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20 Aula de inglês (2006)

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Aula de inglês (2006)

Me procurei a vida inteira e não me achei - pelo que fui salvo.

(Manoel de Barros)

Em dezembro de 2006, eu passava em frente a uma livraria, quando vi seus dois novos livros na vitrine. Fiquei tão curiosa para ler, era tão esquisito haver livros seus sobre os quais eu não lera nada, eu não fazia a menor idéia sobre eles. Desde Retratos de Carolina, você ainda não tinha publicado nada. Ao invés de se dedicar a novos livros, estava tratando da nova editora, onde conseguiria ter todos os livros reunidos em 2005. Em 2004, outra grande fatia do seu tempo fora levada por mais uma consagração internacional: o Prêmio Alma, criado pelo governo sueco em 2002, quando faleceu Astrid Lindgren (Alma é abreviação de Astrid Lindgren Memorial Award). Pelo conjunto da obra, você embolsou cerca de 530 mil euros…

Não pensou duas vezes: transformou a Casa Lygia Bojunga em “Fundação Cultural” para apoiar projetos relacionados ao livro e à leitura. No mesmo ano, o jornal O Globo te elegeu “personalidade literária”, com o prêmio “Faz diferença”. Depois, não tive notícias suas por mais de dois anos. Até que passei diante da vitrine e vi Aula de inglês ao lado de Sapato de salto.

De cara, estranhei a grossura, eram textos maiores do que os outros.

Ao abrir cada um, vi que não eram catalogados como infantis ou juvenis, mas como “Romance brasileiro” (Aula…) e como “Literatura brasileira”

(Sapato…). Não entendo por que não têm uma catalogação comum e muito menos por que Aula… foi finalista do Prêmio Jabuti 2007 na categoria Juvenil, além de “Altamente recomendável para o jovem”, pela FNLIJ.

As primeiras leituras

Ao ler este livro pela primeira vez, Lygia, não gostei mesmo. Achei que você tinha se precipitado ao publicá-lo. Achei que você andava

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assoberbada com os trabalhos extra-literários e acabara fazendo um livro ruim. Tão assoberbada que, como coordenadora editorial, deixara escapar

“uma sensação que eu sinto”: “É por isso que eu acho engraçada a sensação que eu sinto quando me chamam de professor (…)”, diz o protagonista.

(Bojunga, 2006a: 18) Ele tem quase setenta anos e dá aulas particulares de inglês na falta de outra coisa a fazer: “Eu nunca escolhi ser professor; eu nunca me pensei professor. Eu comecei a dar aulas de inglês porque não estava mais conseguindo viver de fotografia”, explica. (Bojunga, 2006a: 12) Tem uma paixão platônica por uma aluna de 19 anos, Teresa Cristina, e ainda sofre por conta de outra paixão, também platônica, por uma professora que teve aos onze anos, Penny.

Esse cara é chatíssimo. Num curso que fiz em 1997 com o Domingos de Oliveira, ele repetiu insistentemente que um personagem não pode nunca ser entediado. Se o personagem não tiver motivação, não vai agir e, se não agir, não há possibilidade de a história ir adiante. Na ficção como na vida, concordo com o Domingos. Ao professor é dado o espaço de um livro, mas ele não tem nada para contar, aliás, tem: o vexame de correr atrás da moça que o dispensa, claro.

Tanto não gostei dessa história que só fui reler mais de dois anos depois, já em Lisboa. Temi que não fosse possível escrever sobre ela. Minha vontade era mudar tudo, comecei a imaginar uma peça. Eu queria aproveitar a idéia do cara ser um fotógrafo e um frustrado, para que ele finalmente se realizasse com fotografias das ausências que tanto o faziam sofrer. Na minha peça, ele faria as fotos da presença do ausente: quando o ausente diz

“presente”! a pura ausência! a presença da ausência pura! O quadro tirado da parede deixou esta marca: a mesa depois do jantar ficou essa bagunça: a casa depois que o morador se mudou ficou nesse estado: o carro depois do acidente fatal: o guarda-roupa de quem se foi: essa sucessão de ausências seria projetada em slides como pano de fundo para a conversa entre ele e uma personagem feminina. Esta seria uma mistura das duas mulheres, na peça ele seria apaixonado a vida toda por apenas uma, construída com

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elementos de ambas.

A terceira leitura

Durante todo este trabalho sobre sua obra, sempre leio o livro imediatamente antes de escrever sobre ele. Independentemente de já ter lido a obra duas ou vinte vezes, antes de pôr a mão na massa, é preciso estar com a leitura fresquinha na cabeça. No caso de Aula de inglês, fui ler na hora em que já estava cansada de te escrever. Eu tinha até te dito que precisava de umas férias. Pois é. Foi ler para desistir de fazer naquela hora. Sabe por quê?

Porque passei a gostar de alguns momentos do livro. Aí que não soube mesmo o que dizer. Tomei algumas notas e deixei para resolver este capítulo depois que voltasse ao Rio.

Hoje é 29/11/2009. Há três dias, assisti a uma palestra com o Benjamin Moser, norte-americano que veio ao Brasil lançar uma biografia da Clarice. (Moser, 2009) Sobre os livros dela, ele falou que um ou outro não gostou tanto de ler. Citou A cidade sitiada e O lustre. Disse que todo escritor tem alguns livros mais difíceis e devemos ler pensando que ele teve seus motivos para escrever assim. Pensar nisso é importante, não devemos ficar somente nos livros que nos são fáceis. Se o autor escreveu, o livro faz sentido para ele. Benjamin pensa que sempre devemos buscar o motivo de um livro que nos seja de leitura difícil.

