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Patricia Magno Defensora Pública NUSPEN

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Academic year: 2021

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Encontrando o fio condutor

“Estudar a crônica da execução penal é fazer a crônica da

servidão humana

. Crônica que nos humilha e constrange

porque, perpassando a história da

luta de classes

, desvenda

segredos sociais e revela a ideologia do grupo detentor do

poder de fazer as leis

. Esta evidencia que a execução penal

nada mais é senão um dos instrumentos de

controle da

sociedade

, com isso, tomamos consciência de quão longe

estamos, ainda, dos ideais de igualdade e liberdade.”(p. 169)

Marco Teórico:

João Marcello de Araújo Júnior.

Execução Penal – Ideologia e Discurso Político – Tomada de Consciência.

In: ROBERTO LYRA. Criminologia, atualizado e acrescido por João

Marcello. Rio de Janeiro: Forense, 1995.

(3)

D

o diálogo entre

DIREITO PENAL e SAÚDE MENTAL

Rotulagem louco ou doente mental é técnica de invalidação

social

“Não há técnica de invalidação mais respeitável, ou mesmo

sacrossanta, do que a que conta a bênção da ciência médica”. (p. 11)

“Teremos, de fato, de considerar o ponto de vista de que

a

Psiquiatria

, no âmbito de uma área de grande importância de todo o

seu campo de operação,

tem colaborado com a sistemática

invalidação de ampla categoria de pessoas

”. (p. 12)

Marco Teórico:

David Cooper

Psiquiatria e Antipsiquiatria

São Paulo: Editora Perspectiva, 1977.

(4)

Do diálogo entre DIREITO PENAL e SAÚDE MENTAL

Violência e Psiquiatria

“No cerne de nosso problema está a violência. No entanto, o tipo de violência que

aqui considerarei pouco tem a ver com pessoas que utilizam martelos para golpear a

cabeça de outras, nem se aproximará muito do que supõe façam os doentes

mentais. Se se quer falar de violência em psiquiatria, a violência que brada, que

se proclama em tão alta voz que raramente é ouvida, é sutil,

tortuosa violência

perpetrada pelos outros, pelos “sadios”, contra os rotulados de loucos

. Na

medida em que a psiquiatria representa os interesses ou pretensos interesses dos

sadios, podemos descobrir que, de fato, a violência

em

psiquiatria é

(5)

Rupturas Provocadas nas Ciências Criminais

.

Importância da luta contra estigmatização da diferença

Criminologia como espaço de convergência de disciplinas.

“Desde a perspectiva jus (jurídica) do discurso criminológico, a teoria crítica derivou modelos político-criminais alternativos centrados na ideia de minimização do sistema penal e gradual abolição das agências de punitividade, sobretudo o cárcere (v.g.

garantismo penal, direito penal mínimo, realismo de esquerda, realismo marginal e abolicionismo). No âmbito das ciências psi (psicologia, psicanálise e psiquiatria), a

ruptura com o ideal correcionalista fomentou o pensamento antipsiquiátrico e o

movimento político antimanicomial. (...) Todavia, se no plano das políticas

jurídico-criminais a crítica foi atropelada pela reinvenção e relegitimação do cárcere, na esfera da saúde mental foi possível experimentar importantes avanços”. (p. 286)

Marco Teórico:

Salo de Carvalho

Manual de Anticriminologia

(6)

Rupturas Provocadas pela Antipsiquiatria nas Ciências Criminais

Derrubar os muros dos manicômios desafia a cultura, significa retirar a sustentação

da cisão entre normais e loucos. Todos são pessoas.

“A cisão artificial entre normais e loucos ... é sustentada pelo espaço institucional dos

manicômios (e dos cárceres)”. (p. 288)

“A abertura e a visibilidade das relações que se estabelecem nas instituições totais

realizadas pela criminologia crítica (cárcere) e pela antipsiquiatria (manicômios),

possibilitam perceber as formas físicas e simbólicas de violência exercidas nos

espaços institucionais de controle social”. (p. 292)

(7)

Rupturas Provocadas pela Antipsiquiatria nas Ciências Criminais

Desafios...

Como levar a LUTA ANTIMANICOMIAL PARA DENTRO DOS MANICÔMIOS

JUDICIÁRIOS?

