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Flexibilização trabalhista e as garantias fundamentais do empregado

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Academic year: 2020

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Revista do Curso de Direito da Universidade Braz Cubas V1 N2: Junho de 2017

FLEXIBILIZAÇÃO TRABALHISTA E AS GARANTIAS FUNDAMENTAIS DO EMPREGADO

LABOR FLEXIBILIZATION AND EMPLOYEE'S FUNDAMENTAL GUARANTEES

Thiago Antonio Nunes da Rocha1

Resumo

O presente artigo tem por finalidade analisar o fenômeno da flexibilização no Direito do Trabalho, entender porque este tema se mostra tão promissor frente a atual crise econômica, e quais consequências pode trazer as relações trabalhistas. Busca-se esclarecer se a flexibilização das garantias fundamentais do trabalhador trarão insegurança jurídica a relação de emprego, ou serão capazes de democratizá-las. Para tanto, abordara-se brevemente a trajetória evolutiva do direito do trabalho, para melhor compreender sua característica rígida e paternal. Em seguida, após breve embate de fundamentações sobre o tema, será apresentado o modelo de flexisegurança, como alternativa as medidas flexibizadoras e investigar-se-á a viabilidade de sua implantação no ordenamento brasileiro.

Palavras-chaves: Flexibilização, flexisegurança, desregulamentação trabalhistas, garantias trabalhistas,

segurança jurídica. Abstract

The purpose of this article is to analyze the phenomenon of flexibilization in Labor Law, to understand why this issue is so promising in the current economic crisis, and what consequences labor relations can bring. It seeks to clarify whether the flexibilization of the fundamental guarantees of the worker will bring legal insecurity to the employment relationship, or will be able to democratize them. In order to do so, the evolutionary trajectory of the labor law was briefly discussed in order to better understand its rigid and paternal characteristics. Then, after a brief doctrinal clash on the topic, the flexicurity model will be presented, as an alternative to the flexibizadoras measures and will be investigated the feasibility of its implantation in the Brazilian order.

Key-words: Flexibilization, flexicurity, labor deregulation, labor guarantees, legal security.

Sumário

1. INTRODUÇÃO – 2. O DIREITO DO TRABALHO E O FENÔMENO DA FLEXIBILIZAÇÃO: 2.1 Das relações de trabalho; 2.2. Liberalismo e Direito do Trabalho; 2.3. O Direito Trabalhista no Brasil; 2.4. A Flexibilização; 2.4.1. Princípio da Proteção ao Trabalhador; 2.4.2. Conceito de Flexibilização; 2.4.3. Conceito de Desregulamentação. 3. FLEXIBILIZAÇÃO X SEGURANÇA JURÍDICA; 3.1. Medidas flexibilizadoras no Direito brasileiro; 3.2. Fundamentação; 3.2.1. Posicionamento favorável à flexibilização; 3.2.2. Posicionamento contrário à flexibilização; 3.3. O confronto flexibilização X Segurança Jurídica; 3.4. A flexisegurança. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS. 5. REFERÊNCIAS

1 INTRODUÇÃO

O Direito do Trabalho surge após incansáveis lutas populares por melhores condições de trabalho. Desde as primeiras relações trabalhistas o trabalhador sempre figurou como o

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personagem mais fraco desta trama, levando consigo a alcunha de hipossuficiente. A partir do século XX aparecem os primeiros lampejos de um Direito que teria por finalidade equalizar esta balança.

O Atual cenário de crise e o aumento das taxas de desemprego, encorajam cada vez mais os pedidos por flexibilização das leis trabalhistas, sob a alegação que a quebra da rigidez dos ordenamentos trabalhistas podem ser a saída para a retração da economia e manter o setor produtivo operante, reduzindo o custo da produção industrial e gerando novos empregos. Todavia a flexibilização das normas do trabalho pode significar ao trabalhador a redução de suas garantias fundamentais, deixando-o sem as devidas proteções, e o expondo a um retrocesso das normas garantidoras, forçando o Direito do Trabalho a perder seu caráter paternalista.

O Presente artigo tem por finalidade analisar a trajetória o fenômeno da flexibilização, a fim de compreender se ela pode ou não trazer insegurança jurídica para as relações trabalhistas, e ser considera um meio eficiente para sanar a crise econômica atual.

