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O alcance da função social da empresa por intermédio da eficácia da legislação ambiental

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Academic year: 2021

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CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO TRABALHO DE CURSO

O ALCANCE DA FUNÇÃO SOCIAL DA EMPRESA POR INTERMÉDIO DA EFICÁCIA DA LEGISLAÇÃO AMBIENTAL

LYDIANE BEZERRA DA SILVA

CAICÓ 2019

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O ALCANCE DA FUNÇÃO SOCIAL DA EMPRESA POR INTERMÉDIO DA EFICÁCIA DA LEGISLAÇÃO AMBIENTAL

Monografia apresentada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN/CERES - Caicó, como parte dos requisitos para obtenção do título de Bacharel em Direito.

ORIENTADOR: Profº. Dr. Oswaldo Pereira de Lima Júnior

CAICÓ 2019

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A importância da legislação ambiental como meio efetivo para alcançar a função social da empresa / Lydiane Bezerra da Silva. – Caicó, 2019.

59f.: il.

Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Ensino Superior do Seridó, Curso de Graduação em Direito.

Orientador: Oswaldo Pereira de Lima Júnior.

1. Atividade empresarial. 2. Meio ambiente. 3. Função social. 4. Prática sustentável. 5.

Responsabilidade. I. Lima Júnior, Oswaldo Pereira de. II. Título.

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O ALCANCE DA FUNÇÃO SOCIAL DA EMPRESA POR INTERMÉDIO DA EFICÁCIA DA LEGISLAÇÃO AMBIENTAL

Monografia apresentada à Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN/CERES - Caicó, como parte dos requisitos para obtenção do título de Bacharel em Direito.

Aprovado em:____/____/_____

BANCA EXAMINADORA

____________________________________ Profº. Dr. Oswaldo Pereira de Lima Júnior

Orientador

____________________________________ Profº. Dr. Carlos Francisco do Nascimento

Examinador

_____________________________________ Profº. Ms. Dimitre Braga Soares de Carvalho

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Comunidade Católica Shalom, aos anjos, santos, em especial a São José por terem me sustentado durante esses anos da minha tão sonhada graduação.

De forma especial a minha família pela compreensão e apoio, sobretudo aos meus pais Luzia Argemiro Bezerra da Silva e Paulo Alexandre da Silva, que me inspiram de uma forma peculiar como empresários natos que os são.

Ainda, a todos que de uma forma direita ou indireta me ajudaram em sua conclusão.

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Inicialmente, quero agradecer a Deus e a São José por providenciarem o tempo necessário para início, bem como conclusão desse trabalho e por honrarem a minha fé, ao realizarem no tempo devido, o meu sonho em cursar Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, CERES - Campus Caicó.

Aos motoristas da Prefeitura de Currais Novos/RN, José Roberto Neto e Vicente Regivan Pereira da Silva, por me proporcionarem viagens seguras da minha cidade para a faculdade, em busca da conclusão desse sonho.

À minha querida família materna e paterna por me incentivarem a continuar nesse caminho árduo que se chama graduação.

A Adriana Bezerra Pereira, como a minha segunda mãe e a pessoa mais especial que Deus já poderia ter colocado na minha vida.

Ao meu orientador, Oswaldo Pereira de Lima Júnior, por toda paciência e zelo ao me conduzir nos trabalhos produzidos nesses anos de graduação pela UFRN, nos anos de 2018, até o presente momento.

Às amigas que a Universidade me presenteou, Milena Regina Baracho Chaves e Priscila Raquel dos Santos Dantas, das quais tenho enorme carinho e gratidão por terem se aproximado de mim no momento certo.

Agradeço a todos os servidores da UFRN, Campus Caicó, pelo satisfatório serviço público prestado a mim como aluna, em especial, a Erildo, por alegrar as minhas idas para Caicó com os seus lanches e bom humor contagiante.

Aos docentes da casa, que se dedicaram a aprendizagem e desenvolvimento profissional de cada aluno.

Às pessoas que conheci durante os 05 (cinco) anos do curso, nos quais resultaram em 06 (seis) anos, pelo fato de ter iniciado a graduação em Direito pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

Ao Missionário Shalom e Colbie Caillat por embalarem as minhas manhãs, tardes, noites e madrugadas com as suas belíssimas canções ao produzir esse trabalho.

E a todos que de uma maneira ou de outra contribuíram com a minha formação humana e profissional.

Com carinho, Lydiane.

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empresarial pelo empresário ao longo dos anos. Com isso, a prática sustentável se tornou um importante aliada para o profissional, tendo em vista que, a depender do tipo de atividade, esta utiliza os meios naturais para alcançar os seus objetivos. Assim, a presente monografia tem como intento conceituar e abordar os dispositivos legais concernentes à legislação ambiental, nos casos em que o titular da empresa é o causador do dano ambiental, não atendendo assim, a sua função social. Em consequência disso, abranger-se-á a responsabilidade administrativa, cível e/ou penal do agente econômico empresarial, seja ele pessoa física ou jurídica, bem como ao Ente Público ao se esquivar de suas funções como prestador do serviço público. Ainda, aborda-se a Empresa Laticínios Belo Vale LTDA, popularmente conhecida como Isis, como um exemplo de sociedade empresária que compôs 03 (três) medidas sustentáveis: com a água utilizada em sua produção, após um processo de osmose reversa, destinou para higienização do maquinário, tubulações, utensílios e após, submeter-se a estação de tratamento de efluentes, a água é empregada na aguagem da área verde presente em suas extensões territoriais que serve de alimento para sua criação bovina e; a confecção autônoma de embalagens plásticas feitas com a combinação de resíduos biodegradáveis. Neste trabalho, foram empregados os métodos descritivo e dedutivo, ao analisar artigos e doutrinas, além da técnica de pesquisa qualitativa por meio de levantamento de dados e revisão bibliográfica com o emprego de documentos e legislações vigentes sobre o tema. Foi, ainda, realizada pesquisa de campo na supramencionada empresa, a fim de verificar a incidência de medidas sustentáveis em sua produção. Portanto, constatou-se uma reflexão não apenas teórica, mas igualmente prática acerca da importância da proteção ambiental ao visar à prática sustentável associada ao exercício da atividade empresarial e, cumprimento de sua função social, como efetivamente ocorre na empresa Isis.

Palavras-chave: Atividade Empresarial. Meio Ambiente. Função Social. Prática Sustentável. Responsabilidade.

