42º Encontro Anual da ANPOCS
GT27 - Relações internacionais da América Latina
O desenvolvimento extrativista na América Latina e no Caribe: impactos, disputas e alternativas
1Enara Echart Muñoz
Professora adjunta da Escola de Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO)
Jovem Cientista do Nosso Estado da FAPERJ
María del Carmen Villarreal Villamar
Pós-doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política (PPGCP) da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.
Bolsista do CNPq, Brasil. Nº do processo 152130/2018-7.
Pesquisadora do GRISUL-UNIRIO.
Agência de fomento da pesquisa
Programa Jovem Cientista do Nosso Estado da FundaçãoCarlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Edital n. 10/2016).
Edital PQ UNIRIO 01/2016, de Produtividade em Pesquisa.
Introdução: as limitações do modelo de desenvolvimento extrativista
1Este paper é resultado da pesquisa “Cooperação Sul-Sul e Modelos de Desenvolvimento na América Latina”, realizada com apoio do Programa Jovem Cientista do Nosso Estado da Fundaçãode Amparo àPesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), e desenvolvida com o Grupo de Pesquisa sobre Relações Internacionais e Sul Global (GRISUL) da Universidade Federal do Estado de Rio de Janeiro (UNIRIO).
Agradecemos aos/às pesquisadores/as do GRISUL o trabalho de coleta e organização de dados referentes aos conflitos por extrativismo (compilados na cartilha Pacha: defendendo a terra. Extrativismo, conflitos e alternativas naAmérica Latina e o Caribe, 2018), assim como ao Ateliê de Cartografia do Labmundo/IESP a elaboração dos mapas que ilustram este paper.
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O extrativismo é uma modalidade de acumulação constituída por diversas atividades que removemgrandes volumes de recursos naturais não processados -ou processados só parcialmente- (geralmente recursos minerais e petróleo, mas também recursos agrários, florestais e pesqueiros) que se destinam à exportação, sem considerações sobre a sustentabilidade das práticas, o limite dos recursos ou o impacto nas populações (ACOSTA, 2017, p.50). Estreitamente vinculado à colonização dos países do Sul, o extrativismo é uma constante na América Latina e Caribe e vem sendo adotado por governos de diversa tendência ideológica, a pesar de ser rejeitado de forma massiva por aqueles e aquelas que sofrem diretamente suas consequências (PORTO-GONÇALVES, 2008; GUDYNAS, 2017; SVAMPA, 2017).
O capitalismo extrativista está também associado com a ideia de desenvolvimento que, ao longo da história, tem sido antecedido por termos como civilização, evolução, riqueza e crescimento (RIST, 2002). A noção contemporânea de desenvolvimento é relativamente recente e seu uso internacional, após a Segunda Guerra Mundial, surge com o discurso de investidura do presidente estadunidense Harry Truman, pronunciado em 1949. Na ocasião, ao se referir às bases para a paz mundial, o presidente norte- americano falou das nações subdesenvolvidas e, desde então, o desenvolvimento foi posicionado como modelo e objetivo que deve ser alcançado por todas as nações. Não obstante, o uso do termo e sua difusão não foram neutrais. De acordo com Esteva (2000), serviram para consolidar a teoria de que existia uma posição ideal: a de países desenvolvidos e que, por outro lado, existiam povos que viviam numa condição indigna:
a do subdesenvolvimento. Com efeito, para Sachs (1997), a partir deste momento se inaugura uma fase em que as sociedades denominadas subdesenvolvidas são julgadas a partir das suas carências com a consequente concepção dual que estabelece diferenças entre desenvolvidos e subdesenvolvidos, ricos e pobres, tradicionais e modernos, etc.
