UNIVERSIDADE POSITIVO WELLINGTON FERREIRA RIBAS
INFLUÊNCIA DO COMBUSTÍVEL (DIESEL E BIODIESEL) E DAS
CARACTERÍSTICAS DA FROTA DE VEÍCULOS DO TRANSPORTE COLETIVO DE CURITIBA NAS EMISSÕES DE NOx
CURITIBA
2014
WELLINGTON FERREIRA RIBAS
INFLUÊNCIA DO COMBUSTÍVEL (DIESEL E BIODIESEL) E DAS
CARACTERÍSTICAS DA FROTA DE VEÍCULOS DO TRANSPORTE COLETIVO DE CURITIBA NAS EMISSÕES DE NOx
Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Gestão Ambiental, do curso de Mestrado Profissional em Gestão Ambiental, Universidade Positivo.
Orientadora: Profª. Dra. Patrícia Bilotta
CURITIBA
2014
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Biblioteca da Universidade Positivo - Curitiba - PR
R482 Ribas, Wellington Ferreira.
Influência do combustível (diesel e biodiesel) e das características da frota de veículos do transporte coletivo de Curitiba nas emissões de Nox / Wellington Ferreira Ribas. ― Curitiba : Universidade Positivo, 2014.
83 f. : il.
Dissertação (mestrado) – Universidade Positivo, 2014.
Orientadora : Prof. Dr. Patricia Bilotta.
1. Diesel – Aspectos ambientais. 2. Biodiesel – Aspectos ambientais. 3. Transporte coletivo. 4. Gestão ambiental. Título.
CDU 504.06
TÍTULO: “INFLUÊNCIA DO COMBUSTÍVEL (DIESEL E BIODIESEL) E DAS CARACTERÍSTICAS DA FROTA DE VEÍCULOS DO TRANSPORTE COLETIVO DE CURITIBA NAS EMISSÕES DE NOx”.
ESTA DISSERTAÇÃO FOI JULGADA ADEQUADA COMO REQUISITO PARCIAL PARA OBTENÇÃO DO TÍTULO DE MESTRE EM GESTÃO AMBIENTAL (área de concentração: gestão ambiental) PELO PROGRAMA DE MESTRADO EM GESTÃO AMBIENTAL DA UNIVERSIDADE POSITIVO – UP. A DISSERTAÇÃO FOI APROVADA EM SUA FORMA FINAL EM SESSÃO PÚBLICA DE DEFESA NO DIA 27 DE FEVEREIRO DE 2014, PELA BANCA EXAMINADORA COMPOSTA PELOS SEGUINTES PROFESSORES:
Prof. Dr. Renato de Arruda Penteado Neto – Examinador Externo Prof. Dr. Marco Aurélio da Silva Carvalho Filho – Universidade Positivo Prof. Dr. Paulo Roberto Janissek – Universidade Positivo
Profª. Dra. Patrícia Bilotta (Orientadora) – Universidade Positivo
CURITIBA, PR ‒ BRASIL
PROF. MAURÍCIO DZIEDZIC
COORDENADOR DO PROGRAMA DE MESTRADO EM GESTÃO AMBIENTAL
DEDICATÓRIA
“À minha esposa Angela, aos meus
filhos Marion e Giovani, ao meu genro
Francisco, à minha nora Letícia e em
especial ao meu neto Fernando, pelo
apoio, compreensão e incentivo”.
AGRADECIMENTOS
A Deus que, sempre presente, iluminou meu caminho.
À minha orientadora Professora Patrícia Bilotta pelo incentivo nessa caminhada acadêmica e sobretudo pela paciência!
Aos professores da banca examinadora, Prof. Dr. Renato de Arruda Penteado Neto, Prof. Dr. Marco Aurélio da Silva Carvalho Filho e Prof. Dr. Paulo Roberto Janissek pelas sugestões e contribuições apresentadas ao trabalho.
A todos os professores do Mestrado que contribuíram para o crescimento do conhecimento.
Às empresas de transporte coletivo de Curitiba nas pessoas dos senhores Alderico Machado Dias Filho, Jeferson Agrodoviski, Lessandro Milani Zem, Sérgio Tarcísio Pereira e Moises Chevonika.
E aos amigos Prof. Marco Aurélio e Prof. Klaus pelas palavras de incentivo e pela amizade construída.
A todos muito obrigado!
RESUMO
O transporte coletivo da cidade de Curitiba é considerado modelo para o Brasil. Com uma frota operante de 1.930 ônibus, 29 deles atualmente usam biocombustíveis (B-100). Assim, o objetivo do trabalho é o estudo comparativo da emissão de NOx por veículos do transporte coletivo de Curitiba movidos a diesel e biodiesel considerando-se veículos de motorização semelhante e de idades diversas com uso de óleo diesel S-10 (B-5) e biodiesel B-100. A metodologia aplicada na realização deste trabalho foi desenvolvida em duas fases.
Inicialmente foi feita a medição de NO, NO
2e NOx no escapamento de veículos do transporte coletivo de Curitiba movidos a biodiesel e diesel. Posteriormente foi executada a análise e comparação da emissão de NO, NO
2e NOx de acordo com as condições da frota de veículos. Foram escolhidos os modelos que apresentam motor Volvo (B7R, B10M, B12M e B215RH) e utilizam combustível óleo diesel (S10 / B5) ou biodiesel (B100). A coleta de gases foi feita diretamente na saída do cano de descarga dos veículos em repouso. Observou-se um aumento de 37,14%
na emissão de NO com o uso de biodiesel, sendo o principal contribuinte para o aumento das emissões de NOx. As emissões de NOx provenientes da combustão de biodiesel foram aproximadamente 26% maior que as emissões resultantes da utilização do diesel. As emissões de gases (NOx) medidas para os motores B12M com até três anos de uso foram, em média, 40% menores que em um motor equivalente com dez anos de uso. A emissão de NOx também é elevada para veículos com idade superior a sete anos de uso. Conclui-se que os veículos movidos a biodiesel emitem quantidades maiores de NOx quando comparados com veículos de motorização e tempo de vida útil semelhantes.
Palavras-chave: Biodiesel. Diesel. NOx. Transporte Coletivo. Curitiba.