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CC – Código Civil

CERES – Centro de Ensino Superior do Seridó CF – Constituição Federal

Nº – Número

RN – Rio Grande do Norte SRA – Senhora

UFCG – Universidade Federal de Campina Grande UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte

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2. DA EMPRESA E SEUS DESDOBRAMENTOS...13

2.1 DA CONSTRUÇÃO DO DIREITO EMPRESARIAL À TEORIA DA EMPRESA..13

2.2 DO CONCEITO E NOÇÕES GERAIS...16

2.3 DO EMPRESÁRIO...18

2.4 DA FUNÇÃO SOCIAL E AMBIENTAL DA PROPRIEDADE PRIVADA PERANTE O EXERCÍCIO DA ATIVIDADE EMPRESARIAL...20

3. MEIO AMBIENTE: CONCEITO JURÍDICO, DOS PRINCÍPIOS, DO DANO AMBIENTAL E DA RESPONSABILIDADE EMPRESARIAL...25

3.1 DO CONCEITO JURÍDICO...25

3.2 DA PROTEÇÃO PRINCIPIOLÓGICA E CONSTITUCIONAL DO DIREITO AMBIENTAL...27

3.3 4.1 A TEORIA DO RISCO COMO RESPALDO PARA A OCORRÊNCIA DO DANO AMBIENTAL...31

3.4 DAS CONSEQUÊNCIAS LEGAIS PARA A EMPRESA EM MATÉRIA EM AMBIENTAL...34

4. SUSTENTABILIDADE EMPRESARIAL: DO SURGIMENTO E DO EXEMPLO PRÁTICO...41

4.1 DO EMPREGO DAS MEDIDAS SUSTENTÁVEIS NAS EMPRESAS BRASILEIRAS...41

4.2 EMPRESA LATICÍNIOS BELO VALE LTDA (ISIS)...43

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS...46

REFERÊNCIAS... ...48

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1. INTRODUÇÃO

Os povos na Antiguidade - em destaque, os fenícios -, a fim de se manterem, produziam o que lhe era necessário para consumo, sendo que eventuais sobras costumava ser permutadas entre os habitantes de outras localidades. Essa prática de escambo, a princípio incipiente, logo se tornaria cada vez mais aprimorada e repetida, tornando-se verdadeira prática comercial proeminente na geração de bens para a venda.

Através do tempo e do reconhecido desenvolvimento da técnica, pode-se afirmar que vários outros fatores positivos influenciaram na constituição e desenvolvimento de novos meios para a ampliação do comércio, como: inovadores meios de transporte, recursos tecnológicos empregados na elaboração de produtos, fortalecimento dos Estados, povoamento de territórios, criação de mercado consumidor, dentre outros.

Em contrapartida, também foram gerados fatores negativos, tais como o surgimento de guerras, exploração dos povos e a exaustão dos recursos naturais, até então fartos.

Todavia, parece muito correto dizer que, com o passar dos anos, a atividade comercial foi se aperfeiçoando, tornando-se cada vez mais profissional e integrada à comunidade, constituindo-se uma prática corriqueira entre as pessoas.

Logo, essa atividade econômica surgida, inicialmente exercida através da denominada mercancia e, posteriormente, pela prática de ato de comércio, desenvolveu-se para aquilo que atualmente se denomina “empresa”, plasmada no Brasil por intermédio do disposto no art. 966, caput, do Código Civil.

Para essa teoria, a empresa é definida como a atividade econômica organizada para a produção ou circulação de bens ou serviços. Tratando-se como uma verdadeira concepção pautada pela ação repetida.

E aquele que exerce este tipo de atividade de forma profissional é designado como empresário. Esse agente, por sua vez, pode assumir tanto a forma de uma pessoa jurídica, como de uma pessoa física.

Há de ser dizer, contudo, que existem alguns pré-requisitos a serem observados para o caso de uma pessoa física: estar em pleno gozo de sua da

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capacidade civil e não ser legalmente impedido, em consonância com o art. 972, do mencionado código.

Ademais, o empresário deve observar os ditames regulados pelo art. 170, da Constituição Federal, visando alcançar à finalidade de sua atividade que é econômica, mas atentando-se, sobretudo, à observância de sua função social.

Essa expressão “função social” deve ser interpretada com a finalidade coletiva, pois representa um conjunto de fenômenos importantes para o meio social e indispensável para os fatores intrínsecos à atividade econômica.

Destaca-se, ainda, a empresa está interligada ao conceito de função social da propriedade e da livre iniciativa, demarcando o fenômeno da constitucionalização do direito privado, numa virada deontológica e jurídica que afeta sobremaneira a empresa nos conceitos clássicos do individualismo e do capitalismo.

Por isso, aliando as necessidades econômicas da atividade empresarial às condicionantes sociais e jurídicas da função social da empresa, tem-se que uma de suas maiores preocupações é associar o seu exercício para obtenção de lucro à ideia de sustentabilidade, decerto que a maioria das atividades exploradoras da economia agride o meio ambiente.

Assim, no Brasil, o real sentido da política de sustentabilidade é reconhecer nas práticas sociais, as opções viáveis para o uso racional dos recursos naturais, isto é, a busca de um ponto de equilíbrio, de forma que haja preservação ambiental e desenvolvimento econômico.

Pode-se dizer ainda que a sustentabilidade é utilizada pelas empresas para demonstrar que seus produtos são fabricados sem danificar ou depreciar o meio ambiente, classificando-o como ecologicamente correto e, influenciando no seu consumo.

Neste sentido, surgiram várias legislações aplicáveis à responsabilização das empresas - tendo em vista a ocorrência de danos ambientais -, orbitando, as esferas administrativa, cível e penal, tais previstas na Lei nº 6.938/81, na Constituição Federal e na Lei nº 9.605/98.

No que concerne ao âmbito empresarial, mais precisamente à esfera alimentar, a Laticínios Belo Vale LTDA, mais popularmente conhecida como Isis, situada no município de Sousa, no Estado da Paraíba, atua com responsabilidade sustentável, na medida em que se deu conta do volume de água utilizada na

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elaboração dos seus produtos e dos malefícios provenientes das embalagens plásticas para o meio ambiente.

Desse modo, o presente trabalho dedica-se analisar, com base na bibliografia especialmente escolhida para o caso, o avanço e a influência da legislação ambiental, em face dos danos ambientais provocados pela atividade empresarial, além de enfatizar as diversas formas de responsabilidade empresarial.

Cuida-se ainda de citar as práticas de sustentabilidade no funcionamento da Empresa Isis que beneficiam a própria empresa e não a afetam na aquisição de lucro.

Nesta pesquisa, foram empregados os métodos descritivo e dedutivo, tendo sido realizada a análise de artigos e de obras especializadas no tema. Ainda, o levantamento de dados, bem como a análise de documentos e legislações vigentes.

Durante a investigação proposta também fora realizada pesquisa de campo a fim de constatar as práticas sustentáveis da Empresa Laticínios Belo Vale LTDA, especialmente quanto à aplicação de ideias sustentáveis no exercício de sua atividade.

Nesta perspectiva, o estudo gerou uma reflexão perante o material bibliográfico acerca da importância da prática sustentável, com a consequente não degradação do meio ambiente, ao associar o exercício da atividade empresarial, com a obtenção de lucro.

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2. DA EMPRESA E SEUS DESDOBRAMENTOS

2.1 DA CONSTRUÇÃO DO DIREITO EMPRESARIAL A TEORIA DA EMPRESA

A fase inicial de circulação de mercadorias, por meio do comércio, se deu através da troca mediante andarilhos (comércio de rua), em que a negociação se dava por conta própria (GOLDSCHMIDT, 1913).

Desse modo, entende-se que, nos primórdios da prática comercial, os povos a desenvolviam por meio da permuta e os seus termos eram ajustados entre as próprias partes, sem contar com a participação de um terceiro.

Contudo, de acordo com Teixeira (2019, p. 48): “... com decorrer do tempo, a troca se aperfeiçoou, dando lugar às mercadorias e ao dinheiro que demarcaram o comércio da compra, através do tráfico internacional”.

Neste contexto, o comerciante estrangeiro se tornou um intermediário entre os membros da mesma comunidade que adquiriam produtos.

Ainda, conforme Coelho (2012, p. 12): “Também gradualmente a venda de bens a granel (soltos) foi crescendo, mas somente com o desenvolvimento da venda por atacado é que a atividade do comerciante passou a ser tida como uma profissão”.

