Partidos dos Trabalhadores : reflexões sobre a origem e o futuro de um

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

ANDRÉ ROTA SENA

PARTIDO DOS TRABALHADORES - REFLEXÕES SOBRE A

ORIGEM E O FUTURO DE UM MOVIMENTO

CAMPINAS

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ANDRÉ ROTA SENA

PARTIDO DOS TRABALHADORES - REFLEXÕES SOBRE

A ORIGEM E O FUTURO DE UM MOVIMENTO

Dissertação apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Mestre em Filosofia.

Supervisor/Orientador: Prof. Dr. Roberto Romano da Silva ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DISSERTAÇÃO/TESE DEFENDIDA PELO ALUNO ANDRÉ ROTA SENA E ORIENTADA PELO PROF. DR. ROBERTO ROMANO DA SILVA.

CAMPINAS 2016

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Ficha catalográfica

Universidade Estadual de Campinas

Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas Cecília Maria Jorge Nicolau - CRB 8/3387

Sena, André Rota,

Se55p SenPartidos dos Trabalhadores : reflexões sobre a origem e o futuro de um movimento / André Rota Sena. – Campinas, SP : [s.n.], 2016.

SenOrientador: Roberto Romano da Silva.

SenDissertação (mestrado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas.

Sen1. Partido dos Trabalhadores (Brasil). 2. Imperialismo. 3. Desenvolvimento e subdesenvolvimento. 4. Direita e esquerda (Ciência política). 5. Socialismo -Brasil. I. Romano, Roberto,1945-. II. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: Workers Party : reflections on the origin and the future of a

movement

Palavras-chave em inglês:

Workers' Party (Brazil) Imperalism

Development and underdevelopment Right and left (Political science) Socialism - Brazil

Área de concentração: Filosofia Titulação: Mestre em Filosofia Banca examinadora:

Roberto Romano da Silva [Orientador] Marcio Pochmann

Rachel Meneguello

Data de defesa: 15-06-2016

Programa de Pós-Graduação: Filosofia

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Dissertação/Tese de Mestrado, composta pelos Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 15 de junho de 2016, considerou o candidato André Rota Sena aprovado.

Professor Doutor Marcio Pochmann Professora Doutora Rachel Meneguello Professor Doutor Gerson Leite

Professor Doutor Jean Tible

Professor Doutor Roberto Romano da Silva

A Ata de Defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no processo de vida acadêmica do aluno.

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A meus pais, João (in memorian) e Sandra, com gratidão. Às sobrinhas Clara e Helena, ao sobrinho Eduardo e à minha afilhada Luísa, com carinho. À Stella Bruna, minha companheira, com amor. Para a militância petista, como estímulo.

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AGRADECIMENTOS

Meus sinceros agradecimentos ao professor Roberto Romano, meu orientador. Durante os anos de pesquisa, desenvolvi uma admiração muito maior da que já alimentava por esse intelectual, além de uma afinidade pessoal cultivada com poucas pessoas na vida. São desnecessárias aqui pontuações ou ressalvas com relação aos nossos posicionamentos políticos. Sendo ele um pensador de esquerda, não são muitas as nossas diferenças e as que existem, certamente, enriqueceram minhas reflexões. Sem reservas, sua orientação garantiu não apenas a possibilidade de realização desta pesquisa, como o cuidado para que eu a elaborasse longe das armadilhas de preconceitos acadêmicos. Decerto, um Professor na definição mais elevada do termo. Agradeço à amizade, dedicação, exigência e honestidade intelectual.

Aproveito para homenagear todos companheiros e companheiras que ao longo da minha militância, seja no Movimento Estudantil ou no Partido dos Trabalhadores, prestaram-me amparo, confiança e solidariedade. Direta ou indiretamente todos contribuíram para o desenvolvimento desta dissertação. E para não correr o risco de cometer injustiças deixando alguém de fora de uma enorme lista de pessoas a quem tenho profunda gratidão e carinho, agradeço a todos que comigo militaram ou seguem militando.

Finalmente, ao povo brasileiro que, por meio de seus impostos, financia a educação pública no Brasil, permitindo que estudos como o que ora apresento sejam possíveis.

