acerca dos espaços religiosos que nos foram muito preciosas, o trabalho de campo de Altierez Sebastião dos Santos sobre “O Vale do Amanhecer” em Brasília, abordando os novos movimentos religiosos e o Trabalho de análise dos espaços sagrados dos pesquisadores Helmut Renders e Ana Lídia Albuquerque, atestando a capacidade de multação de sentido da imagem e como ela se desenvolve e se aplica dentro do espaço.

(23) 23 religioso. Assim finalizamos esse texto introdutório, desejando que nossa pesquisa possa ser apreciada pelos nossos leitores e possa contribuir para os estudos das religiões no Brasil e mais especificamente para a área da Cultura Visual e Material que é deveras nova e ainda pouco explorada pelos pesquisadores. Porém, uma área rica, detentora de bens intrínsecos, que muito pode revelar sobre a formação cultural e religiosa do Brasil..

(24) 24. CAPÍTULO 1 A RELIGIOSIDADE POPULAR BRASILEIRA E FENÔMENO DE EDELARZIL, A “MULHER DO ALGODÃO”. Introdução. A busca pela experiência com o transcendente ou divino esteve presente nas mais diversas culturas humanas. O ser humano, diante da sua finitude, busca alcançar algo que satisfaça ou amenize as intempéries que afligem a vida cotidiana, para dar sentido ou mesmo encontrar razão para o existir das coisas. Assim, a essência religiosa do ser humano pode ser traduzida em inúmeras formas. Mesmo que não tenhamos com precisão, acesso ao tempo remoto, podemos nos aproximar ao máximo por meio das marcas que sobreviveram em fontes arqueológicas, bibliográficas, pictóricas etc. Passado e presente se correlacionam, fazendo-se imprescindível o estudo do primeiro para um melhor entendimento do segundo. Portanto, no presente capítulo, iremos caminhar pela formação da religiosidade popular brasileira, a partir do pressuposto de alguns autores como Mendonça, Bittencourt Filho e Ribeiro, que se aprofundaram no estudo das matrizes religiosas brasileiras, estas tendo como principais componentes, a matriz indígena, aqui já existente antes da colonização, a matriz cultural católica, trazida pelos portugueses, e a matriz cultural africana. Houve outras contribuições a esse conjunto, mas que não lograram afetá-lo em sua essência ou em seus contornos. Na primeira parte, falaremos sobre a matriz indígena, lusitana, católica e espírita, considerando não se tratarem das únicas, porém a que cogitamos como sendo as mais relevantes para este estudo. Consideramos que Edelarzil Munhoz Cardoso, professa a fé católica, porém, uma fé mais predominante do catolicismo popular do que o romano. Sendo assim, Num segundo momento, para chegarmos à história de Edelarzil e no que tange à sua religiosidade, vimos ser necessário enfatizar a formação do catolicismo no Brasil e mais especificamente, o catolicismo popular e o protagonismo feminino dentro.

