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Sobre História, PT, Carta e Travessia

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Sobre História, PT, Carta e

Travessia

Fábio José de Queiroz

É chegada a hora de tirar a camisa suja, é chegada a hora de vestir a roupa limpa (LÊNIN).

Esta carta pode ter sido escrita para ser lida em 1992, quando para se preservar fiel a ordem e ao calendário eleitoral, o PT começa a expulsar as correntes hostis a sua integração ao regime político, como a Convergência Socialista, embora muito poucos tenham se dado conta disso.

Para respeitar o senso de historicidade, os primeiros sinais mais visíveis dessa integração são pressentidos com a conquista de prefeituras estratégicas, em 1988, e com o 1• congresso do partido, que ocorre em 1991, no qual o PT se alinha com as teses da socialdemocracia. Sob muitos aspectos, o Partido dos Trabalhadores se adequa aos propósitos de ampliação da sua base parlamentar, e, desse ângulo, a aparente fruição desinteressada cede o seu posto ao interesse vil. A adesão posterior da direção petista ao Fora Collor leva os mais crédulos a imaginar que nem tudo está perdido, e, isso posto, o PT tende a grifar a sua sigla, no imaginário dos trabalhadores e dos pobres do país, como uma legenda quase imperecível. A sua ligação com as lutas sociais dos anos 1980 parece situá-lo na iminência de uma condição de semi-eternidade no coração das massas.

Esta carta, no entanto, pode ter sido redigida para ser lida em 1994, ou 1998, quando o PT faz sérias concessões às classes dominantes com o intuito de conduzir Lula à presidência, mas

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as derrotas deixam um odor no ar que, contraditoriamente, reforçam as esperanças e promessas de uma primavera que insiste em não vir. Até que, depois da terceira derrota consecutiva, finalmente, Lula da Silva é eleito, junto com José Alencar, peso pesado do empresariado brasileiro. Embora faça concessões à classe trabalhadora e aos pobres, Lula faz também a reforma da previdência, governa para banqueiros e rentistas e assiste o seu partido se dividir. Da sua costela, nasce o PSOL. Nasce a Marina. Estoura o que a mídia cristaliza como o escândalo do mensalão. Mas, para milhões de trabalhadores, marcados na alma pelo trágico período em que o país esteve nas mãos de FHC, o pior é a volta do PSDB. Nessas condições, para o mais cauteloso e envergonhado dos petistas, o lugar de uma carta, de conteúdo crítico ou de ruptura com o Partido dos Trabalhadores, é na gaveta, de preferência sem chave, ou num cofre cuja combinação seja quase indevassável, para que ninguém tome conhecimento do seu conteúdo.

Fazer a leitura de uma carta, com esse espírito rupturista, nos primeiros anos da Dilma, nem imaginar! Ninguém tem tempo para tais luxos. Ela mantém e aprofunda as concessões começadas com Lula da Silva. A euforia levanta a popularidade da presidente a um ponto inimaginável. A ideia de que Dilma não é Lula se pulveriza nas sondagens de opinião pública. É como se ela fosse ele; é como se ele fosse ela. Crise? Que crise? Lula ensina o caminho de como domá-la, e Dilma segue o receituário.

Mas a crise que, na mitologia petista, sempre falta ao encontro, finalmente veio. O remate do primeiro mandato da Dilma e o começo do segundo é de crise completa. Há uma crise nacional. O governo está na corda bamba, mas se submete ao c a p i t a l f i n a n c e i r o e a t a c a v i g o r o s a m e n t e a c l a s s e trabalhadora. Retira-lhe os direitos como quem faz trilha em um final de semana de lazer. Muitos ainda, por mais incrível que pareça, insistem que é necessário salvar o governo e defender o PT. No dia 20 de agosto, quantos milhares deles não

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foram às ruas?

Diante do exposto, e alguns decênios depois, já não é hora de se conversar? De tirar as lições? De trocar a roupa velha por uma nova? De acertar as contas com a história? De, afinal, abrir a tão temida carta?

Esta carta é não só dirigida a esses que estavam nas ruas no dia 20 de agosto. Ela é direcionada aos milhões que estão calados, desconfiados, mas não se propõem nem a defender o governo nas ruas nem a apeá-lo do seu posto. Parte desses silenciosos – petistas, ex-petistas, quase petistas etc. – com efeito, imagina que Lula pode voltar e tudo será diferente. Essa carta é para dizer que não será diferente. O revés do PT se consuma no ato da venda da sua alma a banqueiros e empreiteiros. Desse modo, o fracasso do PT é que ele, ao convencer milhões de trabalhadores a acreditar que a sua vida iria melhorar quando juntassem as suas forças com a do empresariado, empurra a classe que vive da venda da sua força de trabalho, não somente ao precipício do mundo social, mas vende a essa classe as ilusões – políticas e ideológicas – mais despudoradas. Os governos petistas são a síntese dessa unidade de trabalhadores com empresários. Essa unidade de duas classes antagonistas só pode resultar no reforço das posições da classe economicamente mais poderosa. Quase 15 anos do PT no governo e o empresariado está mais forte. Os ricos estão mais ricos e os mais ricos estão milionários. Em contrapartida, o trabalhador está perdendo o seu emprego, e, endividado, olha sem esperança para os dias, meses e anos que se aproximam. Esse é o verdadeiro sentido do malogro do projeto petista. É contra esse projeto – o qual sacrifica a independência de classe no altar da burguesia – que os trabalhadores devem reclamar uma alternativa de esquerda e socialista, que, evidentemente, não se confunda com a direita e sua política retrógrada, mas que não se curvem aos banqueiros, ao imperialismo e o seu receituário neoliberal.

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mentalidade do trabalhador, que preso ao jogo de crença e descrença, não cessa de se perguntar: por que o PT alça essa rua das ilusões perdidas? Essa indagação acompanha as noites mal dormidas de muitos que juntaram os seus melhores sonhos ao partido que jura representá-los. Nessa altura, para evitar o risco das simplificações vulgares, é o momento de refletir, ainda que brevemente, sobre a trajetória do partido de Lula e José Dirceu.

O PT é um produto muito particular de uma situação histórica particular: o ascenso de massas que assinala os últimos anos da década de 1970 e a maior parte dos anos 1980. Apesar das reservas indispensáveis, esse partido consegue canalizar os sonhos de mudanças de milhões de trabalhadores, mulheres, jovens e intelectuais, e isso a história não tem por que apagar. A sua transitória vigência, como justaposição de uma série de projetos de mudança de certos setores da sociedade brasileira (que defrontam o velho e almejam construir o novo), perdura até o momento em que o partido começa a se adaptar ao regime político que nasce da derrota da ditadura. Neste caso, o PT adere aos valores da democracia burguesa antes mesmo desses valores se consolidarem na vida política do país. Isso não é por acaso. Ao que tudo indica, embora a propensão seja essa, desde a sua origem, o fato é que a integração não se efetua de um só golpe e se funda, objetivamente, nas diferentes fases de aproximação e entrada do partido na máquina do Estado (parlamento, prefeituras, governos estaduais e, por fim, o governo federal). Uma vez mais, Lênin está correto: fora do poder, tudo é ilusão. Ao chegar ao poder, cada qual se revela em sua mais profunda e gritante anatomia, embora as ilusões das massas trabalhadoras não se resolvam teoricamente, salvo como experiência concreta que, em sua dinâmica, gera variações na consciência prática da classe, que não corresponde a uma linha reta, mas percorre um caminho de idas e voltas, sinuoso, definitivamente curvo, dramaticamente histórico.

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Nestas condições, os nexos que atam o partido à consciência média da classe trabalhadora não constituem meros preceitos retóricos. Em consequência, a representação transfigurada dos interesses da classe operária e dos estratos médios assalariados prima como elemento característico meridiano da identidade petista. A esse propósito, no entanto, é importante destacar: quando se observa, como suposto, que não há d i s t i n ç ã o p r o p r i a m e n t e e n t r e o p a r t i d o e o s s e u s representados, eis que se revela o despenhadeiro da profunda separação do PT e da sua política de conciliação de classe com relação aos trabalhadores. Esse corte brutal é o traço mais marcante de uma etapa da vida política brasileira que começa com as manifestações de junho de 2013, se aprofunda com a crise nacional em curso e encontra o seu ponto alto no deslocamento brutal de massas no sentido da oposição indignada e sistemática ao governo petista.

