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(2) PATRICIA CRISTINA SANTOS DA SILVA. A INSERÇÃO DE BEBÊS EM CRECHES: UM OLHAR PARA AS POLÍTICAS PÚBLICAS. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista de São Paulo em cumprimento parcial às exigências para a obtenção do título de Mestre. Orientadora: Profa. Dra. Maria Leila Alves Área de concentração: Educação. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2015 1.
(3) A dissertação de mestrado intitulada “A inserção de bebês em creches: um olhar para as políticas públicas”, elaborada por Patricia Cristina Santos da Silva, foi apresentada e ______________ em 14/04/2015, perante banca examinadora composta por Profa. Dra. Maria Leila Alves (Presidente/UMESP), Prof. Dr. Décio Azevedo Marques de Saes (Titular/UMESP) e Prof. Dr. Rômulo Pereira Nascimento (Titular-UNICSUL).. ____________________________________________ Profa. Dra. Maria Leila Alves Orientadora. ___________________________________________ Décio Azevedo Marques de Saes Presidente da Banca Examinadora. ____________________________________________ Profa. Dra. Roseli Fischmann Coordenadora do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Educação da Universidade Metodista de São Paulo Área de Concentração: Educação Linha de Pesquisa: Políticas e Gestão Educacionais. 2.
(4) Dedico este trabalho às pessoas mais importantes da minha vida: A Deus, pela sua presença em minha vida, que me capacitou com sabedoria e persistência, permitindo-me a conquista de mais uma vitória. Ao meu esposo Ari e à minha filha Ana Beatriz, que pacientemente, enfrentaram comigo esta árdua tarefa, permanecendo ao meu lado durante esses dois anos de trabalho em um curso de Pós-Graduação em nível de Mestrado. Pelo amor, paciência, amizade e incentivo que sempre me ofereceram, meu muito obrigada! Aos meus pais, Maria e José, que sempre acreditaram em mim e motivaram-me com o orgulho que expressavam em ter uma filha professora. 3.
(5) AGRADECIMENTOS Agradeço carinhosamente à Profa. Dra. Maria Leila Alves, que aceitou ser minha orientadora e, neste breve percurso, trouxe-me muitos ensinamentos. Ao Prof. Dr. Décio Azevedo Marques de Saes, por seu profissionalismo, generosidade, apoio, e dedicação, que foram marcantes. Grande é a minha admiração pela sua pessoa e pelo educador que é. Agradeço também por suas valiosas contribuições em relação às reflexões desta dissertação. Ao Prof. Dr. Roger Marchesini de Quadros Souza, por suas valiosas contribuições na Banca de qualificação, as quais indicaram ricas possibilidades de aprofundamento com sua vasta experiência e fizeram-me enxergar novos horizontes, desafios e reflexões. Ao Prof. Dr. Rômulo Pereira Nascimento, que aceitou o convite para participar da Banca de defesa e se dispôs a tomar de seu tempo para ler meu trabalho. Aos amigos do Mestrado e às companheiras de trabalho, pela amizade, pelo apoio para a concretização deste curso. Obrigada por dividirem comigo as angústias e alegrias. Foi bom poder contar com vocês! Agradeço também à diretora da creche, lócus da pesquisa, e a todas as profissionais que dela participaram, principalmente, às professoras de sala do grupo dos bebês. A todos os docentes/pesquisadores do Programa de Pós-Graduação, Mestrado em Educação da Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), pelo conhecimento e experiências compartilhadas e pelos ensinamentos que contribuíram para a conclusão deste trabalho. Por fim, à UMESP, pelo apoio financeiro ao conceder uma bolsa integral para a concretização do Mestrado.. 4.
(6) Essa história aconteceu há pouco tempo atrás, por volta do ano de 2007. É a história de uma professora, Ela amava o que fazia, Mas ainda era muito jovem e tinha muito que aprender. Trabalhou na educação infantil Com crianças de dois, três e quatro anos; E também no fundamental Com crianças de oito, e nove anos. Mas um dia, algo diferente e inesperado aconteceu Foi trabalhar com crianças bem pequenas, ainda bebês. Foi uma situação diferente Mesmo porque, a professora não havia aprendido o suficiente Não sabia o que fazer, sua família, que tanto se orgulhava da filha, sobrinha e neta professora viviam a perguntar... em qual série você está a lecionar? A professora, sem saber o que falar, Dizia que dos bebês estava a cuidar e alimentar Um belo dia, ainda nos primeiros da nova rotina da professora Ela sem esperar deixou escapar um assustador espirro Os bebês que estavam todos a chorar Pararam e olharam assustados Até que para surpresa da professora inexperiente, o bebê de choro mais insistente, caiu na gargalhada. E logo em seguida, imitou o som produzido pelo espirro da professora E ainda mais, com um olhar que muito falava e com balbucios insistentes Solicitava da professora o som eminente Naquele momento algo diferente aconteceu O coração da professora parou de ficar acelerado, O nervosismo sumiu E sentada com os bebês ao seu redor na gargalhada caiu. Daquele dia em diante, a professora que ainda tinha muito que aprender Dedicou-se a ler sobre os bebês E percebeu, que não era só cuidar e alimentar Mas ler, cantar, recitar, dançar e por que não... conversar. (Patrícia Silva). 5.
(7) RESUMO O presente trabalho propõe um estudo sobre a inserção de bebês em creches públicas no município de São Paulo. De acordo com Rosemberg (2010), a infância constitui fase importantíssima na formação da criança e embora a duração da primeira infância seja de curta duração, considerando-se a expectativa de vida de 70 anos, ela constitui a vida inteira dos bebês e das crianças pequenas. Nos dias atuais os bebês ingressam na creche a partir dos quatro meses de idade e lá permanecem por até dez horas. Nesse sentido, esta pesquisa buscou compreender as políticas públicas para esse atendimento, o qual, com a Constituição de 1988, foi considerado a primeira etapa da Educação Básica compondo a Educação Infantil brasileira, de oferta obrigatória e direito das crianças, garantindo, em complementação à família, o desenvolvimento integral da criança pequena. Desse contexto, alguns questionamentos foram trazidos para a discussão: quais as propostas de atendimento de bebês na creche e como funcionam as instituições que os recebem? Qual o olhar das políticas públicas para esse segmento de educação? A Constituição garante o ingresso dos bebês na creche, mas e seu desenvolvimento integral, está garantido? Recentemente atrelada à esfera educacional, a creche tem o desafio de compreender seu papel com essas crianças, desvinculando-se de práticas apenas assistencialistas e higienistas, e de construir novas concepções acerca desse atendimento. Tais concepções ficam explícitas não nas politicas públicas, mas efetivam-se na prática da creche, nas atividades desenvolvidas, nos espaços e processos pedagógicos pensados para receber o bebê. Em face do exposto, esta pesquisa possibilitou inferir que, apesar dos avanços acerca do atendimento educacional ofertado a primeira infância, falta ainda clareza por parte da sociedade em geral, sobre a importância de uma educação de qualidade para as crianças pequenas e seu impacto na formação humana. Essa lacuna merece o olhar das políticas públicas, uma vez que demanda ações nas diversas instâncias da creche, desde a formação e a valorização do professor de Educação Infantil, até a estrutura física e a escassez das vagas. Os poucos estudos que discutem tais políticas para a educação de bebês nas creches, justificam a realização deste trabalho. Palavras-Chave: Políticas Públicas. Educação Infantil. Creches. Bebês.. 6.