V. tempo de demora da inclusão do “louco infrator” na Carta do Movimento Antimanicomial: só em 2014, item 6 e item 7.

o Carta, Item 6: Afirmar o fim dos Hospitais de Custódia e exigir uma atenção integral ao “louco infrator”. o Carta, Item 7: Aproximação com a lógica do abolicionismo penal, afirmando a necessidade de uma responsabilização sem a necessidade de punição.

(8)

Luta Antimanicomial

: conceito, panorama

histórico, Lei 10.216/01 e luta que segue.

Corte IDH, Caso Ximenes Lopes vs. Brasil – processo internacional que durante sua tramitação alavancou o PL da Lei 10216/01. Fato ocorrido em outubro de 1999, a sentença é de 2007.

2001 – Lei Antimanicomial (Lei n. 10.216 de 06.04.01) dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.  2011 – Audiência Pública de apresentação do Parecer do MPF no INQUÉRITO CIVIL PÚBLICO n.

1.00.000.004683/2011-80, junho de 2011.

2014 – Portaria Interministerial MJ e MS n. 01 de 2014 institui o PNAISP!!!!

oArt. 2º É considerada beneficiária do serviço consignado nesta norma a pessoa que, presumidamente ou comprovadamente,

apresente transtorno mentale que esteja em conflito com a Lei, sob as seguintes condições: com inquérito policial em curso, sob custódia da justiça criminal ou em liberdade; ou, com processo criminal, e em cumprimento de pena privativa de liberdade ou prisão provisória ou respondendo em liberdade, e que tenha o incidente de insanidade mental instaurado; ou em cumprimento de

medida de segurança; ou sob liberação condicional da medida de segurança; ou, com medida de segurança extinta e

Marco Teórico:

MPF. Procuradoria Federal dos Direitos dos Cidadãos.

Parecer sobre Medidas de Segurança e HCTPs sob a perspectiva da Lei n. 10.216/2001.

(9)

Medidas de Segurança (MS).

Marco Teórico:

Rui Carlos Machado Alvim

Uma Pequena História das Medidas de

Segurança.

Publicação do IBCCrim, 1997.

Rui faz análise dos antecedentes das MS em todas as épocas da humanidade e

identifica diversas aplicações da noção de perigoso para segregar o homem.

“Prevenção social, periculosidade e medidas de segurança: eis o tripé formativo

da emergente tese.

A

prevenção social

marcava-lhe o

fundamento

; a

periculosidade

representava

a

causa a ser neutralizada

e finalmente as

medidas de segurança

projetavam-se como

o

instrumento adequado

a atuar estrutura substitutiva e paralela”. (p. 21)

“Abrira-se uma porta ao aparato repressor e fechava-se uma porta aos intratáveis”.

o

Quem eram os intratáveis?

(10)

 “A intenção (da publicação do CREMESP) é mostrar a realidade dos “hospitais de custódia” que, como o próprio nome indica, têm a função de prestar assistência médica e psiquiátrica a pacientes infratores mantidos em ambientes fechados. O propósito do sistema é tratá-los até que o risco de periculosidade seja declarado extinto e o indivíduo possa retornar ao convívio com a família e a sociedade.

Bem ao contrário, o cenário encontrado pela equipe do CREMESP configura uma condição desumana que contribui para maior degradação física e mental. Como se verá, as unidades

carecem de mão de obra e as instalações estão deterioradas. Faltam de psiquiatras a pessoal de limpeza, as ligações elétricas estão expostas, o refeitório cheira mal, as enfermarias têm os

vidros das janelas quebrados. O ar fétido se mistura com a fumaça dos cigarros acesos o tempo todo. Se para o preso comum, a cadeia é muitas vezes “uma escola para o crime”, para o doente mental infrator o hospital de custódia é um “estágio a mais na escala da loucura”.” (grifamos)

Tratamento ou punição? Finalidade da MS.

Marco Teórico: João Ladislau. Hospital de Custódia: fiscalização das instituições de custódia e tratamento psiquiátrico do Estado de São Paulo. CREMESP, 2014.).

(11)

Tratamento ou punição? Finalidade da MS.

LEP, art. 1º:

• “A execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado.”CP, 97, §4º: “fins curativos”

Lei 10.216/01: princípio da igualdade como não discriminação entre louco e louco infrator.