Certamente, não me dirijo aos que trocaram a fruição desinteressada pelo interesse vil de uma função privilegiada na máquina do Estado, pela qual são capazes de defender economizar 90 bilhões de reais, retirados do PIS de 12 milhões de trabalhadores, com o escopo de favorecer meia dúzia de banqueiros. Dirijo este artigo-missiva aos milhões de anônimos da história que sofrem com os pecados da agremiação partidária na qual depositaram toda a sua mais vermelha esperança. Por questões práticas imediatas, sequer me apoio diretamente em Marx para estabelecer esse diálogo (depois lhes falarei de Marx). O fato é que, há praticamente 30 anos, os seus dirigentes lhes ensinam que a conciliação de classes, e não a luta de classes, é o que pode lhes conduzir a tempos melhores, mas uma densa análise teórica da situação concreta, no entanto, mostra que classe trabalhadora vive tempos sombrios. Nos marcos de ferro da realidade, o que se repara é o desenvolvimento da catástrofe social e, junto disso, a necessidade de que os desprovidos de propriedade, privilégios e fortuna deem início a uma nova travessia que os conduzam para a margem oposta desse severo terreno de crise e aflição.

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A esse respeito, peço que reflitam sobre o que escreve uma pessoa não diretamente ligada ao campo político: Fernando Teixeira de Andrade. Reflitam com ele, a articulação de passado, presente e futuro.

Para Andrade,

Há tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. (S/D, S/P)[1]

Esse é um problema que afeta ativistas que, mesmo depois de tanto tempo e de intensas metamorfoses sofridas pelo PT, não conseguem se desvencilhar das roupas usadas e não se sentem capazes de esquecer os caminhos que os levam sempre aos mesmos lugares. Esquecem eles que é o tempo da travessia, de ousar, de ultrapassar a margem para o outro lado do rio. Assim, pelo motivo básico de que não se ergue o horizonte de uma alternativa, que faça com que a classe trabalhadora saia dessa maré, essa tenazmente prossegue como expressão cabal da falsa encruzilhada que, malgrado as mediações, lhe é oferecida tanto pelo PT como pelo PSDB. Como bem o disse Lênin, “Isto passa a ser um problema prático das massas, e não simplesmente uma teoria dos dirigentes”. (1987, p. 47)

O fato é que o colar está espatifado em centenas de pedaços. Já não é possível recuperá-lo. O pescoço está limpo. Ainda que sem os adornos do colar, é possível vencer. Como bem resumem dois mestres do pensamento socialista, “nos conflitos sangrentos que se avizinham, como em todos os anteriores, serão principalmente os trabalhadores que, por sua coragem, sua determinação e abnegação, terão de conquistar a vitória (MARX; ENGELS, 2010, p. 66). Assim, em meio a essa comoção e as possibilidades que elas nos oferece, falta discutir a fundo a necessidade de uma viagem de retorno ao futuro que nunca

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veio. “É o tempo da travessia”.

REFERÊNCIAS:

LENIN, V.I. Teses de abril, São Paulo: Editora Acadêmica, 1987.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Mensagem do comitê central à liga dos comunistas, in: Luta de classes na Alemanha, São Paulo: Boitempo, 2010.

ANDRADE, Fernando Teixeira de. Tempo de travessia, in:

https://poetrysfeelings.wordpress.com (acesso em 14/09/2015).

[1] Essa breve e instigante reflexão é atribuída erroneamente a outro Pessoa, mais precisamente, ao genial poeta português Fernando Pessoa. Na realidade, é um texto, disponível na internet, elaborado por um professor de literatura, já falecido, e que era muito renomado entre estudantes paulistas de cursinho pré-vestibular. No caso, trata-se de Fernando Teixeira de Andrade (1946-2008).

Capitalismo e racismo no

Brasil

Pablo Biondi

Nosso objetivo com o presente artigo é aprofundar o debate sobre a relação entre capitalismo e racismo numa perspectiva de materialismo histórico-dialético. Na esteira da produção teórica já existente, queremos pensar em novos passos a serem

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dados no estudo do vínculo entre capitalismo e racismo, explorando categorias que, a nosso ver, permanecem sub-utilizadas. Esperamos, assim, apontar para caminhos promissores do ponto de vista da elaboração e da compreensão sobre o tema, e queremos fazê-lo pensando a formação social b r a s i l e i r a , i s t o é , c o n t e m p l a n d o a l g u m a s d a s s u a s peculiaridades históricas.

O problema das opressões

O marxismo deve investigar com mais afinco o problema das opressões, compreendendo a opressão como uma categoria social específica, distinta da exploração e da dominação. Com efeito, o fenômeno de que tratamos não se confunde nem com a apropriação do excedente econômico sob a forma de mais-valia e nem com a subjugação política organizada pelo Estado. Não temos condições aqui de ir mais a fundo na questão; porém, o exame do racismo exige que trabalhemos com uma definição provisória de opressão.

Podemos identificar a opressão como um fenômeno com duas faces: uma delas é o agravamento da exploração e da dominação contra setores específicos do proletariado – e nisto ela consiste num recorte de raça, gênero ou identidade de gênero no interior dos expedientes de exploração e dominação. A outra face é a manifestação cultural da opressão nos costumes, na estética, no recinto familiar e por outras formas do modo de vida – numa dimensão que se combina com a primeira, mas que também atinge, ainda que de modo mais suave, outras classes além do proletariado.

Percebendo estas duas faces, encontramos as balizas para o debate sobre as opressões e nos deparamos com a sua amplitude, quer dizer, com o fato de que a opressão é algo que vai muito além da fenomenologia da consciência. Com o racismo, não é diferente.

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O racismo como realidade transversal

Uma prática comum na reflexão marxista acerca das opressões é tentar situá-las em certo “nível” da realidade: na estrutura ou na superestrutura. Comumente, opta-se pela segunda, ou ainda, no universo das consciências. Porém, esta nos parece uma abordagem um pouco empobrecedora. Às vezes, imagina-se que o mundo real está efetivamente cindido em níveis, como se fosse uma edificação. Toma-se a metáfora de Marx ao pé da letra, e isto é um erro. Marx não pretendeu que as instâncias da vida estivessem encerradas em instâncias separadas, apenas procurou identificar o sentido mais geral das determinações históricas dentro de uma totalidade, atribuindo proeminência ao modo como se produz a vida material.

Nunca é demais enfatizar a importância da categoria da totalidade no marxismo, e ela será bastante útil para compreendermos as opressões em geral e o racismo em particular: o racismo, tal como o machismo e a homofobia, não estão adstritos a um “departamento” do mundo real; as opressões, em verdade, perpassam toda a sociedade, e nos mais diversos aspectos. Há que se falar, portanto, numa transversalidade da opressão racial.

Tomemos o racismo no Brasil. Ele se manifesta em todas as esferas da vida: na economia, ele aparece na menor participação da população negra na renda nacional e na fruição dos direitos sociais (emprego, educação, saúde, moradia etc.); na política, ele está presente no índice maior de violência policial contra negros e no recorte racial presente na ideologia disciplinadora do trabalho assalariado, muito presente no debate sobre a redução da maioridade penal; na cultura, ele está arraigado nos estereótipos racistas, na depreciação estética das feições africanas, no desprezo pelos cultos de origem africana etc.

Assim sendo, não faz sentido tentar encaixar o racismo em um único aspecto da existência social. Nós o encontraremos na

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estrutura econômica, na arena jurídico-política e nas formas de consciência. A questão que se coloca é como vislumbrá-lo nos marcos do modo de produção dominante, ou seja, como entender sua conexão com as formações sociais capitalistas. O racismo é uma forma histórica que, apesar de impregnar todos os aspectos da sociedade burguesa, atrela-se a determinações do modo de produção capitalista, estando consagrado como um elemento da vida material. Na história do Brasil, isto adquire proporções vultosas, como veremos a seguir.