(8) ABSTRACT. This paper aims to discuss public child daycare centers in São Paulo municipality, especially in regard to the services provided to babies. Although the duration of early childhood is short, considering a 70-year life expectancy, it is a very important phase in the child’s education, and it is the entire life of babies and small children (ROSENBERG, 2010). Nowadays in Brazil, babies join daycare centers when they are as young as four months of age, and they can remain in there for up to ten hours each day. In light of these, this research sought to understand the public policies involved in the provision of this public service, which, according to the Federal Constitution of 1988, is the first stage of Basic Education. Basic Education composes the Brazilian Childhood Education program, which is compulsory and a child’s right, and should ensure, in complementation to family, the comprehensive development of young children. In this context, this research aimed to discuss the following questions: How do these daycare centers work? Which are the proposals for taking care of these babies? What are the public policies for this segment of education? The Constitution guarantees the enrollment of babies in daycare centers, but, is their education really guaranteed? Day care was only recently bound to the educational scope, and now it is challenged to understand its new role, build new conceptions and detach itself of the image of being mere providers of welfare and hygienists practices for babies and small children. Such conceptions are not explicit in public policies, but become effective in the daycare center practices, and in the educational spaces and processes designed to receive the baby. This research allowed us to infer that, despite progresses on the educational services offered for early childhood, society in general is not yet completely aware of the importance of quality education for young children and its impact on the education of the human being. Public policies should try to overcome this gap, since it demands actions at different levels and aspects of the daycare education, from teacher’s training and recognition to infrastructure and lack of vacancies. The importance of this research is highlighted due to the small number of existing studies discussing such policies for the education of babies in day care centers. Keywords: Public Policies. Early Childhood Education. Child Daycare Centers. Babies.. 7.
(9) LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS. ATE – Assistente Técnico Educacional CEI – Centro de Educação Infantil MEC – Ministério da Educação e Cultura DCNs – Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente FCC – Fundação Carlos Chagas FUNDEB – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação FUNDEF – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira Legislação e Documentos LDB – Lei de Diretrizes e Bases MEC – Ministério da Educação ONU – Organização das Nações Unidas PEA – Plano Estratégico de Ação PNAD - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNE – Plano Nacional de Educação PPP – Projeto Político Pedagógico RCNEI – Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância. 8.
(10) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO.................................................................................................... 11. 1 ATENDIMENTO INSTITUCIONAL DE BEBÊS: ESTUDO HISTÓRICO............................................................................................... 18. 2 A LEGISLAÇÃO EDUCACIONAL: ALGUNS ASPECTOS SOBRE O ATENDIMENTO DE BEBÊS EM CRECHES...................................................... 36. 3 ALGUNS ESTUDOS SOBRE A CRIANÇA DE 0 A 2 ANOS.......................... 50. 4 PROCEDIMENTOS DA PESQUISA: A CRECHE NA VISÃO DE EDUCADORAS DE BERÇÁRIO....................................................................... 4.1 A CIDADE DA PESQUISA: SÃO PAULO.................................................... 4.2 ESCOLA....................................................................................................... 4.3 ENTREVISTAS............................................................................................ 4.4 AS PROFESSORAS.................................................................................... 4.4.1 O Perfil das Professoras Participantes..................................................... 4.5 ANÁLISES DE DADOS A PARTIR DA PESQUISA DE CAMPO................. 4.5.1 Práticas Pedagógicas............................................................................... 4.5.2 Aspectos Políticos e Estruturais................................................................. 63 64 65 65 67 68 69 72 88. 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................. 96. REFERÊNCIAS................................................................................................... 103. ANEXO 1............................................................................................................. 108. APÊNDICE 1....................................................................................................... 109. APÊNDICE 2....................................................................................................... 110. 9.
(11) Introdução Muitas são as questões e é necessário pensar a institucionalização da infância hoje a partir de novos paradigmas, reinventando o trabalho nas creches e pré-escolas, flexibilizando as rotinas, dando leveza ao cotidiano de crianças e adultos que partilham essas instituições, levando a multiplicidade presente no mundo contemporâneo sem perder a consistência, sendo eticamente exatos na valorização do homem, pensando suas relações consigo mesmo, com o outro e com o meio ambiente, dando visibilidade à criança a partir de suas formas de expressar e significar o mundo. Mas tudo isso exige rapidez, porque a infância não espera. (CORSINO, 2009, p. 29). 10.
(12) INTRODUÇÃO Esta dissertação apresenta uma discussão acerca do atendimento de bebês em instituições de educação infantil. As creches públicas, recentemente incluídas na primeira etapa da educação básica, são o órgão responsável pelo atendimento de crianças de 0 a 3 anos de idade. Dessa maneira, o foco central abordado nesta pesquisa está direcionado às políticas públicas educacionais que outorgam espaço legal para que as crianças pequenas sejam atendidas fora do âmbito familiar. Compreender aspectos históricos e legais em que a creche vem se constituindo enquanto espaço educacional é o propósito desta pesquisa. A necessidade dessa discussão surge, principalmente, no modelo atual de sociedade capitalista em que estamos inseridos, no qual a mulher trabalhadora, após a licença maternidade, retorna ao trabalho e confia seu bebê à creche. Atualmente cresce o número de pesquisas sobre os bebês e o desenvolvimento que ocorre no espaço coletivo da creche. Essas pesquisas compreendem a criança na tenra idade como seres plenos e sujeitos de direitos, com características próprias de seu desenvolvimento e com uma linguagem que nem todos compreendem, à exceção daqueles que realmente os escutam, que os olham e realmente os veem. Nesse sentido, esta pesquisa caracteriza-se pela necessidade de se compreender as políticas públicas para a inserção do bebê na creche, partindo da concepção de que o bebê se desenvolve desde o nascimento, passando por diferentes fases, de descobertas, vivências, transformações e construções, tudo isso aliado e voltado para seu conhecimento, inteligência e amadurecimento humano. Segundo Galvão (1995), essas primeiras vivências de desenvolvimento durante o primeiro ano de vida, constituem o estágio impulsivo emocional, no qual a interação da criança com o meio torna-se instrumento privilegiadamente importante. No estágio impulsivo emocional, que abrange o primeiro ano de vida, o colorido peculiar é dado pela emoção, instrumento privilegiado de interação da criança com o meio. Resposta ao seu estado de imperícia, a predominância da afetividade orienta as primeiras reações do bebê às pessoas, as quais intermediam sua relação com o mundo físico; a exuberância de suas manifestações afetivas é diretamente proporcional a sua inaptidão para agir diretamente sobre a realidade exterior. (p. 43). 11.