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RESUMO

Este estudo sobre o Partido dos Trabalhadores parte da análise da dominação de classe no país, para esboçar, ainda que genericamente, as razões mais profundas que fazem do Brasil um país subdesenvolvido e integrado ao imperialismo. Concluo que esse é um problema estrutural relacionado à condição original desde a colônia portuguesa e que tende a se repetir, caso não seja definitivamente superado. As tentativas de introduzir mudanças à ordem indicada foram abertamente sabotadas e derrotadas. A persistência dessa estrutura se faz sentir nos planos social e político. A miséria e o opróbrio das maiorias, em contraste com a suntuosidade das minorias, a hostilidade e o fechamento da ordem jurídica, ainda que na democracia eleitoral, ante à possibilidade de políticas socialistas e de esquerda. Em seguida, apanho os programas e as encruzilhadas com as quais se deparou a esquerda brasileira até desembocar no PT. A grande maioria dos militantes de esquerda da época, associa- se à política que propõe uma alternativa socialista para o Brasil e veem no partido a melhor possibilidade de realizá-la. Faço um estudo pormenorizado dos documentos aprovados nos Encontros e Congressos do PT, destacando as pressuposições do programa petista e a evolução rumo à definição da estratégia reformista, como condição de alcançar o socialismo. Por fim, nas conclusões, chamo a atenção para o problema da burocratização e a necessidade de o PT se reencontrar com sua proposta transformadora, sob pena de tornar-se um partido da ordem, importante e mesmo respeitável, mas que já não busca mudanças.

Palavras-chave: Partido dos Trabalhadores; Imperialismo no Brasil; Subdesenvolvimento no Brasil; Socialismo; Esquerda Brasileira; Burocratização.

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ABSTRACT

This study of the Partido dos Trabalhadores (Worker's Party) part of the analysis of the country class rule to sketch, although generally, the deeper reasons that make Brazil an underveloped and integrated country to imperialism. I conclude that this is a structural problem related to original condition from the portuguese colony and that tends to repeat itself, if not definitely overcome, attempts to induce changes in the order shown were openly sabotaged and defeated. The persistence of this structure is felt in the social and political level, the misery and shame of the majorities in contrast to the sumptuousness of minorities, hostility and closure of the legal system, even electoral democracy, the establishment of socialist policies and left. Then pick up the programs ans crossroads with which faced the Brazilian left before emptying into the PT. The vast majority of leftists of the time, are associated with the policy and proposes a socialist alternative to Brazil and come in the party the best chance of realizing it. I make a detailed study of the documents taken in the Meetings and Conferences of the PT, which highlight the presuppositions of the party's program and the progress towards defining the reform strategy as a condition to achieve socialism. Finally, I present my conclusions, which call attention to the problem of bureaucratisation and the need of the PT be reunited with his proposal to change, otherwise become a party of order, important and even respectable, but who no longer search changes.

Keywords: Partido dos Trabalhadores (Workers' Party); Imperialism in Brazil;

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LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

AI-1 - Ato Institucional número 1 AIB - Ação Integralista Brasileira ALN - Ação Libertadora Nacional ANL - Aliança Nacional Libertadora

AP - Ação Popular

Arena - Aliança Renovadora Nacional Articulação 113 - Tendência interna do PT

AV - Ala Vermelha

BOC - Bloco Operário Camponês

CEB - Comunidade Eclesial de Base

CGTB - Confederação Geral dos Trabalhadores CLT - Consolidação das Leis Trabalhistas CMP - Central dos Movimentos Populares CNB - Construindo um Novo Brasil

CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito

CO - Causa Operária

Colina - Comando de Libertação Nacional

Conclat - Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras Contag - Confederação Nacional dos Trabalhadores na

Agricultura

CRMMB - Corrente Renovadora do Movimento Marxista Brasileiro

CS - Convergência Socialista

CST - Convergência Socialista dos Trabalhadores CUT - Central Única dos Trabalhadores

Dieese - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos

DOI-CODI - Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna

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FGTS - Fundo de Garantia por Tempo de Serviço FMI - Fundo Monetário Internacional

IBAD - Instituto Brasileiro de Ação Democrática IC - Internacional Comunista

Incra - Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

ISEB - Instituto Superior de Estudos Brasileiros JK - Juscelino Kubitschek de Oliveira

JEC - Juventude Estudantil Católica JUC - Juventude Universitária Católica Libelu - Liberdade e Luta

MCR - Movimento Comunista Revolucionário MDB - Movimento Democrático Brasileiro

MEP - Movimento de Emancipação do Proletariado MNR - Movimento Nacionalista Revolucionário MR-8 - Movimento Revolucionário 8 de Outubro MST - Movimento dos Trabalhadores Sem Terra MTM - Movimento por uma Tendência Marxista MUT - Movimento Unificado dos Trabalhadores

OCDP - Organização Comunista Democracia Proletária OCML - Organização de Combate Marxista-Leninista OLAS - Organização Latino Americana de Solidariedade OMC - Organização Mundial do Comércio

