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AIDS E COMUNICAÇÃO: REPENSANDO CAMPANHASE ESTRATÉGIAS

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INFORMARE -Cadernos do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação I I 3

ARTIGO

AIDS E COMUNICAÇÃO: REPENSANDO CAMPANHAS

E

ESTRATÉGIAS

Antonio Fausto Neto

Professor, UFRJ/ECO

Palavras-Chave AIDS Discurso Comunicação

N

osso primeiro contato com aquestão AIDSestabeleceu-se na produção do livro "Mortes em derrapa-gens - os casos Corona e Cazuza no discurso da comunicação de massas". (FAUSTO NETO, A. 1989) Nesse livro, analisamos as estratégias de cobertura da mídia brasileira (jornais e revistas) sobre omodelo de morrerdos olimpianos: cantores, astros de novelas e outros personagens do mundo da indústria cultural brasileira.

Com interesse essencialmente acadêmico, o livro ultrapassou as fronteiras iniciais e suscitou várias leituras.

É o balanço desse conjunto de leituras (sugestões, críticas, observações, etc.) que nos levou a estabelecer um segundo contato com a questão. Evidentemente, um contato no âmbito da investigação, campo extremamente específico mas produtor de muitas ressonâncias: a comunicação e seus dispositivos de produção de sentido, ou seja, como a AIDS é interpretada do ponto de vista da Comunicação. Este é nosso interesse.

(2)

1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1 1

Parece impossível escapardestaengenharia. Mas,

ao mesmo tempo, como reformular as estratégias e

seus efeitos, a partir da existência da mesma

comuni-cação e do discurso da atualidade?

Sabemos que todos os processos de transmissão

de conhecimentos são, grosso modo, institucionalmente

mediatizados e visibilizados por protocolos e técnicas

de comunicação. A AIOS é também mediatizada por

vários outros nichos (Saúde, por exemplo), através dos

dispositivos e protocolos do discurso da informação

ou, no limite, por certas estratégias mercadológicas.

Vemos que a atualidade dos

media

é também

alimen-tada por fatos novos, construídos e liberados por

fontes técnicas que desenvolvem relacionamentoscom

o processo de produção dos

media.

Estes, por sua

parte, transformam os discursos vindos de outros

campos em suas regras discursivas, submetendo-os à

noção de atualidade. Possivelmente, se houvesse uma

rarefação de notícias no trabalho dos

media,

a AIOS

sofreria outros "efeitos de sentido", uma vez que ela

somente existe em vários domínios discursivos,

den-tre eles o mediático, que lhe confere, portanto, uma das

dimensões de sua existência social. Não seria esta uma

instigante hipótese de trabalho?

Este problema é muito complexo porque nos

remete a uma questão forçosamente contemporânea e,

Aíds e comunícação: repensando campanhas e estratégias 114

A AIDS é urna doença com dupla conotação de

Ao longo da própria história da emergência

~

atualidade. Atualidade quanto ao impacto dos dados

doença-seassimpodemosdizer-aAIDSéestrutura~

empíricos e epidemiológicos e suas conseqüências. E

pela noção da atualidade mediática, seja como notícj

atualidade enquanto territorialização das diferentes

as preocupantes; secção especial (nos jornais, rádio

estratégias que constróem o discurso da comunicação

televisão); acontecimento temático ou objeto de campal

de massas e suas repercussões semânticas e simbóli-

nhas. Emsuma,aAIDS faz parte de um enquadrament<

caso

narrativo e estrutural da produção mediática, ou sejal

os chamados acontecimentos-situações, que

explo-dem no tempo, duram e se renovam constantementel

com diferentes roupagens discursivas.

Nossa hipótese de trabalho é que o processo de

1

territorialização da AIDS, no âmbito dos

media,

opera

I

como um dispositivo de hierarquização do sentido e,

I

antes de mais nada, opera pelas ofertas

I

construções

que as janelas e regras comunicativas produzem.

Disso, pode-se tirar uma conclusão: o discurso

mediático ocupa, hoje, um lugar estratégico que

ex-pressa uma dimensão extremamente significativa no

próprio processo de construção

I

explicação da

doen-ça. Vale lembrar que muitos e diferentes campos e

atores procedem a uma leiturado problemae constróem

suas estratégias tendo como base os insumos da

doen-ça-atualidade estruturada pelos

media.