Abstract
The public transport in Curitiba is considered a model for Brazil. With an operating fleet of 1,930 vehicles, 29 of them currently use biofuels (B-100). The aim of the work is the comparative study of NOx emission by vehicles of public transport in Curitiba diesel and biodiesel vehicles considering similar powertrain and various ages with use of diesel S-10 (B-5) and B-100 biodiesel. The methodology applied in this work was developed in two phases. Initially the measurement of NO, NO
2and NOx in the exhaust of vehicles of public transport in Curitiba powered by biodiesel and diesel was taken. Later it was performed the analysis and comparison of the emission of NO, NO
2and NOx according to the conditions of the vehicle fleet. Models that feature Volvo engine (B7R, B10M, B12M and B215RH) and use diesel fuel (S10 / B5) or biodiesel (B100) were chosen. The gas collection was taken directly to the output of the exhaust pipe of the vehicle at rest. There was an increase of 37,14 % in the emission of NO with the use of biodiesel, with the main contributor to the increase in NOx emissions NOx emissions from the combustion of biodiesel were approximately 26% greater than the resulting emissions the use of diesel fuel. Exhaust emissions (NOx) measures for B12M engines with up to 3 years of use, on average, 40 % lower than in an equivalent engine with 10 years of use. The emission of NOx is too high for vehicles older than seven years of use. It is concluded that biodiesel powered vehicles emit larger amounts of NOx when compared to vehicle and powertrain similar life time.
Keywords: Biodiesel. Diesel. NOx. Mass Transportation. Curitiba.
LISTA DE SIGLAS
ANFAVEA Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores ANP Agência Nacional do Petróleo
ARLA Agente redutor líquido automotivo
ASTM American Society for Testing and Materials
CE Comunidade Europeia
CETESB Companhia Ambiental do Estado de São Paulo CONAMA Conselho Nacional do Meio Ambiente
EGR Exhaust Gas Recirculation GEE Gás de efeito estufa
INMETRO Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia IPPUC Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba MDA Ministério do Desenvolvimento Agrário
MMA Ministério do Meio Ambiente MME Ministério de Minas e Energia MP Material particulado
NMHC Hidrocarbonetos não metálicos NOX Óxidos de nitrogênio
PNPB Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel Proálcool Programa Nacional do Álcool
PRONCOVE Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores RIT Rede Integrada de Transporte
SCR Selective Catalityc Reduction
SITC Sistema Integrado de Transporte Coletivo SOx Óxidos de enxofre
tep Toneladas equivalentes de petróleo
URBS Companhia de Urbanização e Saneamento de Curitiba
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 Mecanismo de reação de obtenção de biodiesel 12
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 Emissão de NO e NO
2para emissões provenientes do uso de biodiesel e diesel.
45 Gráfico 2 Emissão de NOx para emissões provenientes do uso de biodiesel e
diesel.
46 Gráfico 3 Comparativo de emissões de NO para diferentes tipos de motores
(B7R, B10M, B12M e B215RH) com o uso de um mesmo combustível (diesel).
51
Gráfico 4 Emissão de NO para diferentes tipos de motores (B7R, B10M, B12M e B215RH) com o uso de um mesmo combustível (diesel).
52 Gráfico 5 Emissão de NO
2para diferentes tipos de motores (B7R, B10M, B12M
e B215RH) com o uso de um mesmo combustível (diesel).
52 Gráfico 6 Emissão de NO
2para diferentes tipos de motores (B7R, B10M, B12M
e B215RH) com o uso de um mesmo combustível (diesel) para veículos com diferente tempo de uso.
53
Gráfico 7 Emissão de NOx para diferentes tipos de motores (B10M e B12M) com o uso de um mesmo combustível (diesel).
54 Gráfico 8 Emissão de NOx para diferentes tipos de motores (B7R, B10M, B12M
e B215RH) com o uso de um mesmo combustível (diesel).
54
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 Principais poluentes atmosféricos e sua origem 7 Tabela 2 Produção Nacional de Biodiesel Puro – B100 14 Tabela 3 Resumo dos dados epidemiológicos relacionados à presença de
NOx atmosférico
18 Tabela 4 Limites de emissão de poluentes para veículos pesados na
Europa (Diretiva 98/69/CEE) (1998)
21 Tabela 5 Estratégia de implantação do PROCONVE para veículos pesados
(Fases “P”) 23
Tabela 6 Limites de emissão de poluentes para veículos pesados (norma PROCONVE)
24 Tabela 7 Especificações técnicas do aparelho Tempest 100 38
Tabela 8 Critérios analisados na pesquisa 40
Tabela 9 Caracterização da frota de veículos do transporte coletivo de Curitiba
43 Tabela 10 Emissão de NO, NO
2e NOx para emissões provenientes do uso
de biodiesel e diesel
45 Tabela 11 Resultado da medição das concentrações de NO, NO
2e cálculo
de NOx para os veículos movidos a diesel em diferentes configurações de motor
48
Tabela 12 Emissões provenientes de diferentes tipos de motores com o uso de um mesmo combustível (diesel)
50
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 Classificação das linhas de transporte de Curitiba 35
Quadro 2 Classificação e descrição dos veículos de Curitiba 36
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO ... 1
1.1. OBJETIVOS ... 3
1.1.1. Objetivo geral ... 3
1.1.2. Objetivos específicos ... 3
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA ... 4
2.1. POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA ... 4
2.1.1. Fontes Móveis ... 4
2.1.2. Fontes Fixas ... 5
2.2. USO DO BIODIESEL ... 7
2.3. PROGRAMAS PARA USO DO BIODIESEL... 9
2.4. ASPECTOS DA PRODUÇÃO DE BIODIESEL ... 11
2.5. MATÉRIA-PRIMA PARA PRODUÇÃO DE BIODIESEL ... 12
2.6. PROPRIEDADES DO BIODIESEL ... 14
2.7. EFEITOS DO NOx NA SAÚDE HUMANA E AMBIENTAL ... 16
2.8. LEGISLAÇÃO PARA O USO DE BIODIESEL ... 20
2.9. FORMAÇÃO DE NOx A PARTIR DO BIODIESEL ... 24
2.9.1. Ponto de injeção ... 30
2.10. ALTERNATIVAS PARA A REDUÇÃO DE EMISSÃO DE NOx EM MOTORES A BIODIESEL ... 30
2.11. SISTEMA DE TRANSPORTE COLETIVO DE CURITIBA ... 31
3. METODOLOGIA ... 34
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO ... 42
5. CONCLUSÃO ... 55
6. REFERÊNCIAS ... 57
7. ANEXOS ... 62
1. INTRODUÇÃO
Com o aumento da população em áreas urbanas e a necessidade de constantes deslocamentos houve um aumento no consumo de combustíveis derivados do petróleo. A queima desses combustíveis gera uma série de poluentes ao meio ambiente como o monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, gases de efeito estufa. Tem-se estudado combustíveis alternativos com o intuito de reduzir sua concentração na atmosfera.
