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População, desenvolvimento e direitos

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POPULAçãO,

DESENVOLVIMENTO

E DIREITOS

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Direitos em questão:

população, meio ambiente e o Cairo

George Martine

Minha proposta nesta apresentação é enfocar a relação entre população, desenvolvimento e direitos com relação à questão ambiental (especificamente, a ameaça climática) e a dinâmica demo-gráfica. Em minha opinião, trata-se de uma das questões mais nevrálgicas para a análise de popula-ção e desenvolvimento e para o futuro da humanidade nesta primeira metade do século XXI. Estou convencido de que a demografia é essencial na compreensão dos desafios nessa área e, portanto, na proposição de soluções. Para ajudar a fazer a ponte entre esses temas e a questão dos direitos, vou enfocar também a Conferência Internacional de População e Desenvolvimento − CIPD de 1994 e a relevância atual e futura do seu Programa de Ação (PoA).

Antes de entrar nessa matéria, porém, eu gostaria de fazer um comentário sobre o significa-do significa-do termo “população e desenvolvimento.” O Cairo ofereceu uma visão ampla das relações entre dinâmica populacional e crescimento sustentável que engloba tanto os estudos e análises sobre a relação entre dinâmica demográfica, economia e sociedade, como as preocupações e ações nas áre-as mais específicáre-as de saúde reprodutiva e gênero. O uNFPA, que se tornou o principal financiador dos temas de população no pós-Cairo, pelo menos na nossa região, tem funcionado com uma defi-nição mais estreita, considerando “população e desenvolvimento” uma área de natureza secundária, separada e subserviente aos temas de saúde reprodutiva ou de gênero. Neste momento, em que se está começando a discutir planos e ações relacionados com Cairo + 20, pode ser uma boa ocasião para retomar a visão inicial e ampla adotada pela CIPD.

Dinâmica demográfica e mudanças climáticas

Na sessão de abertura do XV Encontro da Abep, em 2006, eu afirmava que as tendências da economia global pareciam fazer parte de uma loucura desenfreada e suicida da humanidade. Isto porque o padrão de desenvolvimento almejado – mesmo que pudesse ser conseguido − implicaria

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uma destruição sistemática das suas fontes de sustentação. É impressionante registrar o quanto essa ameaça tem se intensificado nos últimos quatro anos!

A ciência hoje em dia é incontrovertida a respeito da ameaça das mudanças climáticas. Somente os conservadores mais empedernidos e os avestruzes podem continuar negando as evi-dências acumuladas nos relatórios do Lord Stern e, sobretudo, do IPCC (Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas). Entretanto, interesses poderosos continuam manipulando a mídia a respei-to desta ameaça, tentando tampar o sol com a peneira. O que talvez seja menos óbvio é que as questões relacionadas com as mudanças climáticas não são apenas técnicas, mas também éticas. As questões de direitos conflitantes − os meus direitos versus os seus; os direitos ao desenvolvimento

versus as obrigações com o planeta; os direitos desta geração comparados com os direitos de

ge-rações futuras; os direitos ao consumo dos países desenvolvidos versus os direitos dos países que querem se desenvolver consumindo – são essenciais em qualquer discussão desse tema.

Foi o desenvolvimento dos países já industrializados que nos colocou na situação crítica em que vivemos agora. O alcance de níveis parecidos de desenvolvimento e consumo, mesmo que seja por uma parcela relativamente pequena da população dos países em desenvolvimento, seria su-ficiente para exaurir definitivamente a capacidade do planeta como fonte de recursos naturais e sumidouro de gases carbônicos.

A dinâmica demográfica é muito importante nessa equação, mas as relações não são lineares nem simples. As transformações demográficas são parte integral do processo de desenvolvimento e, portanto, afetam e são afetadas pelas mudanças ambientais. Nessas relações, temos que olhar separadamente os processos de crescimento, distribuição e composição.

Crescimento populacional e mudanças climáticas

Muitos têm voltado a falar do crescimento populacional como um dos principais fatores que está acelerando o processo de mudanças climáticas, levando à crença de que o problema poderia facilmente ser resolvido com programas de planejamento familiar. Entretanto, os impactos do cresci-mento populacional dependem, fundamentalmente, da sua conexão com a trajetória do desenvolvi-mento. Sozinhos, programas de planejamento familiar obviamente não resolvem a questão do cres-cimento populacional, pois dois terços deste são inerciais neste momento histórico. Muito menos resolveriam o problema ambiental no curto prazo: os grupos populacionais que apresentam maiores níveis de fecundidade, na atualidade, são os que consomem menos. Portanto, vale revalidar o direito à saúde sexual e reprodutiva e repudiar novamente qualquer alusão ao controle populacional.

