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Jovens estudantes em processo de transformação na travessia pelo ensino superior

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE EDUCAÇÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

GISELE R. PENATIERI RIBEIRO

JOVENS ESTUDANTES EM PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO NA TRAVESSIA PELO ENSINO SUPERIOR

Natal 2019

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GISELE R. PENATIERI RIBEIRO

JOVENS ESTUDANTES EM PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO NA TRAVESSIA PELO ENSINO SUPERIOR

Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito necessário ao recebimento do título de Doutora em Educação.

Orientador: Adir Luiz Ferreira

Natal 2019

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Universidade Federal do Rio Grande do Norte - UFRN Sistema de Bibliotecas - SISBI

Catalogação de Publicação na Fonte. UFRN - Biblioteca Setorial Moacyr de Góes - CE

Penatieri, Gisele Rogéria.

Jovens estudantes em processo de transformação na travessia pelo ensino superior / Gisele Rogéria Penatieri. - Natal, 2019.

257 f.: il.

Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Centro de Educação, Programa de Pós Graduação em Educação.

Orientador: Adir Luiz Ferreira.

1. Condição juvenil - Tese. 2. Condição estudantil - Tese. 3. Ensino superior - Tese. I. Ferreira, Adir Luiz. II. Título. RN/UF/BS - Centro de Educação CDU 378.091.8

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RESUMO

O trabalho tem por objetivogeral analisar a relação entre ser jovem (condição juvenil) e ser graduando (condição estudantil) a partir das vivências de jovens estudantes do IFRN-Campus Ipanguaçu. O aporte teórico atrela-se à sociologia da educação e sociologia da juventude. O estudo está fundamentado epistemologicamente no olhar fenomenológico, com embasamento na etnometodologia. Trata-se de estudo de abordagem qualitativa, cujo trabalho de campo se concretizou com técnicas e instrumentos variados que proporcionaram um arranjo flexível entre a observação, a aplicação de questionários, as entrevistas individuais, as fotografias e os depoimentos, inclusive via redes sociais. Partindo do entendimento de que a condição juvenil se entrelaça a outros contextos de vida do jovem – aqui em relevo a condição de ser estudante acadêmico –, algumas categorias foram delineadas para aprofundamento, a saber: a temporalidade; a linguagem; a espacialidade; e a afetividade. As discussões dessas categorias, articulando teoria e empiria, possibilitaram-nos avançar na explicação da proposta de tese, que defende que o acesso e a permanência no Ensino Superior proporcionam vivências aos jovens estudantes que provocam/produzem variados movimentos de transformações nas dimensões da condição juvenil e estudantil, constituindo um novo processo estruturante na vida dos sujeitos. Assim, tendo como um dos pressupostos que a condição estudantil é uma das faces da condição juvenil, e que ambas se interpenetram, buscamos a compreensão multifatorial dos sentidos e significados voltados à condição do jovem estudante, cuja vivência acadêmica se constrói no IFRN, em um Campus do interior, o que se mostra como um dos caminhos possíveis para o desvelamento do novo público e da nova realidade do Ensino Superior no Brasil.

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ABSTRACT

This paper aims to analyze the relationship between being young (youth condition) and being a college student (student condition) through the experiences of young students from IFRN – Ipanguaçu Campus. The theoretical framework is related to sociology of education and sociology of youth. The study is epistemologically based in a phenomenological perspective with grounds in ethnomethodology. It is a study with a qualitative approach that had a fieldwork with various techniques and instruments, which allowed a flexible arrangement amid observation, survey application, individual interviews, photographs and testimonies, including via social networks. Assuming that the youth condition intertwines with other life contexts – giving emphasis on the condition of being an academic student – some categories where outlined to be more explored: temporality; language; spatiality; and affectivity. The discussions regarding these categories – articulating theory and experience – allowed a progress in the explanation of the thesis proposal that defends that the access to Higher Education provides experiences to young students that provoke/produce various movements of transformation in the aspects of the youth and student conditions, forming a new structural process, a new core in the life of these individuals. Therefore, presuming that the student condition is one of the aspects of youth condition and that they intertwine, the study aimed at comprehending the multifactorial meanings of the condition of being a young student, whose academic experience was developed in IFRN, a Campus on the countryside; this shows itself as one of the possible paths to unveiling a new public and a new reality of Higher Education in Brazil.

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Ao meu JOÃO PAULO, meu mais forte sentido para viver!

Que em sua trajetória encontre fecundas pessoas e possibilidades

para o desenvolvimento de todas as suas POTENCIALIDADES!

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AGRADECIMENTOS

Se hoje você lê este trabalho, foi porque eu tive muita ajuda e incentivo para a superação dos desafios que surgiram ao longo da caminhada. Os agradecimentos abaixo demonstram o quanto eu fui apoiada! Uma pessoa foi muito especial nesse processo, meu orientador: o professor Adir Ferreira. Tive meus momentos de desânimo e o que sempre encontrei, desde o início, junto a ele, foi generosidade, sensibilidade, compreensão, acolhimento. Suas mensagens, conversas e ações sempre foram no sentido de apoio, incentivo, confiança e tranquilidade. Para além dos meus sinceros e profundos agradecimentos por suas preciosas contribuições para a construção deste trabalho, quero agradecer por sua participação em minha formação profissional e pessoal. Em minha história de vida! Agradecer pelo cuidado, carinho e atenção que teve comigo como ser humano. Com sua leveza, sabedoria, inteligência e humanidade, foi me possibilitando caminhar e me movimentar e, aqui estamos, chegamos juntos! Saiba que vivenciar este trajeto junto a você, Professor Adir, foi-me uma experiência maravilhosa, recheada de muitos aprendizados! Meu profundo carinho e minha sincera gratidão!

Aos meus familiares, meus pais, irmãos e irmãs de coração, especialmente ao meu amado esposo Márcio e à minha mãe Lourdes pelo apoio e incentivo constantes. Agradeço a cada um de vocês e a todos vocês por fazerem parte de minha história de vida e por me ensinarem, todos os dias, sobre o amor!

Ao professor Moisés e às professoras Elda e Rosália pelas excelentes aulas, por proporcionarem espaços fecundos para a construção do conhecimento e para minha formação. Pelas sugestões e contribuições valiosas à este trabalho. Agradeço, principalmente, pela atenção e carinho que sempre marcaram nossos encontros!

À amiga e professora Giovana, por quem nutro muita admiração e carinho. Quanto mais lhe conheço, mais a tenho como referência. Nossa sintonia, fortificada por nosso querer bem recíproco, nos une de forma muito especial. Que a vida nos proporcione muitos encontros, principalmente, junto à nossa Luana e ao nosso João Paulo.

Aos docentes que, de forma muito generosa, dedicaram parte do tempo para leitura e análise deste trabalho, bem como para participarem da defesa, meu muito obrigada! Agradeço imensamente às contribuições de vocês para o aprimoramento desta tese e em minha formação.

Aos profissionais do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN, pelas valiosas contribuições na trajetória e por todo apoio.

Às amigas do grupo ECOS: Fran, Paty, Dani, Dayse, Ana, Lucyana, Natália, Marília, Juju, Liana. Cada uma de vocês é um presente em minha história! Agradeço pela partilha da vida, minhas queridas! Meu eterno carinho!

Aos jovens estudantes que construíram esta pesquisa. Este trabalho é fruto, sobretudo, das nossas relações sentidas, da confluência das nossas vidas. Que continuemos a buscar, juntos, como pessoas e docentes, a ampliação dos nossos horizontes de possibilidades por meio da educação. Com vocês aprendi a aprender de maneiras diferentes! Aprendi que nunca falta armador de rede para acolher alguém na casa, que um cuscuz depois da apresentação dos trabalhos é TUDO! Aprendo que, mesmo quando a vegetação está seca, tudo pode ficar verdinho de novo! Aprendo sobre a vida! Por essas vivências construídas, minha mais sincera gratidão e meu mais profundo querer bem!

À Deus, que em suas manifestações diárias de amor e misericórdia, enche minha vida de força e luz para prosseguir na caminhada!

