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Muito além de fashion

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA KARINY LOUISE MOSER

MUITO ALÉM DE FASHION: UM ESTUDO SOBRE A IDENTIDADE PROFISSIONAL DE MODELOS

Palhoça 2011

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KARINY LOUISE MOSER

MUITO ALÉM DE FASHION: UM ESTUDO SOBRE A IDENTIDADE PROFISSIONAL DE MODELOS

Relatório de pesquisa apresentado na disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso II, como requisito parcial para obtenção do título de psicólogo.

Orientadora: Michelle Regina da Natividade, Msc.

Palhoça 2011

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AGRADECIMENTOS

Burburinho, os holofotes começam a se acender e você precisa estar preparada para entrar na passarela. Claro que o nervosismo está presente, mas é isso que te move para atravessar o caminho e chegar ao final. E lá no fim você sabe que cada passo que deu foi importante para essa caminhada, assim como sabe que diversas pessoas estavam no público te assistindo e dando forças para chegar até o fim.

Deus, espectador superior. Obrigada por me iluminar e por ter me dado força nos momentos que mais precisei.

Meus pais, Salete e Antonio, público área vip. Obrigada por sempre assistirem de perto toda a minha caminhada e sempre me apoiando a seguir em frente. Seus ensinamentos levarei por toda a vida. Amo vocês!

Samuel, um anjo da primeira fila. Obrigada sempre por estar comigo, mesmo estando longe. Nos momentos que mais precisei você estava ao meu lado e assim quero, seu companheirismo, em minha vida – NEOQAV!

Lara, José Roberto e Lúcio, platéia semanal. Obrigada pelas orientações, cada dia com vocês foi um ensinamento. Lara, companheira fiel e inseparável, levarei você sempre em meu coração.

Franciele, Renata, Raquel Tambosi. Vanessa, Zenha, César e Bárbara, público frequente. Obrigada pelas contribuições de vocês na supervisão da clínica. Bárbara, conhecer você foi muito bom.

Raquel Favretto, meus dias na Unisul não seriam os mesmo sem você, sentirei falta das suas ligações. Obrigada por sua amizade, com certeza será eterna.

Sempre sobra algum espaço para quem nos acompanha, nem que seja pelos bastidores. Girlane e Priscila, nossa amizade ficará para sempre mesmo estando separadas, lembrarei sempre vocês. Ah! Girlane é a minha irmã, não tem como esquecer.

Claro que cada passo foi dado com auxilio, sozinha não conseguiria muitos avanços, mas com a ajuda dos mestres consegui chegar ao fim da passarela.

Michelle R. da Natividade, pelas supervisões de estágio e pelas orientações de TCC. Obrigada pelos seus ensinamentos.

Vanderlei Brasil, pelas supervisões de estágio e por todos os ensinamentos. Obrigado por suas contribuições em minha banca de TCC.

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Adriana Canto, coordenadora do curso de moda. Obrigada também por ter aceitado a participar da minha banca e por suas contribuições.

Lilian Maciejescki e Ana Maria L. da Luz, supervisoras da clínica. Obrigada por estarem sempre presentes e ensinando tudo que vocês sabem sobre o Psicodrama.

Nádia Kienen, professora que muito me ensinou com seu jeito carismático. Obrigada por todos os seus ensinamentos, desde a época do Comitê.

Carolina B. Bartillotti, professora em todas as horas. Obrigada por fazer parte da minha graduação, com você aprendi muitas coisas que levarei para sempre em minha vida profissional.

Obrigada a todos que passaram em meu caminho e deixaram alguma marca, mesmo que pequena. Obrigada turma de Psicologia 2007/1 por toda a trajetória.

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RESUMO

Ser modelo hoje, em 2011, é diferente de ter sido modelo na década de 1940, em que a carreira era muito carregada de juízo moral. Há ainda muitas críticas com relação a essa atividade, mas a aceitação da mesma é muito maior do que naquela época. Para seguir esta carreira é preciso estar dentro de diversos critérios impostos pelo mercado da moda. É nesta perspectiva que esta pesquisa buscou caracterizar a identidade profissional de mulheres que exercem a carreira de modelo, enfocando aspectos da trajetória profissional, do contexto de trabalho, da imagem social e do futuro profissional dessas mulheres. Este estudo foi classificado como qualitativo e exploratório, e seu delineamento como estudo de caso. Os dados foram coletados por meio de entrevista semiestruturada com cinco mulheres que exercem a atividade de modelo, com idade mínima de 16 anos. Foi realizada análise de conteúdo que possibilitou a construção de categorias a posteriori, tendo como eixos de análise os objetivos desta pesquisa. No que se refere à trajetória profissional, a maioria se inseriu por meio de concurso, não realizou capacitação e teve outras experiências. No contexto de trabalho, as modelos trouxeram as fotos como atividades que mais executam, os ambientes sendo os locais de trabalho, os bons relacionamentos nas atividades, a remuneração na facilidade de ser modelo e as dificuldades físicas (altura) como mais expressivas no exercício da carreira. Em relação à imagem social, essas mulheres trazem aspectos positivos e negativos, já que há pessoas que as apóiam e outras não, mas todas afirmam que ser modelo é importante para a sociedade. Sobre o futuro profissional, todas desejam continuar na carreira até quando ela for favorável, mas pensam em estudar para seguir com outras perspectivas. Todas as participantes se identificam com esse fazer. Portanto, para muitas o ser modelo é gostar do que faz e sempre estar à disposição para a realização dos trabalhos. Na carreira de modelo a escolha das atividades se torna significativa, já que essas mulheres escolhem os trabalhos de acordo com seus critérios e valores, fazendo com que sua imagem não seja prejudicada. E trazem a importância de ter apoio das pessoas de sua rede social para enfrentar essa carreira, principalmente quando as mulheres iniciam tão jovens nessa carreira de modelo.

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LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Dados de identificação das participantes da pesquisa...39

Quadro 2 – Trajetória profissional das participantes...42

Quadro 3 – Contexto de trabalho das participantes...50

Quadro 4 – Imagem social da profissão de modelo...60

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SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ... 9 1.1 PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA ... 10 1.2 OBJETIVOS ... 107 1.2.1 Objetivo Geral ... 17 1.2.2 Objetivos Específicos ... 18 2 REFERENCIAL TEÓRICO ... 19 2.1 TRABALHO ... 19 2.1.1 Identidade Profissional ... 22 2.2 MULHERES PROFISSIONAIS ... 24 2.2.1 Gênero e Trabalho ... 24 2.2.2 A Carreira de Modelo ... 28 3. MÉTODO ... 36 3.1 CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA ... 36

3.2 INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS ... 37

3.2.1 Estudo Piloto ... 38

3.3 POPULAÇÃO ... 38

3.4 PROCEDIMENTOS ... 39

3.4.1 De seleção dos participantes ... 39

3.4.2 De contato com os participantes ... 40

3.4.3 De coleta e registro dos dados ... 40

3.4.4 De organização, tratamento e análise dos dados ... 41

4 APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS ... 42

4.1 TRAJETÓRIA PROFISSIONAL ... 42 4.2 CONTEXTO DE TRABALHO ... 49 4.3 IMAGEM SOCIAL ... 60 4.4 FUTURO PROFISSIONAL ... 67 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 72 REFERÊNCIAS...77 GLOSSÁRIO ... 84 APÊNDICES...85

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APÊNDICE B - Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para menores de idade..87 APÊNDICE C - Roteiro de Entrevista...89

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1 INTRODUÇÃO

O acadêmico de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL), quando está em transição da sétima para a oitava fase deve optar por um núcleo específico para dar ênfase em sua formação. Há dois núcleos, que são o Núcleo Orientado Psicologia e Saúde e o Núcleo Orientado Psicologia e Trabalho Humano, os quais vão orientar os acadêmicos no Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) e nas práticas do estágio curricular obrigatório.