Combustíveis tais como o etanol e biodiesel são fontes renováveis de energia e considerados menos poluentes.
Criado pelo decreto n.
o76.593 de 14 de novembro de 1975, o Programa Nacional do Álcool (Proálcool) teve como objetivo estimular a produção de álcool para adequá-lo às necessidade do mercado interno e externo, além de desenvolver a política de defesa dos combustíveis renováveis no Brasil.
Em 2 de julho de 2003, a Presidência da República institui por meio de Decreto um Grupo de Trabalho Interministerial para apresentar a viabilidade do uso de biodiesel com matriz energética. A implantação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB) foi estabelecida por meio de Decreto em 23 de dezembro de 2003.
Curitiba ostenta o título de capital ecológica e tem um sistema de transporte coletivo que é considerado modelo. Com uma frota crescente que transporta milhares de passageiros diariamente, uma pequena parte dessa frota utiliza combustível alternativo (URBS, 2013).
Aumentar o número de veículos da frota de transporte coletivo com o uso de biodiesel ou veículos híbridos (veículos com motorização elétrica e combustão interna) pode acarretar o aumento na produção de NOx.
O aumento do número de veículos em circulação, somado à deficiência
apresentada nos sistemas de transporte coletivo, acarreta um tráfego intenso nos
grandes centros urbanos. O excesso de veículos causa aumento na poluição
atmosférica em níveis superiores ao que a natureza pode absorver.
O crescimento do número de veículos em circulação afeta diretamente o custo nas áreas de saúde pública e infraestrutura, isto é, resulta na necessidade de implementação de infraestruturas para locomoção (vias urbanas, rodovias, viadutos, etc.) e estruturas ligadas diretamente à saúde da população (hospitais e centros de saúde).
O transporte coletivo urbano é movido pela queima de combustíveis fósseis (diesel) e renováveis (biodiesel). A queima de combustíveis renováveis e não renováveis é um dos fatores responsáveis pela emissão de poluentes nocivos à saúde e que degradam o ambiente urbano. Dentre esses poluentes, pode-se destacar: o monóxido de carbono (CO), os hidrocarbonetos (HC), os materiais particulados, os óxidos de nitrogênio (NOx) e os óxidos de enxofre (SOx) (CARVALHO, 2011).
Existem diversos padrões de emissão veicular no mundo. A esses padrões são estabelecidos limites para emissão de óxidos de nitrogênio (NOx).
Para diminuir os efeitos dessas emissões é exigida a utilização do sistema SCR e
do ARLA 32. As legislações sobre emissões veiculares relacionam os seguintes
poluentes: óxidos de Nitrogênio (NOx), material particulado (PM), monóxido de
carbono (CO) e hidrocarbonetos (HC). No Brasil, a regulamentação é denominada
de PROCONVE – Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos
Automotores. Atualmente estamos na fase P-7 que seria equivalente ao Euro V
(Resolução Conama, 2008).
1.1. OBJETIVOS
1.1.1. Objetivo geral
O objetivo deste trabalho é verificar a influência do combustível (diesel e biodiesel) e das condições da frota de veículos do transporte coletivo de Curitiba nas emissões de NOx (NO e NO
2).
1.1.2. Objetivos específicos
a) Medir a emissão de NO, NO
2em veículos movidos a diesel e a biodiesel no transporte coletivo de Curitiba.
b) Analisar e comparar a emissão de NO, NO
2e NOx de acordo com as
características da frota de veículos de Curitiba.
2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.1. POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA
A poluição atmosférica se apresenta de várias formas, podendo ser antropogênica (causada pelo homem) e natural. A queima de combustíveis fósseis, em usinas termoelétricas, ou por outros meios de transporte são fontes antropogênicas. Outras formas que podem ser destacadas, são geradas pelo homem nos processos industriais e na agricultura. Já a natureza também produz poluição atmosférica, da qual se pode destacar as erupções vulcânicas (MMA, 1986).
KNOTHE et al (2006) caracteriza a existência da poluição do ar quando uma ou mais substâncias químicas estão presentes em concentrações suficientes para causar danos aos seres humanos. O clima, o nível de atividades industriais, bem como a densidade populacional interferem diretamente nas concentrações de poluentes atmosféricos.
A poluição atmosférica pode ser classificada por dois tipos básicos: fixas e móveis.
2.1.1. Fontes Móveis
Segundo TEIXEIRA et al (2007), os veículos de combustão interna são os responsáveis pela liberação de gases como o monóxido de carbono (CO), óxido de enxofre (SOx) e de nitrogênio (NOx) na atmosfera. Também são encontrados hidrocarbonetos (HC) e material particulado (MP) originários da combustão incompleta. Essas substâncias, por sua vez, apresentam índices de toxicidade significativos ao meio ambiente e à saúde humana. Os veículos automotores também contribuem para o aumento da emissão dos gases de efeito estufa como o dióxido de carbono.
O estabelecimento de metas para a redução da emissão de gases e
materiais particulados por fontes móveis, no Brasil, constituídas por veículos
automotores, iniciou em 1986, quando o CONAMA instituiu, por meio da Resolução n.º 18, o Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores – PROCONVE. O PROCONVE tem como meta os seguintes objetivos: “reduzir os níveis de emissão de poluentes por veículos automotores, visando ao atendimento dos padrões de qualidade do ar, especialmente nos centros urbanos; promover o desenvolvimento tecnológico nacional, tanto na engenharia automobilística, como também em métodos e equipamentos para ensaios e medição da emissão de poluentes; criar programas de inspeção e manutenção para veículos automotores em uso; promover a conscientização da população com relação à questão da poluição do ar por veículos automotores;
estabelecer condições de avaliação dos resultados alcançados; promover a melhoria das características técnicas dos combustíveis líquidos, postos à disposição da frota nacional de veículos automotores, visando à redução de emissões poluidoras à atmosfera” (MMA, 1986).
