UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO
FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS DA RELIGIÃO Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião
FILHO DO HOMEM: TRAJETÓRIA DE UMA IMAGEM
MESSIÂNICA DE DANIEL A cristologia DE Apocalipse de João
por
ANTÔNIO DE JESUS SILVEIRA LEITE
Prof. Dr. Paulo Augusto de Souza Nogueira.
Dissertação apresentada em cumprimento às exigências do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião, para obtenção do grau de Mestre.
São Bernardo do Campo, FEVEREIRO de 2006
FICHA CATALOGRÁFICA
Leite, Antônio de Jesus Silveira
Filho do Homem: trajetória de uma imagem messiânica, de Daniel a cristologia de Apocalipse de João / Antônio de Jesus Silveira Leite. São Bernardo do Campo, 2006.
150 p.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Metodista de São Paulo, Faculdade de Filosofia e Ciências da Religião, curso de Pós-Graduação em Ciências da Religião.
Orientação de: Paulo Augusto de Souza Nogueira
1. Jesus Cristo – Historicidade – Crítica e interpretação 2. Judaísmo primitivo 3. Bíblia – N.T. – Apocalipse – Crítica e interpretação 4.
Cristianismo – Igreja primitiva 5. Bíblia – N.T. – João – Comentários 6.
Bíblia – A.T. – Daniel – Comentários 7. Apocalíptica cristã I. Título.
CDD 228.06
A meus pais
Eloir Silveira e Antônio Ednir,
Razão e motivos de minha existência.
A Elaine Medeiros,
“Mais que ontem
menos que amanhã
será igual ao Infinito”.
AGRADECIMENTOS
A minha família do Mato Grosso do Sul que me apoiou em todos os momentos.
A Conceição (Friskies) pelo apoio nas horas difíceis.
Ao Professor Dr. Paulo Augusto de Souza Nogueira pela orientação e direcionamento para a pesquisa científica.
Ao Professor Dr. Milton Schwantes pelo encorajamento constante no primeiro semestre.
Ao Professor Dr. Geoval Jacinto da Silva pelo cuidado pastoral em todas as horas e decisões.
Ao Professor Dr. Vicente Carlos Rodrigues Alvarez Dobroruka pelas intuições.
A minha amiga sempre presente, Sirley da Biblioteca Bíblica Latino Americana – BBLA, por sua ajuda sempre constante em minhas pesquisas e pelo chimarrão.
Aos colegas do Grupo Oracula pela ajuda no desenvolvimento das pesquisas.
Ao IEPG sempre presente no apoio e fomento de minha pesquisa.
A CAPES pela manutenção de minha pesquisa.
A alguém chamado “Fortuna”, que saudades.
As funcionárias da Secretaria da Pós Graduação.
Ao pessoal da Biblioteca Ecumênica especialmente a Rita sempre compreensiva nos horários e pesquisas.
“Então, ouvi que toda criatura que há no céu e sobre a terra, debaixo da terra e sobre o mar, e tudo o que neles há, estava dizendo: Àquele que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos.”
Apocalipse 5,13.
LEITE, Antônio de Jesus Silveira. Filho do Homem: Trajetória de uma imagem messiânica, de Daniel a Cristologia de Apocalipse de João. São Bernardo do Campo: UMESP, 2006.
Sinopse
O tema a respeito do Filho do Homem foi pesquisado tendo como objetivo a identificação desta expressão com um personagem da história de Israel. Um novo olhar está sendo direcionado para o tema objetivando não mais a identificação de um personagem histórico senão que o desenvolvimento de idéias e re-significação das mesmas através de grupos sociais que projetam suas esperanças num futuro vindouro, em contraste com seu atual estado. O livro do Apocalipse nos capítulo 1, 9-18 contém a figura de um ser misterioso envolto numa simbologia judaica o qual João denomina “um como o filho do homem”. O aparecimento da expressão “Filho do Homem” ocorre no Antigo e Novo Testamento, mas também na literatura conhecida como Apocalipses Judaicos. Nos diferentes tipos de relatos encontrados a expressão designando um ser possuidor de atributos, funções e ofícios distintos, sendo que se reporta na maioria delas no sentido de realizar um cenário de julgamento, tendo como base o povo de Israel. O presente trabalho tem como objetivo analisar a expressão utilizada pelo autor de Apocalipse e suas implicações para o pensamento e desenvolvimento da idéia da cristologia do FdH no cristianismo primitivo.
Palavras-Chave:
Cristologia; Jesus; Apocalíptica; Filho do Homem; Cristianismo Primitivo; Apocalipse.
LEITE, Antônio de Jesus Silveira. Son Of Man: Trajectory Of The Messianic Image, From Daniel To The Christology Of Revelation Of John. São Bernardo do Campo: UMESP, 2006.
Abstract
The theme of the Son of Man has been researched with the aim of identifying the expression with a historical person in the history of Israel. A new approach has been proposed which does not seek the identification of a historical person, but considers this figure to be the development of new ideas, and the resignification of existing ones, through social groups that project their hopes in a coming future, in contrast to their actual state. The book of Revelation, in chapter 1 verses 9-18, describes a mysterious figure wrapped in Jewish simbology that John calls “one as the son of man”. The appearance of the expression “Son of Man” occurs in the Old and New Testaments, but also in the literature known as Jewish Apocalypse. In the different types of reports found, the expression designated a being who possessed distinct attributes, functions and duties. The majority of these functions emphatically point towards judging, having Israel as spotlight. The present work has as its objective an analysis of the expression in the Book of Revelation and its implications for the thought and the developing idea of the Son of Man christology in early Christianity.
Key words: Christology; Jesus; Apocalyptic; Son of the Man; Early Christianity;
Apocalypse.
LEITE, Antônio de Jesus Silveira. Hijo del Hombre: trayectoria de una imagen mesiánica, de Daniel a la Cristología del Apocalipsis del Juan. São Bernardo do Campo: UMESP, 2006.
Sinopsis
El tema respecto al Hijo del Hombre fue estudiado teniendo como objetivo la identificación de esta expresión con un personaje de la historia de Israel. Una nueva mirada empieza sobre el tema objetivando no más la identificación de un personaje histórico, sino el desarrollo de ideas y resignificación de los mismos a través de los grupos sociales que proyectan sus esperanzas en un futuro que viene, en contraste con su estado actual. El libro del Apocalipsis en el capítulo 1, 9-18 contiene la figura de un ser misterioso envuelta en una simbología judía que Juan llama "uno como el Hijo del Hombre". El aspecto de la expresión "Hijo del Hombre" ocurre en el Antiguo y Nuevo Testamento, pero también en la literatura conocida como los Apocalipsis Judíos. En los diversos tipos de relatos encontramos la expresión identificando a un ser poseedor de diferentes atributos, cualidades, funciones y oficios distintos, siendo reportadas la mayoría de ellas en el sentido de realizar un escenario de juicio, teniendo como base la gente de Israel. El actual trabajo tiene como objetivo analizar la expresión utilizada por el autor del Apocalipsis y sus implicaciones para el pensamiento y el desarrollo del tema de la Cristología del Hijo del Hombre en el cristianismo temprano.