(13) Com base na realidade social de famílias que trabalham em período integral e da criança que adentra um mundo escolar ainda bem pequena, torna-se importante investigar esse espaço de atendimento nas suas diferentes esferas, principalmente em se tratando de algo recente que se realiza não apenas por iniciativa dos governantes que consideram necessário um atendimento de qualidade a essa faixa etária, mas no contexto atual causado pela necessidade das classes trabalhadoras. Para tanto, este estudo apresenta um percurso histórico e social da constituição da creche e do atendimento de bebês em instituições. Constata-se o atendimento de bebês em asilos também conhecidos como orfanatos, quando fatores socioculturais eram as causas desse atendimento atrelado à assistência. Atualmente, com o aumento da industrialização e a necessidade cada vez maior de luta por uma vida um pouco mais digna tanto de homens como mulheres no mundo capitalista, observa-se a realidade de pais que cumprem uma jornada de trabalho muito exigida, ou seja, oito horas diárias ou mais. O contexto histórico revela que antigamente a mulher era responsável pelos cuidados da casa e educação dos filhos, e hoje se encontra inserida no mercado de trabalho, sendo a creche, portanto, uma política do governo para cuidar e educar a criança pequena enquanto a mãe trabalhadora está em atividade profissional. A creche, uma instituição reconhecida como espaço educacional, atende crianças de 0 a 3 anos de idade e divide com a família a responsabilidade de educar e cuidar. Nesse atendimento, destaca-se o oferecido aos bebês, foco desta pesquisa. Para as famílias brasileiras, de todo o tipo de organização, o trabalho da mãe se tornou imprescindível para a manutenção da qualidade e do padrão de vida, especialmente após o aumento para 16 anos da idade legal para ingresso no mercado de trabalho. (ROSEMBERG, 2010, p. 172). Os bebês são recebidos nessas instituições, geralmente, a partir dos 3 meses de idade, de acordo com a legislação trabalhista vigente que assegura à mulher o direito à licença maternidade, que compreende o período de 4 ou 6 meses dependendo da instituição em que a mãe trabalha. O Art. 392 da Lei nº 10.421/2002 prevê: “a empregada gestante tem direito à licença-maternidade de 120 (cento e vinte) dias, sem prejuízo do emprego e do salário”. (BRASIL, 2002). 12.
(14) Batista (1998) ressalta o tempo de permanência dos bebês nessas instituições: “de dez a doze horas por dia, sessenta horas por semana, duzentos e quarenta horas por mês, duas mil e quatrocentas horas por ano.” (p. 3) Diante dessa realidade, torna-se importante estudar esses fenômenos a fim de contribuir com o olhar necessário para essa fase importante e para as instituições educacionais, que devem oferecer condições de desenvolvimento integral, como um direito garantido pela Constituição Federal de 1988. A partir do ponto de vista legal é um direito da criança e dever do Estado, estando os municípios incumbidos dessa oferta. Analisar as políticas públicas focando no atendimento oferecido às crianças no seu primeiro ano de vida pode ser o caminho para tal compreensão. Pretende-se abordar como se estruturou o atendimento a essa faixa etária que hoje é contemplada pela educação básica. Quais as propostas de atendimento de bebês na creche e como funcionam as instituições que os recebem? Qual o olhar das políticas públicas para esse segmento de educação? A Constituição garante o ingresso dos bebês na creche, mas e seu desenvolvimento integral, está garantido? Pode ser que a tais fatos não seja dada a devida importância pela falta de conhecimento sobre o assunto. Profissionais da área da educação, pais e até mesmo autoridades responsáveis, desconhecem a influência desse período para a formação da criança. É possível observar a falta de estudos sobre bebês, o que contribui para a existência de lacunas na formação e atuação dos profissionais que atuam com os mesmos. A falta de estrutura e a qualidade oferecida nos berçários demonstram o despreparo e o distanciamento entre a criança pequena e as políticas educacionais para esse segmento. Sobre essa dificuldade, o MEC divulgou, em 2009, um relatório que avaliou as Políticas para a Educação Infantil no Brasil. No que se refere às creches, esse documento descreve que: “O desafio maior é transformá-las em instituições educacionais, um processo que se encontra estagnado” (BRASIL, 2009, p. 26). A Educação Infantil, principalmente o berçário, são deixados de lado, o que não deveria acontecer, pois nessa fase o conhecimento adquirido é de relevância para a vida. O interesse por esta pesquisa surgiu, também, em decorrência da atuação da autora deste presente estudo, como professora de berçário, tanto na esfera pública quanto na privada. Inquietações foram surgindo com relação aos profissionais que. 13.
(15) atuavam com os bebês e das gestões que por falta de compreensão, nada propunham para o trabalho com essa faixa etária. Assim os bebês ficavam ociosos e aquém do que deveriam receber no ambiente escolar e quase não eram vistos na creche, pois os espaços eram destinados e pensados para os maiores e, portanto, perigoso e inapropriado para os bebês. Estes não iam à biblioteca, ao parque, não tinham outro espaço fora da sala chamada de berçário, com alguns berços e tatames no chão, cadeirinhas e alguns brinquedos. Por um lado, ninguém queria trabalhar no berçário, aliás, a pessoa a quem era atribuída função no berçário, recebia a notícia como um rebaixamento de cargo; por outro, havia o interesse pelo trabalho com os bebês pelo fato de não haver cobrança quanto ao planejamento pedagógico. Dada a relevância do trabalho com os bebês, as competências que eles podem adquirir no primeiro ano de vida como engatinhar, andar, balbuciar, reconhecendo o berçário como espaço de desenvolvimento, de construção de experiências ricas, torna-se importante conhecer essa fase dos bebês no primeiro ano de vida, refletir sobre o que deve ser oferecido para contribuir com esse processo, garantindo o que a LDB propõe como desenvolvimento integral e pleno, investigar o que os teóricos têm estudado a esse respeito e verificar quais as propostas das políticas públicas para o atendimento dos bebês nas creches brasileiras. Assim, a pesquisa foi realizada por meio de consultas a documentos históricos e legislativos que permitiram compreender como se estruturou o atendimento da criança pequena em instituições fora do ambiente familiar e como essa nova condição tem sido gerida pelas políticas públicas nas escolas. Uma pesquisa bibliográfica subsidiando reflexões sobre a importância desse período de vida da criança e como a mesma pode influenciar na formação humana, também constituiu este estudo, que foi finalizado com a análise de entrevistas de aprofundamento realizadas com cinco educadoras que trabalham no berçário de uma creche municipal da cidade de São Paulo. Quanto às hipóteses, cabe ressaltar que no estado capitalista contemporâneo registra-se no plano da implementação das políticas públicas, uma despriorização do atendimento às classes populares, dado que o corpo burocrático tem os seus horizontes ideológicos e culturais conectados ao universo mental da classe média. Nos estudos realizados, fica explícito a compreensão da importância da primeira 14.
