UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
RUDINEI HORST
CORRUPÇÃO ELEITORAL: INDUÇÃO INDEVIDA DA VONTADE DO ELEITOR
Ijuí (RS) 2016
RUDINEI HORST
CORRUPÇÃO ELEITORAL: INDUÇÃO INDEVIDA DA VONTADE DO ELEITOR
Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Trabalho de Curso - TC.
UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DCJS - Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientador: MSc. Sergio Luiz Fernandes Pires
Ijuí (RS) 2016
Dedico este trabalho aos que buscam construir um país mais igualitário, baseado no princípio republicano e democrático.
AGRADECIMENTOS
À minha esposa e filhas, que compreenderam, me incentivaram e muitas vezes contribuíram com tempo e recursos para que esse momento chegasse.
Ao meu orientador Sergio Luiz Fernandes Pires, com quem tive o privilégio de conviver nos últimos anos, como meu mestre na caminhada pelo conhecimento, como exemplo na busca pela igualdade, e de amigo, sem o qual não chegaria até aqui.
Aos meus amigos e companheiros militantes que com muito esforço elegeram um governo popular, que instituiu o Programa Universidade Para Todos – PROUNI, que democratizou o acesso a educação superior, possibilitando a minha graduação assim como a de muitos outros em todo País.
“Jesus falou às multidões e aos seus discípulos: Os doutores da Lei e os fariseus têm autoridade para interpretar a Lei de Moisés. Por isso, vocês devem fazer e observar tudo que eles dizem. Mas não imitem suas ações, pois eles falam e não praticam. Amarram pesados fardos e colocam nos ombros de outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo” Mateus 23: 1-4
RESUMO
O presente trabalho de conclusão de curso faz um estudo dos principais mecanismos de combate a corrupção eleitoral e a captação ilícita do sufrágio universal, analisando sua efetividade e principalmente a forma de introdução destes institutos no ordenamento, bem como a sua relação com os princípios constitucionais inerentes ao Direito Eleitoral Brasileiro. O objetivo desta investigação é averiguar a relevância da efetivação destes princípios no processo eleitoral, provocando questionamentos a cerca das condutas que permeiam o pleito atualmente e demonstrando a importância de um processo eleitoral hígido, onde os eleitores tenham a possibilidade de escolher de forma livre e soberana seus representantes. Finaliza demonstrando a necessidade de mais instrumentos que aperfeiçoem o processo eleitoral e principalmente de uma reforma política construída por meio da mobilização social, que seja fruto de um amplo debate a fim de estancar a crescente crise de representação que têm afastado os cidadãos da política e das instituições democráticas e degradado os princípios republicanos.
Palavras-Chave: Direito Eleitoral. Compra de votos. Corrupção eleitoral. Captação ilícita de sufrágio.
RESUMEN
Este trabajo de conclusión del curso es un estudio de los principales mecanismos para combatir la corrupción electoral y la financiación ilícita de sufragio universal, analizando su eficacia y sobre todo la forma de introducción de estas instituciones en el sistema, así como su relación con los principios constitucionales inherentes la ley electoral brasileña. El propósito de esta investigación es determinar la pertinencia de la eficacia de estos principios en el proceso electoral, lo que lleva a las preguntas sobre los comportamientos que subyacen a la elección de hoy y la demostración de la importancia de un proceso electoral sano, donde los votantes tienen la oportunidad de elegir libremente y representantes soberanos. Termina lo que demuestra la necesidad de herramientas que mejoren el proceso electoral y en especial la reforma política construida a través de la movilización social, que es el resultado de un amplio debate con el fin de detener la creciente crisis de representación que se han eliminado los ciudadanos políticos de las instituciones democráticas y los principios republicanos degradado.
Palabras clave: Derecho electoral. Compra de votos. La corrupción electoral. La captura ilegal de sufragio.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...9
1 PRINCÍPIOS DO DIREITO ELEITORAL ... 11
1.1 Princípio republicano ... 12
1.2 Princípio da democracia ... 12
1.3 Princípio da soberania popular ... 14
1.4 Princípio da igualdade ... 15
1.5 Princípio da probidade da moralidade e legitimidade das eleições ... 16
1.6 Princípio do sufrágio universal ... 17
2 CORRUPÇÃO ELEITORAL ... 18
2.1 Corrupção eleitoral em sentido amplo... 18
2.1.1 Abuso do poder político ... 20
2.1.2 Abuso do poder econômico ... 21
2.2 Corrupção eleitoral no Art. 299 do Código Eleitoral ... 22
2.3 Captação ilícita do sufrágil universal ... 23
3 MECANISMOS DE COMBATE A CORRUPÇÃO ELEITORAL ... 27
3.1 Aplicação e efecácia da Lei Contra a Compra de Votos, Lei 9.840/99 ... 27
3.2 Reforma política ... 31
3.3 Mobilização social no combate a corrupção ... 33
CONCLUSÃO ... 36
INTRODUÇÃO
Considerando a vigência do estado democrático de direito, no qual todos, inclusive os entes públicos estão subordinados à soberania da lei, que por vezes é ineficaz frente ao egoísmo refletido pela busca de vantagens individuais e imediatas, fazem-se necessárias alternativas, sejam estas de origem legislativa ou novamente fruto de mobilização social e iniciativa popular.
Obviamente que a conjuntura reclama primeiramente da Justiça Eleitoral, responsável pela lisura do processo eleitoral, mecanismos eficientes no combate às praticas ilícitas utilizadas por candidatos para obtenção do voto popular. Desta forma, cumpre o dever ao campo da sociologia e das ciências jurídicas problematizar estas questões, buscando guarida nos princípios fundantes do estado democrático de direito, analisando as estruturas, os mecanismos de Estado e movimentos sociais que existem para efetivar a democracia brasileira.
O primeiro capítulo parte da necessidade de uma teorização conceitual e funcional dos valores principiológicos constitucionais para se compreender a importância da tutela estatal ao livre exercício do voto, bem como, compreender a dimensão gravosa desta forma de corrupção que provoca chamada crise de legitimidade da democracia representativa.
No segundo capítulo, analisamos a corrupção eleitoral em sentido amplo, demonstrando algumas formas da sua manifestação, também é averiguado o abuso do poder econômico e o abuso do poder político como forma de corromper o processo eleitoral, e suas conseqüências para quem pratica tais condutas e para o Estado enquanto ente de direito, democrático e republicano. Ainda no Segundo capítulo estudamos os o artigo 41-A da Lei das Eleições, que proíbe a captação ilícita de sufrágio, e o artigo 299 do Código Eleitoral, que criminaliza a compra de votos.
Por fim, no terceiro capítulo o estudo trata dos mecanismos de combate a corrupção eleitoral, como a Lei Contra Compra de Votos, sua história e eficácia, evidenciando a necessidade de uma reforma política que promova na sua elaboração um amplo debate com a sociedade civil organizada, alterando as regras eleitorais, de modo a melhorar o sistema
político brasileiro, trazendo maior transparência ao processo eleitoral e fortalecendo a democracia.
Sem dúvidas que ao impedirmos o ingresso de políticos que ocupam cargos eletivos se utilizando de condutas tipificadas como corrupção eleitoral, diminuirá em grande medida o patrimonialismo da república. Por isto a necessidade e a relevância do tema também no meio acadêmico.
1 PRINCÍPIOS DO DIREITO ELEITORAL
Antes de adentrar nos princípios específicos da matéria eleitoral, importante colocar a lição unânime da doutrina que classifica o Direito Eleitoral como ramo do Direito Público, sua fonte primordial se encontra na Constituição Federal, de onde se extrai os princípios que fundamentam esta especialidade.