Palabras Llaves: Cristología; Jesús; Apocalíptica; Hijo del Hombre; Cristianismo Temprano;
Apocalipsis.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 11
CAPÍTULO 1 - A EXPRESSÃO FILHO DO HOMEM ... 15
1. O problema lingüístico ... 15
1.1. As palavras ’ād ām e bar ’enāsh ... 15
1.2. A expressão Filho Do Homem: o Significado de bar ’enāsh na pesquisa atual ... 18
2. Mapeamento das fontes: principais textos que envolvem a tradição do FdH no Antigo Testamento ... 23
2.1. O Salmo 8 e o FdH ... 24
2.2. A ocorrência da expressão FdH no Salmo 80... 30
2.3. O FdH em Ezequiel ... 32
3. Conclusão ... 34
CAPITULO 2 - O FILHO DO HOMEM NA APOCALÍPTICA JUDAICA... 36
1. Apocalíptica Judaica ... 36
1.1. A visão de Daniel 7,13 ... 40
1.2. O livro de 1Enoque ... 50
1.3. O Livro de 4º Esdras ... 56
4. Transição da Figura do FdH para o NT ... 59
5. Conclusão ... 61
CAPÍTULO 3 - O FILHO DO HOMEM NO NT ... 64
1. Filologia ... 64
2. Os Ditos de Jesus e a questão de sua autenticidade ... 66
3. Entendendo a História do Termo ... 76
4. Comunidades Cristãs Primitivas (CCP) ... 78
5. Cristologia ... 81
6. Conclusão ... 83
Excurso: O FdH no apocalipse sinótico: o caso de Marcos 13,24-27 ... 86
CAPÍTULO 4 – A CRISTOLOGIA DO FILHO DO HOMEM NO APOCALIPSE DE JOÃO CAPITULO 1,9-20 ... 90
1. Tradução literal ... 90
1.1. O Texto de Apocalipse 1,9-20 ... 90
1.2. Delimitação do texto ... 93
1.3. Contexto do Apocalipse de João ... 96
1.4. Estrutura e Gênero literários ... 99
1.5. Análise de Apocalipse 1,9-20 ... 102
2. Cristologia Angelomórfica ... 118
2.1. Interpretação e compreensão de Angelologia e Intermediação ... 118
2.2.A retomada da pesquisa: Cristologia Angélica... 120
2.3. A pesquisa recente ... 121
3. A cristologia do FdH no Apocalipse de João ... 126
CONCLUSÃO ... 130
BIBLIOGRAFIA ... 134
INTRODUÇÃO
A construção de um cenário histórico na antiguidade é sempre uma tarefa muito desafiadora para o pesquisador que ora se encontra a muito do fato ocorrido. Suas ferramentas para a compreensão do evento ocorrido devem ser muito precisas a fim de lograr êxito em sua
“re-construção” do fato ora estudado. A forma com a qual um pesquisador do século XXI se aproxima de um evento que data aproximadamente do final do século I e início do século II facilita em partes a pesquisa histórica, haja vista o desenvolvimento e aperfeiçoamento das ciências arqueológicas, sociais e filológicas. A descoberta dos Manuscritos do Mar Morto e o estudo exaustivo dos Livros chamados Apócrifos e Pseudepígrafos clarificam muito o caminho do que poderia ter sido compreendido quando da escrita de livros e documentos no referidos séculos em questão.
Uma palavra pode compreender um oceano de significados podendo reportar a lugares, pessoas, situações e outras tantas possibilidades interpretativas. Quanto mais uma expressão! No estudo da expressão Filho do Homem séculos foram testemunhas de exaustivos estudos, comentários, enciclopédias e debates a respeito desta tão disputada questão. Os direcionamentos para a pesquisa não obedeceram a um padrão em que os pesquisadores pudessem com segurança afirmar ou ensaiar uma resposta final. As hipóteses passaram por lugares como Ugarit, Babilônia, Israel, Irã (Pérsia) e Roma. Os textos gnósticos de Nag Hamad também conheceram estudos sobre a expressão Filho do Homem. Seja na Escola Comparada das Religiões, seja no campo da pesquisa exegética o consenso ainda não é um fator que direciona e orienta a pesquisa sobre a questão do que significaria a expressão em voga.
Nosso trabalho compreenderá dois objetivos: 1) realizar um mapeamento (panorâmico) da expressão Filho do Homem nos livros do Antigo Testamento (compreendendo o Judaísmo do Primeiro e Segundo Templos) e os livros de 1Enoque e 4Esdras, bem como a transição da expressão para o Novo Testamento e os ditos de Jesus; 2) analisar a descrição do Filho do Homem contida no livro de Apocalipse no capítulo 1,9-20 e sua cristologia.
No livro de Apocalipse ocorre a descrição de vários tipos de cenários contendo temas que envolvem as comunidades (igrejas), o império Romano, criaturas celestes como anjos e demônios, descrição do trono de Deus, apresentação do Cordeiro e do julgamento que virá sobre a face da Terra e o triunfo final de Deus e do Cordeiro, através da instauração de seu reino contendo novos céus e uma nova Terra. Quantos temas novos somente num livro! Os temas são novos levando-se em consideração que os mesmos por vezes não são encontrados nos livros do Novo Testamento, como é o caso da descrição híbrida de demônios que destroem a Terra, bem como a apresentação de pessoas que foram escolhidas e separadas para louvarem a Deus. Neste mesmo cenário o autor do livro aparece recebendo visões em estado
“espiritual”, não mais em seu corpo, antes o mesmo se “encontrava em espírito” e recebia revelações vindas de Deus.
Nestas revelações foi mostrada a João a maneira como as igrejas estavam sendo vistas por Cristo, bem como seu posicionamento a respeito das mesmas. Algumas atitudes e direções deveriam ser tomadas a fim de que permanecessem fiéis ante seus ensinos. João contempla no céu a Dignidade do Cordeiro que foi o único capaz de abrir o livro que estava selado. As pragas contra a Terra, desobediente contra Deus, eram descritas em forma do anúncio de trombetas e derramamento de cálices. Anjos partiam do Templo de Deus para executar o juízo sobre a Terra a fim de que o mal fosse abolido do meio da humanidade. Os mártires se encontravam esperando pelo grande dia do Julgamento.
Num cenário contendo um colorido muito forte de Apocalíptica Judaica como o livro de Apocalipse apresenta, logo no início do livro no capítulo 1,9-20 ocorre a apresentação de um ser envolto numa simbologia e imagéticas judaicas o qual João denomina de “um semelhante ao Filho do Homem”. Uma outra descrição aparecerá no capítulo 14,14-20 contendo uma descrição de juízo e apresentando um ser como Filho do Homem sentado numa nuvem. Entendemos que estas duas perícopes não podem ser estudadas conjuntamente uma vez que representam cenários e funções diferentes. No capítulo 1 ocorre a apresentação do Filho do Homem exaltado e em meio a igrejas com as chaves da morte e do Hades, mas no capítulo 14 o ser descrito como semelhante ao Filho do Homem possui alguns aparatos e posição que são diferentes das descritas no capítulo 1, como por exemplo, uma coroa de ouro, uma foice e está sentado numa nuvem. Existe outro fator que nos ajuda nesta comparação,
pois no capítulo 14 o Filho do Homem recebe a ordem de um anjo para executar o juízo de Deus, ou seja, estaria numa ordem hierárquica inferior. Comentários e debates na academia não faltaram para este assunto! Logo, entendemos que a delimitação do capítulo 1,9-20 será o objeto de nosso trabalho.
O trabalho apresentará no capítulo 1 o estudo da expressão Filho do Homem e sua problemática lingüística, examinando as palavras de origem aramaica bar ’enāsh e hebraica ben ādām e verificando como as mesmas foram estudadas e entendidas pela academia. O entendimento desta expressão na atualidade foi alvo de importantes artigos e debates acadêmicos, como será demonstrado no mesmo capítulo. Uma segunda instância deste capítulo compreenderá um mapeamento das fontes, onde serão selecionados os principais temas que envolvem a tradição do Filho do Homem no Antigo Testamento. Não pretendemos realizar um estudo exaustivo sobre a ocorrência da expressão, antes pretendemos analisá-la de acordo com seu significado no texto, demonstrando que tal tradição ocupou lugar na bíblia hebraica.
No capítulo 2 a expressão será apresentada nos livros da chamada Apocalíptica Judaica e uma introdução ao assunto será desenvolvida para então remeter o leitor aos livros de Daniel (bem como seu breve comentário e apresentação), 1Enoque e 4Esdras. Entendemos que o livro de Ezequiel compreende a Apocalíptica Judaica, mas que, no entanto o mesmo foi utilizado no capítulo anterior para verificação das diferenças lingüísticas entre a descrição do Filho do Homem no livro de Salmos e seu significado e a descrição de Ezequiel. Em Ezequiel ocorre um novo modelo de apresentação de teofanias contendo a alusão a anjos e a descrição do corpo dos mesmos, bem como carruagem de Deus. Isto marca a diferença entre a maneira com os apocalipses viam e interpretavam o mundo. O capítulo apresentará as contribuições da pesquisa para o capítulo 7 de Daniel, bem como suas interpretações. Prosseguirá uma visão panorâmica de 1Enoque e 4Esdras e analisará a descrição do Filho do Homem e o Semelhante ao Homem dos referidos livros. Apresentará uma pergunta de como se deu à transição da figura do Filho do Homem para o Novo Testamento.