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Informações numéricas e disposição geográfica dos Campi do IFRN... 23

Figura 2 – Esquema dos tópicos do capítulo... 32

Figura 3 – Esquema geral das categorias teóricas...38

Figura 4 – Condição juvenil e situações juvenis ...40

Figura 6 – Qualidade da aprendizagem...48

Figura 7 – Trilhas para categorização ...66

Figura 8 – Mapa das cidades que compõem o Vale do Assú... 80

Figura 9 – Mudanças com o ingresso no ES...137

Figura 10 – Estudante que fica os três turnos no campus... 139

Figura 11 – A persistência da memória (Salvador Dali)... 140

Figura 12 – Manhã, tarde e noite no IFRN...141

Figura 13 – Finais de períodos – a vida fica mais tensa e intensa!... 142

Figura 14 – Aprendendo a administrar o tempo... 143

Figura 15 – Mensagem aos novatos e veteranos... 145

Figura 16 – Chronos e Kairós... 151

Figura 17 – Encontros fora do IFRN... 181

Figura 18 – Participação em evento científico... 188

Figura 19 – Dimensões dos sujeitos articuladas... 207

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LISTA DE FOTOS

Foto 1 – Entrada do Campus Ipanguaçu do IFRN... 53

Foto 2 – Estudantes em situação de prova...60

Foto 3 – Realização de prova... 60

Foto 4 – Cansaço... 60

Foto 5 – Apresentação de seminário... 60

Foto 6 – Exemplo de fotografia com ficha comentada...61

Foto 7 – Coleta de materiais para realização de trabalho – Projeto Integrador... 62

Foto 8 – Portal de entrada de Ipanguaçu... 80

Foto 9 – Praça central da cidade... 80

Foto 10 – Evento científico no campus... 89

Foto 11 – Horário do lanche... 89

Foto 12 – Forró do Buzão, evento organizado pelos estudantes... 89

Foto 13 – Sociabilidades no ônibus... 90

Foto 14 – Descontração entre as graduandas em atuação do Projeto Integrador em uma escola municipal... 90

Foto 15 – Sociabilidades em atividades culturais, como o Coral... 91

Foto 16 – Fachada e vista aérea do Campus Ipanguaçu do IFRN... 105

Foto 17 – Sociabilidades entre os pares... 142

Foto 18 – Usos do tempo na vida acadêmica... 142

Foto 19 – TCC nas férias... 143

Foto 20 – Momento de descanso... 149

Foto 21 – Foto informal de formatura... 155

Foto 22 – Convivência entre estudantes de cursos diferentes... 157

Foto 23 – Jovens conversando no corredor... 158

Foto 24 – Intervalo para o lanche... 159

Foto 25 – Estudantes no Centro de Convivência do Campus... 160

Foto 26 – Relação entre docentes e estudantes... 161

Foto 27 – Convivência docentes e estudantes... 162

Foto 28 – Comemoração do sucesso de um evento das licenciaturas... 162

Foto 29 – Participação dos estudantes em evento no Campus... 163

Foto 30 – Confraternizações... 164

Foto 31 – Comemorações entre os estudantes... 164

Foto 32 – Uso do celular entre os estudantes... 184

Foto 33 – Uso de aparelhos eletrônicos entre os estudantes... 184

Foto 34 – Situações de apropriação da linguagem científica... 186

Foto 35 – Sala de aula – situação de prova... 193

Foto 36 – Estudantes na entrada da biblioteca... ... 195

Foto 37 – Fotos que apoiam a descrição do diário de campo... 198

Foto 38 – Usos dos espaços pelos estudantes... 199

Foto 39 – Participação de licenciandas em um evento científico... 200

Foto 40 – Estudantes em evento científico... 200

Foto 41 – Eventos científicos... 201

Foto 42 – Corredor do Campus Ipanguaçu (IFRN)... 202

Foto 43 – Realização de prova... 202

(10)

LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Campi do IFRN que ofertam cursos superiores (ano de início da oferta e

localidade)... 21

Quadro 2 – Compilado dos conceitos que ancoram as categorias do estudo... 38

Quadro 3 – Concepções de aprendizagem... 43

Quadro 4 – As perspectivas de aprendizagem... 46

Quadro 5 – Perfil geral dos entrevistados... 55

Quadro 6 – Quadro analítica das entrevistas... 68

Quadro 7 – Perspectivas em relação ao aprender segundo Paivandi... 120

Quadro 8 – Representação das fases de aquisição do status de estudante... 174

Quadro 9 – Transformações nas dimensões da condição de ser jovem estudante... 208

Quadro 10 – Ser jovem e ser estudante acadêmico... 222

Quadro 11 – Síntese dos principais sentidos e significados que permeiam a relação entre ser jovem e ser estudante... 224

Quadro 12 – Predominância do sentido do aprendizado... 225

Quadro 13 – Predominância do sentido da sobrecarga... 228

Quadro 14 – Predominância do sentido de desafio... 230

Quadro 15 – Predominância do sentido de disciplina... 233

Quadro 16 – Predominância do sentido das preocupações... 235

Quadro 17 – Predominância do sentido de esperança... 240

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LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Quantitativo de questionários aplicados na pesquisa... 57

Tabela 2 – Idade... 77

Tabela 3 – Gênero... 78

Tabela 4 – Raça... 78

Tabela 5 – Mora com quem... 78

Tabela 6 – Local de moradia... 79

Tabela 7 – Estado civil... 81

Tabela 8 – Filhos... 81

Tabela 9 – Trabalho... 83

Tabela 10 – Relação do trabalho com a graduação... 84

Tabela 11 – Renda familiar... 85

Tabela 12 – Situação financeira... 86

Tabela 13 – Meio de transporte... 87

Tabela 14 – Situação dos estudos sobre jovens universitários no total do estado da arte sobre juventude na pós-graduação Brasileira (teses e dissertações produzidas no período de 1999-2006)... 94

Tabela 15 – Escolaridade do pai... 96

Tabela 16 – Escolaridade da mãe... 96

Tabela 17 – Principais ocupações do pai/responsável... 97

Tabela 18 – Principais ocupações das mães... 97

Tabela 19 – Relação família/estudos... 98

Tabela 20 – Ensino Fundamental cursado pelos participantes... 100

Tabela 21 – Ensino Médio cursado pelos participantes... 100

Tabela 22 – Ingresso no IFRN... 106

Tabela 23 – Ser estudante do Ensino Superior é diferente de ser estudante do Ensino Médio... 107

Tabela 24 – Adaptação à vida acadêmica... 110

Tabela 25 – Preocupações/dificuldades como estudante... 114

Tabela 26 – Situações marcantes na graduação... 115

Tabela 27 – Projetos de futuro... 123

Tabela 28 – Relação com os colegas... 157

Tabela 29 – Assuntos de interesse... 165

Tabela 30 – Desempenho da profissão... 180

Tabela 31 – Frequência ao IFRN fora das aulas... 194

Tabela 32 – Ser estudante de graduação... 211

Tabela 33 – Sobre ser jovem... 220

Tabela 34 – Visão da sociedade sobre o jovem... 221

(12)

LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

EM Ensino Médio ES Ensino Superior EB Educação Básica

IFRN Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte PNE Plano Nacional de Educação

IFs Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

PNAD Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios EF Ensino Fundamental

RN Rio Grande do Norte

INEP Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais IES Instituições de Ensino Superior

LDBEN Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional PPP Projeto Político Pedagógico

OVEP Observatório da Vida do Estudante da Educação Profissional ECOS Escola Contemporânea e Olhar Sociológico

MEC Ministério da Educação e Cultura

(13)

SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO... 15

1.1 A TEMÁTICA DA PESQUISA... 15

1.2 CONTEXTO EDUCACIONAL DO ESTUDO: AMPLIAÇÃO, INTERIORIZAÇÃO E DIVERSIFICAÇÃO NO ENSINO SUPERIOR NO BRASIL DE 2003 A 2013: PODEMOS FALAR EM DEMOCRATIZAÇÃO/INCLUSÃO NO ENSINO SUPERIOR?... 17

1.3 AS QUESTÕES, AS PROBLEMATIZAÇÕES E OS OBJETIVOS DA PESQUISA... 25

1.4 COMO SURGE A INVESTIGAÇÃO? AS VIVÊNCIAS DA PESQUISADORA E A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO... 26

1.5 A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO... 29

2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E METODOLÓGICOS DA PESQUISA... 31