ORM-POLOP - Organização Revolucionária Marxista - Política Operária

ORM-DS - Organização Revolucionária Marxista – Democracia Socialista

OSI - Organização Socialista Internacional OT - O Trabalho, tendência interna do PT PCB - Partido Comunista Brasileiro

PCdoB - Partido Comunista do Brasil

PCBR - Partido Comunista Brasileiro Revolucionário PCUS - Partido Comunista da União Soviética

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PDT - Partido Democrático Trabalhista PFL - Partido da Frente Liberal

PGRM - Programa de Garantia de Renda Mínima PIB - Produto Interno Bruto

PMDB - Partido do Movimento Democrático Brasileiro PRC - Partido Revolucionário Comunista

POC - Partido Operário Comunista POR - Partido Operário Revolucionário PSB - Partido Socialista Brasileiro

PSDB - Partido da Social Democracia Brasileira PST - Partido Socialista dos Trabalhadores

PSTU - Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado

PT - Partido dos Trabalhadores

PTB - Partido Trabalhista Brasileiro

PCs - Partidos Comunistas

SNI - Serviço Nacional de Informações

TMP - Tendência Marxista do PT

TSE - Tribunal Superior Eleitoral UDN - União Democrática Nacional UNE - União Nacional dos Estudantes

URSS - União das Repúblicas Socialistas Soviéticas VAR-Palmares - Vanguarda Armada Revolucionária Palmares VPR - Vanguarda Popular Revolucionária

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO... 13

CAPÍTULO I - IMPERIALISMO, SUBDESENVOLVIMENTO E A OBSTINADA OBSTRUÇÃO DA REFORMA... 18

1.1 - Pressupostos conceituais acerca do imperialismo... 18

1.2 - Desvantagens gerais de uma economia integrada ao imperialismo... 20

1.3 - O papel histórico da burguesia no Brasil... 29

1.4 - Vicissitudes históricas do capitalismo dependente e subdesenvolvido... 34

CAPÍTULO II - LEVANTAMENTO HISTÓRICO DOS REFERENCIAIS TEÓRICOS E PRÁTICOS DA ESQUERDA BRASILEIRA... 55

2.1 - O surgimento do movimento operário... 55

2.2 - O comunismo no Brasil... 59

2.3 - As dissidências no movimento comunista e a luta armada... 78

2.4 - A reorganização da esquerda e o surgimento do PT... 83

CAPÍTULO III - ESTUDO SOBRE A EVOLUÇÃO PROGRAMÁTICA DO PARTIDO DOS TRABALHADORES... 96

3.1 - Um partido sem patrões... 96

3.2 - A ideia de capitalismo e a formação das classes sociais no Brasil... 110

3.3 - A formação das classes sociais segundo o PT... 111

3.4 - O programa Democrático Popular... 115

3.5 - Diretrizes do programa Democrático Popular... 119

3.6 - A evolução do programa Democrático Popular... 121

3.7 - Socialismo petista... 139

CONSIDERAÇÕES FINAIS... 150

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INTRODUÇÃO

Este trabalho compreende praticamente a análise monográfica de três temas distintos e complementares: no primeiro capítulo, analiso a realidade brasileira; no segundo, as sucessivas tentativas da esquerda para superar essa realidade a partir de seus pontos programáticos; no terceiro, a análise se volta ao programa petista tal qual aparece nos documentos partidários. Do ponto de vista metodológico, procurei seguir os passos de Antonio Gramsci, no sentido de representar a história do Partido dos Trabalhadores, enquanto história geral da nação, a fim de demonstrar objetivamente o desenvolvimento do capitalismo no Brasil e a inatualidade da ordem social que lhe serve de base.

Dever-se-á escrever a história de uma determinada massa de homens que seguiu os promotores, amparou-os com a sua confiança, com a sua lealdade, com a sua disciplina, ou que os criticou 'realisticamente', dispersando-se ou permanecendo passiva diante de algumas iniciativas. Mas, será esta massa constituída apenas pelos adeptos do partido? Será suficiente acompanhar os congressos, as votações, etc., isto é, todo o conjunto de atividades e de modos de existir através dos quais uma massa de partido manifesta a sua vontade? Evidentemente, será necessário levar em conta o grupo social do qual o partido é expressão e setor mais avançado. Logo, a história de um partido não poderá deixar de ser a história de um determinado grupo social. Mas este grupo não é isolado; tem amigos, afins, adversários, inimigos. Só do quadro complexo de todo o conjunto social e estatal (e frequentemente com interferências internacionais) resultará a história de um determinado partido. Assim, pode-se dizer que escrever a história de um partido significa exatamente escrever a história geral de um país, de um ponto de vista monográfico, destacando um seu aspecto característico. (GRAMSCI, 1991: 21)

