• Nenhum resultado encontrado

Prisões e sociedade – sobre a pedagogia social da reclusão

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "Prisões e sociedade – sobre a pedagogia social da reclusão"

Copied!
16
0
0

Texto

(1)

PRISÕES E SOCIEDADE - SOBRE A PEDAGOGIA SOCIAL

DA RECLUSÃ016

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Antônio Rodriguesde Souza

l

Resumo

tsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Anter ior à for ma como o f!r eso é per cebido e tr a

-ta do na pr isã o, está a r ela çã o Q ue a socieda de es-ta belece

com o pr ópr io cá r cer e. Se esta r ela çã o nã o é evidente,

no sentido de Q ue nã o é pr óxima , ela está no funda

men-to de men-toda s a s for ma s de tr a ta menmen-to a o pr eso. Ela ger a ,

desde os modelos de gestã o, à s r ebeliões. A r ela çã o da

socieda de com a s pr isões desenha uma dua lida de Q ue se

Iâ z de a usência s e pr esença s, de dista ncia mento e

inte-r esses, onde o ma is pinte-r imá inte-r io é a cuinte-r iosida de e o ma is

pr ofundo, ta lvez, seja um desejo Q ue o pr eso fiQ ue lá

pa r a sempr e. D e va r ia da sfor ma s, a socieda de está

imiscuí-da em todos os pr ocessos Q ue a ntecedem, Q ue se esta

be-lecem dur a nte e Q ue se scoücnclsm a o enca r cer a mento.

Sã o a s for ma s, a extensã o e o mér ito da s tr a nsver sa lida des

entr e a socieda de e a exclusã o, a ma r gina lida de, a

NMLKJIHGFEDCBA

d e lin

-oüénds e a s pr isões Q ue pr ecisa mos compr eender pa r a

poder modificá -Ia s.

Palavras-chaves:

pnsoes,

sociedade. ausência.

transversalidade. gestão.

Abshad: Regording

the pedagogy

of social

reclusion.

P r ior to the ma nner ln which the pr isoner Is seen

a nd tr ea ted in pr ison

ts

the r ela tíonshíp esta blished

0/

sodety wíth pr ison itself. Even though this r ela tionshíp

ts

, e v id e n t, t t

Is in the bssis of a li kinds of tr ea tment

éa síntese de um capítulo da minha dissertação ;O::&:::lICc. ~L-::>';'-~·f.d-I[IC2r r :er á r ia - um olha r sobr e a peda gogia

Universidade Federal do Ceará

liça do Ceará. lotado na

9"'3.

towa r ds the convicto It gener a tes not onfy the ma na gement

models. but a lso the r iots. The r elstionship between

soctety a nd pr isons Is ma de up of a dua lity ma de of

a bsences a nd pr esences,

dista nce a nd inter ests, wher e

the most pr imitíve feeling Is cur iosi!y. a nd the deeper one.

per ha ps, a str ong desir e for the convíct to be kept ther e

for ever . In ma '!)l wa ys society p/'!Ys a n impor ta nt r ole in

a li the pr ocesses pr eceding a convtction, a nd In those

tha t develop thr ough the impr isonment ter m a s well a s

a fter tt. We must under sta nd the wa ys, the extension a nd

the mer it of the tr a nsver sa lities between society a nd

exclusion, cr imina lity a nd pr isons in or der to be a ble to

cha nge them.

K e y words: prison. society. absence, transversality. management.

A socieda de foge dsouetc a Q uem ca stigou como uma pessoa foge do cr edor com Q uem nã o pode pa ga r a sua conta .

OSCAR WllDE

lnhoducõc

A Questão penitenciária brasileira está próxima do

ponto de estrangulamento. Não

é

mais possível minimizar

sua gravidade. justificar sua condição. nem ignorá-Ia. Os

presidiários são - depois do MST - o segmento popular

Que certamente mais incomoda. mais enfrenta a

oficiali-dade e mais expõe as nossas mazelas.

O Que são as prisões e Que funções cumprem na

sociedade? Na abordagem a estas e outras Questões.

adota-mos algumas categorias da

Aná lise Instituciona l

18e o

pensa-mento de

Michel F ouca ultcomo

ferramentas teóricas básicas.

Destacamos as

tr a nsver sa lida des

l9

socia is

como a categoria

de análise Q!.Iemelhor permite explicitar imbricações do ins-tituto penitenciário com outros segmentos da sociedade.

3Abordamos a corrente institucionalista francesa Que garimpa con-ceitos da Sociologia. da Pedagogia e da Psicanálise. principalmente

além de outros referenciais teóricos circunstanciais. A AI articula as

dimensões do pensamento. da lntelecção e da ação. elucidando

realidade e fazendo uma leitura crítica das forças estgníflcados d

instituídos e das organizações. Assim. permite operar a prática

pesoulsa e da intervenção.

4Transversalidades: ..entrecruzamentos das pertenças e referên .

de todos os tipos (políticos. econômicos. social. cultural. ideológico

sexual. libidinal. etc.) Que atravessam as nossas vidas." (Ceci

(2)

A pesoulsa.

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

realizada entre julho e agosto de

1999, teve como metodologia primária a

tsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

obser va çã o

a mbiente

da prisão. Para abordagem aos indivíduos,

ele-gemos a

entr evista

pelas possibilidades interativa e dialogal. permitindo, ainda, a articulação e exposição de

pensamentos marginalizados e a produção de

testemu-nhos documentais claros. A observação ambiente foi o

eixo da

pesouísa

e a entrevista, o método Que emprestou

formalidade e visibilidade ao trabalho de campo

subsidi-ado, ainda, por um Diário de

Pesoulsa.

Fisicamente tra-balhamos com o Instituto Penal Paulo Sarasate (lPPS),

penitenciária de segurança máxima e maior presídio do Ceará (cerca de 25% da população carcerárla), hoje com

uma lotação superior a 200% da sua capacidade original.

Revisitondo a pirâmide

social

A socieda de tem o pr eso como lixo socia l, entã o

pega e joga lá dentr o dsouelc depósito, pr a sepa

-r a -r o lixo socia l de uma socieda de Q ue se diz

lim-pa e honesta . (...) A socieda de nã o Q uer Q ue o

pr eso sa ia do pr esídio.

É

uma exigência da

socie-da de Q ue ele ttoue pr eso, nã o inter essa como. (...)

Ioga lá , se mor r er , mor r eu, e a í? Q ua l é o va lor

Q ue va i ter um homem dsoucles pr a socieda de?

NMLKJIHGFEDCBA

É

um indigente Q ue ficou lá e só é

visto puendo

sa i,

se ele pega r a lguém, a ssa lta r a lguém, cometer a

l-gum delito. Aí é visto nova mente como monstr o e

se diz Q ue devia ser elimina do. A concepçã o é

essa .

(Edmundo Mulato?", Funcionário do

Siste-ma Penal cearense).

D ia nte de ta nta violência , de uma distr ibuiçã o de

uma r enda tã o desigua l com ta ntos, muitos nã o

têm opor tunida de de ter o seu espa ço na pir â

mi-de socia l.

(Geovaldo Pereira, presidiário do

Insti-tuto Penal Paulo Sarasate - CE)

A nomeação da prisão como

depósito

é notória.

Mas o Geovaldo aprofunda esta percepção Quando

clas-sifica o recluso como alguém Que nem mesmo tem

espa

-S Este depoimento e o próximo estão identificados nominalmente (com a devida autorização) pois as entrevistas dos citados foram trans-formadas em um capítulo da minha dissertação. onde seria

impossí-vel não reimpossí-velar suas identidades. Identificamos nominalmente, ainda.

os dirigentes (igualmente autorizado). De QualQuer modo.

entende-mos Q!Jeestes devem assumir o Que declaram. Os presos e

funcioná-rios entrevistados foram identificados com iniciais fictícias.

EDUCAÇÃO EM DEBATE

ço na pir â mide socia l.

Portanto, está excluído dela -

pelo

menos no desenho tradicional da pirâmide. De fato, o

ponto de vista do mercado - Que é um dos fundamen os

da sociedade capitalista - o delinoüente, enquanto

al-guém Que não produz, está

alíjado.

Do ponto de vista

moral o

delínoüente

é alguém Que transgrediu aos

valo-res instituídos. adotou uma prática

à

margem do Que é

societariamente aceito. E do ponto de vista do contexto

cultural Que comporta e alimenta políticas excludentes, o marginal não somente é indesejado, como é descartável.

É

banal a opinião Que

ma r gina l devia mor r er ,

ser sumaria-mente eliminado, como constata Edmundo Mulato.

Em todas as perspectivas, o marginal é alocado

for a .

