Atletas olímpicos, atletas da vida.
Recordistas do Longeviver
Nina Jackson, de 103 anos, dá seu conselho a todos os pretendentes a centenários: “Adapte-se às mudanças enão fique preso no passado”.
Por Luciana Helena Mussi uando imaginaríamos que, um dia, “Longevidade” seria um destaque nos Jogos Olímpicos? Justamente no palco dos grandes deuses, atletas que carregam saúde, disposição e garra.
Para quem não sabe, “Olimpíada” é o nome dado ao período de quatro anos compreendido entre duas edições dos Jogos Olímpicos. Atletas de centenas de países se reúnem num país sede para disputarem um conjunto de modalidades esportivas. Os jogos olímpicos eram considerados uma homenagem aos Deus Zeus.
A própria bandeira olímpica representa essa união de povos e raças, pois é formada por cinco anéis entrelaçados, representando os cinco continentes e suas cores. A paz, a amizade e o bom relacionamento entre os povos são os princípios dos jogos olímpicos.
Agora, na edição de 2012 em Londres, ousaríamos dizer que, além dos cinco anéis, poderíamos acrescentar outro, valioso e igualmente importante e desafiante: a cultura do nosso longeviver.
Dizemos “Não” a Olimpíada dos Vovós, mas “Sim” a Olimpíada daqueles que lutam pela vida e rejeitam terminologias há muito utilizadas e rejeitadas pelo indivíduo que envelhece: por que nos tornamos, necessariamente, avôs e avós?
Legítimos representantes do “Longeviver”
O cavaleiro canadense Ian Millar lidera a lista de idosos recordistas em Londres caminhando para sua décima participação. Aos 65 anos de idade, é o recordista de participações em Olimpíadas em toda a história. Apesar de ter estreado em 1972, Millar conquistou apenas uma medalha, justamente em sua última participação até agora. Ele levou a prata na competição por equipes em Pequim 2008.
pertence ao japonês Hiroshi Hoketsu, de 71 anos de idade. Ele vai competir na prova de adestramento equestre e pode superar o recorde histórico de longevidade no Rio de Janeiro, em 2016.
O competidor mais velho da história das Olimpíadas ainda é o atirador Oscar Swahn, que competiu nos Jogos de 1920 aos 72 anos.
O europeu, no entanto, ganhou seis medalhas olímpicas – três ouros, uma prata e dois bronzes – enquanto Hoketsu ainda busca sua primeira medalha. O Brasil também tem seu representante. O mesa-tenista Hugo Hoyama é bem mais novo que os cavaleiros estrangeiros, mas também vai bater em Londres um recorde de longevidade. Aos 43 anos, ele vai ser o brasileiro que mais disputou Olimpíadas.
Hoyama vai igualar a marca do iatista Torben Schmidt Grael, com seis participações, e Rodrigo Pessoa, um craque do hipismo, que também completa, em Londres, sua sexta Olimpíada.
A italiana Josefa Idem, da canoagem, vai para sua oitava olimpíada, aos 48 anos de idade. Ela é a recordista de participações – serão oito após Londres. Mãe de dois filhos, nascidos um ano antes de Atlanta, em 1996, e de Atenas, em 2004, ela quer mais:
“As pessoas brincam comigo, dizem para eu fazer mais um filho e competir no Rio de Janeiro em 2016”. Idem já possui quatro medalhas olímpicas – um ouro, duas pratas e um bronze.
No entanto, a europeia está longe de ser a competidora mais velha da história. O posto pertence à britânica Lorna Johnstone, que competiu em 1972, na prova de equitação aos 70 anos.
As outras atletas da vida – recordistas no Longeviver
A americana nascida na Índia Tao Porchon Lynch foi reconhecida pelo livro Guiness de recordes como a mais velha instrutora de ioga do mundo, aos 93 anos de idade. A professora ensina a técnica toda segunda-feira para alunos em um subúrbio de Nova York. Tao foi atriz, modelo e chegou a marchar ao lado do líder indiano Gandhi por duas vezes.
Ela diz: “Enquanto respirar ensinarei ioga. Depois, voarei para outro planeta”. Qual o caminho para essa tão desejada longevidade saudável?