Logo, as vendas a varejo se firmaram no comércio, mas os comerciantes ao adquirir os produtos para revender, isto é, ao praticar a venda em “grosso”, sob uma forma de comercialização de grandes quantidades de produtos, qualificaram o ser comerciante como uma profissão.

No Brasil, de uma forma divergente de outros países, não havia legislação específica que regulasse o comércio. Isso, então, promoveu a gradual elaboração de normas que em pouco tempo depois se tornaria o Direito Comercial, como um ramo do Direito. Então, o desenvolvimento do Direito Comercial se deu “quase no escuro”, isto é, sem prévia experiência social e jurídica, arriscando sem medir as consequências (TEIXEIRA, 2019).

Entretanto, mesmo sem legislação objetiva que fosse aplicada à prática comercial, para ser considerado comerciante, em consonância com Negrão (2019, p. 31): “Para que alguém fosse considerado comerciante, os atos de comércio deviam ser realizados habitual e profissionalmente”.

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Com aplicação desta ideia para qualificar a pessoa do comerciante, estaria, consequentemente, originada a teoria dos atos de comércio.

Numa fase primária, pode-se afirmar que as pessoas que eram consideradas comerciantes tomaram iniciativa própria para elaborar normas que fossem aplicáveis à sua profissão, nas palavras de Verçosa (2004, p. 29):

Em razão dos entraves já mencionados, os comerciantes criaram as Corporações de Ofícios e de Artes, com normas e justiça próprias (Tribunal dos Comerciantes), destinadas a solucionar possíveis conflitos entre eles, com base na equidade, boa-fé e nos usos e costumes, um grande passo para a afirmação do Direito Comercial.

Com base nessa ideia, os comerciantes desenvolveram técnicas negociais e institutos próprios para, de fato, superar a ausência de aplicação legal em sua atividade no setor econômico.

Assim, a teoria dos atos de comércio caminhava para a construção da atual teoria da empresa, pois com o desenvolvimento das atividades complexas, em especial a industrial e a prestação de serviços, a primeira teoria se tornou insuficiente para abordar as novas atividades econômicas surgidas (VERÇOSA, 2004).

Como visto, a prática comercial evoluiu na medida das necessidades da sociedade, fazendo com que a outrora mercancia não fosse mais utilizada para aplicar-se às atividades inerentes ao comércio.

Diante das caracterizações citadas, é imprescindível abordar que a teoria dos atos de comércio foi normatizada pelo Código Comercial francês de 1807 e, posterirormente, adotada pelo Código Comercial brasileiro de 1850, cuja primeira parte fora revogada com a vigência do posterior Código Civil de 2002.

Por outro lado, na Itália, em 1942, surgiu um novo sistema que regulamentava as atividades econômicas dos particulares, ressaltando, assim, a atuação do antigo Direito Comercial, conhecido hoje como Direito Empresarial. Denominou-se tal complexo teórico-normativo como teoria da empresa. E o Direito Comercial passou a regular as atividades privadas, sobretudo as de produção ou circulação de bens ou serviços, isto é, a atividade empresarial.

Sucintamente, o Direito Comercial, em sua evolução, pode ser dividido em 3 fases: 1ª – dos usos e costumes (fase subjetiva, que se inicia na Antiguidade, consolidando-se fundamentalmente na Idade Média, indo até 1807, ano da edição do Código Comercial francês); 2ª – da teoria dos atos de comércio (fase objetiva, de 1807 até 1942, ano marcado pela edição do

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Código Civil italiano); 3ª – da teoria da empresa (fase subjetiva moderna, a partir de 1942 até o presente momento). (TEIXEIRA, 2019).

Ressalte-se que neste tempo o mundo estava em guerra e, na Itália, o ditador fascista Mussolini governava. No entanto, para os fascistas, a empresa constituiria a organização que harmonizaria as classes em desordem.

Não obstante, como era de se esperar, a teoria da empresa restou por descartar as raízes ideológicas fascistas, resistiu à redemocratização da Itália e permaneceu demarcando o Direito Comercial daquela nação até o presente momento. Saliente-se, a teoria da empresa também motivou a mudança na legislação comercial de outras nações, como a Espanha em 1989.

Nesse esteio, com a adoção da teoria da empresa como juízo de identificação da forma de organização dos fatores de produção para o exercício da atividade econômica, tendo a finalidade de produção ou circulação de bens e serviços, há uma abordagem maciça sobre a forma que tal teoria é aferida.

Segundo, Coelho (2012, pág. 30):

As defasagens entre a teoria dos atos de comércio e a realidade disciplinada pelo Direito Comercial – sentidas especialmente no tratamento desigual dispensado à prestação de serviços, negociação de imóveis e atividades rurais – e a atualidade do sistema italiano de bipartir o direito privado começam a ser apontadas na doutrina brasileira nos anos de 1960. Principalmente depois da adoção da teoria da empresa pelo Projeto de Código Civil de 1975.

Desse modo, vários fatos auxiliaram na formação da teoria da empresa, sobretudo no que tange ao direito brasileiro na época, quando houve o empenho para elaboração do Projeto do Código Civil de 1975 que culminaria no atual Código Civil de 2002.

Entretanto, o mencionado Projeto caminhou a passos lentos. Por conseguinte, a doutrina comercialista se desenvolvendo sob os aspectos da nova teoria da empresa, sendo esta vista nas decisões judiciais proferidas no tempo.

Com o passar dos anos, foram editadas várias leis inspiradas no sistema italiano como: Código de Defesa do Consumidor (1990), Lei da Locação Predial Urbana (1991) e Lei do Registro de Empresas (1994).

Assim, o direito brasileiro pautava-se nos ensinamentos da doutrina, jurisprudência e leis esparsas, quanto à teoria da empresa, mesmo anteriormente à sua vigência e, logicamente, da vigência da legislação civilista atual.

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2.2 DO CONCEITO E NOÇÕES GERAIS

O conceito de empresa, tal como se o estuda na disciplina do Direito Empresarial, se mostra bastante técnico e centrado na definição de seu agente econômico. Vale, contudo, citar alguns autores que o delimitam. Nusdeo (1997, p. 285) menciona: “empresa é a unidade produtora cuja tarefa é combinar fatores de produção com o fim de oferecer ao mercado bens ou serviços, não importa qual o estágio da produção”. Já Garrigues (1987, p. 162) aborda: “economicamente a empresa é a organização dos fatores de produção (capital, trabalho) com o fim de obter ganhos ilimitados”.

Diante desses conceitos, afere-se que a empresa é voltada para os aspectos econômicos que perfazem a ideia central da organização dos fatores da produção.

Na Itália, o Código Civil de 1942, ao adotar a teoria da empresa, não concretizou, contudo, a definição do que seria uma empresa, acarretando diversos empenhos para formatar um conceito jurídico (TOMAZETTE, 2017).

Para Asquini (1943, p.1): “O conceito de empresa é o conceito de um fenômeno jurídico poliédrico, o qual tem sob o aspecto jurídico não um, mas diversos perfis em relação aos diversos elementos que ali concorrem”.

Objetivando a construção do que seria empresa sob o aspecto jurídico, em face de sua originalidade e capacidade didática, destaca-se, pois, a teoria dos perfis da empresa, elaborada por Alberto Asquini.

Um dos conceitos possuiria um perfil subjetivo, que igualaria a empresa ao empresário e cujo preceito se encontra o artigo 2.082, do Código Civil Italiano: “E' imprenditore chi esercita professionalmente un'attività economica organizzata al fine della produzione o dello scambio di beni o di servizi “.