E na pirâmide social.

enouanto

organograma

socio-lógico, há Que se criar um espaço onde seja possível visualizar a grande massa dos economicamente

excluí-dos e Que represente graficamente a

geogr a fia da misér ia

humana em expansão global diante da investida do Que

chamaríamos de "nova, velha ordem econômica." Viviane

Forrester (1997) tem uma visão particularíssima:

A ma ssa de excluídos em todo o mundo

consti-tuir á um for midá vel dinossa ur o Q ue a economia

moder niza da elimina r á como inviá vel a o Esta do

neoliber a l. Nã o se tr a ta de um spocsltpsc, ma s

de um novo eixo da histór ia . Só os melhor es, os

economica mente a r ia nos, dever ã o sobr eviver . O s

nã o a r ia nos for ma r ã o o gueto - e como a ma

nu-tençã o de um gueto é um pa r a doxo econômico

(pr a Q uê pr oduzir pr a Q uem nã o pode

p r o d .

-zir ? ), a soluçã o a médio ou a longo pr a zo ser á o

exter mínio em ma ssa . Menos custos e

'ÍS

nefícios pa r a os ba la nços de gover nos e e

sa s

(orelha do livro).

Esta (pre)visão parece estar co e __

declaração do presidente Fernando

Her .

ouvi em um noticiário da televisão i e

dei a data nem a emissora), a dec

tem cerca de Quarenta milhões

de

.J)e!i.SO<!S

- cidadãos para os

ouais

não

nenhum. Sobre a posição do massa de excluídos, ele

af

tão para a igreja e para a milhões de brasileiros estéo

0r a

como trabalhadores.

A prisão

é

I e classe.

É

princípio

constitucional Que

todos sã o igua isper a nte a Lei.

Isto

pos-a

oues-o, Quarenta os do governo

2001

39

(3)

to. era de se esperar Q!.Ie para as prisões convergissem

indivíduos de todas as camadas sociais. o Que não é verda-de: não existem ricos nas prisões.

É

como se não houvesse infratores nessa categoria. A fala de presos e funcionários é subsidiada por noções bastante claras da dimensão de

classe das prisões. com rloueza de pormenores:

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

o

pessoa l Q ue tem dinheir o, a elite, nã o ca i na pr isã o.

tsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

A pessoa Q ue tem posse fina nceir a . Q ua ndo comete

um cr ime. dispõe de bons a dvoga dos pa r a defendê-

NMLKJIHGFEDCBA

1 0 . (...)

Nã o sei se existe cor r upçã o na justiça , nã o

Q uer oentr a r nessa Q uestã opor o»: nã o conheço. P a r a

mim. a té Q ue se pr ove em contr á r io. o r ico nã o vem

pr a ca deiapor Q ue dispõe de bons a dvoga dos enousuo

o pobr e pega os defensor ~públicos

(Uno Mendes.

diretor de Segurança e Disciplina).

90% dos presos tem uma condição tão precária mesmo

Que

(os fa milia r es)

às

vezes não têm um real pra vir visitar. Não tem condição. E aoueles 10% restantesnão

são ricos não. tem uma condição melhor

(11.

preso).

Como o gover no nã o tem pr eocupa çã o com o povo,

a Q uele pessoa l Q ue tá excedendo o limite de

em-pr ego, va i cor r er o r isco de ca ir na ma r gina lida de.

l.11ifinda r vindo pr a ca deia . Q uer dizer ; o Sistema

P ena l começa lá for a mesmo

(ST. funciocário).

o

desempr ego lá for a tá muito gr a nde. O sujeito

nã o tem o Q ue fâ zer ; nã o Q uer deixa r a fâ mília

mor r er de fome, a í pa r te pr o Q ue der e vier . Eu

cr eio Q ue seja a ssim. A culpa é do gover no

mes-mo. (...) Eu a cr edito Q ue a ma ior pa r te de pr

esidi-á r ios é vítima do desempr ego

(KL. presidiário).

Má distribuição de renda. desemprego.

abando-no. marglnalízação. desespero. Miséria. mais Que po-breza: uma

condiçã o tã o pr ecá r ia Q ue os fâ milia r es à s

vezes nã o têm um r ea l pr a vir visita r

o parente preso.

Estes são alguns dos indicadores. apontados pelos en-trevistados. em uma declinação sociológica e contextual

das pessoas Que estão presas e cujas perspectivas de vida livre são muito precárias. Como entende o

funcio-nário ST. o

Sistema P ena l começa lá for a .

E se prolonga

depois da conoulsta do alvará pois. segundo constata um funcionário. o preso não Quer voltar a delinoüir mas

não consegue sobreviver com um mínimo de dignidade

no mundo livre:

40 •

EDUCAÇÃO EM DEBATE • FORTAlEZA ANo 22

Q ua ndo o ca r a va i sa ir ; cha ma m e r ebola m ele lá

for a , só fâ zem joga r o ca r a lá for a mesmo. Ele sa i

todo desba r a tina do, nã o sa be o Q ue fâ zer .

Em-pr ego, nã o va i a r r a nja r nunca . Se é la dr ã o va i r

ou-ba r de novo pr a poder se a limenta r ; a í va i tor na r a

vir pr a ca deia . l.11ivolta r o mesmo pr oblema , nã o

va i ter r esolvido na da

(MN. funcionário).

Não ter espaço na pirâmide social é extensão do

alljarnento do sujeito do espaço societário.

o

último lugor sociol e o lei do eterno retorno

Mais Que uma instituição de classe. a prisão é o

locusde

consumação da exclusão social.

É

o último lugar da sociedade. onde a exclusão se concretiza de forma

plena e contundente. Na prisão a exclusão tem espaços

geográfico e sociológico determinados. orientação

teó-rica. metodológica e filosófica particulares. Tomo o

více-diretor. coronel Edmilson Gomes. como porta-voz de uma

corrente de orientação bastante comum nas prisões:

l.fJ cêtem Q ue impla nta r no pr eso a disciplina

cons-ciente. Essa conscientiza çã o de Q ue ele é um pr

e-so, de Q ue o tr a ba lho, por exemplo, é pr a r emissã o

de pena l'

dele. (...) Veja o seguinte: existe a Q uela

/a br ica de bola s, os pr esos estã o sendo usa dos

nã o é por ouc só eles sa iba m fâ zer nã o. Tem muita

gente desempr ega da lá for a Q ue ia fâ zer esse

mes-mo tr a ba lho, ta lvez a té por menos. Você tem Q ue

mostr a r pa r a o pr eso Q ue é ocupa çã o pr a ele,

ocupa çã o Q ue, pa r a o univer so de Q ua se mil pr

e-sos Q ue nós temos, é pouco

(grifos nossos).

Argumentos desta natureza. embora não sejam

consenso no segmento funcional. são aceitos com

apa-rente naturalidade ou. pelo menos. com a aouiescência

do silêncio da maioria (e dizem Que Quem cala

consen-te). Mas o resultado é Que um grande número de

funcio-nários ficam. anos a fio. freoüentando o expediente de

serviço sem motivações. sem clareza da sua própria

fun-ção. O Sistema Penal é um lugar apartado da sociedade.

talvez o último lugar. também para Quem trabalha nele.

Cada expediente de serviço é um parêntese em Que o

6Remissão de Pena - recurso jurídico Que dá direito do preso elimi-nar um dia da sua pena a cada três dias trabalhados por ele na prisão.

(4)

s e r v id o r

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

se afasta do meio social. Excelentes profissio-nais findam sendo subutilizados, desvalorizados,

desper-diçados. Os funcionários ressentem-se deste degredo

profissional, guardam marcas, mágoas profundas, dores

caladas, estresse, alguns chegam ao limite:

tsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Nã o supor to ma is o Sistema P enitenciá r io. Se eu

tiver Q ue continua r nele vou tszer o meu ser viço

com toda dignida de possível ma s lã lta a Q uem

a pela r . lã lta a poio.zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

O

meu desejo gr ita nte

é

ser

ouvida , ser escuta da como pessoa Q ue tr a ba lha ,

Q ue conhece pr ofunda mente o seu tr a ba lho e o

sistema pena l. ma s vive ignor a da

(S, funcionária).

D cdiouei a minha mocida de, a s minha s ener gia s,

a minha vida a isso a Q ui. H oje tenho a sensa çã o

de Q ue joguei pa r te dela for a Q ua ndo nã o fui à

luta de ver da de por outr a coisa . Sempr e pensa va ,

sonha va , ma s me a comoda va e fui Ilca ndo, fui

11-ca ndo ... Eu pa ssei ma is tempo dentr o de 11-ca deia

do Q ue a ma ior ia dos pr esos. Nunca fui r

econhe-cido, nunca o meu esfor ço foi nota do, nunca o

meu tr a ba lho foi olha do. H oje eu chego a Q ui na

Secr eta r ia e nã o sou bem a tendido. Existe pouca

difer ença entr e pr eso e Q uem tr a ba lha com pr eso.

Vou ca r r ega r essa fr ustr a çã o pr a o r esto da vida

(desabafo de um funcionário aposentado).

O Quadro de descuido, não somente com o preso mas, também com o funcionário, é demonstrativo de uma

filosofia e de uma metodologia de trabalho.