2.1 UMA POSSÍVEL PROPOSIÇÃO PARA O PROBLEMA DE ESTUDO... 31

2.2 SOBRE A ABORDAGEM EPISTEMOLÓGICA... 32

2.3 NOTAS SOBRE A FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA... 37

2.3.1 Os jovens estudantes acadêmicos como sujeitos... 39

2.3.2 Estudos sobre a aprendizagemno Ensino Superior...42

2.4 SOBRE OS PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS... 50

2.4.1 Movimentos e métodos no trabalho de campo... 50

2.4.2 A coleta dos dados: abordagem, sujeitos, técnicas e instrumentos... 50

2.4.3 A dinâmica do trabalho de campo: sujeitos, tempos e espaços... 55

2.4.4 Desafios novos e fecundos no trabalho de campo e para as análises... 57

3 SOBRE SER JOVEM E ESTAR NO ENSINO SUPERIOR: CONHECENDO A CONDIÇÃO JUVENIL E ESTUDANTIL DOS PARTICIPANTES... 71

3.1 A CONSTRUÇÃO SÓCIO-HISTÓRICA DO JOVEM E DO ALUNO/ ESTUDANTE... 71

3.1.1 A condição juvenil :das imagens às concepções sobre a juventude... 72

3.1.2 Conhecendo a condição juvenil quem são os jovens participantes?... 76

(14)

3.1.3 A condição estudantil: de criança/jovem a aluno/estudante... 91 3.1.4 Conhecendo a condição estudantil: quem são os estudantes?... 94 3.1.5 O IFRN e o Campus Ipanguaçu: a instituição de formação dos jovens

acadêmicos... 104 3.2 INTERFACE DA CONDIÇÃO JUVENIL COM A CONDIÇÃO ESTUDANTIL:

UMA CONFIGURAÇÃO RELACIONAL... 115 3.3 SÍNTESE INTERPRETATIVA: COMO O CONHECIMENTO SOBRE AS

CONDIÇÕES JUVENIL E ESTUDANTIL NOS AJUDAM A COMPREENDER O FENÔMENO... 124 4 JOVENS ESTUDANTES EM PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO NA

TRAVESSIA PELO ENSINO SUPERIOR... 128 4.1 TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO... REDIMENSIONAMENTOS,

RECONFIGURAÇÕES QUANTO AOS USOS DO TEMPO NA VIDA DO

JOVEM ESTUDANTE... 129 4.2 E POR FALAR EM AFETOS... A DIMENSÃO DOS RELACIONAMENTOS/

SOCIABILIDADES NAS VIDAS DOS JOVENS ESTUDANTES... 155 4.3 AS DIVERSAS LINGUAGENS (JUVENIS E ESTUDANTIS) NO ENSINO

SUPERIOR: ENTRE AS REDES SOCIAIS E O ACADÊMICO-CIENTÍFICO... 182 4.3.1 As redes sociais nas vivências dos jovens estudantes... 183 4.3.2 A linguagem científica e da área de formação... 186 4.4 A CASA, A RUA, AS FESTAS, O ÔNIBUS, A SALA DE AULA, OS

EVENTOS CIENTIFICOS: OS VARIADOS ESPAÇOS/AMBIENTES DA VIDA SOCIAL DO JOVEM ESTUDANTE... 191 4.5 TEMPORALIDADE, LINGUAGEM, AFETIVIDADE E ESPACIALIDADE: DIMENSÕES EM REDE E EM PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO NAS

VIVÊNCIAS DOS SUJEITOS... 201 4.6 SÍNTESE INTERPRETATIVA: COMO A APREENSÃO DAS DIMENSÕES

QUE ATRAVESSAM A RELAÇÃO ENTRE SER JOVEM E SER ESTUDANTE ACADÊMICO NOS AJUDAM A COMPREENDER O

FENÔMENO... 204 5 OS SENTIDOS E SIGNIFICADOS NA RELAÇÃO ENTRE SER JOVEM

E SER ESTUDANTE: O ENSINO SUPERIOR COMO UM NOVO PROCESSO ESTRUTURANTE... 210 5.1 SENTIDOS E SIGNIFICADOS DE SER JOVEM ESTUDANTE:UMA

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POLISSEMIA... 210 5.2 OS MODOS DE SER JOVEM ESTUDANTE: UMA REALIDADE PLURAL... 223 5.3 SÍNTESE INTERPRETATIVA: COMO A ANÁLISE DOS SENTIDOS E

SIGNIFICADOS SOBRE SER JOVEM E SER ESTUDANTE ACADÊMICO

NOS AJUDAM A COMPREENDER O FENÔMENO... 243 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS: UMA SÍNTESE TEMPORÁRIA... 253 REFERÊNCIAS... 260

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1 INTRODUÇÃO

1.1 A TEMÁTICA DA PESQUISA

A ampliação da escolaridade básica, mesmo com as grandes dificuldades enfrentadas pela educação brasileira, constitui-se um avanço no que se refere ao processo de abertura das oportunidades de acesso das camadas populares a esse nível de ensino. Sposito e Galvão (2004) apontam a acelerada urbanização do país, a exigência de maior escolaridade para o mercado de trabalho e a afirmação, em textos legais, da educação escolar como um direito de crianças, jovens e adultos ˗ decorrente do novo desenho institucional provocado pela transição democrática (Constituição Federal de 1988; o Estatuto da Criança e do Adolescente de 1990; e a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1996), como elementos que integram a configuração sociopolítica que pressionou a escola a abrir-se para um público para quem, até então, era uma realidade distante.

Houve, assim, uma progressiva universalização do ensino no nível Fundamental, um significativo crescimento de vagas para o Ensino Médio (EM) e uma maior demanda para o ingresso ao Ensino Superior (ES), pois, uma vez abertas novas possibilidades de acesso aos níveis básicos, as pressões por continuidade de estudos tendem a se acentuar.

No entanto, mesmo com o avanço, em termos de acesso à escola, afirmado e verificado acima, não se pode esquecer da complexa situação brasileira com uma sociedade muito desigual, com índices alarmantes de pobreza e violência, em que a efetiva democratização da escolarização ainda se configura como uma grande luta. Candau (2000), analisando o contexto da educação na América Latina, afirma que não se pode negar a enorme expansão do sistema educacional. Porém, ainda persistem altos índices de analfabetismo, evasão, repetência e desigualdades de oportunidades educacionais, tratando-se, desse modo, de um cenário paradoxal. Alerta-nos ainda que a realidade educacional é muito mais heterogênea e plural, e que não se pode cair na armadilha do pensamento único.

No que se refere à oferta do ES, foco desta investigação, verificamos, principalmente a partir dos anos 2000, um significativo processo de expansão e, posteriormente, um singular fluxo de interiorização. Na configuração do cenário da Educação Superior no Brasil, Carrano (2009) demonstra que, a partir da primeira década do século XXI, intensifica-se uma “nova” composição dos públicos universitários e os fenômenos sociais por ela engendrados, representando ainda um campo de análise em que pouco se avançou, especialmente no que diz respeito aos estudos sobre os sujeitos jovens universitários, tema proposto para este trabalho.

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A partir do panorama incitado em relação ao ES, observamos que repercussões sociais de novos/diversificados tipos foram provocadas e que precisam ser consideradas para se entender o que significa ser estudante acadêmico hoje. Carrano (2009, p. 181) nos chama atenção ao fato de que, ainda, prevalece “[...] a análise da vida estudantil a partir do ponto de vista institucional e da condição unilateral de estudante, em desconsideração a outras variáveis existenciais e biográficas dos jovens alunos”. Assim, “[,,,] apesar da existência de estudos sobre o tema, ainda sabemos muito pouco sobre as trajetórias escolares dos estudantes universitários e sobre como se dão as condições de experimentação da vida universitária após o ingresso” (p. 181). A pesquisa sociológica voltada à condição do estudante universitário se mostra como um caminho possível para o desvelamento da nova realidade universitária.

Observamos, assim, no cenário brevemente delineado, que há uma maior diversidade no que se refere aos “novos” jovens estudantes acadêmicos, havendo, ainda, necessidade de investigações que foquem “olhares” aos “novos sujeitos” e sobre como estão vivenciando a travessia pela academia.

Nessa perspectiva, este trabalho de pesquisa parte do processo de universalização da Educação Básica (EB), como um dos aspectos que impulsionou a expansão do ES no Brasil, foca-se na singularidade da interiorização desse nível de ensino e dá visibilidade à investigação junto aos sujeitos que estão cursando a graduação, em sua interface entre ser jovem e ser estudante acadêmico. Toma como referência empírica o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), especificamente um Campus do interior, destacando como participantes os jovens graduandos. O aporte teórico, epistemológico e metodológico está fundamentado na sociologia da educação e da juventude, na fenomenologia e etnometodologia. Trata-se de investigação de base, predominantemente qualitativa, cujas técnicas e instrumentos foram a aplicação de questionários e entrevistas individuais, observação, fotografias e depoimentos junto a um total de 118 jovens estudantes dos cursos de Licenciatura ofertados pelo Campus Ipanguaçu.