Ao traduzir para o português, compreende-se empresário quem exercita profissionalmente atividade econômica organizada com o fim da produção ou da troca de bens ou serviços. Para Asquini, o perfil subjetivo se assemelha à figura do empresário.

Outro perfil identificado por Asquini importante para este trabalho seria o perfil funcional, no qual a empresa representaria um conjunto de atos tendentes a organizar os fatores da produção para distribuição ou produção de certos bens ou serviços. Para o Direito Empresarial, inclusive, pode-se afirmar que este é o perfil

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mais relevante, decerto que a identidade do empresário se dá conforme a definição funcional de empresa como atividade econômica.

Ainda convém destacar o perfil objetivo ou patrimonial, no qual se amoldaria a empresa com o conjunto de bens destinados ao exercício da atividade empresarial. Logo, a empresa seria um patrimônio afetado com uma finalidade específica. Este se aloca, por sua vez, perfeitamente no conceito de estabelecimento empresarial, tal como definido no art. 1.142 do Código Civil brasileiro.

E por fim haveria o perfil corporativo que possui influência da concepção fascista, pelo qual a empresa seria um núcleo social organizado em função de um fim econômico comum que une o empresário e seus colaboradores. Em suma, o perfil corporativo conjetura a influência da ideologia política, enquanto os demais perfis se adequam à teoria da empresa, no que tange aos aspectos de empresa, empresário e estabelecimento empresarial, respectivamente.

Ressalte-se, contudo, em consonância com Bulgarelli (1997, p. 99) que: “A concepção de Asquini se encontra superada, porém obteve o mérito de abordar vários conceitos, intimamente relacionados à empresa, nos quais representam o fenômeno da empresarialidade”.

Quanto ao conceito de empresa, para Coelho (2012, p. 19): “atividade econômica organizada de produção ou circulação de bens ou serviços”. Equivalendo, assim, ao perfil funcional da teoria de Alberto Asquini.

No mesmo seguimento do que seria a empresa, Valeri (1950, p. 13): “a organização de uma atividade econômica com o fim de produção de bens ou serviços, exercida profissionalmente”.

Concluímos que, a segunda definição de empresa está fielmente normatizada no artigo 966, caput, do Código Civil: “Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços” (grifos nossos).

Saliente-se, para se tornar uma empresa é necessário que a atividade seja realizada através de um conjunto de atos destinados ao fim comum, organizando fatores de produção. Desse modo, não basta um ato isolado, mas uma sequência de atos direcionados a uma mesma finalidade.

Pode-se dizer que a empresa, ao organizar os fatores da produção, possui uma finalidade produtiva, em atos coordenados e programados, pois sem esta organização não há empresa, mas tão somente um trabalho autônomo.

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Não obstante, trata-se ainda de uma sequência de atos em que a economicidade determina que seja apta para instituir novas utilidades ou riquezas, ao modificar a matéria-prima.

Aliás, a empresa não possui caráter meramente pessoal ou está voltada para interesses pessoais, uma vez que, através dos colaboradores e sob um titular hierárquico, a organização do trabalho deve atender às necessidades alheias.

E quanto à natureza jurídica da empresa, esta não possui personalidade jurídica - nem pode possuí-la -, nem ser entendida como sujeito de direito, já que se contrapõe ao seu titular, isto é, ao empresário (MESSINEO, 1957).

Por outro lado, Santoro Passarelli (1961, p. 979) traz: “... a empresa é objeto de direito, na medida em que a empresa deveria possuir um titular”.

Já, para Negrão (2019, p. 76): “a empresa deve ser enquadrada como um terceiro gênero, uma nova categoria jurídica, pois não se trata nem de objeto de direito”.

Para Valeri (1950, p. 14): “enquadra-se perfeitamente na noção de fato jurídico em sentido amplo”.

Conclui-se que esta última noção se torna mais adequada, tendo em vista que a empresa é uma atividade formada por um conjunto de atos, e não de forma isolada.

Com base na nova dimensão construída acerca do Direito Empresarial, o aspecto jurídico da empresa representa o fundamento do Direito Comercial e elemento que une todos os institutos compreendidos na temática (BUONOCORE, 2002).

Sob este contexto, insere-se a relevância da implantação do conceito de empresa na esfera econômica e social do país, perante as mudanças e benfeitorias instauradas no ordenamento jurídico nacional, a fim de reger o teor do conteúdo aplicado ao Direito Empresarial perante a atividade empresarial que necessita de um profissional, tido como empresário, para gerir as relações empresariais.

2.3 DO EMPRESÁRIO

Previamente, o emprego das expressões “comerciante”, “comercial” e “ato de comércio”, foram extintas. Sendo definido o termo como empresário.

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Para Teixeira (2019, p. 74): “O empresário é um ativador do sistema econômico. Ele é o elo entre os capitais (que têm capital disponível), os trabalhadores (que oferecem a mão de obra) e os consumidores (que buscam produtos e serviços)”.

Como visto, o empresário é aquele que exerce a empresa de forma profissional, conforme o art. 966, caput, do Código Civil: “Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços”. (grifos nossos).

Dessa forma, o empresário é um sujeito de direitos, pois possui personalidade, podendo ser: empresário individual (uma só pessoa física) e sociedade empresária ou empresário coletivo (pessoa jurídica, com uma, duas ou mais sócios).

Por sua vez, os elementos característicos da qualidade de empresário são: exercício da atividade, a natureza da atividade econômica, organização da atividade, a profissionalidade no exercício da atividade e a finalidade da produção ou circulação de bens ou de serviços (TEXEIRA, 2019).

A atividade, como dito no decorrer deste trabalho, se conceitua como o conjunto de atos coordenados para alcançar uma finalidade comum, que por sua vez, se denomina empresa. Logo, essa atividade é uma habilidade do sujeito que a exerce ou organiza.

Fransceschelli (1944, p. 43) destaca: “[...] como elemento preponderante da condição de empresário a assunção do risco, um risco peculiar”.

No mesmo sentido, afere-se, a atividade empresarial enquanto econômica impõe àquele que a pratica um risco inerente.

Como explica Tomazette (2017):

O investidor retira capital de seu patrimônio e o liga a determinadas atividades. Com essa conduta ele assume o risco de perder o valor investido. Esse risco é previamente definido e pode ser extremamente reduzido de acordo com a situação, na medida em que pode ser garantido por alguém, o qual será demandado no caso de prejuízo.

Neste contexto, o empresário assume o risco total da empresa, sendo eles incertos e ilimitados.

Prosseguindo, a atividade empresarial, por ser econômica, acarreta a criação de riquezas por meio da produção ou circulação de bens e de serviços. Logo, a sua finalidade é o lucro.

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Ato contínuo, quanto à organização da atividade, é o empresário quem a organiza e combina os fatores de produção.

Tais fatores seriam, nas palavras de Teixeira (2019, p. 77): “Os fatores de produção são: 1) natureza (matéria-prima); 2) capital (recursos financeiros, bens móveis e imóveis etc.); 3) trabalho (mão-de-obra); e 4) tecnologia (técnicas para desenvolver uma atividade)”.

É válido mencionar que o empresário pode contar com auxiliares ou colaboradores, mas não há a necessidade do concurso do trabalho dessas pessoas, já que o empresário pode ser sob a forma de firma individual, como visto outrora.

Quanto à profissionalidade, ressalte-se, o adjetivo “profissional” implica que existe algo referente ao exercício de determinada atividade como profissão, pressupondo habitualidade, pessoalidade e especialidade.