Importante, significar o termo princípio, Francisco Dirceu de Barros (2008, p. 1) leciona nas palavras de José Afonso da Silva “causa primária, momento em que algo tem origem, elemento predominante na constituição de um corpo orgânico, preceito, regra, fonte de uma ação.”
No mesmo sentido, valorosa é a menção de Ataliba (2001, p. 6-7):
[...] princípios são linhas mestras, os grandes nortes, as diretrizes magnas do sistema jurídico. Apontam os rumos a serem seguidos por toda a sociedade e obrigatoriamente a perseguidos pelos órgãos do governo (poderes constituídos)”.
Desta forma, quando dispostos na Carta Magna alcançam status de princípio constitucional fundamental, a se considerar expressão do querer popular se investem de alto poder normativo, sobrepondo-se ao próprio ordenamento constitucional, exercendo a função de arrimo do texto constitucional. Neste sentido, Bonavides (1998, p.148) "qualitativamente a viga mestra do sistema, o esteio da legitimidade constitucional, o penhor da constitucionalidade das regras de uma constituição."
Feitas essas primeiras colocações, é necessário, precisar o conceito de Direito Eleitoral a fim de possibilitar a posterior averiguação dos seus princípios estruturantes. De acordo com Marcos Ramayana (2010, p. 16):
O ramo do Direito Público que disciplina o alistamento eleitoral, o registro de candidatos, a propaganda política eleitoral, a votação, apuração e diplomação, além de regularizar os sistemas eleitorais, os direitos políticos ativos e passivos, a organização judiciária eleitoral, dos partidos políticos e do Ministério Público dispondo de um sistema repressivo penal e especial.
Isso permite, a abertura para que examinemos, por conseguinte o elenco de princípios que lastreiam o Direito Eleitoral.
1.1 Princípio republicano
Desde a Constituição de 1891 estabeleceu-se a forma de governo republicano. O mesmo ideal foi admitido pelos constituintes de 88. Em 1993, através de plebiscito foi posto a prova e reafirmado pela soberania popular, de maneira que, o principio republicano se assenta assim na Carta Magna:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
I - ...; II - a cidadania;
Considerada como forma de governo mais adequada à vida moderna em sociedade, a República se apresenta com características de temporariedade, eletividade e a responsabilidade1, como ensina Sanseverino (2008, p.17) referenciado pela doutrina clássica. Importante compreender a origem e significado do termo república, derivado do latim, Res Publica, define neste caso o Estado como coisa pública, de todos, em oposição à monarquia.
Portanto, uma boa definição do caráter republicano é a submissão dos interesses privados ao interesse público. Desta formulação se extrai a principal ameaça aos ideais republicanos, os interesses individualistas, que constituem uma verdadeira enfermidade, pois ainda que a democracia autorize a satisfação dos desejos individuais, quando sua busca é desmedida, facilmente enseja atos de corrupção.
1.2 Princípio da Democracia
O termo democracia tem origem na Grécia antiga. Etimologicamente a palavra composta por “demos”, povo e “kratos”, poder, fica compreendida quando com precisão
1Responsabilidade (civil, política, administrativa, penal). De forma mais geral, pode-se afirmar que na
República, os governantes, os agentes públicos, em sentido amplo, devem responder pelos seus atos (SANSEVERINO, 2008, p.17).
explica “[...] O termo democracia comporta diversos significados. Um deles, talvez o mais importante, é o que a entende como valor fundamental de respeito à opinião da soberania popular, auferida pela vontade da maioria, mas com respeito à opinião da minoria[...]” (PIRES, 2013, p. 12).
Princípio assentado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, como se lê no em seu artigo 21:
1. Todo ser humano tem o direito de tomar parte no governo de seu país diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos. 2. Todo ser humano tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.
3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo equivalente que assegure a liberdade de voto. Disposto como ideal a ser atingido por todos os povos e nações, buscando proclamar a igualdade para todos, concorda, Lefabvre tem a visão singular que define, “A democracia não é outra coisa que a luta pela democracia” (apud RAMAYANA, 2012, p. 18).
A atual Constituição, norteada pela busca dos direitos e garantias individuais, exaltou o princípio da democracia, estabelecendo como regime o Estado Democrático de Direito, em seu artigo 1° “A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito [...]” (CF/88, grifo nosso).
A democracia na Constituição, conforme profere singularmente o ministro Carlos Ayres Britto2, é princípio, meio e fim. Como princípio, está revelada no artigo 1º. Sua instrumentalização reside no artigo 2º. Seu fim, seu escopo resta no artigo 3º da Carta.
Sanseverino (2005, p. 564) ensina com propriedade, aduzindo a igualdade e a liberdade como essências do princípio da democracia, princípios que devem existir simultaneamente. Devemos aqui mencionar que o regime é o da democracia representativa, onde a participação é indireta, ou seja, a população no exercício dos direitos políticos dita sua vontade através do sufrágio universal, o voto.
2 BRITTO, Carlos Ayres. Democracia como princípio, meio e fim. Palestra proferida na Jornada jurídica em
A democracia não pode ser concebida sem a observação de dois princípios fundamentais, este é o entendimento que extraímos da seguinte explicação:
A democracia “repousa sobre dois princípios fundamentais, ou primários, que lhe dão essência conceitual:
a) o da soberania popular, segundo o qual o povo é a única fonte de poder, que se exprime pela regra de que todo poder emana do povo;
b) a participação, direta ou indireta, do povo no poder, para que este seja efetiva expressão da vontade popular.”(ZILIO apud SILVA, 2010, p. 93).
Tamanha é sua importância e grandeza que tem assento previsto no texto constitucional, como será expostos nos subtítulos a seguir, onde verificaremos sua origem e função.
1.3 Princípio da soberania popular
Compreendendo a democracia no sentido de “poder do povo”, onde o povo é fonte única e legítima deste poder formador do Estado, o constituinte imprimiu esta sentença na Carta Constitucional, em artigo 1°, parágrafo único: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”
Assim, se estabelece a necessidade de regramento legal para o exercício da soberania popular. Podemos encontrar no artigo 14 da Constituição:
Art. 14. A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:
I – plebiscito; II – referendo;
III – iniciativa popular.
Vislumbra-se de tal instituto a implicação de uma relação política entre representantes e representados, e de um sistema que garanta a legitimidade da delegação do poder. Ainda no caput, devemos atentar para o caráter universal e igualitário do sufrágio. Destarte, os cidadãos possuidores de parte do poder soberano, elegem democraticamente, em condição de igualdade seus representantes, e estes, responsáveis por conduzir o Estado, norteados pela vontade da
maioria do povo, destaca se a importância de garantir a todos a fiscalização crítica dos governantes.
1.4 Princípio da igualdade
Princípio da isonomia ou da igualdade orientador no Direito Eleitoral é indispensável em um regime de governo que se pretenda verdadeiramente democrático, assim sendo, o constituinte originário fixou no artigo 14 da Carta Maior, como direito e garantia fundamental a seguinte sentença: “A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: [...]”(CF/88, grifo nosso).
Neste mesmo diapasão, o solene caput do artigo 5° diz que:
Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade [...] (CF/88, grifo nosso).
No ordenamento infraconstitucional é possível encontrar a materialização do princípio da igualdade. No que concerne ao sistema eleitoral, encontramos o vigilante artigo 73 da Lei Nº 9.504/973, que cataloga as condutas vedadas aos agentes públicos durante a campanha eleitoral, decretando que:são proibidas aos agentes públicos, servidores ou não, as seguintes condutas tendentes a afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos nos pleitos eleitorais:[...](grifo nosso).
Evidencia-se que o intento da engenharia legal examinada é de preservar a igualdade de condições entre os candidatos que têm o propósito de exercer o poder, obstando o abuso de poder político e econômico, garantindo a livre manifestação do eleitor e a legitimidade das eleições.
