R EVISTA E SPÍRITA
Jornal de Estudos Psicológicos
R EVISTA E SPÍRITA
Jornal de Estudos Psicológicos
Contém:
O relato das manifestações materiais ou inteligentes dos Espíritos, aparições, evocações, etc., bem como todas as notícias relativas ao Espiritismo. – O ensino dos Espíritos sobre as coisas do mundo visível e do invisível; sobre as ciências, a moral, a imortalidade da alma, a natureza do homem e o seu futuro. – A história do Espiritismo na Antigüidade; suas relações com o magnetismo e com o sonambulismo; a explicação das lendas e
das crenças populares, da mitologia de todos os povos, etc.
Publicada sob a direção de
ALLAN KARDEC
Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente.
O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito.
ANO QUARTO – 1861
T
RADUÇÃO DEE
VANDRON
OLETOB
EZERRAFEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA
Sumário
Q UARTO V OLUME – A NO DE 1861
JANEIRO
Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas: 15
O Livro dos Médiuns 22
A “Bibliografia Católica” Contra o Espiritismo 24
Carta Sobre a Incredulidade – 1
aparte 35
O Espírito Batedor do Aube 46
Ensinos Espontâneos dos Espíritos:
Os três tipos 55
Cazotte 56
A voz do Anjo-da-Guarda 58
Garridice 59
FEVEREIRO
Boletim da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas: 61
O Sr. Squire 66
Escassez de Médiuns 74
Carta Sobre a Incredulidade 79
Conversas Familiares de Além-Túmulo:
O Suicídio de um Ateu 89
Questões e Problemas Diversos 96
Ensino dos Espíritos:
Ano de 1860 98
Ano de 1861 99
Comentário sobre o ditado publicado sob o título de
“O despertar do Espírito” 100
Os três tipos – continuação 102
A harmonia 105
MARÇO
O Homenzinho Ainda Vive – A Propósito do Artigo do Sr. Deschanel, Publicado no Journal des Débats 107
A Cabeça de Garibaldi 121
Assassinato do Sr. Poinsot 125
Conversas Familiares de Além-Túmulo:
Sra. Bertrand 128
Srta. Pauline M... 134
O Espírito e as rosas 140
Ensinos e Dissertações Espíritas:
A lei de Moisés e a lei do Cristo 142
Lições familiares de moral 145
Os missionários 148
A França 149
A ingratidão 151
ABRIL
Mais uma Palavra Sobre o Sr. Deschanel 153
O Sr. Louis Jourdan e O Livro dos Espíritos 156
Apreciação da História do Maravilhoso, do Sr. Louis Figuier, pelo Sr. Escande, Redator da Mode Nouvelle 168
O Mar, pelo Sr. Michelet 180
Conversas Familiares de Além-Túmulo:
Alfred Leroy, suicida 182
Jules Michel 187
Correspondência 189
Ensinos e Dissertações Espíritas:
Vai nascer a verdade 192
Progresso de um Espírito perverso 193
Sobre a inveja nos médiuns 195
MAIO
Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas – Discurso do Sr.
Allan Kardec por Ocasião da Renovação do Ano Social 199
O Anjo da Cólera 209
Fenômenos de Transporte 213
Conversas Familiares de Além-Túmulo – O Dr. Glas 224
Questões e Problemas Diversos 230
Ensinamentos e Dissertações Espíritas:
Sra. de Girardin 238
A pintura e a música 240
Festa dos Espíritos bons 240
Vinde a nós 241
Progresso intelectual e moral 242
A inundação 243
JUNHO
Channing – Discurso Sobre a Vida Futura 245
Correspondência – Carta do Sr. Roustaing, de Bordeaux 253
A Prece 260
Conversas Familiares de Além-Túmulo:
O Marquês de Saint-Paul 262
Henri Mondeux 265
Sra. Anaïs Gourdon 270
Dissertações e Ensinos Espíritas:
Muitos os chamados, poucos os escolhidos 278
Ocupação dos Espíritos 280
O deboche 282
Sobre o perispírito 284
O Anjo Gabriel 284
Despertai 285
O gênio e a miséria 286
Transformação 287
A separação do Espírito 288
JULHO
Ensaio Sobre a Teoria da Alucinação 289
Uma Aparição Providencial 296
Conversas Familiares de Além-Túmulo – Os amigos não nos esquecem no outro mundo 300
Correspondência 304
Desenhos Misteriosos 309
Exploração do Espiritismo 313
Variedades:
As visões do Sr. O. 316
Os Espíritos e a gramática 319
O papel dos médiuns nas comunicações 322
Hospital Público 326
A prece 330
AGOSTO
Aviso 333
Fenômenos Psicofisiológicos das Pessoas que Falam de si Mesmas na Terceira Pessoa 333
Manifestações Americanas 339
Conversas Familiares de Além-Túmulo:
Dom Peyra, prior de Amilly 342
Correspondência – Carta do Sr. Mateus Sobre os Médiuns Trapaceiros 352
Dissertações e Ensinos Espíritas:
Da influência moral dos médiuns nas comunicações 355
Dos transportes e outros fenômenos tangíveis 358
Os animais médiuns 363
Povos, silêncio! 368
Jean-Jacques Rousseau 370
A controvérsia 371
O pauperismo 373
A concórdia 374
A aurora dos novos dias 375
SETEMBRO
O Estilo é o Homem – Polêmica Entre Vários Espíritos 377
Conversas Familiares de Além-Túmulo – A pena de talião 394
Correspondência:
Carta do Sr. Mathieu sobre a mediunidade das aves 398
Carta do Sr. Jobard sobre os espíritas de Metz 402
Dissertações e Ensinos Espíritas:
Um Espírito israelita a seus correligionários 408
Variedades – Notícia falsa 419
OUTUBRO
O Espiritismo em Lyon 421
Banquete Oferecido ao Sr. Allan Kardec 427
Discurso do Sr. Allan Kardec 430