Vale enfatizar a necessidade de estudos sobre como esses “novos sujeitos” estão vivenciando a Educação Superior, sobretudo em trabalhos que enfoquem a expansão e interiorização da graduação pública no Brasil e as vivências nesse nível de ensino em outros espaços/tempos que não o tradicional ambiente da universidade. Em relação às juventudes, há ainda uma predominância de investigações sobre a vida de jovens em grandes metrópoles, sendo importante levar em consideração as condições de vida dos jovens em pequenas e médias cidades, longe dos grandes centros urbanos e das zonas rurais (SPOSITO, 2005).

Quem são os jovens estudantes acadêmicos dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IFs), em especial aqueles situados em um campus do interior? Como vivenciam

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sua condição juvenil e estudantil na travessia pela graduação? O que significa, na visão dos sujeitos em tela, ser jovem e ser estudante acadêmico?

Essas e outras questões se configuraram como inquietações iniciais para o estudo e, por isso, constituem elementos gerais para as análises, a fim de que possamos compreender melhor sobre a relação entre ser jovem e ser estudante acadêmico do IFRN, em um campus do interior. A investigação dá visibilidade aos sujeitos e seus cotidianos, desvelando, um pouco mais, sobre a realidade da Educação Superior, a partir da visão dos próprios jovens graduandos.

Diante do contexto, a pesquisa é pertinente à temática que relaciona as juventudes e a Educação Superior e ao objeto de estudo que investigará as relações entre ser jovem e ser estudante a partir das vivências de graduandos do IFRN (Campus Ipanguaçu), baseando-se nos aspectos da condição juvenil e estudantil.

1.2 CONTEXTO EDUCACIONAL DO ESTUDO: AMPLIAÇÃO, INTERIORIZAÇÃO E DIVERSIFICAÇÃO NO ENSINO SUPERIOR NO BRASIL DE 2003 A 2013

Ao situarmos o contexto educacional do ES no Brasil, sobretudo no recorte temporal a partir dos anos 2000, verificamos um processo de ampliação quanto ao número de vagas, expansão da oferta, com uma singular interiorização, bem como uma maior diversificação na composição do público atendido.

Em relação à ampliação da oferta na Educação Superior, observamos, de acordo com pesquisa de Pereira (2013) que, na primeira década do século XXI, houve a multiplicação dos Campi das Instituições Federais de Ensino Superior, a criação de novas universidades em diversos estados do Brasil, a ampliação das vagas e a criação de novos cursos, entre outras ações. Pereira (2013) aponta ainda o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) e o atual Plano Nacional de Educação (PNE) 2011/2021 (BRASIL, 2011) como fatores importantes nesse processo. Ambos, REUNI e PNE, voltam-se para atender às demandas excluídas historicamente do sistema educacional à expansão da oferta de Educação Superior, sobretudo a pública, fazendo emergir o debate sobre a democratização do acesso e a inclusão no ES. No entanto, o que verificamos é que houve um aumento de matrículas nesse nível de ensino, mas o maior percentual se encontra nas Instituições de Ensino Superior (IES) privadas.

Também sobre o crescimento das matrículas na Educação Superior no Brasil, Ferreira (2016) aponta que, de menos de 4 milhões em 2003 passou para 7,3 milhões em 2013. Apesar do claro aumento no alcance da Educação Superior, o autor também ratifica o fato de que o maior crescimento deu-se pelo avanço dos estabelecimentos privados e que o percentual da

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população de jovens de 18-24 anos que frequentava o Ensino Superior em 2013 era de 3,7 milhões (cerca de 16,5%), segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), o que significava que 83,5% da juventude brasileira na idade, teoricamente adequados para cursar esse nível de ensino (22,7 milhões de pessoas), continuavam sem acesso à Educação Superior.

Corroborando os dados acima, ainda ao focarmos nos jovens com idade “ideal” para cursar o ES no país, o estudo desenvolvido por Andrade (2012) revela que, no ano de 2009, 21% da população jovem de 18 a 24 anos não tinham sequer completado o Ensino Fundamental (EF), e outros 27%, apesar de terem completado o referido nível de ensino, não ingressaram no EM, ou ingressaram, mas não concluíram. Esses contingentes somados representam praticamente a metade desses jovens (48%). Outros 33% do total de jovens nessa faixa etária concluíram o EM, mas não ingressaram no ES. Finalmente, apenas 19% da população entre 18 e 24 anos tiveram acesso à Educação Superior, segundo os dados da PNAD – IBGE 2009.

Cabe ressaltar, também, no contexto educacional em foco, que o problema da elitização continua ocorrendo na Educação Superior. O estudo de Santos (1998) sobre o acesso a esse nível de ensino no Brasil aponta que os jovens estudantes oriundos de escolas particulares, de famílias de nível social e econômico elevado, são a maioria nos cursos de graduação de maior prestígio. Por outro lado, os jovens estudantes representantes das “camadas populares”, ou egressos de escolas públicas, concentram-se nos cursos de menor prestígio social, preferencialmente à noite, na tentativa de conciliar estudo e emprego. Essa também foi a constatação de Zago (2006) e dos estudos de Ferreira (2016) que confirmam que “os estudantes das famílias de baixa renda foram conduzidos para os diplomas de menor valor escolar e retorno econômico” (p. 163).

No que tange à diversificação, e que também abarca a interiorização, observa-se que, sobretudo a partir dos anos 2000, a universidade brasileira vai deixando de ser o lugar majoritariamente das classes médias e das elites intelectuais e passa a contar com um número mais expressivo de estudantes oriundos de segmentos sociais e localidades que, até recentemente, não alcançavam este nível de ensino (BRITTO, 2008). Trata-se de “[...] um público com condições de estudo limitadas e pouca convivência com objetos intelectuais e artísticos da cultura hegemônica, cujo entorno familiar e social tem, geralmente, uma baixa escolarização” (GÓMEZ, 2002). Ressaltamos que nessa situação há uma forte dependência quanto ao curso ou a área de formação, ou mesmo à instituição, sendo que a maior concorrência aos cursos de mais prestígio, por exemplo, continua enraizando a seletividade social e escolar, já muito marcada historicamente.

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O que vem ocorrendo, do início do século em diante, do ponto de vista das implicações sociais do processo de diversificação do público do ES, é que ganha visibilidade a recomposição da população acadêmica, que experimenta tanto transformações estruturais da universidade como dos modos de vida estudantil (GÓMEZ, 2002), que compõem a condição estudantil. Dentre os fatores que corroboraram para essa recomposição, ilustramos o maior e mais variado ingresso de sujeitos, propulsionado pela criação de ações ou políticas afirmativas, como os sistemas de cotas por critérios socioeconômicos e raciais, além do crescimento do público feminino e do fluxo de interiorização verificado.

De acordo com Lima (2013), podemos entender por ação afirmativa ou discriminação positiva a forma que alguns países encontraram para enfrentar as desigualdades existentes em suas sociedades e garantir aos grupos discriminados mais condições de acesso aos recursos, ao conhecimento e às oportunidades. Um dos mecanismos de ação afirmativa mais conhecidos é o sistema de cotas.

Souza e Santos fazem um resumo do processo:

A educação superior brasileira vivenciou um período de grandes transformações [...], iniciado em 2003, via criação de novos programas e políticas para a expansão e interiorização da universidade pública. Essas transformações, sobretudo a adoção da política de ações afirmativas, representam uma experiência positiva, pois, além de aumentarem o número de vagas e de instituições públicas federais, ainda possibilitaram a entrada significativa de um novo público nas universidades, os estudantes de origem popular (2017, p. 153).

Criados em 2008, pela Lei 11.982, os IF também podem ser inseridos nesse contexto da oferta do ES, principalmente por meio dos cursos nas áreas de Tecnologia e Formação Docente, com as Licenciaturas. Apesar de representarem um percentual ainda bem pequeno na oferta para a Educação Superior (menos de 2%, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP)), essas instituições, para além das tradicionais universidades, corroboram alguns dos questionamentos e desafios quanto à discussão sobre o fenômeno da expansão e inclusão no ES, as condições de ingresso, permanência e conclusão nesse nível de ensino e, sobretudo, aqui em tela, como estão sendo as vivências acadêmicas dos jovens estudantes nessa nova conjuntura da Educação Superior.