Dessa forma, a profissão é o desempenho ligado ao trabalho publicamente declarado, não se fundando na intenção do empresário, pois basta que a atividade seja externada de forma objetiva e com um caráter estável.

Registre-se, o artigo 966, parágrafo único, do Código Civil, prevê: “Não se considera empresário quem exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício da profissão constituir elemento de empresa”.

Isto decorre do caráter secundário da organização, pois aquelas atividades são prestadas de forma pessoal, existindo assim, uma relação de confiança entre quem a desenvolve e o mercado consumidor.

Neste sentido, formulou-se o Enunciado 194 da III Jornada de Direito Civil pelo Conselho de Justiça Federal: “Os profissionais liberais não são considerados empresários, salvo se a organização dos fatores da produção for mais importante que a atividade pessoal desenvolvida”.

Os mencionados profissionais serão denominados empresários, caso o exercício de sua profissão constitua elemento de empresa, isto é, quando a organização se sobressai na atividade.

2.4 DA FUNÇÃO SOCIAL E AMBIENTAL DA PROPRIEDADE PRIVADA PERANTE O EXERCÍCIO DA ATIVIDADE EMPRESARIAL

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Antes de adentrar na terminologia acerca da função social e ambiental da propriedade privada, faz mister destacar o que seria o direito de propriedade.

Para Beviláqua (2003, p. 127): “É o poder assegurado pelo grupo social à utilização de bens da vida física e moral”.

Nas palavras de Pereira (2004, p. 89): “Direito real por excelência, direito subjetivo padrão ou direito fundamental”.

Nos ensinamentos de Azevedo (2014, p. 34):

A propriedade é, assim, o estado da coisa, que pertence, em caráter próprio e exclusive, a determinada pessoa, encontrando-se em seu patrimônio e à sua disposição. O direito de propriedade é a sujeição do bem à vontade do proprietário, seu titular.

Ainda, segundo Diniz (2010, p. 848): “O direito que a pessoa física ou jurídica tem, dentro dos limites normativos, de usar, gozar, dispor de um bem corpóreo ou incorpóreo, bem como de reivindicá-lo de quem injustamente o detenha”.

Outrossim, a Constituição Federal o qualifica como um direito e garantia fundamental, em consonância ao artigo 5, XII:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

XXII - é garantido o direito de propriedade (BRASIL, 1988).

Além disso, o direito de propriedade é considerado um princípio geral da atividade econômica, conforme o artigo 170, II, da Constituição Federal: “A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: [...] II - propriedade privada”.

Ressalte-se o conceito de direito de propriedade, constante no artigo 1.228, caput, do Código Civil: “O proprietário tem a faculdade de usar, gozar e dispor da coisa, e o direito de reavê-la do poder de quem quer que injustamente a possua ou detenha”.

Assim, de acordo com os conceitos supracitados, entende-se que, o direito de propriedade está intrinsecamente ligado ao direito à liberdade e da não intervenção estatal.

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Contudo, ocorreu uma associação entre o individual e o social, sendo a propriedade demarcada pela implantação da função social no hodierno conceito de propriedade privada.

A priori, a palavra função, consoante Comparato (1986), possui a ideia que carrega em si a noção de um poder de dar destino determinado a um objeto ou a uma relação jurídica, vinculando-os a certos objetivos.

Já, Modugno, (1969, p. 301): “O vocábulo função designa o cumprimento de um dever, de uma atribuição, de uma obrigação”.

Para Benjamin (2011, p. 23): “A atividade finalisticamente dirigida à tutela de interesse de outrem, caracterizando-se pela relevância global, homogeneidade de regime e manifestação através de um dever-poder”.

Desse modo, a palavra função possui inúmeros significados, seja no âmbito comum como no jurídico.

Ocorre que no exercício do direito à propriedade, esta deverá atender a sua função social, segundo os artigos 5, XXIII e 170, III, da Constituição Federal:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

XXIII - a propriedade atenderá a sua função social.

[...]

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:

III - função social da propriedade (BRASIL, 1988).

Isto posto, a função dos institutos jurídicos perpassa a esfera social para assegurar a satisfação coletiva da sociedade, isto é, há o exercício da função com base na coletividade, culminando na denominada função social.

Neste viés, a função social da propriedade para Moraes, 1999, p. 111:

[...] função social da propriedade não é senão um concreto modo de funcionar a propriedade, seja como exercício do direito de propriedade ou não, exigido pelo ordenamento jurídico, direta ou indiretamente, por meio de uma imposição de obrigações, encargos, limitações, restrições, estímulos ou ameaças, para a satisfação de uma necessidade social e temporal e espacialmente considerada.

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Dessa maneira, houve uma aplicação do conceito de propriedade voltado para sua função social como um enquadramento importante, já que anteriormente tratava-se de um direito primordialmente individual, mas que passou a ter uma concepção social e coletiva.

Ressalte-se, o princípio social da propriedade por ser um princípio basilar da ordem econômica, aplica-se a empresa e aos seus bens de produção, pois esta é um instrumento de exercício do poder privado econômico.

Assim, as três principais funções da empresa para Carvalhosa, 1977, p. 237: A primeira, refere-se às condições de trabalho e às relações com seus empregados (...) a segunda, volta-se ao interesse dos consumidores (...) a terceira, volta-se ao interesse dos concorrentes (...). E ainda mais atual é a preocupação com os interesses de preservação ecológica urbana e ambiental da comunidade em que a empresa atua.

Por conseguinte, com base na legislação nacional, reconhecer que a função social da empresa é importante para o exercício da atividade empresarial implica dizer que há interesses internos e externos que devem ser respeitados.

Em suma, a função social da propriedade possui um sentido amplo ao encarar a riqueza como destinada à produção de bens que satisfaçam as necessidades sociais.

Ao passo que na função social da empresa, o empresário deve observar os seus próprios interesses - sobretudo ao visar o lucro -, mas ponderar a ampliação que estes interesses poderão abarcar ao exercer a sua atividade econômica de forma organizada e profissional.

No entanto, ao analisar as supracitadas funções, julga-se que entre elas existem diferenças, mas se tornam semelhantes ao atuarem em prol do bem social.

Em relação à função ambiental da propriedade, é prevista no artigo 225, caput, da Constituição Federal: “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.

Neste contexto, a função ambiental é uma espécie do gênero função e é um fenômeno jurídico de manifestação recente, pois, embora o fenômeno ambiental seja anterior ao próprio homem, a sua percepção jurídica só começou a tomar forma nos últimos anos, como resultado das grandes transformações do processo de desenvolvimento que se refletem também no Direito (BENJAMIN, 2010).

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A função ambiental nas palavras de Sant‟Anna (2007, p. 156): “Conjunto de atividades que visam garantir a todos o direito constitucional de desfrutar um meio ambiente equilibrado e sustentável, na busca da sadia e satisfatória qualidade de vida, para a presente e futura gerações”.

Destarte, a tentativa de conciliar os interesses sociais, governamentais e privados nem sempre é de uma forma perfeita. Por isso, necessita-se a colaboração de todos os seus integrantes, haja vista a atuação do Estado como um modo de pôr ordem na vida econômica e social por intermédio da imposição de condicionamentos à atividade empresarial.