(16) infância por parte das políticas públicas, nesse caso, o pouco investimento que subsidia a educação infantil pode estar relacionado a um propósito do estado que se manifesta através dos recursos. Especificamente, no caso da Educação Infantil essa despriorização se manifesta por um atendimento de menor qualidade prestado por professores inseridos no universo ideológico da classe média, e submetidos a influências ideológicas e mesmo políticas da burocracia de estado. O atendimento deficitário às crianças na educação infantil pode se dever, complementar ou alternativamente à falta de preparo obtida no processo de formação docente e a não compreensão das especificidades da primeira infância por uma questão cultural e histórica. A baixa qualidade no atendimento à criança de 0 a 3 anos pode decorrer do reduzido montante de investimento realizado pelo estado nesse terreno, em razão do descaso e despriorização do atendimento ao público composto basicamente pelas demandas das classes populares. Como fundamentação, esta pesquisa apoia-se no referencial sócio-histórico, que tem, como principais teóricos Demerval Saviani, Moysés Kulhmann Jr, Fúlvia Rosemberg, entre outros. Partindo desse referencial, compreende-se que a criança recebe influências desde a gestação e, ao nascer, continua seu processo de experiências com o mundo externo ao útero. Desta forma, todas as experiências e estímulos recebidos, contribuem para sua formação permanente. O período que constitui seus primeiros anos de vida é uma fase importantíssima na qual a criança pode desenvolver suas potencialidades por meio da interação estabelecida com o mundo que lhe é apresentado pelo outro, seja adulto ou criança. Em face do exposto, foi possível estruturar a pesquisa. O primeiro capítulo – Atendimento institucional de bebês: estudo histórico – realiza um breve resgate histórico dividindo os períodos colonial, imperial e republicano visualizando a criança pequena e sua atuação na sociedade, direcionando a discussão para a roda dos expostos que foi a primeira instituição a receber a criança pequena com a contratação das amas de leite. No segundo capítulo – A legislação educacional: alguns aspectos sobre o atendimento de bebês em creches – o olhar é direcionado para a constituição das leis e cenários sociais e políticos que contribuíram para o reconhecimento e a qualificação das creches como espaço educacional. 15.
(17) O terceiro capítulo – Alguns estudos sobre a criança de 0 a 2 anos – realiza um diálogo com estudos que reconhecem e comprovam a importância da primeira infância para o desenvolvimento da criança na educação infantil e as contribuições dessa fase para sua formação. Realiza, ainda, uma abordagem de cunho teórico para fundamentar a discussão e as proposições apresentadas nas questões norteadoras desta pesquisa. O quarto capítulo – Procedimentos da pesquisa: a creche na visão de educadoras de berçário – traz a metodologia e as entrevistas realizadas em uma creche de São Paulo, com vistas a legitimar, por meio das práticas observadas, alguns aspectos apresentados e detectar fragilidades e/ou avanços dessas instituições no que diz respeito ao atendimento de bebês. Inicialmente, portanto, há que se compreender como a creche foi se constituindo historicamente em um espaço de educação infantil, conforme apresenta o capítulo a seguir.. 16.
(18) Capítulo 1 A história da educação infantil também sugere esse tipo de consideração. As instituições de educação da criança pequena estão em estreita relação com as questões que dizem respeito à história da infância, da família, da população, da urbanização, do trabalho e das relações de produção, etc. – e é claro, com a história das demais instituições educacionais. (KUHLMANN JR., 2010, p. 16). 17.
(19) 1 ATENDIMENTO INSTITUCIONAL DE BEBÊS: ESTUDO HISTÓRICO. Refletir e discutir sobre a educação de bebês em instituições formais e fora do ambiente familiar torna-se cada vez mais necessário à medida que cresce a inserção de bebês em creches e instituições de atendimento à primeira infância. Desta forma, é fundamental compreender a importância dessa fase na educação dos bebês e conhecer como a experiência vivenciada nesses espaços coletivos contribui para o seu desenvolvimento. Para discutir a temática com maior possibilidade de reflexão, é essencial remeter o olhar à história das crianças pequenas e às instituições que as acolheram fora do âmbito familiar compreendendo historicamente seu espaço na sociedade no decorrer dos períodos históricos. A criança sempre esteve presente na sociedade, porém apenas recentemente foi considerada ser social, produtor de cultura e sujeito de direitos como prevê a Constituição Federal de 1988, abordada no próximo capítulo. Já no período colonial, é possível identificar a atuação da criança desde os primórdios históricos. Nas embarcações portuguesas quinhentistas que vinham explorar as terras brasileiras, há registros da atuação de crianças pequenas, as quais, devido à pobreza, trabalhavam e eram exploradas, inclusive sexualmente, pelos. marujos, homens considerados da pior espécie que, condenados a. decapitação ou enforcamento, trocavam sua pena pelo serviço marítimo. Além disso, os poucos adultos disponíveis em Portugal migravam para as colônias ou, simplesmente, faziam de tudo para escapar do serviço no mar. Enquanto os ingleses procuraram suprir a falta de mão de obra adulta livre em seus navios por meio da utilização de escravos e negros alforriados, os portugueses optaram pela utilização de crianças. (PRIORE, 2010, p. 23). Na chegada ao Brasil os padres jesuítas tinham como foco principal catequizar as crianças indígenas, pois reconheciam que deveriam investir na fase da infância, entendendo que por meio da educação oferecida a elas desde pequenas é que se alcançariam adultos dentro dos padrões considerados corretos. Assim, essas crianças eram os alvos principais dos padres, que objetivavam inculcar-lhes os. 18.
(20) valores morais e católicos, o que tornava mais fácil a dominação do povo que aqui já habitava. Nos períodos colonial e imperial, a criança era considerada um ser de menor importância. As crianças da classe inferior trabalhavam como escravas para classe mais favorecida, inclusive para outras crianças, sendo que estas eram educadas de maneira rígida com castigos físicos a fim de se inculcar os valores educacionais norteados pela igreja católica e acabavam por reproduzir a violência que sofriam nas crianças escravas. A cultura social da época negligenciava as necessidades básicas da criança, como atenção e cuidado, e deste modo, o índice de mortalidade infantil era enorme. A igreja católica conseguia amenizar esse fato com o argumento de que a criança era pura e ao morrer se tornava um anjinho. “O conformismo era exagerado e a disseminação dessa crença foi a forma encontrada para justificar tantas mortes”. (RIBEIRO, 2006, p. 30) No período republicano, a infância foi marcada pelo aumento da pobreza sendo submetida cada vez mais a situações desumanas. O quadro se agravou principalmente com a libertação dos escravos e a imigração de europeus, aumentando significativamente a população pobre, sendo a população infantil fortemente atingida. Iniciou, assim, a influência de médicos higienistas, que tiveram papel importante na transformação do olhar da sociedade para a criança pequena e suas necessidades. Os médicos que compunham a burguesia do país assumiram lugar de destaque na sociedade. A burguesia vai, então, encontrar na medicina o aliado necessário para propagar suas idéias políticas e sociais. A medicina vai encontrar na burguesia, essencialmente urbana, o aliado de seu ideal higiênico, que, por seu turno, interessava ao jovem Estado Brasileiro, ainda em consolidação. [...] Vai falar sobre a urbanização do Brasil e a consolidação dos ideais higienistas, responsáveis por toda uma ideologia nascente, que passará a determinar uma nova conduta social, novos costumes e novos padrões de comportamento, culminando nas modificações que serão verificadas na organização da família brasileira, que pouco a pouco vai extinguir muitas das práticas coloniais danosas à infância. (RIBEIRO, 2006, p. 31). Faz-se importante ressaltar que inicialmente toda a reflexão realizada sobre a educação moral da criança e sua importância na constituição da família idealizada para o novo país, girava em torno da criança pertencente às camadas mais 19.