(25) 25 desse. Muitas foram as contribuições das mulheres para as comunidades, não só em questões religiosas, mas também de saúde pública, havendo destaques entre elas, algumas tidas como mulheres santas, beatas e muitas intituladas como rezadeiras ou benzedeiras. Falaremos, na terceira parte, sobre essas mulheres e sobre a participação das mesmas na contemporaneidade. Fazendo esse caminho, situamos Edelarzil como uma protagonista entre essas mulheres, no cenário religioso brasileiro. Ela, obtendo um certo destaque em sua função, devido à originalidade de sua performance ritual: a purificação dos males através da materialização de objetos no algodão, tornando-se a “Mulher do Algodão”, “Médium ou Benzedeira do Algodão”, finalmente, conheceremos sua história.. 1.2 Matriz religiosa brasileira A matriz religiosa brasileira seria, segundo Bittencourt Filho (2003), um acervo de bens simbólicos e valores que são compartilhados como uma “consciência coletiva”, por injunções incontroláveis que ultrapassam as diferentes classes e se incorpora ao inconsciente nacional. A Religiosidade Popular Brasileira, herdeira de um intenso diálogo com essa matriz, que, em termos de imaginário coletivo, ressalta a existência de um mundo espiritual em constante interação com o mundo dos vivos: são anjos, santos, exus, pombagiras, deuses, demônios, espíritos desencarnados, fantasmas, entidades. Enfim, não importa o nome ou a condição moral das almas que dialogam com os brasileiros, o fato é que essa relação é marcada pelas trocas. Aqui utilizamos a teoria abordada por Bittencourt Filho, Ribeiro e Mendonça. Segundo esse: A cultura brasileira tem três componentes muito claros: a cultura iberolatino-católica, a indígena e a negra. A primeira não é representada pelo catolicismo tridentino, mas pela religião popular, folclórica e festiva legada pela tradição lusitana. Dessa mistura de culturas resultou um imaginário de um mundo composto por espíritos e demônios bons e maus, por poderes intermediários entre os homens e o sobrenatural por possessões. Trata-se de um mundo maniqueísta em que os poderes são classificáveis entre o bem e o mal e manipuláveis magicamente. O homem, por meio de agentes especiais, pode organizar este mundo de modo a obter dele benefícios que não são permanentes, mas devem ser negociados no cotidiano. Merecem atenção constante (MENDONÇA, 2008, p. 138, grifos nossos).. Para Mendonça (2008), a religiosidade popular brasileira seria como uma colcha de retalhos em que essas peças da matriz cultural se ajustariam e ao mesmo tempo que são dinâmicas e multáveis. Pensemos em uma placa tectônica: o solo em que pisamos.

(26) 26 pode ser aparentemente inerte, mas nas profundezas ela está sempre em movimento, dançando sobre as rochas líquidas e lentamente toda a forma que conhecemos vai mudando, quase imperceptivelmente. De repente, vemos surgir uma montanha que não estava lá há alguns anos ou uma Ilha ou mesmo a falta delas etc. Assim acontece com as religiões, aparentemente estáveis para quem as praticam, porém, em constante mudança e diálogo umas com as outras por caminhos que não vemos, mas quando percebidas pela razão, as mudanças estão lá. Outro estudioso sobre matriz cultural, José Bittencourt Filho (2003), em seu livro “Matriz Religiosa Brasileira”, denota que o sincretismo na religiosidade brasileira, não foi algo deveras difícil, devida as proximidades das matrizes em alguns aspectos. Índios e africanos, por suas crenças nas forças da natureza, presididas por forças superiores, facilitou a inserção dos mesmos ao catolicismo que aqui se impunha, ao mesmo tempo que, secretamente resistiam pela sobrevivência de seus cultos, gerando um catolicismo sincrético. Outro apontamento de Bittencourt Filho, é que o brasileiro tende a ter uma religiosidade bem marcada pelo sincretismo, podendo haver a “coexistência numa só pessoa de concepções religiosas, filosóficas e doutrinárias por vezes opostas e mesmo racionalmente inconciliáveis”1 (BITTENCOURT FILHO, 2003, p. 68). Segundo o mesmo, o brasileiro possui uma forte inclinação de crer em experiências místicas, praticantes ou não, independente de credo. Crença tal, que ele remete às bases das matrizes coloniais. Essa religiosidade que não é institucionalizada, mas é a ressignificação, a reapropriação de elementos de sistemas religiosos institucionalizados. Sendo assim, a “Matriz Religiosa Brasileira enseja e a Religiosidade Matricial ratifica o êxtase religioso como uma espécie de ápice da experiência direta com o sagrado” (BITTENCOURT FILHO, 2003. p. 72).. 1.1.1 A matriz indígena A obra O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro (2015), inicia-se com uma tentativa de descrição dos povos originários que aqui estavam quando os europeus chegaram no século XVI. Ribeiro retoma o imaginário medieval, no qual havia a lenda da mítica Ilha Brasil (ou Hy-Brasil, o território de São Brandão). Num paraíso terreal, os europeus encontraram centenas de culturas em pleno florescimento e com uma civilização distinta da europeia: os ameríndios haviam logrado domesticar inúmeras plantas medicinais,. 1. Cf. Ferreti, 2013..