A metodologia utilizada consiste de pesquisa biográfica e coleta de dados em livros, revistas, artigos, trabalhos científicos e em sala de aula no curso de graduação. Tendo por finalidade despertar o interesse a cerca do assunto, buscando a formação de um senso crítico sobre a necessidade de mudar, a partir de analise de questões prejudiciais ou não, a serem avaliadas em qualquer mudança considerada necessária.

2 O DIREITO DO TRABALHO E O FENÔMENO DA FLEXIBILIZAÇÃO 2.1 Das relações de Trabalho

Embora a conceitualização de Direito do Trabalho seja relativamente nova, a noção de trabalho é antiga, sua origem remonta ao momento em que o homem se estabilizou em sociedade, ainda que a priori, rudimentar e apolitizada. A relação de trabalho, tal qual conhecemos hoje, decorre de uma constante transformação, uma história de evolução, nem sempre vantajosa ao trabalhador, sendo até mesmo, em um passado não muito distante, cruel e pavorosa.

Não há o que se falar em garantias trabalhista antes do surgimento da sociedade industrial, a partir do século XVIII. Anterior a isso, na Idade Média, havia o predomínio da escravidão e

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posteriormente a servidão, que embora diferentes em seu contexto etimológico e histórico, tratavam o trabalhador com “res”, desconsiderando sua natureza “persona”.

As primeiras noções de regimento legal do trabalho advêm do surgimento das Corporações de Ofício, que embora ainda não permitissem a existência de uma ordem jurídica, já garantiam ao trabalhador considerável liberdade, uma vez que cada corporação possuía seu estatuto, onde algumas normas disciplinavam as relações de trabalho.

2.2 Liberalismo e Direito do Trabalho

De imediato, após a Revolução Industrial, pouco mudou do ponto de vista jurídico no cenário que havia se formado desde as Corporações de Ofício. Todavia é aqui que temos a substituição do trabalho escravo, servil e corporativo pelo trabalho assalariado, transformando o trabalho em emprego. Houve a formação do chamado Estado Liberal, onde a classe burguesa, detentora do capital, impunha a sua vontade livremente, na busca pelo lucro. Os trabalhadores que agora migravam em maior número do campo para a cidade, tornaram-se uma crescente oferta de mão de obra, e devido à ausência do controle estatal, sofriam constantes abusos, onde além das condições insalubres, enfrentavam jornadas de trabalho subumanas, que com frequência passavam das 16 horas diárias, de acordo com Matos Gonçalves (2004)2. Mais uma vez o trabalhador é visto como “res”, agora sob o olhar do Estado, que se mantém inerte, em nome da liberdade contratual.

Após incansáveis lutas por direitos trabalhistas, o Estado se viu obrigado a intervir na relação de trabalho, limitando a plena liberdade contratual que vigorava. Surge o Estado Neoliberal, com a intenção de remediar as desigualdades existentes, ampliando a atuação estatal3 e os Direitos Fundamentais de Segunda Geração (direito ao trabalho, à habitação digna e à saúde), dando base o Estado de bem-estar social.

Ao longo de toda essa trajetória, o Direito do Trabalho foi adquirindo a função de proteção ao trabalhador com o fim de se alcançar a “justiça social”. Entretanto, no bojo da sua criação, os papéis que desempenhavam eram contraditórios, já que o reconhecimento das garantias trabalhistas tinham a finalidade de servir muito mais as classes detentora do capital, do que de

2 GONÇALVES, Antônio Fabrício de Matos. Flexibilizaçao Trabalhista. Belo Horizonte: Mandamentos, 2004. p. 33.

3 NASSIF, Elaine Noronha. Fundamentos da flexibilização: uma análise de paradigmas e paradoxos do Direito

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fato representar alguma proteção à dignidade humana do operário, como é o entendimento de Jorge Luiz Souto Maior (2000)4.

De 1848 a 1919, o Direito do Trabalho passou por um processo evolutivo, divido em quatro fases (formação, intensificação, consolidação e autonomia) 5, que teve inicio na Inglaterra com Peel’ Atc, regulamentação que tratava basicamente da proteção trabalhista aos menores de idade, e se concluiu com a criação da OIT – Organização Internacional do Trabalho, através do Tratado de Versalhes, que consagrou os direitos fundamentais do trabalho, criando uma legislação internacional trabalhista.