(21) favorecidas. Apenas mais tarde, com o aumento da pobreza e com a ameaça que a criança pobre submetida ao crime oferecia para a sociedade, surgiram políticas e propostas de atendimento para essas crianças, principalmente com o intuito de separar a elite dos miseráveis. Foi nesse contexto que se difundiu a roda dos expostos, instituição histórica trazida ainda no Brasil colonial como possibilidade de enfrentamento do problema da criança abandonada, sendo também a primeira instituição a receber o bebê com a responsabilidade de criá-lo fora do seio familiar. A roda dos expostos, por se tratar de uma instituição que permite refletir amplamente sobre o atendimento da infância no Brasil, tem destaque a partir de então nesta pesquisa, por sua atuação no acolhimento de bebês e crianças abandonadas. A roda era um dispositivo de madeira acoplado à parede das instituições usada nos conventos medievais como local de doações de alimentos e objetos, que possibilitava o recebimento das mercadorias sem o contato com o mundo externo ao convento. Nela também, eram deixados os bebês, doados por seus pais para que elas “trabalhassem” para Deus. Na idade média essa prática era comum e conhecida como oblatos. Os pais depositavam a criança na roda dos mosteiros para serem batizados e educados pelos monges. Nesse sentindo, seguindo tal modelo, as rodas dos expostos surgiram assistindo aos pobres, aos peregrinos, aos doentes e aos expostos, ainda na Idade Média, na Itália, como uma forma de caridade. Já a iniciativa de atendimento às crianças, deu-se na França por meio do papa Inocêncio III, que: chocado com o número de bebês encontrados mortos no Timbre, transferiu essa irmandade para Roma, criando o Hospital de Santa Maria in Saxia (1201-1204) [...]. Nascia assim o primeiro hospital destinado a acolher as crianças abandonadas e assisti-las. Nele foi organizado um sistema institucional de proteção à criança exposta que logo seria copiado nas principais cidades italianas e em toda a Europa. Séculos depois seria exportado para outros continentes. (MARCÍLIO, 2011, p. 56). Um hospital localizado em Roma, que acolhia todo o tipo de necessitados, recebia os bebês colocados na roda com um colchão, no qual a criança era depositada e a roda girada, levando a criança para dentro da instituição. “Puxava-se uma cordinha com uma sineta, para avisar a vigilante ou rodeira que um bebê. 20.
(22) acabava de ser abandonado e o expositor furtivamente retirava-se do local, sem ser identificado.” (MARCÍLIO, 2011, p. 57) O uso da roda se expandiu por várias regiões. Em Portugal, no ano de 1273, foi fundado o Hospital dos meninos órfãos de Lisboa pela rainha D. Beatriz, esposa de D. Afonso II de Castela. Esse instituto recebia os bebês órfãos e expostos e “destinava-se a recolher os expostos e velar pelo seu bem-estar físico e moral, preparando-os para ganhar seu próprio sustento, na juventude”. (ibid., p. 58) No Brasil a roda foi trazida no século XVIII para a cidade de Salvador na Bahia e tinha os moldes da Casa de Misericórdia de Lisboa. Inicialmente foram feitas pressões para que a Santa Casa da Bahia aceitasse estabelecer uma roda de expostos. Estas pressões iniciaram-se com o governador Dom João de Lancastre (1694-1702) e continuaram, anos depois, com o vice-rei Vasco Fernandes Cezar de Menezes. As autoridades estavam preocupadas com o crescente fenômeno do abandono de bebês pela cidade de Salvador. (ibid, p. 59). A roda amenizaria o crescente abandono de crianças, pois neste período muitos bebês ainda recém-nascidos eram abandonados na rua. Vários morriam de frio, fome e sede ou eram devorados por animais. Havia um caráter missionário e caritativo nas rodas que eram mantidas graças a doações da classe favorecida, a qual acreditava que com a caridade prestada aos necessitados alcançaria misericórdia e salvação para suas almas. Sob tais justificativas, em 1726, foi aberta uma roda de expostos em Salvador e uma segunda roda foi instalada no Rio de Janeiro, em 1738. Com a independência do Brasil as rodas continuavam a funcionar, porém após discussões também de cunho político, as rodas foram incidindo para um caráter filantrópico e não mais como caritativo. Isso aconteceu porque antigamente a roda, sempre ligada à igreja, era mantida através de doações da classe elitizada, que via a caridade como uma forma de remissão dos pecados, de conseguir salvação para a alma. Tal filosofia, portanto, fundamentava a manutenção da roda. Com o passar do tempo, essa concepção foi sendo alterada e a roda passou a ser uma instituição filantrópica, destinada ao atendimento dos pobres e dos necessitados. Assim, passou a fazer parte da assistência social, tendo o Estado como mantenedor.. 21.
(23) Na cidade de São Paulo a taxa de crianças abandonadas nas ruas era crescente chegando a ser uma das mais elevadas do país, ocasionando a necessidade da instalação de uma roda para acolher os expostos. Isso aconteceu em 1825 com a implantação da roda no muro da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Nesta pesquisa especificamente, trata-se sobre esse fato na cidade de São Paulo onde as crianças abandonadas foram recebidas no Asilo dos expostos da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo no período de 1825 a 1951. A escolha se deu pela oportunidade de utilizar como instrumento primário de pesquisa, os relatórios dos mordomos que trabalhavam nessa instituição e que trazem detalhes desse período, pretendendo com essa escolha, conhecer um pouco do trabalho realizado e oferecido aos bebês nos asilos. O asilo da Santa Casa era um hospital, criado e pensado pela classe elitizada da época, com o intuito de lidar com alguns problemas relacionados à pobreza e que na visão dos líderes estatais, ameaçavam o futuro do Brasil. O hospital era o lugar dos pobres e havia uma ala que recebia as crianças abandonadas, como uma espécie de orfanato. No momento histórico em discussão, o Brasil, com representantes da elite, preocupava-se com o futuro do país, pois uma vez que estavam idealizando seu crescimento, era preciso pensar em como lidar com os pobres e abandonados, criando estratégias para acolhê-los a fim de ensinar-lhes o seu lugar na sociedade. Outra questão, também, era a de estar entre os países considerados civilizados além da apreensão com o crescimento econômico. No centro dessas iniciativas, a preocupação com a formação de um novo cidadão que deveria ser “moldado” – desde a infância – e constituído pelo trabalho e pela educação. O atendimento à criança abandonada e a tentativa de diminuir a mortalidade infantil eram dois vértices do projeto de redimensionamento do país e, no caso, da cidade de São Paulo, imaginado pelas elites locais e setores dirigentes. (ROCHA, 2010, p. 7, grifos do autor). A cidade de São Paulo estava recebendo grande número de moradores sendo imigrantes e ex-escravos de diferentes culturas e classes sociais, o que ocasionou um crescimento populacional acelerado e, consequentemente, a falta de estrutura para tais mudanças.. 22.
