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Fun¸c˜ oes em Perspectiva

2010 Vinicius Cif´ c u Lopes

UFABC, Maio de 2010

Intui¸c˜ao versus defini¸c˜ao

Pensamos em f: X → Y como uma “regra” que associa a cada elemento de X um elemento de Y.

Mas isso ´e problem´atico: O que ´e essa “regra”? Que tipos de regras podemos usar para descrever fun¸c˜oes?

Ent˜ao vamos trabalhar com uma defini¸c˜ao precisa:

Umafun¸c˜ao f: X →Y ´e qualquer rela¸c˜ao entre pontos de X e pontos deY tal que todo x∈X relaciona-se com um ´unico y∈Y.

Escrevemos f(x) =y.

Portanto, a associa¸c˜ao f(x) = y n˜ao precisa ser descrita com f´ormulas ou palavras!

(“Ponto” ´e sinˆonimo de “elemento”.)

Dadox, o correspondentey´e ´unico. Nem todoy precisa ser relacionado a umxe, tamb´em, n˜ao ´e preciso ser o mesmo y para todos os x’s. Mas ´e preciso que n˜ao haja nenhum x sem um y correspondente.

Reescreva o par´agrafo anterior indicando que oycorrespondente axdepende dessex; afinal, y=f(x). Use esta nota¸c˜ao: yx.

Por´em, continuaremos a utilizar “regras” para definir fun¸c˜oes.

Basta que sempre, dado um ponto no dom´ınio (ou seja, um valor espec´ıfico para a vari´avel independente), possamos computar um unico´ valor no contradom´ınio (a vari´avel dependente, assim chamada porque depende da outra).

Para este exerc´ıcio, use a nota¸c˜ao |Z| para o n´umero de elementos de Z, n´umero esse chamado a cardinalidade de Z. (N˜ao confundir com o valor absoluto de um n´umero!) Por exemplo, coloque p=|X| e q=|Y|.

Exerc´ıcio: Considere o conjunto YX de todas as fun¸c˜oes X → Y. Suponha que X e Y s˜ao finitos: quantos elementos temYX ? (Pense tamb´em: Vocˆe listar´a “regras” ou contar´atodas as fun¸c˜oes?)

Para o pr´oximo, lembre que fun¸c˜oes s˜ao todas as rela¸c˜oes com a propriedade indicada.

E preciso estar claro (se n˜´ ao estiver, pergunte!) o que ´e uma rela¸c˜ao entre X e Y — ´e um subconjunto do produto X×Y ={(x, y)|x∈X e y∈Y } — e que existe a rela¸c˜ao vazia.

(2)

Exerc´ıcio: Descreva as fun¸c˜oes X →Y (ou seja, determine o conjuntoYX) para cada X, Y abaixo:

(a) X =∅;

(b) Y =∅— como deve ser X para existir uma fun¸c˜ao?

(c) X unit´ario;

(d) Y unit´ario.

Primeiros exemplos

Estudaremos principalmente fun¸c˜oes lR → lR, ditas fun¸c˜oes reais de uma vari´avel, ou, mais precisamente, fun¸c˜oes de uma vari´avel real com valores reais.

De fato, estudaremos X →lRpara alguns X ⊆lR bem comportados.

Tamb´em estudaremos fun¸c˜oeslN→lR. N˜ao se usa a terminologia anterior. Essas fun¸c˜oes chamam-se sequˆencias (reais).

Dada s: lN→lR, escrevemos sn em vez de s(n).

Fun¸c˜oes polinomiais:

Dados a0, . . . , an∈lR, pomos

p: lR→lR, p(x) =

n

X

i=0

aixi.

Vocˆe pode estar acostumado com ´ındices em outra ordem!

Aqui, conv´em vocˆe revisar (ou, se n˜ao conhecer o assunto, procurar estud´a-lo) como se deduz o sinal de um polinˆomio p(x) dado um valor espec´ıfico para x, assumindo que pj´a foi fatorado, isto ´e, conhecem-se suas ra´ızes a1, . . . , an e p(x) = Qn

i=1(x−ai). Basta colocar as ra´ızes em ordem crescente e montar uma tabela com todos os intervalos entre elas. Ent˜ao determina-se o sinal de cada monˆomio (x−ai) em cada intervalo e obt´em-se o sinal de ppor multiplica¸c˜ao. A mesma t´ecnica funciona para as fun¸c˜oes racionais que definiremos abaixo.