Epístola de Erasto aos Espíritas Lioneses 439
Conversas Familiares de Além-Túmulo – Eugène Scribe 447
Ensinamentos e Dissertações Espíritas:
Os cretinos 451
Se fosse um homem de bem, teria morrido 454
Os pobres e os ricos 455
Diferentes maneiras de fazer a caridade 456
Roma 457
O Coliseu 458
Egoísmo e orgulho 462
Sociedade Espírita de Metz 463
NOVEMBRO
Resquícios da Idade Média – O Auto-de-fé de Barcelona 465
Opinião de um Jornalista sobre O Livro dos Espíritos 470
O Espiritismo em Bordeaux 473
Reunião Geral dos Espíritas Bordeleses:
Discurso do Sr. Sabò 477
Considerações sobre o Espiritismo 480
Discurso do Sr. Allan Kardec 490
Primeira epístola de Erasto aos espíritas de Bordeaux 501
Banquete Oferecido a Allan Kardec pelos Espíritas Bordeleses:
Discurso e brinde do Sr. Lacoste 506
Brinde do Sr. Sabò 508
Discurso do Sr. Desqueyroux 509
Discurso e brinde do Sr. Allan Kardec 511
Poesias do Momento, Ditadas pelo Sr. Dombre:
Os camponeses e o carvalho 514
O ouriço, o coelho e a pega 516
Bibliografia:
O Livro dos Médiuns, 2
aedição 517
O Fluido Universal 519
Efeitos da Prece 520
O Espiritismo na América 521
DEZEMBRO
Aviso 527
Novas Obras do Sr. Allan Kardec a Serem Publicadas Brevemente 528
Organização do Espiritismo 528
Necrologia – Morte do Sr. Jobard, de Bruxelas 547
Auto-de-fé de Barcelona 550
A Toutinegra, o Pombo e o Peixinho – Fábula 554
O Sobrenatural 556
Meditações Filosóficas e Religiosas 562
Nota Explicativa 567
Revista Espírita
Jornal de Estudos Psicológicos
ANO IV JANEIRO DE 1861 N
o1
Boletim
DA SOCIEDADE PARISIENSE DE ESTUDOS ESPÍRITAS (Resumo das Atas)
Sexta-feira, 16 de novembro de 1860 – Sessão particular
Admissão de dois novos membros.
Comunicações diversas:
1
oLeitura de várias dissertações recebidas fora das sessões.
2
oCarta do Sr. de Porry, de Marselha, presenteando a Sociedade com a segunda edição de seu poema intitulado Urânia.
A Sociedade agradece ao autor por lhe haver permitido apreciar o seu talento e sente-se feliz por vê-lo aplicar-se às idéias espíritas.
Revestindo a forma graciosa da poesia, essas idéias têm um charme
que as tornam mais facilmente aceitáveis por aqueles a quem
poderia melindrar a severidade da forma dogmática.
3
oCarta do Sr. L..., fornecendo novos detalhes sobre o Espírito batedor e obsessor, do qual a Sociedade já se ocupou. (Ver o relato mais adiante).
4
oCarta das senhoras G..., do Departamento do Indre, sobre as brincadeiras de mau gosto e as depredações de que são vítimas há vários anos, e que atribuem a um Espírito malévolo.
Trata-se de seis irmãs; malgrado todas as precauções que tomam, suas roupas são tiradas das gavetas dos móveis, mesmo fechadas a chave, e muitas vezes são cortadas em pedaços.
5
oO Sr. Th... relata um caso de obsessão violenta, exercida sobre o médium por um Espírito mau, ao qual aquele conseguiu dominar e expulsar. Dirigindo-se ao Sr. Th..., esse Espírito escreveu: Odeio-te, pois que me dominas. Desde então, não mais apareceu e o médium deixou de ser importunado no exercício de sua faculdade.
6
oO Sr. Allan Kardec cita um caso pessoal de indicação dada pelos Espíritos, notável por sua precisão. Numa conversa que ele teve na véspera com o seu Espírito familiar, disse-lhe este:
“Encontrarás no Siècle de hoje um longo artigo sobre este assunto e que responde à tua pergunta; fomos nós que inspiramos o autor e o trabalho que ele expõe, o qual está relacionado com as grandes reformas humanitárias que se preparam. Esse artigo, de que nem o Sr. Kardec nem o médium tinham conhecimento, realmente se encontra no jornal indicado, sob o título designado, provando que os Espíritos podem estar a par das publicações do mundo material.
TRABALHO DA SESSÃO. Ensino espontâneo. Comu- nicação assinada por Cazotte, recebida pelo Sr. A. Didier. – Outra, contendo as lamúrias de um Espírito sofredor e egoísta, recebida pela Sra. Costel.
Evocações. Segunda conversa com o Espírito
gastrônomo, que tomou o nome de Baltazar, e que alguém julgou
reconhecer como sendo o do Sr. G... de la R..., o que foi confirmado pelo Espírito.
Perguntas diversas. Perguntas dirigidas a São Luís sobre o Espírito batedor, ao qual se refere a carta do Sr. L..., assim como sobre o Espírito depredador das senhoras G... A propósito deste último, ele diz que será mais fácil vencer a sua resistência, considerando-se que é mais brincalhão do que mau.
Sexta-feira, 23 de novembro de 1860 – Sessão geral
Comunicações diversas. Leitura de várias dissertações obtidas fora da sessão: Entrada de um culpado no mundo dos Espíritos, assinada por Novel e recebida pela Sra. Costel. – O castigo do egoísta, pela mesma senhora. Esta comunicação dá seqüência a outra do mesmo Espírito, obtida na sessão anterior. – Outra sobre o livre-arbítrio, assinada por Marcillac. – Reflexões do Espírito de Verdade sobre as comunicações relativas ao castigo do egoísta, recebidas pelo Sr. C...
