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NIETZSCHE E UMA ÉTICA DIONISÍACA

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Academic year: 2021

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NIETZSCHE E UMA ÉTICA DIONISÍACA

Paulo Cesar Jakimiu Sabino UNESPAR-Fafiuv/PIBIC-Fundação Araucária [email protected] Samon Noyama RESUMO:

O presente trabalho tem por intuito apresentar uma perspectiva de uma possível ética dionisíaca, que pensamos poder ser encontrada na obra de Nietzsche. O legado do autor para a ética é fundamental, pois rompe com diversos pensadores da modernidade e abre novos leques para as interpretações dessa área. No autor de Assim falou Zaratustra, a ética pode ser pensada não regida a partir de valores que permanecem no campo da idealização, mas sim daqueles que provém da condição fisiológica do indivíduo. Nietzsche rompe com a metafísica da ética e permite-nos pensar que não há uma norma ou regra que o homem deve criar para o agir, mas sim, se colocar em uma nova postura perante a vida, uma postura afirmativa, e que, desse modo, poderá ter como consequências ações saudáveis. Palavras-chave: Dionísio, Fisiologia, Afirmação da Vida.

A filosofia de Nietzsche possui duas características que são fundamentais para o desenvolvimento do tema a ser aqui tratado: a) ela proporciona uma pluralidade de diferentes interpretações já que o próprio filósofo se coloca em uma postura onde não cria

sistemas, mas como livre para escrever e discordar do que escrevera1, por esse motivo,

nunca oferece algo pronto e acabado, mas pensamentos a serem desenvolvidos pelos seus próprios leitores e b) no que diz respeito à ética, assume uma postura nova para com os outros pensadores da modernidade – que iremos tratar adiante. É justamente por essa segunda característica que, talvez, ao se falar em uma ética dionisíaca, podemos ter certo estranhamento.

Vania Dutra de Azeredo (2008) no livro Nietzsche e a aurora de uma nova ética, nos oferece uma interpretação onde entende-se uma ética do amor fati, a ética é vista pelo crivo da interpretação, do destruir e do criar, do negar e do afirmar. Não discordamos nem mesmo concordamos com a autora, mas queremos a partir disso, pensar iniciando por

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outro ponto de vista, algo que foque precisamente na condição fisiológica do indivíduo para seu agir.

Para se pensar uma possível ética dionisíaca é preciso ter em mente a primeira característica mencionada acima. Ora, Dionísio não aparece na obra nietzschiana sempre da mesma maneira, o deus grego é entendido de uma forma no período inicial, cujo principal texto por referência é O Nascimento da Tragédia, e de outra nos textos posteriores a Assim Falou Zaratustra – contudo, ambas interpretações são essenciais e pensamos que se complementam de certa forma.

Mas o quem era o Dionísio dos gregos antigos? Segundo Jean-Pierre Vernant, os cultos a essa divindade apresentavam características peculiares e originais, por exemplo:

“Ele exprime o reconhecimento oficial, por parte da cidade, de uma religião que, sob muitos aspectos, escapa à cidade, contradizendo-a e ultrapassando-a. Instala no centro da vida pública comportamentos religiosos, que, sob forma alusiva, simbólica ou de maneira aberta, apresentam aspectos de excentricidade” (2006, p.76-7).

E ainda, no que diz respeito o que Dionísio oferecia, nota-se uma extrema diferença entre o que entendemos hoje por divino ou divindade:

“Plenitude do êxtase, do entusiasmo, da possessão, é certo, mas também felicidade do vinho, da festa, do teatro, prazeres de amor, exaltação da vida no que ela comporta de impetuoso e de imprevisto, alegria das máscaras e do travestismo, felicidade do cotidiano. Dionísio pode trazer tudo isso, se os homens e cidade aceitarem reconhecê-lo. Mas em nenhum caso vem anunciar uma sorte melhor no além. Ele não preconiza a fuga para fora do mundo, não prega a renúncia nem pretende proporcionar às almas, por um tipo de vida ascético, o acesso à imortalidade. Ele atua para fazer surgirem, desde esta vida e neste mundo, em torno de nós e em nós, as múltiplas figuras do Outro. Ele nos abre, nesta terra e no próprio âmbito da cidade, o caminho de uma evasão para uma desconcertante estranheza. Dionísio nos ensina ou nos obriga a tornar-nos o contrário daquilo que somos comumente” (Ibidem, p.80).