O capítulo 3 se ocupa da investigação do Filho do Homem no Novo Testamento, sendo que será apresentada uma visão panorâmica do assunto, uma vez que um estudo
exaustivo demandaria tempo de pesquisa o qual não pode ser mensurado. Ocorrerá à apresentação filológica de como Jesus utilizava a expressão Filho do Homem, onde poderemos verificar a questão a respeito de seu ditos serem ou não autênticos. As comunidades primitivas serão analisadas no sentido de verificar qual o papel que as mesmas desempenharam para o surgimento ou prosseguimento da tradição do Filho do Homem. O capítulo apresentará o modelo de cristologia que poderia ser entendido no uso de tal expressão. Após a conclusão do capítulo, um excurso de Marcos 13 poderá ser de valia no entendimento deste apocalipse sinótico.
A análise do texto grego de Apocalipse 1,9-20 ocorrerá no capítulo 4, onde será proposta uma tradução literal seguida de uma delimitação do texto. O capítulo apresentará um comentário do contexto social do Apocalipse levando-se em conta o ambiente em que foi produzida a literatura em questão. Será demonstrada a forma como os pesquisadores da atualidade estão direcionando seus estudos no sentido de estruturarem e comentarem o livro de Apocalipse. Um resumo da pesquisa sobre Cristologia Angelomórfica acompanhará o capítulo com vistas à conclusão do tema a respeito da Cristologia do Filho do Homem no Apocalipse de João.
CAPÍTULO 1 - A EXPRESSÃO FILHO DO HOMEM
1. O problema lingüístico1
Para iniciarmos o tratamento do tema sobre o Filho do Homem (FdH2) entendemos que a etimologia da palavra deva ser primeiramente apresentada levando-se em consideração suas diversas possibilidades interpretativas. O entendimento de que tal expressão iniciou-se numa língua e foi ao longo de sua utilização traduzida para outras línguas nos facilitará a compreensão do desenvolvimento de seus vários significados. Neste sentido passaremos a análise das palavras que compõem esta misteriosa expressão.
1.1. As palavras ’ād ām e bar ’enāsh
Segundo o entendimento de Westermann3, a palavra ’ādām aparece primeiramente em terras cananéias (hebraico e literaturas extra-bíblicas, fenício e ugarítico) e esporadicamente em e semítico meridional. No entanto a questão sobre a origem da palavra não possui ainda uma resposta definitiva. Esta palavra hebraica corresponde em partes, uma vez que seu significado é muito amplo para as línguas antigas, para a palavra homem das línguas modernas. Por ’ādām não se pode compreender somente o exemplo de um homem qualquer, um homem individual, senão que ao gênero humano, a humanidade, que existe como a totalidade e a que pertence em particular.
Dessa forma a humanidade é determinada por sua origem e seu caráter como criatura, uma vez que a maioria dos exemplos da palavra estão relacionados diretamente com o caráter do homem, ou seja, o homem perante Deus, como ser vivo, com suas limitações, as quais advêm de seu caráter de criação.
1 Utilizaremos a abreviação AT para Antigo Testamento ou Bíblia Hebraica e NT para Novo Testamento.
2 Utilizaremos esta abreviação quando tratarmos de expressões como “um como o Filho do Homem”, “uma pessoa humana” (4ºEsdras), “um homem” (1 Enoque) e outros textos que denotem a referida figura a ser estudada.
3 WESTERMANN, C. “Adam”. In: JENNI, E e WESTERMANN, C. Diccionario Teológico Manual del Antiguo Testamento.Volume 1. Madrid: Ediciones Cristiandad. 1978, p.89-110.
Juntamente com a palavra ’ādām encontramos uma palavra que possui uma raiz semítica comum denominada de ’enāsh, a qual aparece raramente em hebraico. Esta palavra tem sua origem na língua aramaica4 e designa o homem como um ser individual. A palavra aramaica ’enāsh aparece 25 vezes no Antigo Testamento sendo 23 no livro de Daniel e 2 no livro de Esdras. Neste dois casos ela pode ser entendida com o sentido geral ou coletivo e também individualizado do ser humano, como ocorre na formação da expressão encontrada em Daniel 7,13 sob a forma de bar ’enāsh.
Em seu exaustivo estudo sobre o FdH, Colpe5 entendeu que a expressão bar ’enāsh corresponde a um aramaismo que está por trás da palavra grega “anthropos”, um sentido semítico geral ou generalizante para “homem”. Este sentido se deu por meio de um estado construído da expressão a fim de que na tradução para o grego “hyiòs” houvesse a equivalência de sentido. O exemplo mais antigo encontrado contendo esta expressão encontra-se na 3ª Estela da Safira6, linha 16, datando aproximadamente do ano de 740 a.C contendo a seguinte passagem: “no evento ‘bar enash’(alguém) morreu, porque quebrou o tratado”.
A expressão que determina o sentido plural de bar ’enāsh é beni ’enāsh que ocorre em Daniel 2,3.8; 5,21. A palavra enash possui um sentido generalizante em Daniel 2,43; 4,13; 7,8 e um sentido coletivo em 4,41,22,29,30; 5,21. A palavra também aparece em situações de um sujeito individual indeterminado como é o caso de Daniel 5,5; 7,4,6,8,13. A expressão, segundo Colpe, não era de uso cotidiano e sim restrito a uma citação solene e especial.7
No tempo de Jesus as expressões enash, enash‘, bar(h) enash e bar(e‘) nash eram comuns na fala aramaica e em ambos os lugares, Galiléia e Judéia, poderiam significar a palavra “homem”, “um homem” ou “alguém”. As duas formas contendo a palavra inicial bar poderiam significar um sentido generalizante enquanto as outras duas, sem o bar, demonstrariam o sentido coletivo de “homem”. Poderia compreender também a referência a
4 KOEHLER, Ludwig e BAUMGARTNER, Walter. The Hebrew And Aramaic Lexicon Of The Old Testament.
New York: E.J. Brill, 1994, p.72.
5 COLPE, C. Ho Hyiòs Toû Anthrópou. In: Friedrich, Gerhard (Ed). Theological Dictionary Of The New Testament. Michigan: W. B. Eerdmans. 8ª Edição, 1980, p. 401-405.
6 FITZMYER, J. A. The Aramaic Inscription Of The Safire. Rome: Biblical Institute Press, 1967, P.139.
7 COLPE, C. Ho Hyiòs Toû Anthrópou. , p. 402.
uma circunstância específica para aquele que anuncia uma mensagem importante como é o caso do arauto, falante ou orador.8
Para um sentido enfático de “eu”, Colpe não concorda que na expressão bar ’enāsh possa encontrar tal significado e sim em outra expressão que compreende o sentido de “aquele homem” como é o caso da expressão hhv‘ gebar. Como muitas vezes no aramaico a terminologia engloba tudo, a expressão bar ’enāsh tornou-se, ao longo de seu uso, algo de uso diário e muitas vezes sem sentido. Tal expressão não pode ser encarada como um título honorífico antes uma menção especial para aquela pessoa que deve ser colocada em destaque.
O sentido especial e messiânico desta expressão pode ter ocorrido primeiramente em certos contextos apocalípticos e pode somente assemelhar-se a um título fixado. A forma determinada para esta expressão foi indubitavelmente construída para referir-se a expressão
“o homem” no sentido messiânico, mas não foi reservada somente para isto e o sentido estabelecido aqui não foi salvaguardado contra uma má construção para um uso no sentido diário, ou seja, possibilitou os dois significados: messiânico e uso diário. Colpe ainda acrescenta que a expressão bar ’enāsh poderia ser originalmente entendida como “o homem”
em seu sentido típico, bem como em seu sentido messiânico (como por exemplo, em cinco ditos encontrado em Marcos 2,10; 2,28; 8,20; 11,19 e 12,32), no entanto isto não poderia ser feito para explicar todos os demais ditos a respeito do trabalho do FdH terreno, descrito nos evangelhos.