A definição, características e propósitos do desenvolvimento têm sido historicamente
objeto de disputas. Desde as concepções clássicas do desenvolvimento, o termo tem sido
reformulado a partir da teoria do crescimento e da modernização, as críticas
estruturalistas, da dependência, do sistemas-mundo e, mais recentemente, as propostas
neoliberais e neo-estatistas (PAYNE; PHILLIPS, 2012). A partir de um olhar histórico-
estrutural, a teoria da dependência mostra como, no desenho dual e desigual do sistema
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econômico, a periferia cumpre o papel de produtora de matérias primas e é dependente dos países do centro que organizam o sistema, decidem suas regras de funcionamento e tem uma produção industrial com alto valor agregado que exportam até os países periféricos (DOS SANTOS, 1998). Neste processo, o extrativismo, enquanto modelo econômico primário-exportador, consolida a dependência em posição subordinada dos países exportadores de matéria-prima em relação ao mercado mundial. Por outro lado, segundo a teoria dos sistemas-mundo, este sistema está também intimamenteligado à emergência do sistema mundo capitalista desde o século XVI e mantém seus vínculos até hoje. O sistema mundo capitalista tem fortes raízes coloniais e se baseia em uma divisão hierárquica e internacional do trabalho conformada pelo centro, a periferia e a semiperiferia que tem permitido o desenvolvimento do centro sobre a exploração dos recursos, essencialmente primários, das regiões periféricas (WALLERSTEIN, 2005).
Por outro lado, desde os anos setenta as desigualdades internacionais e os limites das perspectivas clássicas do desenvolvimento, baseadas na industrialização e no crescimento econômico, começaram a ser questionadas por analistas, políticos e ativistas do Norte e do Sul (UNCETA, 2009). As discussões sobre os impactos do termo, permitiram, por exemplo, denunciar os efeitos sobre o meio-ambiente ou as consequências diferenciadas das estratégias de desenvolvimento por gênero e tipologia de território (rural/urbano), permitindo a compreensão do papel das mulheres sobre o processo ou a importância do desenvolvimento local, dentre outros. Da mesma forma, começaram a ser discutidos os limites dos recursos naturais e a necessidade de pensar nas futuras gerações, o que favoreceu a concepção de modelos de desenvolvimento sustentáveis. Paralelamente, os efeitos negativos e os fracassos dos planos de desenvolvimento nos países do Sul geraram críticas radicais que questionaram a universalidade do conceito e as premissas etnocêntricas e coloniais que o guiavam, inaugurando uma nova fase: a do pós- desenvolvimento e a necessária construção de alternativas (PORTO-GONÇALVES, 2008; UNCETA, 2009; ACOSTA, 2016).
Para os críticos das formulações clássicas, o desenvolvimento é uma crença
ocidental, mito e elemento da religião moderna, aparentemente carregado de boas
intenções, mas responsável por inúmeros desastres e consequências negativas sobre os
países onde suas estratégias se aplicam (RIST, 2002). As premissas do pós-
desenvolvimento são resultado da crítica pós-estruturalista que coloca em discussão o
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conceito e seus efeitos a nível global, pois acredita-se que o mesmo tenha provocado mais danos que benefícios, homogeneizando o mundo e ignorando concepções alternativas surgidas em contextos não ocidentais. Sendo assim, se rejeitam, além do conceito de desenvolvimento, as definições dele derivadas como subdesenvolvimento, países em via de desenvolvimento ou Terceiro Mundo (ESCOBAR, 2007). Na América Latina e Caribe este enfoque tem sido especialmente fértil e na região têm surgido propostas alternativas aos modelos ocidentais que recuperam as cosmovisões dos povos indígenas. Uma das formulações mais difundidas e incorporada em textos Constitucionais como o boliviano ou o equatoriano é a de Sumak Kawsay ou Bom viver;
conceito derivado das tradições andinas que inclui variáveis como os direitos da natureza e a necessidade de viver em harmonia com ela, a felicidade a solidariedade entre os povos (ACOSTA, 2016). Outros enfoques recuperam também as tradições, lutas e resistências das mulheres, das comunidades camponesas e as contribuições dos povos afrodescendentes da América Latina em prol da construção de novas escolhas e de projetos pós-extrativistas (ESCOBAR, 2007; SVAMPA, 2017; LANG, 2017; ACOSTA, 2017; GUDYNAS, 2017).
A oposição aos projetos desenvolvimentistas, expressada pelos povos considerados
“objetos” de desenvolvimento, tem permitido o surgimento de um campo de estudos que destaca a agência destes coletivos e indivíduos, visibilizando o fato de que suas lutas e resistências são expressões de um movimento mais amplo que estudiosos como Martínez Alier (2007) definem como Ecologismo dos Pobres ou Movimento pela Justiça Ambiental. Com efeito, para o autor, estas ações não constituem apenas reações e formas de oposição aos projetos de desenvolvimento de matriz ocidental e baseados na promoção da modernização e crescimento econômico. Ao contrário, estes atos questionam a gênese do modelo de desenvolvimento, assim como suas raízes coloniais, etnocêntricas e patriarcais.