No contexto de reestruturação da Sociedade Ocidental, pós I Guerra Mundial, surge o conceito de Constitucionalismo Social, que nada mais eram do que textos constitucionais, que pela primeira vez incluíam disposições pertinentes à defesa de interesses sociais, dentre elas, as garantias trabalhistas.

Seguindo esse ritmo de evolução, em 1927 é edita na Itália, a Carta Del Lavoro, que criava um sistema de corporativismo, que objetivava organizar sociedade e economia em torno do Estado, regulando assim, todas as relações interpessoais. Com isso, reduziu-se a autonomia sindical, ficando esta, vinculada diretamente ao Estado. Esse sistema político influenciou organizações trabalhistas em países como Espanha, Portugal e também o Brasil.

2.3 Direito Trabalhista no Brasil

No Brasil, os Direitos Trabalhistas se consolidaram tardiamente (há de se mencionar que o país foi um dos últimos a abolir a escravidão, em 1888 , com a publicação da Lei Áurea). Movimentos sociais que despontaram na Europa, não alcançavam os brasileiros. No ensinamento de Marcio Túlio Viana, temas como o Manifesto Comunista, a criação da OIT ou

4 “O direito do trabalho surge como fórmula da classe burguesa para impedir a emancipação da classe operária, mas, paradoxalmente, com ele inicia-se um processo de valorização do trabalho [...]. No entanto, atualmente, o mundo está passando por uma transformação estrutural importante. O intenso aprimoramento da tecnologia, provocado pela automação computadorizada, tem agravado o desemprego, o que aos poucos, obedecendo a velha lei da oferta e da procura, vai devolvendo ao trabalho o valor que sempre teve, qual seja, nenhum. [...] Nesta substituição do homem pela máquina - que, aliás, não é dado inédito na história -, há uma diminuição do valor do trabalho e, consequentemente, uma diminuição da importância do direito do trabalho (surgem as ideias de flexibilização e de desregulamentação). O trabalho volta, assim, a ser uma noção de direito, não de liberdade. Nesse novo contexto, do mundo do desemprego, o trabalho passa a ser visto até mesmo como um privilégio, tenha o valor que tiver”. (SOUTO MAIOR, 2000, p. 20-22)

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mesmo a I Guerra mundial eram desconhecidos de boa parte da população6, o que contribui para o retardo na formação ideológica trabalhista.

Somente em 1923 deram-se os primeiros passos para a disseminação dos Direitos Trabalhistas no país, com a criação do Conselho Nacional do Trabalho, que é considerado o embrião da Justiça do Trabalho brasileira. Em 1930 é criado o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, que fomentou um aumento significativo nas legislações trabalhistas, até que no ano de 1943, o então presidente Getúlio Vargas sanciona a Consolidação das Leis Trabalhistas – CLT, que tinha por finalidade reunir todas as legislações trabalhistas espaças em um único

codex.

Com o advento da Constituição Cidadã, a Constituição Federal de 1988, o homem passa a ser o objeto principal da defesa do Estado, causando uma clara valorização do coletivo, resgatando a soberania da dignidade da pessoa humana. Alem de canonizar princípios e funções do Direito do Trabalho, como norma constitucional.

2.4 A Flexibilização

2.4.1 Princípio da Proteção ao Trabalhador

Produto de todo essa jornada evolutiva, temos hoje, um Direito do Trabalho que é tido como “um conjunto de princípios, regras instituições atinentes à relação do trabalho subordinado a situações análogas, visando assegurar melhores condições de trabalho, de acordo com as medidas que lhe são destinadas”, que traz em seu bojo, como principal norteador o Princípio da Proteção ao Trabalhador.

Diferente dos demais ramos do Direito, aqui não se busca a clássica igualdade entre as parte. A quebra na isonomia entre empregado e empregador deriva justamente da perceptível diferença entre os dois agentes, já que o empregado é naturalmente a parte hipossuficiente da relação. Ensina Mauricio Godinho Delgado7 que a busca pela igualdade material entre as partes, e a proteção do trabalhador é a razão ser do Direito do Trabalho.