Sanseverino (2008, p. 52), dando entendimento à dimensão da igualdade do voto, chama a atenção para o brocardo americano, one man, one vote, ou seja, voto com valor igual a todos, apresentado pela doutrina como igualdade simples ou formal.
3 Lei Geral das Eleições.
Entretanto, fatores como o número de representantes por unidades da federação na Câmara Federal, que tem como critério proporcional a densidade populacional de cada um destes entes federados, busca a igualdade material, ou seja, isonomia, pois sua aplicação equilibra a participação dos Estados-membros nas decisões naquela casa.
Assim conceituados no Direito Eleitoral, os Princípios da Igualdade e Isonomia exigem nesta seara ações que garantam efetivamente a democracia, o exercício do poder sem qualquer distinção, pelo qual todos os cidadãos possam votar e serem votados, desde que cumpridos os critérios objetivos estipulados na Constituição.
1.5 Princípio da probidade, da moralidade e legitimidade das eleições
Primeiramente cabe colocar que optamos por examinar conjuntamente estes princípios em virtude da sua disposição na Carta Magna, onde estão elencados unitariamente e com a clara finalidade de proteger o núcleo estruturante do Estado Democrático de Direito, conforme se observa:
Art. 14.A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: [...]
§ 9º Lei complementar estabelecerá outros casos de inelegibilidade e os prazos de sua cessação, a fim de proteger a probidade administrativa, a moralidade para exercício de mandato considerada vida pregressa do candidato, e a normalidade e legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de função,cargo ou emprego na administração direta ou indireta. (Grifo nosso)
Fundamental aqui para intelecção da função jurisdicional da aplicação destes princípios no processo eleitoral é significar a terminologia do vocábulo probidade, da mesma forma, analisar a essência da moralidade e legitimidade no ordenamento, o que em nosso entendimento garante por si elucidar as sanções impostas a agentes que deixam de observar tais princípios na obtenção e no exercício dos mandatos eletivos.
O vocábulo probidade significa retidão, virtude, honradez, decência, honestidade, qualidades que devem ser permanentes no agente da administração pública. O contrário, o ímprobo, ou seja, o desonesto, o desleal, que de maneira ilegal ou imoral busca se tornar representante exercendo função pública, acaba por inevitavelmente incidir em práticas de corrupção, como por exemplo, concessão de favores e privilégios ilegais, a exigência de
propinas, o desvio ou a aplicação ilegal de verbas públicas, entre outras que ensejam hipóteses de inelegibilidade do agente ímprobo.
No sistema eleitoral, a moralidade determina a condução da disputa eleitoral norteada pelos patrões éticos sociais, gozando com isto, em caso de sucesso, de legitimidade para o exercício do poder político. Ainda neste contexto, a idoneidade moral obsta a corrupção no seu sentido amplo.
O princípio da legitimidade das eleições se traduz na submissão à legalidade, assim protegendo o voto, a livre manifestação do eleitor do abuso do poder político e econômico, auferindo com isto o reconhecimento social.
Conclui-se que o exercício do poder político por agentes que violam estes princípios insulta a democracia e coloca em risco o interesse público, devendo ser prevenido e reprimido.
1.6 Princípio do sufrágio universal
O sufrágio universal e o voto são princípios que contribuem para a consolidação da democracia. O conceito de sufrágio, nas palavras de Marcos Ramayana (2010, p. 03):
É a emanação, o desejo, a vontade política do cidadão expressada pelo voto, que pode resultar na eleição dos representantes (Presidente, Senadores, Deputados e outros), ou na decisão direta sobre certos temas de interesse público da sociedade (plebiscito ou referendo). O voto deve significar o efetivo exercício da manifestação livre e soberana da vontade.
Almeida (2010, p. 66) leciona que a opção do constituinte foi pelo sufrágio universal e pelo voto direto e igual, acrescentam ainda características como secreto, personalíssimo, obrigatório4, periódico e livre. Sanseverino (2008, p. 22) diferencia sufrágio como direito de voto, já o voto como ação de exercitar o direito de sufrágio.
4o voto a todo cidadão maior de 18 anos e menor de 70 anos. A obrigatoriedade de comparecimento às urnas nos
dias de eleição. No entanto, o voto poderá ser facultado para os analfabetos, os maiores de 70 anos e aos com idade entre 16 e 18 anos.
2 CORRUPÇÃO ELEITORAL
Depois de analisados os princípios que norteiam o Direito Eleitoral é de grande valia para chegar à conclusão deste trabalho explorar a corrupção eleitoral no sentido lato sensu, ou seja, as mais variadas formas de indução indevida à livre vontade do eleitor. O Ministro Luiz Fux, durante o julgamento da ação penal 481, no Supremo Tribunal Federal, em seu voto, disse contrario sensu, que são inimagináveis as formas que o ser humano pode encontrar para a prática da corrupção eleitoral.
A ação penal de número 481, que tramitou na suprema corte, julgava o caso de um determinado candidato a prefeito do município de Marabá, no estado do Pará, que antes mesmo de ter seu nome indicado pela convenção partidária já trocava cirurgias de laqueadura tubária (esterilização) por votos de eleitoras naquele município. Diante disto, é fácil a percepção de que muitas são as maneiras de desvirtuamento da livre manifestação das opções políticas dos eleitores.
2.1 Corrupção eleitoral em sentido amplo
A finalidade do processo eleitoral é aferir a vontade da população que se manifesta por meio do voto, escolhendo dentre os candidatos quais ocuparão os cargos públicos. Quando esta manifestação é livre, os candidatos que conquistarem o poder político, terão a legitimidade constitucional para o exercício da representação popular. Todavia, corroída fica a legitimidade desta representação quando o processo eleitoral é maculado com a utilização de meios ilícitos, como a compra de votos ou outros meios para induzir de forma irregular a livre manifestação da vontade do eleitor.
Deste modo, é de primeira ordem analisar os crimes eleitorais previstos no Código Eleitoral e em leis esparsas. Os tipos penais em estudo têm por objetivo a defesa do processo eleitoral, e visam a garantir a legitimidade da manifestação da vontade do eleitor. São vários os bens jurídicos protegidos pela norma incriminadora, e vai desde a proteção da formação do conjunto de eleitores até a autonomia de julgamento do eleitor, garantindo ainda a igualdade entre os postulantes aos mandatos.
Essa multiplicidade de aspectos amparados pelo Estado exigiu da doutrina uma classificação dos crimes eleitorais. Bem sistematizado ficou a matéria na classificação de Suzana de Camargo Gomes (GOMES, 2010, p. 64), que conjuga a objetividade jurídica imediata com a fase do processo eleitoral em que se dá a conduta, resultando na seguinte classificação:
i) Crimes eleitorais relativos à formação do corpo eleitoral – arts. 289 ao 293 do CE, 295 do CE e 91, parágrafo único, da Lei nº 9.504/1997 (Lei das Eleições (LE));
ii) Crimes eleitorais relativos à formação e ao funcionamento dos partidos políticos – arts. 319 ao 321, 338 e 346 do CE;
iii) Crimes eleitorais em matéria de inelegibilidades – art. 25 da LC nº 64/1990;
iv) Crimes eleitorais relativos à propaganda eleitoral – arts. 323 ao 327, 331, 332, 334, 335, 336 e 337 do CE, 33, § 4º, 34, §§ 2º e 3º, 39, § 5º, 40, da LE; v) Crimes eleitorais relativos à votação – arts. 297 ao 312 e 316 do CE; vi) Crimes eleitorais relativos à garantia do resultado legítimo do pleito – arts. 313, 314, 317 e 318 do CE e art. 72 da LE;
vii) Crimes eleitorais concernentes à organização e ao funcionamento dos serviços eleitorais – arts. 296, 339-345 e 347 do CE;
viii) Crimes contra a fé pública eleitoral – arts. 348-354 do CE.