É

cultura

institucional. Uma cultura Que finda empurrando presos

e funcionários para o rol de uma exclusão

comparativa-mente diferenciada, mas sempre exclusão. O Que produz

o trabalhador carcerário? Qual o retorno do seu trabalho

pra sociedade? A forma como funcionam as prisões. no

seu conjunto, redunda em resultados depreciativos

so-bre o próprio trabalhador carcerário. sobre suas tarefas

e o cumprimento da função educativa e ressocializante

junto ao preso.

A prisão é um território sem fronteiras, lugar ex-tremo, de onde não se pode mais prosseguir. A única

alternativa é retomar ao ponto de origem -

à

própria

sociedade. Essa condição limite produz o discurso da

r einser çã o socia l.

da

r essocia liza çã o

do preso. Todas as

v e z e s Que ele for preso, voltará a ser

objeto do discur so

da ressocíallzação. Toda v e z Que for libertado, ele perde

esse privilégio. O paradígrna da ressocialização é idéia

chave na retórica institucional:

EDUCAÇÃO EM DEBATE

A funçã o da pr isã o

é

r essocia liza r o indivíduo.

pr isã o funciona pr a punir o indivíduo, a fa sta r do

convívio socia l o infr a tor e, a o mesmo tempo, r

e-cuper a r esse elemento, ca pa citá -Io pr a conviver

nova mente no seio da socieda de

(Uno Mendes,

diretor de Segurança e Disciplina).

Todo o discurso da ressocíalízaçâo se esvai a um

olhar superficial sobre a realidade carcerária. Sobra

ape-nas a função punitiva: o afastamento compulsivo, os trau-mas produzidos pela perda repentina da liberdade e todos

os rituais degradantes Que se seguem.

É

difícil para

QUal-Quero b s e r v a d o r avaliar a extensão das perdas produzi-das pela experiência do cárcere. Poucas situações humanas

d e v e m ser tão dolorosas e depreciativas Quanto a prisão: O

infer no nã o

é

noutr o luga r ma is longe nã o,

é

a Q ui

mesmo.

Esta

constatação

de um presidiário chamado Alex

é moeda corrente na coletividade encarcerada.

Do último lugar social ou do inferno, fato é Que o

preso voltará sempre ac o n v iv e r conosco. Toda v e z Que

ele retomar

à

prisão, tornará ao

seio da socieda de,

cum-prindo um ciclo de idas e vindas - Que para muitos, se

repete sempre. Como ele tornará

à

prisão e, principal-mente, como ele

retomará

ac o n v iv e r com a sociedade.

diz muito mais respeito a cada um de nós, do Que supõe av ã filosofia da reclusão.

Uma questõo de segurança

A primeira QUestão Que colocamos aos nossos trevistados foi QUanto

à

significação social das

prisões:

o

Q ue sã o a s pr isões r ea lmente? Q ue funções ela .sa snpa m

na socieda de?

A associação mais imediata a

metidos é a sua função aparente, a sua feição

rervJ!lSl!;l-da - a segurirervJ!lSl!;l-dade social. as represen

ões

institucionais a idéia mais articulada

associa a

&.ãler~são

"segurança pública" a urna (boa) in

enção: re:sro25za!

ressociallzação complementaria, com .~-an:t.ias

da segurança social. Se no primeiro momer.to

ciona como recurso drástico

ra

ínterromoer

delituosa, os procedimentos silllSelC!9<:rJc=s

cução da pena - deveriam ser prtlGlOOOlS (re)orientar o preso. levá-lo a oerceoer

a sua vida e não voltar

a

d

encarceramento

dese:m'ClIve

conter, momentaneamer. e. o delinQ9er1tl

porada

de cumprimento

UQ ,,,,",I'"

(5)

ção

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

interna haverão sido inúteis. O preso está "livre" para {sobre)viver como puder.

O pressuposto da

tsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

r essocia liza çã o

é instruído em

uma retórica triangulada por outras duas idéias basilares:

puniçã oe

cor r eçã o.

Estas ações - dedicadas

à

intenção "regeneradora - resultariam em um movimento

unidirecional de corrigir pela punição." Essa

fór mula

tem a lógica de uma eouação matemática:

r essocia liza r

NMLKJIHGFEDCBA

=

punir X cor r igir .

Não se aplica ao campo

sociológi-co. Em uma perspectiva humanitária ÁlS vértices deste

triângulo apontam para linhas divergentes. Os

movimen-tos orientados no sentido da correção e da punição.

têm um cruzamento perigoso. principalmente. Quando

contextualizados em um ambiente de segregação.

sedimentado em preconceitos e estigmatizações. A

in-tenção de corrigir pela punição. ou de punir para

corri-gir. finda estagnando em uma ação meramente

repressora. Em princípio. penso Que a triangulação

co-erente para

r essocia liza çã o.

teria um desenho mais

har-mônico com

educa çã o

e

cida da nia .

O papel das prisões é articulado de forma conflitante na oralidade dos atores:

Eu entendo mesmo pelo Q ue os livr os já dizem: é

a r essocia liza çã o do pr eso

à

socieda de. A funçã o

da s pr isões é essa

(Cel. Gomes. vice-diretor).

Entendo Q ue o pr eso está da ndo uma jU sJ iflca tiva

pa r a a socieda de. Se ele delinQ üiu lá for a , ele tem

Q ue pa ga r pelo Q ue fez. Ele deve busca r os seus

dir eitos, seus dever es. P r incipa lmente os dever es

e cumpr ir pelo Q ue ele fez

(Dr. Luís Airesvaldo. diretor).

Eu a cr edito Q ue o pr esídio na socieda de é um

se-tor pr a cor r igir o er r o de uma pessoa . Imi ser vir

pa r a a br iga r a Q uela pessoa , como pr a punir , por

-Q ue ele lâ lhou com a socieda de: por ignor â ncia

ou por necessida de, de ouslouer ma neir a ele se

enver edou pela vida do cr ime. Entã o o pr esídio é

um loca l pa r a ma nter essa pessoa lá

(AB.

funcio-nário. Grifos nossos).

Poucos funcionários escapam ao espírito

corporativo e tendem a um discurso legitimador. Parece

tratar-se de uma atitude automática. Quase de

autodefe-sa. Uma associação evidente nas suas falas relaciona a função da segurança social

à

ressocialização do infrator.

Argüem

os livr os.

ou seja. a teoria. embora a prática não resista ao menor ouestlonamento. As prisões cumprem a

FoRTALfZA ANo 22 V.I

função de ressocializar? Perguntei ao coronel Gomes. Tão

diretamente Quanto recorreu

a o Q ue os livr os dizem,

ele

respondeu Que não.

O entendimento de Que o preso tem

pr incipa

l-mente dever es

e deve

pa ga r pelo Q ue fez

é largamente

consagrado. E a visão da prisão é até mesmo suavizada

como um

loca l pa r a a br iga r

a pessoa Que falhou com a

sociedade.

como pa r a punir .

Esse tom [ustlflcador

pare-ce irresistível na retórica institucional. Mas as mesmas

pessoas. Quando Questionadas. em geral externam

facil-mente seu real posicionamento e chegam a demonstrar

indignação com a realidade

dos

fatos. Entendemos Que

essa contradição flagrante na fala de dirigentes e

funcio-nários é subsidiada por uma cultura instituída. por aco-modações hlerárouícas, pelo espírito agremiativo ou pelo

"dever" de não falar mal da

corporação.

A mesma Questão dirigida aos presos mostrou

Que a culpa é um sentimento naturalizado.

profunda-mente arraigado. A prisão é um instrumento de

puni-ção Que o preso admite. assumindo. incontinenti. o ônus de Que

er r ou e tem Q ue pa ga r .

Mas naseqüência

imedi-ata ao pragmatismo do

mea culpa ,

negam a "função

regeneradora" da prisão. tão reoulsitada na fala dos

di-rigentes e funcionários.

Se o sujeito er r ou tem Q ue pa ga r pelo Q ue fez.

Agor a ta mbém nã o é só ele tá pr eso Q ue va i lâ zer

dele um cida dã o

(KL. presidiário).

Eu estou sou! pa r a pa ga r uma dívida junto

à

socie-da de. Agor a , sou! dentr o nã o lhe dã o opor

tuni-da de de você se r egener a r , nem de se r essocia liza r .

P r a os funcioná r ios pr eso é pr eso. E pr eso é dois

zer os

à

esouer ds

(CD. presidiário).

Quanto ao papel Que a prisão cumpre de fato. é dito de forma taxativa:

..pr isã o nã o devia nem existir , em pr imeir o luga r

por oue nã o r ecuper a pr eso. Se r ecuper a sse

nin-guém volta r ia . Ma s ela comba te o cr ime, né?

Se-gur a nça pr a socieda de. A pr isã o lâ z isso e muita s

outr a s coisa s ta mbém. Como por exemplo, se nã o

existisse pr isã o nã o existia polícia . (...) A ba se da

r ecuper a çã o nã o existe. E Q ua ndo sa i, a socieda

-de nã o a ceita ma is souek: pr eso. O pr eso nã o tem

opor tunida de de na da

(QR. presidiário).