TRABALHOS DA SESSÃO. Ensino Espontâneo. 1
oO duende familiar, assinado por Charles Nodier e recebido pela Sra.
Costel. – 2
oParábola de Lázaro, assinada por Lamennais e recebida pelo Sr. A. Didier. – 3
oO Espírito Alfred de Musset apresenta-se pela Srta. Eugénie; coloca-se à disposição para tratar de um assunto à escolha da assembléia; deixada a escolha ao seu critério, faz notável dissertação sobre as consolações do Espiritismo. Quanto à oferta feita para responder a perguntas, trata dos seguintes temas:
Qual a influência da poesia sobre o Espiritismo? – Haverá uma arte espírita, como houve uma arte pagã e uma arte cristã? – Qual a influência da mulher no século XIX?
Evocações. Evocação de Cazotte, que se manifestara
espontaneamente na última sessão. Foram-lhe feitas várias
perguntas sobre o dom de previsão que em vida parecia possuir.
Questões e problemas diversos. – Sobre a ubiqüidade dos Espíritos nas manifestações visuais. – Sobre os Espíritos das trevas, a propósito das manifestações do Sr. Squire, que só se produzem na obscuridade.
Nota – Trataremos dessa questão em artigo especial, falando do Sr. Squire.
O Sr. Jobard lê três encantadoras poesias de sua lavra:
A felicidade dos mártires, A ave do paraíso e A anexação, esta última uma fábula.
Sexta-feira, 30 de novembro de 1860 – Sessão particular
Assuntos administrativos. Carta coletiva assinada por vários membros, a respeito da proposta do Sr. L... As conclusões admitidas pela comissão foram aceitas pela Sociedade.
Carta do Sr. Sol..., rogando à Sociedade aceitar a sua demissão de membro da comissão, por motivo das viagens que o afastam de Paris durante a maior parte do ano. – A Sociedade exprime seu pesar pela decisão do Sr. Sol... e espera poder mantê-lo no número de seus sócios. O Sr. presidente fica encarregado de responder nesse sentido. Será providenciada a sua substituição na comissão.
Comunicações diversas:
1
oDitado espontâneo, contendo novas explicações sobre a ubiqüidade, assinado por São Luís. Discussão a respeito dessa comunicação.
2
oOutra assinada por Charles Nodier, recebida por um
médium estranho à Sociedade e transmitida pelo Sr. Didier, pai, a
propósito do artigo do Journal des Débats contra o Espiritismo.
3
oO Sr. D..., do Departamento de Vienne, roga insistentemente seja evocado o Sr. Jean-Baptiste D..., seu sogro. A Sociedade jamais se presta a esses tipos de solicitações, quando encerram apenas um interesse privado, sobretudo na ausência das pessoas interessadas e quando estas não são conhecidas diretamente. Entretanto, tendo em vista o caráter honrado e a posição oficial do correspondente, as circunstâncias particulares apresentadas pelo defunto e o ateísmo que este último professou durante toda a vida, pensa a Sociedade que tal evocação pode oferecer um proveitoso assunto de estudos. Em conseqüência, o põe na ordem do dia.
4
oVários membros relatam um interessante fenômeno de manifestação física de que foram testemunhas. Consiste no levantamento de uma pessoa pela influência mediúnica de duas jovens de 15 e 16 anos que, colocando dois dedos nas travessas da cadeira, a elevam um metro, aproximadamente, seja qual for o seu peso, do mesmo modo que o fariam com o mais leve dos corpos.
Esse fenômeno foi repetido várias vezes, sempre com a mesma facilidade. (Dar-lhe-emos a explicação em artigo especial).
5
oO Sr. Jobard lê um artigo de sua autoria, intitulado A conversão de um campônio.
TRABALHOS DA SESSÃO. Ensino espontâneo.
Dissertação sobre a ubiqüidade, assinado por Channing e recebido pela Srta. Huet. – Outra sobre o artigo do Journal des Débats, assinada por André Chénier e recebida pelo Sr. A. Didier. – Outra assinada por Rachel e recebida pela Sra. Costel.
Um fato digno de nota, lembrado a propósito das duas
primeiras comunicações, é que, quando um assunto de certa
importância se encontra na ordem do dia, é muito comum vê-lo
tratado por vários Espíritos, através de médiuns e lugares
diferentes. Parece que, interessando-se pela questão, cada um deseja
contribuir para o ensino que resultará de tais comunicações.
Evocações:
1
oJean-Baptiste D..., referida acima, e de seu irmão, ambos materialistas e ateus. A situação do primeiro, que se suicidou, é deveras lamentável.
2
oEvocação do Sr. C. de B..., de Bruxelas, a pedido do Sr. Jobard, que o conhecera pessoalmente.
Sexta-feira, 7 de dezembro de 1860 – Sessão particular
Admissão do Sr. C..., professor em Paris, como sócio livre.
Comunicações diversas. Leitura de uma dissertação assinada pelo Espírito de Verdade, recebida em sessão particular, em casa do Sr. Allan Kardec, a propósito da definição de arte, bem como da distinção entre a arte pagã, a arte cristã e a arte espírita.
O Sr. Theub... completa essa definição dizendo que se pode considerar a arte pagã como sendo a expressão do sentimento material; a arte cristã, expressão da expiação e a arte espírita, expressão do triunfo.
TRABALHOS DA SESSÃO. Ensino espírita espontâneo.
Dissertação assinada por Lamennais, recebida pelo Sr. A. Didier. – Outra assinada por Charles Nodier, recebida pela Srta. Huet.
Continua o assunto iniciado a 24 de agosto de 1860, embora ninguém lhe tivesse guardado a lembrança e o pudesse recordar. – Outra, assinada por Georges e recebida pela Sra. Costel.