A expressão bar ’enāsh foi pesquisada também por Nickelsburg9 o qual entendeu que a expressão Filho do Homem, que ocorre no Antigo Testamento e que também que pode ser encontrado no Novo Testamento. Esta expressão, segundo o autor, teve como origem a língua aramaica e possui seu equivalente na língua hebraica através da expressão ben ādām e que foi traduzida para o grego sob a forma de ho hyiòs toû anthrópou. Suas pesquisas demonstraram que esta é uma expressão tipicamente semita que serve para indicar os seguintes significados:
1. um substantivo para um ser humano individualizado em geral;
2. um único membro da espécie humana;
8 COLPE, C. Ho hyiòs toû anthrópou. p.403.
9NICKELSBURG, George W. E. Son of Man. In: The Anchor Bible Dictionary. Volume 6. 1ª Edição. Nova York: Doubleday, 1992, p.137-142.
3. alguém;
4. certamente uma pessoa.
O sentido da expressão “um como o FdH” foi utilizada em Daniel para expressar uma figura parecida com um ser humano vindo com as nuvens do céu e que mais tarde na apocalíptica judaica começou a ter uma conotação de um juiz divino que viria para o eon escatológico. No NT esta figura foi identificada com o Jesus exaltado, utilizando para isto uma interpretação da descrição de Daniel 7,13 e produzindo em Jesus o tão esperado FdH. 10 No entanto ainda não é possível seguir de imediato a proposta de Nickelsburg desta interpretação sobre a pessoa de Jesus, uma vez que conforme será demonstrado no trabalho os pesquisadores possuem vários pontos de vista do porque Jesus se referia ao FdH de uma maneira nova. Entendemos que é importante fazer esta ressalva, pois o tema e a pesquisa sobre o FdH no NT compreende um enorme espaço de tempo e pesquisa, as quais muito já foi escrito e não poderíamos em apenas algumas poucas observações concluirmos tal significado.
Neste sentido a pesquisa atual pode clarificar nosso caminho a respeito dos estudos que vem sendo desenvolvidos sobre a expressão FdH.
1.2. A expressão Filho Do Homem: o Significado de bar ’enāsh na pesquisaatual A pesquisa atual demonstra que a expressão bar ’enāsh recebeu muitas interpretações, e continua revelando um oceano de possibilidades para a academia .Entendemos que no começo de nosso trabalho mostramos a diferença entre a utilização da expressão hebraica ben ādām e da expressão aramaica bar ’enāsh, sendo que a segunda a partir de agora será nosso alvo de estudo uma vez que desenvolve todo o tema a respeito do FdH e sua tradição e que encontrará ancoradouro em nossa análise no capítulo 4 sobre seu aparecimento no capítulo 1,9-20 de Apocalipse.
As inquietações a respeito deste assunto estão sempre presentes e no decorrer dos anos os pesquisadores procuraram através de documentos antigos provarem que a utilização da expressão bar ’enāsh foi de uso comum na antiguidade e no tempo de Jesus. Como nosso
10 NICKELSBURG, George W. E. Son of Man, p.137.
objetivo nesta pesquisa está restrito ao tratamento da expressão de acordo com seu aparecimento no livro de Apocalipse e também sua utilização na(s) comunidade(s) do(s) cristianismo(s) primitivo(s) passaremos a analisar como esta expressão foi entendida no referido tempo.
Neste sentido aparece a pergunta de quatro pesquisadores11 a respeito da expressão bar ’enāsh ser um termo comum no tempo de Jesus e de sua importância para a literatura que precedeu o cristianismo primitivo. O referido artigo começa analisando alguns trabalhos de B.
Lindars e M. Casey sobre a análise e compreensão do termo bar ’enāsh, bem como suas conclusões. Os pesquisadores iniciam o artigo com a afirmação de Joaquim Jeremias de que o FdH foi o único título usado por Jesus para descrever a si mesmo e que constitui o único material autêntico que mereceria ser examinado seriamente em relação a seus ditos.
Os autores entendem que existe uma disputa entre os pesquisadores em relação aos ditos de Jesus a respeito do FdH apocalíptico serem autênticos ou não, e uma segunda barreira que encontram é que a expressão ho hyiòs toû anthrópou foi uma tradução do aramaico e tal expressão não carrega nenhuma evidência ou conotação de um título messiânico para os ditos de Jesus, e que isto teria sido uma construção da igreja primitiva. Entendem que Lindars e Casey devem muito às pesquisas de Geza Vermes12 para suas conclusões de que o significado da expressão bar ’enāsh era simplesmente um termo comum para homem.
O pesquisador Geza Vermes foi o primeiro a destacar o significado genérico de homem para a expressão aramaica, de uma maneira completa no meio acadêmico britânico, e apresentou suas conclusões no sentido de explicar que o substantivo (homem) não afetou seu significado. Estudando o apócrifo do livro de Gênesis encontrado em Qumran, materiais do Targum Judaico e na literatura rabínica, Vermes encontrou os seguintes significados para a expressão bar ’enāsh: (1) ser humano, (2) um pronome indefinido e (3) um circunlóquio para
“eu”.
11 OWEN, PAUL, SHEPHERD, DAVID. Speaking Up For Qumran, Dalman And The Son Of Man: Was Bar Enasha A Common Term For ‘Man’ In The Time Of Jesus? Journal For The Study Of The New Testament. Vol.
23. nº 3. Volume 23, 2001, p.81-123.
12 VERMES, G. Jesus o Judeu: uma leitura dos evangelhos feita por um historiador. Tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Loyola, 1990, p.171.
Dessa forma M. Casey e B. Lindars13 produziram suas pesquisas em cima do material de Vermes, embora discordassem de algumas de suas conclusões, afirmando que a expressão grega é sempre articular, funcionando como um título virtual para Jesus. Procuraram explicar este título virtual de uma maneira muito complexa e condensada, pois segundo seus estudos a forma como Jesus usou a expressão grega (de origem aramaica) tal expressão era necessariamente articular, com significado genérico, justamente como a forma absoluta tinha sido empregada. Segundo o entendimento de Owen e os escritores do artigo em questão14, os problemas lingüísticos com tal tipo de explicação são de tal natureza que se torna necessário as seguintes considerações e conclusões:
a. Não se tem comprovado na pesquisa científica que nos estudos da língua aramaica o estado enfático tinha perdido sua força determinante, mesmo no aramaico ocidental tardio;
b. A evidência de Qumran que nos fornece a informação de maior confiança a respeito do idioma aramaico na palestina no tempo de Jesus demonstra o fato de que o estado enfático dos substantivos aramaicos ainda era de uso comum com força de determinativo;
c. O idioma aramaico pelo qual o arauto ou o proclamador, pode ter utilizado a expressão FdH como meio de referir a si mesmo seja exclusivamente (Vermes), ou inclusivamente como parte de uma indicação genérica (Lindars, Casey), não pode ser atestado no aramaico médio, tampouco em nenhuma fase anterior ao aramaico utilizado na época de Jesus;
d. Não existe uma única atestação da expressão aramaica bar ’enāsh para FdH que foi utilizada no estado enfático do aramaico médio ou em nenhuma fase anterior ao tempo de Jesus. Isto é natural desde que no contexto do discurso normal não empregaria a expressão FdH para ele mesmo;
e. Em três instâncias do indefinido “um filho do homem” (1-aramaico antigo; 2- aramaico oficial e, 3-aramaico médio), em nenhum destes casos, desenvolvidos nos trabalhos de Vermes, Lindas e Casey, foram empregados para atestar um significado
13 LINDARS, B. Jesus Son Of Man. A Fresh Examination Of The Son Of Man Sayings In The Gospels And The Turn Of The Christian Era. London: Eardmans, 1987.
14 Owen, Paul, Shepherd, David. Speaking Up For Qumran, Dalman And The Son Of Man: Was Bar Enasha A Common Term For ‘Man’ In The Time Of Jesus? , p. 113.
genérico para “homem” e dessa forma não poderiam fornecer bases lingüísticas firmes para a solução do problema do FdH.