Quando p(x) = a0, diz-se que p ´e constante.

Quando p(x) = a1x, diz-se que p ´e linear.

Quando p(x) = a0+a1x, diz-se que p ´e afim.

Muitas vezes, usa-se o adjetivo “linear” em vez de “afim”. Al´em disso, em estudos mais avan¸cados, “afim” adquire outro significado.

Fun¸c˜ao m´odulo:

f: lR→lR, f(x) =|x|=

( x sex>0;

−x sex <0.

(3)

Fun¸c˜oes caracter´ısticas:

Dado E ⊆X, temos

χE: X → {0,1}, χE(x) =

(1 sex∈E;

0 sex /∈E.

Exerc´ıcio: Assuma D, E ⊆X. Descreva χD∩ED∪E em termos de somente χDE. O que precisamos sobre D e E para considerar χD×E? Descreva-a em termos de χD e χE.

Vocˆe pode tamb´em pensar sobreχD

rEDME. Fun¸c˜oes escada ou de patamares:

Se X = E1∪. . .∪En onde os Ei’s s˜ao dois a dois disjuntos e a1, . . . , an ∈ lR, podemos tomar f: X →lR, f(x) = ai quando x∈Ei.

Por que f se chama escada, ou tamb´em, de patamares?

O que acontece se os Ei’s n˜ao s˜ao disjuntos? E se n˜ao cobrirem todo o X?

A primeira pergunta ter´a uma resposta clara quando estudarmos representa¸c˜oes gr´aficas:

volte a ela nesse ponto!

Quanto `a segunda pergunta, essa ´e uma defini¸c˜ao de fun¸c˜ao usando uma “regra” e precisamos sempre que tal “regra” produza um ´unico valor da fun¸c˜ao para cada valor do argumento. Aqui, portanto, temos que verificar o que d´a certo e o que d´a errado.

Quando estudarmos opera¸c˜oes entre fun¸c˜oes, poderemos propor uma solu¸c˜ao: tomamos f = a1χE

1 +. . .+anχE

n. Note que esse ´e um modo de generalizar a defini¸c˜ao original, que assume que X est´a particionado em E1, . . . , En. Essa fun¸c˜ao tamb´em ´e uma fun¸c˜ao escada?

(Verifique que sim.)

Nomenclatura e propriedades

Quando falamos de uma fun¸c˜aof: X →Y,especificamos o dom´ınioXe o contradom´ınio Y.

Em v´arias situa¸c˜oes do dia-a-dia, incluindo este curso e os pr´oximos, pode-se deixar um ou outro ou ambos dom´ınio e contradom´ınio subentendidos. Contudo, ´e sempre salutar inquirir quais s˜ao eles. Veja:

Fun¸c˜oes racionais:

Suponha que p, q s˜ao fun¸c˜oes polinomiais. Podemos definir f: lR→lR, f(x) = p(x)/q(x) ?

Podemos definir f: X →lR como acima, sendo X ={x∈lR|q(x)6= 0}.

(4)

A fun¸c˜ao f: X →Y determina sua imagem f[X] ={f(x)|x∈X}.

Generaliza¸c˜ao: dados A⊆ X e B ⊆Y, definimos a imagem f[A] ={f(x)| x∈A} e a pr´e-imagem f−1[B] ={x∈X |f(x)∈B}.

Costuma-se indicar a imagem de f (para todo o dom´ınio X) como Imf.

Exerc´ıcio: Mostre que sempre f−1[f[A]] ⊇ A e f[f−1[B]] ⊆ B. Construa exemplos em que as inclus˜oes s˜aopr´oprias, isto ´e, n˜ao s˜ao igualdades.

Ao longo deste cap´ıtulo, vamos revisar ou aprender muitos novos conceitos. A quantidade de informa¸c˜ao a ser absorvida ´e realmente grande, mas necess´aria para ser bem usada. Do mesmo modo, o vocabul´ario de uma l´ıngua que aprendemos (inglˆes, espanhol. . . ) consiste de diversas pequenas defini¸c˜oes separadas, sendo impratic´avel formar frases com apenas uma ou duas palavras.

