CAPÍTULO 4 – A CRISTOLOGIA DO FILHO DO HOMEM NO APOCALIPSE DE JOÃO
3. A cristologia do FdH no Apocalipse de João
Desta maneira, o retrato angelomórfico de Cristo superior aos anjos pode ter funcionado na situação comunicativa do autor para iluminar a trajetória para uma Cristologia do Cordeiro (Lamb-Christology) em que Cristologia e Angelologia estão mais claramente classificadas.
necessitará de um poder superior que a sustente, devido a tais oscilações de culturas e costumes; 186
5. Completando o desenvolvimento da fé destas comunidades surge João apresentando em seu livro, referenciais da memória de Israel, re-significação de imagens e símbolos e apresentação do Kyrios ressuscitado e dono das chaves da Morte e do Hades ;
6. Cabe lembrar que após todos estes acontecimentos não podemos perder de vista que tais comunidades estavam vivendo em solo romano, rodeados de um ambiente religioso diferente do qual a comunidade professava, e sendo vigiados por seus vizinhos, amigos e parentes a fim de que os mesmo prestassem o culto ao Imperador.
A apresentação de tal quadro histórico nos mostra que as a situação pela qual as comunidades foram evangelizadas e receberam suas heranças, bem como no momento em que o culto ao Imperador era realizado as mesmas precisariam tomar partido num dos lados e necessitavam de uma fé bastante alicerçada, não mais superficial, tampouco artificial. O desenvolvimento da fé e da perseverança das comunidades dependiam da manutenção, por parte do grupo, dos compromissos assumidos com seu salvador, o qual em meio a todo este
“vulcão emocional”187 os ajudaria e os confortaria.
Por cristologia não nos referimos ao notável tratamento sobre o tema no qual dogmáticos se prepuseram a tratar na tentativa de provar a divindade ou humanidade de Jesus.
Entendemos que a cristologia no livro de Apocalipse é a forma com a qual Jesus se apresenta às comunidades da Ásia, na mensagem de João, de forma a proclamar que possui o domínio e o poder sobre todas as coisas e aparecerá nos demais capítulos para decretar o juízo para aqueles que apostataram da fé e se deixaram levar pelas investidas do mal.
A maneira pela qual João consegue desenvolver sua autoridade é, portanto através da descrição revelatória da mensagem de Jesus para as comunidades e a identificação da situação
186 FROMM, Erich. O medo à Liberdade. Editora Guanabara. Rio de Janeiro. 1983. Na p. 48 pode ser encontrado o pensamento de Mecanismos de Fuga.
187 JUNG, Carl Gustav Jung. Psicologia da Religião Ocidental e Oriental. Petrópolis-Rj: Vozes. 1983, p. 1-163.
Esta é uma expressão utilizada por Jung para explicar a forma pela qual o inconsciente coletivo se posiciona frente às opressões e desencontros sentidos pelos indivíduos na sociedade.
pela qual passa seus patrícios e é neste sentido que a memória autorizada188 possui sua função determinante de doutrinamento. A reportagem dos símbolos do Judaísmo do Segundo Templo, juntamente com a figura messiânica foi o meio pelo qual João conseguiu incentivar seus companheiros a permanecerem fiéis ante as investidas tanto materiais (por parte das pessoas que entendiam que os mesmos não praticavam a religião do estado) quanto daqueles que por outros motivos ideológicos ou culturais não aceitavam o comportamento dos fiéis da comunidade.
Assim sendo João obtém seu êxito apresentando o salvador cósmico que o mesmo denomina de “um como o FdH”, mas que, no entanto para seus leitores significava o Cristo Ressurreto dentre os mortos que um dia viria julgar o mundo e que estava no meio das igrejas, conforme pode ser visto na descrição do capítulo 1 quando afirma que as estrelas (igrejas) estavam em suas mãos. A comunidade não necessitaria manter aquele temor da sociedade, tampouco depender exclusivamente da proteção (subserviência em troca de proteção) do Imperador para garantir sua sobrevivência, pois agora estava apresentado um salvador único que a protegeria para sempre, conforme sua descrição de possuir as chaves da “morte e do Hades”.