Entretanto, dependendo do êxito das nações nos seus esforços de desenvolvimento, os au-mentos populacionais certamente se tornam críticos no médio e longo prazos. As últimas décadas mostraram como países pobres podem rapidamente transformar-se em países de consumidores.

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george martine Direitos em questão: população, meio ambiente e o Cairo

Quando esses países têm uma população de grandes dimensões, como a China, a Índia e mesmo o Brasil, basta que uma parcela de sua gente passe a consumir nos mesmos padrões que os países desenvolvidos para a situação mundial ficar insustentável. Já temos sete bilhões de pessoas na Terra e estima-se que um bilhão delas consumam no estilo “desenvolvido”, e esse número cresce diaria-mente. Na outra ponta, existe um bilhão de pessoas pobres que sofrem de fome crônica e que serão as mais prejudicadas pelas mudanças climáticas.

Isto demonstra que o atual modelo de desenvolvimento, baseado no aumento permanente da produção e do consumo, encontra-se numa encruzilhada. A redução da pobreza é um objetivo essencial da humanidade, mas a generalização das práticas de produção e consumo dos países de-senvolvidos levará a aumentos intoleráveis de emissões de gases. Por outro lado, a manutenção da iniquidade entre países ricos e pobres por questões ambientais seria impensável. As soluções efeti-vas a esse dilema passam, inevitavelmente, por mudanças na cultura de consumo e no próprio mo-delo de desenvolvimento. É um fato de difícil aceitação e, por isso, panaceias aparentemente menos dolorosas, como a da redução do crescimento populacional, sempre aparecem como mais atraentes.

E a urbanização?

O crescimento urbano também tem sido citado como um dos culpados pela ameaça climá-tica. Esta ilação também parece óbvia, já que as cidades absorvem, em nível agregado, praticamente todo o crescimento populacional mundial, geram entre 80% e 90% do PIB dos países e representam o lócus mais importante dos processos modernos de produção e consumo. Entretanto, esta asso-ciação entre urbanização e ameaça climática é espúria, pois as cidades simplesmente representam o centro nevrálgico da civilização moderna que conhecemos e o sítio onde o atual modelo de desen-volvimento se expande da maneira mais eficiente. As cidades crescem mais porque oferecem mais oportunidades de mobilidade social; elas são os centros de produção porque apresentam vantagens de escala e proximidade; finalmente, a população urbana consome mais porque é mais rica.

Mas, ao mesmo tempo, as cidades apresentam vantagens importantes, pois a concentração reduz a demanda per capita de terra, de energia e de recursos naturais. Por isso, estudos recentes mostram, por exemplo, que a pegada ecológica do residente da cidade de São Paulo, apesar de esta cidade ser a maior e mais poluída do país, é menor do que a do brasileiro médio. Isto nos dá uma ideia de que qualquer tentativa de desconcentração ou de redução do processo de urbanização tenderia, portanto, a agravar o problema ambiental.

Por outro lado, não há dúvida de que o processo desordenado de crescimento urbano e o descaso dos políticos com a gravidade das questões sociais e ambientais no processo de crescimen-to urbano constituem um facrescimen-tor que agrava desnecessariamente os seus efeicrescimen-tos negativos. No caso brasileiro, esse tipo de atitude teve um efeito cascata que impediu o exercício do direito à cidade

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do contingente mais numeroso – a população pobre – e prejudicou a qualidade de vida de toda a população urbana, reduzindo também a capacidade das cidades brasileiras de competir no mercado global. A falta de planejamento do uso sustentável do espaço e o descaso com as necessidades dos pobres têm aumentado os custos de infraestrutura, provocado a degradação ambiental e multiplica-do a frequência e a gravidade das calamidades públicas. Com isso, as emissões de gases das cidades brasileiras acabaram também aumentando.

As origens destas falhas na gestão do crescimento urbano refletem uma tolerância histórica da sociedade brasileira com a desigualdade e a falta de respeito com o direito à cidade. O problema continua até hoje, apesar da redução drástica do ritmo de crescimento das cidades. As autoridades continuam tentando impedir o crescimento, resultando no deslocamento dessa expansão do centro para a periferia das grandes cidades, onde prevalecem populações pobres, infraestrutura ruim e falta de serviços.