Ao optar pelo Núcleo Orientado Psicologia e Trabalho Humano, o foco será o trabalho humano nas organizações e o homem relacionado ao seu trabalho, envolvendo questões como a saúde do trabalhador, a entrada, a permanência e a saída do mercado de trabalho, aposentadoria e até mesmo antes de se inserir em uma profissão, relacionando a questão de orientação profissional e planejamento de carreira. O núcleo ainda encontra-se subdividido em dois projetos: Desenvolvimento Humano nas Organizações (D.H.O.) e Desenvolvimento Humano no Trabalho (D.H.T.). Neste último projeto, as atividades que são realizadas focam em questões relacionadas ao homem e a sua relação com o trabalho, como atividades de orientação profissional em colégios, atividades em empresas realizando desenvolvimento de grupos, além de realizar preparação para a aposentadoria.

Portanto, na nona fase, o acadêmico inicia o Trabalho de Conclusão de Curso, este terá o tema vinculado ao campo de estágio, no qual o mesmo estará inserido. A presente pesquisa está vinculada ao projeto D.H.T., em que foca o homem e o seu fazer, ou seja, esta pesquisa buscará a identidade profissional de mulheres que estão exercendo uma carreira específica, no caso, modelos, para que se possa caracterizar essa identidade constituída por essas profissionais.

Sendo a atividade específica, a forma de falar e a linguagem utilizada no mundo da moda, torna-se também específica. Durante o decorrer do trabalho, muitas destas palavras serão mencionadas e para tirar as dúvidas dos leitores, foi criado um Glossário com o significado das palavras para que todos possam compreender sobre o que está sendo dito. O Glossário se encontra no final da pesquisa, após as referências do trabalho.

A pesquisa se inicia com a apresentação da problemática e da justificativa, trazendo a relevância do desenvolvimento desta pesquisa. Posteriormente, são apresentados o objetivo geral e os objetivos específicos, buscando mostrar o que se pretende com a pesquisa.

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Em seguida, a fundamentação teórica que está dividida em dois capítulos, que são: Trabalho, tendo este um subcapítulo chamado Identidade Profissional e Mulheres Profissionais, tendo os subcapítulos Gênero e Trabalho e A carreira de Modelo. Estes capítulos servirão para embasar a análise dos dados, após será trazido o método que mostrará questões relacionadas à caracterização da pesquisa, estratégias para a coleta de dados, o público-alvo, entre outros aspectos e por fim tem-se a apresentação e análise dos dados obtidos por meio das entrevistas e as considerações finais desta pesquisa.

1.1 PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA

A carreira de modelo foi regulamentada pela lei nº 6.533 de 24 de Maio de 1978 sob o título de Regulamentação das Profissões de Artistas e de Técnico em Espetáculos de Diversões, em que se especifica os direitos legais de diversas profissões, incluindo a carreira de modelo, que está caracterizada por “representar e desfilar seu corpo para exibir roupas e adereços” (BRASIL, 1978, s.p.). A carreira de modelo também está registrada na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO, 2002), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), em que se encontram diferentes nomeações para os diversos trabalhos que este profissional realiza, como modelo artístico (estátua viva, modelo fotográfico de nu artístico e modelo vivo), modelo de passarela e modelo fotográfico (modelo comercial, modelo de detalhes, modelo de editorial de moda e modelo fotográfico de workshop).

A concepção da carreira de modelo modificou-se ao longo do tempo na sociedade. Na década de 1940 a imagem das modelos não era associada à beleza e nem ao cuidado com o corpo. Hoje é cada vez mais frequente ver imagens de modelos na mídia sendo contempladas, tanto por homens quanto por mulheres, e a proximidade com as mesmas faz com que essa carreira seja muito admirada e desejada, ou seja, ela acaba se tornando um sonho para meninas que desejam ser famosas, pois esta atividade vem acompanhada da beleza e do glamour, sendo comum ver top models com sua imagem relacionada ao dinheiro, à fama e ao sucesso. E é através desses aspectos, que meninas cada vez mais jovens buscam cursos de modelos para seu aperfeiçoamento ou agências de modelo para se inserir na carreira (FARIAS, 2009).

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A participação das pré-adolescentes no curso de manequim e modelo é motivada, principalmente, pelos mitos presentes nos cenários midiáticos da beleza e da moda. As roupas bonitas, viagens, festas “badaladas”, reconhecimento social, dinheiro, admiração, destaque, aplausos, autógrafos, camarins, “boa vida”, “ter tudo o que gosta”, fama e prestígio são mencionados como as principais razões que levam as pré-adolescentes a tentar trabalhar como modelo (FARIAS, 2009, p.171).

A mesma autora afirma que as famílias de adolescentes que buscam se tornar profissionais de sucesso entendem a carreira de modelo como muito concorrida, difícil, que exige dedicação e faz com que a jovem faça muitas renúncias em aspectos relacionados à família, namoro e lazer, como também proporciona baixas perspectivas para o futuro. Além disso, o fato dessas meninas terem realizado um curso, não significa que elas ganharão um concurso ou logo serão chamadas por alguma agência para trabalhar e exercer a atividade, trazendo decepções para as jovens que investem em sua preparação para serem modelos profissionais.

Explicitados alguns fatos sobre jovens querendo se inserir na carreira atualmente, em outro ponto encontram-se profissionais que já a exerceram. Bonadio (2004, p.54) trouxe o trecho de um relato de entrevista que foi realizada com uma modelo que trabalhou por muito tempo para uma empresa têxtil: “Teve época que eu queria apagar da minha memória. É um processo pessoal. Tanto que eu queimei tudo, toda a minha carreira, dois baús enormes de fotos (...)”. Questionada se houve arrependimento com relação à carreira, a mesma diz que não, mas apresentou críticas às atividades exercidas e ao contexto em que as mesmas eram desenvolvidas, e pelo fato de ter sido modelo, diz ainda acontecerem recordações desagradáveis com relação à carreira.

Portanto, apresentam-se dois pontos distintos apresentados nos parágrafos acima, por um lado adolescentes querendo se inserir na carreira e por outro, adultos que já foram profissionais, o que possibilita realizar reflexões para os dias de hoje. Como será que esses adolescentes ou mesmo adultos enfrentam a carreira de modelo? Ou ainda, como esses profissionais se identificam com esse fazer profissional? Já que é um fazer que traz características peculiares, em que, segundo a CBO (2002), é preciso que modelos se vinculem a uma agência para uma continuidade de trabalho, possível ascensão na carreira, orientação para compor seu book, entre outras exigências e não há a possibilidade de inserção no mercado de trabalho se não houver este vínculo.

Deste modo, refletir sobre a identidade profissional e sobre o trabalho que estas mulheres executam é importante. Para Ciampa (1999) é nesse fazer que o indivíduo torna-se algo, pois para a constituição da identidade do sujeito o trabalho é um aspecto importante,

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sendo que é pela relação com os outros que o processo acontece. Essa mesma ideia é compartilhada por Santos (2006) e Vasconcelos e Vasconcelos (2002) para quem o trabalho possui um papel que colabora com a construção da identidade do sujeito e é fundamental na transformação das relações no meio em que o sujeito está inserido.

A sociedade e o próprio trabalho estão sempre em transformações, e possuir um emprego ou uma atividade profissional faz com que o indivíduo faça parte da sociedade na qual está inserido, pois trabalhar confere ao indivíduo esse espaço. O trabalho é intencional, sendo referenciado como um trajeto para alcançar um objetivo (SANTOS, 2006).

Natividade (2007) relata ainda que o trabalho é considerado um mediador na vida dos sujeitos e ocupa um lugar fundamental na vida dos mesmos, pois é pelo trabalho que o sujeito organiza a sua vida em diversos aspectos. E é através dele que o homem age sobre si mesmo, sobre a realidade e sobre os outros, obtendo conhecimento e transformando a natureza em um produto seu, sendo que dessa maneira ele se constitui. Além disso, o trabalho é foco de muitos estudos e para Malvezzi (2004) na Psicologia, há uma busca de compreender a relação do homem com o trabalho, como também suas transformações ao longo do tempo, sejam pelas alterações psíquicas acontecidas nos trabalhadores e pelas alterações na economia, na cultura, na política e no social.