6 VIANA, Márcio Túlio. Da greve ao boicote: os vários significados e as novas possibilidades das lutas operárias. Revista do Tribunal Regional do Trabalho3.ª Região. vol. 49. n. 79. p. 101-121. Belo Horizonte, jan.-jun. 2009 , p. 113

7 "Princípio da proteção - Informa este princípio que o Direito do Trabalho estrutura em seu interior, com suas regras, institutos, princípios e presunções próprias, uma teia de proteção à parte hipossuficiente na relação empregatícia - o obreiro -, visando retificar (ou atenuar), no plano jurídico, o desequilíbrio inerente ao plano fático do contrato de trabalho" (DELGADO, 2007, p. 198).

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Destarte, é peculiar ao Direito do trabalho o caráter paternalista, pró-labore, assim como também é natural as Legislações Trabalhistas a rigidez e o pragmatismo, a fim de solidificar as conquistas adquiridas ao longo dos anos, a custa de muitas lutas. Todavia, essa solidez inflexível, passa a se tornar questionável. Para acompanhar as rápidas mudanças de um mundo globalizado, e principalmente as instabilidades do mercado de trabalho brasileiro, que sofre um alarmante crescimento nas taxas de desemprego, resultado da atual crise econômica em que o país se encontra, clama-se por uma normatização mais maleável em sede trabalhista. Buscando contrapor-se a esta condição, afloram as ideias de flexibilização e

desregulamentação.

2.4.2 Conceito de Flexibilização

O vocábulo Flexibilização, apresenta a ideia de ruptura com a rigidez, de imposição da maleabilidade. Na sua concepção mais direta: flexibilizar aquilo que é imposto pela lei. Embora não seja particular do Direito do Trabalho, é no campo juslaboral que apresenta maior clamor, a ideia de flexibilizar, abrange uma quebra da rigidez em questões desde as modalidades de contratação, passando pela regulamentação da jornada de trabalho e estabelecimento de salário, até as formas de cessação do contrato de trabalho. Sua aplicação objetiva melhor produtividade, maior lucratividade e melhor relação custo X beneficio; mesmo que para isso sejam sacrificados alguns dos direitos trabalhistas conquistados a duras penas.

Nas palavras do professor Siqueira Neto (1996)8, pode-se entender a flexibilização como um "conjunto de medidas destinadas a afrouxar, adaptar ou eliminar direitos trabalhistas de acordo com a realidade econômica produtiva (...)", ou seja: uma roupagem camuflada do liberalismo.

A flexibilização remete-nos a um conceito de liberdade contratual, como preceitua Júlio Assunção Malhadas9, com mínima interferência do Estado, o que é vedado pela Legislação Trabalhista brasileira, já que o Estado toma para si a responsabilidade de mediar conflitos

8 SIQUEIRA NETO, José Francisco. Flexibilização, desregulamentação e o direito do trabalho no Brasil, In: OLIVEIRA, Carlos Alonso Barbosa. Crise e trabalho no Brasil: modernidade ou volta ao passado?. 2. ed. São Paulo: Scritta, 1996. p. 124.

9 [...] a possibilidade de as partes – trabalhador e empresa – estabelecerem, diretamente ou através de suas entidades sindicais, a regulamentação de suas relações sem total subordinação ao Estado, procurando regulá-las na forma que melhor atenda aos interesses de cada um, trocando recíprocas concessões. (MALHADAS, 1991, p. 143 apud MARTINS, 2009, p. 12)

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coletivos e individuais do trabalho como maneira de proteger a parte hipossuficiente da relação, o trabalhador.

2.4.3 Conceito de Desregulamentação

Noutro norte, temos a desregulamentação, que diferente da flexibilização, não procura elasticizar o ordenamento jurídico, mas sim, a sua total supressão.

Na desregulamentação, nota-se o prestígio à autonomia da vontade das partes ao celebrar um contrato de trabalho, para Vilma Maria Inocêncio Carli10, a desregulamentação dá aos contratentes a possibilidade de escolherem todas as regras que incidirão no pacto, ao passo que na flexibilização a autonomia contratual esta limitada ao acordo de algumas condições, uma ver que o Estado ainda regula a maioria dos institutos trabalhistas.