A fun¸c˜ao f: X →Y pode ser:

injetora se cada f(x) ´e exclusivo para essex;

sobrejetora se caday relaciona-se a algum x;

bijetora se ´e injetora e tamb´em sobrejetora.

Em outras palavras: f ´e injetora quando (∀a ∈ X)(∀x ∈ X) [x 6= a ⇒ f(x) 6= f(a)]. Veja que podemos substituir essa proposi¸c˜ao por (∀a∈X)(∀x∈X) [f(x) =f(a)⇒x=a].

f ´e sobrejetora quando (∀y∈Y)(∃x∈X) [f(x) =y], ou seja,f[X] =Y.

f ´e bijetora quando a correspondˆencia entre X e Y pode ser invertida, isto ´e, dado um y encontraremos sempre algum x (por sobreje¸c˜ao) que se relacione com y e, al´em disso, esse x ´e

´

unico (inje¸c˜ao).

Quando f ´e bijetora, podemos definir sua inversa f−1: Y →X assim:

f−1(y) = xtal que f(x) =y

Tudo isso se aplica tamb´em a qualquer restri¸c˜ao de f induzida por um A⊆X:

f|A: A→Y, f|A(x) =f(x)

Representa¸c˜ao gr´afica (Gr´afico na lousa.)

O eixo horizontal das chamadas abscissas representa o dom´ınio X. O eixo vertical das ordenadas representa o contradom´ınio Y.

Quando ambos os eixos s˜ao lR, chamamos o ponto (0,0) de origem.

(5)

Para estudar fun¸c˜oes como rela¸c˜oes, j´a utilizamos uma representa¸c˜ao conjuntista em que X eY s˜ao “bolsas” de elementos e f: X →Y ´e uma cole¸c˜ao de flechas de X a Y.

Agora, revisaremos a representa¸c˜ao cartesiana tradicional. Ela identifica pontos do plano com elementos do produto cartesiano X×Y = {(x, y) | x ∈ X e y ∈ Y }, assim: um ponto com abscissa x e ordenada y ´e identificado com o par ordenado (x, y). Nessa representa¸c˜ao, usualmente, cada eixo representa uma c´opia da reta real lR, embora mais geralmente nem X nem Y precisem ser um eixo completo.

Os eixos podem intersectar-se em qualquer ponto, conforme a conveniˆencia visual do desenho.

Isso ´e comum em gr´aficos de valores financeiros, por exemplo, onde informa¸c˜oes sobre bilh˜oes de reais s˜ao mostradas bem pr´oximas da intersec¸c˜ao dos eixos, embora as quantias n˜ao sejam pr´oximas de zero. Contudo, a origem ´e sempre o ponto (0,0).

Uma regi˜ao do plano (por exemplo, a figura de uma ameba, ou um emaranhado de tra¸cos e pontos) corresponde a um subconjunto deX×Y que, por sua vez, ´e uma rela¸c˜ao entreX eY.

Se f: X →Y ´e uma fun¸c˜ao, ent˜ao{(x, f(x))|x∈X} ´e o seu gr´afico.

(Gr´afico na lousa.)

(Desse modo, estudar uma fun¸c˜ao como sendo uma rela¸c˜ao com caracter´ısticas especiais ´e o mesmo que a equiparar ao seu pr´oprio gr´afico, que ´e uma rela¸c˜ao.)

A bola aberta ou vazada no gr´afico indica que a fun¸c˜aon˜aoassume tal valor naquela abscissa.

Ou a abscissa n˜ao pertence efetivamente ao dom´ınio, ou o valor da fun¸c˜ao dever´a ser marcado com uma bola fechada ou cheia na mesma vertical.

Aten¸c˜ao: Se o eixo das abscissas representa todo o conjunto lR, ent˜ao o gr´afico de uma sequˆencia lN → lR consiste de pontos equidistantes 1 no semiplano direito e n˜ao ´e uma linha cont´ınua!

Teste das retas verticais:

(Gr´aficos na lousa.)

Na representa¸c˜ao gr´afica usando abscissas e ordenadas, o gr´afico corresponde a uma fun¸c˜ao se toda reta vertical passando por um ponto de X encontra o gr´afico em um e somente um ponto que tenha ordenada emY.