Portanto, segundo Santos (2006), o trabalho apresenta aspectos que podem ser estudados, como os físico-ambientais e os subjetivos. Nos físico-ambientais incluem-se questões mais objetivas como local, remuneração, tempo; e os subjetivos têm questões relacionadas à vivência de cada sujeito e suas experiências com o trabalho, podendo ser citado também a identidade profissional desse sujeito. Este aspecto é estudado pela Psicologia, Sociologia, Antropologia, como também, por diversos outros cientistas sociais.

Sendo assim, nesses estudos sobre identidade surge uma indagação: Quem é você? Para Ciampa (1999), quando essa pergunta surge, busca-se pesquisar sobre a identidade. E o que é a identidade? A identidade pode ser considerada um movimento e uma metamorfose, ou seja, é ser ao mesmo tempo “um” e “outro”, para que possa se tornar “um” nos constantes movimentos de transformação pelos quais cada indivíduo passa em sua vida. Além disso, para Maheirie (1994, p.115):

Nascemos corpo e consciência na relação com o mundo e é a partir daí que vamos constituindo um EU, uma identidade. Isto significa que nascemos ninguém e vamos nos tornando alguém na medida em que vivenciamos as relações com as coisas, com os homens, com o tempo e com o corpo.

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Logo, para Hall (2006), a identidade passa por três concepções diferentes. A primeira é mais individualista, em que o sujeito nascia centrado e unificado e se desenvolvia permanecendo com a mesma essência, ou seja, idêntico. Na segunda concepção, o sujeito não é mais autônomo, mas também, há a relação com as pessoas que ele considera importante, então é uma identidade formada na interação entre o eu e a sociedade. E a última, trata-se do sujeito com uma identidade não fixa, formada e transformada pelas relações, as quais os sujeitos estão inseridos, tendo estes identidades diferentes em momentos diferentes, fazendo com que a identidade seja também construída pelo fazer e agir do individuo, dentro dos grupos, nos quais está inserido.

Considerando as três concepções, estas podem ser relacionadas com o trabalho que os indivíduos desenvolvem na sociedade, para Luna e Baptista (2001, p.49), a identidade é construída por processos psicossociais pelos quais o indivíduo se desenvolve em sua singularidade e também na sociedade, assim sendo possível construir também, a sua identidade profissional nesses meios que o sujeito está inserido, principalmente nas suas relações de trabalho. Sendo assim, a identidade profissional é “a representação que faço de mim mesmo e que os demais atribuem a mim, no que se refere ao trabalho que realizo, e que reflete todas as outras identidades que também possuo; é a constante reposição que faço da identidade de trabalhador (...)”. Enfim, a identidade profissional pode ser constituída por meio das respostas de perguntas como: O que faço? Onde? Com quem? Quando? etc, como também pelos diversos papeis que os trabalhadores desempenham ao longo de suas vidas.

E é nesses processos do sujeito com os outros e com o mundo, que além de construir a identidade, também é possível construir o significado de gênero. Este se torna importante na presente pesquisa, pois além de falar sobre gênero propriamente dito, será colocada a questão da inserção da mulher no mercado de trabalho, sendo esta parte de especial interesse, pois o mercado da moda é tipicamente feminino, sendo somente há pouco tempo que aconteceu a inserção dos homens nessa área, o que torna-o diferente de outros espaços, já que os homens sempre tiveram no poder. De acordo com Libardi (2004), a carreira de modelo começou quando mulheres eram criadas para cuidar do lar, dos filhos e do marido, portanto as profissionais da época sempre sofreram muito preconceito.

Deste modo, para Giddens (2007) quando se questiona o que é ser homem e o que é ser mulher, logo o que se pensa é no sexo do corpo físico com o qual se nasce. Mas não é apenas isso, há o que se refletir também na formação da identidade do gênero e as funções sociais que baseiam essas identidades. Além disso, para Cyrino (2009) a questão de gênero abrange a relação de homens e mulheres, sendo esta com outros indivíduos e com a cultura da

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qual fazem parte. Logo, pode-se dizer que o conceito de gênero é socialmente criado, atribui diversos papéis e identidades sociais aos homens e as mulheres. Segundo Giddens (2007, p. 107), existem diferenças de gênero, sendo estas consideradas fatores na estruturação de oportunidades e chances encaradas pelos indivíduos e pelos grupos, influenciando os papéis que homens e mulheres “desempenham nas instituições sociais desde os serviços domésticos até o Estado”.

Para Cyrino (2009), tanto para homens quanto para mulheres, a inserção no mercado de trabalho ou a relação com o espaço doméstico são diferentes e apesar de haver a modernização e acontecerem rupturas na organização da vida social, ainda ocorrem relações hierárquicas entre gêneros, tendo os homens nas posições dominantes e mais valorizadas. Além disso, Leone e Baltar (2006) relataram o aumento das mulheres na força de trabalho e sua participação na atividade econômica. Apesar desses acontecimentos, não se reverteu a questão de desigualdade de gênero em diversos aspectos, como salários inferiores, maior desemprego, menor prestígio social, entre outros, como também há aspectos relacionados à mudança do papel da mulher na família, cujas modificações ocorreram por meio das alterações na economia e no mercado de trabalho. Portanto, estudar o trabalho relacionado ao gênero é importante, pois historicamente o fazer humano reúne relações de poder e desigualdade entre homens e mulheres. Em um estudo realizado em 2004, Chies (2010) traz que em todas as carreiras ainda existe a diferença salarial entre os homens e mulheres, tendo elas recebimentos menores nas mesmas profissões que eles. E nas relações de poder, as profissões tradicionais que possuem prestígio são profissões de origem masculina e nelas o gradativo acesso das mulheres ocorreu devido à abertura de especializações necessárias para que pudesse acontecer a entrada do público feminino.

Pelo exposto trazido até o momento, sobre a carreira de modelo, suas definições e até mesmo sua lei de regulamentação, sobre o fazer da carreira relacionando aspectos do trabalho e suas definições, sobre a identidade profissional trazendo aspectos da própria identidade e da identidade profissional e sobre a questão de gênero, suas diferenças e sua relação com o trabalho, surge à seguinte indagação: Quais as características da identidade

profissional de mulheres que exercem a carreira de modelo?

Para que se pudessem relatar os temas apresentados nesta pesquisa, foi realizado um levantamento bibliográfico em bases de dados on-line1 e biblioteca da UNISUL, em que

1 Bases de dados on-line pesquisadas: Scielo (www.scielo.br); Biblioteca Virtual em Saúde – Psicologia

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foi possível verificar que o tema sobre a carreira de modelo é pouco estudada, não se encontrando a temática na área de Psicologia, mas sim em outras áreas como Antropologia, História Social, Medicina e Direito. Artigos como de Farias (2009), que pesquisou um grupo de pré-adolescentes que frequentavam um Curso de Modelo; Freitas e Claudino (2007), que investigaram sobre mortes que ocorreram com modelos devido à transtornos alimentares; Mesquita (2006), que realizou uma discussão sobre a legislação trabalhista da carreira de modelo no Brasil e Bonadio (2004), que abordou sobre a atividade de modelo no Brasil na década de 60, trazendo relatos de ex-profissionais. As pesquisas citadas se aproximam do presente estudo, pois estudaram modelos, sendo que é o mesmo público alvo desta pesquisa, porém os artigos de Farias (2009) e Bonadio (2004) trazem o antes e o depois da carreira, divergindo desta, já que se pretendeu estudar os profissionais em exercício, sendo ainda que todos os artigos se diferenciam por relatarem contextos diversificados. Contudo, nenhum deles teve o mesmo foco do objetivo da presente pesquisa fazendo com que a mesma se tornasse inovadora, pois buscou caracterizar como essas profissionais se identificam profissionalmente com seu trabalho.