O racismo como realidade material e concreta no capitalismo brasileiro

O senso comum progressista flerta com uma leitura idealista do mundo ao imaginar que o racismo se resume a uma praga a ser extirpada da cabeça das pessoas. Ignora aquilo que o marxismo já desvendou há muito tempo: que as formas de consciência não têm vida própria, que elas manifestam as forças vivas da materialidade. A conclusão, para uma crítica marxista do racismo, é evidente: não são as ideias racistas que fundam a opressão racial; ao contrário, é a opressão racial operante na vida material que formula ideias racistas, que produz uma consciência em maior ou menor medida condizente com as desigualdades e violências que caracterizam a situação do negro.

Está claro, pois, que o racismo é mais do que uma ideologia, embora ele o seja também – e veremos em breve as implicações desta definição. Por ora, enfatizaremos o racismo enquanto uma realidade material, o que nos coloca, imediatamente, o problema da sua ligação com o capitalismo. Isto exige uma análise que combine o plano lógico-categorial com o plano histórico, e que ajudará na interpretação sobre a origem do racismo.

O capitalismo é um modo de produção baseado na transformação da força de trabalho numa mercadoria, no consumo produtivo

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desta mercadoria para a realização da mais-valia e na reprodução perpétua deste movimento, de modo a se perfazer a acumulação de capital. Tal modo de produção foi historicamente formado na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII, tendo se expandido daquele país para o resto do mundo numa velocidade feroz. E tanto do ponto de vista histórico quanto do ponto de vista lógico, a produção capitalista pressupõe a concentração de dinheiro e meios de produção nas mãos da classe capitalista, de um lado, e a despossessão dos meios de produção por parte dos trabalhadores, de outro. No capitalismo, a classe explorada só pode ser o proletariado, portador da força de trabalho como artigo de comércio. A relação de capital pressupõe o proletário e afasta a figura do escravo, que é objeto das trocas, e não um participante do mercado de trabalho.

Como se sabe, a escravidão é indispensável para se entender a origem do racismo no Brasil[1]. Mas é preciso amadurecer o entendimento sobre o elo histórico entre a escravidão e o capitalismo, bem como sobre os meios de perpetuação da opressão racial. Uma vez que o capital, por definição, afasta a escravidão, tem-se que este método de exploração de mão de obra só pode fazer parte de uma era pré-capitalista, ou ainda, de um período histórico de transição, mas que de modo algum é identificável com o capitalismo. Não há modo de produção capitalista sem a relação capital-trabalho, sem a extorsão de mais-valia.

Neste sentido, Marx localiza a escravidão como um expediente de acumulação primitiva, como um antecedente histórico que ajudou a criar as condições necessárias ao desenvolvimento do capitalismo, concentrando riquezas num polo e preparando a proletarização de outro polo. A transformação da África num campo de caça de mão de obra escrava, diz Marx em O capital, foi um dos requisitos para a posterior acumulação capitalista. Por conta da escravidão, abateu-se a máxima opressão contra o negro, que era efetivamente tratado como uma coisa ou como um

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animal. Concebido como uma comunidade de bestas de carga, o povo negro foi socialmente rebaixado a uma posição sub-humana, sendo que, a partir desta situação material, foram elaboradas as justificativas teológicas em favor da escravidão. Em paralelo, o imaginário popular assimilou, à sua maneira, o aviltamento dos escravos nos traços culturais que remetem ao racismo. É uma forma de fetichismo: assim como se imagina que determinados meios de produção seriam capital por si mesmos, independentemente das relações sociais em que se inserem, forjou-se uma noção de que o negro teria uma vocação para posições inferiores, próprias de escravos. Daí a brutalidade do racismo, pois os escravos são, desde a antiguidade, considerados como instrumentos falantes, ou como bens semoventes, analogamente aos animais. Não à toa, a herança escravista associou as características físicas e culturais dos povos negros à bestialidade.

Enquanto perdurou a escravidão – e isto é de extrema importância –, o Brasil foi uma formação social pré-capitalista, ainda que integrado a um mercado mundial capitalista centrado na Inglaterra. Ao longo dos séculos XVI a XVIII e na maior parte do século XIX, o Brasil serviu como uma plataforma de acumulação primitiva, como fator externo de impulsão do desenvolvimento capitalista na Europa, ainda que sob a mediação atrasada e mercantilista de Portugal.

Cabe aqui um relevante parêntese. Afirmar que o Brasil não foi capitalista na época colonial não implica, de modo algum, que tenha sido feudal, como pretenderam os stalinistas do antigo PCB. A tese de um modo de produção escravista colonial subordinado ao modo de produção capitalista na Europa, e que foi proposta por Jacob Gorender (1978), nos parece bastante acertada. O próprio Caio Prado Junior (2006) contesta a ideia de um capitalismo no período colonial brasileiro, já que, sob o regime da escravatura, não se desenvolve a produção autenticamente capitalista. No mais, deve-se ressaltar que a noção de um “capitalismo comercial” não é propriamente

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marxista, mas sim braudeliana, e que Marx, no livro III de O

capital, expressamente rejeitou a possibilidade de um modo de

produção capitalista baseado no comércio e desprovido do ciclo industrial capitalista. O capital comercial e o capital usurário, para Marx, são meras formas “antediluvianas” do capital, estando aquém, portanto, da sociedade burguesa. Na mencionada obra, lê-se que “o capital mercantil – e o comércio – é mais antigo que o modo capitalista de produção”, e que “é, na realidade, do ponto de vista histórico, o modo independente de existência mais antigo do capital” (p. 435). De chofre se percebe a impossibilidade teórica de se igualar capital e capitalismo (enquanto modo de produção).

Marx explica que o capital mercantil apenas agencia o movimento do dinheiro e da mercadoria, mas o faz sem guardar relação com o modo de produção. Enriquecendo por meio do lucro comercial, pela venda da mercadoria acima do seu preço original, o capital mercantil da Antiguidade, da Idade Média e mesmo da Renascença lidava com produtos provenientes de formas de produção completamente distintas. Restringindo-se à circulação, não alterava a forma social pela qual os bens com os quais lidava eram produzidos. No capitalismo, ao contrário, a circulação não só está imediatamente conectada à produção como se subordina a ela. A hipertrofia do capital no comércio em detrimento da produção, assim, é fator que afasta a caracterização de um modo capitalista de produção[2]. Marx (2008, p. 439) o prova com o exemplo das cidades-estados italianas e das nações comerciais como a Holanda, afirmando que “a lei segundo a qual o desenvolvimento do capital mercantil está na razão inversa do grau de desenvolvimento da produção capitalista patenteia-se melhor na história do tráfico praticado pelos venezianos, genoveses, holandeses etc.”. O lucro vinha menos da produção local e mais da intermediação pelo comércio, de sorte que “o capital mercantil aparece aí puro, separado dos extremos, os ramos de produção que enlaça”.

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Neste sentido, pode-se dizer que o capital comercial que operava no Brasil colônia apenas intermediava uma forma pré-capitalista de produção (escravista) na sua relação com a metrópole e, de modo indireto, com o incipiente mercado mundial. A produção capitalista propriamente dita logrou amadurecer em terras brasileiras, assim, somente com o fim da escravidão. Foi o momento de formação de um proletariado brasileiro. No entanto, a nascente indústria capitalista brasileira abasteceu-se não com os escravos libertos, e sim com força de trabalho de origem européia, tanto de proletários vindos da Europa como de colonos já estabelecidos que foram proletarizados. Os negros libertos foram alijados da inclusão produtiva no século XIX e assim permaneceram até os anos 1930, tendo uma participação acessória e intermitente no processo produtivo; eram encarados como vadios e inaptos para o trabalho, conforme relata a obra Trabalho e vadiagem, de Lucio Kowarick (1994).

Percebe-se, então, que a derrocada da produção escravista tornou os negros “livres”, mas livres em sentido capitalista, ou seja, desembaraçados de constrições pré-capitalistas e disponíveis para participar do mercado na qualidade de vendedores de força de trabalho. Contudo, o exercício desta liberdade mercantil deu-se tardiamente para o proletariado negro, que passou décadas ocupando a posição de um enorme exército industrial de reserva.