Situando o contexto educacional do Rio Grande do Norte (RN), o IFRN intensifica a oferta do ES a partir de 2006. Com o processo de incentivo à expansão dos IF, promovido pelo Governo Federal, especialmente durante os governos dos presidentes Luís Inácio lula da Silva (2003-2011) e Dilma Vana Rousseff (2011-2016). Constatamos que, no ano de 2017, o IFRN possuía 21 Campi, distribuídos em 18 cidades do RN, em variadas regiões do estado. Do total

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dos Campi (21), 17 possuíam cursos superiores de ensino, totalizando uma oferta de 32 graduações entre as áreas de Tecnologias, Licenciaturas e Engenharias.

Em análise documental ao Projeto Político Pedagógico (PPP) do IFRN, podemos observar que essa instituiçãoreafirma e torna legítima a oferta de cursos de graduação, ao destacar, na Seção III, Art. 7, Título VI, os objetivos e os níveis de atuação na Educação Superior dos IFs. Assim, estão previstos os seguintes cursos:

a) cursos superiores de tecnologia visando à formação de profissionais para os diferentes setores da economia; b) cursos de licenciatura, bem como programas especiais de formação pedagógica, com vistas na formação de professores para a educação básica, sobretudo nas áreas de ciências e matemática, e para a educação profissional; c) cursos de bacharelado e engenharia, visando à formação de profissionais para os diferentes setores da economia e áreas do conhecimento [...] (BRASIL, 2008e, p. 2).

Quanto à concepção da Educação Superior de graduação, o documento afirma que:

[...] os cursos de graduação oferecidos pelo Instituto devem se constituir como horizontes para a formação superior centrada no profissionalismo e no desenvolvimento crítico-reflexivo-científico dos atores sociais (SILVA, 2007). [...] Ancora-se na perspectiva inclusiva e no compromisso com a democratização do acesso ao ensino superior, com a permanência e com a qualidade social [...] A consolidação desses cursos ampara-se em razões de cunho socioeconômico, político e cultural: a demanda social decorrente da necessidade de profissionais de nível superior (tecnólogos, engenheiros e docentes) para os diferentes setores produtivos e para as demais esferas da sociedade; a necessidade de desenvolvimento social ancorado na produção cultural, científica e tecnológica; o compromisso com a produção e a socialização do conhecimento científico e tecnológico; o compromisso com o desenvolvimento socioeconômico sustentável; e a necessidade de verticalização da formação para os concluintes do ensino médio (p. 77).

No que tange à Organização Didática do Instituto, encontramos, no Capítulo VI, a referência aos cursos de graduação do IFRN, que afirma, em seu artigo 50, que a “[...] organização curricular dos cursos superiores de graduação observará as determinações legais previstas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e no Projeto Político-Pedagógico Institucional”. Especificamente no que diz respeito aos cursos de licenciatura, graduação cursada pelos sujeitos participantes da pesquisa, encontramos:

Art. 69. Os cursos de licenciatura em educação básica, destinados aos portadores de certificado de conclusão do Ensino Médio, serão planejados de modo a conduzir o discente a uma habilitação de nível superior de graduação como professor.

Parágrafo único. Os cursos de licenciatura em educação básica poderão ser ofertados nas modalidades presencial, semipresencial ou a distância.

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O Quadro 1, a seguir, apresenta a compilação de alguns dados que se remetem aos Campi do IFRN que possuem cursos superiores, o ano em que se iniciou a oferta, bem como suas localidades, demonstrando a capilarização da oferta do ES em diversas regiões do estado. Em negrito, os cursos de licenciaturas do Campus foco deste trabalho:

Quadro 1 – Campi do IFRN que ofertam cursos superiores (ano de início da oferta e localidade) CURSO SUPERIOR

OFERTADO PELO IFRN*

ANO EM QUE SE INICIA A OFERTA**

CAMPUS AUTORIZADO A OFERTAR*** Tecnologia em Agroecologia 01/03/2012 Ipanguaçu

Tecnologia em Alimentos 01/03/2012 Currais Novos Tecnologia em Análise e

Desenvolvimento de Sistemas

01/03/2012 Natal – Central, Pau dos Ferros

Tecnologia em Automação Industrial 26/04/06 Natal – Central Tecnologia em Comércio Exterior 01/03/2012 Natal – Central Tecnologia em Construção de

Edifícios

01/03/2012 Natal – Central

Tecnologia em Fabricação Mecânica 2006 Natal Tecnologia em Energias Renováveis 01/03/2012 João Câmara

Tecnologia em Gestão Ambiental 10/07/2012 Mossoró, Natal – Central Tecnologia em Gestão Ambiental

(EAD)

11/11/2013 Educação à Distância

Tecnologia em Gestão Desportiva e de Lazer

01/03/2012 Natal – Cidade Alta

Tecnologia em Gestão Pública 01/03/2012 Natal – Central Tecnologia em Gestão do Turismo 19/12/2014 Canguaretama Tecnologia em Marketing 19/12/2014 Natal – Zona Norte Tecnologia em Produção Cultural 2009 - 01/03/2012 Natal – Cidade Alta Tecnologia em Redes de

Computadores

29/11/2013 Natal – Central, São Gonçalo do Amarante

Tecnologia em Sistemas para Internet 01/03/2012 Currais Novos, Parnamirim

Tecnologia em Logística 2013 São Gonçalo do Amarante

Tecnologia em Processos Químicos 19/12/2014 Nova Cruz Tecnologia em Design de Moda 20/11/2015 Caicó Licenciatura em Biologia 2009 - 01/03/2012 Macau Licenciatura em Ciências da Natureza

e Matemática

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Licenciatura em Educação do Campo 22/02/ 2016 Canguaretama Licenciatura em Espanhol 01/03/2012 Natal – Central

Licenciatura em Física 2009 - 01/03/2012 Caicó, João Câmara, Natal – Central, Santa Cruz

Licenciatura em Formação Pedagógica de Docentes para a Educação Profissional

13/02/2015 Parnamirim

Licenciatura em Geografia 2006 - 01/03/2012 Natal – Central

Licenciatura em Informática 2009 - 01/03/2012 Ipanguaçu, Natal – Zona Norte

Licenciatura em Letras Espanhol (EAD)

01/03/2012 Educação à Distância

Licenciatura em Química 2009 - 01/03/2012 Apodi, Currais Novos, Ipanguaçu, Pau dos Ferros Licenciatura em Matemática 01/03/2012 Mossoró, Natal – Central, Santa

Cruz

Engenharia de Energia 2015 Natal Central

* Cursos de Tecnologias têm duração de 3 anos, Licenciaturas duração de 4 anos e Engenharias duração de 5. ** Informações até o ano de 2017.

*** Os campi de Ceará-Mirim; São Paulo do Potengi e Lages não dispunham de oferta para o ES. Fonte: Elaborado pela autora

A figura a seguir expõe a distribuição geográfica do IFRN, evidenciando a expansão da rede federal de educação profissional e tecnológica no RN até o ano de 2016. Contempla, ainda, informações numéricas sobre o instituto:

Figura 1 – Informações numéricas e disposição geográfica dos Campi do IFRN

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No que se refere à população jovem na região Nordeste do Brasil, os dados do INEP, por meio do Censo da Educação Superior (2015), registram um quantitativo de 6.592.863 jovens na idade entre 18 a 24 anos. Desse total, apenas 344.206 estão matriculados em cursos presenciais de graduação na rede federal de Educação Superior. Em que pese o número de matrículas no ES privado, os dados demonstram que há, ainda, um longo caminho a ser percorrido em prol da universalização deste nível de ensino público em nosso País. Na análise de Carrano (2009), o crescimento das matrículas no ES se associa com as desigualdades oriundas dos contextos contemporâneos dessa, ainda degradada, expansão da instituição universitária brasileira (p. 15).

Em trabalho que analisa a democratização do acesso e inclusão na Educação Superior no Brasil, Catani et al. afirmam que:

O sistema nacional de educação superior ainda não está aberto às amplas camadas populacionais no Brasil. A universalização do acesso constitui-se tema emergente, complexo e de fundamental importância [...] Em termos da população estudantil, pode-se dizer que há uma baixa cobertura da educação superior (2007, p 76.).

