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Harmonização dos interesses dos autores e dos consumidores em ambiente virtual / Harmonisation of the interests of authors and consumers in a virtual environment

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Academic year: 2020

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761

Harmonização dos interesses dos autores e dos consumidores em ambiente virtual

Harmonisation of the interests of authors and consumers in a virtual environment

DOI:10.34117/bjdv6n10-557

Recebimento dos originais: 21/09/2020 Aceitação para publicação: 26/10/2020

Fernanda Vilela Oliveira

Pós-Graduada pelo Instituto Processus

Instituição: Faculdade de Ciências Humanas de Itabira

Endereço: Esplanada dos Ministérios, Palácio da Justiça, Bloco T, Edifício Sede, Brasília/DF, CEP: 70064-900

E-mail: [email protected]

Hector Valverde Santana

Doutor e Mestre em Direito das Relações Sociais – Direito do Consumidor – pela Pontifícia Instituição: Universidade Católica de São Paulo.

Endereço: Palácio da Justiça, Praça Municipal, lote 01, Brasília, CEP: 70094-900. E-mail: [email protected]

RESUMO

Os avanços tecnológicos permitem que o usuário/consumidor compartilhe e reproduza com maior facilidade as obras autorais em ambiente virtual. A Internet acirrou a discussão da proteção de direitos por infrações tipificadas na legislação autoral. A Lei de Direitos Autorais teve origem e foi projetada para o mundo analógico e se encontra desatualizada e em descompasso com a realidade virtual e a conduta socialmente aceita por usuários da rede mundial de computadores. Não há previsão específica na legislação autoral que trate das condutas dos usuários da Internet. Tentativas de modificação da legislação autoral e o fortalecimento da fiscalização foram medidas adotadas sem êxito e que não resolveram o problema do compartilhamento indevido de obras autorais. É necessário repensar os modelos de negócios da indústria de direitos autorais, a fim de que exista a harmonização dos interesses dos autores e dos consumidores em ambiente virtuais, com plena adequação da norma à realidade de práticas socialmente aceitas.

Palavras-chave: Internet, Autor, Consumidor, Harmonização. ABSTRACT

Technological advances allow the user/consumer to more easily share and reproduce the copyright works in a virtual environment. The Internet has intensified the discussion of the protection of rights for infringements typified on copyright legislation. The Copyright Act was originated and designed for the analogue world and is outdated and out of step with virtual reality and socially accepted conduct by users of the worldwide computer network. There is no specific provision on copyright legislation that addresses the behavior of Internet users. Attempts to modify the authorial legislation and strengthen the supervision were measures adopted without success and that did not solve the problem of the undue sharing of copyright works. It is necessary to rethink the business models of the copyright industry, in order to have the harmonization of the interests of authors and consumers in virtual environments, with full adequacy of the norm to the reality of socially accepted practices.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761

Keywords: Internet, Author, Consumer, Harmonization. 1 INTRODUÇÃO

O desenvolvimento de novas tecnologias, com ênfase na Internet, facilitou a interação do usuário/consumidor, bem como o compartilhamento e a reprodução de obras intelectuais. As novas práticas adotadas pelos consumidores acirraram a discussão da proteção dos direitos autorais em ambiente digital, por não ter sido a Internet, no começo, considerada importante para o direito autoral. Ela tornou-se relevante quando passou a ser um fenômeno de interconectividade dos consumidores.

Além da interconectividade dos consumidores que tem o condão de ditar novas práticas no mercado de consumo, os produtos também sofreram transformações decorrentes da desmaterialização da obra autoral. Na sociedade da informação “muitos bens são constituídos por bits, e já não estão fixados em suportes materiais. Compra-se música em mp3, literatura e livros acadêmicos em formato e-book, filmes em formatos que permitem a visualização em aparelhos móveis”1 e tais práticas geram impactos no modo como se consume cultura.

Os avanços tecnológicos seguem a dinâmica das evoluções da sociedade, fato interessante e importante para o homem. No entanto, criam no ambiente virtual facilidades que permitem a reprodução e o compartilhamento a baixo custo. Para adequação aos padrões mais modernos da sociedade, os direitos autorais terão que se desprender do seu caráter individualista, focado somente na proteção do interesse do autor. Por sua vez, o direito do consumidor não poderá ser traduzido na livre disposição e produção de conteúdo. É preciso que os direitos se comuniquem, a fim de haja um equilíbrio na relação entre o direito autoral e o direito do consumidor.

O tratamento legal dos direitos autorais e dos direitos conexos é previsto principalmente na Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, além da Constituição Federal e dos tratados internacionais. Para muitos operadores do direito, a Lei de Direitos Autorais é considerada como uma das legislações mais restritivas de direitos dentre os sistemas legais do mundo e que não sofreu alterações significativas com a transformação digital.

