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Cad. Saúde Pública vol.32 número6

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Academic year: 2018

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Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 32(6):eCO020616, jun, 2016 1 DEBATE DEBATE

Participação da população na prevenção

da leishmaniose visceral: como superar

as lacunas?

As autoras Andrea Paula Bruno von Zuben & Maria Rita Donalísio no seu artigo Dificuldades na Execu-ção das Diretrizes do Programa de Vigilância e Con-trole da Leishmaniose Visceral em Grandes Municí-pios Brasileiros apresentam a opinião de seis coor-denadores municipais do Programa de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral (PVCLV), no que diz respeito às insuficiências e dificuldades encontradas para a execução de medidas de con-trole da doença em seis grandes centros urbanos do país. Por meio de questionários, as autoras analisaram: (1) características epidemiológicas lo-cais, além de informações sobre a organização das equipes envolvidas no PVCLV; (2) diferenças entre diretrizes federais e realidades municipais e prin-cipais dificuldades encontradas; e (3) dificuldades na execução das diretrizes de prevenção e controle contidas no programa em cada município – me-didas referentes ao vetor, à educação em saúde e ao reservatório canino, priorizando questões sobre eutanásia.

A leishmaniose visceral (LV) é um problema de saúde pública no Brasil, onde estão concentrados 70% de todos os casos registrados na América do Sul. As estratégias estabelecidas no PVCLV funda-mentam-se no fato da ecologia e epidemiologia da doença serem bastante complexas, com o vetor apresentando elevada capacidade de adaptação a diferentes ambientes, inclusive o urbano, possibi-litando a reativação constante do ciclo de trans-missão. Nas áreas urbanas tal aspecto é potenciali-zado pela presença do reservatório canino que traz uma série de implicações.

A ocupação urbana desordenada, lacunas no saneamento e condições insalubres também con-tribuem e dão sustentação ao quadro que hoje ve-mos no país. É de fato um desafio para os serviços de saúde. Dos três pontos analisados pelas duas autoras destaco o terceiro que trata da prevenção e controle e participação da população.

1 Zélia M. Profeta da Luz

1 Centro de Pesquisas René

Rachou, Fundação Oswaldo Cruz, Belo Horizonte, Brasil. [email protected]

Engajamento efetivo da população na prevenção. Isso é possível?

No que diz respeito à participação da população há uma lacuna a ser preenchida. Trata-se do em-poderamento da população como partícipe ativo do processo de prevenção. É muito difícil que ha-ja participação efetiva da população na resolução de problemas coletivos se de fato esta população não for incluída no processo como protagonista. É preciso atuar de forma a incorporar as particu-laridades de cada contexto, de cada território, e criar processos dialógicos e participativos entre os membros da comunidade e os serviços de saúde e outros setores que seguramente terão de ser acio-nados, considerando a complexidade da doença. Por exemplo, para dengue em que a participação comunitária efetiva é um dos eixos fundamen-tais nas ações de vigilância e monitoramento do

Aedes, não se observa sucesso na participação da população ao longo de todos esses anos de pro-grama de controle. Para o Pedro Tauil 1, uma pos-sível explicação para esse baixo engajamento na prevenção do dengue é que o modelo desenvol-vido baseia-se em métodos verticais, que busca a eliminação do mosquito por meio de inseticidas, colocando a população como mera espectadora de ações previamente definidas. Gonçalves et al. 2 ressaltam que além da necessidade de se desver-ticalizar o modelo usado no dengue e imprimir práticas de educação continuada, é importan-te se desenvolver o senso de responsabilidade e não de culpa nos indivíduos, e o de promover o diálogo entre ciência e senso comum, a fim de que diversos conhecimentos sociais possam servir de suporte para a implementação de es-tratégias adequadas que levem em conta interes-ses, necessidades, desejos e visões de mundo de cada comunidade.

A Organização Mundial da Saúde 3, no relató-rio da última reunião de peritos sobre LV realiza-da em 2010, destaca que a mobilização social no sentido de mudar comportamentos da população requer estratégias eficazes de comunicação, des-tacando o diálogo permanente entre população e profissionais de saúde.

Carmo et al. 4 chamam a atenção para a impor-tância de se avançar na compreensão da doença, para além de características clínicas e epidemioló-gicas, contemplando a percepção de atores sociais diretamente envolvidos com a prevenção e o con-trole, e que esta compreensão pode contribuir pa-ra a efetividade destas ações. Neste artigo referido, foram identificadas dúvidas tanto da população quanto dos profissionais de saúde sobre a LV, bem como a culpabilização do indivíduo pela não ade-são a medidas, sobretudo, de manejo ambiental. Abordagens que destaquem o papel do ambiente

Debate sobre o artigo de von Zuben & Donalísio

Debate on the paper by von Zuben & Donalísio

Debate acerca del artículo de von Zuben & Donalísio

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da Luz Z. M. P. 2

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 32(6):eCO020616, jun, 2016

como promotor de saúde, em detrimento da pres-crição pontual de medidas ambientais específicas contra LV, constituem perspectivas importantes. Nas palavras das autoras, a abordagem sobre o ambiente enquanto espaço historicamente cons-truído e promotor de saúde, na prevenção e con-trole da LV, assim como de outras doenças endê-micas que demandam intervenções ambientais, em detrimento da prescrição de ações específicas para uma ou várias doenças, pode contribuir para que a população reconheça “seus problemas” em aspectos tratados pelas medidas de prevenção e controle propostas, o que eventualmente contri-bui para que as ações passem a “fazer sentido” 4.

Atuar de outra forma e com abordagens que privilegiem formatos que sejam dialógicos e par-ticipativos e que envolvam população e profissio-nais de saúde e quem mais for necessário é funda-mental para que haja engajamento da população e para, de fato, imprimirmos mudanças nos ce-nários que hoje se colocam. É fundamental ainda atuar para que tenhamos ambientes saudáveis e sustentáveis.

É trabalhoso, mas é possível e urgente.

1. Tauil PL. Aspectos críticos do controle do dengue no Brasil Cad Saúde Pública 2002; 18:867-71. 2. Gonçalves RP, Lima EC, Lima JW, Silva MGC,

Ca-prara A. Contribuições recentes sobre conheci-mentos, atitudes e práticas da população brasilei-ra acerca da dengue. Saúde Soc 2015; 24:578-93.

3. World Health Organization. Control of the leish-maniases. Geneva: World Health Organization; 2010.

Referências

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