Mudanças na composição populacional

No que se refere ao impacto da composição populacional sobre as mudanças climáticas, as evidências são menos claras. É interessante observar que famílias menores, produto da queda da fe-cundidade, consomem mais per capita do que famílias grandes. Especificamente, os DINCs (casais de dupla renda e sem filhos) são formados por pessoas de educação, renda e consumo mais elevados. Na outra ponta, o envelhecimento populacional pode, em princípio, ajudar a reduzir o consumo, porque a população idosa consome menos. Entretanto, pode haver um efeito em direção contrária na medida em que a fabricação de aparelhos, máquinas e tecnologias necessários para assegurar a saúde e o bem-estar dessa população mais velha aumenta as emissões de poluentes. A urbanização, conforme já mencionado, eleva o consumo, mas isto não é o efeito da concentração populacional, mas sim da maior riqueza que caracteriza as localidades urbanas.

Em suma, os efeitos da dinâmica demográfica são, sem dúvida, muito importantes na con-formação dos câmbios climáticos e deveriam receber maior atenção da parte do IPCC e de outros formuladores de políticas. Entretanto, esses impactos são mais complexos do que parecem à primei-ra vista e são moldados pelos processos de desenvolvimento. Não existem panaceias demográficas para o problema do aquecimento global.

Cairo+20 e a retomada de população e desenvolvimento

Temas como as mudanças climáticas e muitas outras questões que emergiram desde a CIPD de 1994 precisam ser incorporados na agenda de direitos. A Plataforma de Ação da CIPD do Cairo re-presentou uma mudança de paradigma e deu uma contribuição histórica para a humanidade, quan-do passou a tratar população, desenvolvimento e ambiente sob a ótica quan-dos direitos. Suas resoluções

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george martine Direitos em questão: população, meio ambiente e o Cairo

no Plano de Ação abordaram quase todos os aspectos relevantes das relações entre população e de-senvolvimento. Entretanto, nem todos esses temas mostravam os mesmo avanços ou receberam os mesmos apoios políticos. Na realidade, somente os temas de saúde reprodutiva e empoderamento das mulheres tiveram apoios políticos significativos em nível global, seja pelo movimento de mulhe-res, seja por organismos internacionais como uNFPA ou unifem.

Nesse momento em que se inicia a discussão a respeito da era pós-Cairo e se analisa o que deve ser feito para estender ou substituir a CIPD, vale a pena reavaliar a importância das questões que ficaram para trás nesses 15 anos − aquelas referentes à população e ao desenvolvimento lato

sensu. uma das recomendações mais claras do PoA diz respeito à necessidade de incorporar os

fato-res populacionais em todas as instâncias de planejamento. No Brasil, sob a liderança da CNPD e com a colaboração da Abep, houve um esforço importante nesse sentido, mas temos que reconhecer que esta preocupação não tem sido generalizada no mundo e que os resultados têm ficado bastante aquém do potencial.

Esta situação, a meu ver, tem três causas relacionadas. Primeiro, a própria discussão dos te-mas centrais às questões da relação entre dinâmica demográfica e desenvolvimento é bastante desi-gual no PoA, ou seja, o tratamento de alguns temas – inclusive o significado da própria recomenda-ção de “integrar os fatores demográficos no planejamento” – era bastante precário na época do Cai-ro. Segundo, essas debilidades e limitações da nossa “bíblia” foram se acentuando com o passar do tempo, pois, inevitavelmente, os cenários de desenvolvimento foram se alterando, até por causa de transformações demográficas que não poderiam ter sido previstas em 1994. Terceiro, a falta de um patrocinador financeiro – entidade ou movimento social realmente interessado em atualizar infor-mações, análises e políticas a respeito das relações entre população e desenvolvimento – contribuiu para a estagnação dessas temáticas em muitos países. Aqui no Brasil, isso não é tão grave, graças à atuação da CNPD e da Abep e das lutas dos seus associados para ampliar cada vez mais o seu raio de ação, mas a nossa situação não é típica.