A Lei de Direitos Autorais, que foi concebida no mundo analógico, possui poucas previsões, entre os artigos 46 a 48, de práticas que não configuram infrações. Os casos admitidos pela Lei não

1 SOARES, Elisianne de Melo. Regulação do Ciberespaço, Controlo dos Fluxos Informacionais e Direitos de Autor: Os Casos de Portugal e do Brasil. Dissertação (Mestrado em Cultura e Comunicação) – Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Área de Literaturas, Artes e Culturas. p. 21, 2012. Disponível em <https://www.academia.edu/9268757/Regula%C3%A7%C3%A3o_do_ciberespa%C3%A7o_controlo_dos_fluxos_infor macionais_e_direitos_de_autor_os_casos_de_Portugal_e_do_Brasil>. Acesso em 15 nov. 2019.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761 abrangem as múltiplas ações que podem ser realizadas pela Internet. Atividades costumeiras adotadas por qualquer usuário/consumidor como: digitalização de livros, reprodução de músicas e divulgação de obras são hoje consideradas ilegais, apesar de socialmente aceitas.

Diante do descompasso dos avanços tecnológicos e a Lei de Direitos Autorais, os direitos do autor foram objeto de propostas de alterações legislativas. Em 2010, o Ministério da Cultura (MinC) submeteu um anteprojeto que previa mudanças na Lei de Direitos Autorais, mas a proposta não vingou. Outra oportunidade legal para dar tratamento na legislação dos direitos do autor foi o Projeto de Lei 2.126 de 2011, conhecido como Marco Civil da Internet, originado de intenso debate com a sociedade. O Projeto de Lei tinha por escopo estabelecer “princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil e determinar as diretrizes para atuação da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios”. Apesar das duas previsões para abordagem do tema, nenhuma delas enfrentou a questão dos direitos do autor em meio digital.

Além das propostas de novos tratamentos legais na legislação de direitos autorais, houve outras tentativas de coibir o compartilhamento e a reprodução de conteúdo autoral, e que não foram bem sucedidas. Endureceu-se a fiscalização das condutas do usuário em ambiente de rede, por meio do emprego de mecanismos de monitoramento e controle. As medidas se mostraram ineficientes, pois geraram altos custos de transação e acabaram ensejando em confusão dos usos justos e injustos sobre o conteúdo autoral.

Caso prático apreciado na jurisprudência nacional foi o julgado do Superior Tribunal de Justiça que condenou os consumidores a arcarem com o custo do serviço por músicas baixada no computador ou celular, ainda que o consumidor fosse considerado destinatário final do serviço por considerar ser a música execução de obra pública. Atividades habituais dos consumidores são consideradas infrações aos direitos autorais, não havendo diálogo entre a norma e a realidade social.

2 A TECNOLOGIA E OS DIREITOS AUTORAIS

Os avanços tecnológicos aumentaram as relações conflituosas no direito autoral, em razão da nova postura assumida pelo usuário/consumidor de não ser mais um mero sujeito passivo adquirente de conteúdo e passar a ser um produtor do mesmo. Na sequência será feita uma abordagem sobre: os avanços tecnológicos e os impactos nos direitos autorais decorrentes do perfil do novo consumidor; a previsão legal dos direitos autorais no direito brasileiro; maior fiscalização das condutas dos usuários como tentativa de garantir segurança na proteção dos direitos autorais; e, caso apreciado pelo Poder Judiciário que envolve direitos do autor e do consumidor em ambiente virtual.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761 2.1 OS AVANÇOS TECNOLÓGICOS E OS IMPACTOS NOS DIREITOS AUTORAIS DECORRENTE DO PERFIL DO NOVO CONSUMIDOR

A sociedade vivencia um período de expansão digital em razão do desenvolvimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e principalmente da evolução da Internet. A Internet é uma das mais sofisticadas e eficazes ferramenta de propagação da informação. Ela foi projetada a para ser o melhor canal de comunicação, o que inclui o acesso a diversas obras intelectuais, tais como: voz, imagens, textos, músicas, vídeos, entre outros.

O direito autoral enfrenta desafios diante dos avanços da sociedade digital “Já vem de tempos o debate jurídico, que discute o equilíbro entre os interesses privados de restrição e os direitos públicos de difusão. Tudo isso está aliado à constatação inegável de que hoje a tecnologia já faz parte da nossa cultura.”2 Ao passo em que a Internet é o mais aprimorado canal de comunicação, também é o meio

de mais fácil de compartilhamento e reprodução de obras intelectuais, situação que gera tensão entre os direitos do autor e os direitos do consumidor.

Há necessidade de que, diante das novas formas de comunicação que nasceram da sociedade da informação, haja uma análise do papel da tradicional lei de direitos autorais e dos direitos dos consumidores que usam o espaço virtual, com vistas à adequação do direito tendo em conta a evolução da sociedade digital, a fim de buscar uma melhor relação entre a norma e os avanços tecnológicos.

A Internet não foi considerada, no período da sua criação, um fenômeno importante para o direito do autor, dispensando-se a existência de normas para tratarem suas ações. As condutas operadas na Internet não geravam preocupações. Porém, quando a Internet, passou a admitir a interconectividade entre os usuários/consumidores e houve a desmaterialização da obra autoral, o novo panorama chamou a atenção da indústria de direitos autorais. O novo cenário resultou no fortalecimento da proteção do direito autoral, principalmente mediante regulação.