Evocação do Dr. Kane, viajante americano e explorador do pólo norte, o qual descobriu um mar livre além do círculo dos gelos polares. Apreciação muito justa da parte do Espírito sobre os resultados dessa descoberta.
Questões diversas. Perguntas dirigidas a Charles Nodier
sobre as causas que podem influir na natureza das comunicações
em certas sessões, notadamente nesse dia, em que os Espíritos não tiveram a sua eloqüência habitual. Discussão a respeito desse ponto.
Sexta-feira, 14 de dezembro de 1860 – Sessão geral
O Sr. Indermuhle, de Berna, presenteia a Sociedade com uma brochura alemã publicada em Glaris, em 1855, intitulada:
A eternidade já não é segredo ou As mais evidentes revelações sobre o mundo dos Espíritos.
Comunicações diversas:
1
oLeitura de uma evocação muito interessante e de várias dissertações espíritas obtidas fora das sessões.
2
oFato de manifestação visual relatado pelo Sr.
Indermuhle na carta que dirigiu à Sociedade.
3
oFato pessoal ocorrido com o Sr. Allan Kardec, e que pode ser considerado como uma prova de identidade do Espírito de antigo personagem. A Srta. J... recebeu várias comunicações de João Evangelista, sempre com uma escrita muito característica e completamente diferente da sua caligrafia habitual. Tendo o Sr.
Allan Kardec, a pedido seu, evocado aquele Espírito por intermédio da Sra. Costel, constatou-se que a escrita tinha exatamente o mesmo caráter da da Srta. J..., embora a nova médium desconhecesse o fato; além disso, o movimento da mão tinha uma delicadeza fora do comum, o que constituía, ainda, uma similitude;
enfim, as respostas concordavam em todos os pontos com as que tinham sido dadas através da Srta. J..., e nada havia na linguagem que não estivesse à altura do Espírito evocado.
4
oNotícia remetida pelo Sr. D... sobre um caso notável
de visão e de revelação, ocorrido com um agricultor poucos dias
antes de sua morte.
TRABALHOS DA SESSÃO – Comunicações espíritas espontâneas. Os três tipos: Hamlet, Tartufe e Don Juan, assinada por Gerard de Nerval e recebida pelo Sr. A. Didier. – Fantasia, assinada por Alfred de Musset e recebida pela Sra. Costel. – O julgamento, assinada por Leão X e recebida pela Srta. Eugénie.
Evocação do agricultor, do qual falamos pouco acima.
Ele dá algumas explicações sobre suas visões. Notável particularidade é a ausência absoluta de ortografia e uma linguagem completamente semelhante à da gente do campo.
Questões diversas dirigidas a São Luís sobre os fatos relacionados com a evocação tratada acima.
O Livro dos Médiuns
Anunciada há muito tempo, mas com a publicação retardada em virtude de sua própria importância, esta obra aparecerá entre os dias 5 e 10 de janeiro, na livraria do Sr. Didier, nosso editor, localizada no Quai des Augustins, 35
1. Representa o complemento de O Livro dos Espíritos e encerra a parte experimental do Espiritismo, assim como este último contém a parte filosófica.
Fruto de longa experiência e de laboriosos estudos, nesse trabalho procuramos esclarecer todas as questões que se ligam à prática das manifestações. De acordo com os Espíritos, contém a explicação teórica dos diversos fenômenos, bem como das condições em que os mesmos se podem reproduzir. Não obstante, sobretudo a matéria relativa ao desenvolvimento e ao exercício da mediunidade mereceu de nossa parte uma atenção toda especial.
1 Ela é igualmente encontrada nos escritórios da Revista Espírita, Rua Sainte-Anne, 59, passagem Sainte-Anne. Um grande volume in-18, de 500 páginas; Paris, 3 fr. 50; pelo Correio, 4 fr.
O Espiritismo experimental é cercado de muito mais dificuldades do que geralmente se pensa, e os escolhos aí encontrados são numerosos. É isso que ocasiona tantas decepções aos que dele se ocupam, sem a experiência e os conhecimentos necessários. Nosso objetivo foi o de prevenir contra esses escolhos, que nem sempre deixam de apresentar inconvenientes para quem se aventure sem prudência por esse terreno novo. Não podíamos negligenciar um ponto tão capital, e o tratamos com o cuidado que a sua importância reclama.
Os inconvenientes quase sempre se originam da leviandade com que é tratado problema tão sério. Sejam quais forem, os Espíritos são as almas dos que viveram, no meio das quais estaremos infalivelmente, de um momento para outro. Todas as manifestações espíritas, inteligentes ou não, têm, pois, por objeto, pôr-nos em contato com essas mesmas almas; se respeitamos os seus restos mortais, com mais forte razão devemos respeitar o ser inteligente que sobrevive e que constitui a sua verdadeira individualidade. Fazer das manifestações uma brincadeira é faltar com o respeito que talvez amanhã reclamaremos para nós mesmos, e que jamais é violado impunemente.
O primeiro momento de curiosidade causado por esses
estranhos fenômenos já passou. Hoje, que se lhes conhece a fonte,
guardemo-nos de profaná-la com brincadeiras descabidas e nos
esforcemos por nela haurir o ensinamento apropriado que nos
assegurará a felicidade futura. O campo é muito vasto e o objetivo
por demais importante para cativar toda a nossa atenção. Até hoje,
todos os nossos esforços tenderam para fazer o Espiritismo entrar
neste caminho sério. Se esta nova obra, tornando-o ainda mais bem
conhecido, puder contribuir para impedir que o desviem de sua
destinação providencial, estaremos amplamente recompensados de
nossos cuidados e de nossas vigílias.