(27) 27 alimentícias, cosméticas. Contudo, os europeus não estavam inclinados, pela sua própria história, a relações harmoniosas e deram vazão à sua índole cultural. Os grupos indígenas encontrados no litoral pelo português eram principalmente tribos de tronco tupi que, havendo se instalado uns séculos antes, ainda estavam desalojando antigos ocupantes oriundos de outras matrizes culturais. Somavam, talvez, 1 milhão de índios, divididos em dezenas de grupos tribais, cada um deles compreendendo um conglomerado de várias aldeias de trezentos a 2 mil habitantes (Fernandes 1949). Não era pouca gente, porque Portugal àquela época teria a mesma população ou pouco mais (RIBEIRO, 20015, p. 26).. Houve um choque cultural. Para o povo indígena a percepção de sobrevivência era diferente daqueles que acabavam de chegar. A vida era tranquila numa sociedade solidária, cada um tinha seu papel definido e não possuíam as mesmas ambições que os recém chegados. “Claro que tinham suas lutas, suas guerras. Mas todas concatenadas, como prélios, em que se exerciam, valentes. Um guerreiro lutava, bravo, para fazer prisioneiros, pela glória de alcançar um novo nome e uma marca tatuada cativando inimigos” (RIBEIRO, 2015, p. 37). A rivalidade que havia entre as tribos indígenas, não permitiu que se unissem contra os invasores e, por vezes, foram manipulados por franceses, espanhóis e portugueses, uns contra os outros, se aliando aos seus interesses, em confrontos que resultaram em milhares de índios dizimados. Acostumados com um mundo onde dar e receber era constitutivo, celebraram bem os recém chegados sem prever o massacre que estava por vir. Ao encontrarem os povos indígenas aqui, os europeus os foram classificando e nomeando-os de acordo com um olhar ocidental, contaminado pelas mentalidades etnocêntricas típicas do continente europeu, na qual os outros povos eram no mais das vezes desclassificados, justificando então a dominação colonial, como se houvesse graus diferentes de desenvolvimento humano, como no caso da dicotomia entre seres superiores e inferiores (LINO, 2015, pp. 103104).. Para a catequização dos indígenas, foram necessárias adaptações, pois havia certa resistência decorrente das diferentes visões de mundo. Para diminuir o distanciamento, os jesuítas aprenderam e inseriram novas palavras nos idiomas indígenas e se valeram do próprio conhecimento nativo de seus heróis para introduzi-los ao cristianismo e reinterpretar a mitologia dos mesmos. No entanto, segundo Bittencourt Filho (2003), os indígenas brasileiros não foram inertes nesse processo, mas também foram protagonistas no dinamismo cultural. Os portugueses difundiram devoções a santos guerreiros como São Sebastião e Santo Antônio de Pádua para que no processo de catequização, houvesse.

(28) 28 também uma identificação de pertença para com Portugal. Porém, com o passar dos séculos, as expressões africanas e indígenas das forças da natureza foram sendo reprimidas e os ritos indígenas foram “demonizados”. “Quais os pecados? Vício da carne – o incesto com lugar de destaque, além da poligamia e dos concubinatos –, nudez, preguiça cobiça, paganismo, canibalismo”2 (MELLO E SOUZA, 1986, p. 61). Tem-se notícia de que no contexto da cristandade colonial desenvolveram movimentos messiânicos3 entre os índios, alguns cuja origem antecede o Descobrimento, e que chegaram mesmo a incorporar elementos do cristianismo romano-católico. A tônica de quase todos incluía a expulsão dos brancos, ou seja, o fim da opressão dos colonizadores (BITTENCOUT FILHO, 2003, p. 55, grifos nossos).. No princípio a aproximação, segundo Ribeiro (2015) para com o povo indígena foi pacífica. Alguns índios foram levados para a Europa, sob a promessa de retornarem ao continente americano brevemente, no entanto, os que se foram nunca mais voltaram. Tornou-se uma prática comum levar indígenas para a Europa, onde seriam colocados em exposição para que seus corpos e adereços tido como exóticos, figurassem como uma atração de entretenimento. Primeiramente os indígenas foram desolados pelas inúmeras doenças que o humano branco trouxe. Doenças para as quais eram totalmente indefesos, e depois, por uma conveniência gananciosa, achou-se necessário o extermínio genocida e etnocida e a escravidão começou a ser imposta. Lino narra da seguinte forma: A colonização foi um processo deveras predador. Os indígenas que aqui viviam foram exterminados das mais violentas formas, por epidemias, pois seus corpos não tinham imunidade para com as enfermidades trazidas pelos europeus. Mortes por conflitos de resistência à colonização e verdadeiras guerras com o intuito ocupacional, escravidão. Como escravos, os indígenas não suportavam as altas cargas de trabalho e muitos acabavam morrendo, antes da invasão europeia, não se incluíam em seu cotidiano, trabalhos pesados. Tidos como preguiçosos pelos europeus, os indígenas viviam a realidade do trabalho para a sobrevivência, não havia o intuito de enriquecimento que os europeus almejavam. Eles também foram receptivos e hospitaleiros para com os estrangeiros que aqui chegavam, esses encontraram certa facilidade de aproximação (LINO, 2015, p. 105).. A mulher indígena, segundo Ribeiro (2015) teria sido a matriz fundamental para a geração dos brasileiros, pois poucas eram as mulheres europeias. Os europeus se uniam às índias pelo cunhadismo, gerando um novo gênero, o mameluco, uma estratégia em. 2. Cf. Vainfas, 1995. Movimentos sociais que apresentam em sua origem forte aspecto religioso, em especial a esperança de ver reproduzido na Terra um reino divino, marcado pela bonança e a felicidade. Por isso o nome remete à ideia do messias, esperando pelos judeus para redimir a humanidade. 3.