Teste das retas horizontais para injetividade:

Precisa ser gr´afico de fun¸c˜ao! (Gr´aficos na lousa.) Teste das retas horizontais para sobrejetividade:

Precisa ser gr´afico de fun¸c˜ao! (Gr´aficos na lousa.)

Tamb´em nessa representa¸c˜ao, assuma j´a termos constatado que o gr´afico corresponde a uma fun¸c˜ao. Essa fun¸c˜ao ´e injetora se toda retahorizontal passando por um ponto de Y encontra o gr´afico em no m´aximo um ponto que tenha abscissa em X. A fun¸c˜ao ´e sobrejetora se toda reta horizontal encontra o gr´afico em algum ponto.

Comportamento dos gr´aficos de bijetora e sua inversa:

(Gr´aficos na lousa.)

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Portanto, a fun¸c˜ao ´e bijetora se toda reta horizontal passando por um ponto de Y encontra o gr´afico em um e somente um ponto que tenha abscissa em X. Conclu´ımos que, nesse caso, podemos obter o gr´afico da fun¸c˜ao inversa refletindo o gr´afico original ao redor da diagonal principal. Detalharemos isso adiante.

Transla¸c˜oes e dilata¸c˜oes

Suponha fixados f: lR→lR ek ∈lR, para construirmos g: lR→lR.

As f´ormulas espec´ıficas das transforma¸c˜oes a seguir variam entre textos.

Transla¸c˜ao horizontal:

(Gr´afico na lousa.) g(x) =f(x+k).

Veja quek´e somadodentro da fun¸c˜ao. Cuidado com o sinal dek! O que acontece sek = 0 ? E importante confirmar se o gr´´ afico de g que desenharmos corresponde `a fun¸c˜ao que defini- mos. Isso pode ser feito calculando explicitamente o valor de g(x) para algum x, por exemplo x= 0 para o qualg(0) =f(k), e confer´ı-lo no gr´afico.

Transla¸c˜ao vertical:

(Gr´afico na lousa.) g(x) =f(x) +k.

As mesmas observa¸c˜oes aplicam-se a este caso, mask ´e somado fora.

Dilata¸c˜ao horizonal:

(Gr´aficos na lousa.) g(x) =f(kx).

Aqui, para verificar o gr´afico, n˜ao podemos tomar x = 0, para o qual sempre g(0) = f(0) independentemente do valor de k. Por´em, podemos utilizar um valor n˜ao-nulo como x = 1.

Observe que k est´a dentro da fun¸c˜ao.

Note que, quando k = 0, a fun¸c˜ao g torna-se constante; por quˆe, e com qual valor? Note tamb´em que, se k < 0, h´a uma rota¸c˜ao do gr´afico ao redor do eixo das ordenadas. Finalmente, dependendo da magnitude dek, ou seja, se 0<|k|<1 ou|k|= 1 ou |k|>1, podemos ter uma dilata¸c˜ao no sentido pr´oprio da palavra ou uma contra¸c˜ao. De qualquer modo, o comportamento

´e aquele de uma sanfona, sendo que o eixo das ordenadas mant´em-se inalterado.

Dilata¸c˜ao vertical:

(Gr´aficos na lousa.) g(x) =kf(x).

Agora k est´a fora da fun¸c˜ao. Novamente, as observa¸c˜oes acima tˆem validade aqui, embora seja o eixo das abscissas que se matenha inalterado e talvez funcione como eixo de rota¸c˜ao. O teste do desenho pode ser feito com valores de x tais que f(x)6= 0.

Exerc´ıcio: Monte uma tabela descrevendo em palavras o comportamento do gr´afico de g em termos do sinal de k (ou zero) e (no caso de dilata¸c˜oes) da magnitude de k.

(7)

Exerc´ıcio: Pense no que acontece quando essas opera¸c˜oes s˜ao repetidas, por exemplo, uma transla¸c˜ao horizontal seguida de uma dilata¸c˜ao vertical, depois uma transla¸c˜ao vertical.

Observe que o total de combina¸c˜oes se resume a umas poucas possibilidades.