Não negamos que esse trabalho suscitará mais de uma crítica da parte daqueles a quem incomoda a severidade dos princípios, bem como dos que, vendo as coisas de um outro ponto de vista, já nos acusam de querer fazer escola no Espiritismo. Se fazer escola é procurar nesta ciência um fim útil e proveitoso para a Humanidade, teríamos o direito de nos sentir envaidecidos com essa acusação. Mas uma tal escola não necessita de outro chefe que não seja o bom-senso das massas e a sabedoria dos Espíritos bons, que a teriam criado sem a nossa participação. Eis por que declinamos da honra de a ter fundado, felizes de nos colocarmos sob a sua bandeira, não aspirando senão o modesto título de propagador. Se for necessário um nome, inscreveremos em seu frontispício: Escola de Espiritismo Moral e Filosófico, e para ela convidaremos todos quantos têm necessidade de esperanças e de consolações.
Allan Kardec
A “Bibliografia Católica” Contra o Espiritismo
Até este momento o Espiritismo não havia sido atacado seriamente. Quando certos escritores da imprensa periódica, em seus momentos de lazer, se dignaram ocupar-se dele, foi apenas para o ridicularizar. Trata-se de encher um rodapé, de fornecer um artigo a tanto por linha, não importa sobre que assunto, desde que a contagem dê certo. De que matéria tratar?
Tratarei de tal coisa? pergunta a si mesmo o redator encarregado da
parte recreativa do jornal. Não; é muito séria. E daquela outra? É
assunto por demais repetido. Inventarei uma autêntica aventura da
alta sociedade, ou da gente do povo? Nada me vem à mente neste
quarto de hora e a crônica escandalosa da semana ainda está por
fazer. Ah! tive uma idéia! Achei o meu assunto! Vi em algum lugar
o título de um livro que fala de Espíritos; e há em toda parte gente bastante tola para levar isto a sério. Que são os Espíritos? Nada sei sobre o assunto, mas pouco me importa! Deve ser divertido. Para falar a verdade, eu não acredito absolutamente em Espíritos, porque jamais os vi e mesmo que visse também não acreditaria, porque isso é impossível. Assim, nenhum homem de bom-senso pode crer neles. Ou isto é lógico, ou não me conheço. Falemos, pois, dos Espíritos, uma vez que estão na ordem do dia. Tanto esse assunto, como qualquer outro, divertirá nossos caros leitores. O tema é muito simples: “Não há Espíritos; não pode nem deve havê-los.
Assim, todos que neles crêem são loucos. Mãos à obra e fantasiemos a coisa. Ó meu bom gênio! eu te agradeço por esta inspiração! Tu me tiras de um grande embaraço, pois nada há a dizer e preciso de meu artigo para amanhã, e dele não fazia a menor idéia”.
Mas eis um homem sério que diz: É um erro brincar com essas coisas; isto é mais sério do que se pensa; não acrediteis que se trate de moda passageira: essa crença é inerente à fraqueza da Humanidade, que em todas as épocas acreditou no maravilhoso, no sobrenatural, no fantástico. Quem imaginaria que em pleno século XIX, num século de luzes e de progresso, depois que Voltaire demonstrou tão bem que só o nada nos espera, depois de tantos sábios que procuraram a alma e não a encontraram, ainda se possa acreditar em Espíritos, em mesas girantes, em feiticeiros, em magos, no poder de Merlin o encantador, na varinha mágica, na Senhorita Lenormand? Ó Humanidade! Humanidade! aonde irás se eu não vier em teu auxílio para tirar-te do lamaçal da superstição?
Quiseram matar os Espíritos pelo ridículo, e não o conseguiram;
longe disso, o mal contagioso faz incessantes progressos; a
zombaria parece fazer-lhe recrudescer e, se não for posto um freio,
em breve a Humanidade inteira estará infestada. Considerando-se
que esse meio, habitualmente tão eficaz, tornou-se impotente, é
tempo que os sábios interfiram, a fim de acabar com isso de uma
vez por todas. As zombarias não são argumentos; falemos em
nome da Ciência; demonstremos que em todas as épocas os homens foram imbecis por acreditarem que houvesse um poder superior ao deles; que não tivessem em si mesmos todo o poder sobre a Natureza. Provemos-lhes que tudo quanto atribuem às forças sobrenaturais se explica por simples leis da fisiologia; que a sobrevivência da alma e o seu poder de comunicar-se com os vivos é uma quimera, e que é loucura acreditar no futuro. Se, depois de ter digerido quatro volumes de boas razões, eles não se convenceram, não nos restará senão lamentar a sorte da Humanidade que, em vez de progredir, retrograda a largos passos para a barbárie da Idade Média e corre para a sua perda.
Que o Sr. Figuier possa revelar suas verdadeiras intenções, porquanto seu livro, tão pomposamente anunciado, tão elogiado pelos campeões do materialismo, produziu um resultado diametralmente oposto ao que esperava.
Mas eis que surge um novo campeão, que pretende esmagar o Espiritismo por outro meio: trata-se do Sr. Georges Gandy, redator da Bibliographie Catholique, atirando-se num corpo- a-corpo em nome da religião ameaçada. E vejam só! a religião ameaçada por aquilo a que chamais de utopia! Tendes, pois, bem pouca fé em sua força; acreditais, assim, na sua vulnerabilidade, desde que temeis que as idéias de alguns sonhadores possam abalar os seus fundamentos; assim, considerais esse inimigo deveras temível, para o atacar com tanta raiva e furor. Obtereis resultado melhor que os outros? Duvidamo-lo, já que a cólera é má conselheira. Se conseguirdes amedrontar algumas almas timoratas, não receais acender a curiosidade num maior número de outras?