Neste rol classificatório de ilícitos estão todas as condutas vedadas, sejam estas realizadas, antes, durante ou após o pleito. Portanto, a partir do momento em que não são observadas tais condutas esta comprometida a higidez do processo.
Quanto à natureza jurídica dos crimes eleitorais, os doutrinadores estão divididos, de um lado alguns, juntamente com o Supremo Tribunal Federal têm o entendimento de que os crimes eleitorais são crimes comuns; de outro lado, outros autores, como Nelson Hungria, compreendem os crimes eleitorais como crimes políticos, pois o bem jurídico tutelado nestes delitos é a legitimidade e a liberdade do sufrágio, como forma de resguardar o pleito eleitoral e o próprio Estado Democrático de Direito.
Neste mesmo entendimento é ressaltada a distinção na lição do professor Antonio Carlos da Ponte (2008):
(...) os crimes eleitorais puros ou específicos, cujos bens ou interesses são protegidos apenas pela legislação eleitoral, são crimes políticos, pois atingem não só a imagem, mas, por vezes, a própria existência do Estado Democrático de Direito. Já os crimes eleitorais acidentais, cujos bens ou interesses são protegidos na legislação penal comum e na legislação eleitoral, são crimes comuns, de natureza especial, não políticos.
Depois desta breve exposição a cerca dos crimes eleitorais, no sentido amplo, que nutre o singelo objetivo de expor os bens jurídicos tutelados por estes, é indispensável, o estudo do abuso do poder econômico e do poder político, isto por que, partindo da premissa de que a corrupção eleitoral configura-se com a utilização de meios proibidos, estes crimes em regra estão associados ao abuso do poder político ou do poder econômico.
2.1.1 Abuso do poder político
É notório que, quem ocupar algum dos espaços de poder na maquina pública durante o pleito eleitoral, estará em uma posição de vantagem. O abuso do poder político ocorre justamente nas situações em que o detentor do poder usa indevidamente o cargo ou função pública, ou seja, vale-se de sua posição para interferir na vontade do eleitor, mitigando a liberdade de voto, prejudicando desta forma a normalidade e legitimidade das eleições. Assim pode-se dizer que o abuso do poder político se tipifica como um ato de autoridade em detrimento do voto livre.
No Brasil, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral, esta é a conduta padrão, e as maneiras mais comuns para a prática destes abusos são costumeiramente a utilização da maquina pública por determinados candidatos ou coligações, através de liberação de exames ou consultas especializadas, uso dos bens públicos, tais como o parque de máquinas para distribuição de cargas de terra ou prestação de serviços em propriedades privadas, a utilização de servidores para campanha eleitoral, além do loteamento de cargos comissionados entre candidatos proporcionais apoiados pelo chefe do executivo.
Se encontra ainda, no rol destas práticas, a manipulação da receita orçamentária, utilização indevida de propaganda institucional e principalmente de programas sociais. Desta forma, fica evidente que quem exerce o poder na administração pública pode gerar, e tem gerado, um grande desequilíbrio no processo eleitoral.
Estas práticas e consequentemente os crimes que caracterizam o abuso do poder político se tornaram uma preocupação constante após a Emenda Constitucional 16/1997, que possibilitou aos chefes do Poder Executivo, em todas as esferas, que concorressem à reeleição, sem que para isto fosse necessário se afastarem dos cargos já ocupados. Desta
forma, o postulante à reeleição permanece como chefe do poder, tornando-se tênue a raia entre os atos de campanha e os atos administrativos.
2.1.2 Abuso do poder econômico
Inegável é que o aspecto financeiro, a exemplo do abuso do poder político, é resolutivo no processo eleitoral, ou seja, interfere de forma a causar uma profunda disparidade no pleito eleitoral. O abuso do poder econômico se manifesta geralmente por meio do transporte irregular de eleitores, em gastos de campanha acima do declarado e, principalmente, na captação ilícita de sufrágio.
O elemento subjetivo desta conduta é sempre manipular a vontade do eleitor. Por isto, mesmo que os gastos com o pleito fiquem dentro do valor declarado, deve-se averiguar se a utilização destes recursos tiveram o propósito de viciar o processo eleitoral, de modo que estes gastos sejam capazes de influenciar na escolha do eleitor, comprometendo a lisura do pleito e alterando seu o resultado.
Importante neste aspecto é que não se exige o nexo de causalidade entre a conduta e o resultado para que fique caracterizado o abuso do poder econômico. É o que se extrai da ensinamento de Marcos Ramayana (2010, p. 610):
Para caracterização do abuso do poder econômico (...), é necessário a prova de potencialidade lesiva (gravidade), mas o Tribunal Superior Eleitoral consagra que não exige a prova do nexo de causalidade entre a conduta comissiva e o vício do pleito eleitoral.
O autor, segundo este entendimento leciona que:
(...) Deve se provar o comprometimento da lisura das eleições, à luz do contexto probatório coligido na investigação judicial eleitoral, até por que a prova do vício das eleições, como, a modificação do número de votos dados ao fraudador, pode ser uma prova impossível de ser feita. (RAMAYANA, 2010, p. 610)
Finalizando este item, merece ainda que por mera citação, pois embora não tenha destaque individualizado no ordenamento, apenas algumas considerações de alguns doutrinadores, o abuso do poder social e do poder cultural, que, segundo Fávila Ribeiro, seria
o uso indiscriminado dos meios de comunicação virtuais, tais como redes sociais e outros, que tenham alta potencialidade de influenciação da sociedade de massa e do conjunto de eleitores.
2.2 Corrupção eleitoral no Art. 299 do Código Eleitoral
Antes de analisarmos a adequação típica do crime de corrupção eleitoral é proveitoso um breve estudo dos elementos inerentes aos crimes em geral, sob o aspecto dogmático, para assim identificarmos as formalidades necessárias, a partir de uma visão analítica, que deve ter uma determinada conduta para preencher a objetividade típica e se tornar um fato punível.
O conceito predominante na doutrina brasileira é a de que o crime é um fato típico, antijurídico e culpável. No tocante à corrupção eleitoral, há no Código Eleitoral a hipótese do art. 299, que trata das modalidades de corrupção ativa e passiva, que prevê como sanção penal a reclusão de até quatro anos e pagamento de multa conforme se depreende do art. in verbis:
Art. 299. Dar, oferecer, prometer, solicitar ou receber, para si ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer outra vantagem, para obter ou dar voto e para conseguir ou prometer abstenção, ainda que a oferta não seja aceita: Pena - reclusão até quatro anos e pagamento de cinco a quinze dias-multa. É perceptível que o legislador buscou com esta norma a proteção ao livre exercício do voto, segundo ensina Marcos Ramayana (2010, p. 802):
É um crime comum, ou seja, pode ser praticado por cabos eleitorais, pré-candidatos, eleitores, pessoas comuns do povo, autoridades, servidores públicos etc. (...)
A possibilidade da prática de corrupção eleitoral por parte do eleitor apresenta a face da modalidade passiva deste tipo incriminador, isto por que, entre os verbos, o citado artigo traz esta possibilidade, qual seja, solicitar ou receber, como forma de alienar o voto. Além destes ainda está presente os verbos, oferecer, prometer, solicitar, da mesma maneira, com o objetivo de obter o voto do eleitor.
Outro aspecto relevante se refere ao fato de que se trata de um crime de natureza formal, ou seja, para que se efetive sua consumação basta que seja praticada uma das condutas determinadas, não sendo obrigatório o resultado material, seja este a entrega ou a obtenção da vantagem em troca do voto. Neste ponto cabe ainda ressaltar a necessidade do
dolo específico, o objetivo deve ser obter o voto. Ainda que a oferta não seja aceita restará configurado o delito.