Qual ´e o comportamento geral dos pontos do gr´afico submetidos a essas trans- forma¸c˜oes?

(N˜ao ´e preciso formalizar nada; somente jogue um pouco com as transforma¸c˜oes.)

Simetrias

Continuamos com f: lR→lR.

Fun¸c˜ao par: (Gr´afico na lousa.)

Gr´afico sim´etrico em torno do eixo das ordenadas.

(∀x∈lR) [f(−x) = f(x)].

Por exemplo, f(x) = x2 ou f(x) = x14 definem fun¸c˜oes pares. Use esses exemplos para associar o nome `a propriedade.

Fun¸c˜ao ´ımpar: (Gr´afico na lousa.) Gr´afico sim´etrico em torno da origem.

(∀x∈lR) [f(−x) = −f(x)].

Exerc´ıcio: Mostre que, ent˜ao, f(0) = 0.

Aten¸c˜ao: A simetria ´e em torno da origem (um ponto), n˜ao em torno de uma reta; portanto, n˜ao ´e uma reflex˜ao especular. Exemplos s˜aof(x) = x5 e f(x) =x9.

Fun¸c˜ao peri´odica: (Gr´afico na lousa.) (∃T ∈lR)(∀x∈lR) [f(x+T) =f(x)].

O menor T >0, se existir, ´e chamado per´ıodo.

Note que toda fun¸c˜ao constante ´e peri´odica, mas n˜ao tem um per´ıodo! Nossos exemplos mais importantes, por´em, tˆem per´ıodo 2π: estudaremos em breve as fun¸c˜oes trigonom´etricas.

Observe que a propriedade vale para qualquer x. Portanto, pondo x+T no lugar de x, obtemos

f(x+ 2T) = f((x+T) +T) = f(x+T) =f(x) e, do mesmo modo,

f(x+ 3T) = f((x+ 2T) +T) = f(x+ 2T) = . . .=f(x).

Agora, coloquemos x−T no lugar de x. Ent˜ao f((x−T) +T) = f(x−T) pela propriedade;

logo, f(x) =f(x−T). Iterando esse processo, conclu´ımos que (∀x∈lR)(∀n ∈ZZ) [f(x+nT) =f(x)]. Monotonias

Suponha X ⊆lR e f: X →lR.

Fun¸c˜ao crescente: (∀a, x ∈X) [x>a⇒f(x)>f(a)].

Fun¸c˜ao decrescente: (∀a, x∈X) [x>a⇒f(x)6f(a)].

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Note que fun¸c˜oes constantes s˜ao crescentes e decrescentes; ali´as, uma fun¸c˜ao (de)crescente pode ser constante em todo de um ou mais patamares de seu dom´ınio e, portanto, n˜ao precisa ser injetora.

Fun¸c˜ao estritamente crescente: (∀a, x∈X) [x > a⇒f(x)> f(a)].

Fun¸c˜ao estrit. decrescente: (∀a, x∈X) [x < a⇒f(x)< f(a)].

Agora, em cada caso, os dois sinais de igualdade devem ser estritos: o segundo, porque queremos a defini¸c˜ao “estrita”; o primeiro ´e for¸cado pelo segundo (se x = a, sabemos que a fun¸c˜ao f deve satisfazer f(x) = f(a)).

Uma fun¸c˜ao estritamente crescente ou decrescente ´e sempre injetora.

Em qualquer desses casos, diz-se que a fun¸c˜ao ´e “mon´otona” ou “monotˆonica” (pelo sentido do primeiro adjetivo).

Desenhe gr´aficos representativos de cada um desses quatro casos.

Limita¸c˜oes

Suponha f:X →lR.

Fun¸c˜ao limitada: (∃K, M ∈lR)(∀x∈X) [K 6f(x)6M].

O que ´e ser limitada superiormente? Inferiormente?

Ent˜ao K 6 M. O objetivo ´e detectar um “piso” e um “teto” para o gr´afico da fun¸c˜ao, sendo que as “laterais” s˜ao delimitadas pelo pr´oprio dom´ınio X. Tanto faz se o piso ou o teto s˜ao “tocados” pelo gr´afico da fun¸c˜ao: se vocˆe precisar trabalhar com desigualdades estritas, substitua K, M por K−1, M + 1 respectivamente.