Julgai-o pelo fato seguinte. Numa cidade que conta com certo
número de espíritas e com alguns grupos íntimos que se ocupam
das manifestações, um pregador fez certo dia um sermão virulento
contra o que chamava a obra do demônio, pretendendo que só este
vinha falar nessas reuniões satânicas, cujos membros estavam todos
notoriamente votados à danação eterna. Que aconteceu? Desde o
dia seguinte bom número de ouvintes se pôs em busca das reuniões espíritas, pedindo para ouvir os diabos falarem, curiosos de saber o que lhes diriam; porque tanto se tem falado que a gente se familiarizou com um nome que já não incute medo. Ora, nessas reuniões eles viram pessoas sérias, honradas, instruídas, orando a Deus, coisa que não faziam desde a primeira comunhão; pessoas que acreditavam em sua alma, em sua imortalidade, nas penas e recompensas futuras, trabalhando para se tornarem melhores, esforçando-se por praticar a moral do Cristo, não falando mal de ninguém, nem mesmo dos que lhes lançavam anátemas. Então aquelas criaturas compreenderam que se o diabo ensinava tais coisas é que se havia convertido. Quando os viram tratar respeitosa e piamente com os seus parentes e amigos mortos, que lhes prodigalizava consolação e sábios conselhos, não puderam admitir que tais reuniões fossem sucursais do sabbat, considerando-se que não viam caldeiras, nem vassouras, nem corujas, nem gatos pretos, nem crocodilos, nem livros de magia, nem trípode, nem varinhas mágicas ou quaisquer outras acessórios de feitiçaria, nem mesmo a velha de queixo e nariz aduncos. Também quiseram conversar, um com sua mãe, outro com o filho querido, parecendo-lhes difícil, ao reconhecê-los, que essa mãe e esse filho fossem demônios. Felizes por terem a prova de sua existência e a certeza de se reencontrarem num mundo melhor, perguntaram-se com que objetivo haviam querido amedrontá-los, suscitando-lhes reflexões que jamais tinham imaginado. O resultado é que gostaram mais de ir ali onde encontravam consolações, do que aos locais em que eram amedrontados.
Como vimos, esse pregador enveredou por caminho errado, sendo o caso de se dizer: Mais vale um inimigo que um amigo incompetente. O Sr. Georges Gandy espera ser mais feliz?
Nós o citamos textualmente, para edificação dos nossos leitores:
“Em todas as épocas das grandes provas da Igreja e de
seus próximos triunfos houve contra ela conspirações infernais, nas
quais a ação dos demônios era visível e tangível. Jamais a teurgia e a magia tiveram mais voga no seio do paganismo e da filosofia, do que no momento em que o Cristianismo se espalhava no mundo, para o subjugar. No século XVI, Lutero teve colóquios com Satã, e um redobramento de feitiçarias, de comunicações diabólicas se fez notar na Europa, enquanto na Igreja se operava a grande reforma católica que iria triplicar suas forças, quando um novo mundo lhe abria destinos gloriosos sobre um espaço imenso. No século XVIII, na véspera do dia em que o machado dos carrascos deveria retemperar a Igreja no sangue de novos mártires, a demonolatria florescia no cemitério de Saint-Médard, ao redor das tinas de Mesmer e dos espelhos de Cagliostro. Hoje, na grande luta do catolicismo contra todas as potências do inferno, a conspiração de Satã veio visivelmente em auxílio do filosofismo; o inferno quis dar, em nome do naturalismo, uma consagração à obra de violência e de astúcia que continua promovendo já há quatro séculos e que se apresta para coroar com uma suprema impostura. Aí reside todo o segredo da pretensa doutrina espírita, amontoado de absurdos, de contradições, de hipocrisia e de blasfêmias, como veremos a seguir, e que tenta, como a última das perfídias, glorificar o Cristianismo para o aviltar, espalhá-lo para o suprimir, afetando respeito pelo divino Salvador, a fim de arrancar na Terra tudo que Ele fecundou com seu sangue e substituir o seu reino imortal pelo despotismo dos ímpios devaneios.
“Abordando o exame dessas estranhas pretensões, que
julgamos ainda não suficientemente desvendadas e condenadas,
pedimos aos nossos leitores a gentileza de acompanharem nossa
caminhada, um tanto longa, nessa encruzilhada diabólica, de onde
a seita espera sair vitoriosa depois de haver abolido para sempre o
nome divino, ante o qual a vemos dobrar os joelhos. A despeito de
seus ridículos, de suas profanações revoltantes, de suas
contradições sem fim, o Espiritismo constitui para nós precioso
ensinamento. Jamais as loucuras do inferno haviam rendido à nossa
santa religião mais deslumbrante homenagem. Jamais o havia Deus
condenado com mais soberano poder, a confirmar-se pelo testemunho destas palavras do divino Mestre: Vos ex patre diabolo estis”.
Este começo permite julgar a amenidade do resto. Os nossos leitores que quiserem edificar-se nessa fonte de caridade evangélica poderão permitir-se o prazer de ler a Bibliographie Catholique, n
o3, de setembro de 1860, Rua de Sèvres, n
o31. Ainda uma vez, por que tanta cólera, tanto fel contra uma doutrina que, como dizem, se é obra de Satã, não poderá prevalecer contra a obra de Deus, a menos que se suponha seja Deus menos poderoso que Satã, o que seria um tanto ímpio? Duvidamos muito que essa irrupção de injúrias, essa febre, essa profusão de epítetos de que o Cristo jamais se serviu contra os seus maiores inimigos, sobre os quais clamava a misericórdia de Deus e não a sua vingança, ao dizer: “Perdoai-lhes, Senhor, pois não sabem o que fazem”;
duvidamos – insistimos – que uma tal linguagem seja persuasiva. A verdade é calma e não necessita de exaltação; e, com tal raiva, faríeis crer na vossa própria fraqueza. Confessamos não compreender bem esta singular política de Satã, que glorifica o Cristianismo para o aviltar, que o espalha para o suprimir. Em nossa opinião isto revelaria muita falta de habilidade e se assemelharia a um hortelão que, não querendo batatas, as semeasse em profusão em seu horto, a fim de lhes destruir a espécie. Quando acusamos os outros de pecar por falta de raciocínio, devemos, para ser lógicos, começar por nós mesmos.