Filantropia
Aos 102 anos de idade, Nora Hardwick posou nua como Miss Novembro para um calendário de uma entidade beneficente: “Eles não conseguiram mulheres suficientes para os 12 meses. Tudo foi feito com muito bom gosto. Eu usei um lenço de tule rosa para esconder as partes estratégicas”.
Nora Hardwick diz que dedicou sua vida à comunidade onde vive, trabalhando para o correio do vilarejo de Ancaster, no condado de Lincolnshire, no norte da Inglaterra. Como membro da prefeitura local, ajudou a angariar fundos para comprar áreas de lazer para as crianças da região.
A matéria da BBC “Centenárias dão dicas sobre como chegar bem aos 100 anos”, por Lucy Wallis explica que estudos indicam que índices de mortalidade diminuem entre os que colocam os interesses dos outros antes dos seus.
A teoria é que dar alguma coisa a alguém pode gerar um sentimento de propósito e de valor próprio, resultando no chamado “êxtase de quem ajuda” – uma sensação física resultante da liberação de endorfinas após um ato de bondade ou generosidade. Alguns especialistas dizem que esses sentimentos podem reduzir o estresse, promover o bem-estar e fortalecer o sistema imunológico.
Álcool e Vida Longa
Muitos centenários dizem ser partidários de um trago ocasional. E, de fato, já houve estudos científicos associando saúde e longevidade ao consumo moderado de álcool.
Um famoso centenário britânico que gostava de um Martini era o comediante - e fumante de cigarrilhas - George Burns, que morreu aos cem anos. Ele brincava: “Basta um drinque para eu ficar bêbado. O problema é que nunca me lembro se estou no décimo-terceiro ou décimo-quarto”.
Mas no que diz respeito ao consumo do álcool e a longevidade, não parece haver consenso entre especialistas. E, de acordo com dados divulgados em março pelo Sistema Nacional de Saúde britânico (NHS na sigla em inglês), mortes por doenças do fígado na Inglaterra atingiram índices recordes.
Teorias científicas tendem a se concentrar nas mudanças físicas que podemos fazer no nosso estilo de vida para evitar doenças associadas à idade e aumentar nossa expectativa de vida. Entre elas, fazer exercícios regularmente e manter uma dieta saudável, rica em vitaminas e minerais.
Alguns estudos, por exemplo, afirmam que uma dieta com poucas calorias pode aumentar a expectativa de vida de uma pessoa em até 25 anos. Não existe, no entanto, uma teoria que agregue os estudos sobre o assunto e ofereça aos especialistas a fórmula definitiva da longevidade.
Londres diz: “A ciência está intrigada, ainda não entendemos o que produz um centenário porque todos eles são únicos”.
Talvez seja melhor ficarmos sem entender. Como controlar e tratar uma produção de centenários em massa?
Otimismo
Alice Herz-Sommer, que tem 108 anos, diz: “Minha irmã gêmea era um tipo pessimista, ela morreu antes de fazer 70 anos porque nunca ria, nunca. Mas rir é uma coisa linda. Sou uma otimista, para mim, apenas as coisas boas, nunca os pensamentos ruins”.
Nascida em 1903, Herz-Sommer conseguiu manter uma atitude positiva apesar de um começo de vida terrível. Ela é a mais idosa sobrevivente do Holocausto, ficou presa no campo de concentração de Terezin (também conhecido como Theresienstadt), perto de Praga, com o filho pequeno, Raphael.
Ela sobreviveu tocando piano em concertos dentro dos campos de concentração. O marido morreu na Alemanha, no campo de concentração de Belsen. (ver http://www.youtube.com/watch?v=bq9a8gfzpQw).
“Na minha opinião, músicos são pessoas privilegiadas. (A música) leva você, na primeira nota, a um outro mundo, não um mundo com supermercados, e não com dinheiro, um mundo com paz e beleza”, ela diz.
O especialista em envelhecimento Tim Spector vê certa dose de verdade no argumento de Herz-Sommer em favor da calma interior e do otimismo. No seu novo livro, Identically Different, Spector concentra sua atenção na epigenética: ciência que estuda como o meio-ambiente e as decisões que você toma podem ter impacto sobre seu código genético.