Ainda com as contribuições de Catani et al. (2007), ao citar um estudo de Sguissardi, o autor afirma que, em relação à taxa de escolarização do ES no contexto da América Latina, o Brasil possui uma das mais baixas (ZAGO, 2006). Há casos de países, como a Argentina, o Chile e o Uruguai, que já ultrapassavam, em 2002, os 30%, meta que o Brasil estabeleceu para o ano 2011, isto é, dez anos após a aprovação do PNE em janeiro de 2001. Apesar dos números anteriores parecerem expressivos, o desafio continua e a universidade pública está distante de alcançar o estágio de massificação no Brasil. Os matriculados em Instituições de Ensino Superior públicas ainda são poucos diante dos números totais da população, sua diversidade cultural e fortes desigualdades sociais.

Ao nos remetermos à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), em seu Título V, que trata dos Níveis e da Modalidades de Educação e Ensino, Capítulo IV – sobre a Educação Superior, verificamos que essa Lei discorre, em seu artigo 43, como sendo finalidade da Educação Superior:

1. estimular a criação cultural e o desenvolvimento do espírito científico e do pensamento reflexivo;

2. formar diplomados nas diferentes áreas de conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua formação contínua;

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3. incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia e da criação e difusão da cultura, e, desse modo, desenvolver o entendimento do homem e do meio em que vive; 4. promover a divulgação de conhecimentos culturais, científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o saber através do ensino, de publicações ou de outras formas de comunicação;

5. suscitar o desejo permanente de aperfeiçoamento cultural e profissional e possibilitar a correspondente concretização, integrando os conhecimentos que vão sendo adquiridos numa estrutura intelectual sistematizadora do conhecimento de cada geração;

6. estimular o conhecimento dos problemas do mundo presente, em particular os nacionais e regionais, prestar serviços especializados à comunidade e estabelecer com esta uma relação de reciprocidade;

7. promover a extensão, aberta à participação da população, visando à difusão das conquistas e benefícios resultantes da criação cultural e da pesquisa científica e tecnológica geradas na instituição (BRASIL, 1996, p. 35).

A proposição legal quanto à finalidade da Educação Superior no Brasil configura-se como muito relevante à formação do cidadão, havendo a necessidade de que ela se efetive e se estenda, de forma qualitativa, quantitativa e equitativa à população brasileira. Se sobre a Educação Básica podemos constatar uma abrangência de muitos e diversos sujeitos, conforme aponta Saviani (2004) ao realizar um balanço sobre esse nível de ensino no século XX, sobre a Educação Superior ainda permanece a realidade de poucos e seletos.

Quanto às perspectivas de universalização da Educação Superior no Brasil, Pereira (2013) explica que a democratização do acesso ainda se constitui um desafio para o sistema público de ensino. Os estudantes egressos das escolas públicas, em geral, não possuem as mesmas condições de preparação que os estudantes da rede privada. Assim, houve expansão da oferta do nível superior de ensino, mas a universalização, a democratização e inclusão estão longe de serem concretizadas, uma vez que “a expansão quantitativa do ensino superior brasileiro não beneficiou a população de baixa renda, que depende essencialmente do ensino público” (ZAGO, 2006, p. 228). Essa autora alerta, ainda, para o fato de que não basta ter acesso ao ES, mesmo sendo público, mas se requer políticas voltadas para a permanência dos estudantes.

Dentre as várias tessituras possíveis, a partir do contexto educacional exposto, o foco da discussão neste trabalho volta-se para a análise sobre o acesso e a permanência, entendidos aqui desde o ingresso até a conclusão, ao ES público, refletindo, em âmbito maior, sobre o papel formativo desse nível educacional junto à população juvenil. Assim, buscamos ampliar as reflexões sobre como estão sendo vivenciadas as travessias dos sujeitos pelo Ensino Superior, articuladas com as necessidades dos jovens estudantes frente às atuais demandas da sociedade. O estudo busca relacionar, dessa forma, as categorias da condição juvenil e condição estudantil, ambas mescladas, cotidianamente, na vida dos sujeitos graduandos.

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É, portanto, acreditando que o atual contexto da realidade da Educação Superior no país precisa ser melhor compreendido e que um estudo, cuja lente analítica busque articular o ser jovem ao ser estudante acadêmico, poderá contribuir para a ampliação e desdobramentos das discussões, que empenhamos esforços para o desenvolvimento desta tese.

1.3 AS QUESTÕES, AS PROBLEMATIZAÇÕES E OS OBJETIVOS DA PESQUISA

Para este trabalho, apresentamos como panorama de sujeitos e lócus, respectivamente, os jovens estudantes da Educação Superior, de uma instituição que está situada no interior do estado do RN: o Campus Ipanguaçu do IFRN. Trata-se de instituição que atende a um público, em sua maioria, jovem e oriundo de pequenas e médias cidades afastadas da capital do estado e, por ser um Instituto Federal, abarca a verticalização do Ensino, ofertando desde o Ensino Médio Integrado, a Educação de Jovens e Adultos até os Ensinos de Graduação e Pós-graduação. Acreditamos que esses e outros elementos trazem singularidade às análises e discussões.

Com base nessa configuração, relembrando o objeto de estudo que se remete às relações entre ser jovem e ser estudante, a partir das vivências de graduandos do IFRN (Campus Ipanguaçu), baseando-se nos aspectos da condição juvenil e estudantil, foram elaboradas, de forma mais direcionada, as seguintes questões, problematizações de pesquisa:

a) Quais os elementos/características que nos levam a conhecer a condição juvenil e a condição estudantil acadêmica dos sujeitos participantes?

b) Como se relacionam os principais aspectos entre ser jovem e ser estudante acadêmico?

c) Quais as dimensões que atravessam a relação entre ser jovem e ser estudante acadêmico? Como são afetadas, transformadas?

d) Quais os sentidos construídos e significados atribuídos ao ser jovem e ser estudante acadêmico?

São diversos e múltiplos olhares que podem ser direcionados às questões acima elencadas. A proposta desta pesquisa confere visibilidade à escuta e observação das vivências de sujeitos jovens, estudantes acadêmicos (licenciandos), do Campus Ipanguaçu, do IFRN, conforme explicitado.

Nesse cenário, como objetivo geral, pretendemos:

a) analisar a relação entre ser jovem (condição juvenil) e ser graduando (condição estudantil), a partir das vivências de jovens estudantes do IFRN-Campus Ipanguaçu.

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Visando atingir o objetivo geral delineado, os seguintes objetivos específicos foram definidos:

a) conhecer a condição juvenil e a condição estudantil acadêmica, em seus variados elementos/características;

b) relacionar os principais aspectos entre ser jovem e ser estudante acadêmico; c) apreender algumas das principais dimensões que atravessam a relação entre ser

jovem e ser estudante acadêmico;

d) analisar os sentidos construídos e significados atribuídos pelos sujeitos participantes sobre ser jovem e ser estudante acadêmico.

Importante esclarecer que, neste trabalho, utilizaremos o termo aluno para nos referirmos ao sujeito escolar da EB e os termos estudante, acadêmico e graduando como equivalentes para nos dirigirmos aos jovens que ingressam no ES.

1.4 COMO SURGE A INVESTIGAÇÃO? AS VIVÊNCIAS DA PESQUISADORA E A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO

Ao buscar em minha memória as razões e interesses em estudar a relação entre ser jovem e ser estudante no ES, na visão dos próprios sujeitos acadêmicos, reporto-me às lembranças de minha trajetória acadêmica. A graduação representou, para mim, quando jovem, espaço e tempo de desafios e muita satisfação. Valorizada por mim e meus familiares, a Educação Superior me foi apresentada como a possibilidade de continuidade dos estudos em uma área na qual já atuava e me interessava, uma melhoria profissional, bem como um processo de ascensão social e melhor futuro para a vida familiar. Com essa perspectiva e imbuída desses valores, deu-se meu ingresso na graduação em Pedagogia, na Universidade Federal do Espírito Santo.

A rotina, nos dois primeiros períodos vivenciados no ES, foi conciliada com a atuação como professora das antigas séries iniciais. Ao término do trabalho, no período da manhã, dirigia-me direto para a universidade e passava o restante da tarde organizando as atividades de minha profissão, estudando, conversando ou mesmo cochilando, em geral nas bibliotecas do campus, até o horário das aulas do curso, à noite. Um movimento de jovem estudante trabalhadora.