Essas são características fundamentais da divindade grega que parecem ter inspirado a filosofia de Nietzsche. O romper com a civilidade, com a idealidade presente em nossas vidas – onde habitam os valores – que nos faz pensar em uma realidade outra, para além desta. É o deus da natureza, desse mundo, da exuberância e do êxtase. Qualquer um assim poderia dizer que, tais características, de modo nenhum poderiam representar o que hoje nós entendemos por um agir correto, ou então, pelo menos, podemos dizer que não é exatamente o bom ideal de ética – que prezaria pela justa medida, que ainda crê na existência dos valores bem e mal. Quem se ocupa da leitura de Nietzsche bem sabe, tais

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valores são, para o filósofo, criações, não existem em si, mas foram inventados, por isso, o único modo de conceber uma ética dionisíaca é pensar para além desses valores.

Porém, vejamos como isso ocorre primeiramente em O Nascimento da Tragédia. No texto, Nietzsche trata da arte trágica grega, ele entende que o seu desenvolvimento se dá pela duplicidade apolíneo e dionisíaco. Apolo é considerado o deus grego da arte plástica, configurador, do sonho e aquele que engendrou o mundo onírico, ao qual permitiu aos gregos viver superando os horrores e temores do existir (Cf. NIETZSCHE, 2005, p.36). Além disso, há o “[...] caracterizar de Apolo com a esplêndida imagem divina do

principium individuationis” (Ibidem, p.30, grifo do autor). O principium individuationis é

o que permite aos gregos a caracterização de seus heróis e deuses, é o que difere os indivíduos – pois ao se tratar de ideias, é o que estabelece ideais entre os homens. Coube a Dionísio romper esse principium, os ritos dionisíacos repletos de orgias e êxtase como descrito anteriormente, unirá o ser humano, mas não a união entre os homens a partir de ideais de direitos iguais, mas ao obrigar o homem a ser o que comumente é, o dionisíaco destrói a ilusão da individuação perante ao Uno-Primordial:

“Agora o escravo é homem livre, agora se rompem todas as rígidas e hostis delimitações que a necessidade, a arbitrariedade ou a ‘moda impudente’ estabeleceram entre os homens. Agora, graças ao evangelho da harmonia universal, cada qual se sente não só unificado, conciliado, fundido com o seu próximo, mas um só, como se o véu de Maria tivesse sido rasgado e, reduzido a tidas, esvoaçasse diante do misterioso Uno-primordial” (Ibidem, p.31).

O rompimento, contudo, que Dionísio estabelece, resulta em alguns pontos, pois não se trata de pensar apenas da ótica estética, mas também da ética. Enquanto “Apolo, como divindade ética, exige dos seus a medida e, para poder observá-la, o auto-conhecimento” (Ibidem, p.40), a divindade Dionísio vista dessa ótica acaba por colocar por terra todos os preceitos de uma ética – e com isso, entende-se que não é mais uma questão de medir as ações pelos valores, ou ideais, mas sim pela condição do ser humano, sendo que, o retorno a natureza, o “reencontro” do homem com a natureza é algo necessário. O que se pode perceber em O Nascimento da Tragédia, é um dionisíaco que restaura o homem com aquilo que pertence a ele e que por anos teimamos em negar ou reprimir – os instintos, as pulsões e paixões. Porém, apenas posteriormente existirá uma nova concepção de Dionísio que é afetada por todos os elementos do pensamento tardio de Nietzsche, principalmente as críticas a moral cristã, sem porém, abandonar algumas ideias vistas no

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Nascimento da Tragédia. É então que a divindade grega se coloca como a afirmação da

vida e contra os ensinamentos que negaram o corpo até então.

Por isso, nesse determinado ponto surge uma originalidade, por assim dizer, da ética de Nietzsche em contraposição aos pensadores da modernidade – que diz respeito a segunda característica que citamos:

“Ao tomar a História da Filosofia em seu conjunto, Nietzsche refuta as formulações éticas que aparecem como reflexões sobre o agir em busca de um elemento último como seu definidor ao apresentá-las como imposições de perspectivas. Enquanto os filósofos modernos estabelecem máximas universais e de validade incondicional que respaldam a afirmação da subjetividade como fundante e fornecem parâmetros seguros para compreender e explicar a ação, o autor de Assim falava Zaratustra empreende uma genealogia da moral a fim de realizar o resgate histórico das configurações erigidas no decurso da história humana enquanto proposição de sentidos. Ao resgatar motivos não conscientes como determinantes do agir, recusa o governo absoluto da razão em termos de moralidade e a universalidade de sua legislação” (AZEREDO, 2008, p.23-4). Na obra O Crepúsculo dos Ídolos a concepção de dionisíaco e apolíneo se alteram, ao começar pelo fato de que agora Nietzsche os entende como dois estados de embriaguez, necessária ao artista, porém a embriaguez apolínea mantém o olhar excitado para adquirir força de visão, já o dionisíaco é a excitação e intensificação dos afetos (Cf. NIETZSCHE, 2010, p.69). Porém, a mudança mais significativa é no que representa a divindade Dionísio – afastado de suas influências iniciais, isto é, Wagner e Schopenhauer, bem como do movimento alemão que traz uma nostalgia da Grécia antiga, iniciado com Winckelmann –; o fato fundamental do instinto helênico, o triunfante Sim à vida, a verdadeira vida, o eterno retorno, eis os elementos fundamentais de Dionísio – consequências da aceitação dos instintos e dos afetos, ou do corpo, como preferirem. Nessa fase, o dionisíaco surge como forma de se contrapor ao cristianismo, muitas das viscerais críticas do autor a essa doutrina se fundamentam nos elementos citados acima. Para Nietzsche a doutrina cristã influi na condição física e psíquica do ser humano, sendo que a negação da vida é apenas sintoma, resultado de uma vida decadente e degenerada – contudo, diz o autor que é impossível levantar a questão da justificação de condenar a vida, como faz o cristianismo, pois o homem é um ser vivente e o problema do valor da vida necessitaria de uma posição fora dela, é para nós, então, inacessível –, o que caberia ao homem, por este motivo, é criar valores sob a ótica da vida (Cf. Ibidem, p.36).

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É nesse sentido que o autor não estabelece qualquer elemento último para o agir, não se tratando de medir as ações a partir desse elemento, mas sim de medir as ações a partir do valor que o indivíduo cria para si – e que traz consigo marcas da condição

fisiológica do indivíduo2. Condena-se, desse modo, qualquer ética normativa, que

estabeleceria um dever ser:

“Consideremos ainda, por fim, que ingenuidade é dizer ‘assim deveria ser o homem!’. A realidade nos mostra uma fascinante riqueza de tipos, a opulência de um pródigo jogo e alternância de formas: e algum pobre e vadio moralista vem e diz: ‘Não! o ser humano deveria ser outro!’ [...] O indivíduo é, de cima a baixo, uma parcela de fatum [fado, destino], uma lei mais, uma necessidade mais para tudo o que vira e será. Dizer-lhe ‘mude!’ significa exigir que tudo mude, até mesmo o que ficou para trás” (Ibidem, p.37, grifo do autor)

Uma ética dionisíaca, assim sendo, parte da perspectiva nietzschiana de não estabelecer nenhum fundamento ou regra – mesmo temporária – que parta de outro e não do indivíduo em si. O homem é resultado de todo um processo histórico, exigir dele uma mudança é ir contra a sua natureza, os seus instinto, suas paixões e desejos é exigir que se

mude pelo fato de não conseguir suporta-los3. O que se propõe é uma possibilidade de

pensar o agir do indivíduo livre das amarras da moral, e sem o seus apoios metafísicos, para que dessa maneira consiga explorar suas potencialidades. Por tempos a humanidade enxergou nas paixões e nos instintos os culpados pelos males e atrocidades no mundo – a visão nietzschiana é oposta, é focar justamente no que fora até então negado, pois “[...] atacar as paixões pela raiz, significa atacar a vida pela raiz [...]” (Ibidem, p.34).

Então a postura de Azeredo da ética do amor fati onde se necessita da interpretação volta à tona. Trata-se de um interpretar, mas antes necessita-se de uma condição saudável para isso, logo se evidencia que a ética não é pensada de uma perspectiva para o coletivo, mas sim para o indivíduo, pois apenas ele poderia focar em

sua natureza, estando conectado de maneira mais íntima, onde suas paixões e seus desejos

resultariam em valores que passam pelo crivo da vida. Nas palavras de Zaratustra, não se oferece um caminho, pois o caminho não existe (Cf. Idem, 2011, p.186).

2 Nesse aspecto, podemos também entender que o além do homem nietzschiano não se trata de um “fazer o que queres”, mas sim de liberdade para criar valores e aceitar as consequências deles. Quem supera a decadência da moral, seria capaz da criação de valores e, por isso, valores fortes e afirmativos.

3 “Aniquilar as paixões e os desejos apenas para evitar sua estupizes e as desagradáveis consequências de sua estupidez, isso nos parece, hoje, apenas uma forma ajuda de estupidez” (NIETZSCHE, 2010, p.33, grio do autor).

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XVIII Simpósio de Filosofia Moderna e Contemporânea da UNIOESTE

Referências Bibliográficas:

AZEREDO, V. D. Nietzsche e a autora de uma nova ética. Ijuí: Uniju, 2008. NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. _____________. Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. _____________. O Nascimento da Tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. VERNANT, J.P. Mito e Religião na Grécia Antiga. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

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