Não sabemos muito bem por que o Sr. Georges Gandy acusa mortalmente o Espiritismo por se apoiar no Evangelho e no Cristianismo. Que diria então se se apoiasse em Maomé?
Certamente muito menos, porquanto é fato digno de nota que o
Islamismo, o Judaísmo, o próprio Budismo são objeto de ataques
menos virulentos que as seitas dissidentes do Cristianismo. Com
certa gente, é preciso ser tudo ou nada. Há, sobretudo, um ponto
que o Sr. Gandy não perdoa ao Espiritismo: é o de não haver
proclamado esta máxima absoluta: “Fora da Igreja não há salvação”, e admitir que aquele que faz o bem possa ser salvo das chamas eternas, seja qual for a sua crença. Evidentemente, uma tal doutrina só poderia sair do inferno. Mas ele se trai principalmente nesta passagem:
“Que quer o Espiritismo? É uma importação americana, inicialmente protestante, e que já havia triunfado – permitam-nos dizê-lo – sobre todas as plagas da idolatria e da heresia; tais são os seus títulos em relação ao mundo. Seria, pois, das terras clássicas da superstição e das loucuras religiosas que nos viriam a verdade e a sabedoria!”
Eis aqui, por certo, uma grande ofensa. Se ele houvesse nascido em Roma seria a voz de Deus; como, porém, nasceu num país protestante, é a voz do diabo. Mas o que direis quando tivermos provado, o que faremos um dia, que ele estava na Roma cristã muito antes de estar na América protestante? Que respondereis ao fato, hoje constatado, de que há mais espíritas católicos do que espíritas protestantes?
O número das pessoas que em nada crêem, que de tudo
duvidam, do próprio Deus, é considerável e cresce numa
proporção assustadora. Será por vossas violências, vossos
anátemas, vossas ameaças do inferno, vossas declamações
furibundas que as reconduzireis? Não, porque são as vossas
próprias violências que as afastam. Serão culpados por haverem
levado a sério a caridade, a mansuetude do Cristo e a bondade
infinita de Deus? Ora, quando elas ouvem os que pretendem falar
em seu nome, proferindo ameaças e injúrias, põem-se a duvidar do
Cristo, de Deus, de tudo, enfim. O Espiritismo as faz compreender
palavras de paz e de esperança e, como lhes pesa a dúvida e sentem
necessidade de consolações, atiram-se aos braços do Espiritismo,
porque preferem aquilo que sorri às coisas que apavoram. Então
crêem em Deus, na missão do Cristo e na sua divina moral. Numa
palavra, de incrédulos e indiferentes, tornam-se crentes. Foi isto que ultimamente levou um padre respeitável a responder a uma de suas penitentes que o consultava sobre o Espiritismo: “Nada acontece sem a permissão de Deus; ora, Deus permite essas coisas para reavivar a fé que se extingue”. Se houvera empregado outra linguagem, talvez a tivesse afastado para sempre. Quereis a todo custo que o Espiritismo seja uma seita, quando ele não aspira senão ao título de ciência moral e filosófica, respeitando todas as crenças sinceras. Por que, então, dar uma idéia de separação àqueles que não pensam nisso? Se repelirdes os que ele reconduz à crença em Deus, se só lhes derdes o inferno como perspectiva, sereis responsáveis por uma cisão que vós mesmos tereis provocado.
São Luís nos dizia um dia: “Zombaram das mesas girantes; jamais zombarão da filosofia, da sabedoria e da caridade que brilham nas comunicações sérias”. Enganou-se, porque não contou com o Sr. Georges Gandy. Muitas vezes os escritores se divertiram à custa dos Espíritos e de suas manifestações, sem pensar que um dia eles mesmos poderiam ser alvo das piadas de seus sucessores; porém, sempre respeitaram a parte moral da ciência. No entanto, foi reservado a um escritor católico, o que lamentamos sinceramente, expor ao ridículo as máximas admitidas pelo mais elementar bom-senso. Cita grande número de passagens de O Livro dos Espíritos; não aludiremos senão a algumas delas, que darão uma idéia perfeita de sua apreciação. – “Deus prefere os que o adoram do fundo do coração aos que o adoram exteriormente”.
O texto de O Livro dos Espíritos diz: “Deus prefere os que o adoram do fundo do coração, com sinceridade, fazendo o bem e evitando o mal, aos que julgam honrá-lo com cerimônias que não os tornam melhores para com os seus semelhantes”
2; O Sr. Gandy admite o inverso; mas, como homem de boa-fé, deveria ter citado a passagem textualmente, em vez de truncá-la de maneira a lhe desnaturar o sentido.
2 N. do T.: O Livro dos Espíritos, questão 654.
– “Toda destruição de animais que excede os limites das necessidades é uma violação da lei de Deus”
3; o que quer dizer que o princípio moral que rege os prazeres se aplica igualmente ao exercício da caça e da matança.
Precisamente; mas parece que o Sr. Gandy é caçador e pensa que Deus fez a caça, não para alimento do homem, mas para lhe proporcionar o prazer de, sem necessidade, promover a matança de animais inofensivos.
– “Os prazeres têm limites traçados pela Natureza: o limite do necessário; pelos excessos, chegamos à saciedade”. É a moral do virtuoso Horácio, um dos pais do Espiritismo.
Visto que o autor critica esta máxima, parece não admitir limites aos prazeres, o que não é muito religioso.
