Pensamento comunicacional
na América Latina -
textos antológicos e
autores emblemáticos
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São Paulo Intercom
2019
Organizadores
Nair Prata | Sônia Jaconi | Flávio Santana
Pensamento
comunicacional
na América Latina
-textos antológicos e
autores emblemáticos
Pensamento comunicacional na América Latina - textos antológicos e autores emblemáticos
Copyright © 2019 dos autores dos textos, cedidos para esta edição à
Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação - Intercom
Direção Editorial: Roseméri Laurindo
Projeto Gráfico, Diagramação e Capa: Clauciane Pereira Revisão: Nair Prata, Sônia Jaconi e Flávio Santana
Digitação dos textos da revista Comunicação & Sociedade: Flávio Santana
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Ficha Catalográfica
Pensamento comunicacional na América Latina - textos antológicos e autores emblemáticos / Organizado por Nair Prata, Sônia Jaconi e Flávio Santana. -- São Paulo: Intercom, 2019. 5,5MB; PDF
Bibilografia
ISBN 978-85-8208-123-5
1. Comunicação. 2. América Latina. 3. Textos antalógicos. 4. Autores emblemáticos. 5. E-book. 6.Intercom. I. Prata, Nair. II. Jaconi, Sônia. III. Flávio Santana. IV. Título.
CCD 302.23 Dados Internacionais da Catalogação na Publicação (CIP)
015 021 033 047 051 061 079 115 125 091 103 Prefácio
Cicília Maria Krohling Peruzzo Apresentação
Nair Prata, Sônia Jaconi e Flávio Santana
TEXTOS ANTOLÓGICOS
1. Documentação cinematográfica das culturas indígenas brasileiras | Egon Schaden
2. Egon Schaden: Contribuições para a Antropologia da Comunicação e a documentação cinematográfica indígena brasileira | Rose Mara Vidal de Souza
3. No caminho da descolonização editorial | Jaci Maraschin 4. Reflexões sobre a documentação científica do campo da Comunicação | Nair Prata
5. O monopólio da verdadeira fé?; A comunicação homem-mulher na mensagem do apóstolo Paulo; A comunicação em Paulo, o apóstolo | B. P. Bittencourt
6. Paulo, um apóstolo comunicador | Osvando J. de Morais e Rodrigo Gabrioti
7. Dilema do ensino da comunicação: o laço prático-teórico | Anamaria Fadul
8. Desafios a viver, esperanças a cultivar: contribuição de Anamaria Fadul para entrelaçar a teoria e a prática em Comunicação | Maria Ataide Malcher e Felipe Jailson Souza Oliveira Florêncio
9. Da especialidade do literário | Pedro Braga dos Santos
10. Da especificidade do literário: leitura comentada | Sônia Jaconi
Sumário
133 167 203 155 267 277 295 311 325 253 219
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AUTORES EMBLEMÁTICOS1. La comunicación participativa como praxis y como problema: la experiencia del Casete-Foro | Mario Kaplún
2. Mario Kaplún e o fórum de fitas cassete: um teste das possibilidades e limites da interatividade comunicativa bem antes da internet | Eduardo Meditsch e Juliana Gobbi Betti
3. Adeus a Aristóteles: Comunicação Horizontal | Luís Ramiro Beltrán 4. Luís Ramiro Beltrán e a sua prestimosidade ao texto “Adeus a Aristóteles: Comunicação Horizontal” | Maria Érica Oliveira Lima
5. A notícia na América Latina: mudanças de forma e conteúdo | Eleazar Diaz Rangel
6. A notícia na América Latina: diálogos sobre forma e conteúdo| Sônia Caldas Pessoa e Matheus Salvino
7. Videntes & Volantes: presença das ciências ocultas na folkcomunicação | Luiz Beltrão
8. Luiz Beltrão: Videntes e Volantes | Guilherme Moreira Fernandes 9. Elementos para uma teoria da “notícia científica” | Hugo Assmann 10. Há (cons)ciência para além do jornalismo e do poder | Rodrigo Gabrioti
SOBRE OS AUTORES
Cicilia M. Krohling Peruzzo
Prefácio
O convite para prefaciar a presente coletânea que recebe o título Pensamento comunicacional na América Latina - textos antológicos e autores emblemáticos, idealizada pelo professor José Marques de Melo e ora publicada in memoriam, me possibilitou recordar os nomes de grandes pensadores latino-americanos, cujas obras compuserem, em parte, a bibliografia sobre a qual me debrucei durante meus cursos de mestrado e doutorado. Alguns deles tive a oportunidade de conhecer pessoalmente, inclusive como aluna na época em que cursava o mestrado e o doutorado, como no caso de Egon Schaden, Jaci Maraschin e Anamaria Fadul. Outros, especialmente Mário Kaplún e Luis Ramiro Beltrán, pude assistir algumas de suas conferências proferidas em congressos em diferentes países da América Latina. Também os nomes de Hugo Assmann e Luiz Beltrão me são muito familiares pela importância da produção intelectual que deixaram. Sobre B. Bitencourt e Eleazar Diaz Rangel ouvi falar acerca do pioneirismo que representaram na abertura política de perspectivas acadêmicas voltadas às ciências humanas e sociais quando da gestão das instituições que dirigiram, além do pioneirismo na discussão teórica de temas envoltos na complexidade de questões sociais em textos bíblicos e no estudo do Jornalismo, respectivamente.
Por outro lado, cabe reconhecer a perspicácia de José Marques de Melo na identificação dos artigos então publicados dos autores mencionados tanto pelo significado antológico para o campo da Comunicação, ou seja, porque são mesmo dignos de serem lembrados, quanto pela marca emblemática que os autores da segunda parte do livro deixaram ao campo científico.
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Mas, vamos ao que mais interessa, aos aspectos do conjunto das ideias desta coletânea, pois o lastro de contribuições de cada um dos notáveis autores que compõem a coletânea é muito grande para caber num prefácio. Para tanto, tento responder uma pergunta que fiz a mim mesma: por que será que o professor Marques escolheu os textos que estão na primeira parte do livro como memoráveis e os autores da segunda parte como emblemáticos? Não tenho dúvida que essa resposta estará incompleta e, desde já, recomendo a leitura não só dos textos originais que formam os capítulos desta obra, mais os comentários subsequentes aos mesmos elaborados por autores ativos na academia que se debruçaram na interpretação desses clássicos através de um olhar histórico, para melhor compreensão do enigma.
Quanto aos textos considerados antológicos, do meu ponto de vista, o de Egon Schaden, intitulado “Cinematografia das culturas indígenas brasileiras”, mostra sua esmerada preocupação científica com o tratamento dado pelo cinema de questões relativas às populações aborígines. Sua abordagem é de grande atualidade ao atentar para o debate em torno do conflito entre as possíveis distorções na retratação cinematográficas de realidades indígenas decorrentes da ânsia pela criatividade artística e o gosto dos cientistas pelos documentos. Contudo, para ele pode existir um ponto de encontro entre o cineasta e o cientista, pois a visão estética não é incompatível com a documentação da realidade.
Em seguida, Jaci Maraschin, com a resenha “Descolonização editorial”, parece enxergar a inércia e a burocratização da Universidade brasileira que se vê mais como instituição fornecedora de diplomas do que criadora de condições para o desenvolvimento de sua própria ciência. Ele ressalta o papel de associações científicas, especialmente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (INTERCOM), na prestação serviços de documentação bibliográfica das ciências da Comunicação, para suprir carências – ou incompetências - das próprias faculdades de Comunicação no desenvolvimento das condições para o avanço da pesquisa científica, uma problemática que ainda perdura nos dias atuais.