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3. MEIO AMBIENTE: CONCEITO JURÍDICO, DOS PRINCÍPIOS, DO DANO AMBIENTAL E DA RESPONSABILIDADE EMPRESARIAL

3.1 DO CONCEITO JURÍDICO

Os direitos sociais foram reconhecidos pela Constituição da República de Weimar, em 1919, não se opondo aos direitos fundamentais. Com isso, surgiu uma terceira geração de direitos fundamentais, não relacionados ao direito à vida ou à liberdade, mas sim, à qualidade de vida e à solidariedade entre os seres humanos das mais diversas nações (BALDRIGHI, 1998).

Diante disso, pode-se afirmar que a preocupação da legislação vigente à época não era a promulgação de mais direitos, mas a forma que os direitos já adquiridos seriam exercidos.

Para, Ferreira Filho (1996), os direitos da terceira geração são divididos em quatro principais: o direito à paz, o direito ao desenvolvimento, o direito ao meio ambiente e o direito ao patrimônio comum da humanidade.

Desse modo, o direito ao meio ambiente é previsto em nosso ordenamento jurídico como um direito fundamental que se relaciona com os demais direitos humanos.

Nas palavras de Farias; Coutinho; Melo (2016, p. 27):

O meio ambiente é o lugar onde se manifesta a vida, seja a existência humana ou de qualquer outra espécie, o que inclui os aspectos que contribuem para que isso ocorra. Em, outras palavras, o meio ambiente é formado pelos elementos bióticos, que é o conjunto de seres vivos em um determinado ecossistema, a exemplo dos animais e plantas, e pelos elementos abióticos, que é o conjunto de fatores físicos ou químicos que contribuem para a manifestação da vida, como a água, o solo, a umidade e o vento, bem como pela interação entre cada um desses elementos.

de Da Silva (1995) expõe que o meio ambiente é um complexo de elementos naturais, culturais e artificiais. O meio ambiente natural é formado pelo solo, a água, o ar atmosférico, a flora, a fauna, isto é, a biosfera. Já o meio ambiente cultural compreende o patrimônio artístico, histórico, turístico, paisagístico e arqueológico. E o meio ambiente artificial é integrado pelo espaço urbano construído, como as edificações, ruas, praças, áreas verdes e equipamentos públicos.

Todavia, a primeira conceituação se tornou em desuso pelo fato de abordar aspectos naturais; e o segundo conceito foi formulado e adotado pelo Direito

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Ambiental pelo fato de considerar os aspectos de ordem cultural, econômica, política ou social.

Saliente-se, a Carta Magna não prevê em seus dispositivos, o conceito jurídico de meio ambiente, mas determina tão-somente a sua proteção nos artigos 5, LXXIII; 170, VI e 225, caput:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

[...]

LXXIII - qualquer cidadão é parte legítima para propor ação popular que vise a anular ato lesivo ao patrimônio público ou de entidade de que o Estado participe, à moralidade administrativa, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico e cultural, ficando o autor, salvo comprovada má-fé, isento de custas judiciais e do ônus da sucumbência.

[...]

Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios:

[...]

VI - defesa do meio ambiente, inclusive mediante tratamento diferenciado conforme o impacto ambiental dos produtos e serviços e de seus processos de elaboração e prestação; (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 42, de 19.12.2003) (BRASIL, 1988).

[...]

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações. (grifos nossos). (BRASIL, 1988).

Com isso, aponta-se que o direito ao meio ambiente previsto na legislação constitucional, acarretou uma vasta transformação na legislação ambiental por tratar do meio ambiente como um objeto do Direito Público, principalmente do Direito Ambiental, como uma difusão do direito à vida, pois sem um meio ambiente adequado não há vida.

Trata-se, ainda, de um direito comum de todos, já que estes possuem obrigação de defender e preservar o instrumento desse direito, a fim de atender a sua função social.

Ademais, a definição jurídica do que seria o meio ambiente se tornou cargo da legislação infraconstitucional e da jurisprudência.

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Desse modo, conforme o art. 3, I, da Lei nº 6.938/81 (Lei da Política do Meio Ambiente), o meio ambiente pode ser definido, como:

O conjunto de condições, l eis, infl uências e i nterações de ordem físi ca, quími ca e biol ógi ca, que permi te, abriga e rege a vida em todas as suas formas. Logo, esta conceituação tornou -se inovadora no tempo, por tratar de um modo integrativo e i ntegral de proteção jurídi ca a todos os el ementos da natureza.

Conclui-se, a definição do meio ambiente como um conjunto que abrange os mais variados organismos e espaços tornou-se de suma importância para o Direito, pois ao delimitar o seu objeto, a legislação específica pode ser aplicada ao caso concreto para que a tutela jurídica seja efetiva.

3.2 DA PROTEÇÃO PRINCIPIOLÓGICA E CONSTITUCIONAL DO DIREITO AMBIENTAL

Com o propósito de controlar o crescimento econômico em decorrência da possibilidade de um colapso ecológico, em face dos mais variados danos ecológicos provocados pelos agentes poluidores, o meio ambiente começou a ser discutido nas pautas governamentais.

Diante tal providência, surgiram vários princípios concernentes ao meio ambiente que incidem como regra de aplicação do Direito no caso prático, tendo em vista que o Direito Ambiental é um ramo novo na área jurídica.

Nesta perspectiva, no que tange aos princípios gerais do Direito Ambiental, consoante Farias; Coutinho; Melo (2016), não há um consenso na doutrina e jurisprudência sobreo conteúdo, número ou terminologia adotada.

Desse modo, para os citados autores, os princípios são classificados em: princípio do acesso equitativo; do direito humano fundamental; do desenvolvimento sustentável; da função social da propriedade; da informação; do limite; da participação; da prevenção; da precaução; do poluidor-pagador; da transversalidade; e do não retrocesso ambiental.

O princípio do acesso equitativo enfatiza que qualquer ser humano deve ter acesso aos recursos naturais e ao meio ambiente de uma forma geral, conforme as suas necessidades. Observa-se, assim, que este princípio é previsto no artigo 225, caput, da Constituição Federal, que usa a expressão: “bem de uso comum do povo” (FARIAS; COUTINHO; MELO, 2016).

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Para os doutrinadores retro, a palavra “equidade” pode ser classificada como intergeracional (partilha igualitária dos recursos naturais e do meio ambiente entre as gerações presentes) e intrageracional (leva-se em conta as gerações futuras).

Já o princípio do direito humano fundamental fora previsto na Declaração Universal do Meio Ambiente ou Declaração de Estocolmo sobre o ambiente humano, momento em que a Organização das Nações Unidas preparou a 1ª Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, entre os dias 5 a 16 de junho de 1972, na Suécia.

Conforme o princípio supracitado, constante no Princípio 1:

O homem tem o direito fundamental à liberdade, à igualdade e ao desfrute de condições de vida adequada em um meio, cuja qualidade lhe permita levar uma vida digna e gozar de bem-estar, e tem a solene obrigação de proteger e melhorar esse meio para as gerações futuras e presentes.

Ainda, sob a influência da citada Declaração, o Brasil editou a Lei federal nº 6.938/81 que menciona a importância do meio ambiente para a vida e sua qualidade, normatizando os objetivos, princípios, conceitos e instrumentos utilizados para efetivar a proteção.

Por sua vez, o princípio do desenvolvimento sustentável busca harmonizar as questões ambientais, econômicas e sociais, ao tentar equilibrar a utilização dos recursos naturais, o crescimento econômico e a equidade social (FARIAS; COUTINHO; MELO, 2016).