(29) 29 que, se tornavam parte da tribo e conquistavam favores dos índios, chegando um mesmo homem a ter oitenta terricós. Esta união gerou um povo que não era nem europeu e nem indígena, mas um grupo híbrido que seria o proto-brasileiro. O mameluco lidava com uma dupla rejeição, a do pai que o considerava impuro e da mãe que tinha em sua formação cultural, a concepção de que o filho seria somente filho do pai, sendo a mãe considerada apenas um saco onde era depositada a semente. As mamelucas, procuraram na Igreja um espaço para ser “alguma categoria de gente” e foram as implantadoras do catolicismo popular santeiro no Brasil.. 1.1.2 Matriz católica lusitana O povo português que consigo trouxe a matriz católica, não trouxe necessariamente uma doutrina católica romana seguindo à risca a ortodoxia doutrinária. Em sua pesquisa, Mello e Souza (1986), surpreendeu-se ao constatar que algumas práticas que considerava como resistencia africana, era também comum ao que ela chama de feitiçaria européia. Sendo assim, a feitiçaria estaria ligada a estruturação da colônia brasileira com uma profundidade maior do que a imaginada. A tendência pela busca da cura mágica não é resultado apenas das influências indígenas e africanas, os próprios portugueses chegaram nesta terra, carregados de elementos mágicos, provenientes de sua cultura. Na idade média, a fusão entre realidade e imaginário, que permeia nossa forma de ver o mundo, era tida como sendo uma a extensão da outra e as pessoas enxergavam primeiramente com os relatos, portanto, na literatura eram comuns as histórias de viagens imaginárias para terras desconhecidas ou pouco conhecidas pelos europeus, acompanhadas de elementos fantásticos, até mesmo o pensamento sobre a morte e a pós morte eram permeadas pela ideia das aventuras das navegações e entendida como uma viagem. Mesmo viagens reais como a de Marco Polo, eram narrativas carregadas de vivências irreais e fantásticas. “Desde cedo, portanto, as narrativas de viagens aliavam fantasia e realidade, tornando fluídas as fronteiras entre o real e o imaginário” (MELLO E SOUZA, 1986, p. 24). Assim acontecia com a percepção de céu e inferno e até mesmo com o espaço geográfico, que se confundia entre o real e elementos imaginários. Na religião, a Europa medieval vivia em uma constante luta por equilibrar a ortodoxia do catolicismo oficial romano e as crenças praticadas pelo povo, estamos falando de uma época em que cultura e religião estavam estreitamente ligadas e a Igreja Católica tinha se consolidado sob o Estado. O ímpeto da conquista de novas terras, se.