Esta prática é muito comum nas eleições municipais As formas são as mais variadas, e as vantagens oferecidas ou solicitadas são as mais diversas. As mais usuais são a distribuição de cestas básicas, materiais de construção, serviços das mais distintas naturezas, dinheiro em espécie, medicamentos, consultas e exames. Uns configuram abuso do poder político, e outros, abuso do poder econômico.
Outro préstimo que tem sido muito usual, quase que uma epidemia nos períodos eleitorais, é o vale combustível ou gasolina. Nesta modalidade em regra é o eleitor que solicita o item, fazendo quase que uma campanha sufragista, em uma cruzada que busca obter a maior quantidade possível deste produto no período eleitoral de todos os candidatos e coligações que disputam o pleito. O candidato, principalmente a cargos do legislativo, que não ceder à solicitação, tem as mínimas chances de apresentar seu currículo ou proposta de representação, quanto mais pedir o voto.
É notório que estas práticas escusas trazem um desequilíbrio na disputa pelo voto, deteriorando o Estado Democrático de Direito, a democracia, e quase todos os princípios basilares do direto eleitoral, afetando de sobre maneira a legitimidade da represe ntação popular. Desta forma, resta evidente a necessidade da Justiça Eleitoral buscar todos os mecanismos à sua disposição para coibir tais condutas. Não se pode dizer que isto seja algo complexo de ser feito, uma vez que ela dispõe vastos expedientes perfeitamente capazes de investigar e punir corruptores.
No item a seguir, analisaremos o art. 41-A da Lei 9.504/97, que guarda intima ligação com a corrupção eleitoral que acabamos de refletir.
2.3 Captação ilícita de sufrágio no Art. 41-A da Lei 9.504/97
A captação do voto do eleitor é em regra uma conduta lícita, faz parte do processo de disputa. Quem busca ocupar os espaços públicos de poder tem à sua disposição vários meios para induzir ou convencer o eleitor a filiar-se a sua proposta, votar em si ou em sua chapa. Dentre estas formas pode-se destacar a distribuição de material publicitário, jingles, adesivos
e principalmente o mais valiosos deles nos últimos períodos, os meios de comunicação de massa, a propaganda eleitoral de rádio e principalmente de televisão.
Muito embora existam os meios lícitos para obtenção do voto, encontra-se na legislação, como já foi dito, inúmeras condutas que são vedadas durante o período eleitoral, sejam estas praticadas por candidatos, cabos eleitorais ou agentes públicos. Uma vez que estas restrições não são observadas, configura-se a captação ilícita de sufrágio.
A Lei nº 9.840, de 28 de setembro de 1999, introduziu na Lei nº 9.504, de 30 de Setembro de 1997, o art. 41-A, passa a vigorar acrescida do referido artigo, in verbis:
Art. 41-A. Ressalvado o disposto no art. 26 e seus incisos, constitui captação de sufrágio, vedada por esta Lei, o candidato doar, oferecer, prometer, ou entregar, ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública, desde o registro da candidatura até o dia da eleição, inclusive, sob pena de multa de mil a cinqüenta mil Ufir5, e cassação do registro ou do diploma, observado o procedimento previsto no art. 22 da Lei Complementar no 64, de 18 de maio de 1990.
§ 1º Para a caracterização da conduta ilícita, é desnecessário o pedido explícito de votos, bastando a evidência do dolo, consistente no especial fim de agir.
§ 2º As sanções previstas no caput aplicam-se contra quem praticar atos de violência ou grave ameaça a pessoa, com o fim de obter-lhe o voto.
§ 3º A representação contra as condutas vedadas no caput poderá ser ajuizada até a data da diplomação.
§ 4º O prazo de recurso contra decisões proferidas com base neste artigo será de 3 (três) dias, a contar da data da publicação do julgamento no Diário Oficial.
A entrada em vigor do artigo 41-A não trouxe nenhuma alteração à tipicidade do crime analisado no item anterior, do art. 299 do Código Eleitoral, que trata da corrupção eleitoral. Continua este em plena vigência, buscando evitar o comércio de votos, protegendo a liberdade de escolha do eleitor. Esta compreensão fica fácil a partir da leitura da doutrina de Marcos Ramayana quando cita o ensinamento de Suzana de Camargo Gomes, que diz:
(...) Na verdade, esse dispositivo em nada alterou a disciplina penal pertinente ao crime de corrupção eleitoral, que continua incólume, pelo que incide, no delito tipificado no art. 299 do Código Eleitoral, tanto o candidato como qualquer outra pessoa que realize as figuras típicas ali descrias. A
5 O valor da Unidade de Referência Fiscal – UFIR foi extinta em decorrência do § 3º do art. 29 da Medida
mudança esta que, sendo o autor da infração um candidato, além de responder criminalmente, nos termos do art. 299 do Código Eleitoral, submete-se, também, às penas previstas no art. 41-A da Lei n° 9.504/1997, com a redação dada pela Lei n° 9.840/1999, sendo que o procedimento para apuração é o previsto na LC n° 64, de 18 de maio de 1990, em seu art. 22, denominado de investigação judicial. (GOMES apud RAMAYANA, 2010, p. 722)
Desta maneira, deve-se advertir que, se o responsável pela conduta ilícita for candidato, além de responder criminalmente por corrupção eleitoral do art. 299 do Código Eleitoral, responderá e será submetido às penas cominadas ao art. 41-A da Lei 9504/97, quais sejam, multa e cassação do registro da candidatura ou do diploma, sem que isto seja considerado dupla penalização, conforme ensina Edson Brozoza (2010, p. 53):
Sublinhe-se, não se trata de hipótese de dupla penalização pela mesma conduta (bis in idem), uma vez que a conduta tipificada no art. 41-A da Lei de Eleições reveste a natureza de sanção eminentemente civil, ao passo que a descrita no art. 299 possui caráter criminal.
Assim, podemos afirmar que se trata de infração política, e não criminal, como também afirma Sanseverino (2010, p. 206), e o objetivo é retirar do pleito seja pela cassação do registro da candidatura, seja pela cassação do diploma, o candidato que tentou ou angariou votos em troca de algum ganho ou interesse do eleitor.
Da leitura do art. 41-A, verifica-se que os verbos nucleares constantes neste se assemelham com os presentes no art. 299 do Código eleitoral, apenas acrescido do verbo doar. Sobre isto Zilio (2010, p. 484) explica sobre o motivo desta extensão legislativa da seguinte forma:
Os verbos nucleares da captação ilícita de sufrágio (doar, oferecer, prometer ou entregar) encontram similitude com os previsto para o crime de corrupção eleitoral ativa (dar, oferecer prometer), restando como diferenciador, apenas, a conduta caracterizada por doar, que é previsto na captação ilícita de sufrágio e inexistente na corrupção eleitoral, evidenciando-se a intenção de ampliar o espectro punitivo.
Sanseverino (2007, p. 263), na forma de glossário, aclara os verbos nucleares em questão da seguinte forma:
Doar significa o ato em que uma pessoa, por liberalidade, transfere do seu patrimônio bens ou vantagens para o de outra pessoa. A doação, para fins
eleitorais, tem sentido e alcance mais abrangente daquele estabelecido no Direito Civil. Entregar significa passar às mãos ou à posse de alguém. Dessa forma, distinguem-se no ponto em que, a entrega envolve a execução do ato material de passar às mãos de outro um bem ou vantagem material; enquanto a doação pode incluir, ou não, aquele ato de execução, bem como pode ser de bem ou qualquer vantagem ou benefício. Oferecer tem o sentido de pôr à disposição, apresentar para que seja aceito. Já promoter significa obrigar-se, comprometer-se a fazer ou dar bem ou qualquer vantagem.