(24) Um dos problemas gerados com esse crescimento foi a mortalidade infantil causada pela falta de saneamento básico, sobretudo pelas moradias insalubres que acabavam expondo as crianças pobres a doenças e epidemias. Pelo que podemos notar até agora o aumento do contingente humano – imigrantes, ex-escravos e os próprios migrantes resultado principalmente, do crescimento do capital acumulado pela economia cafeeira, serviu para agravar as diferenças sociais, gerando uma massa de homens, mulheres e crianças, desvalidos, pobres, miseráveis, acentuando ainda mais as contradições que se estabeleciam no meio urbano. (ROCHA, 2010, p. 50). A pobreza e a falta de condição das famílias, faziam com que muitas abandonassem seus filhos, os quais eram vistos na rua com preconceito e como uma ameaça à sociedade. Os nascimentos ilegítimos também influenciavam o abandono. Em nome de um determinado modelo de progresso, tornava-se necessário procurar soluções para os problemas mais visíveis. Entre eles, o da criança abandonada. Mesmo porque as ruas, praças, lixeiras, calçadas, portas de igreja ou mesmo das casas de particulares eram locais bastante utilizados por pais e mães que desejavam abandonar seus filhos recém-nascidos. Os que tinham uma idade mais avançada eram encontrados em meio à população de desempregados e mendigos, presente nas ruas da cidade. (ROCHA, 2010, p. 53). Fazendo menção aos diversos asilos que recebiam a criança abandonada, diante da grave situação de desigualdade à qual o país estava submetido, era possível que dentre as crianças encontradas nas ruas houvesse uma ou outra já atendida pela caridosa instituição. Ainda no início da implantação das rodas, muitas crianças, ao alcançarem certa idade, eram encaminhadas ao trabalho. Ao analisar o período aqui apresentado, foi possível constatar também que várias delas, com idades entre 7 e 12 anos, iam para as ruas para se prostituírem. Outras eram encaminhadas para a Companhia de Aprendizes Marinheiros ou instaladas em oficinas para os expostos trabalhando como marceneiros, ferreiros etc. A respeito disso, Marcílio (2011) descreve que: No estaleiro a criança vivia ao lado de presos, escravos e degredados. Sua alimentação era tão fraca, à base quase só de farinha de mandioca, que acabavam definhando e muitas morrendo.. 23.
(25) No testemunho de um médico do Rio de Janeiro, que observou as crianças no arsenal da Marinha, a maioria delas “comia terra” e tinha o corpo enfraquecido pelos parasitas intestinais. (p. 76, grifos da autora). Com a situação de extrema pobreza e diferenças econômicas da época, as crianças pequenas eram vistas como um estorvo e, sem direito algum, eram abandonadas à própria sorte. É importante ressaltar que até então a criança não era reconhecida legalmente como sujeito de direitos. Nesse sentido, na Santa Casa de Misericórdia foi instalada uma roda para receber os bebês abandonados e atender “do doente à criança abandonada, do indigente ao inválido” (ibid., p. 93). No que se refere à criança pequena e, mais especificamente, aos bebês, estes eram deixados diretamente na roda dos expostos, criada justamente na tentativa de diminuir o índice de mortalidade infantil, pois muitos deles eram abandonados nas ruas e vários iam a óbito sem possibilidade de serem encontrados por alguém que os levassem até o asilo. Com a implantação da roda dos expostos, tinha-se a expectativa de minimizar a prática do infanticídio, haja vista que muitos bebês eram assassinados pelos pais que, não raras vezes, sem condição de criá-los, cometiam tal absurdo. Com a roda, via-se uma possibilidade de vida também para as crianças encontradas nas ruas, as quais eram levadas pela polícia para a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Como mencionado, a instituição recebia e acolhia as crianças abandonadas a fim de garantir um futuro melhor para a sociedade, uma vez que nesse espaço as crianças recebiam educação, cuidados médicos e higiênicos. Inicialmente a Santa Casa não tinha condições de atender o bebê abandonado por falta de estrutura. Nesse período, o costume era contratar amas de leite, na época uma profissão com deveres previstos, inclusive, poderiam ser demitidas caso não produzissem mais leite. As amas eram mulheres contratadas pela instituição e recebiam um pequeno salário para levar para casa os bebês e se responsabilizarem por sua criação até os seus dois ou três anos de idade, quando eram devolvidos à instituição. Sobre as amas, o Relatório da Mordomia1 de 1936 traz a seguinte informação:. Relatórios da Mordomia da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Disponíveis em: http://www.fcc.org.br/pesquisa/jsp/educacaoInfancia/index.jsp Acesso em: 21 de fevereiro de 2014. 11. 24.
(26) Essas “criadeiras” ou “amas”, que assim se chamavam, eram mulheres de origem modesta, as quaes, residindo nas vilas mais pobres dos arredores da Capital, ao receber a creança em sua casa, não visavam senão uma remuneração, por pequena que fosse. E era, de facto, das mais modestas a que a nossa Instituição lhes dava por tal serviço. Nessas condições, é bem de ver-se, havia de ser das mais rudimentares a assistência que taes “amas” poderiam prestar as creanças que perfilhavam (p.194, grifos do documento).. Sobre as amas de leite é importante ressaltar que essa prática surgiu há muito tempo. Ainda no período setecentista, as escravas tinham seus filhos recémnascidos retirados e eram usadas como amas de leite para amamentar os filhos das senhoras ou eram alugadas para esse mesmo fim. Em 1825, a Santa Casa de São Paulo começou a selecionar mulheres aptas a amamentar os bebês abandonados e entre essas mulheres havia muitas índias. As amas assumiam os encargos de criar a criança em sua residência e tinham que levá-la ao hospital uma vez por mês para serem examinadas pelos médicos do asilo. Os relatórios da mordomia mencionam que as amas recebiam 25 mil réis por mês e se contentavam com esse pouco. Há ainda o relato de um mordomo sobre o sofrimento das amas no momento de devolver a criança para a instituição logo que completassem a idade de retornarem. Por outro lado, dentre as amas havia as que fraudulosamente davam à luz aos bebês e, secretamente, entregavam-nos na roda, logo se oferecendo como ama de leite do próprio filho, para receber salário. Havia também as amas que não comunicavam a morte do bebê com o objetivo de continuar recebendo o salário. Grande parte dos médicos acompanhava essas crianças no asilo. Eles pertenciam aos grupos dominantes da época e tomavam a organização da cidade como sua responsabilidade, além da higiene pública, saúde e costumes da população. Os asilos eram a solução para os problemas que estavam sendo enfrentados na época, sendo que o principal estava diretamente relacionado à saúde por meio da propagação de doenças, pestes e epidemias. Os discursos médicos traziam o isolamento da doença como solução, logo, os pobres deveriam ser separados da sociedade. E é justamente a partir dessas condições que se justifica a criação de asilos como o dos inválidos, mendicidade, de alienados, de expostos, entre outros, configurando um modelo de exclusão por meio do qual. 25.
(27) se procurava enfrentar determinados problemas sociais. (ROCHA, 2010, p. 89). Vale ressaltar que os asilos, eram anexos a hospitais, que na época eram locais de acolhimento a pobres e doentes. Ainda com as instituições de asilo, permanecia grande a estatística da mortalidade infantil. Os médicos criticavam as amas de leite, que foram responsabilizadas pela transmissão de doenças, as quais chegaram, de acordo com a pesquisa de Rocha (2010), a 61% da mortalidade geral. Havia também uma crítica à forma de criação das amas, que muitas vezes eram consideradas desleixadas e sem cultura, e não sabiam cuidar da criança, que era levada a curandeiros quando estava doente. Em geral, abrigadas em casas primitivas, sem qualquer recurso hygienico, tratadas por pessoas incultas e paupérrimas, as creanças viviam na mais completa falta de cuidados, os mais prementes. A fiscalização, que se procurava fazer uma vez por mez, em nosso Hospital, quando examinadas as creanças por medico especialista, absolutamente não poderia corrigir os males, que eram orgânicos, e provinham de uma organização defeituosa (RELATÓRIO DA MORDOMIA, 1936, p. 195).. Em 1922, foi realizado o Primeiro Congresso Brasileiro de Proteção à infância no Rio de Janeiro e uma das discussões estava em torno da mortalidade infantil destacando que de um total de 31.763 mortes em geral, 15.209 eram de crianças menores de dois anos. Em 1931, de 199 crianças, 166 morreram na Santa Casa e as amas foram responsabilizadas por essas mortes. De acordo com os médicos da época, a forma de criação oferecida pelas amas, o local de moradia sem condições alguma e, na grande maioria, descentralizado, dificultava o acompanhamento dessas crianças pela medicina. Em 1896, o asilo foi transferido para o bairro do Pacaembu. Nesse local, as crianças maiores participavam de oficinas como costura, sapataria, carpintaria, marcenaria, entre outras atividades. No momento em questão, havia uma preocupação com a economia do país, portanto a necessidade de investimento voltava-se também para o trabalho. A criação de locais como as oficinas, no Asilo dos Expostos, era um indicativo dessa nova maneira de atuar em relação à criança. 26.
