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A Matriz Espírita

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1.2 Matriz religiosa brasileira

1.1.4 A Matriz Espírita

Sob o pseudônimo de “Allan Kardec”, Hippolyte-Leon Denizard Rivail, um revisor de gramática francesa, publica sua obra Le livre des Esprites (1857) ou “O Livro dos Espíritos” na versão em português. A pretensão era criar uma tríplice doutrina: uma religião científica e filosófica. Os princípios do espiritismo de Kardek se centravam na imortalidade da alma, na possibilidade de comunicação com os espíritos e a reencarnação dos espíritos.

O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações.

[...] O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal (KARDEC, 2013, p. 40).

O princípio do espiritismo, segundo Fernandes (2008), tem em sua raiz o interesse de Kardec pelo fenômeno das “mesas girantes ou dançantes” que aconteciam nos salões da burguesia parisiense. No princípio de sua pesquisa em 1854, acreditava se tratar de um fenômeno do magnetismo ainda não esclarecido pela física, porém, “Essas mesas, ainda segundo relatos, geralmente, executavam ordens dadas” (p. 9) como bater as pernas um determinado número de vezes para indicar uma letra ou dando voltas em tordo de si. Isso levou Kardec a crer que estava diante de um fenômeno sobrenatural, e por conseguinte a fundamentar a doutrina espírita. Fernandes também sublinha a ausência da palavra religião no começo do espiritismo que só passou a ser usada após 1863.

O primeiro contato do Brasil com o espiritualismo teria sido por volta de 1853, com as notícias das “mesas dançantes”, pouco antes de Kardec conhecer e consolidar a doutrina espírita. Chegando a ser notícia a possibilidade da evocação dos espíritos através das mesmas (MENEZES, 2012). “No dia 12 de Agosto desse ano, Dr. Cesário, eminente personalidade da época, assina um artigo no Jornal do Comércio onde afirma ter conseguido respostas inteligentes das mesas” (FERNANDES, 2008, p. 82). Quando o espiritismo de Kardec finalmente chegou ao Brasil em meados do século XIX, mais especificamente na Bahia, ocorreu o fenômeno de ser ressaltado mais o lado religioso do espiritismo do que sua doutrina filosófica e científica, ganhando novos contornos. Em um cenário diferente da qual o espiritismo tinha encontrado resistência em sua terra de origem, a França, no Brasil foi o espiritismo que teve que apresentar certa resistência para

com a apropriação e aculturação da doutrina espírita pelos brasileiros. Pois aqui já havia um ambiente favorecido, o brasileiro já estava habituado a conviver com as culturas mais diferentes. Em nossa formação cultural, e aqui vale relembrar, que as culturas indígena, lusitana e africana, não tinham quaisquer problemas de aceitação para com o sobrenatural. A formação básica brasileira era dada ao misticismo e foi um berço propício para a instauração da doutrina espírita. Também, segundo Fernandes (2008), a instabilidade social e a Guerra do Paraguai também foram fatores que estimularam a busca do povo pelas consultas místicas.

Praticamente todos os aspectos culturais e sociais responderam de alguma maneira à entrada do espiritismo no Brasil. A nossa

intelligentsia, nossos magistrados, o Imperador D. Pedro II e a princesa

Isabel, a população, o clero, os jornais, enfim, todo mundo queria saber ou algo falar dessa doutrina que aqui chegava com pretensões de ficar e de também mudar o trato brasileiro com a religião, pois vale ressaltar que, apesar de ter sofrido fortes influências, o espiritismo também buscava influenciar a nossa cultura. Todavia, fato é que aqui chegou e aqui ficou, tanto que hoje, podemos dizer, quando falamos de espiritismo, seja em qualquer lugar do mundo, o nome Brasil surge como a “sede maior” dessa doutrina (FERNANDES, 2008, p. 77).

O espiritismo que era até então uma doutrina para os intelectuais da burguesia, e entretenimento para curiosos, se espalhou popularmente, com a fundação de centros espíritas. O primeiro a ser fundado, foi o Grupo Familiar do Espiritismo (1866), em Salvador.

Na mesma proporção da aceitação, começaram os combates pastorais por parte da Igreja Católica, pois a doutrina espírita contraria os princípios do cristianismo da ressurreição dos mortos. Houve também o combate por parte da imprensa baiana. Tal polêmica colocou o espiritismo em evidência, atraindo mais adeptos e ganhando força no Rio de Janeiro. Coincidindo com as reinvindicações republicanas da época, muitos “simpatizantes” estavam inseridos no manifesto.

[...] o espiritismo foi simpático a muitas causas “progressistas” do país, como a abolição e a república. No caso da abolição, porque a escravidão feria os preceitos cristãos do espiritismo6, que manda amar o próximo

como a si mesmo, e também pela orientação liberal da doutrina que conjugava igualdade e liberdade, princípio que não era praticado à época (FERNANDES, 2008, p. 87, grifos nossos).

6 Interessante essa fala “princípios cristãos do espiritismo”, demonstra a rapidez que esse se cristianizou-

Após trinta anos do espiritismo de Kardec chegar em terras brasileiras, a doutrina já tinha ganhado uma força tamanha colocando o Brasil como um dos países com maior aceitação de adeptos no mundo. Sobreviveu o espiritismo “místico” e como a homeopatia ainda não era consolidada, sua ligação com o espiritismo era tida como feitiçaria na recém nascida república. Foi o Dr. Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti que acabou por ser determinante para a estabilização do espiritismo brasileiro como uma religião, estipulando a “Orientação pelo Evangelho”. Sendo as terras brasileiras, solo fecundo para a proliferação da diversidade, logo, além do espiritismo propriamente dito, houveram muitas apropriações de elementos espíritas. Como exemplo disso, “o pajé e o pai-de-santo tornar-se-iam médiuns espíritas, agora dotados de um poder maior [...], porque agora conheciam as artes e o segredo daquela doutrina que era até então um privilégio dos ricos” (FERNANDES, 2008, p. 93). E assim ocorreu popularmente nas mais diversas manifestações religiosas como na cartomancia e provavelmente entre os curandeiros e benzedeiras.

Apesar do espiritismo negar que existam diversos espiritismos no Brasil, não podemos deixar de citar as contribuições de líderes espíritas citadas por Stoll (2004), como Chico Xavier falecido em 2002, psicógrafo que no começo de sua carreira como médium foi considerado por muitos uma farsa, após tentar materializar espíritos em fotografias, assim como tantos médiuns de sua época e depois tornou-se uma referência da psicografia espírita. A médium Cacilda que incorporava, supostamente, o espírito do Exu Seu Sete da Lira, as contribuições literárias no meio espírita por Zíbia Gasparetto e Antônio Gasparetto, psicólogo, que teria o dom mediúnico da psicopictografia, pintando quadros que seriam de artistas famosos como Vangog, Manet, Renoir, Picasso, dentre outros, ganhando fama internacional e mais tarde se tornando adepto das novas terapias decorrentes da onda “Nova Era”, enfatizando em suas palestras o discurso da auto-ajuda. Sendo assim, o espiritismo brasileiro, que ao se instalar no Brasil, assumiu o “estilo católico” e sofreu as transformações decorrentes das influências matriciais, como a “umbandização”, numa linguagem muito acessível e clara, pode ser percebido com seus contornos particulares em cada uma das personalidades citadas.

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