Saliente-se que tal conduta, segundo entendimento do TSE, exposto por Zilio (2010, p. 484):
O TSE entende que a captação ilícita do sufrágio caracteriza-se quando presentes três elementos: a) a prática de uma conduta (doar, prometer, etc.); b) a existência de uma pessoa física (o eleitor); c) o resultado a que se propõe o agente (o fim de obter o voto).
O aspecto importante a ser destacado nesta lição é o da necessidade de uma pessoa física, o eleitor, ou seja, alguém que tenha capacidade eleitoral ativa, e que ao mesmo tempo deve ser uma pessoa determinada ou determinável. Outro elemento importante se refere às condutas que tipificam a captação ilícita de sufrágio, isto por que entre elas esta a promessa, expediente comumente utilizado por candidatos na disputa pelo voto. Sobre este ponto, elucidativo é o ensinamento de Zilio (2010, p. 485):
(...) é necessário traçar o elemento distintivo entre a captação ilícita de sufrágio - que é vedada – e a promessa de campanha – que, em princípio, é permitida. Quando a conduta é direcionada a pessoa determinada e é condicionada a uma vantagem, em uma negociação personalizada em troca de voto, caracteriza-se a captação ilícita de sufrágio. Diversa é a hipótese de uma promessa de campanha, que é genérica, dirigida a uma coletividade, mas sem uma proposta em concreto como condicionante do voto. (...). Acerca do aspecto temporal para o cometimento deste ilícito, Sanseverino (2010, p. 207), explica que vai desde o pedido o registro da candidatura até o encerramento do processo de votação. Neste período, como já exposto, as condutas praticadas pelos candidatos e os bens e vantagens oferecidos, conforme coloca a Comissão Brasileira de Justiça e Paz, “a inventividade para conseguir o voto do eleitor é sem limites, quanto aos bens e vantagens pessoais oferecidos, especialmente diante de tantas carências populares”.
3 MECANISMOS DE COMBATE A CORRUPÇÃO ELEITORAL
Diante deste contexto, em que a realidade nos coloca a frente de um sistema eleitoral completamente viciado, onde a pratica do “toma lá, dá cá” parece ser o que realmente define quem, e quais as instituições partidárias e grupos políticos sociais que vão ocupar os cargos públicos e os espaços de poder em nossa sociedade; onde o eleitor não consegue exercer de forma livre e consciente do direito ao voto, é de grande utilidade analisar os principais mecanismos de combate a corrupção eleitoral.
Isto por que, conforme compreensão extraída do entendimento dos princípios que formam o Estado Democrático, bem como os princípios que regem o Direito Eleitoral e consequentemente os bens jurídicos tutelados nos dispositivos positivados em nosso ordenamento e apresentados no capítulo anterior, o resultado de não conseguirmos dar efetividade aos instrumentos que possibilitam mudar esta realidade, bem como estudarmos formar de aperfeiçoá-los, trará à deterioração da característica mais valiosa do nosso Estado, a democracia.
Assim, com o intuito de contribuir para o debate no meio acadêmico, neste capitulo examinaremos alguns dos mecanismos de combate a corrupção eleitoral, não nos restringindo somente aos recursos legais, mas também aos expedientes sociais de mobilização, que já se mostraram de grande valia para a regeneração da legitimidade de representação política, levantado nacionalmente o debate sobre a necessidade de uma reforma política, e até mesmo apresentando projeto de lei de iniciativa popular, como foi o caso da “Lei Contra Compra de Votos”.
3.1 Aplicação e eficácia da Lei Contra Compra de Votos, Lei 9.840/99.
A verdadeira democracia se faz com participação popular e foi a partir da inquietação da sociedade e com base no inciso III, do Art. 14 da Constituição Federal que surgiu a Lei 9840/99, um dos mecanismos mais determinantes no combate as condutas ilícitas, que influenciavam de maneira desleal o processo eleitoral brasileiro.
Promulgada em 28 de setembro de 1999, a Lei 9.840/99, conhecida como Lei Contra Compra de votos, ou Lei dos Bispos, é de origem de iniciativa popular, apoiada
principalmente pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, e pela Ordem dos Advogados do Brasil- OAB, além de outras organizações da sociedade civil, o projeto de lei consegui a coleta de 1.039.175 assinaturas, dando origem à lei de iniciativa popular.
A lei em análise acrescentou artigos na Lei 9.504/97, que estabelece normas para as eleições e no Código Eleitoral, Lei 4.737/65. Em resumo, veio coibir a compra de votos, a captação ilícita de sufrágio e o uso da “máquina administrativa” em amparo a determinados candidatos, condutas que como já explicitadas influenciam de sobremaneira o resultado do pleito eleitoral
.
A lei 9.840/99 tornou-se um mecanismo vital na busca de um processo eleitoral mais democrático, combatendo as principais condutas nocivas praticadas durante o pleito, pois antes dela o Direito Eleitoral brasileiro não contemplava punição eficaz para quem comprava votos e utilizava indevidamente a máquina administrativa, pois exigia prova de impacto no resultado eleitoral. Por exemplo, se um candidato comprasse 200 votos, mas fosse vitorioso por uma diferença maior que esta, mesmo que comprovada a compra de votos, o entendimento dos tribunais era de que a conduta não era motivo suficiente para cassação.
Eis as mudanças trazidas com a Lei 9840/99:
Art. 1o A Lei 9.504, de 30 de setembro de 1997, passa a vigorar acrescida do seguinte artigo:
Art. 41-A. Ressalvado o disposto no art. 26 e seus incisos, constitui captação de sufrágio, vedada por esta Lei, o candidato doar, oferecer, prometer, ou entregar, ao eleitor, com o fim de obter-lhe o voto, bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, inclusive emprego ou função pública, desde o registro da candidatura até o dia da eleição, inclusive, sob pena de multa de mil a cinqüenta mil Ufir, e cassação do registro ou do diploma, observado o procedimento previsto no art. 22 da Lei Complementar no 64, de 18 de maio de 1990.
Art. 2o O § 5odo art. 73 da Lei no9.504, de 30 de setembro de 1997, passa a vigorar com a seguinte redação:
Art. 73...
§ 5o Nos casos de descumprimento do disposto nos incisos I, II, III, IV e VI do caput, sem prejuízo do disposto no parágrafo anterior, o candidato beneficiado, agente público ou não, ficará sujeito à cassação do registro ou do diploma.
Art. 3o O inciso IV do art. 262 da Lei no 4.737, de 15 de julho de 1965 – Código Eleitoral, passa a vigorar com a seguinte redação:
IV – concessão ou denegação do diploma em manifesta contradição com a prova dos autos, nas hipóteses do art. 222 desta Lei, e do art. 41-A da Lei no 9.504, de 30 de setembro de 1997. (grifo nosso)
De maneira que, em síntese a Lei 9840/99 introduziu na Lei das Eleições o art. 41-A e o § 5º do art. 73. O primeiro considera captação ilícita de sufrágio o candidato doar, oferecer, prometer ou entregar ao eleitor bem ou vantagem de qualquer natureza. O segundo relaciona hipóteses de uso eleitoral da máquina administrativa. Esses dispositivos impõem aos infratores multa e cassação do registro ou do diploma eleitoral.
O art. 41-A traz diversos verbos que definem as condutas que o candidato ou alguém a seu mando não poderão praticar com intuito de obter voto, estes já analisados no capítulo anterior. O art. 22 da Lei Complementar no 64/90, citado, no art. 41-A dispõe que a cassação do registro da candidatura ou do diploma, poderá ser proposta mediante representação, por qualquer partido político, coligação, candidato ou Ministério Público Eleitoral - MPE.