3 FLEXIBILIZAÇÃO X SEGURANÇA JURÍDICA 3.1 Medidas flexibilizadoras no Direito brasileiro

O cenário de crise econômica, que atualmente, vai tomando proporção global, não sendo particular ao Brasil, fomenta as discussões a respeito das flexibilizações a tomarem maior fôlego. Mesmo com toda a rigidez do Direito do Trabalho, não foram poucas as previsões legais que flexibilizaram as normas trabalhistas, relativizando a proteção ao trabalhador. Frente a estas conjunturas, as primeiras medidas flexibilizadoras no Direito Trabalhista aparecem em meados do século XX, e desde então, continuam sendo incrementadas no ordenamento pátrio.

Volia Bonfim Cassar ensina que: “o Brasil adotou a flexibilização legal e a sindical. A primeira ocorre quando a própria lei prevê as exceções ou autoriza, em certas hipóteses, a redução de direitos. A segunda acontece quando as normas coletivas autorizam a diminuição de direitos" 11. Nesta esteira, a Constituição Federal de 1988, trás previsões normativas para regular e relativizar a proteção do trabalhador. Por exemplo, em seu artigo 7º, nos incisos VI, XIII e XIV12, vemos medidas flexibilizadoras, que possibilitam redução salarial e alteração da

10 [...] a desregulamentação do direito do trabalho seria uma forma mais radical de flexibilização, na medida em que o Estado retiraria a proteção normativa conferida ao trabalhador, inclusive as garantias mínimas, permitindo que a autonomia privada, individual ou coletiva, regulasse as condições de trabalho e os direitos e obrigações advindas da relação de emprego. Nota-se que a flexibilização pressupõe a intervenção estatal, ainda que para assegurar garantias mínimas ao trabalhador, ou à sociedade [...] (CARLI, 2005, p.86).

11 CASSAR, Vólia Bonfim. Direito do trabalho. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2015. p. 98-99.

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jornada de trabalho por meio de acordo sindical. Prevê ainda a Constituição Federal, a hipótese de lei infraconstitucional regular matérias de direito trabalhista, como por exemplo, salário, salário-família, licença-paternidade, participação nos lucros, entre outras.

Diante do crescente cenário de crise econômica, debates sobre medidas que preservem os vínculos empregatícios, e até mesmo impulsione o crescimento de novos empregos ganham força. Defensores da flexibilização, a apontam como meio de fortalecimento econômico e capaz de por fim a crise laboral. Em contrapartida, se encontram as garantias mínimas indispensáveis ao trabalhador.

3.2 Fundamentação

O Direito do Trabalho, em acompanhamento a sociedade como um todo, vive uma fase de transição, onde se questiona a sua atuação pró-labore e o intervencionismo do Estado. Enquanto há um consenso doutrinário acerca da desregulamentação trabalhista, entendendo que esta seja prejudicial ao trabalhador; a flexibilização vem provocando acalorados debates referente à sua aplicação e alcance. Mister, se faz analisar tais posicionamentos para uma melhor compreensão do tema.

3.2.1 Posicionamento favorável à flexibilização

As correntes que se posicionam a favor da flexibilização, enxergam o Direito do Trabalho como um conjunto normativo rígido e ultrapassado, que busca unicamente a proteção do trabalhador, sem contextualizar as relações de emprego com as atuais conjunturas de crise do mercado.

Para os favoráveis, os Direitos Trabalhistas tiveram o seu caráter paternalista posto em cheque, sendo a flexibilização um fenômeno importante para a democratização das relações

condição social:

I - relação de emprego protegida contra despedida arbitrária ou sem justa causa, nos termos de lei complementar, que preverá indenização compensatória, dentre outros direitos; (...)

X - proteção do salário na forma da lei (...);

XI - participação nos lucros, ou resultados, desvinculada da remuneração, e, excepcionalmente, participação na gestão da empresa, conforme definido em lei;

XII - salário-família pago em razão do dependente do trabalhador de baixa renda nos termos da lei; (...) XIX - licença-paternidade, nos termos fixados em lei; (...)

XXIII - adicional de remuneração para as atividades penosas, insalubres ou perigosas, na forma da lei; (...) XXVII - proteção em face da automação, na forma da lei" (BRASIL, 1988).

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de trabalho, fortalecendo as empresas no mercado global. Entendem os flexibilistas que a rigidez trabalhista é um entrave para a competitividade das empresas, do emprego e até mesmo do desenvolvimento e incentivo de nos empreendimentos, já que as medidas protecionistas ao trabalhador encarecem o custo de produção, onerando de forma excessiva a folha de pagamento das indústrias.