No caso de limita¸c˜oes superior (M) ou inferior (K), s´o nos preocupamos com o teto ou o piso, respectivamente, podendo o outro existir ou n˜ao.

Experimente exemplificar essas situa¸c˜oes com gr´aficos!

Opera¸c˜oes e compara¸c˜oes entre fun¸c˜oes

Suponha f, g:X →lR. Definem-se ponto a ponto:

f +g: X →lR, (f+g)(x) = f(x) +g(x);

f.g: X →lR, (f.g)(x) =f(x).g(x).

Recorde como ´e feita a soma de vetores: somamos a primeira coordenada de cada vetor e o resultado ´e a primeira coordenada do novo vetor; depois somamos as segundas coordenadas; as terceiras. . . Tal soma ´e feita, portanto, “coordenada a coordenada”.

De modo an´alogo, as opera¸c˜oes acima foram definidas “ponto a ponto”, como ´e muito comum em Matem´atica. Fixa-se x∈X e faz-se a opera¸c˜ao correspondente com os valores das fun¸c˜oes calculadas em x. (Valores em outros pontos n˜ao importam.)

Mais trˆes exemplos: A diferen¸ca f −g ´e definida como acima, substituindo-se + por −. Se tamb´em k ∈ lR, ent˜ao a fun¸c˜ao k.f ´e definida como (k.f)(x) = k.f(x). Se g(x) 6= 0 para qualquer x∈X, ent˜ao podemos definir f /g.

Operamos com sequˆencias, cujo dom´ınio ´e X =lN, exatamente do mesmo modo.

(9)

f =g ⇔f e g s˜ao a mesma rela¸c˜ao (por defini¸c˜ao)

⇔(∀x∈X) [f(x) = g(x)] (ponto a ponto!) O que ´e f 6=g? (∃x∈X) [f(x)6=g(x)] n˜ao´e ponto a ponto!

f 6g ⇔(∀x∈X) [f(x)6g(x)]

f < g⇔(∀x∈X) [f(x)< g(x)]

Comparar fun¸c˜oes ser´a importante em diversos teoremas sobre convergˆencia e limites, tanto inicialmente como depois, em integra¸c˜ao.

A compara¸c˜ao ´e feita ponto a ponto; para duas fun¸c˜oesdiferirem, basta que tenham valores distintos em um algum ponto do dom´ınio.

Quando se trata de comparar n´umeros reais, a ordem ´e total/linear, ou seja, um n´umero vem antes ou depois do outro. Por´em, ´e poss´ıvel duas fun¸c˜oes n˜ao serem uma maior ou menor que a outra. (Gr´afico na lousa.)

Composi¸c˜ao de fun¸c˜oes

Suponha f:X →Y e g: Y →Z. Define-se:

g◦f: X →Z, (g◦f)(x) =g(f(x)). Note que X →f Y →g Z (cuidado com a ordem!).

O objetivo da composi¸c˜ao ´e substituir por uma ´unica fun¸c˜ao o trabalho feito primeiro por f e depois por g. Isso ´e poss´ıvel porque o contradom´ınio de f ´e o dom´ınio deg, ou seja, f tem valores nos quais g est´a definida.

N˜ao confunda o s´ımbolo ◦(lˆe-se “bola”) com a multiplica¸c˜ao de fun¸c˜oes. Note tamb´em que a ordem ´e extremamente importante: Podemos definirf◦g, acima, somente seZ ⊆X; a fun¸c˜ao que vem primeiro f aparece `a direita da outra g para que as nota¸c˜oes g ◦f e g(f(x)) sejam compat´ıveis.

Por exemplo, pode-se mostrar que a composi¸c˜ao de fun¸c˜oes polinomiais ´e novamente poli- nomial. O mesmo vale para fun¸c˜oes racionais, com a devida restri¸c˜ao de dom´ınios: a composta estar´a definida em todo olR exceto em um n´umero finito de pontos.

Estes dois exerc´ıcios s˜ao muito importantes, tanto por seus enunciados como pela pr´atica que oferecem:

Exerc´ıcio: Suponha quef: X →Y ´e bijetora. Podemos formarf◦f−1 ef−1◦f? Determine- as.