Neste caso, o complexo dos

media

é visto como

um conjunto de estruturas que estariam - de uma forma

autônoma ou dependente de outras fontes - a produzir

e a disseminar conhecimentos passíveis de alterar

elou

subverter comportamentos que, por fim, alterassem o

fluxo de avanço do vírus. Temos, portanto, de umlado,

a estrutura complexa de uma imensa oferta de

infor-mação pela via dos mais diferentes protocolos

discursivos e comunicativos e, de outro, a esfera dos

efeitos. Apesar das campanhas mediáticas, as pessoas

não se sentem concernidas por aquilo que discutem,

advertem e propõem os diferentes protocolos de

infor-mação sobre a AIOS.

É

o caso de se perguntar: por que,

a despeito de tanto investimento

inforrnacional-co-municativo, a AIDS avança? Esta questão deveria ser

respondida por uma avaliação que ultrapassasse a

lógica e os impactos das campanhas e suas diferentes

estratégias.

Um dos interesses que permeia hoje as

pesqui-sas, é o de tentar responder porque a AIOS é uma

doença mediática ou, em outras palavras, porque ela

se constitui e é constituída pela noção de atualidade

mediática.

É

verdade que a AIDS, desde seu aparecimento,

é produzida por construções discursivas das mais

diversas modalidades, voltadas para diferentes

uni-versos: aqueles que trabalham com pesquisa,

constru-ção de diagnóstico, transmissão de dados, elaboraconstru-ção

de políticas. Além desses, há os que travam disputas

em vários campos institucionais em tomo da

nomea-ção do sentido a ser dado

à doença. Nossa hipótese é

que, no campo dos

media,

a AIDS é detonada como

urna questão, um fenômeno social relevante. Para isso,

os

media

têm uma propriedade especial: de um lado,

seu papel de registro

J

passagem de outros discursos

elaborados pela própria sociedade e, de outro, sua

condição dedispositivo de produção e de semantizações

próprias, segundo as leis que fazem reconhecer o

campo dos

media

(jornalismo, publicidade, relações

públicas, etc.), como nicho que vai tecendo a oferta de

diferentes construções de discursos, cujo efeito de

sentido é, dentre outros, o de mostrá-lo como um

lo cus

capaz de dar inteligibilidade própria à doença.

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Aids e comunicação: repensando campanhas e estratégias com certeza, política e estratégica: todos os rituais

informativos, porexemplo, estão hoje inexoravelmente submetidos a processos de "publicização" e visibilida-de, que têm nosmediaum grande agente de

constitui-ção desta novapraça pública.

Apenas como sintoma deste reconhecimento, vale lembrar que grande parte das estratégias institucionais e técnicas de comunicação se estruturam em tomo das técnicas "marketológicas" (televisivas, jornalísticas, etc.).

Se o campo dosmediaconstitui a

"AIDS-atuali-dade", é também constituído por campos outros, cujo objetivo - a partir de suas especificidades, lógicas e leis próprias - é reger, à sua maneira, os protocolos (persuasivos, didáticos, promocionais) de discursos enviados à sociedade, dentro das mais diferentes estra-tégias de prevenção do vírus. Talvez não haja outro elemento tão significativo para caracterizar o reco-nhecimento do campo mediático como uma instância "engendradora" de sentido sobre a AIDS, como os contratos de leitura, que são estruturados e que se visualizam através das campanhas e outras iniciativas mediáticas.

Portanto, se até então os discursos sobre a AIDS interpelavam genericamente as pessoas, hoje, mais do que ontem, eles interpelam os atores sociais, a partir de enquadramentos discursivos precisos. Não falam de qualquer lugar, mas de um lugar onde também se constitui o campo dosmedia,e de onde se presumem

estratégias de produção de sentido.

Este protocolo vem movimentando, em escala mundial, imensos recursos financeiros, em tomo, por exemplo, das campanhas. Os media têm sido o

desaguadouro de esforços e preocupações, no sentido de tocar o indivíduo com interpelação precisa sobre os cuidados e as possibilidades de evitar o vírus. Se os protocolos comunicativos são financeiramente den-sos, igualmente complexos são os seus resultados.

Malgrado esforços persuasivos para alertar con-tra os perigos da AIDS, a necessidade de modificar as práticas sexuais, etc., os índices mostram o avanço da doença e a resistência contra os métodos de prevenção. Não obstante a bateria mediática, não se prevêem grandes mudanças nos comportamentos de preven-ção, restando ainda uma grande inquietude.

Como explicar esta estranha "desregulagem", além do flagrante fracasso do discurso dos media

sobre os indivíduos e a baixa rentabilidade das

campa-115

nhas? No estágio atual, estas poderiam ser as bases para um novo programa de pesquisa e de ações multi-institucionais. Tal programa poderia envolver os mais diferentes segmentos estratégicos e campos do saber, em tomo de pressupostos que questionassem os enca-minhamentos e projetos dos setores responsáveis pela formulação, planejamento e produção de estratégias e campanhas mediáticas.