2.1.2. Fontes Fixas
O Ministério de Meio Ambiente determina que “são denominadas as fontes lançadas à atmosfera por um ponto específico, fixo, como uma chaminé, por exemplo. As fontes fixas liberam, para a atmosfera, uma série de substâncias, conforme as matérias-primas, insumos e combustíveis empregados, e algumas delas podem apresentar elevada toxicidade, comprometendo a qualidade do ar, da água e do solo” (MMA, 2013).
Conforme normas do MMA, tecnologias mais eficientes e limpas como a reciclagem, reúso e reutilização, bem como o uso de combustíveis renováveis (considerados mais limpos) são formas de prevenção e controle de emissões.
Fontes de emissões desses gases devem adotar sistemas de tratamento antes de liberá-los à atmosfera.
BRAUN et al. (2013) afirmam que “a capacidade de regeneração da
atmosfera reduz consideravelmente à medida que a quantidade de emissões de
poluentes cresce com a industrialização e o aumento do número de veículos
automotores no planeta”.
O ar atmosférico apresenta um número grande de poluentes, e sua origem e seus efeitos são diversos. Os poluentes atmosféricos são classificados em dois tipos: poluentes primários e poluentes secundários.
Os poluentes primários são originários de fontes poluidoras, indo diretamente para a atmosfera. São exemplos desse tipo de poluição os gases originários da descarga de um veículo automotor ou de uma chaminé de uma fábrica. Os principais gases emitidos são: monóxido de carbono (CO), óxidos de nitrogênio (NOx) – formados por monóxido de nitrogênio (NO) e pelo dióxido de nitrogênio (NO
2) –, anidrido sulfuroso ou dióxido de enxofre (SO
2) ou por material particulado (BRAUN et al., 2013).
Os poluentes secundários, segundo DALLAROSA (2005), são formados a partir de uma reação química. A reação de um poluente primário com constituintes naturais da atmosfera gera o poluente secundário. Como exemplos pertencentes dessa classe pode-se citar: ozônio (O
3), peróxido de hidrogênio (H
2O
2), aldeídos (RCHO), peroxiacetilnitrato (PAN).
A Tabela 1 apresenta de forma sintética as principais fontes de poluentes
atmosféricos e sua origem.
Tabela 1 – Principais poluentes atmosféricos e sua origem
Poluente Origem
CO Processos de combustão incompleta.
CO
2Combustão de combustíveis fósseis e outros materiais que apresentem carbono, além de ser gerado no processo de respiração.
SOx Combustão de combustíveis que apresentem enxofre em sua composição.
NOx Processos de combustão em geral, descargas elétricas na atmosfera e processos biogênicos.
Hidrocarbonetos Combustão incompleta de combustíveis e evaporação de combustíveis e solventes orgânicos.
Oxidantes Fotoquímicos Gerados a partir de poluentes lançados na atmosfera (NOx, Hidrocarbonetos), que reagem entre si, na presença de radiação solar.
Material Particulado Dispersão de poeira, fuligem, gotículas de óleo e pólen.
Metais Processos siderúrgicos, mineração e queima de carvão.
Ácido Fluorídrico Produção de alumínio e fertilizantes, refinarias de petróleo, indústria de flúor gasoso e ácido fluorídrico.
Amônia Fabricação de amônia e fertilizantes e processos biogênicos.
Gás Sulfídrico Refinarias de petróleo, indústria de celulose e papel e processos biogênicos (anaeróbios).
Pesticidas e Herbicidas Indústrias e aplicação no campo.
Substâncias Radioativas Explosões nucleares, usinas nucleares, depósitos naturais e queima de carvão.
Calor Processos de combustão, pela emissão de gases com temperatura elevada.
Compostos Orgânicos voláteis (COV)
Indústria Química, veículos automotores, armazenamento de combustíveis e atividades que usem solventes.
Fonte: MELLO Jr., Prof. Dr. Arisvaldo V. O Meio Atmosférico I. USP, 2012. (Adaptado)
2.2. USO DO BIODIESEL
Segundo HOEKMMAN et al (2012), os biocombustíveis são uma fonte importante energia renovável, especialmente desde que seu processo de produção passou a garantir sustentabilidade e crescimento econômico.
O biodiesel pode ser produzido a partir de diferentes tipos de biomassa,
tais como os óleos vegetais de várias origens vegetais e os óleos de cozinha
usados (HOEKMMAN et al, 2012).
O combustível mais comum é o biodiesel produzido através da transesterificação de óleos vegetais. Novas técnicas passaram a ser estudadas para a produção de biodiesel de segunda geração (BEZERGIANNI, DIMITRIADIS, 2013).
O biodiesel é um combustível de fonte renovável e biodegradável. É constituído de uma mistura de ésteres metílicos ou etílicos de ácidos graxos, obtidos da reação de transesterificação de um triglicerídeo com um álcool de cadeia curta, metanol ou etanol. Tanto que, os efeitos do biodiesel são menores e mais variáveis para as emissões de NOx, embora geralmente NOx aumente ligeiramente com o uso de biodiesel. Refere-se a esse aumento como o "efeito de NOx biodiesel”. (ECKERLE, W. A. et al., 2008).
A mistura biodiesel/diesel recebe designações próprias. O biodiesel B-100 é biodiesel puro, já o biodiesel B-20 é uma mistura contendo 20% em volume de biodiesel. (PARENTE, 2003).
Com a evolução das pesquisas, nos últimos anos, para a produção de biodiesel por transesterificação tem-se optado pelo mecanismo de produção desse combustível com o uso de álcool metílico ou álcool etílico (PARENTE, 2003).
De acordo com SILVA et al (2009) o grande número de matérias-primas para a produção de biodiesel, os processos de produção e uso possuem grande vantagem. O tipo de matéria-prima a ser utilizado deve ser observado conforme as suas especificidades. Afirmam ainda os autores que o uso de biodiesel é baseado nos seguintes pontos positivos: (1) é renovável; (2) é menos tóxico e é biodegradável; (3) pode reduzir emissões de escape de partículas (PM), CO, HC e outros gases tóxicos; (4) pequenas modificações são necessárias para o funcionamento de motor de ignição por compressão; (5) motores de ignição por compressão de biodiesel são semelhantes em operação aos motores movidos a diesel.