A funçã o da s pr isões na socieda de devia ser pa r a

cor r igirsouek: delito Q ue o pr esidiá r io cometeu. Ma s

(6)

na s pr isões br a sileir a snã o existe isso, nã o existe um

tr a ba lho bá sico feito em cima do pr eso

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

(I/' preso).

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

o

preso QR. com uma acuidade de presidiário de longa data, em um prenúncio foucaultiano, atina Que

se nã o

existissepr isões nã o existiapolícia .

Recordemos Foucault:

A socieda de sem delinQ üência foi um sonho do

século XVIII Q ue depois a ca bou. A delinQ uência

er a por dema is útil pa r a Q ue se pudesse sonha r

com a lgo tã o tolo e per igoso como uma socieda

-de sem -delinQ üência . Sem -delinQ uência nã o há

polícia . Esta instituiçã o tã o r ecente e tã o pesa da

Q ue é a polícia nã o se justifica senã o por isso

(1995: 137).

Quando Questionados QUanto

à

concretização da função educativa da prisão, há uma generalização dos entrevistados em não reconhecê-Ia - pelo menos não em uma perspectiva libertária. Destacamos porém, Que as prisões sempre executaram uma dimensão educativa fun-dada na pedagogia do autoritarismo e nos cerceamentos da construção do sujeito22 - é o Que declinamos como

peda gogia da despossuiçã o.

Há unanimidade da compreensão de Que o encarceramento em si não é recurso eficiente, nem sufici-ente, ao cumprimento do objetivo da segurança pública:

.

Ela a pena s a fá sta o indivíduo, pr iva -o da

socie-da de, a fá sta ndo por a lgum tempo. No

momen-to, a s pr isões só fá zem mesmo é a pr esenta r ma is

pr oblema s

NMLKJIHGFEDCBA

p o r q u e

o elemento sa i ma is per icu/oso

da ca deia

(Uno Mendes. diretor de Segurança e Disciplina) .

A pa r te de punir , pune

p o r o u e

fá z o pr ocesso, o

julga mento, tudo. Ma s pr a r ecuper a r , o númer o é

muito

p e q u e n o .

insignifica nte. (...) Nessa pa r te a í

o Esta do fá lha

(AB, funcionário).

Ser ve, exclusiva mente, como cá r cer e. A

meto-dologia usa da nã o per mite uma r ecuper a çã o. O s

númer os estã o a í pr a pr ova r : o detento pa ssa oito,

dez a nos r ecolhido, pa ssa dois, tr ês meses em

li-ber da de, r etoma . P or Q uê? P or oue nã o houve

ne-nhuma r ecuper a çã o no per íodo

de cá r cer e. O

7Entendemos por SUIEITO o indivíduo com um mínimo de possibi-lidades de realizações pessoais. de autodeterminação, de criatividade

e de expressões no campo intelectual e material. mesmo

Q.uecircuns-critas a limitações e a circunstâncias imediatamente adversas.

cá r cer e só ser ve mesmo como puniçã o, nunca

como r ecuper a çã o de ninguém

(SI. funcionário).

Opr eso nã o é tr a ta do como pessoa . Ele é tr a ta do

como um excluído e, mesmo excluído, excluído

de última ca tegor ia .

É

joga do na pr isã o e ninguém

Q uer sa ber dsouek: pr eso

(EM, funcionário).

o

diagnóstico Que as prisões não cumprem a fun-ção social da (re)educafun-ção e da reintegração social do preso - e

conseqüentemente

da seguridade pública - é, talvez, tão antigo Quanto o próprio instituto carcerário. Novamente, Foucault nos ajuda a vislumbrar as interserções sociais entre delinoüência e poder:

Nã o se pr ocur a va r eeduca r os delinQ üentes, tomá

-Ia s vir tuosos, ma s a gr upá --Ia s em um meio bem

definido, r otula do, Q uepudesse ser uma a r ma com

fins ideológicos. O pr oblema , entã o, nã o er a

na r -Ihes a lguma coisa ma s, a o contr á r io, nã o

ensi-na r -Ihes ensi-na da pa r a se esta r bem segur o de Q ue ensi-na da

poder ã o fâ zer sa indo da pr isã o. (...) O Q ue tor na a

pr esença policia !, o contr ole policia l toler á vel pela

popula çã o se nã o o medo do delinQ üente? (...)

Acei-ta mos entr e nós essa gente de unifor me, a r ma da ,

enousnto nós nã o temos o dir eito de o esta r ; Q ue

nos pede documentos e Q ue vem r onda r a nossa

por ta . Como isso ser ia a ceitá vel se nã o houvessem

os delinQ üentes? (

1995: 134

e

137).

Diante do Que diríamos ser um

Q ua dr o

e

disfunçã o congênita

da organização carcerária esao-namos os nossos interlocutores se as prisões - _ imperativo social:

a s pr isões sã o

in d is p e n s ii

da del

Sim! Disseram todos os interpelados, a começar

pelos presos:

É

lógico Q ue sã o indispensá veis. Em todos

0 5

a

s-pectos. Eu concor do com a socieda de,

fXXQ !

e se

eu tiver uma ca sa , minha fâ m/lia e entr a r um

fT 1 3

f-gina l dentr o da minha ca sa eu nã o

'O U ostu:

in-guém va i a ceita r

(CD, preso).

A pessoa Q ue ma ta por

p a v e r s d s d e . Q !J e

estupr a ,

Q ue luta com dr oga Q ue hoie a gente

a ca ba ndo

com o povo, tem Q ue ser pr eso mesmo

Kl,preso).

Se nã o tiver pr isã o é o ca os. P r a Q ue ia ser vir o

poder de polícia ? r em

Qi

e ter pr isã o

p o r o u e

exis-te esse pessoa l da pir â mide

s o c is l.

tem Q ue ter a

r eclusã o

(Dr. Luís, diretor).

(7)

----~---~---~---"

-_._.---

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Todos os sujeitos admitem as prisões como

tsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

uma

Q uestã o de segur a nça .

Mas não é possível desconhecer

Que os efeitos colaterais e retardados do

r emédio,

com-prometem profundamente o efeito imediato Que ele

ofe-rece. Remédio de forte efeito tópico, para uma dor

localizada, mas Que mais tarde produz um câncer do QUal

ninguém está a salvo.

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

É

relevante, ainda, observar como estamos

con-dicionados

à

idéia, de Que

o poder de polícia

e a prisão

se destinam para

esse pessoa l da pir â mide socia l

confor-me expressão do diretor, dr. Luís.

É

notória a associação de marginalidade e violência explícita a pobreza.

Induzi-mos e reproduziInduzi-mos este pensamento de forma Quase

irrefletida, rnaquínica.

É

patente Que há o

outr o pessoa l

da pirâmide mas nunca associamos a este segmento a

necessidade do

poder de polícia ,

nem da existência de

prisões. Outro entrevistado faz uma referência muito

lú-cida Quanto ao papel da polícia no

r efer endum

à

segmentação social:

NMLKJIHGFEDCBA

É

cultur a l, Q ua ndo a polícia va i ter com um cida

-dã o escla r ecido, de um bom nível socia l, ela usa o

poder D E polícia ma s Q ua ndo ela va ipr a uma Iâ

-vela usa o poder D A polícia . E nisso va i a gr a nde

difer ença

(Edmundo Mulato, funcionário.)

Muito além e aquém dos muros

U ma penitenciá r ia de a lto por te pa r a r eclusã o é

uma coisa muito degr a da nte

(AS, funcionário). O

IP P S é uma penitenciá r ia pesa da , de segur a nça

má xima . U ma penitenciá r ia de a lto r isco

(Uno

Men-des, diretor de Segurança).

Um mundo emparedado. Essa imagem comum Que

as prisões nos oferecem é reproduzlda, além dos muros,

no cotidiano carcerário. São inúmeras as barreiras

inter-nas, as segregações secundárias, os procedimentos

monocórdios e os mecanismos totalitários impostos pela rotina carcerária. Um microcosmo apartado da

socieda-de, cercado, cerceado por uma aura de mistério e de

incompreensões, pelo medo e pelos preconceitos QUe o

relegam ao estigma e ao abandono -

à

morte social.

Contudo, o aspecto sombrio e de desolação Que

sugere a simples observação externa das muralhas de um

presídio e todas as suas amarras internas é contradito

pela pulsação febril Que tensiona a coletividade

encarce-44

EDUCAÇÃO EM DEBATE FORTALEZA ANO 22 V.I

rada, movida, certamente, pelo mais elementar impulso

Que mobiliza o homem: o desejo de liberdade. A febre de liberdade e uma esperança calada, mesmo Que

remo-ta e remo-tardia, são praticamente os únicos recursos

inteira-mente seus ainda disponíveis ao presidiário. E certainteira-mente,

também, os mais poderosos antídotos QUe alimentam a

vida contra a morte cotidiana. Morte e vida são parâmetros arnbívalentes. muito próximos, na prisão:

A pessoa pr esa se sente Q ua se mor to.