No meu entender, o desafio que se apresenta nesse momento é de fortalecer o espírito do paradigma estabelecido na CIPD do Cairo − ou seja, a compreensão das relações entre população e desenvolvimento pela ótica de direitos −, mas avançando em dois sentidos complementares: supe-rar a concentração estreita nos únicos dois temas que tiveram respaldo financeiro ou político (saúde reprodutiva e empoderamento da mulher); e revalidar a concepção da CIPD, na qual “população e desenvolvimento” constituía o conceito genérico que abrigava todas as preocupações relacionadas com dinâmica e direitos na área populacional.

Nesse sentido, é necessário promover sistematicamente (como o faz a Abep) a geração de informações e análises que ajudem a compreender melhor e de forma atualizada essa relação entre população e desenvolvimento e, portanto, aumentar a nossa capacidade de contribuir para o pro-cesso de desenvolvimento. Em alguns setores existe a ideia de que ampliar o escopo de atenção no

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período pós-Cairo e enfocar também os temas em que a dinâmica populacional afeta ou é afetada por processos sociais, econômicos, políticos e ambientais constituiria um golpe contra os avanços conseguidos nas áreas de saúde reprodutiva e equidade de gênero. As discussões a respeito da ne-cessidade de aumentar as iniciativas em população e desenvolvimento frequentemente geram uma reação negativa baseada na percepção de que isto iniciaria uma competição por recursos escas-sos. Nada poderia ser mais equivocado! Não se trata de dois temas ou setores em competição. Esse dilema é totalmente falso porque avanços numa área beneficiam claramente a outra. Precisamos, portanto, trabalhar juntos para revalidar os princípios do Cairo, enquanto fortalecemos nossa con-tribuição para políticas que enfrentem de maneira eficaz os grandes problemas atuais e futuros das nossas sociedades.

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O significado de população

e desenvolvimento

Eduardo L.G. Rios-Neto

Este pequeno ensaio visa resumir a apresentação feita na Sessão Plenária 1 do Encontro da Abep de 2010, na qual foi discutido o significado atual de população e desenvolvimento. Para tanto, torna-se necessária uma revisão do debate tradicional no campo da demografia econômica entre crescimento populacional e renda per capita, uma discussão do arcabouço unificado do crescimen-to econômico e da perspectiva do desenvolvimencrescimen-to humano, uma integração da perspectiva de direitos, derivada do ciclo de conferências das Nações unidas, e uma incorporação, ao debate, das políticas sociais e do Estado de Bem-Estar Social (EBES), bem como da pobreza e desigualdade.

O debate tradicional entre crescimento populacional e renda per capita

Na versão moderna do pós-guerra, o “pessimismo” da relação negativa entre crescimento populacional e renda per capita, num mundo com presença de capital, advém das formulações ori-ginais dos modelos de crescimento econômico, tanto na versão de Harrod-Domar como, principal-mente, no modelo de Solow. A variável-chave para determinar o crescimento econômico nestes tipos de modelos é a poupança, que se iguala ao investimento. O crescimento populacional dilui o capital per capita, fazendo com que a renda per capita diminua. Na lógica interna deste tipo de modelo, não há como escapar da receita de redução do crescimento populacional para gerar um aumento na renda per capita de uma economia nacional. Talvez esta seja a razão para tais modelos terem recebido o rótulo de modelos “neo-malthusianos” e “controlistas”. uma versão mais demográ-fica e menos economicista deste tipo de modelo pode ser encontrada em Coale e Hoover (1958), que procuram mostrar como o crescimento populacional gera um dreno no fundo de acumulação de capital, mediante o aumento de gastos públicos improdutivos.

Nos anos 1980, e coincidindo com a postura liberal do presidente norte-americano Ronald Reagan na Conferência de População do México em 1984, o Relatório do Banco Mundial de 1984, ela-borado sob supervisão técnica de Nancy Birdsall, e o Relatório do National Research Council (NRC),

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da Academia Nacional de Ciências Americanas, estabeleceram uma visão revisionista, segundo a qual há uma relação negativa entre crescimento populacional e renda per capita apenas quando as instituições não são adequadas ou há falhas de mercado. Os estudos afirmam que não há evidências empíricas definitivas sobre a relação empírica entre crescimento populacional e aumento da renda

per capita.

Além dos argumentos teóricos sobre externalidades, falhas de mercado e ausência de insti-tuições apropriadas, o debate era, antes de mais nada, guiado pelas evidências empíricas das aná-lises econométricas. Na década de 1980, as evidências apontavam para a ausência de correlações negativas e os rumos mudaram a partir das evidências empíricas obtidas nos anos 1990.