Um estudo publicado em 2011 na revista científica Applied Psychology: Health and Wellbeing parece confirmar essa a teoria do otimismo, dizendo que pessoas que pensam positivo são mais felizes, e que pessoas felizes vivem mais tempo.
Vida Ativa
Peggy Hovell, com cem anos, é positiva a ponto de não sentir qualquer medo. Seu plano de saltar de paraquedas, já nonagenária, como parte de um evento beneficente, foi abandonado em virtude de conselhos médicos.
“Eles disseram que se eu saltasse minha retina iria provavelmente se romper e eu ficaria cega”. Em vez de diminuir o ritmo à medida que envelhece, Hovell está aumentando a velocidade: “Adoro dirigir e gosto de dirigir rápido”, diz a
Esse não é o comportamento que você esperaria de uma mulher de idade avançada, mas um teste de motorista, feito quando ela completou 96 anos, provou que os reflexos de Peggy Hovell estavam tão aguçados quanto os de um motorista 40 anos mais jovem.
Sua força de vontade e motivação pode ajudar a explicar sua longevidade, diz Spector. Ele completa: “Se você tem a força de vontade para fazer coisas, você tem uma visão otimista, de que não vai se machucar. O pessimista, no entanto, vai pensar que, se fizer aquilo, corre o risco de quebrar a perna e, portanto, vai ficar em casa o dia inteiro”.
Spector lembra que a ciência já demonstrou que um estilo de vida ativo é vital quando se trata de viver uma vida longa e saudável. Uma característica que muitos centenários parecem compartilhar é o desejo de continuar vivendo. Rompendo os próprios limites, surge o francês Robert Marchand. Mais um lutador da vida que se tornou o mais rápido centenário a percorrer a distância de 100 quilômetros no final de setembro/2012, ao completar o percurso numa pista em Lyon em 4 horas, 17 minutos e 27 segundos – recorde certificado pela federação de ciclismo da França.
Marchand, que completará 101 anos em novembro, aderiu a prática do esporte na juventude: começou com o boxe e depois adotou o ciclismo ao comprar sua primeira bicicleta, em 1978, aos 66 anos.
Cientistas tentam compreender a longevidade e a vitalidade de Robert. Quais os segredos de uma vida longa e saudável? Pesando 51 quilos, ele conta que nunca fumou na vida, mas admite uma queda por vinho e por mulheres. Quem sabe os prazeres não sejam a chave para o bem viver.
Ativa e resiliente, Nina Jackson, de 103 anos, desafia a velhice: “Não me sinto nem um pouco diferente, algumas vezes sinto como se tivesse 50, às vezes até mais jovem”. Seu conselho a todos os pretendentes a centenários é: “Adapte-se às mudanças e não fique preso no passado”.
Ah...o passado, tão tentador, tão colhedor. Mas Nina tem razão, o importante é incorporar esse passado ao nosso presente/futuro e viver cada dia, se possível, sempre, como se fosse o último momento.
Academias de ginástica - aliadas da saúde e das relações
Finalmente os mais velhos chegaram às academias: “um levantamento da Associação Brasileira de Academias (Acad Brasil) aponta que 30% dos frequentadores têm mais de 60 anos de idade - o equivalente a um exército de 1,8 milhão de pessoas. Há dez anos, essa proporção não chegava a 5%”.
procuradas, hoje o pilates e o alongamento roubam a cena, arrecadando cada vez mais seguidores.
Mas a surpresa fica mesmo por conta da musculação. Nos últimos cinco anos a atividade “do peso” cresceu de forma notável, por conta da orientação médica. A explicação desse aumento, segundo estudo do American College of Sports Medicine, é justificada pelo fato da atividade com sobrecarga conter o avanço da osteoporose.
Muito se fala dos benefícios da atividade física para a saúde, mas não podemos esquecer que as academias proporcionam também uma ampliação na rede de relacionamentos das pessoas e, neste caso, vale dizer que isto ocorre em qualquer faixa etária. Exercícios para o corpo, para a mente e para a alma, essa é a dica.