Hoje América Latina e Caribe, apesar dos avanços econômicos e sociais alcançados
durante a primeira década do século XXI, é considerada a região mais desigual do mundo
e a que possui a maior concentração de riqueza, terra e ingresso. Como exemplo, segundo
OXFAM (2015), em 2014, o índice de Gini da região era 0.809, e o 10% da população
mais rico possuía o 71% da riqueza e patrimônioda região. Estes dados estão
relacionados historicamente com a constituição dos países da região que, desde a sua
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fundação, privilegiaram as elites dominantes e seus aliados em detrimento das grandes maiorias, etem sido reforçados pela insuficiência de reformas e criação de políticas públicas adequadas para corrigir esta situação. Entre 2002 e 2015 as fortunas dos multimilionários da América Latina cresceram em média 21% anualmente, isto é, tiveram um aumento seis vezes superior ao do PIB da região. Na mesma linha, cabe salientar que a maior parte desta riqueza não está nos países latino-americanos e sim fora da região, normalmente em paraísos fiscais. Portanto, uma porcentagem significativa do crescimento e da riqueza de América Latina está, de fato, concentrada nas mãos das pessoas mais ricas, o que prejudica de forma significativa a classe média e os pobres da região. Esta problemática é reforçada pela existência de sistemas tributários inadequados, altamente regressivos e concentrados em taxar sobretudo o consumo e os ingressos -o que contribui a reforçar a concentração da riqueza- e pela forte evasão de impostos que, ano após ano, priva a região de importantes fundos que poderiam ser investidos na luta contra a pobreza e a desigualdade. De acordo com a CEPAL (2016, p. 7), a evasão e a elisão de impostos constituíram, em 2014, uma perda de 320 mil milhões de dólares para América Latina.
Historicamente, as elites latino-americanas, rurais ou não, estão vinculadas direta ou indiretamente com atividades extrativas que visam a exportação de produtos e, sua participação em atividades deste setor, a partir do boom das commodities dos anos 2000 é crescente (CEPAL, 2016).Neste marco, os vínculos entre extrativismo capitalista, pobreza edesigualdade na América Latina aumentam devido auma elevada concentração da terra. América Latina é, com efeito, a região com a maior desigualdade na distribuição da terra no mundo e, segundo OXFAM (2016, p. 5), se calcula que mais da metade da terra produtiva na região está concentrada no 1% das propriedades de maior tamanho.
Em consequência, a luta pela terra, mas também pela água e pelas florestas, tem
provocado diversos conflitos, migrações internas e internacionais, assim como inúmeras
violações dos direitos humanos, especialmente de comunidades e grupos organizados de
camponeses, mulheres, populações indígenas e afrodescendentes. Desde os anos 90 e,
especialmente a partir dos 2000, a expansão do extrativismo, do agronegócio e da criação
de gado a grande escala, assim como o aumento das concessões de mineração e da
exploração petrolífera tem agravado esta situação, concentrando ainda mais a riqueza, a
terra e outros recursos naturais em poucas mãos, aumentando, como consequência, as
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taxas de desmatamento e poluição dos territórios e afetando os meios de sobrevivência das regiões envolvidas. Estes fatores junto com elementos como a violência utilizada pelas multinacionais, pelos próprios Estados e por redes vinculadas ao crime organizado, na defesa destes projetos e na repressão das populações locais, têm provocado deslocamentos humanos forçados e diversos conflitos (SVAMPA, 2017). Esses deslocamentos forçados também são consequência das agressões ambientais e da alteração das formas tradicionais de vida e da mudança climática gerada pelo sistema de produção vigente (MARTÍNEZ, 2007).
Os movimentos sociais e as comunidades de “afetados” ou “atingidos” por estes processos tem lutado historicamente contra o capitalismo extrativista promovido pelos governos da região. Neste processo, cabe salientar a importância do colonialismo interno em aliança com o colonialismo internacional e transnacional que resinifica constantemente as formas de acumulação e dominação promovidas pelo sistema capitalista (GONZÁLEZ CASANOVA, 2007). O primeiro, no caso latino-americano, está estreitamente vinculado ao domínio das zonas centrais e urbanas sobre o resto território, e tem conotações étnicas, pois são as elites brancas e mestiças, descendentes dos colonizadores, as que discriminam e exploram as populações rurais, principalmente as indígenas e afrodescendentes. O colonialismo transnacional e internacional, por outro lado, se refere à articulação dos complexos militares-empresariais e políticos em prol dos projetos de acumulação e expansão que geram lucro para uma elite, sem consideração alguma pelas contradições e efeitos negativos que o sistema e seus mecanismos geram.