A cultura de desprezo forjada contra o negro no curso de séculos de escravidão colaborou imensamente para esta exclusão do mercado de trabalho. Para as classes dominantes brasileiras, o negro era apto apenas para o trabalho escravo, e não para o trabalho assalariado. A moderna produção capitalista exige um proletariado disciplinado para obrar nas fileiras da indústria, e a burguesia nacional esperava este perfil dos trabalhadores estrangeiros – ao que se somava, é claro, o projeto nacional de branqueamento[3] da população, e que representava a importação para o Brasil do pensamento

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racista e pseudocientífico europeu do século XIX.

Seja como for, a população negra foi, por força deste processo, sedimentada como a camada mais pauperizada do proletariado brasileiro. A indústria capitalista brasileira foi extremamente avarenta na contratação de negros, empurrando-os para as margens da produção industrial: o trabalho doméstico, os serviços no campo e as bases das forças armadas, onde se reproduzia a lógica do trabalho compulsório e das penas corporais. Foi somente depois das grandes greves operárias de 1917 e dos primeiros êxitos da organização operária no país que a burguesia brasileira recorreu às camadas negras do proletariado, buscando nelas uma alternativa mais barata e com menos tradição de luta sindical.

A conclusão que se tira do percurso que fizemos é a seguinte: o racismo, enquanto produto direto da escravidão, antecede o modo de produção capitalista, mas ao mesmo tempo está inserido na sua gênese dentro do território brasileiro. Na sua formação, o capitalismo pátrio construiu um proletariado já atravessado por um contraste racial, constituindo os trabalhadores negros nos estratos mais baixos do conjunto do proletariado. Resta saber, na perspectiva da vida material, como se dá a continuidade da discriminação racial na dinâmica do capitalismo.

O racismo enraizado no modo de vida

O capitalismo se fez introduzir na história sob a bandeira do liberalismo. As revoluções burguesas invocaram a igualdade de todos os cidadãos perante a lei, e assim foi feito nas constituições liberais e nos códigos civis. Esta igualdade formal corresponde à equivalência do mercado, onde todos os portadores de mercadoria são abstraídos como sujeitos de direito. Num contrato entre pessoas juridicamente iguais, o trabalhador vende sua força de trabalho ao capitalista, que se apropria do excedente de valor criado por ela. A exploração

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capitalista exige e afirma a igualdade jurídica universal.

Não obstante, o direito burguês emergente conviveu por muito tempo com formas econômicas pré-capitalistas. A constituição liberal brasileira de 1824 cinicamente privava os negros da cidadania, já que os tomava como coisas ou animais, e não como pessoas em sentido jurídico. Mesmo nos EUA, país onde a produção capitalista dava passos de gigante, a Suprema Corte delimitava expressamente a desigualdade formal entre os indivíduos, chancelando a escravatura. Com o término desta, era de se esperar que a contradição entre a igualdade formal e a desigualdade material no plano das raças desaparecesse, mas não foi o que ocorreu. Negros e brancos foram submetidos a um mesmo sistema de exploração, mas a sociedade burguesa mostrou-se ainda mais atroz contra o proletariado negro do que contra o proletariado branco, e isto nas mais variadas dimensões da vida social.

O capitalismo brasileiro nasceu racista, é dizer, a clivagem racial está no seu “DNA” de certo modo: não na forma, onde impera a silhueta abstrata do sujeito de direito, mas no seu conteúdo histórico-concreto, muito embora a própria forma jurídica, não raro, curve-se ao conteúdo iníquo que ela abriga, promovendo medidas discriminatórias na aplicação da lei. De qualquer maneira, destaca-se a circunstância de que o capitalismo eliminou a produção escravista sem destruir o racismo, o qual havia sido estabelecido pelo regime econômico anterior. Como interpretar esta contradição?

Uma parte da resposta está no próprio regime de exploração. Detentor de uma força de trabalho depreciada, o proletariado negro fornece uma quantidade maior de mais-valia ao patronato na medida em que recebe salários inferiores. No mais, o racismo enfraquece a unidade da classe trabalhadora, prejudicando a sua organização e o seu moral para a luta. A exploração se abate sobre o negro de maneira mais atroz. Inclusive, constata-se que o precariado contemporâneo, majoritariamente negro, é o descendente histórico direto da

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camada negra tardiamente proletarizada, ou seja, é um exército de reserva reciclado pelo instrumental contemporâneo do neoliberalismo e da acumulação flexível. Há, então, um nexo de “conveniência” entre capitalismo e racismo. Todavia, opinamos que a percepção desta conveniência não esgota a análise do fenômeno, pois falta um estudo sobre o método pelo qual se transmitiu a opressão racial de um modo de produção a outro. E este método, sustentamos, é o modo de vida, um conceito usado por Trotsky e que oferece horizontes muito ricos de debate no tocante às opressões[4].

Trotsky (1979) concebia o modo de vida como o peso do passado nas tradições, nos hábitos, na linguagem, enfim, nas práticas da vida cotidiana. Na Rússia pós-revolucionária, ainda eram muito presentes os traços culturais do período pré-capitalista (entendo-se a cultura não como conjunto de pensamentos, de imagens cerebrinas, mas de práticas materiais), cabendo aos bolcheviques o papel de remar contra o atraso cultural do país. A grosseria nas atitudes, a linguagem vulgar, a falta de asseio, tudo isto, para Trotsky, era uma herança feudal ou semifeudal que o capitalismo russo havia deixado praticamente intocada.

Ora, a experiência histórica ensina que a Rússia não foi uma exceção. O capitalismo primeiro se ocupou de revolucionar o modo de produção nas sociedades para as quais se estendeu, aniquilando os entraves pré-capitalistas e reformulando a estrutura produtiva – inicialmente pela subsunção formal do trabalho ao capital, como nas manufaturas, e posteriormente com a subsunção real do trabalho ao capital, cujo principal expoente é a grande indústria. Nela, para Marx, está a chave do modo de produção especificamente capitalista. E apenas muito depois de tomar conta do aparato produtivo, enfim, foram verificados os primeiros impactos do capitalismo no modo de vida. O principal exemplo dado por Marx é o da erosão da família patriarcal tradicional a partir da proletarização da mulher – ainda que, como sabemos hoje, a obra de dissolução do

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patriarcado permaneça inconclusa.

E o que é a família senão um núcleo de tradições, hábitos, crenças, enfim, um ponto de apoio fundamental para a reprodução do modo de vida? Há outros, por óbvio, mas a família ocupa um espaço privilegiado, e Trotsky bem o colocou. No que tange o racismo, é de se notar que a organização familiar brasileira traz em si, no seu histórico, toda uma carga de reposição da opressão racial, principalmente no âmbito do trabalho doméstico – que é quase uma forma transicional, no Brasil, entre a escravatura e a condição proletária.

Chegamos, assim, à nossa proposta teórica: o modo de vida escravista foi assimilado pelo capitalismo, tal como ocorreu em todas as sucessões históricas, em todas as passagens de um modo de produção para outro, e foi um dos últimos elementos a ser modificado pela ordem burguesa, conservando, inclusive, grande parte do seu teor racista original. E da mesma forma que na Rússia pós-revolucionária de Trotsky, somente uma revolução socialista pode combater conscientemente os refugos reacionários da história, resolvendo as pendências civilizatórias que a burguesia deixou pelo caminho em sua travessia.

Entretanto, cumpre observar que o capitalismo produz também o seu próprio modo de vida, ele não se limita a tão somente desgastar os modos de vida arcaicos. Os novos costumes e práticas do cotidiano são caudatários do modo capitalista de produção, e eles se fundem com os antigos naquilo que não é de todo inconciliável, num processo mediado pelas formas ideológicas da sociedade burguesa.

O racismo como ideologia

O racismo existe igualmente como realidade ideológica, como um corolário ideológico necessário de relações sociais marcadas pela opressão racial. Isto, porém, exige o exame da ideologia

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na sua conceituação rigorosa, para muito além da vagueza contida na fórmula da “falsa consciência”.