Arrolamos algumas premissas que, eventual-mente, podem ser retomadas em outros fóruns de trabalhos com tais preocupações:

• Para explicar a estruturação de públicos, os estrategistas em comunicação trabalham com catego-rias de análise e indicadores clássicos, reflexo de uma formação baseada em modelos de estratificação hoje superados, envolvendo conceitos vagos (e, de certa maneira, discutíveis) de audiência, massa, popula-ção e grupo.Toma-se necessário modificar a concep-ção do mercadoda AIDS, no sentido de concebê-la como uma doença que interpelacada pessoa indivi-dualmente.

• Deve-se dar atenção a uma segmentação social, mas igualmente a uma segmentação discursiva, especialmente aos aspectos relativosareinvestimentos discursivos heterogêneos, mobilizados pelos indiví-duos. Em outras palavras, não basta apenas dirigir campanhas para o indivíduo enquanto tal, mas estar atento às diferentes situações (discursivas, simbóli-cas, etc.), com as quais o mesmo indivíduo se pode deparar.

• Há necessidade de se desdobrar e especificar as campanhas, aprofundando seus aspectos voltados claramente para a doença, e recuperar os métodos para evitar que as.~ociações como, por exemplo, sexo-morte, se contaminem simbolicamente.

• Constata-se, cada vez mais, a importância das campanhas se voltarem verticalmente sobre os diferentes sujeitos, identidades e subjetividades. Elas devem, também, abandonar clichêsque tentam unificar semanticamente diferentes atores e compor-tamentos, como se os indivíduos estivessem fixados material e simbolicamente, unificados em caminhos, percursos de desejos e de significação.

• Há necessidade de se multiplicar diferentes abordagens e metodologias e de se relativizar o approachpublicitário. Os indivíduos não são apenas alvos e massa de manobra das campanhas ou meros significantes retóricos, como os "bráulios". Esses

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INFORMARE - Cad. Prog. Pós-Grado Cio Inf., Rio de Janeiro, v.2, n. 1, p. 113-118, jan.ljun. 1996

• O contrato de leitura comunicacional deve

ser sempre refeito e nunca oferecer o medo como prêmio. Ao contrário, deve proporcionar meios para que o indivíduo se aproprie de alternativas para lidar com situação de risco e não fazer do medo uma paralisia.

• Os estrategistas, grosso modo, encerram seus

cuidados quando se dão conta de que a população está formalmente informada sobre os perigos do vírus via exposição a campanhas. Isso é típico das avaliações de campanhas, quando damos conta dos registros sobre seus tipos: áreas cobertas, recursos gastos, números de inserção, etc. Esta questão apresenta a inexistência de outros processos que procurem examinar, por exem-plo, os efeitos, a longo prazo, das campanhas relativas à recepção. Há um ponto de vista segundo o qual os indivíduos mais informados, social e mediaticamente, sentem-se menos constrangidos pelas ameaças, como se a mera exposição à informação, compulsoriamente, os "premiasse". A eficácia das campanhas não deve

ser avaliada somente por suaperfomance em

produ-ção, mas por aquilo que os indivíduos podem efetiva-mente fazer com suas mensagens. Os nichos formuladores de estratégias deveriam ser menos fe-chados e envolver especialistas e dados mais abrangentes, para além da vertente meramente publi-citária. Por ser complexa e com uma circulação social fulminante, a AIDS requer modelos de comunicação igualmente mais complexos.

Finalizando, pode-se dizer que, por várias ra-zões, as diferentes tentativas de interação das ofertas de conhecimentos e sua respectiva demanda por parte de usuários são reféns do modelo informacional estí-mulo / resposta e, ao mesmo tempo, do sistema linear de comunicação de massa. Diante da complexidade do problema do dispêndio de recursos, com tão tímidos resultados, do desconhecimento dos atalhos utiliza-dos pelas campanhas e, especialmente, das outras campanhas que a população gera no seu imaginário e também no seu estoque simbólico, parece importante que se faça uma discussão conceituaI sobre o modelo que tem pautado, no Brasil, a estratégia de comunica-ção sobre a AIDS. O problema requer urgência, sabe-mos todos. Mas há também urgência em tomo de uma discussão técnica desapaixonada, que nos permita

uma compreensão que ultrapasse a que os media

instauram. Entende-se, por exemplo, que as campa-nhas não sejam confiáveis, uma vez que, além de revestidas apenas por certas soluções da atualidade mediática, sua eficácia é avaliada somente pelo que se divíduos têm necessidade de falar, dar testemunhos,

sugerir encaminhamentos, avaliar e produzir discur-sos que se possam agregar às tentativas de lidar com a questão. Neste caso, é preciso identificar e criar instru-mentos e situações de comunicação que funcionem no interior de outras redes, não necessariamente defini-das pelas campanhas. É necessário, portanto, não só reconhecer mas permitir o funcionamento de outras redes pelas quais migram e se estruturam discursos a respeito desta problemática.