(28) institucionalizada. Uma vez que era necessário transformar esta criança pobre em um adulto em ótimas condições de saúde, moralmente bem constituído, cuja educação estivesse voltada para a formação de uma mão de obra capaz de acompanhar as necessidades econômicas do país, qualificando-as para o mercado de trabalho urbano. (ROCHA, 2010, p.154). A partir de então “ganha força, na época, a instalação de instituições educacionais com propostas voltadas às camadas mais empobrecidas da população, incluindo os asilos, jardins de infância e creches”. (ibid., p.155) No asilo, as crianças tinham que seguir uma rotina rígida com horários definidos para cada atividade a ser realizada como banho, refeição e horário para dormir. Todo esse controle tinha a intenção de educar a criança para ter e se sujeitar a uma vida controlada, ordenada e com um comportamento adestrado. De acordo com Rocha (2010) “Instituições como o Asilo dos Expostos se tornaram espaços destinados não só a abrigar as crianças que eram abandonadas. Serviam para corrigí-las, regulá-las” (p.157). Sobre as crianças asiladas, nos Relatórios da Mordomia elas aparecem como crianças que usavam camisolões xadrez e tinham o cabelo raspado. No final do século XIX a roda dos expostos começou a receber inúmeras críticas por se acreditar que era incentivadora de relações consideradas ilícitas, imorais e ilegítimas. Em num momento em que crescia fortemente o pensamento de ideal de família, tal prática estava incompatível com o pensamento da época. Os médicos também defendiam sua extinção com base nos altos índices de mortalidade infantil. Percebeu-se que as maiores quantidades de crianças recebidas no asilo não entravam através da roda. Os relatórios demonstram que muitas famílias não adotavam o uso da roda, deixavam sua criança diretamente na instituição e se identificavam com o intuito de acompanhar sua criação e de voltar para buscá-la assim que tivessem condições. Ainda sobre os motivos que levaram à extinção da roda e que partiram inicialmente dos médicos higienistas, entendia-se que “vidas úteis estavam sendo perdidas para o Estado. Mas o movimento insere-se também na onda pela melhoria da raça humana, levantada com base nas teorias evolucionistas, pelos eugenistas.” (MARCÍLIO, 2011, p. 68). 27.
(29) De acordo com o Relatório da Mordomia (1933), em 1923 o Decreto Federal nº 16.306, de 31 de dezembro, proibiu terminantemente a utilização da roda, em complemento ao Artigo 15 do Código de Menores que determinava: “Deve a admissão de expostos à assistencia, ser feita por consignação directa, excluído o systema de ‘Rodas’” (p. 273, grifos do documento). Mesmo assim, na Santa Casa, isso só ocorreu, definitivamente, em 1951. A roda de expostos foi uma das instituições brasileiras de mais longa vida, sobrevivendo aos três grandes regimes de nossa História. Criada na Colônia, perpassou e multiplicou-se no período imperial, conseguiu manter-se durante a República e só foi extinta definitivamente na recente década de 1950! Sendo o Brasil o último país a abolir a chaga da escravidão, foi ele igualmente o último a acabar com o triste sistema da roda dos enjeitados. (MARCÍLIO, 2011, p. 53). Em 1933, em meio a muitas discussões sobre o alto índice de mortalidade infantil, Dr. Leite de Bastos sugeriu a construção de um local apropriado para atender as crianças menores de dois anos. Esse médico sustentou sua discussão em torno das opiniões de pediatras da época que eram contra o uso da roda e também sobre o argumento de que seu uso estava infringindo o Art.15 do Código de Menores. Neste trabalho de meticuloso e de observação do que se passa, na França, Allemanha, Argentina, Uruguay, particularmente Montevidéu, e mesmo entre nós, com relação à criança abandonada, chega o Dr. Leite Bastos, a respeito da nossa obra de assistência ao exposto, a convencer, a necessidade urgente e inadiável da construcção de um Pavilhão no Asylo, para menores de 2 annos e como consequência a extincção da “Roda”. (RELATÓRIO DA MORDOMIA, 1933, p. 272, grifos do documento). O berçário foi criado em 1936, tendo entre outros objetivos, o de combater os serviços das amas e, consequentemente, diminuir os altos índices de mortalidade das crianças sob seus cuidados. (ROCHA, 2010) Assim, o serviço das amas foi substituído pelo berçário onde os bebês abandonados permaneciam até os três anos de idade e depois eram levados para o Asilo dos expostos. Com a abertura do berçário não havia mais a necessidade de enviar as crianças para as casas das amas, mas ainda precisavam do leite para alimentar as crianças acolhidas. Dessa forma, conforme descrito no Relatório da Mordomia (1936): 28.
(30) Organizámos um serviço de leite humano, mechanicamente ordenhado. As amas só comparecem de manhã e à noite, e, por meio de um extractor, o leite é retirado e guardado em geladeiras. As amas são cuidadosamente examinadas, e fazemos questão de que haja a maior hygiene na manipulação do leite. As creanças das próprias amas são também examinadas periódicamente, para que não lhes affecte a saúde estar a sua mãe fornecendo leite a outrem. (p. 199). A partir de então, ser ama, não era mais profissão, as mulheres pobres e que necessitavam do dinheiro, se submetiam a tal processo. De acordo com o Relatório da Mordomia, as amas eram então fornecedoras do leite que lhes “sobrava”, porém não se tratava de uma profissão e tal oportunidade representava um valioso auxílio financeiro para, junto ao marido, “vencer os encargos da família” (idem, p. 200). Além do leite humano contavam com o leite produzido por vacas pertencentes a instituição. O leite extraído das amas passou também a ser engarrafado e vendido. No relatório, ao abordar o assunto, o mordomo justifica positivamente a ação, dizendo que com esse serviço era possível oferecer leite de peito às crianças cujas mães não produzissem leite e ainda mais, substituiria a contratação de amas domiciliares pela camada mais favorecida para amamentar os bebês das mães que não queriam ou não podiam amamentar. Com o crescimento industrial e o ingresso da mulher no mercado de trabalho, as grandes indústrias passam a incentivar a utilização do leite artificial como alternativa de alimento aos bebês das mães que trabalhavam. Interessante destacar, que naquele momento, a empresa Nestlé aparece nas propagandas fazendo tal divulgação. Todos esses acontecimentos fizeram com que as instituições de atendimento à criança pequena, originadas na primeira metade do século XIX, crescessem de forma acelerada e ainda com o principal objetivo de atender as camadas mais pobres da sociedade, sendo que a creche, substituta então dos asilos, continuava vinculada aos órgãos governamentais de serviço social e não aos do sistema educacional. Em concordância com Kuhlmann Jr. (2010), vale ressaltar que “O fato de essas instituições carregarem em suas estruturas a destinação a uma parcela social, a pobreza, já representa uma concepção educacional” (p. 166). Portanto, as creches desde sua origem e concepção apresentavam um cunho educacional pelas 29.