Dessa forma Owen e os demais autores entendem que este uso do da expressão bar
’enāsh para este “eu” como um título para auto-referência não poderia ser empregado, uma vez que seus estudos lingüísticos não comprovaram a eficácia de sua hipótese e que tal expressão ainda está carregada de significados, os quais poderiam referir-se a um homem comum e também a um sentido coletivo. A utilização de textos antigos tem sido a maneira mais comum para a procura de hipóteses e soluções para os mitos e personagens em destaque na antiguidade, como, por exemplo, a comparação que é feita entre o nascimento de Moisés em solo Egípcio, sendo Hebreu e o mito do nascimento de Sargão15. Dentro deste raciocínio procura-se por textos mais antigos que possam abranger as palavras chaves para a solução de expressões. Entretanto necessária é a verificação de que estes textos antigos possam clarear ou obscurecer ainda mais a vista do pesquisador o qual se encontra a uma distância muito grande do fato ou mito narrado.
A resposta às indagações de Owen e os demais escritores do artigo supra, veio em forma de um artigo16 produzido por Maurice Casey intitulado “Aramaic Idiom And The Son Of Man Problem: A Response To Owen And Sheperd” no ano de 2002 contendo uma quantidade de exemplos ainda maiores para comprovar sua hipótese, bem como responder
“amigavelmente” a seus questionadores.
O artigo de Casey inicia com a explicação de que o aramaico foi uma língua relativamente estável antes e depois do tempo de Jesus e que o uso de bar ’enāsh traduzido para a língua grega sob a forma de FdH foi um título cristológico usado somente para Jesus nos evangelhos, mas que foi um uso inadequado como um título cristológico, antes deveria ser empregado somente para fazer referência para aquele que fala, o arauto o pregador.
15 DONNER, Herbert. História de Israel e dos povos vizinhos: dos primórdios ate a formação do Estado.
Tradução de Caludio Molz, Hans A. Irein. São Leopoldo: Sinodal : Vozes, 1997, p.37.
16 CASEY, Maurice. Aramaic Idiom And The Son Of Man Problem: A Response To Owen And Sheperd.
Journal For The Study Of The New Testament. Vol. 25. Número 1. Volume 23, 2002, p.3-32.
O artigo prossegue demonstrando que muitas evidências refletem o uso do aramaico como a “língua franca” do império Assírio nos primórdios do século VIII a.C, especialmente nas províncias do “Além do Rio” e que a troca da língua acádica como a língua principal, ocorreu durante o período do império babilônico, quando muitos judeus foram exilados na Babilônia. O aramaico era a “língua franca” de todo o império persa. Este foi o pano de fundo cultural para a substituição do hebraico para o aramaico como língua normal para a comunicação entre o povo judeu. A linguagem desenvolvida nesse meio possibilitou naturalmente apresentar aquilo que poderia ser percebido como ponto comum entre algumas culturas, igualmente como podemos encontrar em documentos relacionados a Israel e também ao Egito.
O trabalho de Casey discorda do artigo de Owen e Sheperd e descreve que apesar dos Manuscritos do Mar Morto (MMM) possuírem um grande significado para muitas explicações e hipóteses os mesmos não contém material em aramaico suficiente para formar uma linguagem, mas, no entanto serve de material para verificação da ocorrência desta expressão e de palavras correlacionadas aos ditos de Jesus e chega as seguintes conclusões:
1. O aramaico foi à língua permanente e corrente por séculos antes e depois do tempo de Jesus;
2. Esta situação permanente tem sido clarificada pelos MMM;
3. O aramaico contido nos rolos dos MMM pode ser usado seguramente para reconstrução dos ditos de Jesus, porque quase tudo neles são encontrados em Aramaico posterior e fontes siríacas também, e deve por esta razão ter sido usado no primeiro século na Galiléia;
4. As palavras e construções nos MMM, de qualquer modo, diminuíram ao longo do pequeno caminho da formação de toda a língua (aramaica), e somente em detalhes eles não estão no dialeto falado por Jesus ou pelo primeiro povo o qual transmitiu as tradições a respeito dele;
5. Além disso, não existiu uma barreira entre o aramaico do tempo de Jesus e o aramaico antigo ou posterior, não entre Oriente e Ocidente. Por esta razão deve-se tomar cuidado no uso de fontes tardias. As palavras como tlyt’ (Marcos 5,41) ilustram isso;
6. As fontes aramaicas vindas antes do tempo de Jesus providenciam clara evidência do uso opcional do estado enfático e alguns outros usos. Esta forma de contexto cultural e lingüístico para o uso idiomático de bar ’enāsh pode ser em qualquer um, tanto em enfático quanto em absoluto;
7. Os primeiro exemplos de bar ’enāsh demonstraram que a expressão foi usada para se referir ao termo homem por séculos, e a Safira 3,16 mostra que este uso idiomático em geral expressa os sentido de referir-se especialmente ao falante, arauto, orador ou ao pregador e alguns de seus associados, e que isto tem sido conhecido por séculos;
8. Assim sendo os exemplos tardios deste idioma pode legitimamente ser usado para iluminar os ditos de Jesus.
O trabalho de Owen e Sheperd procurou investigar o uso da língua aramaica no sentido de que a mesma não apenas correspondesse a uma mera língua utilizada pela população local, antes que o seu significado para algumas expressões, e neste ponto encontramos a expressão de nosso trabalho, possuiu um forte significado e que não encontraram nenhuma evidência de estado enfático no aramaico médio para se chegar às conclusões de Casey. Este por sua vez respondeu em seu artigo que tal estado pode ser atestado, inclusive nos MMM e que esta expressão centralizava a atenção para aquele que estava falando (orador, arauto, pregador), assim como poderia servir de um título para o mesmo.
Podemos entender que a questão lingüística encontra muitas divergências entre os pesquisadores e que a maneira pela qual o termo bar ’enāsh foi entendido em seus primórdios nos parecem ainda obscuros. Dessa forma procuraremos estudar a descrição desta expressão através de sua forma mais conhecida no Antigo e Novo Testamento, qual seja: a expressão utilizada para descrever uma figura um tanto misteriosa - o Filho do Homem (FdH).
2. Mapeamento das fontes: principais textos que envolvem a tradição do FdH no Antigo Testamento
A expressão FdH aparece no AT em alguns textos chaves possuindo vários significados.
Nossa proposta não é uma busca exaustiva no sentido de esgotar o assunto antes verificar como a expressão foi tratada pelos escritores e posteriormente pelos pesquisadores.
Analisaremos os seguintes textos do AT para verificar a ocorrência de tal expressão: Salmo 8;
80 e o Livro de Ezequiel.
2.1. O Salmo 8 e o FdH
Muitos estudos a respeito do FdH tiveram como partida o Salmo 8 e a descrição da figura de um ser humano em comparação com seres angélicos. Este Salmo é classificado por Kraus17 como um dos Salmos de Louvor, utilizados pelo povo para exprimir o louvor ao Senhor por meio de suas incríveis e incomparáveis criações. Diz-nos também que a forma deste salmo parece supor um ambiente cúltico, fazendo-nos pensar num festival noturno, durante o qual se entoava antifonamente o cântico de louvor (Salmo 134,1; Isaías 30,29; 1 Crônicas 9,33). Este salmo celebra a glória do Criador e a dignidade do homem. O salmo inicia com a descrição da majestade do Senhor e o reconhecimento de seu nome (8,1-2), seguido das descrições ecológicas (8,2b) e celestes (8,3).
No verso 5 encontramos o tema de muitos comentaristas bíblicos a respeito do FdH conforme é descrito abaixo:
“quem é o homem (enowsh ), para que nele penses,
e o ser humano ( uben ādām 18), para que dele te ocupes?19
A principal razão do estudo deste tema, no caso o aparecimento do FdH, neste salmo ocorre por causa do aparecimento destas duas palavras: homem (enowsh) que denota um
17 KRAUS, Hans-Joachim. Los Salmos. Salmos 1 – 59. Volume I. Salamanca: Sigeme, 1993, p.63.
18 Tradução literal: o FdH.
19 Bíblia Tradução Ecumênica (TEB). Edição em língua portuguesa. São Paulo: Loyola, 1995.
sentido aramaico20, o qual aparecerá em Daniel 7,13 (qebar enash) e homem (uben ādām )21 que ocorrerá no Salmo 80 e também quase uma centena de vezes em Ezequiel.
