Folha de Rosto
1. Título do Artigo (português e inglês)
Édipo Rei e o pathos do adolescente King Oedipus and the pathos of teenager
2. Nome do autor
Gloria Sadala
3. Palavras-chave
Psicanálise – Édipo – Saber – Poder
Psychoanalysis – Oedipus – Knowledge – Power Psychanalyse – Oedipe – Savoir – Pouvoir Psicoanálisis – Edipo – Saber – Poder
4. Titulação acadêmica e dados institucionais
Gloria Sadala é psicanalista e Doutora em Comunicação e Cultura pela ECO/UFRJ.
Coordenadora do Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade e do Curso de Especialização em Teoria Psicanalítica e Prática Clínico-Institucional da Universidade Veiga de Almeida/RJ. Professora do Curso de Especialização em Psicologia Clínica da PUC-RJ. Professora e Supervisora do Curso de Graduação em Psicologia da Universidade Veiga de Almeida/RJ. É co-organizadora do livro A Mulher, na psicanálise e na arte (Rio de Janeiro, Contra Capa, 1995). Também é membro do Colegiado de FCCL-RJ.
5. Endereço Completo
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Resumos
Português (Édipo Rei e o pathos do adolescente)
Este artigo baseia-se na tragédia grega Édipo Rei de Sófocles e analisa os principais trabalhos psíquicos efetuados na adolescência.
São feitas considerações relativas à constituição do sujeito, tendo como referência o trajeto do herói trágico Édipo.
Palavras-Chave: Psicanálise – Édipo – Saber – Poder
Espanhol (Édipo Rey y el pathos de adolescente)
Este artículo está basado en la tragédia griega Oedipe Roi de Sófocles y analiza los
principales trabajos psicológicos a la adolescência. Consideraciones son hechas con relación al objeto, com referencia a la via de Oedipe héroe trágico.
Palavras-Chave: El psicoanálisis, Édipo, Saber y Poder
Francês (Oedipe Roi et lê pathos d’une adolescente)
Cet article est base sur la tragédie grecque Oedipe roi de Sophocle et analyse les principaux travaux psychologiques à l’adolescente. Considérations sont faites par rapport à l’objet, avec référence à la voie de Oedipe héros tragique.
Palavras-Chave: psychanalyse, OEdipe, savoir et pouvoir
Inglês (King Oedipus and the pathos of teenager)
psychological works effectuated in the adolescencia.
Considerations related to constitution of a subject, taking as reference the course of the tragic hero Oedipus.
Palavras-Chave: Psychoanalysis – Oedipus – Knowledge - Power
Édipo Rei e o pathos do adolescente
A tragédia grega, Édipo Rei de Sófocles, pode ser tomada como paradigma da movimentação do desejo e do saber no sujeito adolescente.
Ser adolescente é confrontar-se com um saber sobre o desejo. Anterior à adolescência, situa- se um período nomeado por Freud como latência, por nele se constatar uma certa inibição das pulsões sexuais que impulsionaram as fantasias construídas no tempo da infância. Na
adolescência, há o despertar dessas fantasias adormecidas, em concomitância com grandes revelações referentes ao sexo.
As teorias sexuais infantis sobre a concepção, o nascimento, o coito, a diferença sexual são testemunhos da existência de um saber desde a infância que capacitam a criança a formular teorias cujo ponto de origem é a questão sexual.
Em 1905, ao escrever o texto Três ensaios sobre a sexualidade, Freud subverte o mito da infância pura, ingênua e angelical. Apontou a sexualidade infantil, constatando no sujeito o destino do ser-para-o-sexo.
Lacan, em 1967, na Conferência proferida como conclusão das Jornadas sobre o tema
“Alocução sobre as psicoses da criança”, pergunta:
“Mas, estaremos nós à altura do que parecemos, pela subversão freudiana, ser convocados a carregar – o ser-para-o-sexo?
Não parecemos muito valentes para manter essa posição.
Nem tampouco muito alegres. O que, penso eu, prova que pegamos a coisa, em absoluto.
E não pegamos a coisa em razão daquilo que os psicanalistas dizem bem demais para suportar sabê-lo, e que designam, graças a Freud, como castração: o ser-para-o-sexo”. (Lacan, 2003, p. 362,363).
O encontro com o outro sexo na adolescência, revela ao adolescente a incompletude, pois constata que o objeto sexual nunca o satisfaz plenamente. Nostalgia, devaneio, decepção são vividos como expressão das saudades da aurora daquela ilusão infantil da possibilidade do todo, da onipotência do desejo e da invencibilidade dos pais.