Muito mais do que uma mentira bem contada, uma ideologia é uma forma de consciência oriunda, em última instância, do modo de produção existente, e que opera por meio de uma inversão do real, projetando uma aparência para ocultar uma essência. Em A

ideologia alemã, Marx e Engels (2007) indicaram a existência

de um mecanismo de inversão da realidade por meio da ideologia, como numa câmara escura, e que se deve ao próprio processo histórico de vida material.

Em seu funcionamento, a ideologia racista traduz a vida material de modo reverso, de ponta-cabeça: o que é histórico aparece como natural, o que rebaixa aparece como prestígio, o que segrega aparece como inclusão: é assim que se atribui ao negro uma predisposição a trabalhos manuais penosos; é assim que a “mulata”, em sua coisificação no carnaval, é celebrada como musa; é assim que a incorporação do negro nos porões da sociedade soa como democracia racial.

Há que se insistir no uso exato do termo ideologia. Ao representar o real de maneira invertida, a ideologia faz com que o desfecho de um processo histórico apareça como uma condição a priori. O negro já aviltado e degradado, produto de relações históricas, é formulado como o negro em si mesmo, em sua essência. Os indicadores sociais desfavoráveis aos negros aparecem como atestado de sua inferioridade, e não como a expressão de uma sociedade que os oprime, que os mutila em suas possibilidades. As mediações sociais se perdem, e o imaginário popular é envolvido pelas amarras ideológicas do que está imediatamente posto, do que está dado. Decorrem daí as representações distorcidas nos estereótipos que caracterizam (e oprimem) a negritude.

A síntese da ideologia racista no Brasil, com efeito, é o mito da democracia racial, como bem aponta o movimento negro em geral. Este mito, em nosso entendimento, deve ser visto como

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um complemento à ideologia liberal da cidadania, na medida em que preenche o vazio do homem jurídico abstrato com um colorido racial e identitário. Num país atravessado por uma cisão racial tão violenta como o Brasil, e onde os negros são a maioria da população, a ideia de uma democracia das raças é uma maneira de reforçar a negação do racismo contida na igualdade entre os cidadãos. Na formação social capitalista brasileira, o indivíduo é tido como cidadão (nem burguês, nem proletário) no plano jurídico-político e como “pessoa miscigenada” no plano cultural, como se as raças houvessem sido ultrapassadas na experiência brasileira, como se todas elas desaparecessem (e com elas o racismo) num único caldo de cultura nacional, próprio do Brasil. É uma expressão culturalista e ideologicamente racista (inversão da realidade) da igualdade formal apregoada pelo capitalismo, e com o requinte de estar adaptada a uma concretude nacional determinada.

Portanto, a ideologia da democracia racial espelha, finalmente, o modo de vida capitalista e sua maneira de contemplar o negro a partir da igualdade burguesa, uma igualdade que se dá a serviço da desigualdade real. Ela convive com as reminiscências escravistas e, de fato, não se propõe a eliminá-las de modo consequente. A unidade da ideologia racista combina a democracia racial com as excrescências do escravismo, correspondendo à concretude de uma formação social que, apesar de capitalista, carrega consigo, inevitavelmente, as cicatrizes da escravatura. Essa unidade consiste no sistema de representações completo na sociedade brasileira, no reconhecimento da insuficiência do nosso liberalismo de senzala (“ideias fora do lugar”, como diria Roberto Schwarz) e na sua sofisticação com a captura de imagem do negro enquanto cidadão. Seu efeito prático mais relevante é desarmar a camada negra do proletariado enquanto raça e também enquanto classe, tudo em nome de uma cidadania brasileira supostamente multicultural, multiétnica, em que a identidade nacional teria recepcionado, benevolamente, a

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contribuição da negritude.

Por último, cabe salientar que a ideologia racista pode ser disseminada por aparatos organizados (organizações racistas, imprensa, igrejas etc.) ou pela própria espontaneidade do modo de vida, pela soma espontânea das experiências individuais desorganizadas. Neste último caso, a sutileza é maior, e o racismo penetra sorrateiramente na vida das pessoas, inclusive de modo inconsciente. É o típico caso das mães que ensinam suas filhas de cabelo crespo que seu cabelo é “ruim”: o predomínio racista da estética branca e a depreciação da fisionomia negra, desde os tempos da escravidão, impõem-se no inconsciente, o que só demonstra a necessidade de uma colossal reconstrução socialista da sociedade e a urgência das tarefas da revolução negra.

Conclusão

Apresentamos aqui algumas reflexões que, longe de pretender revolucionar o estudo das relações entre capitalismo e racismo, apenas sugerem alguns horizontes que podem render bons frutos teóricos, e que oferecem possíveis complementos aos esforços de elaboração já existentes no marxismo. Conceitos como o de modo de vida e de ideologia, se bem examinados podem auxiliar na compreensão do racismo em particular e mesmo das opressões de modo geral. Mas tudo depende, por certo, de um amadurecimento desta via proposta.

Referências bibliográficas:

FERNANDES, F. O negro no mundo dos brancos. São Paulo: Difusão Europeia, 1972.

GORENDER, J. O escravismo colonial. São Paulo: Ática, 1978. IANNI, O. Raça e classes sociais no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987.

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KOWARICK, L. Trabalho e vadiagem: a origem do trabalho livre no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.

MARX, K. O capital: crítica da economia política: l. III, v. V. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas. Tradução de Rubens Enderle, Nélio Schneider e Luciano Cavini Martorano. São Paulo: Boitempo, 2007.

MOURA, C. Sociologia do Negro Brasileiro. Ática: São Paulo, 1988

PRADO JR., C. História econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense, 2006.

TROTSKY, L. Questões do modo de vida: a época do “militantismo cultural” e as suas tarefas. Tradução de A. Castro. Lisboa: Antídoto, 1979.

[1] Algumas obras clássicas que estudam o tema: Sociologia do

negro brasileiro, de C. Moura (1988); Raça e classes sociais no Brasil, de O. Ianni (1987); O negro no mundo dos brancos,

de F. Fernandes (1972).

[2] “O desenvolvimento autônomo e preponderante do capital como capital comercial significa que a produção não se subordina ao capital, que o capital, portanto, se desenvolve na base de uma forma social de produção a ele estranha e dele independente. O desenvolvimento autônomo do capital mercantil está, portanto, na razão inversa do desenvolvimento econômico geral da sociedade” (MARX, 2008, p. 438).

[3] Tal projeto exprime não somente a mentalidade de uma elite colonial, mas também o temor de uma revolução negra, tal como ocorreu no Haiti.

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[4] Nossa hipótese é a de que o conceito de modo de vida, tal como empregado por Trotsky em Questões do modo de vida, pode permitir um salto de qualidade nos estudos marxistas sobre opressões, aplicando-se de maneira proveitosa, portanto, também para os temas do machismo e da homofobia. Falta-nos aqui, entretanto, o espaço para proceder com tal investigação.

Mais um grave golpe contra os

servidores

Jorge Luiz Soto Maior

No dia 02 de setembro de 2015, a classe trabalhadora e, em especial, os servidores públicos federais, foram vítimas de mais um golpe, assim denominado não por força de expressão, mas nos estritos limites técnicos do termo, ou seja, a supressão temporária das garantias constitucionais da cidadania e da democracia, o que caracteriza um Estado de exceção.

Verdade que no que se refere à classe trabalhadora vive-se, no Brasil, há décadas, um Estado de exceção permanente[1]. Nem por isso a perversão da ordem torna-se normal. Nem por isso não deva ser denunciada e combatida, ainda mais nas condições graves como este último golpe se deu.

Pois bem, no dia em questão, o líder do Congresso Nacional realizou uma “manobra” para evitar a votação do veto presidencial à lei que, enfim, após longos nove anos, conferia aos servidores públicos federais, um reajuste salarial.

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um procedimento previsto constitucionalmente. Além disso, instaurado o quórum congressual não se pode adiar a votação pura e simplesmente, sem nenhuma justificativa. Mas foi o que aconteceu, sem qualquer fundamento jurídico válido.