As modificações comportamentais são consequências da intensificação do uso da obra autoral pelo consumidor. A discussão sobre os direitos autorais deixou de ser restrita aos criadores, indústria cultural e produtores de tecnologia e com a informatização “tornou-se acessível ao cidadão comum e o direito autoral passou a atingir condutas cotidianas dos usuários de Internet."3

2 MOTTA, Fernando Previdi. Reflexões sobre os Requisitos Jurídicos da Obra Intelectual Protegida pelo Direito de Autor. In: WACHOWICZ, Marcos; COSTA, José Augusto Fontoura; RIBEIRO, Marcia Carla Pereira; PRONER, Carol (Coord.) GEDAI - Grupo de Estudos em Direito Autoral e Informação. Florianópolis: Boiteux, 2013. p.59. Disponível em: <http://www.gedai.com.br/wp-content/uploads/2014/07/anais_vi_codaip.pdf>. Acesso em 15 nov. 2019.

3 VALENTE, Mariana Giorgetti. Implicações Políticas e Jurídicas dos Direitos Autorais na Internet. Faculdade de Direito

da Universidade de São Paulo. São Paulo: Faculdade de Direito de São Paulo, 2013. Disponível em <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2139/tde-10012014-170508/publico/2013_01_16_dissertacao_marianagvalente_versaointegral.pdf>. 2013. p. 69. Acesso em 15 nov. 19.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761 Destarte, o que há de novidade no tocante a Internet e os direitos autorais é o seu uso intenso por intermédio de variados instrumentos. O direito autoral, ao término da década de 1990 tornou-se o centro de novos conflitos. O período atual é o da revolução digital, com a aproximação do direito à tecnologia. Esta realidade interfere e gera consequências na proteção dos direitos autorais e na forma de se analisar o direito do consumidor.

Os direitos do autor focados na ideia de individualidade e os direitos dos consumidores traduzidos na livre disposição e uso da produção é conflituosa. É preciso que haja equilíbrio na relação entre o direito autoral e o direito do consumidor. Não se amolda a realidade da sociedade um direito autoral estritamente limitativo da capacidade de gerar e ampliar, mas também não é razoável a atuação irrestrita de alteração da obra por parte do usuário.

Os conflitos envolvendo os direitos autorais em meio digital apresentam novas perspectivas, entretanto não se desvencilham de problemas antigos. O centro dos debates acerca dos direitos autorais no ambiente digital foram os usos ilícitos do conteúdo protegido. Hoje discute-se a remuneração não auferida pelos autores sobre as obras autorais. A preocupação se amplia para além da pirataria abarcando os usos autorizados. Há certa percepção de que “[...] a disponibilização de obras na Internet aponta para grandes prejuízos aos autores. No entanto, uma disponibilização bem planejada amplia o alcance da obra, gerando benefícios ao autor por meio de seu reconhecimento mais rápido e capilar.”4

O novo consumidor também encontra oportunidades oferecidas pela evolução dos meios de comunicação. Ele que há pouco tempo era apenas um mero adquirente de conteúdo intelectual, se transforma em um participante ativo na sua criação. Por vezes, o consumidor não compreende quais limitações a lei de direitos autorais estabelece para a criação, a reprodução e o compartilhamento de conteúdos frente ao distanciamento entre a realidade do ambiente virtual e a rigidez da lei de direitos autorais. O consumidor, ainda que se encontre na posição de ser o destinatário final de um produto ou serviço é considerado, pela lei de direitos autorais, infrator de direitos.

São identificadas questões sensíveis com o desenvolvimento da sociedade digital, como a proteção dos direitos autorais e o respeito à conduta do consumidor como destinatário final. É importante a verificação de qual é a estratégia mais adequada para lidar com os problemas no campo de direitos autorais que aparecem como fruto dos avanços da tecnologia, bem com enfrentar alguns caminhos para resolver o descompasso entre os direitos do autor e o dos usuários-consumidores. A

4 ADOLFO, Luiz Gonzaga da Silva. ROCHA; ROCHA, Ieda; MAISONNAVE, Laura Luce. O compartilhamento de Obras Científicas na Internet para fins Didáticos: benefícios ou prejuízos ao autor?. In: WACHOWICZ, Marcos; PILATI, José Isaac; COSTA, José Augusto Fontoura (Coord.) GEDAI - Grupo de Estudos em Direito Autoral e Informação. Florianópolis: Editora Boiteux, 2012. p.108-109. <https://www.gedai.com.br/wp-content/uploads/2014/07/anais-v-codaip-versao-final-1.pdf>. Acesso em 16 nov. 19.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761 análise da efetividade das propostas de alteração da legislação autoral como o anteprojeto que tentou modificar a Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998 e o modo como se deu o tratamento dos direitos intelectuais na Lei do Marco Civil da Internet; efetividade de enrijecer a fiscalização como meio de dificultar a prática de compartilhamento e reprodução de obras intelectuais; e, o tratamento do assunto pela jurisprudência nacional são algumas abordagem deste artigo.

2.2 A PREVISÃO LEGAL DOS DIREITOS AUTORAIS NO DIREITO BRASILEIRO

A Lei de Direito Autoral quase não sofreu mudanças em seu texto no transcorrer dos anos, em que pese de ter sido estruturada no século XIX. A lei que vige atualmente no direito brasileiro é a Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998 (Lei de Direitos Autorais). O Direito Autoral abrange tanto o Direito do Autor, propriamente dito (obras literárias e artísticas, de computador, domínios na Internet e cultura imaterial), quanto os Direitos Conexos. Na legislação brasileira, o direito autoral além de estar regulado na Lei de Direitos Autorais é tratada na Constituição Federal (artigo 5º, incisos XXVII e XXVIII) e nos tratados internacionais.