O MPE poderá agir se provocado, através de denúncia, a representação deverá ser feita conforme prevê o caput Art. 22 da LC 64/90, in verbis:
(...) relatando fatos e indicando provas, indícios e circunstâncias e pedir abertura de investigação judicial para apurar uso indevido, desvio ou abuso do poder econômico ou do poder de autoridade, ou utilização indevida de veículos ou meios de comunicação social, em benefício de candidato ou de partido político (...).
Sua proposição poderá ser através de uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral - AIJE, que visa a investigar o candidato quanto ao abuso de poder ou autoridade. Além da cassação do registro ou diploma, o candidato pagará multa num valor que varia entre R$1.000,00 (mil) a R$50.000,00 (cinquenta mil).
No que se refere à alteração do § 5o do art. 73 da Lei no 9.504/97, os incisos citados do caput do art. 73, se localizam no título “Das condutas vedadas aos agentes públicos em campanhas eleitorais” que já traz visivelmente seu intuito, qual seja proibir as condutas tendentes a afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos nos pleitos eleitorais, causando desequilíbrio nas eleições.
Art. 73. São proibidas aos agentes públicos, servidores ou não, as seguintes condutas tendentes a afetar a igualdade de oportunidades entre candidatos nos pleitos eleitorais:
Dentro deste rol de condutas vedadas, apresentadas nos incisos deste artigo, destacamos as seguintes:
III - ceder servidor público ou empregado da administração direta ou indireta federal, estadual ou municipal do Poder Executivo, ou usar de seus serviços, para comitês de campanha eleitoral de candidato, partido político ou coligação, durante o horário de expediente normal, salvo se o servidor ou empregado estiver licenciado;
IV - fazer ou permitir uso promocional em favor de candidato, partido político ou coligação, de distribuição gratuita de bens e serviços de caráter social custeados ou subvencionados pelo Poder Público;
VI - nos três meses que antecedem o pleito:
a) ... b) ... c) fazer pronunciamento em cadeia de rádio e televisão, fora do horário eleitoral gratuito, salvo quando, a critério da Justiça Eleitoral, tratar-se de matéria urgente, relevante e característica das funções de governo;
Finalmente, no que tange à alteração do inciso IV do art. 262 da Lei no 4.737, de 15 de julho de 1965 – Código Eleitoral, o citado art. 222 do Código Eleitoral, a compra de votos também é causa de anulação da votação. O art. 222 do CE ainda faz menção ao art. 227 também do CE, que reforça a punição dos que se servirem do abuso de poder para interferir na liberdade do voto do eleitor, e garante a este o direito de denunciar à Justiça Eleitoral tais condutas.
Importante ainda é fazer menção a ação intentada contra candidato que, vencedor do pleito eleitoral, comprovadamente praticar tais condutas. Com a sigla RCED, o Recurso Contra Expedição de Diploma, é que vai impedir a diplomação do candidato e consequentemente sua posse no cargo, pois esta ação tem efeito suspensivo, fazendo com que o candidato eleito tenha que esperar a decisão do Tribunal sem assumir o cargo.
Passados mais de 15 anos do inicio da vigência da Lei Contra a Compra de Votos, os números não são precisos, mas o Movimento de Combate a Corrupção Eleitoral aponta que o TSE recebeu, entre 2002 e fevereiro de 2007, 2.078 ações relativas à compra de votos, e são mais de um mil o números de candidatos cassados em decorrência destes dois dispositivos adicionados pela Lei 9.840/99 à Lei Eleitoral.
Diante deste estudo, fica clara a importância do engajamento da sociedade civil e dos movimentos populares para que, tenhamos mecanismos realmente eficientes contra a corrupção. Não há como negar que a lei aqui apresentada trouxe um ganho para a ética e amoralidade no processo eleitoral. Encerramos o capítulo com a citação de Rudolf Von Ihering, que ilumina o caminho para novas mudanças:
(...) ninguém tentará arrancar o que há de mais precioso para um povo, onde cada um, mesmo nas coisas mais ínfimas, tem por hábito defender intrepidamente o seu direito (...) defendendo o seu direito, defende o direito em geral, mas sabe também que, lutando pelo direito em geral, luta pelo seu direito pessoal. (IHERING, 2007, S.P)
3.2 Reforma política
A reforma política é um tema que com maior ou menor intensidade sempre esteve presente na pauta de discussão política nacional. Este tópico pretende analisar alguns aspectos deste instituto, principalmente a sua compreensão, seu histórico, a importância das principais alterações propostas e a relevância da participação social na sua efetivação.
Diante da realidade que alguns entendem ser de crise política institucional, e que entendem ser fruto da falta de representatividade política dos eleitores e, sobretudo, em face de necessidade se buscar um processo eleitoral com menos vícios, que proporcione uma maior igualdade entre os candidatos, como forma de efetivação de uma democracia plena, onde os candidatos que têm homologado seus registros tenham verdadeiras condições de disputar o pleito eleitoral, a reforma política se torna a cada momento mais imprescindível.
A reforma política é um instrumento que permite a participação popular em âmbito legislativo propondo e aperfeiçoamento e alterações em nosso ordenamento Pode ser colocada como uma expressão para grandes alterações nas regras do sistema político um conceito possível, geral para as reformas, segundo Paulo Bonavides é o seguinte:
Consiste a reforma num conjunto de providências de alcance social e político e econômico, mediante as quais, dentro duma “moldura de fundamentos inalteráveis”, se faz à redistribuição das parcelas de participação das distintas classes sociais. Com a reforma, se corrigem distorções do sistema e de regime, atende-se ao bem comum, propicia-se a paz social, distribui-se mais justiça entre classes ressentidas e carentes. (BONAVIDES, 1996, p. 418)
A reforma política, conforme dito, sempre esteve em debate no Brasil, com uma maior participação popular e das entidades organizadas da sociedade civil a partir do movimento das Diretas Já. Com a promulgação da Constituição Federal de 1988 e as eleições diretas para presidente da República em 1988, abriu-se uma nova fase, com alterações significativas como a abertura para novos partidos, a opção de voto aos 16 anos, cota para o registro de candidaturas de mulheres. Porém outras nunca se efetivaram e continuaram a ser debatidas. Algumas foram objetos de alterações em outras épocas.
Em 1995, ocorreu a reedição da nova lei dos partidos políticos, Lei nº 9.096, que
adequou a legislação aos novos princípios constitucionais, como por exemplo, a liberdade na
criação e extinção dos partidos e a autonomia para sua organização e funcionamento, muito embora a criação dos partidos ficasse condicionada a alguns pressupostos e à prestação de contas, cuja fiscalização é feita pelo TSE.
Em 1997, entrou em vigor a lei geral das eleições, quando então, a partir de sucessivas alterações, ficaram proibidas a distribuição de brindes, a realização de showmícios. Paralelamente, a Justiça Eleitoral introduziu as urnas eletrônicas no processo eleitoral e reinterpretou a fidelidade partidária. Posteriormente foi aprovada a lei contra a compra de votos, sobre a qual já discorremos.
Por último, no que se refere ao aspecto histórico das alterações reformadoras da legislação eleitoral, foi sancionada a Lei 13.165/2015, que ficou conhecida como a minirreforma eleitoral, que veio com a pretensão de reduzir os custos das campanhas eleitorais, simplificar a administração dos Partidos Políticos e aumentar a participação das mulheres. As alterações que se destacam é a proibição do financiamento das campanhas por pessoas jurídicas e a redução do período eleitoral.
Esta minirreforma eleitoral ocorreu logo após intensa pressão popular e das entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil e outras. As manifestações de junho de 2013 desvelaram a crise de representação política, colocando o tema da reforma política na pauta em 2014. O debate a cerca da inconstitucionalidade do financiamento de campanhas por empresas já estava em votação no Supremo Tribunal Federal e o número de votos dos ministros já apontava que seria declarada inconstitucional este tipo de financiamento, o que mostra a relevância da participação social na efetivação da reforma política.