O que se alegou, nos bastidores, foi que os congressistas da base aliada do governo temiam pela derrubada do veto, dada como quase certa. Então, para que tal fato não ocorresse fez-se letra morta da Constituição.

O governo sustenta o veto no argumento de que o reajuste inviabiliza as contas do orçamento para o ano seguinte e considera que a derrubada do veto é uma estratégia da oposição para destruir o governo. Foi dito, inclusive, que a suspensão da sessão no Congresso foi necessária para impedir a ação de alguns irresponsáveis que querem “quebrar o país”.

Ora, o reajuste fixado na lei sequer cobre a perda salarial experimentada pelos servidores nos últimos nove anos, período no qual foram submetidos a um autêntico Estado de exceção no que se refere à garantia constitucional à recomposição anual do salário (CF, art. 37, X).

A questão que necessariamente se coloca é: um argumento econômico pode justificar a supressão das garantias constitucionais?

A resposta deve ser, obrigatoriamente, negativa, sob pena de sermos conduzidos a um regime arbitrário, ainda mais pensando que a deficiência orçamentária pode ser evitada com o respeito devido às atribuições estatais de natureza tributária e uma melhor organização da coisa pública no sentido de inviabilizar desvios e gastos desnecessários.

Ocorre que há décadas, desde a introdução no Brasil da racionalidade neoliberal, ainda no governo Collor, o que se vem tentando fazer é destruir as instituições públicas, todas elas, para ceder espaço à iniciativa privada e para abalar a racionalidade social.

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Essa história pode ser visualizada, aliás, por uma linha ascendente, ou descendente, conforme a perspectiva do observador, que transcende o Partido Político no poder.

O marco dessa empreitada neoliberal foi a Lei n. 8.031/90 (Programa Nacional de Desestatização), revogada mais tarde, em 1997, pela Lei n. 9.491, de 09 de setembro.

Em seguida, em 1995, veio a criação do MARE – Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado, que chegou, por obra do então Ministro Bresser Pereira, a formular uma cartilha para o enxugamento da Administração Pública.

Como fruto dessa cartilha adveio a Lei n. 9.637/98, com as alterações introduzidas pela Lei n. 9.648/98, que estabeleceu que a atuação do Estado na saúde, na educação, na cultura, no desporto e lazer, na ciência e tecnologia e no meio ambiente pode se realizar mediante uma gestão compartilhada com o setor privado, por intermédio da formalização, SEM LICITAÇÃO, de “instrumentos de colaboração público/privada”, pelos quais se reserva a participação do Estado nas áreas mencionadas como mera entidade de “fomento”, não apenas com a transferência de recursos financeiros, mas também por meio da cessão de bens públicos e até de servidores públicos, sendo que esses instrumentos, que são, de fato e de direito, convênios, serão feitos com ONGs, alçadas ao “status” (“título jurídico”) de Organização Social por meio de deliberação do próprio ente público.

Também no ano de 1998, como fruto da mesma estratégia, advieram as Emendas Constitucionais ns. 19 e 20 (trazendo restrições de natureza previdenciária), tendo sido complementadas, em 2003, pela EC n. 41.

E, em 2000, a Lei Complementar n. 101/2000 (Lei de Responsabilidade Fiscal), fechou o cerco, obrigando o administrador a promover uma forte contenção dos gastos com pessoal.

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Tudo isso foi acompanhado do recurso, em larga escala, pelos mais variados governos, à terceirização (cujo número de trabalhadores passou de 4 milhões, na década de 90, para 12 milhões, no último ano), cabendo lembrar que a terceirização fragiliza a resistência que os servidores públicos possam fazer à política de destruição de suas garantias, o que se faz, da forma mais óbvia e direta, por meio do rebaixamento salarial.

E quando os servidores públicos resistem, exercendo o direito constitucional de greve, novo Estado de exceção se instaura, para lhes negar, em concreto, tal direito. Neste instante de enfrentamento à greve algumas alianças “estranhas” se congregam em torno de argumentos contraditórios. Parte da grande da grande mídia, que só ataca o governo e reivindica, expressamente, a privatização, vira uma aliada do governo contra os servidores, dando destaque aos prejuízos que a greve provoca à população e invocando o dever da prestação dos serviços essenciais, serviços estes que, no fundo, essa mesma mídia despreza porque está a serviço dos entes privados que querem se valer da fatia de mercado aberta pela construída deficiência do Estado, e que o governo, seguindo a cartilha neoliberal, tem conduzido ao estado pleno da precariedade.

Esses serviços públicos, portanto, só se mantêm por conta do zelo e do profissionalismo dos servidores. Mas, para tanto, p r e c i s a m p a s s a r p o r c i m a d e t o d a s a s d i v e r s i d a d e s caracterizadas pelo rebaixamento salarial, o assédio moral e as péssimas condições de trabalho.

Governo e parte da grande mídia, ademais, pouco se importam com a cotidiana supressão dos direitos dos servidores e dos cidadãos, que tem como pressuposto a negação concreta de investimentos nos serviços públicos, e, então, de repente, diante de uma greve, legitimamente exercida, trazem à tona o argumento do respeito à ordem jurídica, para pleitearem, inclusive, o corte de ponto dos grevistas. Os servidores, assim, estariam condenados a um Estado de exceção com relação

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aos seus direitos e submetidos à força coercitiva e arbitrária desse mesmo Estado, utilizada para a repressão de seus atos de resistência.

Sobre serviços públicos e interesse público, reitere-se o que já foi dito em outro texto:

A greve no serviço público, oportuno dizer, não é apenas um ato político de interesse dos trabalhadores como se possa acreditar. Trata-se de uma ação de interesse de toda a sociedade, mesmo quando seu objetivo imediato seja a reivindicação salarial. Afinal, a prestação adequada e de qualidade de serviços à população, que é um dever do Estado, notadamente quando se trata de direitos sociais, depende da competência e da dedicação dos trabalhadores. Sem um efetivo envolvimento dos trabalhadores o Estado não tem como cumprir as suas obrigações constitucionalmente fixadas.

Não é raro que greves de servidores estejam atreladas à busca de melhores condições de trabalho, dada a precariedade do aparelhamento do Estado, sobretudo nas áreas da educação, da saúde e do transporte. São notórios os casos de escolas públicas sem carteiras, sem material escolar e com precárias condições estruturais. Não são incomuns as irregularidades nas contratações de professores, que se vêem integrados a contratos temporários que perduram por anos. Muitas são as realidades de professores que atuam sem quadro de carreira, recebendo baixíssimos salários etc. No âmbito da saúde também é frequente encontrar hospitais sem condições de atendimento, sem material adequado, com profissionais que tomam para si a responsabilidade de dedicarem a própria vida para satisfazerem a obrigação do Estado. Nas cidades, os transportes são caros, inadequados e insuficientes.[2]

E se há prejuízos pela greve esses não devem ser debitados na conta dos servidores e sim do administrador que, não respeitando a ordem jurídica e descumprindo os direitos dos

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servidores e dos cidadãos, conduz os servidores ao recurso da greve.

Há de se perceber, também, que em paralelo à destruição dos serviços públicos desenvolve-se, sem o mesmo embate da limitação orçamentária, uma política razoavelmente eficiente de remuneração dos juízes, seguindo a receita fixada no Documento n. 319 do Banco Mundial (“O Setor Judiciário na América Latina e no Caribe – Elementos para Reforma” – de 1994), exatamente para que os juízes não se identifiquem com as causas dos servidores (e dos trabalhadores em geral) e possam, assim, corroborar juridicamente a racionalidade neoliberal a serviço dos negócios, sendo que se insere neste contexto de racionalidade administrativa a introdução das estratégias de gestão no Judiciário, que também têm causado sérios problemas de saúde aos servidores, relatando-se, inclusive, alguns casos de suicídios.