A Lei de Direitos Autorais é considerada uma das leis “mais restritivas do mundo quanto à possibilidade de uso das obras intelectuais protegidas pelo direito autoral.”5 Os direitos autorais, pela

legislação vigente, não se baseia apenas na proteção da obra, mas também na defesa dos direito do autor. Há exigência de autorização prévia e escrita do autor, para que terceiros possam fazer uso da obra. Alguns doutrinadores entendem que a “publicação na Internet ou fora dela, sem que o autor concorde, é considerada ilegítima, pois consoante o art. 5º, I, da Lei de Direitos Autorais, há previsão de que qualquer publicação deverá ser feita apenas e tão somente com autorização do autor.” 6A razão dessa proteção se estabelece na premissa de ser preciso que o autor detenha instrumentos capazes de proteger sua obra.

O Direito de Autor visa proteger as formas de expressão das ideias, por meio da materialização da obra. Não as ideias propriamente ditas. Os artigos 7º, 8º, 9º e 10º da Lei nº 9.610/98 relacionam, de forma exemplificativa, as formas de exteriorização das criações do espírito que são protegidas. O legislador teve como objetivo assegurar ao criador a proteção e o respeito aos direitos morais e patrimoniais sobre a obra, originados de sua criação intelectual.

5 LACORTE, Christiano. Direito autoral. Cultura, tecnologia e sociedade. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 14, n. 2182, 22 jun. 2009. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/12997>. Acesso em: 10 set. 2020. 6 BRASIL, Angela Bittencourt. Os direitos autorais e a www. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 6, n. 52, 1 nov. 2001. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/2374>.Acesso em: 10 set. 2020.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761 O prazo para proteção dos direitos autorais corresponde ao tempo de vida do autor mais 70 anos após a sua morte, contados a partir de 1º de janeiro do ano subsequente ao óbito. O prazo extenso impede que a criação se converta em domínio público e assegura o direito dos seus herdeiros. O prazo excessivo de proteção das obras produzem, ao menos, dois efeitos nocivos: “atravanca o livre acesso das obras intelectuais pela coletividade (isto é: as obras levam tempo demais para ingressar em domínio público”7 e inibem “o surgimento das chamadas obras intelectuais derivadas (que são aquelas que se

baseiam em obras preexistentes, como, por exemplo, ocorre no caso de uma adaptação de um livro para um filme).”8

A defesa de um prazo extenso para proteção dos direitos autorais passa pelo interesse maior da indústria do entretenimento. Esse ramo sustenta que está atuando em prol dos interesses dos autores, mas grande parte dos direitos dos autores são transferidos para essas empresas, que são prejudicadas com a reprodução e o compartilhamento de conteúdo sem que possam auferir lucro dessas condutas praticadas pelos usuários. Nos últimos anos, alguns autores passaram a entender que “a interpretação da legislação autoral como se apresenta hoje é um percalço à evolução do Direito Autoral em seu contexto social e funcional e um transtorno à evolução da sociedade.”9

2.2.1 As Limitações Na Lei De Direitos Autorais Para Uso Da Obra E O Direito Do Consumidor

As limitações na lei de direitos autorais são as hipóteses que legalmente são aceitas para o uso protegido da obra na Lei de Direitos Autorais. O disposto nos artigos 46, 47 e 48, que se encontra no Capítulo IV “Das Limitações aos Direitos Autorais” são a base para as referidas limitações.

O artigo 46 da Lei de Direitos Autorais e o caput do mesmo artigo prevêem quais situações que não caracterizam ofensa aos direitos autorais. O rol é numerus clausus, o que implica em não admitir a aplicação das suas previsões em outras situações que não as expressamente definidas na lei. Não constitui ofensa aos direitos autorais: a) a reprodução na imprensa diária ou periódica, de notícia ou

de artigo informativo, publicado em diáros ou periódicos, com menção do nome do autor, se assinados,

7 PEREIRA, Márcio. “Somos todos Homo Sacer:”Subjetividade sem Substância”como Produto do Sistema de Direito Autoral Contemporâneo. . In: WACHOWICZ, Marcos; COSTA, José Augusto Fontoura; RIBEIRO, Marcia Carla Pereira; PRONER, Carol (Coord.) GEDAI - Grupo de Estudos em Direito Autoral e Informação. Florianópolis: Boiteux. 2013. p.101. Disponível em: <http://www.gedai.com.br/wp-content/uploads/2014/07/anais_vi_codaip.pdf>. Acesso em 15 nov. 2019.

8 Idem.Ibidem.

9 BRAUN, Michele. PELLEGRINI, Grace Kellen de Freitas. A Função Social do Direito Autoral a partir da Constitucionalização do Direito Privado: Uma Necessidade Imperiosa para a Concretude do Texto Constitucional. In: WACHOWICZ, Marcos; COSTA, José Augusto Fontoura; RIBEIRO, Marcia Carla Pereira; PRONER, Carol (Coord.) GEDAI - Grupo de Estudos em Direito Autoral e Informação. Florianópolis: Boiteux, 2013. p.125. Disponível em: <http://www.gedai.com.br/wp-content/uploads/2014/07/anais_vi_codaip.pdf>. Acesso em 15 nov. 2019.