• A noção de público deve ser redefinida pelas

várias situações nas quais os indivíduos se encontram. Assim, as mensagens devem ser adaptadas não só para cada um dos públicos, mas para cada situação.

• O problema da recepção das campanhas e,

particularmente, das mensagens deve receber maior atenção. O Brasil, por exemplo, é um dos países que mais tem investido em campanhas públicas e privadas, em termos de TV ou meios afins. Porém, muito pouco se conhece da eficácia dessas campanhas, a não ser pelos indicadores classicamente tomados como refe-rência pelas abordagens publicitárias e mercadológicas. Há necessidade de outrosinventários avaliativos que considerem o discurso dos indivíduos como uma va-riável fundamental. Neste sentido, estamos trabalhan-do em duas pesquisas específicas. A primeira,

reconstitui a construção discursiva da AIDSnosmedia

brasileiros e avalia, discursivamente, as campanhas e seus impactos efetivos. A segunda, estuda compara-tivamente, no Brasil e em Portugal, alguns aspectos relativos à produção jornalística e publicitária.

• Noções da metodologia mercadológica nem

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Aids e comunicação: repensando campanhas e estratégias

passa na cabeça de seus fonnuladores, para os quais certos instrumentos de avaliação só ratificam esta postura. Uma política de comunicação, que permitisse a compreensão das maneiras pelas quais os indivíduos se vinculam às campanhas e a seus apelos, poderia gerar algumas surpresas. Campanhas mais elaboradas para o mundo complexo desse nicho chamadousuário poderiam sugerir questões que não são observadas pelas atuais estratégias.

Ao mesmo tempo, seria importante desenvolver um trabalho mais permanente entre os setores de

Saúde e mediae a sociedade em geral, com agendas

que pudessem efetivamente influenciar as políticas

editoriais com que osmediapautam o acontecimento

AIDS. No fundo, a questão da AIDS, além de mobili-zar outras representações acerca do funcionamento de uma sociedade, coloca na ordem do dia a necessidade de estruturação de políticas de comunicação que ultra-passem as pressões e necessidades puramente "marketológicas" do discurso. Não se podendo desco-nhecer a importância desse discurso, isso não quer dizer que não haja outros protocolos capazes de reformular determinadas estratégias de sua

constru-ção.

°

exemplo da AIDS é uma questão típica,

paradigmática e desafiadora, que nos coloca aberta e dramaticamente diante da necessidade de revennos os

117

papéis das políticas de comunicação. E daí nos per-guntamos: queremos políticas dos meios de comuni-cação ou políticas de comunicomuni-cação construídas no

espaço público, onde osmediaterão sempre um papel

de produção e articulação de discursos a partir da existência e negociação de diferentes protocolos sim-bólicos e expectativas produzidas pela própria socie-dade?

Quem sabe, transfonnar instituições e clientes em parceiros. Do contrário, a AIDS continuará sendo apenas produto dos protocolos comunicativo-publici-tários. Há outras formas dos indivíduos se verem na oferta comunicativa. Podemos tiraresta lição da "Cam-panha do Bráulio". Quando os indivíduos são interpe-lados de forma vazia, certamente reagem, dizendo, de maneiras diferentes, como se querem ver e como se inscrevem na parceria ou no material simbólico. Em suma, anunciam para os estrategistas um lugar de onde manifestam a existência do receptor que, surpreen-dentemente, diz outras coisas além das que a campa-nha prevê. Para terminar, uma sugestão: não devemos nos limitar ao aspecto anedótico, na avaliação do público sobre a "Campanha do Braulio". Ela é uma senha muito oportuna com a qual se pode rever e repensar os fomentos, as metodologias e os instrumen-tos das campanhas sobre a AIDS no Brasil.

Abstract

The paper deals with campaigns of AIDS in Brazil carried out by themedia.Some strategical processes of the

mediaand advertising on this matter are critically analyzed. The article suggests some points about suplemmentary information in order to develop discussions on new campaigns of AIDS, from the point of view of the receiver

universe within arguments of themedia.

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Referências

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