De B. P. Bittencourt são mesclados três breves textos que tratam essencialmente da comunicação no Apóstolo Paulo, mas também a análise de um livro sobre a comunicação na catequese feita pelos Jesuítas na era colonial. São textos que revelam a ênfase à questão da comunicação como objeto de estudo dada pelo autor, como parte intrínseca das relações em sociedade. Sua discussão segue relevante ao abordar um tema então não em evidência nos meios de comunicação, a paridade de direitos homem-mulher. A luz dos conceitos de comunicação em Paulo, entre outros aspectos, Bittencourt aponta visões do movimento feminista, como a que identifica passagens machistas na Bíblia, propondo, inclusive, que a tradução da palavra hebraica ou grega para homem não seja o vocábulo "homem", mas "criatura", por encerrar a dualidade de sexos. Aponta, pois, para um problema que atravessa os séculos, ou seja, a relação entre comunicação e equidade de gêneros.
Em seguida aparece o texto “Dilema do ensino da comunicação: o laço prático-teórico” de Anamaria Fadul, que discute a relação teoria-prática no ensino da filosofia nas escolas de comunicações e artes e traz a questão para a filosofia dos meios de comunicação de massa. Para ela, pensar a relação teoria-prática, um tema polêmico na época nos cursos de Comunicação, como um ato crítico é importante para se entender o papel das escolas no processo de mudança social. Um problema então colocado por Anamaria Fadul, de que a teoria e a prática nas escolas de comunicação são pensadas como instâncias separadas - uma informação teórica sobre a prática, ou uma prática entendida num sentido puramente concreto, e, portanto, oposta a toda teoria, parece ser um problema que continua vigente, ou quem sabe até alargado.
Fechando a primeira parte do livro, entra o texto “Da especialidade do literário”, de Pedro Braga dos Santos, que começa esclarecendo o leitor sobre os dois elementos importantes da literatura - a função estética do texto e sua organização interna, para poder aprofundar a questão do estatuto científico na investigação do fenômeno literário. Situando a questão da produção do texto literário no contexto histórico e na cultura da época, ele aponta para aspectos sociológicos embutidos no fenômeno literário, ou de como em todos os tempos, as classes hegemônicas tem, direta ou indiretamente, poder sobre a definição das normas estéticas prevalecentes, apesar de não deixar de existir
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autonomia por parte dos autores relevando que algo sempre escapa do controle da jurisdição ideológica daquelas classes. Essa abordagem inspira a pensar o momento atual vivido pela sociedade brasileira, bem como outras épocas históricas não tão distantes, que evidenciam esses contrapontos, entre a força do poder ideológico querendo se impor e as válvulas de escape sempre criativamente construídas no meio literário.
Na segunda parte do livro, a que reúne autores emblemáticos, encontramos como primeiro texto "La comunicación participativa como praxis y como problema: La experiencia de la del Casete-Foro”, de Mario Kaplún. Este autor e sua obra foram e são importantes para a pensar e praticar a comunicação popular participativa na América Latina. O texto selecionado é, especialmente, simbólico pois mostra o desenvolvimento de uma técnica para a práxis da comunicação participativa através do uso da fita gravada - a fita cassete em gravador tradicional - como meio de comunicação para se estabelecer o diálogo entre pessoas de diferentes regiões de um país, numa época em que as comunicações a distância eram predominantemente por cartas. Por um lado, está evidenciada a escolha pelo diálogo comunicativo como mediador da tomada de decisão em instancias de organização popular. Por outro lado, mostra que a tecnologia de cada época pode servir ao trabalho emancipador, desde que haja a decisão política de conduzir seu uso para esse fim. Hoje em dia já vi a reaplicação dos princípios da técnica “Cassete Fórum” por meio de plataforma digital interativa (cassete fórum digital) e de podcast.
Luis Ramiro Beltrán é outro autor apontado pelo idealizador do livro como emblemático. O texto escolhido é o intitulado “Adeus a Aristóteles: comunicação horizontal”, no qual após resgatar criticamente os modelos teóricos que tentaram explicar o processo de comunicação, Beltrán aponta o da comunicação horizontal como ápice de um processo bilateral cooperativo que pressupõe o acesso livre e igualitário, diálogo e participação no exercício dos direitos à comunicação por meio dos recursos e segundo às necessidades sociais. Trazer à tona esse debate no início da década de 1990 numa revista brasileira, debate emergido do contexto de discussão avançada de propostas de democratização dos meios de comunicação no mundo, tal como ocorreu nas duas décadas anteriores quando do questionamento da Ordem
Internacional da Informação e da proposta de criação da Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação (NOMIC), bem como do Informe MacBride, foi de suma importância. Tanto como forma de democratizar as linhas do pensamento crítico e propositivo sobre o papel dos meios de comunicação quanto por levantar a problemática dos direitos à comunicação. Aliás, um tema que na época parceria um tanto distante da realidade acadêmica e mediática, mas que no fim do século XX e início deste século ganhou força na academia. Por outro lado, Beltrán continuou por décadas a inspirar a pesquisa na América Latina em temas como a descolonização do pensar científico e as políticas democráticas de comunicação.
Em seguida foi incluído o artigo “A notícia na América Latina: mudanças de formas e conteúdos” de Eleazar Diaz Rangel, outro emblemático autor, na perspectiva de José Marques de Melo. Eleazar Diaz Rangel discute a técnica da "pirâmide invertida" – o lead - no Jornalismo, cuja primeira aparição teria sido no The New York Times em abril de 1861. Na segunda década do século XX alguns dos mais importantes periódicos latino-americanos passaram a publicar as notícias das agências norte-americanas, redigidas em forma de "pirâmide invertida" e passaram gradativamente a incorporar a técnica. Preocupado com a qualidade jornalística e com o ensino de Jornalismo, Eleazar começa dizendo que essa estrutura da notícia foi pensada para informar superficialmente o leitor, não para conduzi-lo a pensar. Ela representa uma evolução, mas o enxugamento de notícias também significa deixar mais espaço para os anúncios publicitários, fonte de financiamento dos jornais. Agregou-se à estratégia de despertar o interesse de leitores, a ênfase em ilustrações e as informações sobre fatos “interessantes”, inusitados, pitorescos, embora sem deixar de lado as notícias de fundo sobre questões econômicas, políticas governamentais e demais poderes da República, porém sem tratamento aprofundado. O autor identifica a introdução do lead na América Latina ainda na segunda década do século XX e historializa os jornais que gradativamente o incorporaram, relevando-se um historiador crítico do Jornalismo. Mostra as incongruências decorrentes de um Jornalismo mais interessado na conquista de leitores do que no tratamento apurado e profundo dos acontecimentos. Portanto, foram criadas as condições para o avanço do sensacionalismo, que
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sempre existiu, mas cada vez mais avança uma vez impulsionado pela mercantilização da notícia. A discussão trazida pelo autor ainda no início da década de 1980 mostra sua pertinência mais de quatro décadas depois: podem mudar os atores, mas as estratégias e os problemas na imprensa continuam vigentes.
Outro autor emblemático, Luiz Beltrão. O texto que compõe esta coletânea se intitula “Videntes & Volantes: presença das ciências ocultas na folkcomunicação”, entre várias outras obras que ele escreveu. Neste texto, Beltrão adentra em meandros da cultura brasileira, uma de suas vertentes de estudo no campo da comunicação. Com criticidade, o autor revela a dialética folcomunicacional entre os aspectos culturais envoltos nas crenças e nos interesses da demanda em antever o futuro e a encontrar saídas para problemas íntimos, fortuna e bons negócios, parecem ser correspondidos pelos videntes, os quais prometem seus poderes sobrenaturais expressos em seus volantes que oferecem serviços. A emblematicidade atribuída a Luiz Beltrão, certamente não se refere apenas a este texto em si, mas à perspectiva da folcomunicação do autor no bojo da discussão sobre as teorias da comunicação, além da contribuição dele para o estudo e o ensino de Jornalismo.