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e da publicação de onde foram transcritos; b) a reprodução em diários ou periódicos, de discursos pronunciados em reuniões públicas de qualquer natureza; c) a reprodução de retratos, ou outras formas de representação da imagem, feitos sob encomendas, quando realizada pelo proprietário do objeto encomendado, não havendo oposição da pessoa neles representada ou de seus herdeiros; d) a reprodução de obras literárias, artísticas ou científicas, para uso exclusivo de deficientes visuais, sempre que a reprodução, sem fins comerciais, seja feita mediante os sistema Braile ou outro

procedimento em qualquer suporte para esses destinatários.”10

Pode-se verificar que o artigo 46 se configura como norma objetiva. Na alínea “a”, inciso I, está estabelecido que não é permitido reproduzir o jornal inteiro, uma vez que o texto restringe taxativamente a reprodução de notícia ou artigo informativo. Outro ponto interessante se encontra disciplinada na alínea, d, do inciso I, do artigo 46, em que a lei admite a reprodução de obras em Braille ou outro procedimento em qualquer suporte para os deficientes visuais, desde que não seja empregada finalidade comercial.

Os incisos II, do artigo 46, estabelece que não configura ofensa aos direitos de autor a reprodução, em um só exemplar de pequenos trechos, para uso privado do copista e sem intenção de obtenção de vantagem econômica.

O art. 47 estabelece que são livres as paráfrases e paródias que não forem verdadeiras reproduções da obra originária nem que lhe implicarem descrédito e o art. 48 é expresso no sentido de não configurar violação aos direitos do autor a representação livre de obras situadas permanentemente em logradouros públicos, por meio de pinturas, desenhos, fotografias e procedimentos audiovisuais.

As limitações arroladas na lei de direitos autorais foram escritas para o mundo analógico e não para o digital. Eduarda Simonetti Pase e Paulo Renato de Morais Silva defendem que “essas limitações são fortemente protecionistas, eis que fundadas a partir da concepção de que deveria se proteger as obras de cunho intelectual das novas tecnologias.”11 As atuais formas de titularidade de direitos autorais não dão conta de regular as possibilidades da criação intelectual.12

10 BRASIL. Lei n. 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências. Disponível em < http:// http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9610.htm >. Acesso em 15 ago 2019.

11 PASE, Eduarda Simonet; SILVA, Paulo Renato de Morais. O Direito de Autor Constitucionalizado: Apontamentos Iniciais acerca das Inovações Tecnológicas na Sociedade da Informação e seus Impactos sobre o Direito Autoral. In: WACHOWICZ, Marcos; COSTA, José Augusto Fontoura; RIBEIRO, Marcia Carla Pereira; PRONER, Carol (Coord.) GEDAI - Grupo de Estudos em Direito Autoral e Informação. Florianópolis: Boiteux, 2013. p.16. Disponível em: <http://www.gedai.com.br/wp-content/uploads/2014/07/anais_vi_codaip.pdf>. Acesso em 15 nov. 2019.

12 CARBONI, Guilherme. Direitos Autorais e Novas Formas de Autoria: Processos Interativos, Meta-Autoria e Criação Colaborativa. In: WACHOWICZ, Marcos; COSTA, José Augusto Fontoura; RIBEIRO, Marcia Carla Pereira; PRONER, Carol (Coord.) GEDAI - Grupo de Estudos em Direito Autoral e Informação. Florianópolis: Boiteux, 2013. p.2. . Disponível em: <http://www.gedai.com.br/wp-content/uploads/2014/07/anais_vi_codaip.pdf>. Acesso em 15 nov. 2019.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761 A redação restritiva da lei de direitos autorais direciona no sentido de condenar condutas cotidianas adotadas pelos usuários-consumidores, uma vez que a literalidade da lei considera várias ações socialmente aceitas, como ilegais. A falta de limitações precisas no ambiente digital enseja na potencial perspectiva de considerar qualquer consumidor final como infrator. A cópia de uma música, o compartilhamento de um texto pela Internet, que são comportamentos frequentes de usuários na rede, são caracterizados pela lei como violações.

É estabelecida uma relação de consumo neste caso “a partir do momento que a ideia do autor se tornou uma criação, ela passa a existir para o mundo jurídico, o qual regula o triângulo formado por autor, obra e consumidor.”13A aplicação rígida da legislação de direitos autorais que prevê que o compartilhamento e reprodução da obra pelo consumidor caracterizam infrações à lei de direitos autorais conflita com as disposições do Código de Defesa do Consumidor.

Destaque-se que o artigo 51, § 1º, II, do Código de Defesa do Consumidor estabelece que diante das características de determinados produtos ou serviços, a existência de condições para uso de produto ou serviço não são consideradas abusivas por determinado fornecedor “a existência de condições para utilização ou fruição dos produtos, desde que revelem característica que é própria do meio utilizado para seu fornecimento, não deve ser considerada por si só, atuação abusiva do fornecedor.” 14 É o caso

é um produtos que somente podem ser acessado por determinado programa ou o uso ser permitido por tempo específico, e etc. O consumidor nestes casos tem o direito a obter à informação, a fim de indicar os usos permitidos do produto digital.