– “Para ser legítima, a propriedade deve ser adquirida sem prejuízo da lei de amor e de justiça; assim, aquele que possuir, sem preencher os deveres de caridade que ordena a consciência ou a razão individual, é um usurpador do bem alheio; espiriticamente estamos em pleno socialismo.”
O texto diz assim: “Só é legítima a propriedade adquirida sem prejuízo de outrem. A lei de amor e de justiça proíbe fazer a outrem o que não gostaríamos que nos fosse feito; condena, por isso mesmo, todo meio de aquisição que lhe seja contrário”. Lá não se encontra: que ordena a razão individual; é uma pérfida adição.
Não julgamos que se possa, em sã consciência, possuir à custa de justiça; o Sr. Gandy deveria dizer-nos em que casos a espoliação é legítima. Felizmente, os tribunais não são de sua opinião.
– “A indulgência aguarda, fora desta vida, o suicida que se vê a braços com a necessidade, que quis impedir caísse a vergonha sobre os seus filhos, ou sobre a sua família. Aliás, São
3 N. do T.:O Livro dos Espíritos, questão 735.
Luís, de cujas funções espíritas falaremos em breve, se digna revelar-nos que há escusas para os suicídios por amor. Quanto às penas do suicida, elas não são determinadas; o que é certo é que ele não escapa ao desapontamento; em outras palavras, é pego na armadilha, como se diz vulgarmente neste mundo”.
Esta passagem está inteiramente desnaturada pelas exigências da crítica do Sr. Gandy; seria preciso mencionar sete páginas para restabelecer o seu texto. Com tal sistema seria fácil tornar ridículas as mais belas páginas dos nossos melhores escritores. Parece que o Sr. Gandy não admite gradação nem nas faltas, nem nas penalidades de além-túmulo. Acreditamos num Deus mais justo e desejamos que o Sr. Gandy jamais tenha que reclamar em seu favor o benefício das circunstâncias atenuantes.
– “A pena de morte e a escravidão foram, são e serão contrárias à lei da Natureza. O homem e a mulher, sendo iguais perante Deus, devem ser iguais perante os homens”. Terá sido a alma errante de algum saint-simonista
4apavorado, à procura da mulher livre, que presenteou essa maliciosa revelação ao Espiritismo?”
Assim a pena de morte, a escravidão e a submissão da mulher, que a civilização tende a abolir, são instituições que o Espiritismo não tem direito de condenar. Ó tempos felizes da Idade Média, por que passastes sem retorno? Onde estais, fogueiras, que nos teríeis livrado dos Espíritos?
Citemos uma última passagem, das mais benignas:
“O Espiritismo não pode negar uma tal salada de contradições, de absurdos e de loucuras, que não pertencem a nenhuma filosofia, nem a nenhuma língua. Se Deus permite essas manifestações ímpias, é que deixa aos demônios, conforme ensina a Igreja, o poder de enganar os que os chamam, violando a sua lei.”
4 N. do T.: Grifos Nossos.
Então o demônio é bonzinho, porque, sem o querer, nos faz amar a Deus.
“Quanto à verdade, a Igreja no-la dá a conhecer; ela nos diz, com os Livros Sagrados, que o anjo das trevas se transforma em anjo da luz, e que seria necessário recusar até mesmo o testemunho de um arcanjo, caso fosse contrário à doutrina do Cristo, de cuja infalível autoridade é depositária; aliás ela tem meios seguros e evidentes para distinguir as seduções diabólicas das manifestações divinas.”
De fato é uma grande verdade que se deveria recusar até mesmo o testemunho de um arcanjo, caso fosse contrário à doutrina do Cristo. Ora, que diz essa doutrina, que o Cristo pregou pela palavra e pelo exemplo?
“Bem-aventurados os que são misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.
“Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus”.
“Aquele que se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo; quem disser a seu irmão: Raca, será condenado pelo conselho; e qualquer que lhe disser: Louco, será condenado ao fogo do inferno.”
“Amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos perseguem e caluniam, a fim de que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus, que faz se levante o sol sobre bons e maus, e chover sobre justos e injustos; porquanto, se não amardes senão os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem os publicanos o mesmo?”
“Sede, pois, perfeitos, como perfeito é o vosso Pai que
está nos céus”.
“Não façais aos outros o que não gostaríeis que eles vos fizessem”.
Sendo, pois, a caridade o princípio fundamental da doutrina do Cristo, concluímos que toda palavra e toda ação contrárias à caridade não podem ser, como dizeis com muita propriedade, senão inspiradas por Satã, ainda mesmo que este se revestisse da forma de um arcanjo. É por essa razão que diz o Espiritismo: Fora da caridade não há salvação.
Sobre o mesmo assunto, remetemos o leitor às nossas respostas ao jornal Univers, números de maio e julho de 1859, bem como à Gazette de Lyon, de outubro de 1860. Recomendamos igualmente aos nossos leitores, como refutação ao Sr. Gandy, a Lettre d’un catholique sur le Spiritisme, pelo Dr. Grand. Se o autor dessa brochura
1está condenado ao inferno, haverá muitos outros e ali veríamos – coisa estranha – os que pregam a caridade para todos, enquanto o Céu seria reservado àqueles que lançam anátemas e maldição. Estaríamos singularmente equivocados quanto ao sentido das palavras do Cristo.
A falta de espaço obriga-nos a deixar para o próximo número algumas palavras em resposta ao Sr. Deschanel, do Journal des Débats.
Carta Sobre a Incredulidade
(Primeira parte)
Um dos nossos colegas, o Sr. Canu, outrora muito imbuído dos princípios materialistas, e que o Espiritismo levou a uma apreciação mais sadia das coisas, acusava-se de ter-se feito propagandista de doutrinas que hoje considera subversivas da
5 Grand in-18, preço 1 fr.; pelo Correio: 1 fr. e 15 centavos. – No escritório da Revista Espíritae na Livraria Ledoyen, no Palais Royal.