O biodiesel também tem alguns atributos negativos: (1) poder calorífico
inferior, (2) menor volatilidade; (3) viscosidade mais elevada; (4) baixa a
estabilidade de armazenamento; (5) problema de compatibilidade material para
armazenamento; (6) possivelmente maior emissão de NOx; (7) ponto de entupimento a frio – sebo bovino e dendê (KNOTHE et al, 2006).
Independentemente da origem do biodiesel, as propriedades físicas e químicas são semelhantes entre si. Não importa a natureza da matéria-prima, bem como o reagente da transesterificação (álcool metílico ou álcool etílico) (PARENTE, 2003).
2.3. PROGRAMAS PARA USO DO BIODIESEL
“O consumo de biocombustível na União Europeia em 2011 foi de 13,6 milhões de toneladas equivalentes de petróleo (tep), ou 392 mil tep a mais do que em 2010”. A informação é do Biofuels Barometer EurObserv’ER Report 2012. Na Europa, a Alemanha é a líder no uso de combustível renovável em transportes;
seu consumo equivale ao da França, Itália, Espanha, Áustria e República Tcheca juntas. Quase todo combustível verde consumido na Europa se divide entre bioetanol (21%) e biodiesel (78%); o restante são óleos vegetais (0,5%) e biogás (0,5%). De 2000 a 2008, o aumento do uso de biocombustível nos transportes europeus passou de 705 mil tep para 9,56 milhões de tep. Já entre 2008 e 2011, o avanço anual médio foi de 12,7%.
Conforme a revista Biodieselbr, análises desse programa apontam que ocorre uma melhora na lubricidade do diesel e uma diminuição na emissão de poluentes e GEE. O biodiesel é biodegradável e não apresenta toxicidade.
Também não requer, desde que em baixas concentrações, modificações técnicas nos motores (COSTA NETO et al, 2000).
A revista Biodieselbr coloca, ainda, que “o programa norte-americano de biodiesel é bem menor que o europeu e apresenta diferenças importantes. A principal matéria-prima utilizada é a soja, complementada com óleos de fritura usados”.
A produção de biodiesel dos EUA na safra 2012/13 totalizou 401 milhões
de litros em abril/2013, de acordo com órgão norte-americano de Administração
de Informações de Energia (AIE). Com um consumo de 192 mil toneladas no mês
de abril/2011, a matéria-prima mais consumida foi o óleo de soja. O Departamento de Agricultura dos EUA estima que 2,2 milhões de toneladas desse mesmo óleo foram utilizados na transesterificação para a produção de biodiesel no biênio 2012/13.
A revista Biodieselbr informa que o biodiesel na China ainda não recebeu uma especificação ou determinação de políticas de incentivos ao consumo ou produção. No entanto, existem usinas de produção de biodiesel com capacidade produtiva que varia de 5 a 10 mil t/ano. Essas usinas utilizam como matéria-prima restos de óleo de cozinha e óleos vegetais virgens. Está previsto o consumo de 228 milhões de toneladas de biodiesel em 2020. A revista Biodieselbr afirma ainda que, em 2012, 25 países da União Europeia produziram 15 bilhões de litros de biodiesel.
No final da década de 1990, o governo brasileiro norteou sua atenção aos projetos de pesquisa do biodiesel. Lançado em dezembro de 2003 pelo Governo Federal, o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB) tornou-se um instrumento de geração de renda e inclusão social (MDA, 2013).
O PNPB é um programa do governo federal que tem como objetivo a implantação, de forma sustentável, a produção e o uso do biodiesel. A implantação de sustentabilidade técnica e econômica visa à geração de emprego, renda e à inclusão social.
Em 13 de janeiro de 2005 foi publicada a Lei 11.097, que propõe a adição de um percentual mínimo de biodiesel misturado ao óleo diesel. Atualmente essa mistura ao ser comercializada deve apresentar um percentual mínimo de 5%. Nos três primeiros anos de promulgação da lei, houve um percentual intermediário de 2%.
Por aproximadamente 50 anos, pesquisas sobre a produção e uso de biodiesel foram feitas no Brasil. Em 1980 foi registrada a primeira patente sobre o processo de produção desse combustível. A cadeia produtiva, bem como linhas de financiamento e estruturação da base tecnológica foi organizada pelo PNPB (MMA, 2013).
O programa de apoio financeiro ficou sob responsabilidade do Banco
Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e é destinado a todas
as fases de produção. O financiamento abrange todas as fases de produção do
biodiesel, entre elas a fase agrícola, a produção de óleo bruto, o armazenamento, a logística, o beneficiamento de subprodutos e também a aquisição de máquinas e equipamentos homologados para o uso deste combustível.
No escopo PNPB, o Desenvolvimento Tecnológico é coordenado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), o qual abrange a constituição da Rede Brasileira de Tecnologia de Biodiesel, cujo objetivo é a consolidação de um sistema gerencial entre os diversos setores envolvidos na pesquisa, no desenvolvimento e na produção de biodiesel (MME, 2013).
2.4. ASPECTOS DA PRODUÇÃO DE BIODIESEL
A rota de conversão de óleos vegetais em biodiesel utiliza o processo de transesterificação. A reação ocorre em meio alcalino, com o uso de hidróxido de sódio ou de potássio, onde reagem triglicerídeos com um álcool (metanol ou etanol). Os produtos obtidos são glicerina e ésteres de ácidos graxos derivados de óleo vegetal. (DABDOUB et al, 2009).
A transesterificação é uma importante classe de reações orgânicas, por meio da qual um éster é transformado em outro, com a troca entre dois grupamentos alcóxidos.
Um alcóxido pode ser entendido como um composto resultante da reação de um haleto metálico com um determinado álcool, em presença de um receptor do ácido formado para deslocar a reação. Entre os grupos alcóxidos mais comuns encontram-se o metóxi (O–CH
3), o etóxi (O–CH
2–CH
3), o n-propóxi (O–(CH
2)
2– CH
3) e o sec-butóxi (H
3C–(O)–CH–CH
2–CH
3). Se um dos reagentes for álcool, o processo de transesterificação também poderá ser chamado de alcoólise (AIROLDI et al, 2004).
Para a produção de biodiesel, misturam-se o álcool e catalisador
(hidróxido de sódio ou metóxido de sódio). A reação se processa a uma
temperatura de 70ºC, em que é acrescentado o óleo vegetal (DEMIRBAS, 2005).