O crescimento e os acontecimentos da vida trazem a percepção das falhas dos pais, o que possibilita o desligamento da autoridade paterna e materna. Os pais caem daquele lugar imaginarizado e perdem, a partir daí, o lugar idealizado que ocupavam até então. Esta é a principal perda na adolescência – perda da ilusão no poder dos pais – determinando um trabalho de luto importante que permite elaborar o desligamento da autoridade dos pais. No entanto, se por um lado, há sofrimento pela perda dos pais da infância, a autonomia conseqüente a este trabalho de desligamento permite ao adolescente ser autor de um desejo que visa a si próprio e não mais à satisfação das demandas dos pais.
A adolescência pode ser considerada um momento de máxima tensão entre o sujeito e o Outro, entre autoria e assujeitamento. Concluindo que só tem a si próprio para enfrentar o desamparo que a vida impõe e o mal estar dele decorrente, o adolescente assume a posição de sujeito desejante para efetuar suas escolhas e trilhar seu próprio caminho.
Na versão trágica do mito de Édipo, observa-se uma circulação do saber entre os pólos do poder e do desejo.
Evoquemos alguns pontos da tragédia Édipo Rei.
Édipo, filho dos reis de Tebas, Laio e Jocasta, teve por destino ao nascer, ser abandonado no monte Citerón, após ter seus pés transpassados por um prego.
Adotado pelos reis de Corinto, Pólibo e Mérope, somente anos depois ouviu rumores sobre sua origem. Confuso diante do que ouvia e lhe perguntavam, consultou o oráculo para dele obter esclarecimentos. A resposta obtida confirmou a maldição lançada sobre seu pai Laio antes mesmo do nascimento de Édipo: mataria o pai e casaria com sua própria mãe.
Na fuga para Tebas, tentando livrar-se de tal predição, encontrou seu verdadeiro pai e numa briga o matou. Na entrada da cidade, deparou-se com a Esfinge que aterrorizava a todos, matando àqueles que não decifravam seu enigma. Édipo o decifrou e diante disso, a Esfinge se precipitou num abismo.
Reconhecido como herói, Édipo assumiu o trono de Tebas, casando-se com a rainha, viúva de Laio.
Após alguns anos, a desgraça assolou novamente Tebas e o oráculo apontou como solução, a expulsão do assassino de Laio da cidade. Édipo promoveu, com determinação, essa busca.
Com o desvelamento da origem de Édipo, Jocasta se enforcou no palácio.
Ao contrário, Édipo reconhece e assume seus atos:
“Ai de mim! Tudo se desvendou.
Ó luz, Oxalá possa contemplar-te pela última vez!
Ficou bem claro que eu não deveria ter nascido de quem nasci.
Não deveria viver com quem vivo e matei a quem não deveria matar!”“.
Ao saber de sua verdade, Édipo furou seus próprios olhos e se exilou em Colono.
Na tragédia Édipo Rei, a cegueira pode ser entendida como metáfora da castração. Cego, o herói possui um saber que limita seu poder, seus atos e faz dele um exilado, dividido entre o seu desejo e a violência/poder do Outro.
No trágico, o sujeito, sob nenhuma hipótese, cede de seu desejo. O desejo permanece como resistência ao poder. Em Édipo Rei, há um desejo de não saber, como resistência ao poder da maldição, do oráculo, dos deuses, resistência ao poder do Outro.
Édipo é um herói trágico.
E qual é a verdade do desejo em Édipo?
À primeira vista, pode-se pensar que é um desejo de saber sobre sua origem. Mas d’Isso ele foge. Um primeiro afastamento em relação a esse saber é representado pela ordem de Laio para afastar Édipo definitivamente. Um segundo afastamento localiza-se no próprio herói, ao empreender constante fuga para que não se cumpra a predição do oráculo.
Em se tratando do desejo incestuoso, dele é preciso fugir.
Fazendo-se um paralelo com o período de latência, quando há um adormecimento da sexualidade, verifica-se aí também um afastamento dos desejos incestuosos e que são retomados na adolescência com as novas possibilidades apresentadas pelo segundo momento de escolha de objeto. A adolescência é, portanto, um retorno. Retorno à sexualidade sempre infantil. Mas a sexualidade atravessada pela adolescência é marcada pela castração, pela falta, pela constatação da impossibilidade da relação sexual, pela desilusão diante da completude.
Sendo a principal característica da tragédia grega, a inexorabilidade do destino, observa-se em Édipo Rei o mundo subsistir por vontade dos deuses. Tomando o oráculo como o Outro
determinante do sujeito, fica evidente sua prevalência, mostrando que não há como nenhum ser humano fugir totalmente de seu destino.