Nas palavras de Cançado Trindade (2002, p.11):

Princípio do „desenvolvimento sustentável‟ fornece um possível vínculo entre o direito ao desenvolvimento e o direito a um meio ambiente sadio. O meio ambiente e o desenvolvimento hão de ser enfocados conjuntamente, o que se aplica a regiões desenvolvidas assim como em desenvolvimento do mundo, criando obrigações para todos tendo em mente a comunidade internacional como um todo, e as gerações presentes assim como futuras: nesse sentido o desenvolvimento sustentável veio a ser tido não só como um conceito, mas como um princípio de direito internacional contemporâneo.

Ressalte-se que esse princípio está previsto nos mencionados artigos 170, caput, 225, caput, da Constituição Federal, bem como o art. 4, I, da citada Lei da Política do Meio Ambiente: “à compatibilização do desenvolvimento econômico-social com a preservação da qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico”.

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O princípio da função social da propriedade está normatizado no artigo 170, III, da Carta Magna e determina obrigações de fazer e não fazer, ao considerar o uso da propriedade como promotora de benefícios para a sociedade.

Com isso, a proteção ambiental incidirá na propriedade quanto aos meios de produção e na atividade empresarial de uma forma ampla para que as gerações presentes e futuras possa gozar de um meio ambiente ecologicamente equilibrado.

Farias; Coutinho; Melo, 2016, p. 42, preceitua:

O princípio da informação, também conhecido como princípio da publicidade, parte do pressuposto de que toda informação m matéria ambiental é de interesse coletivo, e que no caso de inexistência caberá ao Estado produzi-la tamanha é sua importância para a construção do Estado de Direito Ambiental.

Assim, a Administração Pública tomará as decisões, no que diz respeito às políticas públicas em matéria ambiental, devendo, assim, informar a importância daquelas para a sociedade.

O princípio do limite, na tentativa de ampliar o desenvolvimento sustentável, caracteriza-se no dever que o Poder Público possui para fixar os ditames mínimos a serem observados pelos cidadãos nos casos de: emissões de partículas, ruídos, sons, destinação final de resíduos sólidos, hospitalares e líquidos, dentre outros (FARIAS; COUTINHO; MELO, 2016).

É válido mencionar, este princípio está previsto como medida no artigo 225, §1º, V, da Constituição Federal:

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações.

§ 1º Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:

[...]

V - controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente. (Regulamento) (BRASIL, 1988).

O princípio da participação, ou democrático, ou da gestão democrática, está normatizado no artigo 225, caput, da Constituição Federal, garantindo ao cidadão o direito à informação e participação na elaboração das políticas públicas e ambientais, por intermédio dos mecanismos judiciais, legislativos e administrativos.

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Quanto ao princípio da prevenção, vale mencionar, é o fundamento mais presente na legislação ambiental e nas políticas públicas do meio ambiente, já que prevê a adoção de políticas públicas em defesa dos recursos ambientais em razão da degradação ambiental.

Este postulado está consagrado no Princípio 6, da Declaração Universal sobre o Meio Ambiente de 1972:

Deve-se pôr fim à descarga de substâncias tóxicas ou de outros materiais e, ainda, à liberação de calor em quantidades ou concentrações tais que o meio ambiente não tenha condições de neutralizá-las, a fim de não se causar danos graves ou irreparáveis ao ecossistema. Deve-se apoiar a justa luta dos povos de todos os países contra a contaminação.

O princípio da precaução estabelece a vedação de intervenção no meio ambiente, exceto se houver certeza que as alterações ambientais não causaram reações adversas, pois nem sempre a ciência pode dar respostas conclusivas, de acordo com o Princípio 15, da Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992:

Com o fim de proteger o meio ambiente, o princípio da precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental.

O princípio do poluidor-pagador adverte que quem utiliza o recurso ambiental, deverá suportar os seus custos, sem que este custo finde na cobrança de taxas abusivas. Inclusive, o objetivo desse princípio é influenciar para que a iniciativa privada internalize os custos ambientais gerados em sua produção e pelo consumo, já que degrada e põe em escassez os recursos naturais.

O princípio da transversalidade, ou ubiquidade, ou da consideração da variável ambiental nos processos decisórios, considera a variável ambiental em qualquer processo decisório de desenvolvimento, pois a maioria das políticas públicas interfere ou podem interferir na essência do meio ambiente (FARIAS; COUTINHO; MELO, 2016).

Por fim, o princípio do não retrocesso ambiental determina que as normas ambientais não devem ser flexibilizadas, pois põe em risco as conquistas alcançadas pela legislação ambiental.

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3.3 A TEORIA DO RISCO COMO RESPALDO PARA A OCORRÊNCIA DO DANO AMBIENTAL

Na órbita cível, de fato, segundo Tartuce (2016), deve-se provar a culpa e o dolo diante de uma conduta para que haja indenização.

Nesse compasso, o artigo 927, caput, do Código Civil, normatiza que: “Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187 ), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo”.

Ainda, mediante a legislação processual civil, existem casos em que só haverá responsabilidade com a efetiva comprovação do dano, sendo este incumbido ao autor da ação, conforme o artigo 373, I, do Código de Processo Civil: “O ônus da prova incumbe: I - ao autor, quanto ao fato constitutivo de seu direito”.

Sob outra ótica, logra a possibilidade de o ônus probatório ser invertido, quando se tratar de relações de consumo perante hipossuficiência do consumidor ou da harmonia de suas alegações, em consonância com o artigo 6, VIII, do Código do Consumidor:

Art. 6º São direitos básicos do consumidor: [...]

VIII - a facilitação da defesa de seus direitos, inclusive com a inversão do ônus da prova, a seu favor, no processo civil, quando, a critério do juiz, for verossímil a alegação ou quando for ele hipossuficiente, segundo as regras ordinárias de experiências (grifos nossos).

Então, conclui-se que o dano é toda ofensa praticada aos bens ou interesses alheios protegidos pela ordem jurídica, configurando como dano patrimonial, quando há prejuízo no patrimônio econômico de uma pessoa; ou extrapatrimonial, quando alguém sofre um prejuízo psicológico.

Em contrapartida, o artigo 927, parágrafo único, da legislação cível aborda uma ideia contrária ao que é abrangido em seu caput, ao enfatizar a teoria do risco que pode ser aplicada à atividade empresarial:

Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem. (grifos nossos).

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Nesta perspectiva, a teoria do risco fundamenta a responsabilidade objetiva no Brasil tendo em vista que se alguém exerce uma atividade criadora de perigos especiais, deverá responder pelos danos que ocasionar a outrem (TARTUCE, 2016). De acordo com este pensamento, Salim (2005) aborda que existem algumas modalidades da teoria do risco que não são especificadas pelo artigo 927 da lei civil. Então a doutrina citada divide o risco em: teoria do risco proveito; risco profissional; risco excepcional; risco criado e risco integral.

Assim, para o autor citado, o viés da teoria do risco proveito se dá pela responsabilidade de quem busca tirar proveito ou bem da atividade danosa, de modo que, quem afere o bônus, deverá suportar o ônus (ubi emolumentim, ibi et ônus esse debet).

Quanto ao risco profissional, o dever de indenizar ocorrerá quando o fato prejudicial decorrer da atividade ou profissão do lesado.

Já no risco excepcional, a reparação será devida quando o dano for consequência daquele, isto é, não faz parte da atividade comum da vítima, mesmo que seja estranha ao seu trabalho.

O risco criado se dá no momento em que aquele que exerce uma atividade ou profissão promove um perigo pelo qual deverá reparar o dano que causar. Salvo se provar que obedeceu às medidas idôneas para evitá-lo.