A Figura 1 ilustra a equação da reação envolvida na transesterificação, utilizando etanol (rota etílica).
2.5. MATÉRIA-PRIMA PARA PRODUÇÃO DE BIODIESEL
O Brasil produz uma série diversificada de oleaginosas para produção de biodiesel. Podem ser citadas como exemplo: babaçu, canola, dendê, girassol, mamona, pinhão-manso, entre outras (MMA).
As propriedades químicas e físicas das oleaginosas estão associadas ao rendimento e à tecnologia de produção do biodiesel.
Ésteres de ácidos graxos são obtidos a partir de qualquer tipo de oleaginosa. Além da viabilidade econômica, deve-se conhecer também (PARENTE, 2003):
(I) o teor de óleo vegetal e a complexidade exigida no processo de extração;
(II) a produtividade por unidade de área;
(III) o ciclo de vida da planta;
(IV) sua adaptação territorial; e
(V) o impacto socioambiental de seu desenvolvimento.
Na Europa, a Alemanha é o maior produtor e consumidor de biodiesel extraído a partir da canola, e sua capacidade produtiva gira em torno de 1 milhão de toneladas/ano.
Figura 1. Mecanismo de reação de obtenção de biodiesel.
H
2C
HC
H
2C O
O
O O
O
O CR
CR’
CR”
+ 3 H
3C–CH
2OH
catalisadorH
2C HC H
2C
OH OH OH
+ H
3C–CH
2–O–CR’
O
+ H
3C–CH
2–O–CR”
O + H
3C–CH
2–O–CR
O
Os Estados Unidos utilizam a soja como matéria-prima de produção de biodiesel. A norma ASTM-6751 fixa para os Estados Unidos, como padrão, o B20, que é utilizado no transporte coletivo urbano, nos serviços públicos do governo.
Na França, os ônibus urbanos são abastecidos com B30. A Malásia é o maior produtor de óleo de dendê em escala mundial; sua produtividade é da ordem de 5.000 kg de óleo/ha.ano (MASUMN et al, 2013).
O Brasil detém 20% das terras agriculturáveis do mundo (FAYET, 2010) e tem um clima tropical propício à produção agrícola, colocando o país em ótima posição para a produção de biocombustível. As opções de oleaginosas para a produção de biodiesel apresentam uma grande opção de diversidade. A Região Norte do país é propícia à produção de palma e babaçu, sendo o estado do Piauí um grande produtor (SILVA, 2009). Soja, girassol e amendoim na Região Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Para o Nordeste a mamona é a melhor opção.
A Tabela 2 apresenta os valores da produção de biodiesel puro no Brasil
nos últimos cinco anos.
Tabela 2 – Produção Nacional de Biodiesel Puro – B100
Volume produzido (m
3)/ ANO
Meses 2009 2010 2011 2012 2013
Janeiro 90.352 147.435 186.327 193.006 226.505 Fevereiro 80.224 178.049 176.783 214.607 205.738 Março 131.991 214.150 233.465 220.872 230.752 Abril 105.458 184.897 200.381 182.372 253.591 Maio 103.663 202.729 220.484 213.021 245.934 Junho 141.139 204.940 231.573 214.898 236.441 Julho 154.557 207.434 249.897 230.340 260.671 Agosto 167.086 231.160 247.934 254.426 247.610 Setembro 160.538 219.988 233.971 252.243 252.714 Outubro 156.811 199.895 237.885 251.416 277.992 Novembro 166.192 207.868 237.189 245.321 265.176 Dezembro 150.437 187.856 216.870 244.962 214.364 Total anual 1.608.448 2.386.399 2.672.760 2.717.483 2.917.488 Fonte: ANP, conforme Resolução ANP n.° 07/2008.
2.6. PROPRIEDADES DO BIODIESEL
2.6.1. Propriedades Físicas
A densidade e a viscosidade do combustível são propriedades físicas
importantes para o funcionamento de motores de compressão. Essas
propriedades influenciam diretamente na injeção e circulação do combustível. O
biodiesel e o óleo diesel apresentam densidade e viscosidade muito semelhantes,
portanto, o motor não requer adaptações ou regulagens especiais (PARENTE,
2003).
A lubricidade, continua o autor, está ligada diretamente à viscosidade e à tensão superficial do combustível e mede o poder de lubrificação. O motor diesel exige um combustível que lubrifique seus componentes.
PARENTE (2003) caracteriza o ponto de névoa como a temperatura em que um líquido, através de refrigeração, começa a ficar turvo. Já o ponto de fluidez define a temperatura em que o líquido deixa de escoar. Essas propriedades dependem da origem do biodiesel e também do álcool, metanol ou etanol, utilizados na transesterificação. Em função do tipo de clima que ocorre no Brasil, não haverá problemas de congelamento do combustível.
Uma propriedade importantíssima sobre a segurança no armazenamento, manuseio e transporte de combustíveis é o ponto de fulgor. Ponto de fulgor é a temperatura em que um líquido torna-se inflamável quando na presença de uma fonte de ignição. O biodiesel puro apresenta ponto de fulgor superior à temperatura ambiente, portanto não é inflamável em condições normais de uso (PARENTE, 2003).
O poder calorífico indica a energia liberada pelo combustível, na sua queima, por unidade de massa. Segundo o Centro Brasileiro de Referências em Biocombustíveis (CERBIO) (TECPAR, 2004), o biodiesel tem propriedades similares àquelas apresentadas pelo diesel derivado de petróleo, apresentando poder calorífico entre 39,4 e 41,8 MJ.kg
–1, enquanto que o diesel apresenta poder calorífico em torno de 45 MJ.kg
–1.
Para os motores do ciclo Otto, a qualidade do combustível é medida pelo
índice de octanos (octanagem). Os motores diesel têm a qualidade do
combustível medida em índice de cetano (cetanagem). Um combustível de alta
cetanagem corresponde a um combustível de melhor qualidade, o que representa
um rendimento melhor. No biodiesel, o índice de cetano é 60, enquanto no óleo
diesel os índices estão situados entre 48 e 52. Em função desses valores
observa-se que o biodiesel queima muito melhor que um motor diesel.
2.6.2. Propriedades Químicas
Dentre as propriedades químicas do combustível biodiesel pode-se destacar o teor de enxofre e o poder de solvência.