Para outras condições de uso da obra, além das restrições vinculadas as características digitais dos produtos, como o de compartilhamento e reprodução de obras em ambiente virtual, por exemplo, é necessário buscar quais são as intenções do usuário/consumidor ao enviar um arquivo para terceiros. Não é fácil identificar a intenção do usuário, contudo é importante observar que se o compartilhamento de arquivos não tem finalidade lucrativa, tal prática não configura violação a legislação autoral.

13 TEIXEIRA, Adam Hasselmann. BRANDT, Fernanda. O Direito de Autor Mitigado. In: WACHOWICZ, Marcos; PILATI, José Isaac; COSTA, José Augusto Fontoura (Coord.) GEDAI - Grupo de Estudos em Direito Autoral e Informação. Florianópolis: Editora Boiteux, 2012. p.273. Disponível em: <https://www.gedai.com.br/wp-content/uploads/2014/07/anais-v-codaip-versao-final-1.pdf>. Acesso em 16 nov. 19.

14MIRAGEM, Bruno. Novo Paradigma Tecnológico, Mercado de Consumo Digital e o Direito do Consumidor. Revista

Direito do Consumidor. Vol.125. ano 28. p. 17-6. São Paulo: Ed. RT, set-out/2019. Disponível em <https://revistadedireitodoconsumidor.emnuvens.com.br/rdc/article/view/1243>. 2019. Acesso em 20 set. 2020.

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2.2.2 Tentativas Infrutíferas De Modificação Da Legislação Autoral

A Lei de Direitos Autorais caracteriza várias condutas cotidianas como violadoras de direitos autorais, o que implicou em tornar a norma obsoleta e desatualizada em vários dispositivos. A Internet gerou complexos problemas à aplicação da legislação de direito autoral, uma vez que a reprodução e o compartilhamento da obra se tornou mais ágil e fácil. Várias propostas foram apresentadas para alterar a Lei de Direitos Autorais.

O Ministério da Cultura (MinC) iniciou por anteprojeto, em 14 de junho de 2020, discussão acerca das alterações na lei de direitos autorais. O anteprojeto visava a acrescentar o tratamento digital dos direitos autorais. Não se propôs a criação de uma nova legislação e tampouco houve o enfrentamento dos maiores problemas dos direitos autorais em meio virtual. A proposta ficou restrita a visão clássica dos direitos de autor.

O texto final da nova Lei Autoral foi apresentada pelo Ministério da Cultura, em 2011. O anteprojeto estava pronto para ser encaminhado aos ministérios envolvidos para, em seguida, ser remetido ao Congresso Nacional, em 2012. Contudo, sofreu modificações novamente no MinC, de forma a se tornar mais flexível do que a lei vigente. Em sede de audiência pública na Câmara dos Deputados, o MinC fez comunicação no sentido de ter colhido subsídios das indústrias culturais antes de divulgar a versão final do texto a Reforma da Lei de Direitos Autorais.

Concomitante a discussão da reforma da Lei brasileira do Direito Autoral, o Ministério da Justiça (MJ) estava trabalhando no Projeto de Lei n. 2.126, de 2011, conhecido como Lei do Marco Civil da Internet, de iniciativa do Poder Executivo. O Projeto de Lei, que tramitou no Congresso Nacional durante três anos, de 2011 a 2014, tinha por escopo o estabelecimento de “princípios, garantias, direitos e deveres para uso da Internet no Brasil e determinar as diretrizes para atuação da União dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios”. O Projeto de Lei surgiu de consulta pública que abordou temas referentes a regulação na internet, como, “neutralidade da rede, privacidade, direitos dos usuários, e dentre esses, um dos pontos que mais gerou um intenso debate foi a questão da responsabilidade civil dos provedores na internet por publicação de conteúdo por terceiros.” 15

O Projeto de Lei nº 2.126 transformou-se na Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014. A conhecida Lei do Marco Civil da Internet abordou temas que envolvem Direitos Intelectuais, mas não tratou dos direitos de autor, postergando à sua análise até surgimento da nova lei sobre direito autoral ou da

15 GOMES, Maria Cecília Oliveira. Os filtros Tecnológicos podem contribuir para a Prevenção das Violações dos Direitos Autorais na Internet? Revista da ABPI, nº 153. Mar/Abril, São Paulo: 2018. Disponível em: <https://www.academia.edu/37209106/Os_filtros_tecnol%C3%B3gicos_podem_contribuir_para_a_preven%C3%A7%C3 %A3o_das_viola%C3%A7%C3%B5es_dos_direitos_autorais_na_internet>. Acesso em: 30 nov. 2019.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761 revisão da atual Lei de Direitos Autorais, conforme se observa nos artigos 19 e 31. A recusa em tratar dos direitos do autor foi fruto de intensas discussões, tanto contrárias, como favoráveis.

Os operadores do direito brasileiro não se debruçaram no enfretamento do tema de direitos do autor em ambiente digital. Nem a Lei de Direitos Autorais e nem a Lei do Marco Civil da Internet que tiveram a oportunidade de tratamento do assunto, não conseguiram, ainda, lidar com a questão. As poucas iniciativas públicas em discutir a matéria se concentraram, até o momento, exclusivamente na dimensão de proteção dos direitos dos autores em detrimento da realidade tecnológica e do direito dos consumidores como destinatários finais.