Uriarte (2002)13 entende a flexibilização como garantia de "eliminação, diminuição, afrouxamento ou adaptação da proteção trabalhista clássica, com a finalidade - real ou pretensa - de aumentar o investimento, o emprego ou a competitividade da empresa".

3.2.2 Posicionamento contrário à flexibilização

De forma contraria a flexibilização, autores mais conservadores entende que a flexibilização é um retrocesso às conquistas sociais adquiridas pelos trabalhadores, suprimindo seus direitos e garantias.

Quanto à questão do desemprego, aqueles que se mostram desfavoráveis a flexibilizaão, compreendem que a elasticidade do regimento trabalhista não traria beneficio algum, já que o número de emprego é resultado da demanda de capital, nãos sendo papel do Direito do Trabalho ser a força motriz geradora de novos empregos num país, dessa forma, não se pode afirmar, que um ordenamento jurídico flexível assegure o aumento da empregabilidade ou até mesmo contribua para a manutenção dos postos de trabalho existentes.

Neste sentido, Jesú Huerta Soto (2011)14 é categórico ao afirmar que “que o custo da produção não está na origem do problema e nada autoriza a dizer que a sua redução possa ser fator determinante para que a crise seja suplantada”

3.3 O confronto flexibilização X Segurança Júridica

De forma cíclica todos os países tende a passar por momentos de grande crescimento econômico, seguido de períodos de estagnação e crises. Estes movimentos são chamados de Ciclos econômicos. Quando há um descenso na economia de um país, disse que este se 13 URIARTE, Oscar Ermida. A flexibilidade. São Paulo: Ed. LTr, 2002. p. 76.

14 SOTO, Jesús Huerta de. Moeda, crédito bancário e ciclos econômicos. Trad. Márcia Xavier de Brito. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises, Brasil, 2012. p. 134.

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encontra em recessão. As fases de retração econômica de um país os levam a uma diminuição considerável na produção industrial e no número de emprego, pois os setores econômicos tende a acompanhar esta contração.

Como resposta a estagnação econômica, tanto o governo quanto o setor produtivo, tendem a buscar a redução dos direitos protecionista dos trabalhadores como mecanismo de manutenção do setor financeiro. Argumenta-se que a flexibilização dos direitos trabalhista possa amenizar a carga tributária sobre a folha de pagamento, diminuindo o custo da produção.

Todavia, tais medidas criam um ambiente de incertezas jurídicas para o trabalhador, que é naturalmente a parte mais fraca da relação de emprego. Na verdade, prover a manutenção do setor produtivo, a custa da supressão de direitos e garantias do trabalhador, não torna as relações de trabalho mais democráticas. Neste sentido, dizer que a flexibilização das leis trabalhistas é melhor solução para a crise laboral, torna-se uma afirmativa falaciosa.

Não se pode falar em flexibilizar o ordenamento trabalhista sem levar em conta a realidade laboral brasileira. O intervencionismo estatal nas normas do trabalho tem uma função de ser, qual seja, garantir ao empregado à dignidade humana com o equilíbrio na relação empregado/empregador.

Flexibilizar as garantias trabalhistas, de forma leviana, para estancar os momentos de crise econômica significa um retrocesso em todos os direitos adquiridos ao passar dos anos. Significa abandonar o trabalhador na insegurança jurídica, deixando-o a mercê das vontades do empregador para a garantia do seu emprego.

Destarte, que a razão ser do Direito do Trabalho é garantir e melhorar as condições sociais dos trabalhadores, e não a de criar meios para que este se adéque as mudanças do mercado de trabalho. De toda forma, cabe ao empregador o risco do negócio, não sendo justo transferir ao trabalhador o ônus de uma crise econômica.

Se contrapondo a flexibilização, mas ainda como medida de relativização das normas trabalhista, na intenção de sanar os estragos causados pela crise econômica, desponta no meio jurídico a noção de flexisegurança, como alternativa viável, não sendo tão ofensiva ao trabalhador.

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O termo flexisegurança15, é um neologismo, resultado da combinação de flexibilização e segurança, segundo Arion Sayão Romita (2008)16, é um ponto de equilíbrio entre flexibilidade e segurança jurídica, buscando atender as necessidades da empresa e dos trabalhadores. Trata-se de um meio de flexibilizar as normas trabalhistas, sem que se deixe o trabalhador desamparado, criando meios de auxilio social e uma política forte para a re/colocação deste no mercado de trabalho.