Há uma vasta literatura referente ao feminino relacionando diversos temas como, por exemplo: Santi, Nakano e Lettiere (2010) pesquisaram a percepção das mulheres em situação de violência; Trindade e Ferreira (2008) estudaram a sexualidade feminina; Macedo (2006) abordou a mulher que trabalha em uma indústria têxtil e Brum (2004) relatou a percepção das mulheres relacionadas ao cuidado de si e de sua família na prevenção das DST e AIDS. Entre essas, existem muitas outras pesquisas que foram realizadas com mulheres, nestas se abordaram elas envolvidas a algum tipo de trabalho como os artigos de Aguiar e Soares (2008), que relataram a formação de uma professora do ensino fundamental; Spindola e Santos (2005), que pesquisaram o significado que as mulheres atribuem ao seu trabalho de enfermeira e Rocha e Debert-Ribeiro (2001), que estudaram as mulheres que trabalham como analistas de sistemas. Então, as pesquisas acima citadas, retratam mulheres corroborando esta pesquisa, pois também as estudaram, porém com relação ao tipo de trabalho realizado por elas e o tema proposto nas pesquisas citadas se diferenciaram desta já que o foco é a carreira de modelo e a identidade profissional dessas mulheres.

Com relação à identidade profissional, diversos estudos foram encontrados na revisão bibliográfica, na área de Psicologia, em que pesquisaram a identidade profissional

(http://biblioteca.universia.net/index.htm); Banco de Teses e Dissertações da Universidade Federal de Santa Catarina (http://www.tede.ufsc.br/teses).

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relacionada a diversos profissionais. Como alguns exemplos, pode-se citar os estudos de Pedro (2010), que relatou a identidade profissional dos jornalistas na contemporaneidade; Colombo (2009), que pesquisou sobre a identidade profissional de micro-empresários; Natividade (2009), que abordou a identidade profissional de bombeiros militares e Buss (2007), que estudou a construção da identidade profissional de presidiários. Todas as pesquisas citadas vêm ao encontro desta que também estudou a identidade profissional, o que se diferenciou foi o público alvo, já citado algumas vezes, ou seja, as mulheres modelos.

Com relação ao fato de pesquisar, sempre tem uma importância científica, já que é sempre possível aprofundar diversos temas, sendo estes sempre muito estudados. À medida que o tempo passa e a sociedade evolui, cada vez mais se torna importante esse processo. Para tanto a cientificidade desta pesquisa é adequada para ampliar o conhecimento na área profissional das modelos e buscar compreender a identidade destas para um melhor desenvolvimento tanto profissional quanto pessoal destas profissionais.

Além de retratar uma importância científica para a realização desta pesquisa, também é necessário relatar um valor social para a mesma. Sendo assim, para Freitas e Claudino (2007), apareceram na mídia diversas notícias relacionadas com a questão de transtornos alimentares e mortes de modelos vinculadas aos mesmos. Estes costumam acontecer, na maioria dos casos, com mulheres jovens, em que se percebem danos na saúde física e psicológica. São mulheres jovens que têm suas imagens apresentadas na mídia e sempre estão cuidando de seu peso, mas o cuidado pode se tornar excessivo trazendo consequências para estas profissionais, como enfraquecimento, magreza excessiva, queda de cabelo, entre outras. Pelo exposto, torna-se interessante a investigação sobre o assunto para que um profissional da Psicologia possa intervir para contribuir com esses profissionais a cuidarem de si, psicologicamente, da melhor forma possível, pois o corpo é o instrumento de seu trabalho.

Além disso, esta pesquisa tem a intenção de discutir aspectos relacionados ao trabalho dessa profissional modelo, além de compreender a mesma, ou seja, verificar como essas profissionais se identificam com este trabalho com características tão específicas, fazendo com que o psicólogo possa trabalhar as questões relacionadas à identidade profissional e planejamento de carreira, já que uma das competências pessoais das modelos inclui a definição de um plano de carreira, apesar de ser uma carreira potencialmente curta. Esta, de acordo com Liz (2006), é curta não pelo fato de não ter mais beleza, pois ela existe em todas as idades, mas porque o mercado da moda exige juventude, sendo assim, a maioria das modelos tem consciência de que por volta dos 27 anos é preciso trilhar novos caminhos,

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podem até continuar fotografando e desfilando, mas haverá uma diminuição na quantidade de trabalhos. Portanto, como ainda essas profissionais são jovens e com capacidade laboral, podem voltar a estudar, fazer faculdade ou se dedicar ao que tem vontade.

Sabendo dessa carreira, o que as levam a seguir essa carreira tão disputada no mercado de trabalho? Existe algum preconceito da sociedade quanto a elas seguirem essa carreira? Qual é o papel das agências de modelos na vida dessas mulheres? Para Tawil (2005), é necessário que os profissionais das agências se preocupem com os aspectos psíquicos das modelos e não somente com seus pesos e medidas, possibilitando também que o profissional psicólogo possa ajudá-los na intervenção das profissionais modelos.

Para encerrar, busca-se caracterizar a identidade da modelo para que se possa contribuir com a construção de sua trajetória, como também, ampliar os estudos relacionados à identidade profissional em Psicologia. Logo, o fato de estudar essas profissionais possibilita que o psicólogo possa conhecer esse campo onde ele pode vir a atuar de diversas formas, com profissionais que começam cada vez mais jovens nessa carreira e muitas vezes não possuem apoio suficiente para enfrentar os desafios existentes na mesma.

1.2 OBJETIVOS

1.2.1 Objetivo Geral

Caracterizar a Identidade Profissional de mulheres que exercem a carreira de modelo.

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1.2.2 Objetivos Específicos

1. Descrever a trajetória profissional de mulheres que exercem a carreira de modelo.

2. Identificar o contexto de trabalho de mulheres que exercem a carreira de modelo.

3. Identificar a imagem social de modelo na percepção de mulheres que exercem a carreira de modelo.

4.Identificar as perspectivas atribuídas por mulheres que exercem a carreira de modelo para o seu futuro profissional.

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2 REFERENCIAL TEÓRICO

Neste capítulo serão discutidas as temáticas que subsidiarão a análise de dados posteriormente. Para isso, será explanado primeiramente sobre o trabalho e a identidade profissional, posteriormente sobre o gênero e trabalho e por último sobre a carreira de modelo.

2.1 TRABALHO

É possível relatar sobre o trabalho humano e suas transformações ao longo do tempo. Primeiramente existia um trabalho para a subsistência dos próprios indivíduos, depois surgiu a agricultura em que se plantava nas terras e acontecia as trocas de produtos chamada de escambo e à medida que o tempo passava essas terras poderiam ser trabalhadas pelos escravos, servos ou camponeses. Depois, o comércio foi sendo desenvolvido e em vez de troca de produtos o dinheiro começou a fazer parte da sociedade e nessa disseminação, em que também se tinham as manufaturas, os comerciantes passaram a empregar trabalhadores como artesãos, artistas, criados domésticos, entre outros (ALBORNOZ, 1994; ARANHA, 1997). Com isso, a industrialização começou a crescer e proporcionou-se a venda da força de trabalho como uma mercadoria, pois para Borges e Yamamoto (2004), esta nova situação, tanto social quanto econômica, faz com que o trabalhador venda o seu fazer.

Estando trabalho e mercadoria relacionados, Codo, Sampaio e Hitomi (1994) e Aranha (1997) relatam que o trabalho é considerado duplo, aparecendo como valor de uso e valor de troca. O valor de uso é o produto capaz de atender às necessidades humanas, é quando se é fabricado o necessário para a existência do sujeito e o produto possui utilidade vital, além de ser o ato de colocar significado humano à natureza e a construção de um sentido. E o valor de troca é visto como criador de mercadoria e é aquilo que tem um preço no mercado, ou seja, o homem ao vender a sua força de trabalho por um salário também torna-se uma mercadoria. Além disso, para Antunes (2008, p. 2-3), o trabalho tem características que:

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Ao mesmo tempo em que os indivíduos transformam a natureza externa, alteram também a sua própria natureza humana, num processo de transformação recíproca que converte o trabalho social num elemento central do desenvolvimento da sociabilidade humana. Mas, se por um lado, podemos considerar o trabalho como um momento fundante da vida humana‚ ponto de partida no processo de humanização, por outro lado, a sociedade capitalista o transformou em trabalho assalariado, alienado, fetichizado. O que era uma finalidade central do ser social converte-se em meio de subsistência. A força de trabalho torna-se uma mercadoria, ainda que especial, cuja finalidade é criar novas mercadorias e valorizar o capital. Converte-se em meio e não primeira necessidade de realização humana.