2.3 MAIOR FISCALIZAÇÃO DAS CONDUTAS DOS USUÁRIOS COMO TENTATIVA DE GARANTIR SEGURANÇA NA PROTEÇÃO DOS DIREITOS AUTORAIS

As facilidades advindas da tecnologia permitiram o amplo compartilhamento e reprodução de obras. Porém, pelo fato da legislação de direitos autorais não se encontrar atualizada para acompanhar a dinâmica das relações sociais, é intensa a preocupação na proteção dos direitos do autor em espaço virtual “ O desenvolvimento tecnológico tem fomentado a discussão sobre a criação de normas de proteção mais eficazes e amplas para proteger os direitos do autor.” 16

Inúmeras são as medidas adotadas para mapear as condutas do usuário em ambiente de rede. São adotados mecanismos de monitoramento e controle, com o objetivo de conferir maior segurança contra violações. No compartilhamento e reprodução de material protegido por direitos de autor é empregada tecnologia na tentativa de combater a própria tecnologia.

As formas de controle pela fiscalização merecem atenção especial, pois podem se tornar meios de concentração de poder pela captura de informações sem consentimento do usuário. O tratamento dos dados do usuário podem envolver intenções voltadas a interesses econômicos com base no mapeamento do seu comportamento. A identificação do usuário pode ensejar em violação à privacidade, que serão objeto da futura Lei Geral de Proteção de Dados,17 no direito brasileiro.

Jorge Machado e Mariana Valente entendem que as punições além de ineficiente se mostram “ineficientes, vêm acompanhadas de altos custos de transação, bem como acabam por tornar

16 SILVA, Natália Rodrigues. As bibliotecas digitais (não) autorizadas e a questão dos direitos autorais no gesto de compartilhar. Brazilian Journal of Development. vol.5. n. 9. p. 14672. Curitiba: Brazilian Journal of Development. set./2019.

Disponível em < https://www.brazilianjournals.com/index.php/BRJD/article/view/3144/3049 >. 2019. Acesso em 20 set. 2020.

17 BRASIL. Lei n. 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados. Disponível em < http:// http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/Lei/L13709.htm>. Acesso em 15 ago 2019.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761 indiferenciados os usos justos dos usos injustos sobre obras – prejudicando assim, a tradicional ideia de um balanço adequado entre os direitos dos autores e os direitos do público.” 18 Ademais, “as ações que tornam efetivas as punições iniciam-se dentro de uma base territorial física, o que inexiste no mundo virtual.”19 As leis de fiscalização, diante da falta de mecanismos seguros de ação, não possuem quase nenhuma eficácia.

Não se tem registro de nenhuma política de repressão que tenha logrado êxito, até o momento. A ausência de reposta para o problema tem gerado ambiente de conflito e mesmo que as tentativas de punições tenham sido ineficazes, as discussões não avançaram para outras soluções que não seja a repressão.

2.4 CASO APRECIADO PELO PODER JUDICIÁRIO QUE ENVOLVE DIREITOS AUTORAIS EM AMBIENTE VIRTUAL

A jurisprudência encontra dificuldades para repensar a aplicação da Lei de direitos autorais frente aos avanços da tecnologia e os direitos dos consumidores. Existe conflito de interesses entre a indústrial autoral, que quer que seja endurecida a legislação, e os interesses da sociedade, que desejam ter acesso a todas as formas de conhecimento e informação.

A jurisprudência vem decidindo na área musical que caso terceiro use de uma produção sem prévia autorização do detentor do direito autoral, será o consumidor obrigado a arcar com o seu custo, independentemente se ele for destinatário final do serviço. Foi apreciada a questão de se a música baixada no computador ou celular seria considerada como execução de obra pública e o consumidor obrigado a arcar com o custo do serviço. Julgado do Superior Tribunal de Justiça (STJ),20 do dia 08 de fevereiro de 2017, acolheu recurso do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), o qual representa os criadores e respectivas produtoras, editoras e gravadoras, contra a emissora de rádio Oi FM, entendendo que o streaming de música, nas modalidades simulcasting e webcasting, oferecidos

18 MACHADO, Jorge; VALENTE, Mariana. Uma proposta para o fim da “Guerra do Compartilhamento” e a Legalização do P2P no Brasil. In: WACHOWICZ, Marcos; COSTA, José Augusto Fontoura; RIBEIRO, Marcia Carla Pereira; PRONER, Carol (Coord.) GEDAI - Grupo de Estudos em Direito Autoral e Informação. Florianópolis: Boiteux, 2013. p 32. Disponível em: <http://www.gedai.com.br/wp-content/uploads/2014/07/anais_vi_codaip.pdf>. Acesso em 15 nov. 2019.

19 CORREIA, Tomás Brandão. Direito autoral na sociedade da informação. Impactos da tecnologia digital sobre a proteção ao autor. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 16, n. 2928, 8 jul. 2011. Disponível em: <https://jus.com.br/artigos/19508>. Acesso em: 10 set. 2020.