No começo do século XXI, a chegada de governos autodenominados progressistas
alimentou as esperanças dos grupos marginados e movimentos sociais da América
Latina. A eleição de candidatos opositores ao neoliberalismo e ações como a elaboração
de novas Constituições (na Bolívia e no Equador) que reconheceram a
plurinacionalidade, a interculturalidade, os direitos da natureza e acolheram
positivamente as propostas derivadas das cosmovisões dos povos indígenas como o caso
do Bom Viver ou Sumak Kawsay confirmaram o optimismo inicial. Entretanto, esses
governos não implementaram reformas estruturais para a construção de alternativas pós-
extrativistas (SVAMPA, 2017; ACOSTA, 2017). Ao contrário das crenças mais
otimistas, os governos progressistas optaram por alianças pragmáticas com o capital
transnacional e abraçaram o neo-desenvolvimentismo, consolidando um novo modelo
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neo-desenvolvimentista com base extrativista, cujas premissasmais uma vez foram o crescimento econômico, a modernização das suas sociedades e a inserção na economia global, a pesar de incluir políticas sociais. Ao respeito, Gudynas (2017, p. 176) adverte que todos os países da região são extrativistas e que este modelo é fonte de tensões e protestos sociais. Assim, os próprios processos de integração regional, impulsados em um período de convergência ideológica (ACOSTA, 2017; SVAMPA, 2017), privilegiaram a construção de infraestrutura e os megaprojetos de desenvolvimento com forte participação das empresas transnacionais latinas, especialmente de países como Brasil, Chile, México ou Argentina. Por outro lado, segundo a organização Global Witness (2017), o nível de criminalização das pessoas e movimentos que se opõem ao extrativismo tem crescido de forma exponencial, fazendo de América Latina a região mais perigosa do mundo para ser defensor da terra e dos direitos humanos ou ativista social.
Objeto e objetivos: visibilizar as lutas contra o extrativismo
O extrativismo, nas suas múltiplas expressões, é o modelo de produção e de desenvolvimento vigente em todos os países da América Latina e Caribe. Apesar da chegada de governos progressistas e desenvolvimentistas na última década, a opção pelo extrativismo se manteve e o modelo se consolidou, também como resultado do aumento da demanda internacional de matérias primas por parte dos países do Norte e, especialmente, dos países emergentes como China. Seja na versão clássica deste modelo ou na versão neo-extrativista -que tenta diminuir os efeitos negativos com políticas sociais, a fronteira extrativa está em plena expansão e tem aprofundado seu alcance em países como Colômbia, Brasil, Chile e Peru, avançando também em nações que, como Uruguai, tinham permanecido relativamente alheias às suas consequências (ACOSTA, 2017; GUDYNAS, 2017). Neste contexto, com a participação de heterogêneos atores públicos e privados, o avanço do extrativismo gera diversos impactos de natureza ambiental, social, econômica, política e cultural.
A inserção de América Latina e Caribe no capitalismo se deu sem questionar a sua
validade para a superação das desigualdades. Apesar das críticas, o modelo capitalista
extrativista se mantém como base do desenvolvimento, acreditando que promoverá o
crescimento e o bem-estar da população, sem considerar os seus fracassos na redução da
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pobreza e desigualdades e dos fortes impactos sociais e ambientais que provoca:
deslocamento forçado de populações; problemas de saúde e de segurança alimentar;
desaparição da heterogeneidade agrícola e de alternativas produtivas locais perante o avanço da monocultura; contaminação ambiental; reconfiguração dos territórios devido às concessões a grandes empresas e as consequentes expropriações de camponeses, indígenas e populações quilombolas, etc. Como consequência, multiplicaram-se na região os conflitos sociais contra a expansão do extrativismo e em defesa dos recursos naturais (MILANI ET AL, 2015; SVAMPA, 2017; GUDYNAS, 2017; GRISUL, 2018;
ECHART; VILLARREAL, 2018; VILLARREAL; ECHART, 2018).