(30) 30 confundia com o da expansão do cristianismo, esse último excercendo um importante papel legitimador para essas conquistas, emitindo documentos como a bula Romanus Pontifex em 1454 e Inter Coetera de 1493, dadas pelo Papa Nicolau V (RIBEIRO, 2015). Nesses documentos, o papa abençoava e “dava” aos expedidores plenos direitos sobre todas as terras que desejassem conquistar e submeter os povos encontrados ao cristianismo. Abaixo, um trecho da bula Inter Coetera de 1493: […] por nossa mera liberalidade, e de ciência certa, e em razão da plenitude do poder Apostólico, todas ilhas e terras firmes achadas e por achar, descobertas ou por descobrir, para o Ocidente e o Meio-Dia fazendo, fazendo e construindo uma linha desde o polo Ártico [...] quer sejam terras firmes e ilhas encontradas e por encontrar em direção à Índia, ou em direção a qualquer outra parte, a qual linha diste de qualquer das ilhas que vulgarmente são chamadas dos Açores e Cabo Verde cem léguas para o Ocidente e o Meio-Dia […] A Vós e a vossos herdeiros e sucessores (reis de Castela e Leão) pela autoridade do Deus onipotente a nós concedida em S. Pedro, assim como o vicariato de Jesus Cristo , a qual exercemos na terra, para sempre, no teor das presentes, vô-las doamos, concedemos e entregamos com todos os seus domínios, cidades, fortalezas, lugares, vilas, direitos, jurisdições e todas as pertenças. E a vós e os sobreditos herdeiros e sucessores, vos fazemos, constituímos e substituímos por senhores das mesmas, com pleno, livre e onímodo poder, autoridade e jurisdição. [...] sujeitar a vós, por favor da Divina Clemência, como as terras firmes e ilhas sobreditas, e os moradores e os habitantes delas, e reduzi-los à Fé Católica [...] (in Macedo Soares 1939: 25-8) (RIBEIRO, 2015, p. 33).. Os portugueses em si eram muito sincréticos em seu catolicismo, de “forte apego aos santos e a eles nomeando forças da natureza. Práticas já observadas desde o século XV com forte ênfase nas procissões religiosas e missas, um catolicismo mais afeito às imagens e às figuras do que ao espiritual” (MACEDO, 2008, p. 1). Tinham forte sentimento religioso e se consideravam escolhidos por Deus dentre os povos, Vieira afirmava que “Os outros homens, por intuição divina têm só obrigação de ser católicos: o português tem obrigação de ser católico e de ser apostólico. Os outros cristãos têm obrigação de crer a fé: o português tem obrigação de a crer e mais de a propagar” (apud MELLO E SOUZA, 1986, p. 33). Para eles, o sucesso da expansão dependia do empenho em difundir o cristianisno, havendo a pretensa instauração do reino de Deus por meio deles. Envolto em panos, calçados de botas e enchapelados, punham nessas peças seu luxo e vaidade, apesar de mais vezes as exibirem sujas e molambentas, do que pulcras e belas. Armados de chuços de ferro e de arcabuzes tonitruantes, eles se sabiam e se sentiam a flor da criação (RIBEIRO, 2015, p. 38)..