No estudo sobre Cristologia Angelomórfica verificou-se que a tradição de personagens angélicos foram comparados com o FdH que João apresenta em Apocalipse. No entanto na descrição de João os personagens angélicos como Miguel e Gabriel não aparecem como mediadores e protetores das igrejas. Uma nova figura se desvela para os fiéis afirmando que esteve morto e que agora vive para sempre. Este caráter da pregação de Jesus pode ser encontrado nos evangelhos, conforme atestado no capítulo 3, nos ditos a respeito do FdH sofredor que haveria de padecer e ser entregue aos gentios e depois de três dias ressurgiria.
Esta mensagem direcionaria seu ouvinte a entender que o Jesus que havia sido prometido ressurgir dos mortos agora estava realizando sua promessa. Não bastasse tal expectativa uma nova mensagem acompanha com esta figura exaltada, ao que parece acima de tudo e de todos por Deus, uma vez que ela possui as chaves da Morte e do Hades. Desta forma João pode
188 HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990, p.65-72 e HERVIEU-LÉGER, Daniele. A transmissão religiosa na modernidade: elementos para a construção de um objeto de estudo. In:
Estudos de Religião: Por uma sociologia do protestantismo. Ano XV. Nº 18. São Bernardo do Campo: UMESP, junho 2000, p.25-32.
proporcionar as comunidades, através da descrição contida no capítulo 1, uma maneira das mesmas clarificarem suas crenças, seus símbolos, tradições e fortalecer a “doutrina” da esperança e fé que possuíam.
Assim podemos dizer que a descrição do “semelhante ao FdH” possuidor de todas essas características é o veículo mediante o qual João expressou a seus companheiros a certeza, a percepção e a experiência da soberania do Cristo Exaltado em meio as suas comunidades, no caso as sete igrejas.
CONCLUSÃO
O estudo do tema sobre o FdH nas línguas aramaica e hebraica possibilitou verificar que as palavras hebraicas possuem um significado coletivo para homem exprimindo um sentido se povo, clã, aldeia. Pode possuir o significado de homem, mas que no decorrer de nosso estudo verificamos que a palavra hebraica não originou a expressão que aparece com forte ênfase para um ser humano em seu sentido individual. As palavras aramaicas apresentaram este significado mais enfaticamente no sentido de apresentar os significador de
“um homem qualquer (indefinido)”, “um homem definido” e a forma mais debatida pelos pesquisadores, qual seja, um circunlóquio para “eu”. A expressão era utilizada para destacar a figura do arauto, do falante e daquele a quem ocupava um lugar de destaque.
A pesquisa mostrou que as palavras aramaicas que forma os termos FdH não corresponde a um título honorífico permanente o qual pode ser utilizado em diversas culturas (judaica, persa e romana). A questão de titularidade remeteria a um personagem específico que poderia ocupar o lugar definitivo dentro de uma tradição, como é o caso de um messias davídico. Entendemos que os termos FdH correspondem a uma expressão a qual pode ser transformada numa tradição que encontra lugares nas culturas judaica (em hebraico ben Adam nos livros de Salmos faz-se alusão, no entanto no livro de Ezequiel que se focaliza a descrição de um ser semelhante a um homem, o qual ganha nova conotação ao invés de um sentido de coletividade; aparece também no livro de 1Enoque num cenário de julgamento e em 4Esdras) persa (em aramaico bar ’enāsh ocorre a expressão FdH com seu sentido mais apocalíptico quando apresenta a descrição do FdH possuindo poderes celestiais) e romana (ambiente do NT em que ocorre na língua grega a expressão nos evangelhos, livro de Atos e Apocalipse).