É

a ssim do

jeito Q ue eles pensa lá for a . Se a pessoa bota r na

ca beça : 'sh, eu

t ô

sou! a ma r r a do, nã o vou ter ma is

a cesso lá for a ... 'Nã o.

Todos nós sa i. Todos va i

ter o dia de sa ir .

É

só ter pa ciência , ma nter a ca

l-ma Q ue a gente um dia va iga nha r a liber da de

(EF. presidiário).

A fala do EF desenha horizontes da vida na pri-são:

Q ua se mor to, a ma r r a do, sem a cesso.

Quase tudo

QUe representa pulsão de vida habita além dos muros. Mas, na

seqüência.

ele indica as chaves do enigma da

sobrevida intramuros: uma resistência contida, Que

pre-cisa ser homeopaticamente aprendida e longamente exer-citada:

pa ciência , ca lma , cer teza de ter o dia de sa ir ,

ga nha r a liber da de. É

em função disso Que vive o

prisio-neiro: manter-se vivo (também literalmente),

desvenci-lhar-se de amarras, descobrir ou inventar veredas de

autopreservação, a cada dia. Mas a chave Que vai

salvá-10

de ser devorado pela esfinge da segregação, é com-preender significados. A presente pesouísa nos deu

oportunidade de constatar, repetidamente, Que o

presi-diário os compreende. Ele não rejeita simplesmente o

encarceramento. Pelo contrário, ele o entende e até

mes-mo o admite comes-mo justo. Contrariamente ao Que

preferi-mos acreditar, o preso se entende, se projeta e raciocina

como ser social participante. Tem consciência do seu

lu-gar social e da responsabilidade dos seus atos. Um ex

presidiário ilustre constatou:

P a r a ele a socieda de er r ou e ele Q uis ca stigá -Ia .

O u, Q ua ndo nã o, o ca stigo Q ue ele, sim, teve, uma

vez cumpr ido é a utoma tica mente uma a bsolviçã o.

a ntes mesmo do ter mo, já se consider a ndo ele de

contss feita s com a socieda de

(Dostoievski. sd: I 9).

o comum das vezes, o preso não se enouadra

como a escória, como lixo social. nem vive

amaldiçoan-do a sociedade, até poroue tem família, outros afetos e

(8)

interesses lá fora e deseja Que a sociedade se preocupe

com eles:

tsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Eu estou sou! nesse bur a co sem fundo ma s a minha

fã mília tá lá for a .zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

O

meu desesper o todo é por oue

nã o sei como estã o se vir a ndo sem mim. D esconfio

Q ue eles nã o me conta m tudo Q ue está a

contecen-do pr a eu nã o pir a r de vez. Ma s sei ta mbém Q ue

tem gente boa Q ue se pr eocupa , Q ue dá uma for ça ,

a juda

(fala ouvida de um preso não entrevistado).

A mulher vem uma , dua s vezes, a í nã o pode ma is

vir por que nã o tem com o Q ue vir mesmo, tá

en-tendendo? Ela va i pr ocur a r da r de comer a os

fi-lhos lá for a . Aí o pr eso fica sou! dentr o doido,

r evolta do, pensa ndo mÍl e uma coisa s. Ela nã o tem

culpa por oa e você nã o deixou na da lá for a e ela

tem Q ue ir à luta

(KL. preso).

A revolta do preso é sempre interpretada como insubordinação. Os gestores não trabalham com a transversalidade família. Se justificam pela lndispcni-bilidade de recursos humanos e financeiros para dar aten-ção a este fator - como fazer acompanhamentos

à

situação familiar do preso? Mas o elo entre o preso e seus afetos é uma ponte e uma referência vital para ele. Os laços familiares devem. não somente ser preservados mas. em grande escala. serem ainda resgatados. A gestão carcerária encalha na crença de Que todo a sua problemática é in-terna aos muros do presídio. é inerente

à

manutenção. a vigilância e

à

contenção do preso. Nada do Que aconteça além dos muros lhe diz respeito. Não é verdade. Fre-ouentemente o Que acontece

dentr o

da prisão é mero prolongamento do Que (o)corre lá

for a .

embora nem sem-pre nos apercebamos dessa extensão subliminar do coti-diano das prisões.

D entr o

e for a

são dimensões transversais aos muros e

à

vigilância. Penso mesmo Que o mundo das prisões se alimenta muito mais do Que acon-tece no mundo da liberdade Que da sua própria rotina.

Sempre lembro de um caso de Quando eu trabalha-va na Colônia Agropastoril do Amanari. Naouela unidade penitenciária de regime sem i-aberto. periodicamente os presos têm permissão de passar uma peouena temporada de três a cinco dias com a família. Certa vez. um preso a ouern a direção creditava toda confiança, retornou nor-malmente do seu final de semana e, no dia seguinte, fugiu da Colônia. Ficamos intrigados. pois ele simplesmente poderia ter deixado de retornar. Acontece Que o preso

EDUCAÇÃO EM DEBATE

havia deixado a família com tantos problemas e portou a pressão psicológica. Bem Que o preso tudo certo: retornou. Queria oultar o pouco tempo restava da sua pena para sair de vez. Mas o Que '2 acontecendo

for a

tinha um apelo moral e emocional -imperativos para o pai e marido. Que ele sacrificou toda as

conouístas conseguidas como

pr eso de compor ta mento

exempla r .

durante anos. e

Q uebr ou o r egime.

a

seoüên-cía a uma fuga. a direção do presídio deve comunicar ao juiz das Execuções Penais Que o preso está evadido. Tam-bém

à

Delegacia de Capturas Que passa a procurá-lo como foragido da Justiça. Significa ainda uma

r egr essã o de r

egi-me.

do sernl-aberto (no caso. Quase concluído). para o

regime fechado. Significa retornar para a penitenciária cen-tral. ao IPPS. Não é coisa pouca.

No IPPS. onde fugas são Quase impossíveis - ou em oualouer presídio de segurança máxima - o preso com pro-blemas semelhantes acaba dando vazão

à

tensão por outras vias. Mais de mil presos com os mais variados tipos de pro-blemas e desvios comportamentais constitui-se. numa defi-nição de Dostoievski. em

per feita r econstituiçã o do tá r ta r o.

No regime fechado ou no sem i-aberto. o preso vive. de fato. em

r egime de esper a

da liberdade. Fantasia e superdimensiona os menores fatos Que o relacionem com o mundo livre. Essa ânsia de liberdade estabelece uma rejeição de posse ou pertença a oualouer coisa as-sociada ao cárcere. Até o tempo oue ele permanece pre-so é. na expressão de um reclupre-so.

um tempo empr esta do

a o dia bo.

E complementa em tom jocoso:

e olhe Q ue o

da na do já me tomou uma s boa s tempor a da s.

Novamente

Dostoievski nos dá o seu testemunho:

D etento nenhum vivia a li como em sua ca sa

ma s sim como "hóspede ", como uma

NMLKJIHGFEDCBA

Is s e

de pa

-r a da da sua existência . Mesmo souelcs Q ue pa -r a

sou! tinha m sido r emetidos por pr a zo per pétuo

nã o se a pla ca va m, per dia m-se em deva neios Q ua

n-to a o por vir (...) U ma impa ciência , uma sofr

egui-dã o for mida nda feita muita s vezes de esper a nça s

a bsur da s, tã o difusa s, Q ue nã o r a r o ma is pa r ecia m

delír io e de Q ue se chega va m a nutr ir mesmo a s

pessoa s de senso de r ea lida de ma is notór io. Isso

tudo da va à Q uele loca l uma ca r a cter ística toda

pr ópr ia . Nota va -se, Q ua se a o pr imeir o olha r . Q ue

ninguém supor ta va

souete

r ecinto

fid:218).

Em função de uma esperança incondicional. o pre-so suporta todas as restrições

na tur a is

da prisão:

coisa

(9)

de ca deia mesmo.

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Mas. não raro. chega ao seu limite ante a reincidência do descaso. do abandono. da

degra-dação e do esoueclrnento a Que é relegado.

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

É

contra a indiferença institucionalizada Que o preso se rebela. Ele

não Quer ter. como frisa o diretor.

pr incipa lmente

deve-r es.

os ouais reconhece e. via de regra. cumpre. Ele Quer ter também a

contrapartída.

o acesso aos direitos a Que faz jus. Quer ser tratado como deve:

Tem Q ue ter a pr isã o. Ma s o ca .Ia tem Q ue r eceber

os dir eitos Q ue o pr eso tem, tem Q ue ser tr a ta do

como é pr a ser tr a ta do

(QR. presidiário).

É

notória. porém. uma orientação metodológica Que defende Que o preso já é tratado exatamente

como

mer ece.

É

comum ver alguém se irritar contra peouenas concessões feitas a um preso. o Que é classificado como

pr ivilégio.