O último autor da segunda parte do livro sobre os autores emblemáticos, e que encerra a coletânea, é Hugo Assmann, renomado pesquisador filósofo e educador, homenageado com a republicação de texto de sua autoria sobre os “Elementos para uma teoria da "notícia científica”. Ele debate o caráter político do jornalismo científico que envolve a relação entre saber e poder. Aparentemente neutra, a "notícia científica" entra no jogo de interesses políticos na divulgação, mas a questão da ciência é anterior e se define no jogo do "por quê" e "para quê" ela é feita e serve. Ele instiga que pensemos na qualidade do jornalismo que difunde os achados da ciência, mas também e, talvez seja mais importante, discutir e definir os rumos da própria ciência para colocar a sua razão de ser e do que pesquisar no patamar do interesse público.
Apresentação
Nair Prata
Sônia Jaconi
Flávio Santana
Um dos intelectuais mais produtivos e iluminados do campo da Comunicação, José Marques de Melo foi responsável por uma rica bibliografia, deixando um legado de 173 livros escritos e/ou organizados em parceria com outros pesquisadores, além de centenas de artigos científicos.
Após o falecimento do professor, foram encontrados em seu computador diversos projetos em andamento e este livro é a realização de uma dessas ideias que ele pretendia colocar em prática. José Marques de Melo deixou o esboço de um livro com o objetivo de trazer reflexões sobre o pensamento comunicacional latino-americano por meio de textos e autores emblemáticos. A proposta do professor era republicar textos clássicos, originalmente presentes na revista Comunicação & Sociedade (C&S), acompanhados da reflexão de um pesquisador contemporâneo.
O planejamento do professor estava todo pronto e ele mesmo nos escolheu para a organização da obra. Também escolheu os textos e autores que representam de alguma forma o pensamento comunicacional latino-americano e, na maioria dos casos, também elegeu o pesquisador contemporâneo para fazer a reflexão.
Dessa forma, a INTERCOM decidiu publicar o livro e nós fomos encarregados de coordenar o projeto. O livro foi dividido em duas partes pelo professor José Marques de Melo: textos antológicos e autores emblemáticos, cada uma com cinco textos originários da revista C&S, seguidos por um artigo-comentário de um pesquisador contemporâneo. Neste trabalho de recuperação dos textos da C&S, contamos com a valiosa colaboração do jovem pesquisador Flávio Santana, o último orientando de José Marques de Melo, que nos auxiliou na busca dos artigos. Flávio também digitou todos os textos e
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conseguiu as necessárias autorizações para a republicação diretamente com os autores ou seus familiares.
A primeira seção - Textos Antológicos – é aberta com o texto de Egon Schaden Documentação cinematográfica das culturas indígenas brasileiras. A pesquisadora Rose Mara Vidal de Souza faz a reflexão sobre este texto, com o artigo Egon Schaden: Contribuições para a Antropologia da Comunicação e a documentação cinematográfica indígena brasileira.
O texto No caminho da descolonização editorial, de Jaci Maraschin, é acompanhado pelo comentário de Nair Prata, intitulado Reflexões sobre a documentação científica do campo da Comunicação. Três textos de B. P. Bittencourt - O monopólio da verdadeira fé?; A comunicação homem-mulher na mensagem do apóstolo Paulo; A comunicação em Paulo, o apóstolo – provocam a reflexão Paulo, um apóstolo comunicador, escrita por Osvando de Morais e Rodrigo Gabrioti.
A partir do texto Dilema do ensino da comunicação: o laço prático-teórico, de Anamaria Fadul, os pesquisadores Maria Ataíde Malcher e Felipe Jailson Souza Oliveira Florêncio produziram a reflexão intitulada Desafios a viver, esperanças a cultivar: contribuição de Anamaria Fadul para entrelaçar a teoria e a prática em Comunicação. E encerrando esta seção, o texto Da especificidade do literário, de Pedro Braga dos Santos, é analisado pela pesquisadora Sônia Jaconi com o artigo Da especificidade do literário: leitura comentada.
A segunda seção deste livro - Autores Emblemáticos – é aberta com o texto de Mario Kaplún, La comunicación participativa como praxis y como problema: la experiencia del Casete-Foro, seguida da reflexão de Eduardo Meditsch e Juliana Gobbi Betti intitulada Mario Kaplún e o fórum de fitas cassete: um teste das possibilidades e limites da interatividade comunicativa bem antes da internet.
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Para todos os textos publicados neste livro foram solicitadas autorizações aos autores vivos ou aos familiares dos autores falecidos. Porém, de alguns não obtivemos resposta. Os organizadores decidiram, de toda forma, republicar todos os artigos selecionados previamente por José Marques de Melo, baseadas na lógica de que são textos já presentes em uma revista que tem circulação ativa, tanto no formato impresso quanto digital.
O texto Adeus a Aristóteles: comunicação horizontal, de Luís Ramiro Beltrán, é analisado por Maria Érica de Oliveira Lima no artigo Luís Ramiro Beltrán e a sua prestimosidade ao texto “Adeus a Aristóteles: Comunicação Horizontal”. Sobre o artigo de Eleazar Diaz Rangel A notícia na América Latina: mudanças de forma e conteúdo, os pesquisadores Sônia Caldas Pessoa e Matheus Salvino produziram o texto A notícia na América Latina: diálogos sobre forma e conteúdo.
Encerrando o livro, o texto Videntes & Volantes: presença das ciências ocultas na folkcomunicação, de Luiz Beltrão, é comentado por Guilherme Moreira Fernandes, no artigo intitulado Luiz Beltrão: Videntes e Volantes. O último texto é de Hugo Assmann, intitulado Elementos para uma teoria da “notícia científica”, com comentário de Rodrigo Gabrioti no artigo Há (cons)ciência para além do jornalismo e do poder.
Com este livro, além de refletir sobre o pensamento comunicacional latino-americano, queremos reverenciar a memória do professor José Marques de Melo, que permanece inspirando as várias gerações de pesquisadores da Comunicação.
TEXTOS
ANTOLÓGICOS
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Sociólogos e antropólogos protestam contra distorções que a ânsia de criatividade artística imprime nos trabalhos dos cineastas. Os cientistas querem documentos. No filme etnográfico o que interessa é, pois, a coisa em si. A visão subjetiva deve ficar na retaguarda. É possível, porém, um ponto de encontro entre o cineasta e o cientista, que bem poderia ser a "metáfora dramatúrgica", pois a visão estética não é incompatível com a documentação da realidade.
É provável que eu não chegue a fazer uso do tempo máximo de 40 minutos que me foi concedido para a palestra. Convirá dizer apenas algo do essencial, a fim de que haja troca de ideias, uma discussão que espero seja proveitosa para nós todos.
A grande maioria dos aqui presentes pertence à ala dos cineastas. Falarei em nome dos representantes das Ciências Sociais e Humanas e em tom quiçá um tanto polêmico. Poderá ser o começo do entendimento necessário a que se alude no preâmbulo do programa deste Simpósio. Que há desentendimento — ora tácito, ora explícito — já o vimos aqui mesmo no I Simpósio, há 3 anos. De um lado, os cineastas; do outro, os pesquisadores no campo das Ciências Sociais. Curioso é que, em geral, nem uns, nem outros definem bem as suas posições. Talvez seja útil, por isso, uma atitude um tanto provocadora, simples técnica de exposição, que, portanto, não se entenderá como voz autoritária ou categórica. No fundo, se trata sempre de indagação.
Documentação cinematográfica das culturas
indígenas brasileiras
1Egon Schaden
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Texto originalmente publicado na revista Comunicação & Sociedade, n. 01, julho/1979, p. 5-14. digitado por Flávio Santana.