A forma com a qual se traduz a expressão FdH de forma alguma indica a escolha de um gênero para tal ser enigmático. Demonstramos que existe uma palavra hebraica que possui este significado de gênero, sendo que não é este o nosso caso. Nossa pesquisa entende que a forma com a qual pode ser traduzida esta expressão “Filho do Homem” é um sinônimo para a expressão “Filho da Humanidade” uma vez que suas descrições muitas vezes encontram contraposições a animais híbridos e bestas.
A forma com a qual os textos apocalípticos são apresentados permitem-nos verificar alguns tipos de aspectos básicos e interpretativos, como por exemplo, a construção daquilo que chamam de Itinerários apocalípticos. A construção destes modelos de itinerários não tem a ver com o comprometimento de Deus na história, antes existe o entendimento de que o tempo presente sem salvação “é semelhante a um quebra-cabeças” desmontado, cujo plano está nas mãos de Deus. Os apocalipses desenhavam quadros da história analisando o cenário em que os povos se encontravam e afirmando que haveria um julgamento final. O tempo não era contado como o tempo cronológico dos acontecimentos, senão que um tempo simbólico de eras e eons imaginários. No livro de Daniel constatou-se que o FdH que estava realizando o julgamento contra as nações estrangeiras poderia ser entendido como sendo: um ser angélico (Miguel ou Gabriel); o povo de Israel (em seu sentido coletivo, o qual dominaria sobre toda a Terra) e a esperança de um grupo de visionários que projetava nesse ser a tão sonha da liberdade contra Antíoco IV Epífanes. Em 1Enoque as possíveis interpretações são:
um ser humano denominado Justo e o próprio personagem Enoque. No livro de 4Esdras aponta para um ser humano possuidor de poderes supra-humanos e divinos, sendo colocado como um juiz escatológico.
Na apocalíptica estão presentes as conseqüências da justiça já existente, entre Deus e as pessoas, de forma que a orientação básica não é a comunicação do temor, antes a transformação e modificação de qualquer tipo do mesmo. O mundo em que se encontram as pessoas já é uma construção de temor e os apocalípticos se aproximam deste sistema mostrando que somente aonde aparece o pecado dos cristãos, nisto serão refletidos seus verdadeiros temores. Os textos apocalípticos não devem ser entendidos sempre como o preto no branco, uma vez que tratam do futuro de tais pessoas. Logo como tais pessoas portadoras desta mensagem poderiam entender o futuro? Seria irreal? Imaginário? Pelo contrário uma vez que se trata de um Deus real na história dos judeus, as portadoras do futuro são comunidades cristãs reais, não meramente imaginadas. 189
A pregação de Jesus é uma das indicações acima. Quando o Galileu inicia seu ministério realizando milagres e prodígios o povo ficava espantado de tamanha autoridade que um homem possuía. A explicação de tais milagres era de que o reino de Deus estava
189 BERGER, Klaus. Hermenêutica do Novo Testamento. Estudos Bíblico-teológicos NT 15. São Leopoldo:
IEPG Sinodal, 1999. 355-371.
próximo e aqueles que obedecesse a pregação de Jesus seria bem aventurado e reinaria com Deus. Mas a mensagem de Jesus não estava completa somente nesta diretiva senão que na apresentação de um ser que o mesmo invocava sempre em seus cenários de julgamento. Jesus construía um mundo imaginário na mente das pessoas quando iniciava as descrições de seu ministério futuro projetando suas expectativas no FdH. A tradição do FdH encontrou nos evangelhos um solo fértil para aqueles que estava contrários a dominação romana. O ministério de Jesus contemplou uma vasta pregação sobre este ser misterioso. Não podemos afirmar aqui que Jesus se considerou o FdH e tampouco o messias de Israel. O que podemos dizer é que o mesmo projetava seu ministério na expectativa do surgimento do FdH.