A reivindicação de QR é mais comumente

en-carada como uma arrogância e ele. rotulado como

um

va ga bundo cheio de r a zã o.

Esse tipo de mentalidade se

contrapõe a qualquer gesto de atenção. de boa vontade. de tolerância. de afetividade e até de caridade em socor-ro ao preso. Religiosos e voluntários. muito freoüenternente, são antipatizados por funcionários e por gestores. A lógica vulgar é Que pessoas Que defendem valores humanitários são

defensor es de ba ndidos: Essa s

r ebeliões do IP P 5 a contecem por ca usa desfe pessoa l

dos D ir eitos H uma nos -

conforme opinião de um diri-gente de outro presídio cearense.

A sociedade parece cultivar em relação aos seus

reclusos. um sentimento de vingança Que se reconhece em nome de uma justiça espúria.

A socieda de e os Q ue ma nda m na gente a Q ui. Q

ue-r em ue-r esolveue-r tudo na poue-r ue-r a da , na pa nca da , na

ba la ... Ma s nã o é desse jeito Q ue se r esolve a s

coisa s nã o

(QR. preso).

Uma justiça parajudiciária da Qual o preso não escapa. apesar de estar - ou precisamente por isso - sob a tutela do Estado. Na sua

constatação,

QR se refere a um sentimento de "justiça" Que se reproduz como mato no cotidiano da prisão e cujo mérito seria espezinhar o preso. segundo escutei de outro detento:

AQ ui dentr o

ninguém tá sa lvo de humilha çã o, ninguém é dono nem

da vida da gente mesmo.

A prisão talvez seja a mais contraditória de todas as instituições sociais. pela sua condição fronteiriça

en-46

EDUCAÇÃO EM DEBATE FORTAlEZA

tre o Que a sociedade mais rejeita e o Que a própria soci-edade gera - aouérn e além dos muros - e gera continu-amente: a marginalidade. Nem poderia deixar de gerar. pela sua natureza intrínseca enquanto sociedade do tra-balho explorado e do lucro.

Há claras cisões entre a

necessida de

social da prisão (uma razão estabelecida além dos muros). a sua

funçã o

social (uma realidade transversal aos muros de

cimento e aos ideológicos) e a pedagogia realizada neste intermédio - uma realidade submersa intramuros. mas tacitamente corroborada pela sociedade. A pedagogia das prisões nega a própria doutrina jurídica Quando con-cretiza - plenamente e com méritos - a função de per-petuar a marginalidade na contramão da necessidade de segurança social. Somente compreendemos a ma-nutenção deste

sta tus

a partir da aferição dos interes-ses instituídos em uma sociedade de classe burguesa. Este paradoxo nos condena ao sortilégio de coabitar com uma dor Que nos atormenta. mas Que não pode-mos curar. Pior. necessitapode-mos dela. estabelecendo uma relação de negações e de dependência:

Isso a Q ui é uma instituiçã o

à

pa r te da socieda de.

NMLKJIHGFEDCBA

É

a única Q ue sempr e va i se ma nter , bem ou ma l,

por oue é obr iga da a se ma nter . A socieda de Q uer

extir pa r o Q ue nã o pr esta joga ndo a Q uidentr o (CD.

presidiário).

Mesmo com toda s a s pr eca r ieda des existentes a

pr isã o é essencia l pr a socieda de. P r incipa lmente

nos delitos Q ue ca usa m ma ior es tr a nstor nos.

Mes-mo se sa bendo Q ue um delinQ üente nã o va i se

r ecuper a r dentr o de uma penitenciá r ia . ele nã o

pode

continua r a gindo. Mesmo sem r ecur sos.

mesmo se sa bendo Q ue nã o existe tr a ta mento a

de-o u s d de-o ,

ele tem Q ue ser sisstsdo (ST.

funcionárlo).

Uma

instituiçã o à pa r te?

Duvido: me parece Que a separação da prisão e do preso do resto da sociedade é mera formalidade. é basicamente física. Quando mui-to. Quem trabalha em presídio sabe por ouantos ex-presidiários cruzamos na rua. Enflrn, existem muito mais

ma r gina is liber tos -: -

mas Que continuam prisioneiros

sociais - andando por aí. do Que dentro das prisões. Ou seja: os aprendizados Que a prisão realiza junto aos reclusos. transitam tanto pelas nossas ruas e bairros. Quanto em uma galeria ou pavilhão do IPPS. E a socie-dade vive tanto além. Quanto aouérn dos muros - uns de concreto e outros invisíveis - Que ela mesmo ergue.

(10)

Quanto ao indivíduo confinado. este guarda sua vida

muito mais além do Que aouérn dos muros. Que o

impe-dem apenas física e temporariamente.

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Despesa, Investimento

e Desperdício

Aprofundando o campo de compreensão do

pa-radoxo concretizado pelas prisões. já Que elas são

im-prescindíveis. Questionamos:

tsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

ss pr isões

r esolvem

pr oblema s socia is?

Resolvem nã o. (...) Na ver da de. cr ia m pr oblema s

gr a víssimos. D espesa : você sa be Q ue o IP P S ga

s-ta Q ua se tr ês sa lá r ios mínimos pa r a ca da homem

dsoueles por mês. E o ga sto com pr ofissiona is?

Nós pa ga mos e nã o r ecuper a .

O

pr oblema de r

is-cos socia is é nã o r ecuper a r o homem. Nã o há

es-tr utur a , o Esta do nã o cr ia meca nismos

NMLKJIHGFEDCBA

s d e o u s d o s .

A pr isã o em si, só va ijustifica r a vítima , a fà mília

da vítima e à pr ópr ia socieda de Q ue foi a !i-onta da .

O

Esta do só está da ndo uma sa tisfà çã o à socieda

-de

(Dr.Luís Airesvaldo. diretor. Grifos nossos).

Na teor ia , ma s na

p r it k s

nã o r esolve na da . As pr

i-sões ger a m ma is pr oblema s. O dinheir o Q ue o

go-ver noga sta com esse pessoa l é dinheir o inútil,por ouc

nã o está r essocia líza ndo ninguém... é t!linheir ode

imposto ga sto, joga do for a

(MN. funcionário).

Resolve de ma neir a pa r cia l pelo medo Q ue a

soci-eda de tem.

É

como souek: r emédio Q ue se toma

pr a dor e se esouccc do a ntibiótico pr a infecçã o.

O

ca ma r a da vem, cumpr e o ca stigo na ca deia e a

dor de ca beça volta Q ua ndo ele r etoma a o

conví-vio socia l. As pr isões, com cer teza , cr ia m pr

oble-ma s socia is por oue o ca r a vem pr a cá . à s vezes,

por um a to impensa do, e Q ua ndo sa i dsoa ), ele

sa i um doutor do cr ime

(ST. funcionário).

Nã o r esolvem! P r isã o só fà z esma ga r ! A funçã o

de pr isã o é a umenta r a cr imina lida de

(I/' preso).

Outra unanimidade: prisões não resolvem problemas

sociais. Pelo contrário. alimentam e aprofundam os

exísten-tes e ainda criam outros. Essa é a indicação genérica

dada

pelos nossos pesouísados. O

isola mento tempor á r ioser ta

inó-cuo se a temporada de cárcere não funcionasse. de fa o, como

estágio de especialização e pás-graduação no crime. Como

EDUCAÇÃO EM DEBATE

constata o dr. Luís. o

pr oblema de r iscos socia is

i!t:1 < lD 'J !JCd'

pr isã o é nã o r ecuper a r o homem.

Disso decorre

sões concorrem não somente para

a umenta r a

a u. nin;~n-mas para aperfeiçoá-Ia. Na prática. funcionam .

ponto de convergência de todas as modalidades de ati\'idaaes

delituosas. de personalidades distorcidas. patológicas e per-versas para o mesmo ambiente. E agora. não só

indívi

mente. mas associadas a diversas facções organizadas fOlCl das prisões. O encontro dessas entidades delituosas e de

in-divíduos. tanto pode resultar em conflitos e confrontos.

Quan-to em confraternizações e novas alianças criminosas. Em

oualouer dos casos. significa sempre problemas para o

gerenciamento interno e agravantes para a seguridade

públi-ca. O QUeé bastante grave. é Que nenhuma ação específipúbli-ca.

nenhum tratamento especializado é desenvolvido em função

deste Congresso do Crime em Que se tornaram os Sistemas

Penais.A não ser o tratamento repressivo.

Outro gênero de problema apontado é a Questão

da manutenção:

tr ês sa lá r ios mínimos mensa is por pr

e-so,

contabiliza o diretor.

D inheir o inútil, joga do for a

na

opinião do funcionário MN. Que logo esclarece seu

jul-gamento:

inútil por oue nã o está r essocia liza ndo ninguém.

A associação a desperdício está. portanto. relacionada

ao não cumprimento da tarefa ressocializante:

a dor de

ca beça volta Q ua ndo o pr eso r etoma a o convívio socia

l-uma responsabilidade Que se pretende atribuir. de forma

reducionista.

à

índole do sujeito.