Os cineastas trabalham no campo das artes. E disso não abrem mão quando se dispõem a fazer filmes sobre a cultura e a existência social. Mas a ânsia da criação artística tem gerado distorções, contra as quais protestam sociólogos e antropólogos. Para evitá-las, servem-se hoje, não raro, da assessoria dos que pesquisam, com métodos científicos, a vida humana em suas várias dimensões. Mas de qualquer modo não deixam de ser cineastas, que, além de dominar a técnica cinematográfica, têm por objetivo produzir obras de arte. E ninguém lhes nega o direito de buscarem uma visão estética da realidade. Só que a perspectiva do antropólogo e do sociólogo é outra. Humildemente, o cientista — e a ciência é escola de humildade — recorre aos que fazem cinema para que, com sua ajuda, se documentem, da maneira mais concreta possível, renunciando, pois, a toda criatividade, uns tantos aspectos que sem o emprego da câmara não se poderiam apresentar com igual rigor e segurança.
Posso viver, por exemplo, durante anos numa tribo indígena, conhecer a sua cultura, a sua organização social, os seus padrões de interação humana, a sua imagem do mundo — e assim por diante. Posso pôr tudo isso no papel, preto no branco, usando o alfabeto fonético, e ilustrando o texto com não sei quantas fotografias estáticas, não necessariamente estéticas. O leitor, porém, gostaria de ver a vida do grupo em ação, em movimento. Entretanto, para ter a vivência direta do mundo tribal, deveria integrar-se nele pessoalmente por um período bastante longo, o que não é nada fácil. Para suprir a falha, há um meio quase direto: a apreensão cinematográfica, pelo menos parcial, de processos que marcam a vida comunitária. Assim, o estático se transforma em cinético e, mais ainda, o cinema, captando os processos às vezes fugazes que se desenrolam, os fixa em forma de documentos. Nisto, que talvez pareça um tanto paradoxal, o antropólogo encontra um recurso de grande valia para o estudo de problemas que de outra forma não resolveria. A fim de compreender em seus pormenores o comportamento das pessoas, determinar os padrões etológicos etc., posso assistir duas, três ou quantas vezes forem necessárias à projeção do filme e analisá-lo de acordo com os objetivos que eu tenha em mira. E não só isso. A técnica da cinematografia supera limitações de nossa constituição orgânica. Há, para dar senão um exemplo trivial, movimentos rápidos que escapam a nossa observação visual. A câmara lenta no-los mostra em todas as fases e com
todas as minúcias. Assim, a maneira pela qual, em diferentes situações, o espírito se coordena com o corpo, segundo padrões mais ou menos fixos, embora variáveis de uma pessoa para outra.
Mas um documento científico dessa natureza difere, em essência, de outro qualquer, feito talvez a televisão, em que interfiram, por motivos igualmente válidos, a criatividade do cineasta ou artifícios mais ou menos sutis que visam a despertar a emoção ou o interesse de um público de leigos. Num filme científico stricto sensu não há, por exemplo, por que simular movimento onde na realidade há estática – nem vice-versa. É óbvio que — se há pouco eu disse que a ciência é escola de humildade — isto não quer dizer que a arte também não o possa ser. Casos há em que a renúncia se impõe. O que não impede, ninguém o ignora, que também o filme documental, embora de gênero diverso, proporcione ao cineasta a satisfação de pôr à prova o seu gênio criador. Mas que não se confunda uma coisa com outra.
Hoje de manhã falou-se aqui da cultura brasileira, que é ao mesmo tempo una e múltipla. O seu denominador comum vai do extremo norte ao extremo sul, sem menosprezo, é claro, das múltiplas variações regionais. Até hoje ninguém logrou mostrar, quer pela expressão artística, quer pelos meios de análise quantitativa e qualitativa de que a ciência dispõe, qual é na realidade esse denominador comum, de cuja existência não duvidamos e que sentimos a cada passo. Estamos ainda por determinar com a devida precisão as tendências prevalecentes na variabilidade, bem como o papel de fatores ecológicos, étnicos, históricos e outros mais. Para chegarmos a isso, poderia o cinema, enquanto arte, mas sobretudo como ciência "fria", dar uma grande contribuição. "Frio", no caso, não quer dizer coisa morta, mas um modo de captar a realidade em termos racionais, sem preocupação com o belo e sem artifícios de criar emoção, quando o objetivo é, antes de mais nada, entender e compreender.
Acentuamos por tradição a unidade cultural de nosso povo, sem que por isso, é claro, ignoremos as diferenças que dão cunho próprio a cada região. Por outro lado, os imigrantes alemães, japoneses e outros, bem como seus filhos, que não aprendessem logo o português ou mantivessem costumes de seus antepassados eram e, em parte, continuam sendo tidos como algo estranho ao
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organismo étnico nacional. Falava-se e há quem ainda fale em "quistos raciais", até com referência às populações aborígines. Estes, pelo Estatuto do Índio, de 1973, têm agora pelo menos o direito de manter as suas tradições. E o Estatuto prevê rigorosas sanções para quem as desrespeite. Em termos de Lei, foi a primeira quebra da velha filosofia cultural luso-brasileira, cujas raízes históricas não cabe discutir aqui. O que nos cabe lembrar é que existem ainda, ninguém sabe até quando, muitas dezenas de culturas índias que não foram até hoje devidamente documentadas. Estão sujeitas — umas mais, outras menos — às influências da sociedade nacional. Para o que se convencionou chamar de memória histórico-cultural do Brasil, é preciso que esses sistemas de vida, que não persistirão para sempre, sejam documentados com o maior rigor possível. Para isso, nós, os que cuidamos de Antropologia, contamos com a ajuda, por exemplo, dos que sabem fazer cinema, hoje uma das técnicas mais eficientes para documentar a vida de um povo.
Quando, há três anos, participei aqui do I Simpósio sobre o filme documental, falei sobre a Encyclopaedia Cinematographica, editada em Göttingen, na Alemanha, que inclui hoje cerca de 2500 filmes científicos, quase todos de curta-metragem. Divide-se em três seções, a de Ciências Biológicas, e a de Etnologia e a de Ciências Tecnológicas. Cada filme é uma pequena pesquisa científica, um item, ou seja, um verbete enciclopédico que vale pelo que de original e inédito contenha. A equipe que produz esses filmes inclui cientistas e cineastas de quase 20 países. Ora bem, um dos mais pobremente representados no conjunto é o Brasil. Do catálogo constam cerca de 70 filmes sobre culturas indígenas de nosso País, quase todos feitos por Harald Schultz, que era assistente de Etnologia do Museu Paulista. Aliás, Schultz começou a filmar já na década dos 40, quando Rondon, que era homem de grande visão, o chamou para organizar, no então Serviço de Proteção aos Índios, um setor de documentação fotográfica e cinematográfica da vida silvícola. Na época, Schultz não conhecia os princípios teóricos e metodológicos que regem a documentação cinematográfica adotada por aquela enciclopédia. Como quer que seja, o material por ele colhido, após passar pelo crivo de editoração do "Institut für den Wissenschaftlichen Film", se converteu num documentário científico de extraordinário valor.
Tenho aqui em mãos uma obra do Professor Wolf em que discute longa e amplamente os critérios a serem levados em conta na produção de filmes científicos. Os nossos cineastas dirão talvez que é muita coisa para ler e que, além disso, o livro é escrito em alemão. O título é "Der wissenschaftiliche Dokumentationsfilm und die Encyclopaedia Cinematographica". Não há tradução do volume. Se o menciono, é uma vez mais para incentivar a discussão.