A partir da importância do extrativismo como modelo de produção e desenvolvimento predominante na região, este paper tem o objetivo de visibilizar as consequências e disputas geradas em diversos países e escalas, assim como as diversas formas de mobilização e resistência surgidas ao longo da região perante seu avanço. Não obstante, diante da hegemonia de um discurso desenvolvimentista baseado no crescimento econômico e na exploração dos recursos naturais como único caminho para garantir a cobertura das necessidades básicas da população, consideramos importante debater as possibilidades e os desafios atuais no impulso de alternativas que constituem processos de desenvolvimento inclusivos. Apresentamos, portanto, a voz das comunidades, com forte protagonismo das mulheres, indígenas, afrodescendentes e camponeses que, apesar de serem os principais atingidos pela expansão do extrativismo, são emarginados nas decisões em relação a estes projetos. Isto acontece, muitas vezes, em aberta violação das Constituições e convenções internacionais que preveem, por exemplo, a celebração de consultas prévias antes da instalação ou ampliação de projetos em territórios tradicionais ou coletivos. A partir da agência dos indivíduos e coletivos, nossa intenção é também visibilizar as alternativas surgidas das comunidades de atingidos pelo extrativismo em base a outros saberes e cosmovisões dos povos latino- americanos. Partimos do pressuposto que estas alternativas se inserem dentro de um movimento mais amplo de caráter global denominado Movimento pela Justiça Ambiental ou Ecologismo dos Pobres (MARTÍNEZ ALIER, 2007).
O trabalho é parte de um projeto mais abrangente que visa analisar e cartografar as
disputas pelos sentidos do desenvolvimento na América Latina e Caribe (GRISUL,
2018). Para cumprir com este propósito foram selecionadas três principais dimensões de
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pesquisa e reflexão crítica que orientam o desenvolvimento do projeto: os modelos de desenvolvimento e integração regional; as percepções, discursos e práticas da cidadania;
e a tentativa de propor aproximações teóricas desde o Sul Global. Os objetivos são analisar os modelos de desenvolvimento em disputa na América Latina e suas respostas aos principais desafios da região; apresentar as principais propostas de integração regional na região e seu posicionamento sobre o desenvolvimento; analisar a relação entre os atores envolvidos nas políticas e modelos de desenvolvimento, os conflitos gerados por essas políticas, e os mecanismos de negociação e resolução dos mesmos;
assim como debater os marcos teóricos das Relações Internacionais aplicados ao estudo dos processos de integração e seus modelos de desenvolvimento, com o objetivo de gerar perspectivas e ferramentas próprias de análise.
Opaper que aqui se apresenta pretende focar na dimensão dos atores sociais, analisando os principais conflitos derivados da implementação do modelo de desenvolvimento extrativista, com foco nos projetos de mineração, ao passo que busca visibilizar as alternativas surgidas na região perante este modelo.
Metodologia: cartografando os conflitos derivados do extrativismo
O trabalho proposto é de natureza qualitativa e forma parte de uma pesquisa maior
que visa analisar e cartografar as disputas pelos sentidos do desenvolvimento na América
Latina e Caribe (GRISUL, 2018). Para tanto, utilizamos como uma das principais fontes
a base de dados do Environmental Justice Atlas (Ejatlas), plataforma que reúne 2.390
conflitos sócio ambientais globais no período 1970-2018. De acordo com os propósitos
da pesquisa selecionamos 259 casos de conflitos socioambientais, com foco nos projetos
extrativistas de mineração na América Latina. Esses conflitos representam casos
emblemáticos dos efeitos do extrativismo sobre o meio ambiente e os deslocamentos
forçados de população, ao passo que evidenciam os impactos deste processo sobre as
mulheres, indígenas e afrodescendentes de América Latina e Caribe, enfatizando suas
lutas, resistências e a multiplicação de alternativas. Os mapas relativos a cada um desses
desdobramentos podem ser consultados na cartilha Pacha: Defendendo a
terra.Extrativismo, conflitos e alternativas na América Latina e no Caribe (GRISUL,
2018).
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Além disso, nosso trabalho analisa várias fontes secundárias: textos políticos e normativos sobre desenvolvimento, impactos do extrativismo na região e conflitos socioambientais; relatórios e campanhas de movimentos e redes sociais em torno destes processos; literatura científica, etc. A pesquisa tem também uma dimensão quantitativa ao analisar e comparar as condições estruturais da região em termos sociais e econômicos e os efeitos do extrativismo, fazendo uso de indicadores de organismos internacionais, como o Programa das Nações Unidaspara o Desenvolvimento (PNUD) ou a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL).