Tecnicamente o Estado tem

despesa s

e

investi-mentos

com os presos. Na linguagem contábil é consi-derado

investimento:

constr uir ,

a mplia r

e

eouipsr

presídios. Recursos designados ao trato - educação.

saúde. lazer - e manutenção do preso (basicamente

ali-mentação). é Que são considerados

despesa .

Essa

ter-minologia economicista sugere um caráter de prejuízo

à

destinação financeira com a educação. por exemplo. A idéia subliminar é Que

ga sta mos com pr esos.

o Que já

predispõe negativamente

à

destinação de recursos com

determinados itens de

despesa

Que finda ficando

restri-ta. basicamente. a alimentação e outros tópicos

assistenciais minimamente mantidos. Um funcionário

lembra:

essa

parte de

a limenta çã o é r esponsa bilida de

do Esta do, ma s a de educa r o pr eso ta mbém.

Enfim.

investe-seem

paredes e eouipamentos.

me-nos nas pessoas. Talvez esta prática seja parcialmente explicada poroue toda a linhagem de iniciativas sociais

dírígidas aos indivíduos. os investimentos no homem. têm

a desvantagem de não ter a visibilidade de um muro. E os

gestores precisam mostrar serviço.

(11)

Educação, saúde, cultura e lazer são

empreendimen-tos praticamente desconsiderados no mundo das prisões.

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

falência ou estratégia

de poder?

o

tsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

sistema penitenciá r io br a sileir o está /à lido e o

NMLKJIHGFEDCBA

E s

-ta do nã o tem sa ída s, nã o sa be como lida r com esse

pr oblema

(fala de um expert em entrevista naTV).

Nã o há inter esse do pr imeir o esca lã o da a r ma gover

-na menta l. O s ór gã os gover -na ;;enta is têm

conheci-mento da situa çã o e se nã o fa zem na da é por que nã o

Q uer em.

P o r o u e

nós sa bemos, a s pessoa s Q ue estã o

for a dos pr esídios, a s pessoa s Q ue escuta m noticiá r

i-os sa bem

(Cel. Gomes, vice-diretor).

Ignorando ou imputando responsabilidades, há um discurso Que atesta a falência do Sistema Penitenciário. Questionamos aos nossos interlocutores: se as prisões, notoriamente, não cumprem a sua tarefa fundamental. por Que se mantêm, década após década, com a mesma orientação, preservando o mesmo perfil de degradação, sem uma proposição séria de reestruturação? Os atores têm percepções vagas, olhares parciais, mas orientados na perspectiva dos interesses do poder:

Alguém tá tir a ndo pr oveito disso a I H oje nã o se

investe ma is na educa çã o, sa úde, essa s coisa s, nem

lá for a , ima gine dentr o do pr esídio. Ima gine o pr

e-so Q ue nã o vota . Entã o pr a os políticos nã o

inte-r essa ma is.

P o r o u c

um pr esídio nã o dá r etor no,

diga mos, fina nceir o

(MN, funcionário).

É

pr ópr io do sistema ca pita lista . O ca pita lismo

sel-va gem, só dos inter esses do Ca pita l. O pr eso só

dá despesa .

É

exa ta mente o ca pita l Q ue puxa a

política onde há o inter esse do voto, vem da í. O

or dena mento jur ídico-político nã o condiz por ooe

nã o há inter esse

(Dr. Luís Airesvaldo, diretor).

O

gover no junta mente com os empr esá r ios /à zem

o Q ue Q uer em! Nã o é uma Q uestã o de r ecur sos.

Recur so eles têm pr a Q ua lQ uer coisa . Só Q ue nã o

têm inter esse, pr eso nã o dá voto. (...) O Mor oni Big

Tor ga r i

J

só se elege dizendo Q ue nã o Q uer voto de

8Deputado Federal eleito pelo PSDB. hoje no PFL, ex-Secretário de Segurança Pública do Ceará. Foi candidato a prefeito de Fortaleza no último pleito Quando fez uma campanha fundamentada nos índices

de marginalidade e da violência, explorando o medo e a segurança como motes de campanha. articulando um discurso populista e com referências fascistas.

ba ndido. Cega a socieda de com isso, a r r a nja um

voto, dois, de uma pessoa consciente e um milhã o

de votos com a na l/à betos.

P o r o u e

a socieda de já

tem uma la va gem cer ebr a l, a ima gem for ma da

so-br e souek: homem Q ue tem Q ue pr ender . coa gir .

tem Q ue fica r na ca deia . (...) Só ga nha voto pr

ome-tendo pr ender . r epr imir

(1/, presidiário).

Além da vonta de política , /à lta a pa r ticipa çã o da

socieda de Q ue está a usente de um tr a ba lho Q ue

ela dever ia ter todo inter esse em pa r ticipa r . Até

por oue a ma ior vítima da violência é a pr ópr ia

socieda de, e o Sistema P ena l, do jeito Q ue

funcio-na hoje, funciofuncio-na como uma bola de neve

(Uno

Mendes, diretor de Segurança).

Acho Q ue é o desca so mesmo do G over no com

esse tipo de pr oblema .

É

desca so com a pobr eza .

É

difícil explica r o desca so (ST.

funclonárío).

P or Q ue se ma ntém? Nã o é necessá r io ter pr essa .

Q ua nto ma is lenta a coisa ca minha r .ma is o Br a silter á

homens Q uenã o têm ocupa çã o, homens Q uenã o têm

educa çã o, ocupa dos na cr imina lida de

(GP.presidiário).

O enfooue dos nossos interlocutores passeia por alguns sítios do poder, mas converge para os sistemas econômico e político. Mas é a política, enouanto instru-mento de interesses econômicos, Que tem maior visibili-dade para os nossos interlocutores Que se referiram, repetidamente, ao interesse do

voto,

à

vonta de política ,

à

pa r ticipa çã o da socieda de.

Sugerem uma linha de ar-gumentação: o

ca pita l puxa a política

cujo módulo operacional é o

voto,

e

pr eso nã o vota .

No todo das entrevistas, é forte a idéia de Que há

inter esses

Que subsidiam e perpetuam a degrada-ção. No entanto, o sujeito, os atores ativos, ficam indeterminados. MN não consegue nominar Quem

tir a ndo pr oveito,

pois é próprio do

modus oper a ndis

da sociologia capitalista determinar resultados ao mes-mo tempo Que dilui, confunde e dissimula os agentes e os métodos Que ficam implícitos, incompreendidos para a grande maioria das pessoas. No entanto. é clara a percepção de Que há um prejuízo generalizado, pois

a

pr ópr ia popula çã o nã o tem o pr ivilégio de coisa s como

educá çã o e sa úde.

Não poderíamos deixar de

identifi-car aoul a gênese das misérias do Sistema Penitenciário Que, relembrando um funcionário,

começa

lá for a ..

Quando responsabilidades e providências são cobradas

(12)

há um entendimento apenas imediatista. via de regra. às pessoas Que ocupam. momentaneamente. este ou

aouele cargo político ou administrativo:

tsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

As pessoa s Q ue escuta m r á dio e televisã o têm a

expecta tiva de Q ue ca da r ebeliã o seja a última .

Esper a m Q ue a s a utor ida des a dotem pr ovidência s

ma is enér gica s, mur em o sistema . Ma s nã o se /ã z

ma is do Q ue r ecuper a r o Q ue foi destr uído e volta

a funciona r como funciona va a ntes

(Cel. Gomes. vice-diretor) .

As autoridades constituídas - cada um assumindo um perfil individual como administrador. cada gestão imprimindo marcas particulares - avançam ou recuam

em aspectos pontuais. Mas o

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Q1 e os gestores e adminis-tradores do Sistema Penal têm mais ao alcance da mão e

o Que Ihes é mais imediatamente cobrado? Que

a dotem

pr ovidência s enér gica s, mur em o sistema .

A saída repres-siva é a Que mais prontamente pode ser acionada.

É

a mais cômoda também poroue enquanto mais rápida e visível for a demonstração de força. mais aparente é a impressão de Que estão sendo dadas respostas. de Que estão sendo tomadas providências e Que as autoridades não estão inertes. Reforça. por outro lado. a idéia de Que é impossível um diálogo com os presos. o Que justifica sempre novas e mais refinadas (às vezes nem tão) formas

y

de repressão. Lembro Goffman (1996:76):

Muita s Instituições Tota ispa r ecem funciona r a

pna s como depósitos de inter pna dos. Ma s se a pr

e-senta m a o público como or ga niza ções r a ciona is,

conscientemente

pla neja da s e como má Q uina s

eficientes.

Também é mais fácil aos gestores acomodarem-se aos vícios institucionais e à precariedade das circunstân-cias poroue talvez isso possa [ustiflcá-los.