Seria interessante esboçar o histórico do que já se fez no Brasil no campo da documentação cinematográfica dos grupos indígenas. Mas vou limitar-me a uma ligeira referência. Os primeiros ensaios remontam pelo menos ao princípio deste século, quando das expedições de Rondon por Mato Grosso e pelo Acre. Sob a orientação de um antropólogo, Roquette Pinto, o então jovem Tenente Reis filmou cenas da vida dos silvícolas, de tribos que em parte já deixaram de existir. Produziu documentos preciosos, embora, é evidente, sem obediência aos padrões que hoje se exigiriam. Fato é que, por desleixo ou falta de compreensão, esses e outros filmes se estragaram ou se perderam para sempre. Paulo Emílio Salles Gomes, que faleceu recentemente e que hoje de manhã foi aqui várias vezes mencionado, se empenhou muito por conseguir o que torno a propor como tarefa indispensável e urgente. Trata-se de fazer um levantamento, um inventário do grande número de filmes de valor etnográfico, muitos deles feitos por amadores, que se encontram em institutos ou em poder de particulares. Isto exige intensivo e penoso trabalho de pesquisa. Onde estão, por exemplo, se ainda existem, os filmes da expedição de Lévi-Strauss, que na década de 30 andou entre os Nambikuára, os Paresí e outras tribos de Mato Grosso? Os filmes de Noel Nutels? E assim por diante. Muita coisa ainda pode ser salva. Algumas instituições estão começando a levar a sério o problema, em especial o Museu do Índio, do Rio de Janeiro, onde se está organizando um centro de documentação cinematográfica. É iniciativa altamente auspiciosa. Um número incalculável de documentários sobre tribos brasileiras existe apenas em outros países, como na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Alemanha e na Itália. Não importa que a maioria tenha sido feita por simples amadorismo ou com vistas ao grande público. São, em todo caso,
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úteis também para o cientista. Apesar das falhas que possam ter, não deixam de conter subsídios para estudos comparativos.
Enfim, o termo filme documental tem várias conotações, que é preciso distinguir. Não se requer, acabo de dizê-lo, que o cineasta que produza um documento, digamos, para a B. B. C. de Londres, destinado a milhões de espectadores, abdique de sua visão artística de um cerimonial indígena e que se abstenha de captar as cenas pelo prisma subjetivo de sua personalidade britânica. Contanto que a sua criatividade não o faça aproveitar os dados concretos como simples material para obra de arte. Afinal, documento é documento, nada mais.
No filme etnográfico em sentido restrito o que interessa e a coisa em si. Nele também interfere a visão subjetiva, que nunca se elimina de todo, mas ela deve ficar, por assim dizer, na retaguarda. O que importa, antes do mais, é que não se procure criar nada e, também, que não se concentre a atenção nos aspectos exóticos que estimulem a imaginação do espectador. Ainda assim — repita-se – por maior que seja o intento de apreender as coisas tais como são, haverá sempre a perspectiva de quem as viu e as fixou na película. Ungar Balázs, um dos grandes teóricos do filme científico, chegou a dizer que não há nada tão subjetivo como a objetiva. Ou seja, o mesmo processo social e o mesmo fenômeno cultural assumem feições diversas de acordo com o cineasta que os filma. Com 10 minutos de televisão posso, apresentando uma entrevista coletiva de algum candidato a presidência da República, torná-lo simpático ou antipático a milhões de espectadores, ainda que o meu objetivo não seja outro senão fazer reportagem. Tudo depende dos ângulos das tomadas, dos "momentos" que ponho em destaque e de quantos artifícios, conscientes ou inconscientemente empregados, venham a "retratar" o caráter do respectivo cidadão.
Sabemos muito bem que os fatos humanos não se estudam, nem se documentam a maneira do zoólogo, que investiga, por exemplo, a procriação das baratas. O documentador cinematográfico deve, na medida do possível, ser estranho a realidade e ao mesmo tempo alguém que a veja de dentro — as duas posições em seu devido o que não é fácil, evidentemente. Em todo caso, a tarefa do filmador e a de fixar movimentos, a fim de tornar passíveis de
interpretação científica fenômenos cinéticos que, sem o recurso da câmara, seriam demasiado fugazes para a análise científica. O que a câmara registrou pode ser repetido quantas vezes forem necessárias para se descobrir o que cada movimento significa em seu contexto. Mas a interpretação não compete ao filmador. Queira ou não queira, há de deixá-la por conta do cientista preocupado com algum problema que deseje resolver.
Como, porém, selecionar os aspectos a serem filmados? Quais os critérios a serem aplicados pelo cineasta para que o seu trabalho não leve o estigma de "etnografismo estéril"? Que tenha em mira, antes de tudo o mais, um tema bem definido. Para isso, requer alguma informação antropológica ou, pelo menos, a assessoria ou orientação de um especialista. Mas a esta altura convém lembrar talvez que, no correr do tempo, os antropólogos adotaram ou elaboraram uma série de quadros de referência ou de modelos para o estudo das culturas, tais como o evolucionista, que no século passado predominava nas Ciências Naturais, o histórico-cultural, em que se dá primazia a processos independentes das leis da natureza, o funcionalista, em que se encara cada cultura em analogia com um organismo vivo, composto de órgãos que em sua conjunção ativa satisfazem as funções necessárias para que o organismo se mantenha. Outros mais: o modelo lógico, em que se busca a consistência, por assim dizer, racional, entre os valores e os padrões de comportamento que determinam o estilo de vida de um povo ou de uma tribo; os estético-simbólicos, em que as culturas se reduzem em última análise a sistemas de símbolos, cada uma com sua orientação própria e seus valores centrais; o estruturalista, em que, mediante abstração de outros aspectos, se procura compreender o todo cultural como jogo de oposições e de mediações entre categorias lógicas que, de caso em caso, configuram, em termos de comunicação, a vida social e cultural. Isto, para fazer menção apenas dos modelos mais conhecidos.
Todavia, para que a documentação cinematográfica seja instrumento — e também resultado — de pesquisa, e é a isto que aspiramos, o cineasta não se há de decidir, aleatoriamente ou a seu bel-prazer, por tal ou qual modelo teórico, salvo se tem conhecimento bastante sólido do que realmente lhe cabe documentar. Sabe que, afinal de contas, a câmara é um recurso para captar,
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com melhor eficiência do que por meios diferentes, certos aspectos da realidade, ao passo que outros se registrarão de preferência por técnicas diversas.
Mas não haverá talvez um ponto de encontro entre o que o cineasta quer fazer e o que o cientista espera? Ora, vejamos. Há já vários decênios, sociólogos e antropólogos adotam como um de seus modelos válidos e úteis — se é que no caso se aplica o conceito de modelo — o da "metáfora teatral" para a compreensão da vida humana. Aliás, nem foram cientistas que o propuseram. Vem dos dias de Shakespeare, que escreve em sua comédia As you like it: "All the world's a stage, and all the men and women merely players; they have their exits, and their entrances". E por aí afora. Não haveria nisso, pergunto eu, um solo comum, um ponto de partida para colaboração e entendimento fecundos entre cineastas e Cientistas Sociais? Quem sabe, até para uma conjunção que não exija muita renúncia ou concessão do uma parte, nem de outra? Se é verdade que nós todos, também na vida rotineira de todos os dias, somos sempre atores "teatrais" que obedecem a um roteiro, está nele presente uma violência também estética. Basta vê-la e senti-la – e já não precisamos de criação ou de seja o que for.
Pouco se têm explorado as possibilidades de uma integração eficiente do trabalho do antropólogo com o dos que fazem cinema. Exemplo expressivo do que de fecundo a conjunção promete encontra-se numa pesquisa recente do antropólogo norte-americano Thomas Gregor entre os Mehináku, uma das dez ou doze tribos que ainda existem no Parque Nacional do Xingu. A monografia de Gregor, Mehináku: The Drama of Daily Life in a Brazilian Indian Village, publicada no ano passado, me caiu nas mãos pouco antes de receber o convite para participar deste simpósio. Trata de um grupo hoje reduzido a algumas dezenas de indivíduos, habitantes de uma só aldeia, circunstância, aliás, vantajosa para a pesquisa. É bem mais fácil escrever uma monografia ou fazer um filme científico sobre uma unidade social de limites definidos do que sobre algum setor de uma população mais ampla, cujas frontes talvez nem se consiga precisar. Às vezes não há sequer critérios para dizer onde começa e onde acaba uma favela que eventualmente se haja escolhido como objeto de estudo ou documentação.