No caso dos conflitos socioambientais resultado do extrativismo, foram elaboradas matrizes que mapeiam os principais eixos de conflito na América Latina, apresentando os principais atores (públicos e privados) e movimentos participantes, a agenda e principais demandas, as principais atuações (campanhas, mobilizações, institucional, etc.); os principais efeitos do conflito por âmbito e escala e a geração ou não de alternativas. A elaboração das matrizes permitiu a realização de vários mapas que servem de suporte à argumentação do paper.
Matriz: Conflitos derivados do extrativismo na América Latina
Nome do conflito País
Lugar
Empresa envolvida Atores públicos Atores sociais Tipo de conflito Formas de mobilização Commodities
Impactos Meio ambiente Socioeconômicos
Saúde Deslocamento Mulheres Povos indígenas Afrodescendentes Resultados do conflito
Construção de alternativas
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Resultados e conclusões: Resistências e alternativas ao extrativismo na América Latina e o Caribe
Os estudos de desenvolvimento e as práticas de cooperação para atingi-lo, têm sido alvo de muitas análises críticas quanto a suas origens, pressupostos e possíveis caminhos de superação do subdesenvolvimento (PREBISCH 2014 [1948]; STAVENHAGEN, 1981 [1965]; GONZÁLEZ CASANOVA, 1963; CARDOSO; FALETTO, 1969;
MARINI, 1977; BAMBIRRA, 2013; QUIJANO, 2000; ACOSTA, 2017; SANTOS, 2000; ESCOBAR, 2005; SVAMPA, 2008; SVAMPA, 2017; RIVERA CUSICANQUI, 2010; IVO, 2012; ARANÍBAR; RODRÍGUEZ, 2013; etc.) e da sua correlação nos projetos políticos. Os imaginários sociais e geopolíticos na América Latina podem ser vinculados a três momentos e concepções principais do desenvolvimento: um primeiro momento em que o imaginário modernizador foi contestado a partir das tentativas de ruptura com a dependência; um segundo onde o imaginário globalófico levou a uma adjetivação primeiro e a uma negação depois do desenvolvimento; e uma terceira onde a integração regional e o social-liberalismo nacionais adquiriram nova força. Estaríamos hoje vivendo os impactos e limites na mudança de ciclo político (BRINGEL; ECHART, 2017).
Partindo desse debate teórico, nosso trabalho analisou 259 conflitos socioambientais resultado do extrativismo de mineração na região. Tais conflitos podem ser visibilizados no mapa 1 que ilustra o país e a área afetada. A pesquisa nos permitiu concluir que o extrativismo é um modelo de produção e desenvolvimento que amplia e aprofunda a inserção internacional econômica dependente dos países da região. Com efeito, a renovação e expansão do extrativismo no contexto do aumento da demanda de matérias primas e do boom das commodities, desde 2003,provocou a reprimarização das economias latino-americanas e uma ampliação da dependência destas em relação aos países do Norte Global, mas também respeito às nações emergentes, com especial destaque para China, e, especialmente na América do Sul, para países como o Brasil.
Algumas das principais diferenças do extrativismo contemporâneo, respeito ao modelo
extrativista histórico, não são somente o uso de novas e mais eficazes tecnologias ou a
ampliação das atividades extrativas, mas também a crescente participação de empresas
estatais e multinacionais do Sul que, como a Vale ou a Corporación Nacional del Cobre
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de Chile (CODELCO) têm aprofundado suas atividades nos países da região.
Mapa 1. Conflitos por Mineração e Extrativismo na América Latina e no Caribe
Fonte: GRISUL, 2018.
Os conflitos socioambientais são resultado dos graves impactos que o extrativismo
provoca sobre o meio ambiente, os territórios e a vida das comunidades de atingidos. Os
efeitos deste modelo, visíveis principalmente em ocasião de “tragédias ambientais” como
o rompimento da Barragem do Fundão acontecido em 2015 na cidade de Mariana (MG),
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são constantes e agravam problemas estruturais como a contínua emissão de gás carbônico ou o aquecimento global. Com efeito, as atividades extrativas contaminam as águas, o ar e a terra com elevados níveis de destruição ecológica. Como mostra o mapa 2, os impactos destas atividades ao longo da América Latina e do Caribe mudam de intensidade entre um conflito e outro, mas geralmente geram perda de biodiversidade, desmatamento, poluição do ambiente e de recursos vitais e vazamento de resíduos tóxicos com graves consequências sobre a vida e a saúde das populações atingidas.