(31) 31 Este imaginário português permitiu aos conquistadores que aqui chegaram a premissa de ter encontrado o Paraíso Terrestre que, havia séculos, era procurado pelos navegadores. A partir de lendas como a de São Brandão – que habitaria uma ilha paradisíaca, cercada por seres monstruosos – e de uma Ilha Brasil, cuja existência, provavelmente fictícia, fora desenhada em diversos mapas desde o século XIII, sendo pressupostas várias localizações (MELLO E SOUZA, 1986). A edenização da natureza ficou registrada em muitas narrativas textuais e visuais, dado o impacto que exerceram sobre os europeus. No entanto, paradoxalmente à prerrogativa de paraíso dado às riquezas da Terra de Santa Cruz, seus habitantes nativos, com sua cultura e religião foram por eles demonizados. O Brasil foi visto tanto como paraíso terreal, em virtude das belezas e das riquezas naturais, como um lugar de sofrimento e expiação, em virtude dos perigos e dificuldades. Os moradores nativos, por sua vez, foram tidos como criaturas semidemoníacas, portanto, absolutamente carentes de conversão (BITTENCOURT FILHO, 2003, p. 48).. A cultura indígena em muito se chocou com a cultura ocidental que era tendenciosamente excludente. Segundo Lino, “os outros povos eram no mais das vezes desclassificados, justificando então a dominação colonial, como se houvesse graus diferentes de desenvolvimento humano, como no caso da dicotomia entre seres superiores e inferiores” (2015, p. 103-104). Sendo assim, travaram a “guerra justa” pela conquista da terra contra os que consideravam bárbaros. A reação indígena para com os invasores foi tida como perseguição cristã e os mortos por indígenas eram considerados mártires. Havia o medo de serem caçados e devorados pelos canibais. “Humanidade esquisita, antihumana, meio monstruosa, diferente, pecadora. Seriam homens mesmo? Poderiam ser convertidos, receber a palavra divina?” (MELLO E SOUZA, 1986, p. 62). Inúmeras eram as acusações de seus pecados e foi assim que, de Paraiso Terrestre à Terra Infernal, a própria mudança do nome Terra de Santa Cruz para Brasil, foi considerada como obra de Satanás. A catequese, então, seria um verdadeiro combate espiritual para converter os seguidores do diabo, como afirmaram alguns jesuítas ao fundador da ordem, Inácio de Loyola. Os próprios sinais da natureza que interferiam na missão com os indígenas eram considerados perseguição de Satanás (MELLO E SOUZA, 1986).. 1.1.3 A matriz Africana Quando os africanos chegaram ao Brasil, colaboraram com a construção da cultura brasileira de maneira associativa. Pouco a pouco a cultura africada foi encontrando seu.

(32) 32 próprio caminho dentre as culturas, influenciou e foi influenciada. Com a proibição do culto africano e a imposição do cristianismo, o sincretismo foi a solução. Se o povo indígena, principalmente as mulheres, segundo Darcy Ribeiro (2015) devem ser reconhecidas pela história, por serem os ventres que geraram os brasileiros, podemos afirmar que o povo africano também teve uma excepcional contribuição na mestiçagem e foram os que mais contribuíram para a construção da civilização brasileira4, dando o suor de seu trabalho em condições das mais desumanas, o da escravidão. Em meados do século XV, vendo as dificuldades de escravidão indígena, os europeus começaram a importar pessoas do continente africano para serem escravos. Essas pessoas eram trazidas e anuladas em sua humanidade, tiveram sua cultura e religião identificadas como demoníacas, foram perseguidos e submetidos à conversão forçada. Muito se é falado e aprendido nas escolas sobre a cultura grega e romana, e seus mestres, mas os grandes mestres africanos não são mencionados. No entanto, quando os portugueses chegaram à África, os africanos já dominavam as técnicas de plantio. Os povos do oeste africano tinham sistemas agrícolas bem desenvolvidos, comércio regulamentado e conheciam grande número de ligas artesanais. Muitos povos africanos tinham técnicas mais avançadas do que os lusos, tais como a metalurgia e a siderurgia. Trabalhavam o cobre e o estanho, trazendo esse conhecimento também ao Brasil. Os lusos vieram a conhecer a enxada de ferro com os ganenses e nigerianos (SANTOS, 2016, p. 218).. Os africanos já dominavam técnicas avançadas da medicina, como cita Cunha (2012), segundo esse, há um equívoco em relação a quem seria o pai da medicina, hoje atribuída ao grego Hipócrates “A condição de Pai da Medicina seria mais apropriada ao cientista e clínico egípcio Imhontep, que quase três mil anos antes de Cristo praticava quase todas as técnicas básicas da medicina” (p. 6). Mencionando também a sofisticada técnica de mumificação que desenvolveram e os indícios de alto desenvolvimento para tratamentos, inclusive com cirurgias cerebrais. No campo da astronomia ele destaca: Nesse campo de conhecimento é interessante citar as contribuições dos antigos africanos da nação Dogon, situados na região do antigo Mali. Eles já tinham conhecimento da existência do “pequenino” satélite da estrela Sirius, o Sirius B, invisível a olho nu. Denominavam-no Potolo, e desenhavam, com exata precisão, a sua órbita em torno de Sírius (CUNHA, 2012, p. 8).. Por motivos de interesses comerciais, os europeus se aproximavam dos reis africanos, a estratégia era a cristianização. Convertendo o rei, ficava mais fácil introduzir 4. Cf. Monteiro, 1994..

Referências

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