Santos (2006) ainda relata que é habitual ouvir de sujeitos que trabalham, expressões do tipo “vou para guerra” e “vou para a luta”, mencionando o seu trabalho, tendo este sua etimologia relacionada ao significado de tortura e sofrimento, sendo posto dessa forma pelos trabalhadores.

Para Antunes (1998), ao longo da história da atividade humana, tem-se buscado a sobrevivência, como também a humanidade, a dignidade e a felicidade social, haja vista que, é uma realização, pois é pelo trabalho que homens e mulheres se distinguem das formas de vida dos animais. E nesse fazer, há diversos caminhos a serem escolhidos, além de possuir diferentes alternativas, desafios, recuos e avanços, o trabalho trouxe a mediação entre o humano e a natureza, sendo este uma das composições do ser social.

Ainda para Antunes (1998), a realização do homem como ser social é objetivada pela sua existência produzida e reproduzida, ou seja, o social se concretiza por meio do trabalho, sendo que este é desenvolvido pela cooperação social que ocorre na ação da produção material. Logo, o trabalho é realizado pelo ato da produção e reprodução da vida humana, sendo que é a partir deste que o indivíduo também se compõe como social, apresentando distinções de outras formas não humanas.

Portanto, para Albornoz (1994), o que realiza a mediação entre o homem e a natureza é o fator trabalho, sendo que por meio deste a relação do homem com a natureza se modifica, além disso, é pelo próprio trabalho que o homem transforma-se a si mesmo, corroborando com Aranha (1997, p. 22), “[...] o homem se faz pelo trabalho. Ou seja, ao mesmo tempo que produz coisas, torna-se humano, constrói a própria subjetividade”. Ainda para Albornoz (1994, p.70):

No processo de trabalho participam igualmente o homem e a natureza, e nele o homem inicia, controla e regula as relações materiais entre si próprio e a natureza. O homem se opõe à natureza como uma de suas próprias forças, pondo em movimento braços e pernas, as forças naturais de seu corpo, a fim de apropriar-se das produções da natureza de forma ajustada a suas próprias necessidades. Atuando sobre o mundo exterior e modificando-o, o homem ao mesmo tempo modifica a sua própria natureza.

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Então, o trabalho decorre de necessidades naturais como a fome e a sede, mas ele é efetivado através da interação entre o homem e a natureza, logo, o próprio fazer humano e a configuração do pensamento sobre ele, terão influências sócio-históricas em que cada pessoa está inserida, e isto dependerá de alguns fatores como o acesso que cada um tem a tecnologia, “aos recursos naturais e ao domínio do saber fazer; da sua posição na estrutura social, das condições em que ela executa suas tarefas; do controle que tem sobre o seu trabalho; das ideias e da cultura do seu tempo”, entre outros aspectos (BORGES; YAMAMOTO, 2004, p. 27).

Para Malvezzi (2004) e Bendassolli (2011), o trabalho é uma categoria de estudo para a Psicologia, e esta traz a importância do trabalho na constituição do sujeito e de seus processos psíquicos como a identidade, a aprendizagem, a saúde mental, os sentidos e as atitudes. Porém, o estudo sobre o trabalho não é exclusividade da Psicologia, e este espaço foi aos poucos formulado no pensamento ocidental devido a diversos fatores históricos e econômicos, sendo a sociedade industrial a mais influente. Devido a este fator, o trabalho ganhou o seu destaque, não somente na parte econômica, como também na parte moral, política e ideológica.

Sendo assim, segundo Morin (2002), ao questionar alguém se ela trabalharia se tivesse dinheiro suficiente para o resto da vida, esta pessoa provavelmente responderia que sim, pois, o trabalho não está vinculado somente ao dinheiro, mas também ao fato de se relacionar com outras pessoas, ter uma identidade, ter uma vinculação, ter algo para se fazer, evita o tédio e é possível se ter um objetivo na vida. O trabalho possui um lugar significativo na sociedade e representa importância exercendo influência sobre a motivação e satisfação dos trabalhadores. Então, Santos (2006) aborda que o trabalho se efetiva através de suas características, natureza e condições, e estas determinam os efeitos e as consequências sobre as próprias pessoas, sendo que as funções do trabalho estão relacionadas com o sentido que este tem para os sujeitos e para os grupos sociais.

Portanto, para Borges e Yamamoto (2004) o trabalho pode ser estudado, como também interpretado de diversas formas, vai depender do ponto de vista que cada indivíduo tem da relação com o seu trabalho. Além disso, o trabalho pode ser estudado à partir de diversos critérios, como por exemplo, pelas relações de poder (chefe e subordinado); natureza do que é realizado (classificações de profissões e ocupações); contratos de trabalho (empregador, autônomos); formalidade do contrato (formal ou informal); complexidade da tarefa (simples, repetitivo); esforço (braçal e intelectual); existência de remuneração (voluntário ou remunerado), podendo ainda ser citados muitas outras formas possíveis de

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estudar os aspectos relacionados ao trabalho. E um destes aspectos possíveis de estudo é a identidade profissional desse sujeito que trabalha, pois por meio do trabalho o sujeito constrói sua identidade considerando a sua percepção como também a percepção dos outros, não deixando de considerar o contexto social que o indivíduo está inserido.

2.1.1 Identidade Profissional

Para compreender a identidade profissional, primeiramente é necessário refletir sobre o processo de construção da identidade. Para Luna e Baptista (2001), as pessoas passam por diversas etapas, sendo que é através delas que mudanças vão ocorrendo na identidade pessoal. Mudanças essas ocorridas no cotidiano, na integração de novos grupos, em organizações, com novos amigos e outras formas de pensar, que são consideradas transformadoras da identidade, sendo que esta “é um processo de construção de si, e que é entendido como transformação e metamorfose. A identidade evoca tanto a qualidade do que é idêntico, igual, como a noção de um conjunto de caracteres que fazem reconhecer um indivíduo como diferente dos demais” (LUNA; BAPTISTA, 2001, p. 40). Portanto, a identidade pode ser considerada um processo consecutivo em que cada sujeito se torna quem ele é, não deixando de considerar o contexto social e a história em que se deu o processo de construção da mesma.

Esse processo de construção do sujeito, que permite que cada um apresente-se ao mundo e reconheça-se como alguém, é dado o nome de identidade. A identidade é o que possibilita ao indivíduo sentir-se como pessoa, em todos os seus papéis e suas funções, sentir-se aceito e reconhecido pelo outro, por seu grupo ou sua cultura (LUNA; BAPTISTA, 2001, p. 44).

Ou seja, a partir do momento que a profissional modelo se reconhece em seu trabalho e também os outros a reconhecem como tal, a sua identidade começa a se construir como de uma profissional relacionada à moda. Assim, ainda para os mesmos autores, como também para Bock, Furtado e Teixeira (2002) e Coutinho, Krawulski e Soares (2007), o sujeito afirma a sua identidade por meio das relações interpessoais, sendo por meio destas que o sujeito aprende a se diferenciar do outro. Além disso, a identidade também se constrói por meio de um projeto de futuro, àquilo que se pretende ser. Logo, a formação da identidade é

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constituída pelo que o sujeito percebe ser (auto-imagem), por aquilo que os outros percebem do sujeito, como também, pelo que o sujeito percebe que os outros compreendem dele.

Contudo, para Luna e Baptista (2001), se a mudança da identidade acontecer de forma intensa, confusa, considerando que o “quem sou agora” com o “quem fui ontem” se mesclam, pode-se citar que está acontecendo uma crise de identidade, sendo esta configurada em mudanças acontecidas de forma repentina. No trabalho em questão, a mencionada crise poderia ser observada no momento em que modelos estão prestes a se “aposentar”, devido ao fato de que a carreira já não é mais possível devido às questões de idade e às vezes também pela beleza estabelecida pelo padrão da moda, que é muito considerada nesse meio, ou seja, é possível que essas modelos busquem apoio para que essas mudanças não aconteçam de forma abrupta e consigam se preparar com mais tranquilidade quando a “aposentadoria” chegar.