Segundo WYATT et al, 2005, o biodiesel apresenta teor de enxofre igual a zero apenas no B100, portanto o biodiesel é isento desse elemento. As substâncias derivadas do enxofre são nocivas ao meio ambiente, afetando também o motor e seus componentes. Assim, o biodiesel é um combustível limpo.
Como o biodiesel é uma mistura de ésteres de ácidos carboxílicos, ocorre uma solubilização muito grande em substâncias orgânicas. Esse fator caracteriza o ponto de solvência de uma substância. O biodiesel solubiliza também resinas que compõem as tintas, portanto cuidados devem ser tomados para evitar danos à pintura dos veículos no momento do abastecimento (PARENTE, 2003).
Tanto na Europa quanto nos Estados Unidos existem normatizações para o biodiesel. Na Europa o padrão de normatização é DIN 14214 (Deutsches Institutfür Normung - DIN) já nos Estados Unidos a normalização é feita a partir das Normas ASTM D-6751.
As propriedades e características do biodiesel são determinadas pelas normas europeias e americanas.
As características e propriedades determinantes dos padrões de identidade e qualidade do biodiesel, de acordo com as normas ASTM e DIN, são:
acidez; cinzas; corrosividade; número de cetano; ponto de fulgor; ponto de névoa;
resíduo de carbono; teor de água e sedimentos; teor de enxofre; teor de glicerina livre e total; temperatura de destilação para 90% de recuperação; viscosidade.
2.7. EFEITOS DO NOx NA SAÚDE HUMANA E AMBIENTAL
O elevado número de veículos em circulação libera uma quantidade
significativa de gases poluentes. Esses gases causam sérios danos à saúde
humana e ambiental. Para diminuir esses danos, medidas eficazes de controle da poluição veicular devem ser adotadas de forma direta ou indireta.
Na natureza pode-se encontrar sete óxidos de nitrogênio diferentes. O óxido nitroso (N
2O) é um gás estável e pouco reativo. O N
2O é usado como anestésico, principalmente por dentistas. Também é conhecido como gás hilariante, porque quando inalado em pequenas quantidades provoca euforia.
Além do N
2O pode-se encontrar o trióxido de dinitrogênio (N
2O
3), o tetróxido de dinitrogênio (N
2O
4), pentóxido de dinitrogênio (N
2O
5) e o trióxido de nitrogênio (NO
3).
São encontrados também o óxido de nitrogênio (NO), um gás incolor, e o dióxido de nitrogênio (NO
2). Este último é um gás castanho avermelhado e tóxico, quando inalado, e por ser uma substância de baixa solubilidade atinge as porções periféricas dos pulmões (LEE, 2000).
Estudos uniram poluição do ar e sua forma de afetar a saúde humana.
Doenças respiratórias afetam diretamente crianças, idosos elevando de forma significativa os índices de morbidade e mortalidade.
Dentre as doenças destacam-se: asma, bronquite, tosse, doença de obstrução crônica pulmonar, problemas cardiovasculares, que provocam enfarto do miocárdio, morbidez e mortalidade.
A Tabela 3 apresenta um resumo de artigos relacionados a alguns efeitos
de NOx na saúde humana. O NOx é computado a partir do somatório das
concentrações de NO e NO
2, que são os principais contribuintes.
Tabela 3 – Resumo dos dados epidemiológicos relacionados à presença de NOx atmosférico
Efeito Referência Concentração de NOx Estudo
Asma GRUZIEVA, O. et al (2011) >10,6 mg/m
3Estocolmo, Suécia, e Kiev, na Ucrânia
LINDÉN, J. et al (2011) >67 μg/m
3Gothenburg, Suécia
HAIDONG, K. et al (2011) >10 μg/m
3Shanghai, China Bronquite GHOSH, R.et al (2011) >35 μg/m
3Califórnia,
Estados Unidos KALANTZI E. G. et al (2011) >NO: 13,52 μg/m
3; NO
2: 30,12
μg/m
3; NOx: 40,67 μg/m
3Grécia LIAQUAT A. M. et al (2010) >45 μg/m
3Malásia Doenças
respiratórias
SAVA, F. e CARLSTEN, C.
(2012)
>5,8 mg/m
3Vancouver,
Canadá TZAMKIOZIS L et al (2011) >43 μg/m
3Tessalônica,
Grécia
Os problemas associados aos veículos automotores e aos gases emitidos têm efeitos sérios sobre a saúde ambiental. Os congestionamentos urbanos agravam mais ainda as emissões veiculares que prejudicam a saúde do ser humano.
Segundo definições das Resoluções do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA) 003/1990 e 436/2011, poluente atmosférico é “toda e qualquer forma de matéria ou energia com intensidade e em quantidade, concentração, tempo ou características em desacordo com os níveis estabelecidos em legislação e que tornem ou possam tornar o ar impróprio, nocivo ou ofensivo à saúde, inconveniente ao bem-estar público, danoso aos materiais, à fauna e à flora ou prejudicial à segurança, ao uso e gozo da propriedade e às atividades normais da comunidade”.
Os veículos automotores são as principais fontes de emissão de óxido
nítrico (NO) e dióxido de nitrogênio (NO
2). Com temperaturas elevadas, o oxigênio
reage com o nitrogênio durante a combustão formando óxido nítrico, dióxido de
nitrogênio e outros óxidos derivados do nitrogênio (NOx). Esses óxidos são muito
reativos e, na presença de oxigênio atmosférico (O
2), ozônio e HC, ocorre a
transformação do NO em NO
2. O NO
2produzido, na presença de luz do sol,
continua seu caminho reativo. Agora a reação do NO
2ocorre com HC e O
2formando ozônio, sendo este considerado um dos principais poluentes da troposfera (GUARIEIRO et al, 2011).
Consequentemente, são os agentes que alteram as características da atmosfera e geram impactos, tais como: danos à camada de ozônio, efeito estufa e/ou chuvas ácidas.
Assim, os grupos de poluentes que servem como indicadores de qualidade do ar, adotados mundialmente e que são escolhidos em função da frequência de ocorrência e de seus efeitos nocivos são: materiais particulados (MP), óxidos de enxofre (SOx), óxidos de nitrogênio (NOx), monóxido de carbono (CO), dióxido de carbono (CO
2), metano (CH
4) e o ozônio (O
3). Desses poluentes, são precursores do efeito estufa o CO, CO
2e o CH
4; que comumente são agrupados em função da ponderação dos seus níveis de impacto como CO
2eq, dióxido de carbono equivalente (DIAS, 2013).