Mas não é este o aspecto que pretendo destacar. Gregor expõe a vida sociocultural dos Mehináku guiando-se pela "metáfora dramatúrgica", segundo a qual, como diz Dahrendorf, louvando-se em Shakespeare, toda cultura fornece o "script" que define os direitos e as obrigações de cada membro do grupo. Ao todo, Gregor conviveu cerca de um ano e meio com aqueles índios, aprendeu a sua língua, estudou as suas instituições e, conhecendo bem a personalidade de todos os indivíduos, pôde bem avaliar em que medida cada um deles, de acordo com o seu caráter e temperamento, desempenhava o "papel" que lhe cabia conforme as normas inerentes ao "script" da cultura. Segundo este modelo, redigiu a monografia e depois voltou à aldeia, trazendo uma equipe de cinematografistas para documentar (com um filme de 16 mm) o que havia visto e descrito. A experiência vem relatada no último capítulo do livro. Os índios como nós todos, são atores e, de manhã à noite, em tudo o que fazem, se comportam como tais. Mas, tão logo perceberam que estavam sendo filmados, cada qual tomou consciência de que estava desempenhando um papel no "drama social". E assim demonstraram compreender que a vida é o teatro e o teatro é a vida. Em suma, realizado com o discernimento que a ciência requer, o filme etnográfico revela dimensões da realidade que outros meios hoje disponíveis não fixariam ou não poriam em evidência. Abstenho-me de entrar em pormenores e explicações. Basta deixar consignado o lembrete. Mas talvez convenha uma advertência. Apesar de tudo, uma coisa é desempenhar um papel no "teatro" da vida quotidiana, outra a de assumi-lo ante a câmara. Mas o perigo de distorção que daí decorre pode ser contornado pelo antropólogo consciente da problemática gerada pelo fato de que os atores de uma cena sabem que estão sendo filmados. Quem orienta o filme ou quem depois analise e interprete o seu conteúdo deverá separar o joio do trigo e descobrir que o que se vê no filme corresponde ao comportamento natural e espontâneo e em que medida a ideia de estar diante de uma objetiva o possa ter alterado.
Exemplo sobremaneira instrutivo de documentação etnográfica vem expostos, em termos sumários, num livro de John Collier, Jr., editado em tradução vernácula sob o título de Antropologia Visual: A Fotografia como Método de Pesquisa. Trata-se da experiência do antropólogo Leighton entre
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esquimós da ilha de St. Laurence. Havia lá uma escola com um professor de raça caucásica, ou seja, "branco". Pediu a um esquimó que fizesse um filme sobre a caça da baleia e deixou sobre a mesa, como que por acaso, um manual de técnica cinematográfica. O esquimó pegou o livro, leu-o, fez alguns exercícios, obteve o material necessário e pôs mãos à obra. Se um antropólogo, ainda que bom conhecedor do assunto, houvesse programado o roteiro, jamais o teria feito com a segurança do nativo. Sabia este, muito melhor do que qualquer cientista, o que há de essencial na caça da baleia, atividade em certas circunstâncias questão de vida ou de morte para a sua gente. O que lhe interessava era apreender com a câmara os aspectos essenciais e não o que, por tal ou qual motivo, pudesse parecer pitoresco ou prender a atenção de um público estranho, ávido de cenas fascinantes. De acordo com os metros de filme que tinha à disposição, contentou-se com tomadas curtas dos lances menos essenciais, a fim de melhor concentrar-se no que realmente importava.
Seria ingênuo pensar que somente filmes feitos com essa atitude valem como documentários etnográficos, antropológicos ou sociológicos. Não se há de ir ao ponto de afirmar que a visão estética seja incompatível com a documentação da realidade. Mas havemos de convir também em que o trabalho do cineasta interessado em produzir uma obra de arte não pode seguir à risca as normas que regem a documentação científica.
Há, além disso, a possibilidade de se distinguir entre o filme etnográfico stricto sensu e o filme antropológico, de caráter mais geral. Em lugar de registrar, por assim dizer, "mecanicamente" os aspectos cinéticos duma atividade cultural, cuja sequência o especialista interpretará depois segundo a sua orientação teórica, nada impede que o documento seja uma "tese visual" ou icônica, em que se "discuta", com auxílio da imagem, um problema antropológico. Ou, em termos mais precisos, que se organize, em torno de uma proposição central, o roteiro do filme, a sequência das cenas, no intuito de testar hipóteses ou de comprovar, de modo mais convincente talvez do que com centenas de páginas datilografadas, a validade de uma asserção. É este o tipo de filme que J. B. Loudon caracteriza em seu artigo "Between the Frames", publicado no Royal Anthropological Institute News de fevereiro deste ano. Filme antropológico, não simplesmente etnográfico. Feito com engenho e
perícia, embora sem artifícios, pode até despertar o interesse do grande público. Não posso aqui expor, muito menos discutir, as considerações de Loudon. Destaco apenas a sua afirmativa de que um bom filme antropológico requer, como base, o conhecimento prévio da realidade e captar sobretudo "em termos visualmente dramáticos" o que por outros meios talvez não seja possível descobrir ou interpretar.
Assim, embora de cunho diverso do que o que define o etnográfico, o filme antropológico, obra de pesquisa também, é documento para a ciência. Distingue-se, entretanto, dos que, por exemplo, fazem parte da "Encyclopaedia Cinematographica" editada pelo Instituto do Filme Científico de Göttingen, em que, já foi dito, os autores procuram eliminar a interferência de qualquer perspectiva teórica e, com isso, a interpretação dos fatos fixados, do modo mais fiel e "neutro" possível, pela câmara do pesquisador. E já que o filme antropológico gira em torno de um problema de natureza teórica, o filmador se preocupa menos com a sequência rigorosa dos movimentos cujas fases constituem a unidade de um processo do que com uma inteligente seleção de cenas significativas necessárias à compreensão do assunto que se estuda. Ainda assim, o objetivo primordial é o de produzir um documento científico em vez de obra de arte, conquanto, repita-se, uma coisa não exclua necessariamente a outra. E quem sabe se o uso da "metáfora dramatúrgica", bem compreendida em seu alcance por cineastas e por cientistas — aqueles procurando o belo; estes, o saber — não venha a ser, cada vez mais, o terreno de colaboração profícua e efetiva entre uns e outros?
Termino aqui, na esperança ou na ilusão de haver dito o bastante para provocar a reação crítica dos que fazem ciência, como a dos que se dedicam à arte cinematográfica.
Rose Mara Vidal de Souza
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Introdução
De acordo com Laplantine (2007), a Antropologia da Comunicação teve como precursores Gregory Bateson e a Escola de Palo Alto. Ela investiga as diversas modalidades da comunicação entre os indivíduos e não a partir dos colocutores que seriam considerados como elementos separados uns dos outros, utilizando o diálogo e formando redes de troca.
No Brasil, em 1977, a Escola de Comunicações Culturais da Universidade de São Paulo (ECC-USP), que anos mais tarde viria a se transformar em Escola de Comunicação e Artes (ECA) agregou várias áreas de conhecimento. Entre elas a Antropologia, representada pelo catedrático da área, Prof. Dr. Egon Schaden. Assim, a ECA se tornou pioneira nos estudos da Antropologia da Comunicação.
O atual interesse pelos estudos de comunicação não é um simples fenômeno de moda. Corresponde a uma necessidade real e nasce de uma inquietação inevitável diante de um paradoxo que desafia o homem de nossos dias. Graças à técnica moderna, as notícias e as ideias difundem com grande rapidez e através de todas as fronteiras; há os que dizem estarmos no limiar de uma nova era, a que chamam “era das comunicações”. Mas sob o granizo da informação, do qual não tem como defender-se, o homem é cada vez menos capaz de comunicar-se como o seu semelhante em termos de interação pessoal (SCHADEN, 1974, p. 127).