Podemos entender Édipo, tal como o adolescente, um sujeito dividido entre histórias e tempos.
Em primeiro lugar, dividido entre duas histórias: a de seus pais e a sua própria.
Além disso, há a divisão entre dois tempos: um tempo anterior ao encontro com a verdade em Corinto e Tebas, e um tempo posterior, vivido após o encontro com a sua verdade particular.
Todo sujeito adolescente é um Édipo que se defronta com a sua verdade, às voltas com o que fazer e o que escolher para si, a partir das marcas provenientes do campo do Outro.
No Seminário 8: A transferência, Lacan diz que a razão principal da importância da figura de Édipo é o ele não sabia, ou seja, é o não saber que representa, na verdade, um não querer saber.
Édipo já trazia seu destino marcado pelo seu próprio nome. Édipo (Oidipous) traz uma referência aos pés inchados.
Oidi significa eu tinha visto, eu sei.
Dipous significa pés inchados.
Édipo portava um saber não sabido, tal como o mensageiro do tempo antigo que trazia sem saber sua própria mensagem em sua cabeleira raspada, gravada enquanto dormia.
Observamos na tragédia Édipo Rei a passagem daquele que não queria saber, a um Édipo que é instigado a saber. Isto porque, a partir de um determinado ponto, com as perguntas e demandas do Outro, não podia mais retroceder. Jocasta realmente tentou detê-lo. Mas Édipo segue, quer saber.
Que saber Édipo conquista?
Um saber sobre a castração. Um saber sobre o não todo da verdade, ou seja, a constatação que não se pode saber tudo, até porque as palavras faltam para dizê-lo.
Esta é a mudança radical na posição de Édipo: saber que o saber nunca recobre a verdade.
Aquele que acreditou que todos os véus haviam caído, fica cego e se exila em Colono.
Passar pela adolescência implica em ser atravessado pelo saber sobre a castração. Em termos psicanalíticos, a adolescência pode ser conceituada como um trabalho psíquico de elaboração de perdas, elaboração da falta do Outro e elaboração de escolhas.
As perdas se referem ao corpo infantil que já não existe mais e às desilusões quanto ao poder dos pais em evitar o encontro com o desamparo.
Elaborar a falta do Outro é demiti-lo de sua função salvadora, não se restringindo a responder as suas demandas e assumindo-se como sujeito do desejo.
que sobreviva, comendo, vestindo, aprendendo, adquirindo hábitos, segundo a indicação dos pais. E a queda da imagem ideal dos pais, necessariamente causa um mal estar no adolescente, impulsionando-o a buscar nas identificações com seus pares, assim como nos ideais coletivos um alívio frente ao horror do encontro com a verdade da castração.
A adolescência reafirma, especialmente, duas das fontes permanentes de sofrimento para o homem, apontadas por Freud em 1930 no texto Mal estar na cultura: a fragilidade do corpo e as relações humanas. Constata que o corpo se transforma independente de sua vontade e os mal-entendidos são inerentes à convivência humana inclusive no âmbito familiar. E com tudo isso, o adolescente sofre. Por vezes se isola ou então se agrega fortemente a algum grupo.
Faz inscrições em seu corpo, seja para garantir o que é seu, seja para conservar um pertencimento social.
O adolescente não possui todas as condições de enfrentar as dificuldades e hostilidades que a vida apresenta, mas sustentando-se como sujeito do desejo e desligando-se suficientemente da autoridade dos pais será capaz de efetuar suas escolhas e responsabilizar-se pelos seus atos.
Para se sustentar como sujeito do desejo, o adolescente precisa de coragem, precisa ser valente, como diz Lacan, pelo que representa o enfrentamento da castração em termos de desilusão, ação e caução diante do caminho a ser percorrido.
O sujeito adolescente, tal como Édipo, faz circular seu desejo e seu saber na tentativa de libertar-se da violência e do poder do Outro.
Busca, assim, efetuar escolhas, mediando a tensão própria do pathos psíquico da posição adolescente situada entre autoria e assujeitamento.
Referências Bibliográficas:
ALBERTI, S. Esse sujeito adolescente Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1996.
FREUD, S. Três Ensayos de Teoria Sexual (1905). In: Obras Completas de Sigmund Freud.
Buenos Aires: Amorrortu, 1978, v.7
_________ Mal estar en la cultura (1930). In : Obras Completas de Sigmund Freud. Buenos Aires: Amorrortu, 1996, v.21.
LACAN, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
_________ Seminário 8 – A transferência. (1960-1961). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.