No mercado global, para que as empresas se mantenham competitivas, é necessário que estejam em constante adaptação ao mercado e as exigências que o modelo capitalista lhes impõe. Os trabalhadores, por sua vez, entendem que para a manutenção de seu posto de trabalho, e até mesmo conseguir alguma ascensão profissional, necessário se faz estar apto as transformações do mercado, e apresentar uma reação dinâmica e eficiente as instabilidade da realidade pós-moderna.

Com a flexisegurança, a proteção passa do emprego para a empregabilidade. Há a garantia da pessoa em detrimento a do emprego, valorizando-se a qualidade e especialização do empregado. Nas palavras de Romita (2008)17, “se encontrar um ponto de equilíbrio entre a estabilidade e a flexibilidade, a fim de satisfazer as necessidades dos trabalhadores e de suas famílias quanto às necessidades das empresas”.

A flexisegurança desponta no cenário europeu, como o modelo mais acertado para o por fim a crise econômica e laboral. A Dinamarca é atualmente, o melhor modelo de aplicação das medidas de flexisegurança, sendo estas conhecidas informalmente como “modelo dinamarquês”. O bom êxito do modelo no país, como bem escreve Romita (2008)18, é fruto da combinação entre a flexibilidade das relações de emprego e a segurança econômica e social dos empregados.

Porém ao nos questionarmos se este sistema teria êxito no Brasil, a resposta se apresenta de forma tão positiva. Doutrinadores como José Affonso Dallegrave Neto (2012)19 afirmam

15 Pelas normas de português, o correto é “flexissegurança” com dois “ss”. Contudo, em Portugal esse neologismo ficou consagrado com a seguinte grafia “flexisegurança” (ou seja, um “s”).

16 ROMITA, Arion Sayão. Flexisegurança: A reforma do mercado de trabalho. São Paulo: LTr, 2008. p. 31 17 ______. Op. cit., p. 74

18 ______. Op. cit., p. 76

19 DALLEGRAVE NETO, José Affonso, Flexisegurança nas relações de trabalho. O novo debate europeu. na

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inclusive, que a flexiseguraça não é o melhor modelo para o sistema trabalhista brasileiro, porque, “o Brasil que tem um défcit interno alto e uma política de desemprego frágil”. Assim, pode-se entender que o nosso país ainda não está apto par este sistema.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A crise financeira pela qual passa o país traz a tona discursos mais acalorado sobre o confronto flexibilidade X segurança jurídica. De um lado temos os apelos do mercado para que se flexibilize as garantias trabalhistas com a intenção de desonerar o custo da relação de emprego, garantindo maior lucratividade para as empresas, e até certo ponto maior número de empregos. Doutro lado esta o Direito do Trabalho, munido de toda sua rigidez para garantir os direitos fundamentais do trabalhador. Direitos estes que não chegaram às mãos do trabalhador de graça. Mas que é fruto de uma longa jornada de muitas lutas e revindicações. Aos nos perguntarmos se as medidas flexibilizadoras das normas trabalhistas causam insegurança jurídica com trabalhado, entendemos que sim. O trabalhador é sabidamente o lado mais frágil da relação de emprego, e restringir suas garantias para a manutenção dos postos de trabalho, não leva a democratização da relações trabalhistas, mas sim a um cenário de incertezas, que ao invés de estancar a crise econômica e labora, acaba por agravá-la. Contudo, isso não obsta para que medida benéficas em sede de flexibilização sejam tomadas, a exemplo da Constituição Federal de 1988, que inovou ao legislar sobre a possibilidade de redução salarial e alterações da jornada do trabalho; e leis como a que versa sobre contrato temporário de trabalho (Lei 6.019/1974), ou projetos de leis com a da terceirização de trabalhos (PL 4.330/2004).

Quanto à flexisegurança, o país ainda não se mostra preparado para sua implementação, por não ter não ter uma política de desemprego desenvolvida como a de países europeus. Embora o “modelo dinamarquês” seja o ponto de equilíbrio ideal entre flexibilização e as garantias fundamentais do trabalhador.

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