Deste modo, Coutinho, Krawulski e Soares (2007), discutem sobre a identidade do ponto de vista social. Nessa discussão aparecem aspectos como o pertencimento aos grupos, os papéis vividos pelo sujeito, como também acontecem nas relações diversas representações, sendo uma delas a representação profissional, tendo a identidade profissional do sujeito nessa representação. Assim, para Luna e Baptista (2001, p.49), a:

Identidade profissional, então, é a representação que faço de mim mesmo e que os demais atribuem a mim, no que se refere ao trabalho que realizo, e que reflete todas as outras identidades que também possuo; é a constante reposição que faço da identidade de trabalhador pressuposta para mim; enfim, é a resposta às perguntas: O que faço? Onde? Como? Com quem? Para quem? Quando? Para que (futuro, projeto)? Por que (passado, história)?.

Para Bock, Furtado e Teixeira (2002), ao longo da vida, surgem experiências em que cada sujeito “monta” seu exemplo, seja de homem ou mulher, de profissional, de cidadão etc, por exemplo, uma menina começa a carreira de modelo e quer seguir seu trabalho pautada em sua grande inspiração como profissional que é a modelo Gisele Bündchen, ou seja, este é um exemplo com o qual ela se identifica e vai procurar construir sua identidade, aqui no caso, sua identidade profissional como modelo.

Complementando, Luna (2005, p.81) entende que a identidade profissional é a auto-percepção do sujeito como também a percepção de outro sobre ele sendo alguém que desenvolve uma tarefa relacionada, seja por uma habilidade ou por um conhecimento específicos. “A identidade, sobretudo, implica a existência de um trabalho com significado para quem o realiza, ou seja, um ‘por que’ e um ‘para que’ que transcendem o momento imediato; implica uma compreensão global do processo de trabalho”.

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Deste modo, de acordo com Vale (2010, s/p), “a identidade profissional, por suas vezes, é constituída pelo desejo, pela prática, pela supervisão, pela formação continuada, podendo apoiar-se numa identidade legal (...). É no desenvolvimento profissional que a identidade se afirma”, ou seja, a vinculação do sujeito com uma atividade resulta na sua identidade profissional considerando o contexto e as características dessa atividade. Logo, as atividades profissionais se apresentam à consciência do sujeito como um elemento para a constituição de sua identidade. “E os diferentes espaços de trabalho oferecido vão se constituir em oportunidades diferenciadas para a aquisição de atributos qualitativos da identidade de trabalhador”. Assim, no desenvolvimento da carreira de modelo, suas identidades vão sendo construídas conforme elas vão se identificando com esse fazer.

2.2 MULHERES PROFISSIONAIS

É importante ressaltar que o trabalho veio se modificando ao longo do tempo, e uma das grandes modificações foi à inclusão da mulher no mercado de trabalho, assunto este que será explanado no subcapítulo Gênero e Trabalho. Após, a discussão sobre gênero, será discutido sobre as profissionais modelos, esta considerada uma carreira inicialmente feminina, sendo que na década de 1960 havia muito preconceito com relação a essa forma de trabalho, contexto que será abordado em A carreira de modelo.

2.2.1 Gênero e Trabalho

O gênero é considerado um elemento construído socialmente, sendo assim histórico, pode-se pressupor que esse conceito é plural, ou seja, há “[...] conceitos de feminino e masculino, social e historicamente diversos” (LOURO, 1997, p.23). Essa pluralidade significa que os conceitos de feminino e masculino não variam somente de uma sociedade para outra, mas também no interior de uma mesma sociedade que apresentariam essas concepções de maneira distinta dependendo da classe, religião, etnia, idade, entre

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outros. Também significa afirmar que as concepções de masculino e feminino vão mudando ao longo do tempo.

Altmann e Souza (1999, p.54) também afirmam que o gênero é um elemento construído socialmente a partir do que uma determinada cultura estabelece. Por possuir um caráter predominantemente social das divisões baseadas no sexo, torna-se possível perceber as “[...] representações e apresentações das diferenças sexuais”. Esse conceito de gênero não despreza as diferenças biológicas existentes entre os dois sexos, porém é com base nestas que outras são construídas.

Então, cabe aqui destacar a diferença entre sexo e gênero. Giddens (2007) afirma que a palavra sexo caracteriza as diferenças do corpo, tanto anatômicas quanto fisiológicas de homens e mulheres. E gênero se refere às diferenças sociais, psicológicas e culturais entre eles, sendo atrelada a noção socialmente construída de masculinidade e feminilidade. Essa distinção torna-se necessária, pois há diversas diferenças entre homens e mulheres que não são de origem biológica. Há três abordagens que estudam esses aspectos de forma diferenciada: a primeira é de base biológica, a segunda é de socialização do gênero e a terceira é da construção social do gênero e do sexo.

A primeira abordagem, que é considerada de base biológica, sustenta que os hormônios, os cromossomos, o tamanho cerebral e a herança genética são responsáveis pelo comportamento entre homens e mulheres e estes são caracterizados como diferenças inatas, sendo estas apresentadas nas culturas. Na segunda abordagem, o estudo das diferenças de gênero é realizado pela sua socialização, que acontece através da família e da mídia ocorrendo uma aprendizagem dos papéis de gênero, além disso, há uma diferenciação entre sexo biológico e gênero social, em que a criança nasce com o primeiro e desenvolve o segundo. As distinções de gênero não são determinadas biologicamente, mas são produzidas culturalmente, sendo por isso que essas desigualdades aparecem, pois homens e mulheres são socializados em papéis diferentes. E a última abordagem considera que o sexo e o gênero são socialmente construídos, desconsiderando o sexo biológico determinado e o gênero cultural apreendido, em que tanto o corpo humano quanto o gênero estão sujeitos a forças sociais, sendo estes moldados e alterados de diversas formas (GIDDENS, 2007).

Louro (1997, p. 45) ainda aborda que a diferença entre os gêneros surge como forma de justificativa

relacionada, a princípio, às distinções biológicas, a diferença entre os gêneros serviu para explicar e justificar as mais variadas distinções entre mulheres e homens.

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Teorias foram construídas e utilizadas para ‘provar’ distinções físicas, psíquicas, comportamentais; para justificar os lugares sociais, as possibilidades e os destinos ‘próprios’ de cada gênero.

Além da constituição de gêneros, pode-se relatar também a construção da identidade de gênero. As identidades são construídas a partir da relação do indivíduo com o meio em que vive. “As inserções de classe social e gênero em uma mesma sociedade, ao configurarem contextos de interação específicos, repercutem de forma substancial nos processos de subjetivação de cada pessoa, delineando possibilidades e limitações” (TRAVERSO YÉPEZ; PINHEIRO, 2005, p. 148). No mesmo sentido, Louro (1997) retrata que a identidade de gênero é constituída pelas relações sociais que acontecem por meio de símbolos, discursos, representações e práticas; assim os sujeitos se constroem como masculinos e femininos, arrumando e desarrumando seus lugares na sociedade, além de suas formas de ser e estar no mundo. Essas construções são transitórias e se transformam com o tempo, pela história, como também pelas histórias pessoais, as identidades sexuais, as etnias, as raças, entre outros. Dessa forma, se evidencia a importância da compreensão do fenômeno gênero, seja em suas interações sociais ou relacionadas aos seus papéis desempenhados dentro do trabalho.

Deste modo, no mundo do trabalho, várias transformações foram ocorrendo na sociedade e, segundo Antunes (1998), foram modificações como a diminuição da classe operária que trabalhava na indústria tradicional, o aumento do trabalho assalariado e a inserção das mulheres na classe operária. A partir desses ocorridos, começou a acontecer uma heterogeneização do trabalho, a classe trabalhadora não era mais exclusivamente masculina e sim também feminina, não somente elas trabalhando nas indústrias têxteis, onde normalmente o público de mulheres era maior, mas também encontravam-se elas em outros ramos, como na indústria microeletrônica e nos setores de serviços, o que possibilitou o aumento da exploração da força de trabalho feminina.