20 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial nº 1559264. Recorrente (s): Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad). Recorrido (s): Oi Móvel S.A Incorporador do TNL PCS S/A. Relator: Ricardo Villas Bôas Cuevas. 13 outubro de 2017.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761 via internet de programação pela rádio era passível de pagamento direitos autorais, por configurar execução pública de obra musical

3 CONCLUSÃO

A sociedada experimentou nas últimas décadas profundas mudanças nas práticas comerciais e nas relações de consumo, em razão dos avanços implementados pela Internet e pelo surgimento de novas tecnologias digitais. Raras são as atividades executadas sem o auxílio da rede, porque vive-se um momento novo, o da cibercultura “o nascimento das tecnologias digitais construiu uma nova espécie de cultura marcada por relações sociais, econômicas e políticas mediadas pela esfera digital: a cibercultura.” 21

Na cibercultura tanto o consumidor assumiu um novo perfil, o da criação da obra, quanto ao fato da obra pode ser desmaterializada. A legislação de direito autoral nasce desatualizada e não acompanha o desenvolvimento tecnológico da sociedade moderna. Há um claro afastamento entre a legislação vigente e a realidade social. O novo consumidor é um sujeito ativo e cada vez mais se torna interessado pelas facilidades implementadas pela vida digital, o que faz com que o tema da necessidade de harmonização dos interesses dos autores e dos consumidores seja um assunto atual e que carece de solução.

A defesa pura dos interesses dos autores ao limitar o acesso dos usuários a conteúdos específicos não atende o interesse coletivo e os anseios do consumidor em dispor da obra. A Internet e as tecnologias digitais ampliam o acesso à informação e conhecimento, de forma que inviabilizar o seu acesso se tornaria prejudicial ao desenvolvimento da sociedade. Os consumidores também têm direito de usufruir do bem adquirido, mas não devem ter liberdade irrestrita a reprodução e ao compartilhamento. Há a necessidade de equilíbrio entre os interesses dos envolvidos, autor e consumidor, sem que haja sacrifício a evolução digital e o acesso ao conhecimento. Além do mais, “Já não há espaço para ideias monopolistas de controle da atividade produtiva de bens culturais, pois ferramentas eficientes de compartilhamento de conteúdos estão facilmente disponíveis através da rede.” 22

21 SOARES, Elisianne de Melo. Regulação do Ciberespaço, Controlo dos Fluxos Informacionais e Direitos de Autor:

Os Casos de Portugal e do Brasil. p. 21. Dissertação (Mestrado em Cultura e Comunicação) – Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Área de Literaturas, Artes e Culturas. Disponível em <https://www.academia.edu/9268757/Regula%C3%A7%C3%A3o_do_ciberespa%C3%A7o_controlo_dos_fluxos_infor macionais_e_direitos_de_autor_os_casos_de_Portugal_e_do_Brasil>. Acesso em 15 nov. 2019.

22 SOARES, Elisianne de Melo. FREIRE, Geovana Maria Cartaxo de Arruda. Transformações dos Direitos Autorais face às Novas Tecnologias. In: WACHOWICZ, Marcos; PILATI, José Isaac; COSTA, José Augusto Fontoura (Coord.) GEDAI

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761 Existiram tentantivas de modificação da legislação de direitos autorais, tanto para endurecer, quanto para admitir, as formas de compartilhamento e reprodução de obras autorais, sem contudo, em qualquer dos casos, obter-se sucesso. Outro caminho trilhado para coibir o compartilhamento e a reprodução foi a intensificação da vigilância e monitoramento, bem como o enrijecimento da fiscalização e a adoção de medidas mais severas contra os infratores das normas de direitos autorais. Nas últimas hipóteses também não se logrou êxito.

Constata-se que é necessário que os fornecedores repensem acerca dos seus modelos de negócios tradicionais para que sejam adotados outros modos de assegurar suas fontes de lucro. É uma realidade que não se consegue fugir, a de que a lei de direitos autorais foi concebida defasada, uma vez que não contempla em nenhum dos seus dispositivos os avanços advindos da tecnologia digital, ainda que se tente de modo extensivo realizar a leitura do texto legal.

A proteção do direito do autor é indispensável, mas não nos moldes como requer a indústria de direitos autorais. No entanto, a proteção deferida pela legislação de direitos autorais não pode significar a supressão de outros direitos, como o direito do consumidor do uso da obra. O consumidor, ao adquirir e empregar a obra como destinatário final e sem finalidade lucrativa, não deve ser considerado um infrator.

O perfil do novo consumidor possibilita que, em algumas de suas práticas, os próprios autores sejam beneficiados com a divulgação da obra, uma vez que eles se tornam conhecidos, além de permitir que seja atingido um interesse maior, que é o da propagação do conhecimento.

A sociedade evoluiu e os autores precisam se adaptar para atingir os interesses do seu público alvo, empregando os meios de comunicações digitais ao seu favor. A diminuição da regulação e a adoção de meios alternativos de compartilhamento das obras intelectuais podem ser caminhos para resolver os impasses entre os interesses dos autores e dos consumidores, bem como de alcançar a harmonia necessária no ambiente digital.

- Grupo de Estudos em Direito Autoral e Informação. Florianópolis: Editora Boiteux, 2012. p.81. Disponível em: <https://www.gedai.com.br/wp-content/uploads/2014/07/anais-v-codaip-versao-final-1.pdf>. Acesso em: 16 nov. 2019.

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Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 10, p. 81712-81728, oct. 2020. ISSN 2525-8761

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