Foi dentro desse contexto, aliás, que o STF, em 15 de abril desse ano, julgando a ADI 1923, movida em 1998, declarou constitucional a Lei n. 9.637/98, abrindo as portas para os convênios dos entes da Federação com Organizações Sociais nas áreas mencionadas. É neste mesmo contexto, ademais, que se deve entender a verdadeira ojeriza que parte do Judiciário demonstra frente às greves de servidores (e trabalhadores), deferindo interditos proibitórios, fixando percentuais altíssimos para manutenção dos serviços durante a greve e julgando ilegais ou abusivas as greves em razão de irregularidades formais, sem adentrar o mérito das reivindicações e sem perceber o grande número de direitos dos trabalhadores que foram desrespeitados e que lhes motivaram deflagrar a greve.

É bastante preocupante, inclusive, a colocação em pauta para votação, no STF, do recurso extraordinário, com repercussão geral (RE 693546), na ação interposta pela Fundação de Apoio à Escola Técnica – FAETEC, na qual se discute a possibilidade do corte de ponto dos servidores em greve, havendo sério risco de

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um grave retrocesso do entendimento do STF sobre a questão, que apenas revelaria a dificuldade atual do Supremo em garantir a eficácia dos preceitos constitucionais ligados aos direitos sociais.

A posição do Supremo, até o momento, foi a de garantir o direito de greve, no seu sentido mais amplo (Mandado de Injunção 712, Min. Relator Eros Roberto Grau), não autorizando o corte de ponto nas greves, notadamente quando são provocadas por ilegalidades cometidas pelo administrador (Rcl 11536 GO, Relatora Min. Cármen Lúcia e Rcl 11847 BA, Relator Min. Joaquim Barbosa), até porque o interesse público é o de que os serviços sejam prestados de forma adequada e não sem as condições adequadas e não por servidores que tenham sido obrigados a trabalhar, impedidos de lutar pelos seus direitos, diante da violência do corte de ponto.

Aliás, no próprio processo que deu origem ao recurso extraordinário mencionado, o AI 853275, o relator, Ministro Dias Tóffoli, declarou a “ilegalidade do desconto”, confirmando entendimento expresso em decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no mesmo sentido[3].

De todo modo, o risco existe, até porque o STF, nos últimos tempos, tem se mostrado eficiente para colocar em pauta julgamentos que provocam a precarização de direitos trabalhistas, ao mesmo tempo em que se nega, de forma totalmente inconstitucional, a dar continuidade ao julgamento da ADI 1625, movida, em junho de 1997, pela CONTAG e CUT, na qual se pleiteia a declaração da inconstitucionalidade da denúncia da Convenção 158 da OIT (que protege os trabalhadores contra a dispensa arbitrária), sendo que já votaram pela procedência (total ou parcial), os Ministros Joaquim Barbosa, Maurício Corrêa e Carlos Brito.

Você que me dá a grande honra de ler esse texto não se interessa por nada disso? Considera que não lhe diz respeito? Pensa que é isso mesmo que deve ser feito porque servidores

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são todos privilegiados e que grevista é baderneiro e vagabundo?

Cumpre lembrar-lhe, então, que é exatamente essa destruição da relevância da defesa da coisa pública que proporciona uma relação promíscua entre o público e o privado da qual se alimenta a corrupção; que as transferências indevidas de dinheiro público para a iniciativa privada se fazem muito mais facilmente nas terceirizações e de forma ainda mais livre e grave nos convênios com as OSs; que a perda da consciência em t o r n o d a d e f e s a d a c o i s a p ú b l i c a p e l o s p r ó p r i o s administradores motiva isenções tributárias a entes privados e isso gera precariedade dos serviços públicos, atingindo os benefícios previdenciários e os demais direitos sociais, sendo que essa precariedade se reforça pela perda de prioridade de investir dinheiro público nos serviços públicos, voltando-se esse dinheiro para o investimento privado por meio do BNDES. Enfim, você paga imposto e não tem serviço público de qualidade, na educação, na saúde, no transporte, na Justiça, porque o seu imposto foi direcionado à iniciativa privada, a qual lhe explora na cobrança para a utilização desses mesmos serviços. E você diz que não se importa? Então, talvez você mereça…

Mas tome cuidado porque essa lógica se baseia na supressão do projeto constitucional do Estado Democrático de Direito Social e uma vez que a Constituição deixa de valer, para atender ao propósito de massacrar os trabalhadores, deixa de ter vigor em todos os demais aspectos.

A propósito, então, vale reproduzir um poema atribuído a Bertold Brecht, com o seguinte teor:

Primeiro levaram os negros Mas não me importei com isso Eu não era negro

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Em seguida levaram alguns operários Mas não me importei com isso

Eu também não era operário Depois prenderam os miseráveis Mas não me importei com isso Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados Mas como tenho meu emprego

Também não me importei Agora estão me levando Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém Ninguém se importa comigo

E também outro, de Eduardo Alves da Costa, elaborado na época da ditadura militar de 64:

Tu sabes,

conheces melhor do que eu a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor

do nosso jardim. E não dizemos nada.

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Na Segunda noite, já não se escondem: pisam as flores,

matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles

entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.

O fato é que está em franco andamento um plano de destruição das instituições públicas que são voltadas à realização de serviços públicos com base na racionalidade social e isto se tem feito para o favorecimento de uma racionalidade liberal, empreendedora, individualista, concorrencial, seletiva e segregadora, jogando por terra anos de lutas e conquistas da classe trabalhadora e da população em geral.

Se o governo argumenta que esses custos quebram o país, pior é se negar a buscar saídas eficientes para manter os serviços públicos e até aprimorá-los, isto porque são as instituições públicas que garantem a eficácia concreta dos direitos sociais. O perigo mais grave, ademais, é o de se promover a venda do país a conglomerados econômicos internacionais, sendo que estes, na primeira crise, tendem a ir embora, deixando as pessoas, que, por exemplo, investiram todo seu patrimônio em planos privados de previdência, sem qualquer possibilidade de amparo, como já ocorreu, aliás, em outros momentos da nossa

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história.

Um país de capitalismo periférico como o nosso necessita de preservar as estruturas que garantem a eficácia de direitos sociais, pois, do contrário, é muito grande o risco de uma bancarrota com o advento de uma crise internacional do capitalismo.

O governo federal está preocupado em se salvar e para tanto está caminhando junto com aqueles que tramam a sua degola, escancarando essa porta exatamente quando, ele próprio, não respeita a ordem constitucional. O problema é que os maiores prejudicados de tudo isso são, primeiro, os trabalhadores e, segundo, toda a população nacional, diante do risco de mais um regime ditatorial.

Enfim, a luta dos servidores públicos pela sua sobrevivência, pela efetividade dos direitos constitucionais, pela eficiência do serviço público, é uma luta que interessa a todos nós.

Não podemos ser sequer indiferentes a ela, até por uma razão humanística, vez que para levar adiante o projeto de destruição dos serviços públicos estão matando os servidores, e isso não é força de expressão, valendo lembrar o caso simbólico do servidor Élcio Berer Kozmisnki, que, presente e em luta no Congresso Nacional no dia 02 de setembro, sofreu um enfarte no momento em que se anunciou a suspensão da sessão na qual se votaria o veto em questão e veio a falecer.

De todo modo, os servidores federais em greve, imagino, não querem compaixão, vez que, para a satisfação de todos que ainda depositam confiança no projeto inacabado da condição humana, já demonstraram a força do seu movimento, sendo que isso está refletido, inclusive, na própria “manobra” do governo para a suspensão da sessão do Congresso.

Então, mesmo que os dias estejam sombrios, não há porque esmorecer, pois os trabalhadores, nas suas diversas categorias, estão cada vez mais conscientes e organizados,

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percebendo-se como classe, o que é ainda mais importante, na medida em que, no fundo, é a força da classe trabalhadora que determina os rumos da história.