Embora se possa concluir que o fim do financiamento de pessoas jurídicas nas campanhas eleitorais é de fundamental importância, pois reduz consideravelmente a fonte de recursos que em grande parte eram utilizados na compra de votos e no abuso do poder econômico além de provável causa da corrupção, é importante destacar que, mais uma vez, nem todos os pontos que necessitam de alteração ou aperfeiçoamento legislativo se efetivaram, haja vista que existia a proposta de que o financiamento das campanhas fosse exclusivamente público.
Ademais, havia também propostas de alteração no sistema de eleição proporcional, que variavam desde o voto em lista fechada, lista aberta mista, e o voto distrital, mas é imperioso considerar que se somadas às alterações ao longo da história obteve-se avanços que trouxeram maior equidade e moralidade ao processo eleitoral.
Desta forma, cumpre encerrar este item, destacando a relevância da participação popular e principalmente das organizações civis e demais instituições que buscam resgatar a plenitude condição cidadã dos eleitores, pois este último pleito, em razão de outros e dos aspectos até aqui demonstrados, que retiram a legitimidade dos representantes, mostrou através da grande quantidade de votos nulos, brancos e abstenções, que ainda temos muito que avançar nas mudanças, para que haja efetivação dos princípios que regem o processo eleitoral.
3.3 Mobilização social no combate a corrupção eleitoral
A política eleitoral brasileira ainda está longe de diminuir para um patamar mínimo a corrupção, mas é notório que o Brasil atravessa uma mudança social e cultural, onde as praticas ilícitas não são mais aceitas como inerentes aos processos eleitorais; ao contrário de muitos autores que tem uma visão negativista, a população a cada dia repudia as práticas como a compra de votos, ou sua troca por benefícios fugazes. Fazem denúncias com maior freqüência, demonstrando que a corrupção pode ser reduzida, e isto muito se deve a campanhas contra a corrupção que são frutos de mobilizações sociais.
Para entendermos o que é uma mobilização social podemos nos assistir das palavras de José Bernardo Toro, que traz a seguinte caracterização:
A mobilização social é muitas vezes confundida com manifestações públicas, com a presença das pessoas em uma praça, passeata, concentração. Mas isso não caracteriza uma mobilização. A mobilização ocorre quando um grupo de pessoas, uma comunidade ou uma sociedade decide e age com um objetivo comum, buscando, quotidianamente, resultados decididos e desejados por todos. (TORO, 2007, p. 5)
Assim, pode se perceber que uma mobilização é sempre em prol de um objetivo pré-definido, sendo assim um ato de razão. Ainda no entendimento do autor, mobilizar seria um ato de convocar vontades para atuar na busca de um propósito comum, com uma interpretação e um sentido que são compartilhados.
Toro (2007, p. 5), ensina que convocar vontades significa convocar discursos, decisões e ações no sentido de um objetivo comum, para um ato de paixão, para uma escolha que contamina todo o quotidiano.
Caracteriza também a mobilização como um ato de comunicação, com a seguinte lição:
A mobilização não se confunde com propaganda ou divulgação, mas exige ações de comunicação no seu sentido amplo, enquanto processo de compartilhamento de discurso, visões e informações. O que dá estabilidade a um processo de mobilização social é saber que o que eu faço e decido, em meu campo de atuação quotidiana, está sendo feito e decidido por outros, em seus próprios campos de atuação, com os mesmos propósitos e sentidos.
O combate à corrupção eleitoral tem se apresentado como objeto constante em processos de mobilização social, justamente por se tratar de um tema comum a todos, e que cotidianamente coloca em uma situação de desconforto os principais atores, que se tornam produtores destes processos de mobilização.
Podemos citar como exemplo de resultado obtido por meio de uma mobilização social a criação da chamada Lei da Ficha Limpa, ou Lei Complementar nº. 135 de 2010, que depois de uma grande mobilização nacional da sociedade, conseguiu o objetivo que era colher assinaturas suficientes para apresentar um projeto de lei que tornasse inelegível por oito anos um candidato que tiver o mandato cassado, renunciar para evitar a cassação ou for condenado por decisão de órgão colegiado, mesmo que ainda exista a possibilidade de recursos.
Esta mobilização iniciada em 1997 com a campanha “Combatendo a Corrupção Eleitoral”, foi motivada pela campanha da fraternidade proposta pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, cujo tema foi "Fraternidade e Política". Encampada posteriormente pelo Movimento de Combate a Corrupção Eleitoral – MCCE, atingiu a marca de 1,3 milhões de assinaturas, dando origem ao projeto de lei popular 519/09.
Da mesma forma, já discorremos sobre a história da Lei Contra a Compra de Votos, também conhecida como Lei dos Bispos, que também é resultado de outra mobilização social. Assim, entendemos como fundamental para o aperfeiçoamento do processo eleitoral e a concreta efetivação dos princípios basilares deste ramo do direito a participação popular por meio de processos de mobilização.
Para finalizar, deve-se ressaltar que um processo de mobilização popular não deve ter dono, nem servir a propósitos particulares, o que não significa não ser de ninguém, mas ser de todos, pertencer ao coletivo, e que o resultado pretendido convenha a todos.
CONCLUSÃO
A regulação do processo eleitoral é resultado dos mecanismos de controle e proteção dos princípios constitucionais extraídos da Constituição Federal, que garantem aos cidadãos o direito ao sufrágio, ao voto livre, para, através dele, serem representados de forma legítima nos espaços públicos; é garantido ainda pela legislação nacional, mediante a observação das regras, o direito aos cidadãos de ocuparem estes espaços públicos de poder por meio da conquista destes votos.
No entanto, as práticas para a obtenção do voto do eleitor, que ocorrem durante a campanha eleitoral, como a compra de votos, a captação ilícita do sufrágio, o abuso do poder econômico e político, corrompem o processo eleitoral, os princípios constitucionais, e por consequência geram uma crise de legitimidade na representação.
O sufrágio universal, o voto livre, como manifestação da vontade do eleitor é a base da democracia e da soberania popular. Portanto todas as condutas ilícitas praticadas pelos candidatos devem ser punidas, pois estes com certeza depois de eleitos e empossados em suas funções terão o poder e a legitimidade e a maior probabilidade de cometerem atos contrários aos princípios da administração pública.
Por esse motivo é fundamental que continuemos o debate a cerca dos mecanismos de combate a estas condutas, punindo e impedindo que candidatos que usem destes meios escusos para induzir de forma ilícita o eleitor cheguem a ocupar os cargos políticos por eles pretendidos. Este debate deve ocorrer entre aqueles que hoje detêm a legitimidade para alterar e aperfeiçoar o processo eleitoral, e também nas escolas, universidades, sindicatos e em outras entidades e organizações civis organizadas, na forma de um processo de mobilização social em prol de moralizar ainda mais o processo de escolha dos nossos representantes.
A mobilização social, aliada à possibilidade prevista de projetos de lei de iniciativa popular, como visto, já se mostrou meio bastante eficaz na criação de mecanismos necessários ao combate destas práticas. Porém, resta ainda a exigência de uma maior efetividade na sua aplicação, embora o número de cassação de registros de candidaturas e diplomas desde o
inícios da vigência destes mecanismos legais sejam relevantes, é sabido que muitas condutas que maculam os pleitos eleitorais continuam impunes.
Resta concluir que somente por meio de uma profunda reforma eleitoral, que apenas se efetivará através de uma significativa mobilização social e popular, e que produza um amplo debate acerca dos temas relevantes ao sistema de escolha dos representantes e da representação política a serem adotados no sistema eleitoral, conseguiremos em um lento caminhar vencer os que acomodam as mudanças de acordo com suas possibilidades de ampliar ou manterem-se no poder obtido e exercido por meio de condutas antidemocráticas e ilícitas.