Já no final da década de 1990, resultados publicados posteriormente no livro Population

Matters (2001) indicavam um impacto positivo do aumento na razão PIA/POP1 sobre o crescimento

da renda per capita, dando início às elaborações sobre o chamado bônus ou dividendo demográfico. Outros estudos econométricos mostravam que o impacto da variável crescimento populacional, em-bora fosse negativo, não era estatisticamente significante. Entretanto, quando as variáveis fecundi-dade (ou taxa bruta de natalifecundi-dade) e mortalifecundi-dade (ou taxa bruta de mortalifecundi-dade) eram incluídas nas regressões separadamente, o resultado não era um efeito igual com sinal trocado, conforme seria de se esperar, caso o efeito do crescimento populacional fosse igual a zero. Tanto a fecundidade quanto a mortalidade tinham efeito negativo e estatisticamente significante sobre a renda per capita. Estes resultados paradoxais também apontavam para a operação de um dividendo demográfico, com im-pactos específicos da estrutura etária sobre o crescimento da renda per capita.

No final da década de 2000, Headey e Hodge (2009) realizaram uma meta-análise de estudos empíricos, relacionando o crescimento populacional com o aumento da renda per capita. Eles con-cluíram que os efeitos diretos da transição demográfica sobre o crescimento econômico dependem da temporalidade. O efeito de um aumento da fecundidade é adverso no curto prazo e positivo no longo prazo. Nos estudos utilizando o crescimento populacional como variável independente, o impacto sobre o aumento da renda per capita ficou mais negativo apenas a partir dos anos 1980. O efeito negativo do crescimento populacional foi mais importante no caso do aumento imediato da razão de dependência jovem. Há um efeito positivo do crescimento populacional por intermédio do crescimento da população adulta, mas que é menos robusto do que no caso anterior, dependendo de outros controles, como aspectos institucionais e políticos, condições de educação e saúde das sociedades analisadas.

Na sua concepção clássica, o dividendo demográfico relaciona-se com o maior crescimento da PIA em relação à população total. E este é precisamente o resultado mais ambíguo da

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eduardo l.g. rios-Neto O significado de população e desenvolvimento

-análise de Headey e Hodge (2009), não sendo corroborado pelos estudos empíricos. Já o resultado mais robusto é o crescimento da renda per capita decorrente da redução na razão de dependência infantil, que é a consequência imediata da queda na fecundidade. A redução da fecundidade afeta não só a razão de dependência infantil no nível macro, mas também esta razão no nível domiciliar, um efeito sugerido pioneiramente por Leff (1969).

O arcabouço unificado do crescimento

Em uma linha paralela aos modelos de estimativa da relação negativa entre crescimento populacional e aumento da renda per capita, Oded Galor, junto com colegas como David Weil, de-senvolveu o arcabouço unificado do crescimento, que distingue três regimes de crescimento econô-mico: a era malthusiana; o regime de crescimento pós-malthusiano; e o regime moderno de cresci-mento sustentado.

A era malthusiana é caracterizada pela “lei de ferro dos salários” ou “armadilha da pobreza”; segundo a qual, no longo prazo, o progresso técnico se reverte em um maior tamanho populacional com nível de subsistência constante. Grande parte dos ganhos salariais durante o período pré-indus-trial decorria de crises exógenas de mortalidade, tais como as pestes. uma contribuição recente na análise da era malthusiana foi feita por Gregory Clark (2007), que procura explicar a revolução indus-trial por intermédio da dinâmica da era malthusiana pré-indusindus-trial na Inglaterra, que teria favorecido uma espécie de darwinismo social, com maior capacidade reprodutiva dos mais ricos. Se a releitura da armadilha da pobreza malthusiana tem contribuído para os modelos macroaplicados aos países atrasados contemporâneos e para estudos de demografia histórica, visões modernas sobre o “círculo vicioso da pobreza” contemplam o contexto de alta fecundidade. A pobreza poderia gerar um me-canismo de “autoperpetuação” quando as famílias pobres decidem ter muitos filhos, o que acabaria afetando negativamente a decisão de investimentos em saúde, nutrição e educação de cada uma destas crianças. Este problema é agravado quando há uma discriminação de gênero, em detrimento das meninas e em favor dos meninos. Nesses casos, a literatura sugere a criação de mecanismos que contribuam para romper com os incentivos perversos (SACHS, 2005).