[1]. Vide, SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. 2014. O “rolezinho” da

F I F A n o p a í s d e p e d r i n h a s e m E s t a d o d e e x c e ç ã o p e r m a n e n t e . D i s p o n í v e l em http://blogdaboitempo.com.br/2014/01/21/o-rolezinho-da-fifa -no-pais-de-pedrinhas-em-estado-de-excecao-permanente/

[2]. SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. A ilegalidade do cort

e de ponto pelo exercício do direito de greve. Disponível em:

http://www.sintrajud.org.br/conteudo/detalhe_artigo.php?cod=12

[ 3 ].

http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConte udo=203377

A

ruptura

do

Syriza:

Entrevista

com

Stelios

Elliniadis

Aldo Cordeiro Sauda

Conheci Stelios Elliniadis em meio a um turbilhão. Estávamos em um auditório lotado da Universidade de Atenas, na conferência “Democracy Rising”, uma espécie de encontro internacional político-acadêmico marxista de solidariedade à luta do povo grego. No dia anterior à atividade, a ala esquerda do Syriza havia acabado de ser empurrada para fora do

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governo. O motivo da ruptura era simples. O primeiro ministro Alex Tsipras, na madrugada anterior, contando com apoio dos partidos tradicionais da burguesia, impunha a seu país uma nova rodada de políticas de austeridade.

Na conferência, uma mesa, formada pelo Bloco de Esquerda de Portugal, Sinn Fein da Irlanda, Podemos da Espanha e representantes da “esquerda anti-austeridade” da Itália e Eslováquia, tentavam, em um esforço lamentável, fugir do tema central que ecoava nas ruas; Syriza, o principal partido da “esquerda anti-austeridade” europeia, havia rasgado por inteiro o seu programa.

Após indagar, na sessão de perguntas e respostas, a posição da mesa frente aos expurgos que ocorriam no governo, fui duramente criticado pelos palestrantes. Um por um, os supostos amigos internacionais do povo grego proclamaram-se acriticamente a favor da unidade do partido governante, inocentando a traição de Tsipras e denunciando supostos sectarismos contra sua direção. Eis que, em meio à atividade, levantou-se o camarada Stelios.

Então membro do Comitê Central do partido grego, o radialista, dono de uma barba branca e voz suave, pegou os agentes da “solidariedade internacional” de surpresa. “O problema é a ausência de democracia interna”, acusou. “Defendo a unidade partidária, mas a unidade depende dos dois lados, dos dois partidos que agora existem dentro do Syriza, e a ausência de democracia interna impede isto. Temos que tentar ficar unidos, mas as diferenças se aprofundaram ainda mais, e será muito difícil nos reconciliarmos.” O partido, segundo ele, estava “dominado por mecanismos, sem interação ou troca democrática de ideias, e agora, estamos pagando o preço por isto”, além do mais “todas as decisões são tomadas por fora do comitê central”, arrematou.

Enquanto a direção dos partidos anti-austeridade tentavam ignorar a fala de Stellios, a reação do auditório foi

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diferente. Todos queriam debater a crise real que atingia o Syriza, todos queriam entender o porquê do fracasso monumental do primeiro partido anti-austeridade da Europa à chegar ao governo. Contrário ao que desejavam os integrantes da mesa, era a leitura critica, e não a apologética, que reverberava no espaço.

Conversei por telefone com Stellios na semana passada, para ouvir um pouco mais dele sobre a crise da esquerda grega. Como imaginado, assim como diversos outros camaradas, o jornalista de formação comunista rompeu com o partido de Tsipras, porém, ao contrário dos 25 deputados da ala esquerda, além de Zoe Kostantopoulou, a presidente do congresso e Manolos Glezos, herói da resistência anti-nazista, Stellios não ingressou no novo partido formado por eles, o Unidade Popular.

Segue abaixo sua visão da atual conjuntura política. O vídeo da conferencia em que participamos pode ser assistido aqui.

Aldo: Quando nos vimos pela última vez, você mencionou que o

Syriza tinha muitos problemas internos. Hoje, estamos vendo a antiga esquerda do partido romper com Tsipras para formar o Unidade Popular. Na sua avaliação, o que explica este processo?

Stelios: Há muitas razões que explicam as rupturas, mais a

principal delas é o fato do governo ter assinado o memorando com a Troika, algo que o Syriza havia combatido ao longo destes últimos cinco anos, quando dizíamos que tal acordo seria catastrófico para a Grécia. Enquanto o governo organizava um referendo no qual a maioria dos gregos rejeitaram as imposições dos europeus, o governo decidiu prosseguir esta política e assinar um 3º memorando ignorando a votação popular contra o acordo. Isto tornou a ruptura inevitável.

Uma grande parte do Syriza não estava disposto a aceitar esta política, pois se chocava com nosso programa partidário. Mas

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sempre houve, é claro, terreno fértil para este processo, porque como lhe disse, a democracia interna não funcionava no Syriza. Todas as divergências que existiam não foram debatidas de forma consistente, o que impedia sínteses ou acordos entre nós, então o risco de ruptura sempre esteve presente. O fato do partido já estar dividido antes da assinatura do memorando, é claro, empurrou-nos ainda mais em direção ao racha.

Aldo: Como está o movimento social reagindo a este processo? Stelios: A frustração é tão grande que você pode encontrá-la e

sentí-la por todos os cantos. As pessoas estão fazendo muitas críticas, escrevendo muito no facebook, algumas se reúnem e debatem esta realidade, mas não há mais movimento de massas, não há movimentos sociais atuando, porque todos os movimentos sociais que existiam e se engajavam em temas diferentes na sociedade, estão em choque.

Por alguns meses todos acreditaram que a haveriam mudanças radicais, que todas as coisas terríveis que aconteceram sob os governos anteriores não ocorreriam com o Syriza, e depois descobrem o oposto. Aqueles que estavam lutando em várias partes da Grécia contra a venda dos aeroportos para os alemães, por exemplo, têm de lidar com o fato de que o governo Syriza aceitou como parte do novo memorando vender imediatamente 15 aeroportos gregos. Isto gerou no movimento uma imensa desmoralização. O mesmo se aplica a outros movimentos sociais.

A esquerda grega tem que se reorganizar, e encontrar uma nova alternativa, pois ela está derrotada. A grande contradição é que isto está ocorrendo em um momento no qual o povo grego, pela primeira vez em mais de meio século, apoiou a esquerda.

Aldo: O próximo período é de derrota para a esquerda grega? Stelios: Com certeza. Com certeza. Seja lá qual for o

resultado das eleições [que ocorrerão dia 20 de setembro] a esquerda grega está derrotada e as pessoas estão muito

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abaladas. Independentemente de se forem votar no Syriza ou na Unidade Popular ou ao Antarsya, o sentimento geral aqui é de derrota e frustração.

O povo grego que votou no Syriza, ou para o Oxi [não em grego] no memorando sobre a dívida, estão tão frustradas que não participam politicamente mais de nada. Apenas acompanham, a distância, as coisas. É claro que isto não se aplica a todos, a maioria irá votar nas eleições, mais independente de em quem ela votar, o clima segue sendo de frustração. Esta é a forma como estou enxergando as coisas.

Aldo: As pesquisas dizem que o Nova Democracia esta empatado

com o Syriza, e que há chances de Tsipras perder as eleições para a direita. Isto pode vir a ocorrer?

Stelios: É uma possibilidade, mas estas pesquisas não são

confiáveis. Elas têm repetidamente fracassado. Fracassaram nas eleições, fracassaram no memorando. A maioria das empresas que realiza estas pesquisas são pagas pelos canais de televisão e estes canais são controlados pela oligarquia, então não podem ser levadas a sério. Além do mais, ainda é muito cedo, pois tudo indica que as pessoas se decidirão nos últimos 3 ou 4 dias.

Aldo: Qual é a principal diferença programática entre o Syriza

e o Unidade Popular? Quais as garantias que o Unidade Popular não se tornará um novo Syrza?

Stelios: Não há nenhuma garantia concreta. Mas há um tipo de

garantia de que esta ruptura é mais profunda do que aparenta. O “novo” Syriza agora é dominado pelos membros que romperam no passado com o partido comunista formando a ala euro-comunista, cujo partido oficial se dissolveu e desapareceu, mas seus membros foram ao Syriza, e são eles quem controlam o Syriza hoje em dia.

O Unidade Popular tem nas suas fileiras militantes que vêm do antigo PC e que não reivindicavam o euro-comunismo. Então acho

Referências

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