E a teoria do risco integral é considerada a forma mais extrema da teoria do risco. Através dela, o agente é obrigado a reparar o dano causado, mesmo nos casos de inexistência do nexo causal.

Uma das hipóteses previstas em nosso ordenamento jurídico em que se aplica a teoria do risco é na ocorrência do dano ambiental, sendo o seu causador obrigado a promover a reparação, independentemente de culpa, como previsto nos artigos 225, §3º, da Constituição Federal e 14, §1º, da Lei nº 6.938/81 (Lei Política Nacional do Meio Ambiente):

Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações.

[...]

§ 3º As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados. (grifos nossos). (BRASIL. 1988).

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Art 14 - Sem prejuízo das penalidades definidas pela legislação federal, estadual e municipal, o não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção dos inconvenientes e danos causados pela degradação da qualidade ambiental sujeitará os transgressores:

§ 1º - Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente da existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade. (grifos nossos).

Dessa forma, não somente a agressão à natureza, mas ao equilíbrio ecológico, ao bem-estar e à qualidade de vida imposta à coletividade podem ser objetos de reparação (BENJAMIN, 1998).

Conquanto a legislação brasileira não aborde um conceito específico para o dano ambiental, este é intimamente ligado ao conceito de meio ambiente, aplicando-se o artigo 3, incisos II e III, da supramencionada lei, que aborda a degradação ambiental e a poluição:

Art 3º - Para os fins previstos nesta Lei, entende-se por: [...]

II - degradação da qualidade ambiental, a alteração adversa das características do meio ambiente;

III - poluição, a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente: a) prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população; b) criem condições adversas às atividades sociais e econômicas; c) afetem desfavoravelmente a biota; d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente; e) lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos (grifos nossos).

Antunes (1996, p. 119) menciona que: “o dano ambiental pode ser entendido como qualquer alteração, deterioração ou destruição, parcial ou total, de quaisquer dos recursos naturais, afetando adversamente o homem e/ou a natureza”.

Assim, o dano ambiental é classificado como pessoal (patrimonial e moral) ou ecológico (dano ambiental stricto sensu ou ecológico puro ou contra a natureza).

De uma forma precisa, no dano patrimonial haverá uma obrigação de reparar o bem ambiental lesado, pertencente à sociedade; e no dano moral, diante da lesão ao meio ambiente, haverá uma ligação com um prejuízo não econômico, causado à coletividade.

Com isso, o Direito ampliou o seu interesse pela temática, primeiramente pelo surgimento e consolidação do Direito Ambiental, entre as décadas de 1970 e 1980 e,

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em segundo momento, pela atuação do Direito Privado, especialmente com o advento da responsabilidade acerca da proteção ambiental (BENJAMIN, 1998).

Barreira Custódio (1996, p. 78) aborda que “responsabilidade civil pelo dano ambiental é um “tema jurídico progressivamente atual e sempre oportuno”.

Com esta expressão, o mencionado autor nos leva a refletir que, no século XX, o dano ambiental era de certa forma uma novidade não só para os legisladores, mas também para a sociedade, tendo em vista que o meio ambiente era caracterizado como simplesmente um bem não tutelado.

Neste contexto, pode-se afirmar que com o advento da legislação ambiental, o tratamento dado ao meio ambiente mudou drasticamente. Até porque fora constituída uma especificação da temática dada inicialmente no âmbito do direito civil, passando, assim, de dano ecológico para dano ambiental, tendo em vista que a degradação atinge toda a biota, em seus aspectos ecológico, econômico e social.

3.4 DAS CONSEQUÊNCIAS LEGAIS PARA A EMPRESA EM MATÉRIA EM AMBIENTAL

Nos ensinamentos de Lemos (2003, p. 78):

Na década de 80, cresceu a consciência ecológica, o que trouxe influência direta na formulação da legislação ambiental. Referindo-se à legislação infraconstitucional é necessário lembrar da Política Nacional do Meio Ambiente, estabelecida pela Lei n. 6.938/, de 31/08/1981, segundo a qual há que se assegurar a “manutenção do equilíbrio ecológico, considero o meio ambiente como um patrimônio público a ser necessariamente assegurado e protegido, tendo em vista o uso coletivo.

O desenvolvimento da civilização ocidental passou aos tribunais, ao legislador e ao Estado a tarefa de garantir a manutenção do modelo de crescimento econômico totalmente agressivo, tendo em vista a completa ausência de zelo para com o meio ambiente (BENJAMIN, 1998).

Desse modo, a incidência de devastação e o linear progresso da tutela ao meio ambiente acarretaram a conscientização dos Poderes, dos entes públicos e da sociedade acerca do cerceamento dos meios naturais e necessários para a sobrevivência.

Com isso, o dano ambiental como efetiva diminuição ou degradação do meio ambiente passou a ser estudado na tentativa de amparar a natureza em face da atividade predatória do homem, que prejudica o equilíbrio ecológico na medida em que todo prejuízo necessita de reparo (BALDRIGHI, 1998).

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Entretanto, quanto à base principiológica, o dano ambiental advém, sobretudo, do princípio do poluidor pagador, pois busca evitar danos ao meio ambiente e almeja imputar ao poluidor o custo social pelo poluente gerado, haja vista a tutela jurídica que recai sobre as vítimas: a humanidade e o meio ambiente.

Nas palavras de Fonseca, (1981, p. 113):

O sentido de tal princípio é de que o dano ecológico deve ser indenizado pelo beneficiário, entendido como tal o próprio causador do dano ou adquirente do produto para quem foi fabricado o mesmo e que provocou o dano.

Vale destacar, a Conferência de Estocolmo em 1972, adotou o princípio do poluidor pagador nos princípios 21 e 22, na tentativa de minorar os efeitos negativos dos impactos ambientais nocivos à natureza, como visto a seguir:

Princípio 21

Em conformidade com a Carta das Nações Unidas e com os princípios de direito internacional, os Estados têm o direito soberano de explorar seus próprios recursos em aplicação de sua própria política ambiental e a obrigação de assegurar-se de que as atividades que se levem a cabo, dentro de sua jurisdição, ou sob seu controle, não prejudiquem o meio ambiente de outros Estados ou de zonas situadas fora de toda jurisdição nacional.

Princípio 22

Os Estados devem cooperar para continuar desenvolvendo o direito internacional no que se refere à responsabilidade e à indenização às vítimas da poluição e de outros danos ambientais que as atividades realizadas dentro da jurisdição ou sob o controle de tais Estados causem às zonas fora de sua jurisdição.

O Direito Ambiental encerra um conjunto de normas de caráter preventivo, repressivo e reparatório (BALDRIGHI, 1998).

Ainda, deve ser mencionado que, no Brasil, a responsabilidade ambiental se desenvolve sob três espécies: responsabilidade administrativa, penal e civil (FARIAS; COUTINHO; MELO, 2016).

Assim, de acordo com a referida lei, no Brasil, a responsabilidade civil se dá com a cobrança do custo ambiental, em face da obrigação de indenizar pelo dano, bem como pelos terceiros afetados com a atividade, mesmo que não haja culpa, caracterizando, assim, uma responsabilidade objetiva segundo o artigo 14, §1º:

Art. 14 - Sem prejuízo das penalidades definidas pela legislação federal, estadual e municipal, o não cumprimento das medidas necessárias à preservação ou correção dos inconvenientes e danos causados pela degradação da qualidade ambiental sujeitará os transgressores:

Referências

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