CNJ, Res. 113, art. 17:

• “O juiz competente para a execução da medida de segurança, sempre que possível buscará implementar políticas antimanicomiais, conforme sistemática da Lei nº 10.216, de 2001.”

CNPCP, Res. 05/04, item 01:

• “O tratamento aos portadores de transtornos mentais considerados inimputáveis “visará, como finalidade permanente, a reinserção social do paciente em seu meio” (art. 4º, § 1° da Lei nº

10.216/01), tendo como princípios norteadores o respeito aos direitos humanos, a desospitalização

(12)

Tratamento ou punição? Finalidade da MS.

CNPCP, Res. 04/2010: extinção gradativa dos manicômios (cfe. PNDH 2, 369 e PNDH 3).

• “Art. 1º. (...) § 1º Devem ser observados na execução da medida de segurança os princípios

estabelecidos pela Lei 10.216/2001, que dispõe sobre a proteção dos direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial de tratamento e cuidado em saúde mental que deve acontecer de modo antimanicomial, em serviços substitutivos em meio aberto”

 “A liberdade é sempre terapêutica”. (Massimo Pavarini) • LIMITE TEMPORAL PARA A EXTINÇÃO DOS HCTP!!!

“Art. 6º O Poder Executivo, em parceria com o Poder Judiciário, irá implantar e concluir, no prazo de 10

anos, a substituição do modelo manicomial de cumprimento de medida de segurança para o modelo

(13)

Conceito:

• “O Projeto Terapêutico Singular (PTS) é um conjunto de propostas de condutas terapêuticas articuladas, para um sujeito individual ou coletivo, resultado da discussão coletiva de uma equipe interdisciplinar, com apoio matricial, se necessário.

Geralmente é dedicado a situações mais complexas. É uma variação da discussão de “caso clínico”. Foi bastante desenvolvido em espaços de atenção à saúde mental

como forma de propiciar uma atuação integrada da equipe valorizando outros aspectos, além do diagnóstico psiquiátrico e da medicação, no tratamento dos usuários”. (p. 27.)

• É um eterno construir.

Explicitar método de atendimento aos internados nos manicômios no RJ.

Projeto Terapêutico Singular.

PNAISP, Portaria 94 do MS e Resolução CNJ n. 113.

Marco Teórico: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Diretrizes do NASF: Núcleo de Apoio a Saúde da Família Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. – Brasília : Ministério da Saúde, 2010.

(14)

LEP, Art. 175. “A cessação da periculosidade será averiguada no fim do prazo mínimo de duração da

medida de segurança, pelo exame das condições pessoais do agente, observando-se o seguinte:” c/c art. 176 e Lei 10.216/01 (desconsiderar o prazo mínimo)

Conceito. É uma perícia médica que responde à quesitação implícita: “Queira o Sr. Perito informar se

cessou a periculosidade do periciando?”

 “não, porque não houve cura dos sintomas de retardo mental”  “não, porque não há vínculos familiares mantidos”

 Incompatibilidades entre o parecer da equipe técnica assistente e o laudo médico subscrito, quase sempre por um único perito.

Perícia Médica. Cessação de Periculosidade ou LAP?

Recomendação 35 do CNJ.

(15)

Laudo de Avaliação Psicossocial - LAP

• Ratio: DESCONSTRUÇÃO DA NOÇÃO DE PERICULOSIDADE.

• Do otimismo da Prática: nova praxis, com produção de incômodos e tensionamento por nova burocracia.

• O laudo de avaliação psicossocial substitui a desnecessária e ultrapassada perícia de cessação de periculosidade, pois a Lei 10.216/01 e a Recomendação CNJ n. 35 impõem análise no sentido de verificar se o objetivo da reinserção social do paciente está sendo alcançado.

• Quesitos do LAP:

• a. Há quanto tempo o paciente é acompanhado pela equipe técnica?

• b. Existe necessidade médica de internação nos moldes do art. 4º e 6º da Lei 10.216/01?

• c. Quais serviços da rede de atenção psicossocial (RAPS) vêm sendo utilizados pelo paciente? • d. Como foi a adesão do paciente ao tratamento?