De acordo com Marques de Melo (2008), a Antropologia nos cursos de Comunicação é fundamental para a formação humanística do discente. As
Egon Schaden: Contribuições para a Antropologia
da Comunicação e a documentação
áreas de Antropologia, Sociologia, Psicologia, entre outras são cruciais para a formação profissional do graduando. Um maior aprofundamento delas deve ser feito na pós-graduação.
Neste artigo, resgata-se a importância de Egon Schaden, um dos pioneiros da Antropologia no Brasil e um dos responsáveis pela consolidação da cadeira de Antropologia na Universidade de São Paulo.
Schaden apresenta o texto “Cinematografia das culturas indígenas brasileiras ”, publicado em C&S1, pp. 5-14 extraído da sua palestra proferida 1 em 1977, no artigo em questão apresentei de forma sucinta as distorções da vocação das duas abordagens cinematográficas feitas pelos cineastas e pelos cientistas das áreas de humanas e sociais.
Para o antropólogo catarinense, no filme etnográfico, a visão subjetiva deve ficar na retaguarda. Apesar do cineasta ser impulsionado pela emoção e pela adaptação da realidade ao roteiro, pode-se encontrar uma intersecção entre as duas áreas: uma “metáfora dramatúrgica”, pois a visão estética não é incompatível com a documentação da realidade”.
A partir das reflexões deste artigo podemos discutir outros eixos temáticos como: A recepção dos leigos nas produções científicas/produções cinematográficas e a cinematografia das culturas indígenas retratadas estudadas sobre o prisma da antropologia da comunicação.
Vida e Obra
Egon Schaden nasceu em São Bonifácio (na época era uma colônia alemã) da grande Florianópolis-SC, em 4 de julho de 1913. Neto de alemães e filho de professor, Schaden teve acesso a diversas áreas de conhecimento, como línguas estrangeiras e música. Aos 15 anos de idade, por meio de uma bolsa de estudos, se mudou para Florianópolis cursar o ensino secundário. E aos 20 foi para São Paulo, matriculou-se no curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL-USP), onde se bacharelou em 1937.
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Palestra realizada em novembro de 1977 no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, Recife, por ocasião da II Mostra e II Simpósio do filme documental Brasileiro, sob o patrocínio do Ministério da Educação e Cultura.
Foi nessa época que editou, juntamente com o pai, a Revista Pindorama, escrita totalmente em alemão. Segundo Divitiis (2009), foi ainda nesse período que o pesquisador se casou com a alemã Margareth, que cultivava uma admiração profunda pelo Brasil.
Egon Schaden teve entre seus professores na USP, o renomado antropólogo Levi-Strauss e assumiu a cadeira de Antropologia na referida Universidade do seu mentor Emílio Willems. Apesar de possuir a cultura alemã muito presente em toda sua vida, o pesquisador catarinense construiu um legado acerca das populações indígenas. Na infância presenciou seu pai intermediar conflitos entre nativos e bugreiros . De acordo com Romani (2018), o início de suas 2 pesquisas nesta área foi entre os anos de 1938 e 1940, quando ele morava em Santa Catarina e ministrava aulas no ensino médio.
De acordo com Pereira (1991), a escolha da temática se justifica porque na época a episteme da antropologia brasileira priorizava o estudo sobre os indígenas, Schaden então pode ser definido como etnólogo . Já na pós-3
graduação, o catarinense, orientado por Willems, defendeu a tese de doutoramento intitulada “A mitologia heroica das tribos indígenas no Brasil”. O trabalho foi incluído no rol das teses mais relevantes da FFCL-USP e é considerado um marco de renovação na literatura sobre índios brasileiros, aprofundando reflexões sobre o mundo dos mitos e das representações.
Schaden criou em 1953 a Revista de Antropologia, primeira do gênero a circular no Brasil e ocupou vários cargos administrativos, entre eles o Conselho de Administração do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB). O antropólogo atuou, ainda, como professor visitante na Universidade de Bonn, Alemanha. Em 1967, o pesquisador foi convidado a assumir a cadeira de Etnologia daquela Instituição de Ensino Superior Alemã. Schaden então se aposentou precocemente na USP. Para seu lugar no Brasil entrou o doutor e livre-docente João Baptista Borges Pereira, na época com apenas 35 anos de idade. No entanto, por razões familiares Egon não assumiu o cargo na Alemanha.
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Bugreiros são profissionais contratados por fazendeiros para exterminar os indígenas.
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Sem emprego fixo o professor passou a ministrar cursos em países da Europa, Ásia e Américas, com ênfase no Japão, Suíça, Alemanha, França e Colômbia. Já na década de 1970, trabalhou durante um ano na Fundação Santo André, na grande São Paulo. Concomitante recebeu um convite do diretor na época da Escola de Comunicações Culturais (ECC-USP), Antônio Guimarães Ferri, e passou a integrar o quadro docente da USP novamente. No novo cargo, o professor criou a disciplina Antropologia na Comunicação e ajudou a instalar o mestrado em Ciências da Comunicação. Vale ressaltar que desde 1967 a USP mantinha o programa de doutoramento, seguindo o modelo europeu, porém foi extinto em 1972, período que se iniciaram os mestrados baseados no formato estadunidense.
Schaden foi nomeado coordenador do Poscom e trabalhou na linha de pesquisa intitulada “Cultura brasileira”, onde fazia conexões com a comunicação. Em 1992 a sala de defesa de teses do programa recebeu seu nome.
No entanto, sua segunda passagem pela USP foi curta, devido a questões políticas (Regime Militar) o professor foi afastado da Universidade. Então ele aceita o convite do professor José Marques de Melo (também afastado da USP pelas mesmas questões) e passa a compor o quadro de docentes da Universidade Metodista de São Paulo (1978-1981). Neste período, o antropólogo ministrou cursos e palestras no Centro Internacional de Estudos Superiores de Periodismo para América Latina (CIESPAL), em Quito, Equador. Após esse período, Schaden desenvolveu atividades em conjunto com Marshall McLuhan, no Institute for Culture and Technology, na Universidade de Toronto, Canadá. De acordo com Divitiis (2009), o pesquisador brasileiro foi um dos difusores da Antropologia da Comunicação em toda a América Latina.
O retorno ao Brasil se dá em 1979, com a anistia. Egon retorna à Escola de Comunicação e Artes, no posto de diretor do Departamento de Biblioteconomia e Documentação, onde se aposentou permanentemente em 1983. Numa fatídica tarde de setembro de 1991, aos 78 anos de idade, o antropólogo morre vitimado por um atropelamento em São Paulo. Seu legado antropologia, comunicação e estudos indígenas são imortalizados no pensamento brasileiro. A seguir, se explora mais sobre este quesito.
Pensamento
Como citado anteriormente, o trabalho de Egon Schaden obteve um viés diferente de seu mentor Emílio Willems, que estudou em profundidade a imigração alemã e outras nacionalidades. O catarinense se debruçou sobre o estudo dos indígenas brasileiros. “Ele se alinhou à aculturação, teoria sistematizada por professores dos Estados Unidos que estuda o encontro entre culturas diferentes. Schaden adotou essa teoria nos estudos que fez aqui no Brasil” (ROMANI apud PEREIRA, 2018, on-line).
No mesmo texto, Romani (2018) cita o testemunho da professora Renate Viertler: “Ele instituiu os vários temas com que estamos trabalhando hoje: a etnologia em relação à população indígena, população de camponeses, antropologia física e a história da antropologia, por exemplo” (ROMANI, 2018, on-line).
De acordo Martins; Welter (2014) seus três trabalhos defendidos na FFCL-USP (doutorado, livre-docência e cátedra) giram em torno das tribos guaranis. Respectivamente em 1945 “A mitologia heroica de tribos indígenas do Brasil”, em 1954 “Aspectos fundamentais da cultura guarani” e em 1965, “Aculturação indígena”.