Sobre o instituto cárcerário como forma de vigi-lância social. diz Foucault:

A pr isã o esteve, desde a sua or igem, liga da a um

pr ojeto de tr a nsfor ma çã o dos indivíduos. O s

tex-tos, os pr ogr a ma s, a s decla r a ções de

tntençio

estã o a í pa r a mostr a r . D esde o começo

3

pr isã o

devia ser um instr umento tã o a per feiçoa do

to a escola , a ca ser na ou o hospita l e

NMLKJIHGFEDCBA

3 P Í r G

pr ecisã o sobr e os indivíduos (...) F oi e

-houve, como sempr e nos meca nismos de poder ,

uma utiliza çã o estr a tégica dsouik: Q ue er a um

in-conveniente. A pr isã o /ã br ica dcllnoücntes ma s os

dehnoüentcs sã o úteis ta nto no dominio

econô-mico como no político. O s

dclmoã entcs

ser vem

pa r a a lguma coisa

(1995: 131.132).

A

mesma ideologia patrocina um enorme investi-mento econômico nos instrumentos de divulgação. nos veículos de comunicação de massas Que tornam a marginalidade e a delinoüência um espetáculo perma-nente. Há uma superprodução de páginas de jornais. pru-gramas de televisão e espaços garantidos em todos os veículos da comunicação de massas onde se alardeia Quão numerosos e perigosos são os dellnoüentes. A mídia é um braço dos poderes econômico e político.

Enouanto isso. as posturas políticas definitivas no sentido de se combater as formas produtoras e reprodutoras da exclusão social. da marginalização e da criminalidade são. indefinidamente. proteladas. esca-moteadas e negadas. Para não perdermos de vista essa orientação. é oportuno citar as principais funções Que cumprem as prisões. segundo o pensamento foucaultiano (1995:50):

• Alimentar contradições no seio da população. orientadas por uma contradição principal:

O por

os plebeus pr oleta r iza dos a os plebeus nã o

pr oleta r iza dos.

Ou seja. construir relações de

intolerância como forma de opor e dividir seg-mentos sociais afins.

• Permitir a repressão contundente aos indi

1-duos Que mais incomodam às instituições

1-gentes:

os Q ue esta va m ma is pr ontos a pa ssa r

à

a çã o imedia ta .

A repressão se justifica e se legitima pela construção de

esti

mas,

a

exa-cerbação do medo e pela se . e ção e m sentimento de lncornpreensão e ei o erâ

-cia capaz de criar

ísse ões

en re

pessoas da es suas

afini-da es, o

e ousarem contra as normas

FORTAlEZA

(13)

F a zer com Q ue a plebe nã o pr oleta r iza da a pa r eça a os olhos do pr oleta r ia do como ma r gina l, per igo-sa , imor a l, a escór ia do povo, a mea ça dor a pa r a a

socieda de inteir a

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

(/99

S: SO ). E a pr isã o foi o gr a n-de instr umento de r ecr uta mento. A pa r tir do

mo-mento em Q ue a lguém entr a va na pr isã o se a ciona va um meca nismo Q ue o toma va

intsmc

e, Q ua ndo sa ía , nã o podia

NMLKJIHGFEDCBA

Is z c r na da a nã o ser volta r a ser dctinoüentc. A pr isã o pr oflssiona liza va . (.. .) ... este meio dclinoüente bem fecha do, bem inflltr a do pela polícia , meio essencia lmente ur ba -no e Q ue é de uma utilida de política e econômica

nã o negligenciá vel (

zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

I 995: I 33).

Também é

ver da de

Que os gestores setorials. en-Quanto representantes do poder público são, muitas

ve-zes, abandonados ou mesmo pressionados por escalões superiores a adotarem determinadas atitudes, posturas, linha de conduta ou discursos. Premidos pela agudização dos problemas, pela imprensa e pela voz do povo, as autoridades e os técnicos responsáveis por adotar enca-minhamentos se deparam com um minguado Quadro de perspectivas. As possibilidades mais imediatas apontam sempre para uma

equação

numérica/Quantitativa no enfrentamento dos problemas. A

superlotação

no IPPS foi "resolvida" com a construção de mais um beliche em cada cela, antes individuais. D obr a r a

cspscidsde

de lo-ta çã o da penitenciá r ia de Q ua tr ocenta s pa r a oitocenta s va ga s, foi considerado um feito administrativo e contabilizado como crédito para a gestão.

Para QUestões cuja natureza é implícita mas cu]a dimensão material é contundente, como a violência e a reclusão, a lógica repressiva é a Que melhor se presta como alternativa: o aumento dos efetivos policiais, construção de

novos

presídios, o armamento e a modernização do aparelho repressor. Enfim: adotar medida s enér gica s, mur a r o sistema , como resume o coronel Gomes.

A saída é percebida apenas unilateralmente, pela

radlcalízação

da repressão. Medidas Que, a nosso

ver ,

afrontam mais Que enfrentam os impasses. Aprofundam os problemas na sua base e geram outros. A precarieda-de histórica com Que funcionam os aparelhos policiais frente à articulação do crime organizado e a decadência dos sistemas penitenciários brasileiros enouanto cresce a pressão dos organismos internacionais pelos Direitos Humanos, são

flagrantes

disso. A Questão certamente não é de

ver ba s,

mas da ideologia Que subsidia as políti-cas sociais e a definição de prioridades setoriais. Uno

50

EDUCAÇÃO EM DEBATE FORTALEZA ANO 22 V.I

Mendes, diretor de Segurança, cobra responsabilidades de outras setores:

A socieda de tem Q ue pa r ticipa r . isso eu cobr o

p o r q u e nã o se justiflca o gover no investir num ga lpã o desse a p4 pr a nenhum empr esá r io Q uer er pa r ticipa r . coloca r uma empr esa soui pr a ocupa r a mã o de obr a do pr eso e a o mesmo tempo ser uma fonte de r enda . (...) Épr eciso investir no ho-mem, é pr eciso, o ca minho é esse. E isso é r es-ponsa bilida de de todos nã o é só do Esta do nã o. Até p o r o u e essa s a s Q ue se encontr a m no inter ior da penitenciá r ia , na gr a nde ma ior ia , sã o vítima s desta mesma socieda de. Sã o vítima s!

Para além de equocões

numéricas

Isso a Q ui nã o va i muda r nunca ! Escutei isto, re-petidamente, da boca de presos e funcionários, durante toda a minha vida funcional. Este pensamento é o Que se poderia chamar desenso comum, no âmbito das prisões, onde se respira uma atmosfera de chumbo. Há ceticismo e descrença sobre as possibilidades do futuro.

É

particu-larmente significativo, porém, Que os funcionários fin-dam mesmo projetando essa desesperança em relação a si próprios, às suas expectativas pessoais

enouanto

tra-balhadores carcerários:

Nã o vejo Q ue a ca deia possa muda r . D esde Q ue entr ei sou! só vi a s coisa s pior a r em. E vã o pior a r ca da vez ma isp o r q u e a ca da dia chega ma is pr e-so e tem menos gente pr a tr a ba lha r . tem menos gente Q uer endo tr a ba lha r em ca deia . Eu mesmo a inda estou sou! p o r o u e nã o tenho outr o jeito

OL.

funcionário).

As desmotivações pessoais e a descrença dos fun-cionários na organização do sistema afetam profunda-mente o conteúdo e a for ma como essas pessoas encaram o seu trabalho, como o executam, como se relacionam com o preso e com os próprios companhei-ros. O mais comum é responsabilizar o funcionário por

9O entrevistado se refere a um galpão construído há cerca de três anos para sediar uma fábrica de castanhas mas Que permanece

inativado até hoje por falta de parceria. Havia parceiros articulados

em uma negociação inicial Quando foram feitos alguns contatos

polí-ticos, mas os parceiros propostos sumiram.

Referências

Documentos relacionados

A tem á tica dos jornais mudou com o progresso social e é cada vez maior a variação de assuntos con- sumidos pelo homem, o que conduz também à especialização dos jor- nais,

2 - OBJETIVOS O objetivo geral deste trabalho é avaliar o tratamento biológico anaeróbio de substrato sintético contendo feno!, sob condições mesofilicas, em um Reator

Para preparar a pimenta branca, as espigas são colhidas quando os frutos apresentam a coloração amarelada ou vermelha. As espigas são colocadas em sacos de plástico trançado sem

O presente trabalho foi realizado em duas regiões da bacia do Rio Cubango, Cusseque e Caiúndo, no âmbito do projeto TFO (The Future Okavango 2010-2015, TFO 2010) e

patula inibe a multiplicação do DENV-3 nas células, (Figura 4), além disso, nas análises microscópicas não foi observado efeito citotóxico do extrato sobre as

Neste estudo foram estipulados os seguintes objec- tivos: (a) identifi car as dimensões do desenvolvimento vocacional (convicção vocacional, cooperação vocacio- nal,

5 “A Teoria Pura do Direito é uma teoria do Direito positivo – do Direito positivo em geral, não de uma ordem jurídica especial” (KELSEN, Teoria pura do direito, p..

segunda guerra, que ficou marcada pela exigência de um posicionamento político e social diante de dois contextos: a permanência de regimes totalitários, no mundo, e o