(16)

• Quesitos do LAP (cont.):

• e. Onde reside o paciente? Mora só ou com familiares? Tem companheira? Tem filhos? Favor descrever os laços sociais e comunitários.

• f. O paciente faz uso de medicamentos? Quais? • g. O paciente exerce atividade laborativa? Qual?

• h. O paciente possui seus documentos de identificação regularizados (ex.: certidão de nascimento, RG, CPF)? • i. O paciente recebe algum benefício previdenciário ou assistencial? Qual (ou quais)?

• j. Houve algum evento, durante o acompanhamento do paciente, que demonstrasse falha no tratamento a ele dispensado?

• k. A rede de atenção em saúde mental do município está articulada e ciente do acompanhamento do paciente em seu território?

• m. Há outras informações que sejam relevantes para a análise da situação psicossocial do paciente? Favor indicar quais.

(17)

Perícia Médica. Avaliação Psicossocial.

Salo, p. 524, refletindo sobre os impactos da Lei 10.216/01 na noção de periculosidade...

•“A modificação da finalidade (do tratamento ao cuidado-prevenção) da resposta jurídica (medida de segurança) aos portadores de sofrimento psíquico implicaria, necessariamente, uma

readequação do seu fundamento (periculosidade). Assim, ademais da dubiedade e da

imprecisão científica do conceito de periculosidade, é possível dizer que legalmente houve a sua substituição, pois a Lei da Reforma Psiquiátrica pressupõe o portador de sofrimento

psíquico como sujeito de direitos com capacidade e autonomia (responsabilidade) de intervir no rumo do processo terapêutico. A mudança de enfoque é radical, sobretudo porque, na lógica periculosista, o louco representa apenas um objeto de intervenção, de cura ou de contenção, inexistindo qualquer forma de reconhecimento da capacidade de fala da pessoa internada no manicômio judicial”.

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Internado: Sujeito de Direitos na Execução das MS.

 Nota-se, inclusive, ao longo do percurso trilhado pela antipsiquiatria e pelo movimento antimanicomial, a importância terapêutica de que o sujeito com sofrimento psíquico seja visto como responsável: responsabilizado pelos seus atos passados, responsável pelo seu processo terapêutico e responsável pelos seus projetos futuros. Negar ao portador de

sofrimento psíquico a capacidade de responsabilizar-se pelos seus atos é uma das

principais formas de assujeitamento, de coisificação do sujeito. Entender o portador de sofrimento psíquico como sujeito implica assegurar-lhe o direito à responsabilização,

situação que produzirá efeitos jurídicos compatíveis com o grau ou o nível que esta responsabilidade sui generis pode gerar”. (p. 288)

 Vide crítica à figura da interdição (retirada da autonomia) e as possibilidades que o novel instituto da tomada de decisão apoiada pode trazer!!!

 Estatuto da Pessoa com Deficiência, art. 84 + art. 116, q muda o CC, 1783-A .

Marco Teórico:

Salo de Carvalho e Mariana de Assis Brasil Weigert.

Reflexões Iniciais sobre os Impactos da Lei 10.216/01 nos sistemas de responsabilização e de Execução Penal. Responsabilidades, Belo Horizonte, v. 2, n. 2, p. 285-301, set. 2012/fev.2013..

(19)

“O desejo ardente de uma

sociedade sem crimes e sem penas

é

nobre e deve empolgar todas as consciências que amam a liberdade e

lutam pela igualdade e fraternidade entre os homens. Tal aspiração,

entretanto, não nos deve impedir de reconhecer a realidade, e esta,

infelizmente, ainda não se identificou com o sonho. Por isso,

ao mesmo

tempo em que lutamos pelo progresso, devemos nos manter na

defesa das conquistas já alcançadas

, pois se nos dedicarmos ao

devaneio, gozando a antevisão de sua concretização, poderão ocorrer

retrocessos que nos façam acordar diante de uma sociedade mais cruel

que a atual”.

(p. 167-168)

Tomada de Posição.

João Marcello de Araújo Júnior.

Os Grandes Movimentos de Política Criminal de Nosso Tempo - aspectos

In: ROBERTO LYRA. Criminologia, atualizado e acrescido por João

Marcello. Rio de Janeiro: Forense, 1995.

Referências

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