O texto segue com a seguinte comparação, no verso 6:
“quase um deus (elohim) o fizeste:
tu o coroas de glória e de esplendor;”22
Para esta comparação também muita “tinta” se gastou e, no entanto não se chegou a muito acordo entre os pesquisadores, uma vez que a possibilidade interpretativa é muito grande tanto para os exegetas quanto para os teólogos sistemáticos/dogmáticos, no sentido de se comparar esta figura a um deus, deuses ou figuras angelicais. O texto demonstra ainda o poder que o homem exerce sobre os animais da terra, dos céus e das águas (8,8-9) e finaliza com quase as mesmas palavras de sua introdução, fechando a moldura de contemplação e adoração ao Senhor.
No entendimento de Kraus a constatação de que o homem aparece como uma figura diferente de Gênesis 3 (no caso o homem desprovido de autoridade e em estado de desobediência contra o Senhor) é um bom indício para se iniciar um estudo do porque os
“dogmáticos” poderiam estar preocupados com o pecado original. Segundo o autor, neste salmo é dito que o homem domina e está coroado de glória e pergunta como isto seria possível a luz da citação de Gênesis. Ademais disso compreende que este homem pertence ao mundo de Deus, uma vez que o Senhor o abençoou e o estabeleceu como seu administrador sobre todas suas criaturas.
Kraus apresenta suas interpretações de forma bem teológica dizendo que a carta aos Hebreus (2,5) faz referência a este salmo como sendo acontecimentos que se aplicarão ao mundo futuro e que a Jesus Cristo o salmo o chama “FdH”, o qual durante algum tempo foi colocado um pouco abaixo dos anjos, mas que depois foi coroado de glória e majestade e
20 Para Kraus o uso desta expressão poderia significar uma conotação de um ser humano frágil e impotente (Salmos 9,20; 90,3; 103,15). Los Salmos. Salmos 1 – 59, p.289.
21 O uso de “uben ādām ”, segundo Kraus denotaria a natureza do homem, que tem como característica ser criado da terra e estar ligado a mesma. Los Salmos. Salmos 1 – 59. Volume I, p.289.
22 TEB.
instituído soberano do universo.23 O autor destaca ainda que este salmo foi de grande importância para a cristologia do NT, uma vez que concentra todo o mistério da existência humana no FdH que vem do céu (Daniel 7) sobre o personagem Jesus de Nazaré. Prepara o pano de fundo para mostrar o éon futuro o qual iniciou-se em sua vida (Jesus), pregação, sofrimento, exaltação e principalmente na apologia feita na carta aos Hebreus a qual fala do novo Adão (Hebreus 2,6-9) e realiza a comparação entre o plano de redenção, conforme podemos ver:
6 “ O que é o homem, para que te lembrares dele?
Ou o filho do homem, para nele descansares o olhar?
7 Tornaste-o um pouco inferior aos anjos de glória e honra o coroaste;
8 Puseste-lhe todas as coisas debaixo dos pés.
Ao submeter-lher todas as coisas, nada deixou que lhe possa ficar insubmisso.
Ora na realidade, ainda não vemos que tudo lhe esteja submetido,
9 Mas uma coisa constatamos: aquele Jesus que se tornou um pouco inferior aos anjos acha-se, por causa de sua morte que padeceu,
coroado de glória e honra.
Assim sendo, foi pela graça em favor de todos os homens que, pela graça de Deus, provou a morte.”
No entanto apesar de haverem tais comparações e apologias no Salmo 8, na opinião de Kraus não se descobre nem ao menos um resquício dessa mensagem escatológico-messiânica para o NT e entende que o cantor deste salmo está interessado em proclamar louvores a Deus o criador, neste mundo presente que está contemplando e o tal cantor não está a espera de um mundo vindouro. Numa só palavra, Kraus afirma que o louvor perante a contemplação das coisas criadas seria a motivação deste salmo.
A interpretação de Kraus e seus estudos sobre o livro dos salmos constituem um referencial para a academia e sua conclusão de que o homem estaria sendo motivado a louvar o Criador por suas grandezas pode ser uma interpretação muito atrativa em primeira vista. No entanto o fato de aparecerem duas palavras para descrever o homem pode dar-nos um indício
23 KRAUS, Hans-Joachim. Los Salmos. Salmos 1 – 59. Volume I, p.294.
de como o povo de Israel entendia primeiramente uma expressão que mais tarde convencionou-se chamar de FdH.
Quando lemos nas palavras do salmista a frase “quem é o homem (enowsh)” é possível que o texto esteja falando de um ser humano individual num determinado tempo. Seria um homem isolado de uma multidão e colocado em evidência. Outra forma simbólica pode ser vista na frase “e o ser humano (uben ādām )” que enfatiza o ser humano em sentido de coletividade, uma população, uma tribo. Assim podemos verificar que a idéia de FdH como sentido de coletividade encontra uma forte tradição no entendimento do povo de Israel. Não seria ainda uma figura individual que salvaria o povo, pelo contrário o que lemos neste salmo é a grandeza do Senhor ante o seu povo.
Num artigo recente, Michael Goulder24 levantou a questão a respeito de não haver evidência adequada de um conceito de FdH no tempo de Jesus e tampouco de um aramaismo para a palavra “homem” (mal entendida por comentadores dos evangelhos25) em relação ao Salmo 8. Para o autor este salmo é um texto muito popular e sempre seus estudos estão vindo à tona devido a estes mal-entendidos e comparações entre outros textos. Prossegue citando o exemplo do personagem do NT, Paulo, e o texto da carta aos Filipenses 3,21:26
“ que há de transfigurar nosso corpo humilhado, para torná-lo semelhante ao seu corpo glorioso,
com força que também o torna capaz de tudo submeter ao seu poder.”
O mesmo texto, segundo Goulder, pode ser comparado com o Salmo 110:27
“Oráculo do Senhor ao meu senhor:
senta-te à minha direita.
que eu faça dos teus inimigos o escabelo de teus pés.”
24 GOULDER, Michael. Psalm 8 and the Son of Man. New Testaments Studies, nº 48, 2002, p.18-29.
25 GOULDER, Michael. Psalm 8 and the Son of Man, p.18, 20. Goulder cita como exemplos a Barnabás Lindars, Maurice Casey e Geza Vermes.
26 TEB
27 TEB.
Junto a este dois textos Goulder acrescenta o capítulo 1 e versos 20 a 22 de Efésios:28 20 “ e ele fez operar em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos
e o fez sentar-se à sua direita nos céus,
21 bem acima de toda Autoridade, Poder, Potência, Soberania e de qualquer outro nome capaz de ser nomeado, não somente neste mundo
mas ainda no futuro.
22 sim ele pôs tudo sobre os seus pés e o pôs, no topo de tudo, como cabeça da Igreja.”
Segundo a interpretação do referido autor estes textos demonstram o estado intermediário em que os seguidores de Cristo estão, uma vez que seu Senhor está exaltado e seus seguidores participam em partes de sua exaltação. Neste entendimento prossegue dizendo que para o apóstolo Paulo esta cristologia estava clara e límpida, mas a parte trabalhosa e difícil era explicá-la a partir de seu objeto de estudo, qual seja - Jesus, pois esbarrava num problema crucial: sua preexistência.