Na minha terceira leitura de Aula…, marquei uma passagem onde vejo um bom motivo. Sexagenário, o professor mostra que se sente um fracassado e pensa que não tem o que contar. É como se ele tivesse “dado de ombros” para a vida. Penny, que já deve passar dos oitenta anos, mostra que o importante não é o que se consegue, mas o que se tenta:

- Não tenho muito o que contar. Graças a você, me tornei professor de inglês. Um dia me casei, tive um filho, me separei, ele foi morar com a mãe nos Estados Unidos, temos pouco contato… - Meio que deu de ombros. - E depois foi aquela coisa, não é? um caso aqui, um namoro ali, uma mudança acolá… Nada que dê uma boa história.

(….)

- Mas na minha vida também: não tem nada que dê uma boa história; e eu fiquei contando ela toda pra você. (Bojunga, 2006a: 192)

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O fato é que Penny tentou muito ter uma boa história, enquanto o professor ficou esperando que uma história acontecesse com ele. Então ela pode contar da busca que fez, enquanto ele só fala do que não teve.

Seu motivo

Durante minha primeira leitura de Aula…, eu tinha anotado que não gostava do livro, mas gostava da sua determinação em não repetir fórmulas.

Errar num livro teria algo de positivo, pensei. Porque só não erra quem não arrisca e, se você quisesse, estaria repetindo a fórmula de Os colegas até hoje. Mas você prefere continuar se buscando. É como diz o personagem do escritor, em Aula…, quando estranham que ele não faça a continuação de um romance: “pra isso existe novela de televisão, meu amigo; literatura é uma outra história”. (Bojunga, 2006a: 66).

Sua autoria é marcada por vários elementos recorrentes na obra, como a crítica citada acima à vulgarização do conteúdo dos livros. A cor amarela está presente na fita do cabelo que a tia Penny usava ao ser fotografada pelo professor-menino, que vai embrulhar a fotografia com uma fita da mesma cor. (Bojunga, 2006a: 21). Neste livro, você também discute a relação autor-leitor, destaca o papel das mãos no jogo de sedução e, ainda, põe em cena o objeto-livro e a confusão entre este objeto, a obra e o autor.

Entretanto, Lygia, não faz sentido para mim ficar repetindo, citando ou conferindo neste livro aspectos que já ressaltei nos outros. Eu precisaria de mais tempo para ler Aula… e pensar no seu motivo para escrever mais este, como disse o Benjamin. Mas meu tempo de te escrever acabou. Estou no fim de um domingo e, no domingo que vem, tenho que pôr o ponto final.

No entanto, ainda falta escrever sobre Sapato… e sobre Querida.

Infelizmente vou ter que passar meio por cima desses três livros, Lygia, mas não quero deixar de te dizer o que já tenho pronto na cabeça.

Muita coisa em Aula de inglês parece inverossímil. O que eu gosto no livro é a personagem da Penny, esta sim uma protagonista. O final dela

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ficou belíssimo. Já o final do professor, você pede para o leitor escolher entre dois, ambos ruins. Minha impressão é que você não chegou a ver muito bem o personagem do professor, tanto que ele nem ganhou nome próprio.

As imagens

Como fotógrafo frustrado, o professor tem por hábito “enquadrar”

imagens que você vai descrevendo. Parece que vai vendo essas imagens junto com ele, a minha impressão é que você foi descrevendo imagens que passavam na sua cabeça, como num cinema. Tanto que narra em terceira pessoa e no presente. Como se descrevesse o que vê. Por exemplo, quando

“A lembrança da tia Penny foi sumindo no enquadramento que, de repente, o Professor começou a fazer de Teresa Cristina, ali, de costas pra ele, a testa colada ao vidro da janela.” (Bojunga, 2006a: 43) Da mesma forma, quando o professor entra no quarto da tia Penny, em Londres, você observa que se via logo “por todos os detalhes, quanto de dedicação aquele quarto tinha recebido pra poder retribuir assim com tamanha atmosfera de aconchego”.

(Bojunga, 2006a: 194)

Não é a primeira vez que você fala sobre a retribuição que a casa pode dar aos cuidados que se tem com ela. Em outros momentos, você menciona que o arquiteto, ao bolar os ambientes, interfere em como as pessoas que o frequentarem vão comportar-se, sentir-se, amar-se, falar-se.

Então eu me toquei de que, como artista gráfica, você se tornou arquiteta da sua morada: o livro! Quanto mais você se dedica a ele, mais ele te dá. No texto do seu site, você diz:

O Livro tem me dado tanto desde que - aos 7 anos - Monteiro Lobato fez de mim uma leitora apaixonada! e, pela vida afora, em noite de insônia, em dia de dor, em hora de paz e prazer de viver, era só eu olhar pro lado e... lá estava Ele. Mas, feito coisa que tanto companheirismo não bastava, o Livro vai e resolve comparecer todo fim de mês pra pagar minhas contas... É ou não é pra eu me sentir devedora? pra querer dar o troco?

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1 Extraído de www.casalygiabojunga.com.br

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Referências

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