Em função das características estruturais de América Latina e Caribe, os impactos das atividades extrativistas adquirem maior relevância em casos específicos. Devido às desigualdades de gênero e raça (AGUINAGA ET AL, 2017) e a persistência da hierarquia colonial que privilegia à população branca e seus descendentes sobre os demais coletivos, estes grupos são especialmente vulneráveis e estão mais expostos à pobreza e exclusão social respeito ao resto da população. De acordo com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH, 2015), o extrativismo agrava esta situação ao vulnerar seus direitos e, de forma especial, o direito à propriedade e cultivação da terra. Assim, um de cada três hectares que são entregues em concessão para exploração mineira, petroleira, agroindustrial e florestal na região pertence a povos indígenas, enquanto que, em países como Colômbia, um dos principais coletivos afetados pela expansão da monocultura são os afro-colombianos (OXFAM, 2016: 52).
No caso específico das mulheres latino-americanas e caribenhas, sua discriminação é
múltipla. De acordo com a ONU Mulheres (2017), elas representam menos do 12% da
população beneficiada pelas reformas agrárias, administram porcentagens inferiores ao
40% das terras da região -com variaçõesentre países- e têm sido historicamente excluídas
e penalizadas pelas políticas de propriedade, distribuição e herança de terras, que as
consideram mães, esposas e ajudantes nas tarefas agrícolas, antes que produtoras
autônomas, prejudicando sua autonomia e sobrevivência(OXFAM, 2016: 27).
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Mapa 2. Impactos do extrativismo sobre o meio ambiente
Fonte: GRISUL, 2018.
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Os impactos do extrativismo vão além da poluição ambiental ou do desmatamento dos territórios e, muitas vezes, geram o deslocamento forçado das comunidades e o fim das suas formas tradicionais de vida com efeitos negativos sobre os direitos coletivos, especialmente das comunidades tradicionais indígenas ou quilombolas. Contudo, estes coletivos não constituemgrupos passivos frente ao avanço destas atividades. Elas e eles historicamente têm se oposto à ampliação da fronteira extrativa nos seus territórios com estratégias que incluem a denúncia dos efeitos destas atividades e a visibilização das graves violações aos direitos humanos que promovem (ECHART; VILLARRREAL, 2018; VILLARREAL; ECHART, 2018). No entanto, cada vez que alguém levanta a voz contra as atividades extrativistas,a resposta dos Estados, das empresas multinacionais envolvidas e dos diversos grupos paramilitares ou de coletivos vinculados com o crime organizado égeralmente a criminalização dos protestos, as denúncias, ameaças e deslegitimação das ações das comunidades atingidas e, muitas vezes, o assassinato dos seus líderes.
Segundo a ONU (2017), três de cada quatro assassinatos de defensores de direitos
humanos ocorrem nas Américas, dos quais 41% eram contrários a projetos extrativistas
ou defendiam o direito à terra e aos recursos naturais dos povos indígenas. Isso levou as
Nações Unidas a lançar, este ano, a iniciativa global para proteger ativistas ambientais. E,
segundo o Global Witness (2017), América Latina e Caribe é hoje a região mais perigosa
para líderes e defensores do meio ambiente. Das/os 197 ambientalistas assassinadas/os no
mundo inteiro en 2017, 116 morreram na região e o 60% dos assassinatos estão
relacionados com atividades extrativistas de agroindústria ou mineração. Lideranças
sociais como Berta Cáceres,ativista meio-ambiental, feminista e líder do Povo indígena
Lenca de Honduras, ErleyMonroyFierro, dirigente camponês colombiano ou Paulo
Sérgio Santos, líder quilombola na Bahia, dentre outros, foram assassinados por
denunciar e enfrentar o avanço do extrativismo nos seus territórios e por defender, de
forma legítima, suas formas tradicionais de vida ou alternativas ao modelo de
desenvolvimento vigente. Contudo, a impunidade generalizada nos países da região e a
falta de acesso à justiça determinam que muitos homicídios não sejam registrados, nem
muito menos resolvidos. Todos os países da região registram elevados índices de
violência contra defensoras/es da terra que incluem ameaças e diversas formas de
estigmatização e amedrontamento, mas a perseguição e, sobretudo, o número de
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assassinatos destes ativistas adquire maiores proporções em países como Brasil (46), Colômbia (32), México (15) e Peru (6), em coincidência com o aprofundamento nas últimas décadas do modelo extrativista (Global Witness, 2017).