Mas, se tudo isso não tiver nada a ver com seus desejos e anseios, sem problemas: arregace as mangas, vista sua criatividade, tome um golinho de motivação com uma pitada de imaginação e siga em frente. Com certeza, dará certo.
Fundo Estadual do Idoso
A preocupação com o acelerado envelhecimento da população brasileira, incluindo o número de nonagenários e centenários, levou o Estado de São Paulo a pensar no desenvolvimento de políticas públicas e de iniciativas independentes voltadas para o idoso. Na última segunda-feira (01/10/2012), foi sancionada em São Paulo a lei que cria o Fundo Estadual do Idoso.
O secretário estadual do Desenvolvimento Social, Rodrigo Garcia, explica que “a ideia da criação do fundo surgiu a partir da constatação de que no Estado de São Paulo existem mais pessoas acima de 60 anos do que crianças de até 4 anos”.
Ele lembra que “enquanto a década de 1980 foi marcada por políticas públicas voltadas para a criança, agora, com o envelhecimento da população, a atenção se voltou para os idosos”.
Segundo Garcia a lei vai permitir que o mecanismo de isenção fiscal seja utilizado para contribuir com o fundo, destinado a construção de “centros-dia”, estruturas em que o idoso pode passar o dia praticando atividades culturais e de lazer. Além disso, parte do recurso financiará um programa em que academias privadas receberão subsídio para atender idosos de baixa renda. Fica a reflexão: atletas olímpicos, atletas da vida – recordistas do longeviver, homens e mulheres que rompem limites, barreiras que parecem não existir mais para a mente do homem contemporâneo: somos ensinados desde
Qual o objetivo? O que ganhamos com essa luta desenfreada pela preservação da vida? O melhor, o elixir dos Deuses: o presente da imortalidade?
Cada vida é única, e não existem fórmulas para alcançar as idades mais avançadas de modo ativo. Os exemplos aqui citados nos indicam, apenas, as muitas e diferentes estratégias utilizadas nos modos de longeviver.
Data de recebimento: 02/09/2012; Data de aceite: 29/09/2012
Referências
BARELLA, J.E. (2012). Idosos invadem as academias do Brasil. Disponível em
http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/estado/2012/09/10/idosos-invadem-as-academias-do-brasil.htm. Acesso em 10/09/2012.
LOPES, E. (2012). Vovôs olímpicos fazem de Londres os Jogos da
longevidade. Disponível em
http://olimpiadas.ig.com.br/2012-07-26/vovos-olimpicos-fazem-de-londres-os-jogos-da-longevidade.html. Acesso em
30/07/2012.
R7 (2012). Fundo estadual em SP prevê verba para idoso frequentar academia. Disponível em
http://noticias.r7.com/saude/fundo+estadual+em+sp+preve+verba+para+idoso+ frequentar+academia-02102012. Acesso em 04/10/2012.
VÍDEO (2012). Aos 93 anos, idosa é a mais velha professora de ioga. Disponível em
http://www.bbc.co.uk/portuguese/videos_e_fotos/2012/05/120515_ioga_idosa_r c.shtml. Acesso em 17/05/2012.
VÍDEO (2012). Francês de 100 anos bate recorde de ciclismo. Disponível em http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/09/120929_ciclista_centenario_r w.shtml. Acesso em 30/09/2012.
VÍDEO (2012). Saiba como os idosos atletas vivem bem e melhor. Disponível
em
http://noticias.r7.com/videos/saiba-como-os-idosos-atletas-vivem-bem-e-melhor/idmedia/4e60dfc0fc9ba6ca5f4f5169.html. Acesso em 06/10/2012. WALLIS, L. (2012). Centenárias dão dicas sobre como chegar bem aos 100 anos. Disponível em
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/07/120702_segredos_vida_long a_mv.shtml. Acesso em 05/06/2012.
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Luciana Helena Mussi - Engenheira, Psicóloga e Mestre em Gerontologia pela PUC/SP. Doutoranda em Psicologia Social PUC/SP. Colaboradora do Portal do Envelhecimento. E-mail: [email protected]