Exerc´ıcio: Suponha dadas f: X → Y e g: Y → X e assuma que (g ◦f)(x) = x para todo x ∈ X, que (f ◦g)(y) = y para todo y ∈ Y. Mostre que f ´e injetora e sobrejetora; prove que g =f−1.

No caso desse exerc´ıcio, diz-se queg◦f ef◦g s˜ao fun¸c˜oesidentidade. Existem exemplos de g◦f ou f ◦g identidade, mas f n˜ao sobrejetora ou injetora, respectivamente. Vocˆe consegue constru´ı-los?

(10)

Mais exemplos

Temos vocabul´ario para estudar mais exemplos.

Inclu´ımos duas fun¸c˜oes patol´ogicas.

Caracter´ıstica dos racionais:

χQ: lR→lR, χQ(x) =

(1 se x∈Q(racional, quociente);

0 se x /∈Q.

Gr´afico dif´ıcil. (Tentativa na lousa.)

Veremos que ´e descont´ınua em todo ponto.

f: ]0,1]→lR, f(x) =

(1/n se x=m/n reduzido;

0 se x /∈Q.

Gr´afico dif´ıcil. (Tentativa na lousa.)

Veremos que ´e cont´ınua somente nos irracionais.

(Por uma fra¸c˜ao m/n ser reduzida, queremos dizer n > 0 e mdc{m, n} = 1, isto ´e, m e n s˜ao relativamente primos.)

Fun¸c˜oes exponenciais: (Gr´aficos na lousa.) Dado real a >0, temos

f: lR→lR, f(x) =ax.

a >1⇒estritamente crescente;

a= 1 ⇒constante;

a <1⇒estritamente decrescente.

Se a6= 1 ent˜ao f ´e limitada inferiormente e o “melhor” limitante inferior (piso) ´e 0: 0 ´e piso, mas nenhum positivo ´e.

Tamb´em ´e ilimitada superiormente.

E uma bije¸c˜´ ao entre lR elR>0.

Como se define ax? Isto ´e, dados a e x, como calculamos ax? Responder essa pergunta

´e uma motiva¸c˜ao do rigor matem´atico no C´alculo. Quando x ´e um n´umero natural positivo, colocamos

ax =a×. . .×a

| {z }

xvezes

,

ou mais formalmente, procedemos a uma defini¸c˜ao recursiva: ax = a×ax−1. Isso requer um

“passo inicial” ou “base da recurs˜ao”: escolhemos a0 = 1 para que ent˜ao a1 =a; note que 1 ´e o elemento neutro da multiplica¸c˜ao e que

ax= 1×a×. . .×a

| {z }

xvezes

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para todo natural x, incluindo o zero. E importante verificar que essa defini¸c˜´ ao satisfaz as

“regrinhas” da exponencia¸c˜ao, mas tamb´em importante notar que tal verifica¸c˜ao, seja f´acil ou n˜ao, deve existir por conta pr´opria porque n˜ao faz parte da defini¸c˜ao.

Parax∈ZZ, sex>0 j´a temosax; sex <0 ent˜ao−x∈lNe pomosax = (a−x)−1. Novamente, devemos verificar as propriedades da exponencia¸c˜ao.

Para x∈Q, digamos x=p/q com p∈ZZ e q∈lN>0, queremos dizer que ap/q =b⇔ap =bq e precisamos aprender a tirar ra´ızes (calculamos ap e pedimos sua raiz q-´esima). Para que ap tenha uma raiz, vemos que precisamos supor esse n´umero positivo, ou seja, precisamos a > 0.

Quanto `a existˆencia da raiz, ´e algo garantido pela completude de lR, que estudaremos ainda neste curso. Mais uma vez, feito esse trabalho, resta demonstrar as propriedades dessa opera¸c˜ao.

Finalmente, para x ∈ lR, podemos tomar n´umeros racionais xn, n ∈ lN, arbitrariamente pr´oximos de x e tomar ax como o limite das potˆencias axn. O que ´e esse limite, se ele existe, se ele ´e sempre o mesmo, quais s˜ao suas propriedades e como elas garantem as propriedades da opera¸c˜ao, s˜ao todos assuntos que aprenderemos em C´alculo.