No terceiro período, por motivos financeiros e de adoecimento, necessitei trancar o curso. Lembro-me que essa foi uma situação de bastante tristeza. A tão almejada trajetória pelo ES precisou ser interrompida, alongada, demonstrando que o percurso não seria linear. No semestre seguinte, retornei à universidade, agora como uma jovem estudante do turno vespertino. Também nesse período, consegui ingressar como bolsista de iniciação científica em

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um projeto de pesquisa sobre o “Afeto, emoção e linguagem na brincadeira da criança”, orientado pela professora Ivone Martins de Oliveira.

A partir do quinto período, dei continuidade à iniciação científica, participando do projeto “O jovem que há para além do aluno”, sob orientação da professora Luiza Mitiko Yshiguro Camacho. Essas duas experiências foram fundamentais em minha formação como professora e pesquisadora. Com elas, construí muitos aprendizados: aprendi as bases sobre como fazer pesquisa, como ser pesquisadora na área da educação e, principalmente, a dar visibilidade aos sujeitos e às suas vivências no trabalho de pesquisa. Finalizado o período da iniciação científica, permaneci, até o final da graduação, no grupo de estudos sobre as juventudes, atuando com vínculo em duas pesquisas: uma sobre juventude na escola e a outra sobre as políticas públicas para os jovens brasileiros, ambas coordenadas, nacionalmente, pela Professora Marília Pontes Spósito.

Entre o término do ES e o início do Mestrado, atuei como professora das séries iniciais; pedagoga na Educação Infantil e Ensino Fundamental em escolas da rede pública e como professora das disciplinas da área pedagógica dos cursos de formação de professores/as (licenciaturas em Física; Química; Biologia; Matemática e Geografia) do Centro Federal de Educação Tecnológica, hoje Instituto Federal Fluminense, em Campos dos Goytacazes, região norte do Rio de Janeiro. Todos esses espaços e tempos, cada um com suas peculiaridades, instigavam-me e desafiavam-me, cotidianamente, a investigar e estudar mais sobre as vivências dos sujeitos em seus tempos e espaços de escolarização.

Levei essas inquietações para o programa de Mestrado em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense e encontrei junto à Professora Sílvia Alicia Martínez, da linha de pesquisa em Educação, Política e Cidadania, a possibilidade de aprofundar aquelas inquietações que me desafiavam no cotidiano profissional. Como dissertação, desenvolvemos um estudo sobre as vivências dos jovens estudantes que estavam concluindo o Ensino Médio. Já nesse período, como desdobramento da dissertação, tivemos o desejo de encaminhar o trabalho para o doutorado, acompanhando os jovens pesquisados em seu ingresso no Ensino Superior.

Por motivos diversos, a continuidade dos estudos para o doutorado foi adiada por 5 anos. Nesse período, devido à minha configuração familiar, tive a oportunidade de atuar como pedagoga no Ensino Médio e como professora na formação docente em contextos bem variados, como localidades fronteiriças da região Amazônica, capitais do Norte e Nordeste do País e o interior Potiguar, atuando nos IFs do Amazonas e do Rio Grande do Norte, respectivamente. As vivências dos sujeitos nesses contextos tão singulares, em seus ambientes educativos formais, sempre me inquietaram a retomar os estudos e as pesquisas.

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Atuando desde 2011 com a formação docente no IFRN, no Campus Ipanguaçu, em meados de 2013 iniciamos um trabalho de acompanhamento dos estudantes no campus, por meio da institucionalização do Observatório da Vida do Estudante da Educação Profissional (OVEP). Nesse contexto, lancei foco para a observação das vivências dos licenciandos. O programa do OVEP não teve continuidade, apesar de sua relevância, sobretudo por falta do apoio e investimentos. No entanto, essa aproximação e olhar atencioso com a realidade acadêmica me fizeram refletir sobre alguns aspectos, como os recentes processos de acesso de jovens estudantes do interior ao ES público, via IFs, sobretudo para a formação docente. Iniciei, assim, um esboço de um possível projeto de pesquisa que traria os indícios da presente tese.

Em 2015, ingressei nos estudos de doutoramento, pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRN com um projeto que pretendia investigar sobre a formação docente do jovem estudante na licenciatura no IFRN. O projeto inicial precisou ser repensado, dadas as fragilidades apresentadas. Nesse sentido, em nossas primeiras reuniões de orientação, encontrei junto ao meu orientador a oportunidade de articularmos nossos interesses e, sobretudo, com a preciosa abordagem que me foi apresentada por ele: ancorar o novo objeto de estudo em um aporte teórico-metodológico muito promissor. No percurso do doutorado, a participação no grupo de estudos e pesquisas “Escola Contemporânea e Olhar Sociológico” (ECOS), liderado pelo professor Adir Ferreira, foi fundamental para a construção do processo da pesquisa.

Assim, investigar sobre a relação entre ser jovem e ser estudante no ES encontra vestígios em minha biografia e se configura como uma problemática que foi sendo tramada ao longo da trajetória a partir de inúmeros fios.

As experiências que vivenciei como uma jovem licencianda em Pedagogia, como bolsista de iniciação científica, como estudante na pós-graduação, como pedagoga e como professora em diferentes níveis e modalidades da educação permitiram-me conhecer estudantes com percursos e vivências diversas.

Nos últimos 7 anos, como professora da formação docente inicial no IFRN, tenho conhecido e compartilhado, de perto, com os jovens licenciandos algumas das suas expectativas, dificuldades, conquistas, sonhos, pensamentos e sentimentos, que vão além dos seus papéis como estudantes acadêmicos, uma vez que a vida dentro e fora do IFRN não são de pessoas diferentes, como me ensinam, cotidianamente e concretamente, meus jovens graduandos. Eles e elas continuam sendo jovens na travessia pelo Ensino Superior; são jovens estudantes acadêmicos com seus enfrentamentos e superações desde o primeiro período, ao longo do curso e até a sua conclusão ou não...

São algumas dessas vivências dos jovens estudantes acadêmicos (licenciandos) do IFRN, Campus Ipanguaçu, que serão descritas nos demais capítulos desta tese, na esperança de

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que as análises aqui deslindadas contribuam para as discussões sobre os percursos dos jovens estudantes pelo Ensino Superior, permeados por idas e vindas, “altos e baixos”, nunca linear, repletos de meandros e com muitas curvas! Almejamos, sobretudo, que as reflexões possibilitem ampliar as possibilidades de ações de inclusão na Educação Superior, cujo princípio seja a lembrança perseverante de que o percurso pela graduação se configura como um desafio para os jovens estudantes acadêmicos, principalmente os das camadas populares, que essa travessia é singular, individual e intransferível, mas que ela não deve, nem precisa, ser realizada sozinha ou na solidão!

1.5 A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO

Este trabalho está organizado em seis movimentos, sendo um capítulo introdutório, seguido de mais quatro que buscam uma discussão articulada entre teoria e resultados oriundos da empiria e, por fim, um capítulo síntese, sistematizado no formato de considerações finais.

Na introdução (capítulo 1), apresentamos o tema e o contexto educacional do estudo; as questões centrais e os objetivos da pesquisa; bem como o contexto da pesquisadora e a importância do trabalho.

No capítulo 2, explicitamos a proposição explicativa para o objeto/problema de estudo da pesquisa e embasamos os pressupostos teóricos, epistemológicos e metodológicos que fundamentam o trabalho. Especificamente sobre os procedimentos metodológicos, são descritos os movimentos, estratégias, materiais e métodos do/no trabalho de campo; o lócus de investigação e os participantes da pesquisa; os tempos e espaços da coleta de dados, assim como os desafios fecundos no trabalho de campo e nas análises.

No capítulo 3, apresentamos a discussão sobre a condição juvenil e a condição estudantil. Resgatamos reflexões teóricas sobre a construção do ofício de estudante e das imagens e condição de jovem. Articulando a teoria aos dados, conhecemos variados elementos/características dos jovens graduandos e avançamos para a uma análise dos aspectos relação entre ser jovem e ser estudante do ES, a partir de inúmeros e variados elementos das condições em estudo.

O capítulo 4 aprofunda as explicações sobre o problema de investigação ao analisarmos algumas das dimensões dos sujeitos socioculturais apreendidas e categorizadas, a saber: a temporalidade, a linguagem, a espacialidade e a afetividade, todas atravessadas por processos de reconfigurações, rupturas, ressocializações e recomeços no percurso dos jovens estudantes acadêmicos.