Em seu artigo Goulder apresenta uma comparação de como Paulo teria utilizado em alguns textos de Hebreus a comparação de Jesus com o novo homem, bem como em outros livros do NT, como os evangelhos, nos quais os ditos de Jesus sobre o FdH se tornaram uma tradição. Chega, entretanto a algumas conclusões através de perguntas e respostas, as quais seguem: 29
1. Como Jesus pode referir-se por meio de um título como o FdH, enquanto não era conhecido no Judaísmo? Pela simples razão de não tê-lo feito, pois o título é trabalho de Paulo e das igrejas por volta de 65 d.C;
2. Porque ninguém indagou a respeito deste misterioso título? Pela mesma razão:
Jesus nunca o teria usado;
3. Porque o Salmo 8 teve um significado importante para a igreja primitiva?
Porque o mesmo oferece uma explicação do porque Jesus tinha sido exaltado e não seus seguidores, ainda;
28 TEB.
29 GOULDER, Michael. Psalm 8 And The Son Of Man, p.28, 29.
4. Porque Paulo nunca falou de Jesus como FdH? Porque somente o verso 7 do Salmo 8 pode explicar esta pergunta: “tudo submeteste aos teus pés”30;
5. Porque a frase FdH assume tão inesperadamente lugar central no evangelho de Marcos? Por duas razões: a primeira foi que o texto serviu de base para Hebreus 2 e a segunda, para explicar a pré-existência de Jesus como um ser eterno até sua ressurreição e glória;
6. Porque Marcos prefere o Cristo Paulino e o Filho de Deus? Porque o Messias era totalmente humano e também político. Mas tinha um perigo, pois o filho de Deus poderia soar como um mito de outras religiões, as quais os judeus denominavam estrangeiras. Dessa forma Marcos entendia ser Jesus o Filho de Deus como um ser divino e para isso o evidenciava como o misterioso FdH;
7. Porque poderíamos pensar que o Salmo 8 teria maior importância que Daniel 7? Porque no Salmo 8 encontramos a descrição “FdH” enquanto que em Daniel 7,13 encontramos somente “um como o FdH”. Outra razão é a explicação no referido salmo existe uma construção da idéia de anjos, homens e exaltação final do ser humano, enquanto que em Daniel somente ocorre a alusão do “um como o filho do homem” estar vindo sobre as nuvens;
O artigo de Goulder é interessante e provocativo ao mesmo tempo, no entanto a aproximação de suas conclusões deve ser feita com certa cautela. Algumas direções podem ser aceitas como ponto de partida para um diálogo outras necessitam de um estudo mais aprofundado. Constitui-se um ponto de certo acordo que Jesus não foi o fundador da tradição do FdH e tão pouco se denominou como tal, antes projetou a expectativa de seu ministério falando sobre este outro agente cósmico. Perigoso, no entanto é dizer que o Salmo 8 teria maior importância que Daniel 7 porque ocorre a supressão de duas palavras (um como), uma vez que a tradição de salvadores cósmicos da antiguidade já era conhecida dos povos egípcios e mesopotâmicos.
Outra palavra sobre este ponto seria que a descrição do salmo 8 leva em consideração um homem comum ou uma multidão de homens terrenos, o que difere da visão daniélica a qual possui como um dos destaques a descida de um ser celeste numa nuvem.
30 TEB.
Necessário é estudarmos um outro texto, no mesmo livro dos Salmos, para verificarmos outra ocorrência do uso de FdH.
2.2. A ocorrência da expressão FdH no Salmo 80
No salmo 80 podemos encontrar o lamento do povo de Israel em meio ao exílio e sofrimento. O salmista inicia a descrição do estado em que se encontra o que sobrou da população, fazendo menção a história de Israel, através de personagens como José, Efraim, Benjamim e Manasses (80,1-2). Suplica o socorro do Senhor em favor de seu povo, perguntando até quando o todo poderoso permanecerá calado em meio à angústia de Israel (80, 4,-6). Novamente relembra a trajetória do povo desde o Egito e sua chegada na terra, bem como a expulsão de seus inimigos e sua instalação final (80,8-11). Após estas descrições o autor retoma sua inquirição a respeito da proteção divina sobre o povo de Israel dizendo que o Senhor deixou que as cercas caíssem e animais selvagens (símbolos de nações estrangeiras) invadissem e se alimentassem dos bens dos israelitas (80,12-15).
No verso 17 aparece a expressão “filho do homem (ben ādām )” como referência a Israel que fora plantado e estabelecido mas que agora se encontra oprimido pelos adversários.
A ocorrência desta expressão não está acompanhada de teofanias como é o caso de Ezequiel 1, Daniel 7,13, Apocalipse 1,13, antes os elementos constituintes do texto indicam a profunda angústia na qual o autor se encontra ao relatar que após todas as conquista da nação israelita, a mesma encontra-se agora como “um filho do homem” abandonada à sorte de seus inimigos. O pedido do salmista pela terceira vez é um enfático “volta-te e reabilita-nos o Senhor” para que o rosto de seu Deus seja resplandecido e para que Israel possa ser salvo (80,19).
Este texto apresenta fortes indícios para uma datação por volta de 722 a.C31 (no caso a queda de Samaria), uma vez que cita as tradições da família de José, ou seja, Efraim, Benjamim e Manassés. Outro elemento material encontrado no texto é a expressão “Javé Elohim dos Exércitos” (80,5) a qual foi usada primeiramente em Silo, o que pode atestar, que tal salmo seja originário da região da Palestina.32
31 DAHOO, Mitchell. Psalms II. Garden City: Doubledy & Company, 1968, p.255.
32 KRAUS, Hans-Joachim. Los Salmos. Salmos 60 – 150. Volume II. Salamanca: Sigeme, 1995, p.213.
Os versos 1 e 18 apontam para a idéia de um novo rei, um restaurador, aquele para o qual o povo desesperado está clamando e Josias poderia ser um dos candidatos mais prováveis33. A idéia de que a linhagem de Davi responderia a este chamado ainda perscrutava o povo e encontrava solo fértil em meio a esta situação expatriada. Parece ser notável a referência de FdH para a figura deste possível rei, uma vez que no AT quando tais idéias comparativas são apresentadas, sempre são seguidas de uma explicação, mas que neste texto apenas são “lançadas ao ar” algumas expectativas. Cabe lembrar ainda que até a chegada dos escritos apocalípticos a idéia da associação do FdH com um rei ainda não era uma forma tão comum de se dizer ou referi-se a um salvador.34
Seguindo a seqüência de súplica pela restauração da nação este salmo poderia ser uma súplica coletiva e que foi o resultado de uma destruição militar, causados por conflitos internacionais35. Dessa forma os sacerdotes entoavam o lamento em nome da assembléia e o povo respondia em alta voz clamores e súplicas, dizendo: “Senhor Deus de todo o poder faze- nos voltar, que a tua face se ilumine e seremos salvos.”36
Para C. Colpe 37 o povo de Israel é representado no verso 15 e 17 como um homem, o qual estava na mão direita de Deus e como um filho do homem (sentido coletivo) que presenciou as grandezas, livramentos e o poder do Senhor. No entanto Colpe não acredita que a tradição do FdH tenha como matriz esta descrição, antes compreende ser esta uma das possibilidades de interpretar o FdH como sendo uma entidade coletiva, ou seja, o povo de Israel. Neste texto não conseguimos encontrar um pano de fundo de um ser que estaria sendo esperado como um pretendente messiânico, antes o salmista declara que somente o Senhor era capaz de salvar mais uma vez seu povo. A descrição do FdH encontrará maior força em outro livro do AT, Ezequiel, contendo inúmeros símbolos e imagens que possibilitarão uma das primeiras visões deste ser.
33 KRAUS, Hans-Joachim. Los Salmos. Salmos 60 – 150. Volume II , p.214.
34 KRAUS, Hans-Joachim. Teologia de los Salmos. Biblioteca de Estúdios Bíblicos. nº 52. Salamanca: Sigeme, 1985, p.148.
35 ALONSO SHÖKEL, Luiz & CARNITI, Cecília. Salmos II. Grande Comentário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1998. p.1030.
36 TEB.
37 COLPE, C. ho hyiòs toû anthrópou. p.407.
A avaliação da aparição da expressão FdH neste salmo merece mais uma observação levando-se em conta as duas formas com as quais a palavra homem é apresentada. No verso de número 18 encontramos a seguinte descrição:
“Põe tua mão sobre o homem (ishi) que está a tua destra
e sobre o filho de Adão38 (ben ādām ) que a ti deve a sua força.”39
No verso 18a aparece a descrição do homem apresentado como o ishi que no hebraico se relaciona ao gênero masculino, o homem, o marido, o patriarca, enquanto que em 18b o sentido é de coletividade para ben ādām o que pode indicar que numa fase primeira a tradição de um FdH seja entendida como o povo de Israel como um todo e que mais tarde na apocalíptica judaica receberá inúmeras formas re-interpretativas.