Com modificações ocorrendo em vários ambientes e lugares, no Brasil não poderia ser diferente, segundo Alves (2000, p.203):

No século XX as mulheres brasileiras conquistaram o voto, a educação, o acesso aos meios contraceptivos e a inserção no mercado de trabalho. Isto representou uma conquista e tanto. Foi uma batalha vencida, mas não o fim da guerra pela igualdade de gênero. No mercado de trabalho, as mulheres, em grande parte, venceram a exclusão, mas não venceram as desigualdades e a segregação.

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Logo, para Giddens (2007) dentro de instituições sociais, homens e mulheres vão desempenhar os seus papéis, sendo estes dependentes da cultura na qual eles estão inseridos, ou seja, os homens são mais valorizados e recompensados que as mulheres e tem a responsabilidade de sustentar a família, e em quase todas as culturas elas são responsáveis pelo cuidado de seus entes e pelos afazeres domésticos. Com essas divisões de trabalho entre os homens e as mulheres, ocorreram também posições desiguais quanto a poder, a prestígio e a riqueza.

Relacionado ao desempenho de papéis de homens e mulheres, há profissões em que existem divisões e hierarquias, sendo elas associadas ao masculino e ao feminino. Segundo um estudo realizado por Bertelli, Tumelero e Lazarin (2010) em um programa de abrigo institucional que envolve cuidado e atenção à crianças em situações de risco, as atividades são realizadas exclusivamente por mulheres. Em um internato provisório para adolescentes infratores, os monitores e os responsáveis pela vigilância são todos masculinos, mas as funções de assistente social, pedagoga e psicóloga são ocupadas pelas mulheres. Em programas de socioeducação, os monitores são masculinos e femininos, mas cada um apresenta um trabalho específico, por exemplo, as mulheres realizam oficinas de artes, cabeleireira e manicure e os homens ficam responsáveis pelas oficinas de música e esportes. Logo, ainda percebe-se a divisão de trabalhos entre homens e mulheres em que elas cuidam de serviços relacionados ao cuidado e afazeres domésticos e eles, aos serviços que exigem força e virilidade.

Portanto, para Bruschini (2007) ocorreram mudanças nos padrões culturais e também nos valores do papel social da mulher, que está cada vez mais voltada para o mercado de trabalho, fazendo com que tenha mais oportunidades. Esses fatores explicam tanto o crescimento das atividades femininas quanto as suas transformações no perfil da força de trabalho. Mas apesar de tantas modificações, muitos aspectos continuam o mesmo, ou seja, as mulheres continuam sendo as responsáveis pelos afazeres domésticos e o cuidado dos filhos, fazendo com que elas se sobrecarreguem em suas atividades, provocando uma tripla e até quarta jornada de trabalho.

Deste modo, Santos, Caldana e Alves (2001) relatam que ocorreram alterações no século XX na sociedade brasileira, tanto no âmbito social, quanto na cultura e na economia, inclui-se também modificações na organização familiar fazendo com que seus participantes desempenhem tarefas não pertencentes tradicionalmente a cada gênero, ou seja, essas alterações ocorrem principalmente pelo movimento feminista e pelo aumento do mercado de trabalho, em que as mulheres começaram a se inserir. E para complementar, Teykal e

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Rocha-Coutinho (2007, p. 263) relatam que houve a inserção das mulheres no mercado de trabalho e consequentemente a sua ausência em casa e sobre os homens tem recaído uma cobrança social “para que expressem um comportamento mais participativo e envolvente nos relacionamentos afetivos e familiares, que vem contribuindo para o surgimento de uma nova concepção de masculino, de modo geral, e de paternidade, em particular”.

A partir desse movimento muitos estudos foram sendo realizados sobre os papéis e as identidades femininas. Por isso, estudos com mulheres passam a ser importantes para compreender os papéis desenvolvidos por elas, principalmente em uma carreira, como a de modelo, que sempre teve julgamentos por parte da sociedade, pois esta atividade iniciou em uma época em que mulheres eram principalmente dona de casa.

2.2.2 A Carreira de Modelo

De acordo com Libardi (2004) a história da carreira de modelo teve sua origem há muito tempo. Na antiguidade, esculturas eram feitas inspiradas nos deuses, em que estas retratavam a beleza da época. Séculos depois, os artistas plásticos começaram a utilizar os “modelos vivos” para a realização de seus quadros e esculturas. Antes da fotografia, eram as pinturas que registravam as imagens das pessoas, esses pintores quando não criavam personagens utilizavam modelos reais, normalmente eram nobres, esposas, filhos e amigos desses pintores ou outras musas inspiradoras. Já no século XVIII, na Renascença, os pintores selecionavam e pagavam os modelos.

Aliás, a moda nasceu em Paris, na França, onde naturalmente surgiram as primeiras representantes dessa profissão. Em 1858, o costureiro inglês Charles Worth abriu em Paris o primeiro salão de alta-costura. Foi ele o primeiro a apresentar desfiles com manequins vivos para vender suas criações. Maria Vernet, sua esposa, tornou-se sua modelo, a primeira da história dessa profissão (LIBARDI, 2004, p.20-21).

No Mundo, Morelli (2006) afirma que no século XX ocorreram os primeiros desfiles de manequins em Londres e Nova Iorque, e depois em Paris. Em 1914, foi realizado o primeiro desfile beneficente e manequins foram contratadas através de anúncios de jornais, pois ainda havia poucas delas no ramo, em que apareceram arrumadeiras, datilógrafas e garçonetes, além de algumas manequins consideradas experientes. Em 1923 na cidade de

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Nova Iorque, um ator desempregado implantou uma agência para colaborar com as lojas de departamentos que realizavam desfiles de moda, surgindo assim à primeira agência de modelos.

A primeira agência em Londres foi inaugurada em 1928, esta fornecia modelos para desfiles e para fotografias. Nos Estados Unidos a primeira agência, conhecida como Ford, foi inaugurada em 1946. Em 1959 foi inaugurada em Paris a primeira agência, sendo que neste lugar demorou a abrir uma agência especializada, pois os ateliês de costura tinham suas próprias modelos e não precisavam das agências para a contratação desses profissionais. E na década de 1960, a demanda por manequins ia aumentando nas lojas de departamentos, pois elas desfilavam mostrando as roupas aos clientes. (EVANS, 2001 apud MORELLI, 2006). Nota-se duas formas de falar sobre a profissional, uma é ser chamada de manequim e outra é ser chamada de modelo, logo:

Teoricamente manequim e modelo são funções diferentes; o manequim “com boa altura e corpo esguio [...] [atua] na passarela, interpretando as roupas que desfila”, enquanto que o modelo (fotográfico ou para comercial) “posa para fotos”. Porém, hoje não se faz essa diferenciação, na prática “diz-se ‘modelo de passarela’ ou ‘modelo fashion’ [...] é mais comum ouvir falar do modelo, um profissional que desfila, fotografa e desempenha muitas outras funções” (FURLAN, 2009, p. 51).

A carreira começou no Brasil no final da década de 1940 e para Farias (2009) na época a expressão modelo mal existia, mas era um início de algo que mais tarde se tornaria conhecido e admirado; também não existiam os flashes e o glamour que existe hoje. Inicialmente não havia modelos masculinos, estes eram contratados eventualmente, mas foi na década de 1970 que homens começaram a se inserir nessa atividade no Brasil.

Bonadio (2004) relata que para divulgar seus produtos a comerciantes, a fabricantes e a consumidores, era preciso que uma empresa realizasse uma produção periódica de editoriais e propagandas para a divulgação de seus produtos, nesse momento começaram a acontecer à popularização de desfiles de moda que aconteciam juntos com números musicais, teatros e número de danças, esses shows/desfiles aconteciam por todo o Brasil e às vezes no exterior. Para a realização desses eventos, foi criado um grupo que continha de cinco a sete modelos, estas apareciam em editoriais de revistas com seus nomes creditados, mesmo que aparecesse apenas o primeiro nome, era uma novidade e um reconhecimento. Com essa iniciativa as modelos começaram a ter suas imagens publicamente reconhecidas.