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O capítulo 5 traz uma tentativa de interpretação geralsobre a problemática investigada, a partir dos resultados e discussões que analisam os sentidos construídos e significados atribuídos pelos sujeitos participantes sobre ser jovem e ser estudante. Intentamos demonstrar como as vivências proporcionadas pela travessia no ES provocam inúmeras e diversas transformações na relação entre ser jovem e ser estudante, ao instaurarem um novo processo estruturante junto aos sujeitos em formação.

Por fim, nas considerações finais (capítulo 6), realizamos uma síntese do que o estudo e nossa interpretação nos permitiram contemplar, retomando as questões e objetivos delineados para a pesquisa e tecendo reflexões gerais acerca dos resultados e análises, assim como sobre algumas das possíveis contribuições e desdobramentos do trabalho.

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2. OS FUNDAMENTOS TEÓRICOS, EPISTEMOLÓGICOS E METODOLÓGICOS DA PESQUISA

Apresentamos, neste capítulo, os principais pressupostos/fundamentos que conseguimos formular, a partir do estudo da fundamentação teórica, epistemológica e metodológica relacionada e que embasa o objeto de estudo do trabalho.

2.1 UMA POSSÍVEL PROPOSIÇÃO PARA O PROBLEMA DE ESTUDO

Retomando a ideia geral do objeto de estudo desta investigação, que trata da relação entre ser jovem e ser estudante, a partir das vivências de graduandos do IFRN-Campus Ipanguaçu, baseando-se nos aspectos da condição juvenil e estudantil, delineamos uma proposição explicativa que se apoia em nosso pressuposto principal, que tem por base a compreensão de que o acesso e a permanência no Ensino Superior proporcionam vivências aos jovens estudantes que provocam/produzem variados movimentos de transformações nas dimensões da condição juvenil e estudantil, constituindo um novo processo estruturante na vida dos sujeitos.

Vale retomar e ressaltar que a ideia de acesso e a permanência são aqui compreendidos desde o ingresso, abarcando todo o percurso na graduação, e estendido às variadas dimensões de acessar, conectar e vincular-se.

Esse crucial pressuposto que se desdobra e se configura como e para uma potencial explicação inicial do fenômeno teve por base os próprios dados/resultados que foram recolhidos no campo (de acordo com a teoria da pesquisa fundamentada, que será tratada no tópico sobre os procedimentos metodológicos), bem como os fundamentos da sociologia da educação e da juventude, embasado pelo olhar da fenomenologia e etnometodologia que foram empreendidos no decorrer da investigação. Nessa perspectiva, desenvolvemos neste trecho do trabalho discussões que buscam evidenciar os principais elementos teóricos, epistemológicos e metodológicos que direcionaram nosso pressuposto medular e que nos possibilitaram e permitiram formular a proposição explicativa exposta para este trabalho.

Apenas para efeito de organização da escrita, dividimos a explicitação dos embasamentos em teóricos, epistemológicos e metodológicos, pois o que vivenciamos, no processo de construção do estudo, foi um entremear entre os três, configurando um singular construto analítico e uma experiência investigativa desafiadora. Assim, direcionamos a fundamentação epistemológica, bem como algumas categorias teóricas que foram eleitas para análise, sendo alvo de estudos sistemáticos, e, de forma concomitante, houve a elaboração dos

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instrumentais dos procedimentos metodológicos para o trabalho de campo e a própria consecução do mesmo.

Iniciamos com o tópico sobre a abordagem epistemológica (1), seguida da explicação dos conceitos e fundamentos teóricos (2) que embasam esta pesquisa, em formato de notas e, por fim, de forma mais detalhada, a descrição metodológica (3).

Figura 2 – Esquema dos tópicos do capítulo

Fonte: Elaborada pela autora.

Em linhas gerais, trata-se de estudo com abordagem teórico-metodológica pautada na sociologia da educação e da juventude, de base qualitativa, com fundamentos epistemológicos da fenomenologia e da etnometodologia. Assim, na esteira desse entendimento, para compreender o objeto de estudo, temos de levar em conta a dimensão da “experiência vivida”, apreendendo, por exemplo, a perspectiva de diversidade que permeia as juventudes no plural ou grupos juvenis, de forma a ratificar a heterogeneidade juvenil.

Fundamentamos as análises da tese em categorias como condição juvenil; condição estudantil; socialização universitária; socialização juvenil; filiação acadêmica, bem como seus desdobramentos no decorrer do trabalho. Dentre os autores que embasaram essas concepções no estudo, destacam-se: Ferreira (2004, 2014); Paivandi (2014); Coulon (2008); Carrano (2009); Spósito (2004); Dayrell (2007); e Mancovsky (2017), dentre outros. Resgatamos, ainda, resultados de pesquisas sobre expansão do ES público no Brasil, com autores como Zago (2006).

2.2 SOBRE A ABORDAGEM EPISTEMOLÓGICA

O trabalho é orientado epistemologicamente, teórica e metodologicamente, pela fenomenologia e a etnometodologia, que nos ajudam a encontrar as “origens” do sentido e da inteligibilidade dos fenômenos, uma das principais preocupações de ambas as abordagens.

No que se refere às contribuições e à importância da fenomenologia como fundamentação epistemológica na pesquisa em Educação, partimos do entendimento de que o conhecimento é uma construção humana, sócio-historicamente contextualizada no tempo e

3) PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS 1) ABORDAGEM EPISTEMOLÓGICA (Fenomenologia – sentidos e significados, Etnometodologia) 2) NOTAS TEÓRICAS (Sociologia da Educação e Juventude)

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espaço. Nesse sentido, faz-se relevante uma abordagem epistemológica cujo foco volte-se às interações entre sujeitos-sujeitos/sujeitos-objetos, para a análise específica e rigorosa, dos detalhes vividos, das relações sentidas, percebidas.

Nessa perspectiva, a fenomenologia se apresenta como abordagem com importante “potencial contributivo às investigações que se direcionam às experiências entre os sujeitos, pois se trata de uma visão interpretativa que contribui para a base do conhecimento, com a experiência percebida pelos sujeitos” (ESTEBAN, 2010, p. 73).

Como base epistemológica para a pesquisa em tela, a fenomenologia é entendida como uma abordagem, uma atitude, uma postura investigativa que orienta o “olhar” da pesquisadora para o fenômeno investigado. Para a investigação aqui empreendida, o foco remeteu-se à análise rigorosa da experiência vivida pelos sujeitos que experimentam a condição juvenil atravessada pela condição estudantil. O “olhar” fenomenológico se direcionou para as experiências vividas no ES na condição de jovens estudantes. O tempo e espaço foram compreendidos, assim, como tempos e espaços vividos, uma vez que um dos principais fundamentos da pesquisa fenomenológica é a ênfase que é colocada na compreensão da experiência vivida dos outros (GIL, 2010).

Um aspecto a ser destacado como um importante fundamento no qual a pesquisa fenomenológica se ancora é o de que é preciso trazer a perspectiva do sujeito. No trabalho em discussão, os jovens estudantes acadêmicos estão em visibilidade. Foram, principalmente, as visões de mundo (percepções referentes às condições juvenil e estudantil) dos próprios sujeitos que estiveram em ênfase, sendo essa uma importante dimensão da postura fenomenológica. Brum, Bartineti e Souza (2013) definem a fenomenologia como “ciência rigorosa da experiência”, ao explicarem que, na abordagem fenomenológica, interpreta-se o mundo pela consciência do sujeito, tendo por base as experiências vividas, que poderão ser concretas, sensações ou recordações, não importando se são reais.

Outro aspecto a ser elencado remete-se à atitude fenomenológica de se colocar em suspensão os preconceitos que o pesquisador possui sobre o objeto de estudo. Um esforço em “descontaminar”, segundo Husserl, as visões que foram impostas ou naturalizadas sobre o fenômeno, em um constante exercício de um “olhar” de estranhamento, que rompe com o naturalizado, que coloca em estado de questionamentos, que se atenta às semelhanças tanto quanto às diferenças e aos desvios. Estabelece-se, assim, uma relação mais coletiva, na qual a fala do outro mostra outras facetas e dimensões. É assumir uma postura atenta de vigilância epistemológica à escuta do que o sujeito está falando e não o que o pesquisador quer ouvir, levando-se em consideração que o pressuposto será submetido à análise sistemática. Esse exercício foi bem importante neste trabalho, sobretudo por eu ser, também, professora dos

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