A concentração de poluentes está fortemente relacionada à composição dos combustíveis utilizados e nas condições meteorológicas.
Para além das emissões de GEE’s, como o dióxido de carbono (CO
2), metano (CH
4) e óxido nitroso (N
2O), o setor dos transportes tem uma contribuição significativa na emissão de poluentes como óxidos de nitrogênio (NOx), óxidos de enxofre (SOx), compostos orgânicos voláteis (COV) e matéria partículada (PM), responsáveis por muitos impactos ambientais. Além disso, estes poluentes desempenham um papel fundamental na formação de ozônio (O
3) (SAVA e CARLSTEN, 2012).
Segundo HOU et al (2008), o setor dos transportes gera impactos negativos em quatro grandes questões ambientais: alterações climáticas, O
3troposférico, acidificação e exposição da população.
O O
3troposférico é um poluente que resulta da reação entre a luz solar e outros poluentes como o CH
4, COV, NOx e CO – precursores de O
3. Os NOx e os COV são os principais intervenientes na sua formação (HOU et al, 2008).
A acidificação é um processo de conversão de poluentes atmosféricos
como NOx e SO
2em substâncias ácidas. O monóxido de nitrogênio (NO)
resultante da combustão incompleta nos motores de veículos reage com o azoto
existente na atmosfera produzindo dióxido de nitrogênio (NO
2) que, ao reagir com mais oxigênio e água, forma ácido nitroso (HNO
2). Ao se depositar na superfície terrestre, essas substâncias provocam problemas como a desflorestação, a acidificação de massas de água, entre outros (LAPUERTA et al, 2007).
A emissão de GEE (LAPUERTA et al, 2007) no setor dos transportes resulta da combustão incompleta nos motores e são responsáveis pela absorção da radiação infravermelho (IV) que é reemitida pela superfície terrestre potencializando, assim, o efeito estufa.
Associados a esses acontecimentos, foram também observadas variações no teor de CO
2na atmosfera, o que indica o fenômeno das Alterações Climáticas.
2.8. LEGISLAÇÃO PARA O USO DE BIODIESEL
Em 1991 surgiram na Europa normas de emissão de gases tóxicos liberada pelo escapamento de veículos automotores. Essas normas foram denominadas Euro e têm como objetivo o controle da poluição emitida por veículos automotores.
Os gases e partículas emitidos na atmosfera por veículos ciclo Otto e diesel são: óxido de nitrogênio (NOx); hidrocarbonetos totais (THC);
hidrocarbonetos não metálicos (NMHC); monóxido de carbono (CO); material particulado (PM).
Essas normas foram criadas e são atualizadas por novas normas, por
determinado tempo. São exemplos de normas: Norma Euro I – (EC 93 diretivas
91/441/CEE) apenas carros de passeios, e a diretriz 93/59/CEE para carros de
passeio e caminhões leves. Norma Euro II – (padrões CE 96), diretivas 97/12/CE
ou 96/69/CE. Norma Euro III/IV – do ano 2000 até 2005 a diretiva é 98/69/CE,
novas alterações aplicadas em 2002 (80/CE). Norma Euro V/VI – padrões
(2009/2014) o Regulamento 715/2007.
Tabela 4 – Limites de emissão de poluentes para veículos pesados na Europa (Diretiva 98/69/CEE) (1998)
Ciclo estacionário Ciclo transiente
Data Ruído (dB)
CO g/kW.h
HC g/kW.h
NOx g/kW.h
MP g/kW.h
Fumo (m
–1)
CO
2g/kW.h CO g/kW.h
NMHC g/kW.h
NOx g/kW.h
MP g/kW.h
1982 – 14,0 3,5 18,4 – – – – – – –
EURO 0 1990 – 11,2 2,4 14,4 – – – – – – –
EURO I 1993 83-85 4,5 1,1 8,0 0,36 – – – – – –
EURO II 1998 72-73 4,0 1,1 7,0 0,15 – – – – – – EURO III 2000 68-70 2,1 0,66 5,0 0,10 0,8 670 5,45 0,78 5,0 0,16 EURO IV 2005 – 1,5 0,46 3,5 0,02 0,5 670 4,0 0,55 3,5 0,03 EURO V 2008 – 1,5 0,46 2,0 0,02 0,5 670 4,0 0,55 2,0 0,03 NMHC – HC exceto metano
O ciclo estacionário corresponde ao teste de motores de combustão com o uso de dinamômetro em rotações específicas sem que ocorra o aumento de esforço. Já no ciclo transiente provoca-se um aumento no esforço de carga do motor com o aumento do número de rotações.
Com a criação do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores – PROCONVE ‒ o Brasil passou a ter uma diretriz que visa à redução da emissão de poluentes ao meio ambiente. Algumas mudanças já foram feitas. A meta é tornar a legislação brasileira próxima às leis da Europa e dos Estados Unidos.
A legislação brasileira que trata da redução de emissão de poluentes por veículos automotores é a Lei n.
o8.723 de 28 de outubro de 1993. Em seu artigo 1.º tem-se:
Como parte integrante da Política Nacional de Meio Ambiente, os
fabricantes de motores e veículos automotores e os fabricantes de
combustíveis ficam obrigados a tomar as providências necessárias para
reduzir os níveis de emissão de monóxido de carbono, óxido de
nitrogênio, hidrocarbonetos, álcoois, aldeídos, fuligem, material
particulado e outros compostos poluentes nos veículos comercializados
no País, enquadrando-se aos limites fixados nesta lei e respeitando,
ainda, os prazos nela estabelecidos.
O Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA, editou em 06 de maio de 1986 a resolução n.
o18, que institui o Programa de Controle de Poluição por Veículos Automotores – PROCONVE ‒, cujos objetivos são:
reduzir os níveis de emissão de poluentes por veículos automotores visando ao atendimento dos Padrões de Qualidade do Ar, especialmente nos centros urbanos;
promover o desenvolvimento tecnológico nacional, tanto na engenharia automobilística como também em métodos e equipamentos para ensaios e medições da emissão de poluentes;
criar programas de inspeção e manutenção para veículos automotores em uso;
promover a conscientização da população com relação à questão da poluição do ar por veículos automotores;