A criminalização dos movimentos contra o extrativismo não existe só entre governos neoliberais. Argumentando a necessidade de financiar o desenvolvimento dos seus países e o bem-estar das suas populações, os governos progressistas basearam suas políticas sociais de redistribuição de recursos, para combater a pobreza e a desigualdade, na exploração de matérias primas, optando por alianças subordinadas, com novos parceiros estratégicos, como a China. Não foram ouvidas, portanto, as denúncias sobre as consequências negativas deste modelo formuladas pela população local e também não foram consideradas as alternativas de bem-estar surgidas na região nas últimas décadas (SVAMPA, 2017, p.145). Em lugar de ser escutada, a oposição a este modelo foi desarticulada, as lideranças foram muitas vezes cooptadas e a dissidência e resistência foram castigadas com desqualificações e diversas formas de criminalização (GUDYNAS, 2017; SVAMPA, 2017; ACOSTA, 2017). Situação que só pode piorar no contexto de recortes e retrocessos em direitos e em políticas sociais que estamos vivendo na região.
Apesar da repressão e criminalização das ações contra o extrativismo, as comunidades afetadas -de caráter essencialmente rural, mas com alianças nacionais e transnacionais-, são protagonistas na luta e resistência à chegada e expansão deste modelo nos seus territórios, mas com frequência suas ações têm sido ignoradas em função do etnocentrismo, do colonialismo interno e do racismo que caracteriza as sociedades latino-americanas (ECHART; VILLARREAL, 2018; VILLARREAL;
ECHART, 2018). Na nossa pesquisa valorizamos, portanto, a presença destes grupos e
seu papel na preservação e defesa dos territórios, com frequência coletivos, mas em
disputa com os Estados nacionais, com as empresas multinacionais e, muitas vezes, com
o crime organizado, particularmente quando se trata de grupos vinculados ao
narcotráfico. No entanto, o papel dos grupos afetados pelo extrativismo vai além da
resistência e, como mostra o mapa 3, se caracteriza pela formulação de alternativas a este
modelo que se articulam com as propostas globais no marco da Justiça Ambiental
(MARTÍNEZ ALIER, 2007).
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Mapa 3. Alternativas ao extrativismo na América Latina e no Caribe
Fonte: GRISUL, 2018.
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Com efeito, os camponeses, indígenas e afrodescendentes, sobre tudo mulheres, são protagonistas deste processo (ECHART; VILLARREAL, 2018) que inclui a formulação de múltiplas alternativas. Como mostram os exemplos de Intag (Equador), Cajamarca (Peru), La Veja (República Dominicana), Challapata (Bolívia) e Raposo em Minas Gerais, as propostas incluem a criação de planos ou projetos de bem-estar comunitário, assim como o estabelecimento de reservas e proteção de territórios a favor da construção de práticas sustentáveis baseadas, por exemplo, na produção e comercialização de produtos agroecológicos, pesca artesanal e em formas de turismo comunitário. Estas formulações têm gerado como resultado legislação e políticas específicas, ao passo que promovem a justiça e combatem o racismo ambiental, fenômeno que define como a poluição e a falta de acesso pleno à recursos naturais como a água ou o ar limpo, afeta especialmente as populações mais pobres, negras indígenas e habitantes de zonas rurais afastados dos centros de decisão pública.
As alternativas ao extrativismo formuladas pelos povos de América Latina e Caribe se multiplicam a cada dia e partem das necessidades individuais e coletivas das pessoas e territórios e são, portanto, projetos em construção, experimentais, heterogêneos, interculturais e inclusivos. No entanto, em articulação com as demandas globais por justiça ambiental, estas propostas nos convidam a ir além e a imaginar também novos mundos e novos modelos de bem-estar que superem as visões economicistas que tem guiado até agora o destino das sociedadesnos países do Norte e do Sul.
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