O regime pós-malthusiano é caracterizado pela combinação do crescimento populacional com o aumento da renda per capita. uma das possíveis explicações para esta transição entre a era malthusiana e o regime pós-malthusiano seria o próprio crescimento populacional e a elevação da densidade demográfica, o que teria favorecido o progresso tecnológico no século XIX. Esta explica-ção indica que, pelo menos na experiência histórica, o crescimento populacional foi positivo para a expansão econômica na ruptura do regime malthusiano via progresso tecnológico. A hipótese de Clark, mencionada anteriormente, seria uma alternativa não excludente para explicar a revolução industrial.

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Finalmente, a transição do regime pós-malthusiano para o regime moderno de crescimento sustentado depende fundamentalmente da transição demográfica. Tanto Galor quanto outros eco-nomistas seguidores desta linha buscam uma teoria endógena da transição demográfica no bojo do próprio crescimento econômico com progresso tecnológico. Há um certo consenso de que o cha-mado “trade-off” entre quantidade (fecundidade) e qualidade (educação) dos filhos seria a principal explicação para a transição demográfica. O debate maior reside nos motivos para o incremento no investimento em capital humano (qualidade) das crianças.

Galor e Weil (1999) buscam uma teoria endógena para a transição entre o regime pós-mal-thusiano e o regime moderno de crescimento econômico. O progresso tecnológico apresentava um viés de qualificação que justificava uma demanda por capital humano. Já o aumento na renda

per capita durante este período induzia uma crescente demanda por qualidade em detrimento da

quantidade dos filhos, o que justificaria uma queda na fecundidade. Para Soares (2005), o aumento exógeno na expectativa de vida ao nascer induz um acréscimo na escolaridade, decorrente do in-vestimento em capital humano, que é suficiente para gerar uma queda na fecundidade compatível com a transição demográfica. Mudanças exógenas na saúde, que caracterizam um deslocamento da chamada “curva de Preston”, servem para explicar as transições demográficas que viabilizam a mudança na direção do crescimento econômico sustentado.

A contribuição do debate sobre a produtividade total de fatores

Grande parte do fundamento de uma visão “controlista” ou “neo-malthusiana”, na segunda metade do século XX, mormente do pós-guerra ao final dos anos 1970, sustentava-se no modelo econômico de crescimento de Solow ou no modelo de Harrod-Domar (como no caso da abordagem clássica de Coale e Hoover, 1958).

A noção de produtividade total dos fatores muda este contexto, afetando o “determinismo controlista” dos modelos anteriores. uma primeira evolução crítica foi incorporar o capital humano como fator específico, juntamente com capital e trabalho. Ainda assim, com a inclusão do capital hu-mano, o componente residual continuou explicando grande parte do crescimento da renda per

ca-pita dos países. Este componenente residual reflete não só o progresso tecnológico, mas também a

eficiência da sociedade, representada, por exemplo, pela qualidade das instituições em vigor e pelo peso da corrupção. Assim, a centralidade da variável crescimento populacional passa a demandar qualificação como alavanca do processo de aumento da renda per capita.

A perspectiva do desenvolvimento humano

A métrica da renda monetária como indicador de crescimento e desenvolvimento econômi-co foi evolutivamente questionada pela literatura até que a econômi-concepção de desenolvimento humano

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se consolidasse. Entender esta evolução é importante para colocar o debate entre população e de-senvolvimento numa perspectiva contemporânea.

Nos anos 1970, a renda per capita monetária já era criticada por abordagens do Banco Mun-dial, que defendiam a satisfação das “necessidades básicas” como estratégia de desenvolvimento. Na década de 1980, o conceito de capacidades desenvolvido por Amartya Sen serviu como inspiração de organismos internacionais, sendo a base teórica para a criação do famoso “Índice de Desenvol-vimento Humano” (IDH). Pobreza, na concepção de Sen, é a falta de capacidades para se adaptar ao meio social e, portanto, a falta de liberdade para se viver dignamente. Pobreza é a privação de auto-nomia para construir perspectivas de futuro. O conceito de capacidades incorpora tanto a possibili-dade de escolha dos ativos necessários ao desenvolvimento, como também a capacipossibili-dade de desem-penho da pessoa (functioning). A abordagem das capacidades gira em torno de três termos centrais: funcionamentos, capacidades e agência. Nos anos 1990, a multidimensionalidade da pobreza foi radicalizada, inclusive com a incorporação da participação política por meio da operacionalização do conceito de “voz” (voice).