A apocalíptica trata também das dimensões concreta do Deus judaico reconstituindo a ordem física do mundo de uma maneira espiritualizada, remetendo para o futuro as expectativas presentes. Quando os textos referentes à ressurreição de Jesus aparecem, bem como a referência ao Cristo exaltado em Apocalipse, chegam como agentes promotores da idéia apocalíptica de espiritualização da realidade. Dessa forma a fala apocalíptica através de enigmas (aspecto poético-mítico) constitui-se a maneira mais apropriada para se falar sobre Deus. Tais enigmas correspondem também ao estudo do universo angélico e suas formas de apresentação aos seres humanos. Como demonstrado na pesquisa a veneração de anjos na antiguidade se fazia em direção a personagens conhecidos da história de Israel (Miguel e Gabriel), bem como personagens que a literatura Apócrifa e Pseudepígrafa menciona (Uriel, Israel, Rafael, Yaoel Erimiel e Metatron). A veneração ocorria no sentido dos povos entenderem que tais anjos eram guardiões e protetores, bem como mensageiros celestes, podendo executar julgamento e batalhas. O estudo sobre a Cristologia Angelomórfica analisou a opinião dos pesquisadores que entenderam que Jesus possuía atributos angelicais e ainda foi comparado com um dos anjos principais de Deus (Gabriel). A indicação para esta comparação deve ser feita com muita ressalva no livro de Apocalipse uma vez que o FdH que aparece no capítulo 1 não apresenta uma titularidade angélica na descrição de João. O mesmo possui traços angélicos e divinos, mas que, no entanto não nos direciona para a identificação real de um dos anjos acima descritos.
No livro de Apocalipse capítulo 1,9-20 a descrição do FdH remete primeiramente a um ambiente cúltico e templário. As roupas daquele que é como o FdH demonstram a
exaltação deste ser que se encontra em meio aos sete candelabros e possuindo em sua mão as sete estrelas. De sua boca saia uma espada aguda de dois fios e os seus olhos eram como chama de fogo. Sua voz era como de muitas águas e seu aspecto reluzente. Estas descrições apontaram para identificação de um ser angélico, bem como um ser divino. No entanto quando de sua declaração o mesmo diz que é o primeiro e o último, uma clara referência ao Deus que se apresentou a Moisés dizendo ser o eu sou o que sou. No mesmo livro podemos encontrar em 1,8 Deus dizendo que é o Alfa e o Omega. Não bastasse tal afirmação o FdH afirma que esteve morto e que agora vive, remetendo as palavras de Jesus quando falava que o FdH deveria sofrer e ser entregue nas mãos dos gentios e de ressuscitar ao terceiro dia. Na seqüência o misterioso ser afirma ser possuidor das chaves da Morte e do Hades.
O fato de Jesus ser entendido como o Cristo pode ser atestado nos livros do Novo Testamento, principalmente nas cartas paulinas. A maneira com a qual os pesquisadores tentaram entender Jesus como sendo um anjo no referido texto necessita de certo cuidado numa afirmação final. A apresentação de João direciona o texto para a compreensão de que o Cristo ressurreto e exaltado mostra-se agora como o possuidor de todas as coisas na Terra e no céu. Entendemos que Jesus não foi exaltado a categoria de uma anjo principal, tampouco a descrição do FdH seja uma referência a um determinado anjo, antes que o Cristo exaltado recebeu, na descrição de João traços que o caracterizaram como procedente do céu e portador de poderes supra humanos outorgados por Deus o que poderia indicar uma cristologia do FdH.
A questão que fica em aberto para estudos posteriores é a de que o FdH foi estudado no presente trabalho levando-se em consideração a questão filológica e sua tradição no judaísmo e que o mesmo poderia representar um personagem de outras culturas, não somente com a denominação que esta frase possui, antes como um salvador cósmico que faz parte da mitologia e história das demais culturas da antiguidade.
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