(31) necessidades e estrutura, estendendo-se até hoje quanto à possibilidade de condições e melhorias. A nomenclatura “creche” veio com a expansão das instituições assistenciais. Com experiências trazidas da Europa, a creche mantinha seu foco de atendimento às crianças pobres e era um meio de garantir certo controle social. Era apresentada com preconceito, pois se destinava aos pobres oferecendo, segundo Kuhlmann Jr. (2010), uma educação preconceituosa e de baixa qualidade, “preparando os atendidos para permanecer no lugar social a que estariam destinados” (p. 167). Ainda assim, as crianças atendidas nessas instituições eram consideradas privilegiadas. Se a primeira característica da educação assistencialista é a virtude pedagógica atribuída ao ato de retirar a criança da rua, o segundo aspecto dessa proposta educacional é que a baixa qualidade do atendimento faz parte dos seus objetivos: previa-se uma educação que preparasse as crianças pobres para o futuro que com maior probabilidade lhes esteja destinado; não a mesma educação dos outros, pois isso poderia levar essas crianças a pensarem mais sobre sua realidade e a não se sentirem resignadas em sua condição social. Por isso, uma educação mais moral do que intelectual, voltada para a profissionalização. (KUHLMANN JR, 2010, p.167). Havia discussões que defendiam a inserção das creches nos setores educacionais, outras porém criticavam a educação das crianças pequenas fora do meio familiar com o argumento de que a mãe deveria cumprir seu papel natural e insubstituível de criar e educar seu filho. De acordo com Kuhlmann Jr (2010), tais discussões. impediam. que. os. políticos. conservadores. considerassem. e. reconhecessem essas instituições como parte dos sistemas escolares. (p. 172) Os que defendiam as instituições infantis viam nelas a possibilidade de oferecer às crianças pequenas condições de se tornarem crianças educáveis, dóceis e sociáveis, conformadas com o seu destino à margem da sociedade. Os médicos continuavam a exercer grande influência sobre a educação das crianças, com estudos sobre a psicologia infantil e a puericultura, que nortearam algumas reflexões e orientações sobre o trabalho desenvolvido com as crianças pequenas. No que se refere especificamente ao atendimento oferecido aos bebês, é importante pensar que, se por um lado na história da educação infantil havia concepções acerca dos bebês, as quais defendiam a ideia de se tratar de um ser 30.
(32) sem percepções ou interações ao ponto de serem considerados como “um indivíduo autônomo que não precisaria ser cuidado e acariciado” (KUHLMANN JR., 2010, p.175), por outro, pode-se verificar uma concepção que percebia a possibilidade de contribuição na formação da personalidade da criança e no seu desenvolvimento. Estes dois exemplos podem ser observados a seguir. Aquilo que para os médicos do século XIX era crime nas amas de leite, torna-se conduta a seguir. A pré-educação, entendida como domesticação dos caprichos, visando à obediência, previa que o bebê, para aprender a dormir à noite sem mamar, deveria ser deixado chorando no berço até obedecer. Quando mamasse, a mãe deveria evitar qualquer distração neste que seria o ato mais sério da vida do recém-nascido, sem lhe falar, nem acariciar as faces ou fazer-lhe pequenas cócegas. [...] De um lado, eram eliminados os materiais que apresentassem perigos para a segurança e a saúde dos bebês, de outro tomava-se mais consciência do papel do jogo e do brinquedo na formação da personalidade das criança, no seu desenvolvimento. (KUHLMANN JR., 2010, p.175). As discrepâncias de concepções apresentadas nesta citação podem ser percebidas até os dias atuais, nos quais muitos não entendem a importância do trabalho com os bebês e como se torna cada vez mais necessária tal reflexão, pois poucos conhecem e discorrem sobre o olhar necessário para a prática com as crianças pequenas. A partir da década de 1960, os muitos acontecimentos como o avanço tecnológico e científico, que apresentavam novas possibilidades, bem como a revolução industrial, garantiram a possibilidade de a mulher inserir-se no mercado de trabalho. As mulheres pobres trabalhavam nas fábricas e não tinham com quem deixar seus filhos. Nessa época, além da creche, surgiram diversas denominações informais de atendimento às crianças. O índice de pobreza ainda era enorme, a população mais pobre possuía condições precárias de higiene devido à situação em que viviam e muitas crianças eram vítimas de infecções. Por esse motivo a defesa e luta por creches, uma vez que nesses locais as crianças recebiam alimentação, higiene e segurança. Essa era a função das creches, não havia a preocupação com o desenvolvimento intelectual das crianças, e assim “um trabalho voltado para a educação, para o desenvolvimento intelectual e afetivo das mesmas não era valorizado.” (OLIVEIRA, 1992, p. 18).. Diante de tal situação, houve grande intensificação de lutas e 31.
(33) manifestações a favor da creche, de maneira que o governo militar temia por uma explosão das camadas populares, principalmente porque o grau de pobreza aumentava fortemente no Brasil. Com o crescimento constante da industrialização do país, não apenas as camadas populares, mas as também mulheres da classe média ingressavam no mercado de trabalho, indo à procura de creches para seus filhos, o que fez surgir, nessa época, diversas creches particulares. A creche passou a ser pensada não apenas como um lugar que oferecia higiene e segurança, mas como local de desenvolvimento cognitivo e parte importante para alfabetização. Inicialmente, tal fato ocorreu somente nas creches particulares, que “foram se tornando cada vez mais numerosas já adotavam como justificativas para seu trabalho junto a uma população socialmente mais privilegiada preocupações com a criatividade, a sociabilidade, o desenvolvimento infantil como um todo.” (OLIVEIRA, 1992, p. 21). Enquanto as crianças pobres e necessitadas eram acolhidas pelas creches para. receber. assistência,. as. crianças pertencentes às. classes. elitizadas. frequentavam creches com propostas educacionais, visando o desenvolvimento intelectual. No final dos anos 1970 e 1980, houve uma forte discussão acerca do papel das instituições de educação infantil, e a creche passou a ser vista como um órgão importante que exercia uma função social. Sendo assim, começou-se a defender o que era entendido como caráter “educacional ou pedagógico” e higienista para as instituições, contrapondo-se ao que se via como meramente “assistencial”, nas creches. A partir de então, muitas lutas e reinvindicações foram realizas por diferentes camadas da sociedade entre profissionais que atuavam nas creches, feministas e movimentos populares no geral, que defendiam e exigiam creches e pré-escolas de qualidade. Naquele. momento,. a. creche. estava. tão. desvinculada. dos. órgãos. educacionais do governo, que não havia cursos que formassem profissionais para atuar nas creches. Esses profissionais defendiam uma educação de qualidade, denunciando o atendimento oferecido nas creches que as caracterizavam como depósitos de crianças.. 32.
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