“A mitologia heroica de tribos indígenas do Brasil” é uma obra que se tornou leitura obrigatória para os estudiosos da área. Até mesmo um dos maiores críticos de Schaden, Herbert Baldus, considerou-a uma das mais importantes obras da Etnologia brasileira. Em “Aspectos fundamentais da cultura guarani”, o antropólogo tem como cerne a mitologia indígena, estudando apenas uma tribo. Do ponto de vista teórico ele percorre o esquema-metodológico funcionalista e a teoria da aculturação. Por fim, já no seu trabalho de catedrático “Aculturação indígena”, o professor rememora as pesquisas realizadas por outros estudiosos de aculturação brasileira. Um detalhe importante é que a obra desenha um cenário de mudanças culturais, a partir do contato do indígena com os não-indígenas. Atualmente este trabalho pode ser entendido como uma defesa dos contatos culturais que se tornou episteme por quase 20 anos e foi sendo desmontado pelo estruturalismo de Lévi Strauss. “E preciso reter que a polêmica estruturalismo/aculturação, mediada pela aceitação ou não do próprio
conceito de cultura, vinha se desenvolvendo há anos, em Antropologia, entre adeptos das Escolas Inglesa e Americana” (PEREIRA, 1994, on-line).
Amigos e colegas afirmam que Schaden tinha um imenso orgulho em ser professor, lecionou no ensino secundário, no superior e na pós-graduação.
“Dentro da academia há ênfase no status do pesquisador. Já Egon Schaden enfatizava a importância de ser professor”, conta Tânia. De acordo com Renate, as aulas de Schaden valiam a fama. “Ele dava aulas superinteressantes, fascinava todo mundo pelo jeito de dar aula, a ponto de eu me interessar pela antropologia por causa dele e da professora Gioconda Mussolini”, destaca a professora, referindo-se a outra grande antropóloga da USP (ROMANI, 2018, on-line).
Segundo Divitiis (2009), suas publicações tinham mais cunho didático, ou seja, o objetivo era melhorar com o ensino da Antropologia. A revista Antropologia criada pelo professor, em 1953, até ser administrada pelo Departamento de Antropologia da FFLCH-USP, tinha seus custos pagos integralmente pelo docente.
Assim é que se produzia (para usar uma expressão muito em voga atualmente na USP), em tempos heroicos da faculdade. E o Professor Schaden pertenceu a esse tempo, tempo em que muitos patrimônios foram construídos com sacrifício e fé, o que nos tira, hoje, o direito de dilapidá-los em nome do que quer que seja (PEREIRA, 1991, p. 2).
A Revista de Antropologia , reunia e reúne até hoje pesquisas de 4
especialistas de diversas orientações ideológicas aberta a todos os estudiosos nacionais e internacionais. A Revista também integra os estudos da Antropologia no Brasil e no exterior. O idioma oficial da revista era o português, no entanto, Schaden era fluente em Inglês, Francês, Alemão e Espanhol e pesquisas nesses idiomas também eram publicadas, ampliando as colaborações de outros países e fazendo com que os pesquisadores brasileiros entrassem em
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Revista de Antropologia – Disponível em: http://www.revistas.usp.br/ra
contato com a ciência de outros lugares no mundo. Vale ressaltar que em 1955, Egon ajudou a criar a Associação Brasileira de Antropologia (ABA). A Revista de Antropologia era o órgão oficial de comunicação da ABA.
Além dessa vertente no pensamento intelectual do antropólogo brasileiro, a discussão dos problemas de ensino de sua disciplina, seja na época de FFLCH ou ECA. De acordo com Schaden (1954), quando um professor aceita falar sobre os problemas de sua disciplina, além de apontar as falhas e dificuldades, ele também tem que apresentar soluções baseadas nas suas experiências. Infelizmente grande parte desses problemas são ocasionados pela falta de estrutura do sistema de ensino universitário brasileiro, da expectativa dos alunos e da própria sociedade.
O docente encampava a ideia que o pesquisador delimita um tema para melhor observá-lo, e daí chegar em suas considerações acerca do problema estudado, já o professor tem a obrigação de dilatar os temas da sua disciplina, contextualizando o aluno e abrindo outros olhares para que ele siga seus próprios passos. Schaden sustenta que o ensino deve abranger mais que uma teoria ou uma metodologia. O âmago de uma aula está em incentivar o aluno à compreensão humana.
Cinema e Guaranis
Em uma palestra proferida em 1977 e publicada na revista Comunicação & 5 Sociedade da Universidade Metodista de São Paulo , com o título 6 “Cinematografia das culturas indígenas brasileiras”, o professor Egon Schaden inicia uma discussão sobre o papel dos cineastas e dos pesquisadores da Ciências Sociais e Humanas. Ele destaca que há um desentendimento (algumas vezes implícito, outras explícito) sobre o que realmente cada profissional aborda nas suas narrativas cinematográficas, fazendo um recorte nos filmes etnográficos indígenas brasileiros, que é sua principal frente de estudos.
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Vide nota-pé inicial deste texto.
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Criada em 1979, a revista Comunicação & Sociedade (C&S), publicação mais antiga do gênero no Brasil, legitimou-se pela seriedade e pelo rigor das pesquisas veiculadas. A C&S vem reafirmando, ao longo do tempo, o seu papel essencial na consolidação do campo brasileiro das Ciências da Comunicação. Disponível em: < http://portal.metodista.br/poscom/revista-comunicacao-e-sociedade>. Acesso em: 02 de nov. 2019.
De acordo com Schaden (1979), os cineastas trabalham no campo das artes e se inclinam naturalmente para uma criação artística mais aprofundada e assim podem esboçar algumas alterações na cultura e na existência social. Apesar de possuir assessorias, que pesquisam, com métodos científicos, a existência humana sob diversas perspectivas, os cineastas não fogem a sua vocação: conceber obras de arte, ou seja, uma visão estética da realidade. Na outra ponta está o cientista de humanas e sociais, que busca documentar de uma forma mais fiel possível a realidade, abdicando a criatividade e utilizando as técnicas cinematográficas do titular da pasta.
Schaden (1979) ilustra esse panorama com o retrato etnográfico de uma tribo indígena. O pesquisador pode viver anos em uma aldeia, retratar por meio de fotos e textos toda a rotina e particularidades daquele grupo, porém o leitor gostaria de ver essas descrições transformada em ação, em movimento. A solução seria a “apreensão cinematográfica”, de fragmentos de “processos que marcam a vida comunitária”. Então o inerte passa a ser cinético, eternizando processos que traduzem a vivência que muitas vezes o texto e a fotografia não conseguem cumprir.
O filme científico stricto sensu se difere do cinema tradicional ou mesmo da televisão pela interferência direta de quem o está produzindo, a criatividade desta pessoa visa despertar sentimentos e emoções no público. No documentário científico não se pode, por exemplo, simular um movimento, uma emoção, pois estaria fugindo do seu objetivo que é retratar com autenticidade o processo filmado.
Um exemplo disso são os diversos filmes que são inspirados em histórias reais. O cineasta adverte: São inspirados e não retratos exatos da realidade. O filme Apocalypto , de 2007, que traz uma narrativa sobre o fim da Civilização 7
Maia e enfatiza sacrifícios humanos faz um recorte em “alguns” aspectos de uma das maiores civilizações indígenas do planeta, porém não se pode levar como um espelho do que realmente aconteceu na época. Outro exemplo é do brasileiro Xingu , de 2012, inspirado na saga dos irmãos Villas-Bôas em sua 8
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Apocalypto. Data de lançamento 26 de janeiro de 2007 (2h 18min); Direção: Mel Gibson; Elenco: Rudy Youngblood, Raoul Trujillo, Maria Isabel Diaz; Gêneros Aventura, Ação, Drama; Nacionalidade EUA.
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Xingu. Data de lançamento: 6 de abril de 2012 (Brasil); Direção: Cao Hamburger; Música composta por: Beto Villares; Idiomas: Língua portuguesa, Língua tupi ; Roteiro: Cao Hamburger, Anna Muylaert, Elena Soárez.