2.3. O FdH em Ezequiel
A visão da teofania do Senhor no livro de Ezequiel constitui-se um dos textos mais ricos em símbolos e imagens para a descrição de seres angelicais e poderes celestes. A descrição da Glória do Senhor é apresentada com muitos elementos da teofania do Sinai (vento, fogo, tempestade, claridade, relâmpagos). A intenção do autor ao descrever estes elementos é a ênfase na figura do Senhor como um rei, conforme podemos encontrar nos Salmos 97,1-6 e 99,1. Uma das primeiras evidências do aparecimento da frase “semelhante a um homem” aparece no livro de Ezequiel no capítulo 1, quando o profeta o descreve como que sentado num trono, conforme podemos ver na narrativa de sua visão.
O profeta encontrava-se em meio aos cativos, na Babilônia, junto ao rio Quebar quando de repente os céus se abriram e ele começou a ter visões de Deus.40 Em suas descrições o profeta narra minuciosamente os símbolos e imagens à medida que vão lhe
38 Para o entendimento de nosso estudo consideramos a tradução desta palavra como sendo Homem, em seu sentido coletivo e não em sentido direcionado para o personagem do livro do Gênesis Adão.
39 TEB.
40 Ezequiel cap. 1,1.
aparecendo. Uma das primeiras narrações que apresenta é a proclamação de que veio a ele a palavra e a mão de Senhor, típica das narrativas visionárias do AT para cada início de teofania. É interessante notar a argumentação dos visionários, no sentido de fortalecerem as descrições fantásticas de suas visões, aquilo que J. J. Collins chama de elementos da literatura apocalíptica, ou seja, um ser divino que envia a sua mensagem ao ser humano o qual serve como canal de comunicação para proclamação da visão.41
O vidente começa então a descrever a teofania iniciando pelos elementos climáticos como a chegada de um forte vento de tempestade, uma grande nuvem, com um fogo fulgurante em meio a uma claridade (1,4). Descreve a seguir quatro seres vivos semelhantes a homens (1,5 = adam) e segue o texto dizendo que são seres alados e demonstrando que os pés são parecidos ao bronze (nechosheth) polido (qalal) (1,7). Mais uma vez aparece a forma antropomórfica nas criaturas dizendo que sob suas asas havia mãos de homem (1,8 = adam).
Seguindo a descrição podemos encontrar novamente a referência do rosto dos seres vivos semelhante a homens (1,10 = adam), mas hibridamente parecidos com animais.
O aspecto poderoso destes seres pode ser visto no fato de que no meio deles havia muita luz e trovões ecoavam quando os mesmos avançavam (1,13). Um aspecto muito importante a ser ressaltado na continuação desta visão é a descrição do barulho das asas dos seres viventes comparadas ao som do fragor de muitas águas, como a voz do Poderoso (Shadday, 1,24), ruído de uma multidão e fragor de um exército. Tal barulho ou estrondo encontrará um forte eco na literatura do NT no livro de Apocalipse e sua descrição do FdH.
O texto segue apresentando uma figura que está sobre o firmamento dos seres vivos, uma semelhança de homem que trazia ao redor de seus rins algo como um arco, como aqueles que saem das nuvens quando chove (1,26 = adam). Quando o profeta vislumbra toda esta fantástica descrição termina dizendo que este era o aspecto da Glória do Senhor e cai com o rosto em terra perante a voz que falava com ele (1,28). Semelhante fato ocorrera com Isaías quando de sua vocação, o qual em meio à visão do senhor sentado no trono (Isaías 6,1) contemplava os serafins.
41 COLLINS, J.J. The Apocalyptic Imagination – An Introduction To The Jewish Matrix Of Christianity. New York: Crossroad, 1989, p.4.
A aproximação a este texto deve ser feita com muito cuidado e atenção uma vez que o mesmo apresenta figuras de linguagens diversas como, por exemplo, seres vivos sendo comparados a animais e a produção dos barulhos das asas destes híbridos como semelhantes ao som de águas oceânicas. No entanto surge um outro fator importante no texto: a alusão à palavra homem. Tal alusão facilita nosso estudo uma vez que o escritor utiliza-se da palavra adam ao referir-se ao ser humano. No decorrer do livro a auto-identificação de Ezequiel com o ben ādām (2,1) ocorrerá cerca de 90 vezes, sendo o mesmo representado como o profeta que fala em nome do sofrimento do Israel. Logo podemos perceber dois níveis no estudo deste livro: o primeiro encontra-se nas descrições do capítulo 1 sendo que para a palavra homem (adam) o primeiro significado será direcionado para os seres vivos que aparecem quando os céus se abrem e a segunda descrição para homem ocorre em Ezequiel o qual é identificado como o Filho do Homem (ben ādām ) a qual a voz do Senhor é direcionada.
3. Conclusão
O estudo da expressão FdH teve como partida duas expressões em diferentes línguas hebraico ben ādām e aramaico bar ’enāsh. Entendemos que o significado de uma palavra compreende um vasto oceano de possibilidades levando–se em consideração o lugar em que foi produzida, as circunstâncias em que ocorreram tais produções e as formas com as quais se utilizaram esta palavra. Quanto mais uma expressão! Uma vez produzida a palavra, falada e entendida por seus falantes ocorre a fase da escrita da mesma. Na fase da escrita a palavra pode perder muito de seu significado original sendo reduzido muito a força com a qual foi produzida.
O estudo da palavra hebraica pode verificar os significados de: um homem qualquer, um homem individual, ao gênero humano, a humanidade, que existe como a totalidade e a que pertence em particular. A palavra aramaica por sua vez possuiu maior ênfase nos estudos sobre o significado deste homem e encontrou os seguintes resultados: um substantivo para ser humano individualizado em geral, um membro único da espécie humana, “eu” enfático, alguém e certamente uma pessoa. Ainda não foram tratadas as questões se este homem possui ou não formas angelicais, divinas ou celestes, uma vez que tais palavras não carregam estes
significados e se reportam apenas ao homem como sendo ser humano e neste sentido englobando ambos os gêneros: masculino e feminino.
No estudo do livro dos salmos verificamos que existe ainda uma interpretação teológica muito grande para a comparação do FdH com a figura neotestamentária de Jesus.
Verificamos que Jesus não foi o autor da tradição do FdH como aparece nos salmos e tampouco se denominou como tal, antes sua projeção ministerial foi em outro ser misterioso.
Outra possibilidade foi o do homem que se encontra distante de Deus por causa de sua situação de desobediência e em meio a seu desterro suplica a Deus para lembrar-se de seu povo em meio a sua angustia. Mais uma vez foi verificado o aparecimento das palavras hebraicas e aramaicas num mesmo livro levando-se em consideração seus significados distintos.
No livro de Ezequiel a tradição do FdH aparece com um colorido muito forte e marcante com suas descrições de seres fantásticos e híbridos. Nosso estudo levou em consideração que apesar do livro de Ezequiel ser estudado pela academia como estando situado na apocalíptica judaica, como poderíamos colocá-lo no próximo capitulo, entendemos que foi de bom alvitre que o mesmo fosse colocado nesta seção para demonstrar a diferença existente no tratamento do FdH que aparece como uma figura escatológica, forense e possuidor de atributos extraterrestre da em contraposição com a qual aparece no livro dos salmos. Apesar de não possuir todos estes atributos apocalípticos o FdH em Ezequiel marca o início da tradição deste personagem envolvendo novas imagens, figuras e símbolos que até então não apareciam na literatura hebraica.
No entanto não podemos afirmar que a tradição do FdH possui como evento fundador o livro de Ezequiel42 e tampouco o torna matriz de todas as futuras citações. O que podemos afirmar é que em Ezequiel inicia-se uma nova descrição de céus e terra de uma maneira que símbolos angélicos, celestes e divinos começam a ser comparado com os utilizados por seres humanos. A afirmação de que seria um antropomorfismo ainda não é atrativa antes constitui uma das fontes que os autores dos apocalipses judaicos selecionaram para descreverem seus heróis, pretendentes messiânicos e figuras angelomórficas.
42 COLLINS, J. J. Daniel, With An Introduction To Apocalyptic Literature. Grand Rapids: Editorial Dep. Div.
Educ.& Cultivation, 1984. P.306; ROWLAND, Christopher. The Open Heaven, p.97.