Há uma ligação entre o conceito de capital humano e o de capacidade humana. O primeiro está estritamente focado no impacto produtivo do capital humano, enquanto o segundo centra-se nas condições que as pessoas têm para fazer as escolhas adequadas de acordo com os seus objeti-vos. As características distintivas do capital humano constituem o foco na formação da renda indivi-dual ou familiar e a ideia de uma “escolha” de investimento com retorno privado e pessoal.

As Nações Unidas, o ciclo de conferências e a perspectiva de direitos

Se o contexto de desenvolvimento econômico se amplia no âmbito teórico, o ciclo de confe-rências internacionais das Nações unidas em várias temáticas globais consolida a chamada perspec-tiva dos direitos. O ciclo de conferências internacionais começa com a Conferência Mundial para as Crianças, em 1990, e é afetado pela publicação do Relatório de Desenvolvimento Humano da agência PNuD. Esta perspectiva dos direitos é muito importante para consolidar o foco no desenvolvimento humano. Conceitos-chave como as necessidades básicas foram ressuscitados, primeiro pela Confe-rência de Desenvolvimento Social em Copenhague, 1995, e depois pela Declaração do Milênio, de setembro de 2000, que culminou com o estabelecimento das chamadas metas do milênio. No âm-bito populacional, o conceito de direitos sexuais e reprodutivos se consolida com o Plano de Ação da Conferência Internacional de População e Desenvolvimento (CIPD), realizada no Cairo em 1994.

Para Hulme (2007), a CIPD teve extrema importância para o processo de evolução da pers-pectiva de direitos e do conceito de desenvolvimento humano, culminando com a elaboração das metas do milênio. Cairo foi a conferência internacional dos anos 1990 que suscitou um debate mais aquecido entre representantes governamentais, técnicos e ativistas sociais. As negociações de

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bas-tidores demarcaram um claro embate entre os defensores dos direitos sexuais e reprodutivos e as vertentes religiosas, tanto islâmicas quanto o Vaticano e grupos cristãos conservadores.

O papel das políticas sociais e do Estado de Bem-Estar Social

O conceito de desenvolvimento humano possui uma perspectiva mais ampla do que a mera renda per capita monetária, de tal forma que o outro lado da moeda desta nova perspectiva é a importância de políticas sociais e da implementação de um Estado de Bem-Estar Social (EBES) no mundo em desenvolvimento.

O Estado de Bem-Estar Social é a responsabilização da esfera pública pelo bem-estar indi-vidual. Sua introdução permite a discussão de transferências públicas, incluindo a possibilidade da discussão de transferências intergeracionais. Nos países em desenvolvimento, o EBES começa com a seguridade social para a cobertura de riscos, principalmente de aposentadoria, assim como outras perdas de rendimento, muitas vezes implementado de forma regressiva, numa perspectiva “bismar-ckiana”. A universalização dos direitos sociais foi alcançada apenas em poucos países em desenvol-vimento, fazendo com que a política social seja truncada e que políticas sociais focalizadas ou resi- duais sejam desenvolvidas para ampliar a cobertura social. A ampliação de uma cidadania política, até se consolidar nos direitos sociais, é um objetivo perseguido em várias sociedades em tela.

O grande desafio para a consolidação de um EBES em países subdesenvolvidos ou de renda média é a sustentabilidade do gasto público. Num debate sobre universalização versus focalização, é óbvio que o primeiro é preferível ao segundo, mas nem sempre os recursos orçamentários garan-tirão esta possibilidade. uma saída neste contexto é adotar uma perspectiva “desenvolvimentista”, dentro da formulação do EBES, em que o gasto público viabilizaria ou potencializaria o crescimento econômico futuro.

Os desafios do combate à pobreza e crescimento econômico

O foco nas políticas sociais e no EBES, para reduzir as desigualdades e aumentar a cobertura dos riscos sociais da população, traz novamente à baila o debate sobre a relação entre combate à pobreza e crescimento econômico. A marca de alguns regimes de bem-estar é reduzir as desigual-dades, sendo que o crescimento econômico não é condição necessária para a redução da pobreza e dessas desigualdades. As políticas sociais possuem relativa autonomia; entretanto, quanto menor for a desigualdade de renda obervada na sociedade, maior será o impacto do crescimento econômico na redução da pobreza.

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eduardo l.g. rios-Neto O significado de população e desenvolvimento

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Referências

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