E nessa participação feminina no mundo da moda, Bonadio (2004) aborda que o espaço ocupado pelas mesmas ainda era pequeno e somente algumas profissões como

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professora, secretária e bibliotecária eram dignas de moças da classe média realizar. Porém, era desta mesma classe que surgiram as primeiras modelos, muitas trabalhavam como modelo para conseguir juntar dinheiro para estudar e para comprar apartamentos ou carros. Se havia resistência da sociedade quanto ao trabalho feminino, então o que falar das modelos? Pois, a concepção da carreira era que essas mulheres “alugam” a imagem de seus corpos para a realização de seus trabalhos, além disso, elas tinham uma rotina de trabalho que às vezes era noturno e algumas vezes precisavam viajar, ficando em situações pouco confortáveis.

Para exercer tal carreira era preciso que a modelo tivesse uma atitude corajosa, força e determinação para que pudesse suportar os preconceitos existentes, essa percepção fez com que algumas modelos deixassem a carreira para se casarem, ou seja, constituir família, pois com relação à moral, ser modelo era percebido como uma transgressão social. Portanto, ser modelo no Brasil na década de 1960 era cheio de conflitos morais e de difícil aceitação social,

as mulheres que atuaram como modelo e manequim nos anos 1960 – ainda que enfrentassem preconceito social em razão de a publicidade de moda transformar a imagem corporal das modelos em capital, objeto de consumo e mercadoria, o que acaba por associá-las à prostituição – podem ser vistas também como transgressoras do sistema prescritivo cultural dominante e provavelmente colaboraram para abrir um valioso espaço social, diversificando as oportunidades de trabalho para a mulher, ou modificando a forma como era vista a presença imagética feminina na imprensa. (BONADIO, 2004, p. 77).

Com relação à imagem social da carreira, Tawil (2005) indica que as gordinhas eram consideradas fashion, hoje elas já não são consideradas dessa forma, pois a moda dita que é preciso ter um corpo esguio e de acordo com Bonadio (2004), a pressão que as modelos sofriam não era devido à forma ou ao peso corporal, mas sim por causa de seus comportamentos pessoais. Namorar homens fora do círculo de trabalho e sair sozinha à noite não era permitido, dentro e fora do trabalho as profissionais deveriam manter os seus comportamentos de maneiras exemplares. Poderia até ter uns quilinhos a mais, mas não poderia sair, passear, ter vida própria e ter relacionamentos afetivos, estes poderiam acontecer somente se fossem com pessoas do mesmo local de trabalho, pois possibilitaria um maior controle sobre o comportamento das modelos. Toda essa proteção se fazia necessária para que fosse resguardada a dignidade, o status das profissionais e também a marca a qual elas representavam.

Além disso, para Libardi (2004) e Tawil (2005), a carreira de modelo, após a liberação sexual, perdeu a sua antiga conotação. Pertencer a uma boa família não é mais

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obstáculo para exercer a atividade, pois hoje ela oferece menos resistência do que há trinta anos e muitos pais se orgulham de ver seus filhos em campanhas publicitárias. O narcisismo se destaca, pois se vive em tempos de prazer, exposição e espetáculo, sendo que quanto mais a imagem aparece, mais os sujeitos se sentem poderosos e bem sucedidos. Como também, esse mundo da moda pode ser considerado hostil e pouco hospitaleiro, sendo que as modelos muitas vezes não conseguem expressar suas angústias, pois não há ninguém para ouvi-los e também para os que perdem trabalho, não há consolo.

Nessa carreira de modelo há diversas possibilidades de trabalho, sendo estas encontradas na CBO (2002), como o modelo artístico, o modelo de moda e o modelo fotográfico e dentro dessas possibilidades existem subdivisões. No modelo artístico encontram-se a estátua viva que é uma performance temática com movimentos estáticos, realizando pausas estratégicas e perfeitas, assim como técnicas e mímicas e o figurino é composto de acordo com o efeito que se quer criar; modelo de nu artístico que é a pessoa da qual artistas se utilizam para reproduzir o seu trabalho através do nu artístico e o modelo vivo que é a pessoa que se deixa ser copiada por artistas, como também por estudantes de artes.

No modelo de moda, encontram-se o modelo de passarela que é a pessoa que apresenta o trabalho dos artistas em uma pequena ponte estreita, que é destinada aos desfiles de moda e o modelo de prova que é a pessoa utilizada para a confecção de roupas e é preciso ter um corpo de acordo com um padrão exigido pelas confecções, pois muitas confecções trabalham nesse corpo (LIBARDI, 2004). E na última, que é o modelo fotográfico, encontram-se o modelo comercial, em que a pessoa se apresenta na mídia oferecendo algum produto; o modelo de detalhes apresenta peças específicas, sendo utilizadas algumas partes do corpo, por exemplo, mãos para anunciar anéis; o modelo de editorial de moda que são aqueles que se apresentam em revistas de moda, apresentando coleções e o modelo fotográfico de workshop são os que aparecem nas fotografias em eventos de empresas e outros ramos de atividades (CBO, 2002).

Além dessas categorias, a CBO (2002, s/p) também destaca as principais atividades que esses profissionais precisam exercer para conseguirem ter um bom desempenho nas suas carreiras, dentre elas se tem:

posar para fotógrafo e artistas plásticos; mostrar produto em fotos, filmes e eventos; desfilar coleções de moda; preparar-se para o trabalho; administrar aspectos comerciais da profissão; prestar seleção (testes) para trabalhos; ensaiar a produção de comerciais, fotos, filmes e desfiles; comunicar-se e demonstrar competências pessoais, como também a importância de se estar vinculado a uma agência de modelo para que consiga prosseguir com sua carreira.

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Cabe destacar que, para Liz (2006), todas as atividades que uma modelo executa, elas são apresentadas por uma agência de modelo, pois é por ela que passam as propostas, negociações e valores de trabalho, ou seja, para seguir a carreira de modelo é importante estar agenciada já que é pela agência que os trabalhos e cachês serão negociados, sendo que esta agência receberá uma comissão, que normalmente fica em torno de 30%. Logo, três caminhos levam as modelos até essas agências que são: o scouter, o chamado “olheiro” que está sempre em vários lugares; participando de concursos, pois por meio deles a menina consegue iniciar na carreira, mesmo que ela não ganhe, mas gera oportunidades; e procurar a agência, já que se a menina tem a vontade de seguir carreira, ela tem a oportunidade de ir até uma agência tentar entrar para o cast desta e iniciar nas atividades de modelo.

Deste modo, na agência existem algumas áreas como: a área fashion, que agencia modelos para desfiles e editoriais de moda e a área comercial, em que se encontram modelos que trabalham em comerciais de TV, anúncios de beleza e fotografias. Além disso, a agência pode orientar as meninas quanto ao jeito de se vestir, o corte de cabelo, o jeito de andar, como também orientar as meninas se devem ou não aceitar o trabalho proposto. Pode orientar também em questões pessoais e encaminhá-las, quando há necessidade, para profissionais de Psicologia, trazendo apoio para essas meninas que estão em fase de transformações (LIZ, 2006).

Sendo assim, é possível retratar a história do início das agências, em que Bonadio (2004) afirma que a primeira escola de modelos que surgiu no Brasil, intitulada de “As girls”, era composta por bailarinas de cassinos que passaram a desfilar. Hoje, as profissionais precisam estar associadas a uma agência de modelo para que consigam consolidar sua carreira. Mas muitas vezes essas agências não respeitam este profissional, não cumprem a devida lei que rege a carreira, que é a Lei n.6.533 de 24 de Maio de 1978, com o título de Regulamentação das Profissões de Artistas e de Técnico em Espetáculos de Diversões, fazendo com que este profissional não conheça os seus direitos ou até mesmo não os reivindique por medo de não conseguir mais trabalho (MESQUITA, 2006).

Para Tawil (2005), os ambientes das agências são de correria, muito trabalho e pouco tempo a perder e como há uma grande procura por esta carreira, pode-se considerar como um vestibular, em que há mais pessoas do que vagas e nesse vestibular nem todos conseguem passar, mas sim aquele que está conforme ao que o padrão de beleza exige. Porém, que padrão é esse exigido? Ou ainda, o que é ser belo? Nesse contexto, pode-se falar em beleza objetiva em que eles escolhem as profissionais por meio de medidas estabelecidas, seja a altura, quadris, manequim (tamanho da roupa); e beleza subjetiva em que as

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