Outra possibilidade (que se generaliza melhor) ´e definir ax como uma “s´erie de potˆencias”, por exemplo, ax = P

n=0

(xlna)n

n! . Como fazer uma soma infinita e quais contas podemos fazer com ela ´e um assunto t´ıpico de C´alculo e An´alise. Claramente, precisamos antes definir ln, o que pode ser feito com uma integral.

Lembre:

ax+u =axau. ax−u =ax/au. axu 6= (ax)u =axu.

Padr˜ao ´e tomara=e= 2,718. . . , n´umero especial do C´alculo. (Veremos motivos.) Indica-se tamb´em exp(x) =ex, muito ´util:

exp(“termo grande”) =e“termo grande”

Usando logaritmos (adiante),ax = exp(xlna) (quem sabe uma, sabe todas!).

Fun¸c˜oes logar´ıtmicas: (Gr´aficos na lousa.) Dado real a∈]0,1[∪]1,∞[, temos

g: lR>0 →lR, g(x) = logax .

a >1⇒estritamente crescente;

a <1⇒estritamente decrescente.

g ´e uma bije¸c˜ao entrelR>0 e lR, portanto, n˜ao ´e limitada (nem inf. nem sup.) E inversa da´ f(x) = ax, dondez = logay⇔az =y.

Lembre:

loga(xu) = loga(x) + loga(u).

loga(x/u) = loga(x)−loga(u).

loga(xu) = ulogax.

(12)

Na escola, log = log10. Em Computa¸c˜ao, log = log2. Em An´alise, log = loge= ln.

H´a quem use lg para uma base de seu interesse.

Lembre:

logax= logbx logba

Fun¸c˜oes trigonom´etricas: (Gr´aficos na lousa.)

Argumentos sempre em radianos: π = 180; cuidado com calculadora!

sen,cos : lR→[−1,1] e tg :

x∈lR

x6= π2 +nπ, n∈ZZ →lR, tgx= sencosxx.

Tais contradom´ınios j´a s˜ao as imagens correspondentes; sen e cos s˜ao limitadas e tg ´e ilimitada.

sen e cos tˆem per´ıodo 2π; tg tem per´ıodo π.

sen e tg s˜ao ´ımpares; cos ´e par.

Lembre:

sen2x+ cos2x= 1.

sen(x±u) = senxcosu±cosxsenu.

cos(x±u) = cosxcosu∓senxsenu.

Dica: Outras fun¸c˜oes trigonom´etricas: escreva-as usando sen e cos para fazer contas.

Assim, vocˆe n˜ao precisa decorar muitas f´ormulas extras, exceto se essas fun¸c˜oes especiais (cotangente, secante, cossecante) aparecerem muito em seu trabalho!

Conhe¸ca as abrevia¸c˜oes dessas fun¸c˜oes em inglˆes, para ler textos t´ecnicos estrangeiros: sin

´e seno, tan ´e tangente, cot ´e cotangente, sec ´e secante e csc ´e cossecante.

Fun¸c˜oes trigonom´etricas inversas ou “arco”:

A escolha dos dom´ınios depende do texto.

Notamos que

sen ´e injetora sobre

π2,π2

;

cos ´e injetora sobre [0, π];

tg ´e injetora sobre

π2,π2 . (Ou seja, cos|[0,π] ´e injetora, etc.)

(13)

Ent˜ao estudamos:

sen−1: [−1,1]→

π2,π2

;

cos−1: [−1,1]→[0, π];

tg−1: lR→

π2,π2 . (Gr´aficos na lousa.)

Tamb´em se usa o prefixo “arc” em vez do sinal −1, por exemplo, arccos = cos−1. Observe que sen−1x 6= (senx)−1; por outro lado, costuma-se usar sen2x = (senx)2, de modo que sen2 6= sen◦sen.

Aten¸c˜ao: cos−1x ´e o ˆangulo entre 0 e π cujo cosseno ´e x.

Veja: cos−1 cos2

= cos−10 = π2.

(Cuidado com dom´ınio e contradom´ınio!)

Essas trˆes inversas s˜ao fun¸c˜oes limitadas, n˜ao-peri´odicas.

sen−1 e tg−1 s˜ao ´ımpares; cos−1 n˜ao ´e nem par nem ´ımpar!

Referências

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