Do ponto de vista estrutural, o problema brasileiro é antigo e remete à função original que foi direcionada à economia desde os tempos coloniais, isto é, exportadora de matérias-primas e importadora de produtos acabados. Sob o domínio português não eram permitidas iniciativas autonomizantes. Não por acaso, o programa dos “inconfidentes” baseava-se na instalação de uma fábrica e de uma universidade. Posteriormente, ainda que sob quadros estruturais mais complexos e diferenciados, a evolução econômica do país não deixou de ser tributária da função exclusiva que fora submetida inicialmente, de “feitoria ampliada”, produtora de madeira e produtos tropicais para abastecer o mercado europeu de matérias-primas.

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A fase produtora especializada em produtos agrícolas para exportação, veio após a ampliação do papel de economia consumidora de produtos industrializados europeus. Mais tarde, o Brasil viveu a industrialização, em substituição às importações de produtos produzidos aqui mesmo e, finalmente, a fase de importador de alta tecnologia e produtor de bens similares aos encontrados nos países centrais do capitalismo.

A dependência financeira e tecnológica aos países do centro do capitalismo, decorrentes dessa “função original”, nos coloca na rota de integração ao imperialismo moderno. Embora seja uma tendência irrefreável do sistema capitalista, a conquista de mercados externos rumo aos monopólios internacionais – em detrimento da competição entre empresas e países –, o atraso econômico e social não é gerado apenas de fora para dentro. As classes dominantes aprenderam a barganhar e aceitar as vantagens relativas do imperialismo e do modelo produtivo extrativista, onde se combina a máxima exploração das populações que vivem do próprio trabalho, com a expansão da apropriação privada da natureza (prodigiosa em termos de abundância de terras, água, riquezas minerais, vegetais e animais), dos serviços e do mercado interno, ampliando quantitativamente a escala de produção, mas de maneira subaproveitada. O que explica a enorme concentração de riquezas sem correspondente enriquecimento da nação como um todo.

A julgar pela história de nosso país, a remota e a recente, uma vez que não foi superada essa condição original, a tendência é que ocorram sucessivas repetições, não somente do fato econômico, mas dos mesmos fenômenos políticos, sociais e culturais de outrora, ainda que em quadros estruturais diferentes e cada vez mais complexos. A solução para o referido problema, contudo, não pode ser obtida apenas a partir do desenvolvimento de uma técnica econômica, pois a insistência e repetição acompanham as relações de produção constituídas pelo modelo de produção. As relações sociais, concretas do ponto de vista histórico, podem ensejar uma solução política. Eis onde entra o papel histórico das classes sociais e dos partidos políticos que as exprimem. Em circunstâncias muito especiais, foram gestadas alternativas históricas ao status quo indicado, que exigiam confronto inevitável com os interesses dominantes internos e externos (reforma agrária, controle da exportação de lucros ao exterior, ampliação dos direitos das massas, democracia plena etc). Por esse motivo, significaram experiências incompletas ou abertamente obstruídas e sabotadas. É isso que explica o fato de no Brasil, momentos restauradores e conservadores não serem, necessariamente, precedidos

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de uma revolução.

As nossas classes dominantes, dentre elas a burguesia urbana e rural, impuseram sucessivamente regimes autocráticos, que funcionam como negação da reforma. O modelo de produção exige a máxima liberdade de mercado com as mínimas garantias de direitos sociais e políticos. Frente a isso, acredito que os processos democráticos têm sido forçosamente convertidos em democracias meramente eleitorais e, portanto, funcionais para eternizar um modelo de dominação política, cujos mecanismos repousam em expedientes autoritários, típicos das oligarquias, tais como o favor, a manipulação e a repressão aberta ou velada.

Não procuro, contudo, imputar responsabilidade moral aos indivíduos. Assim como Marx, ao escrever a obra mais corrosiva contra o capitalismo, ressalvo que:

(...) aqui somente nos referimos às pessoas enquanto personificação de categorias econômicas, como representantes de determinados interesses e relações de classe. Quem como eu concebe o desenvolvimento da formação econômica da sociedade como um processo histórico-natural, não pode fazer o indivíduo responsável da existência de relações das quais ele é socialmente criatura, mesmo que subjetivamente se considere muito acima delas. (MARX, 1946: prólogo)

Ou seja, não se trata de assimilar atitude religiosa, messiânica e mistificadora, segundo a qual a história é imutável, para justificar que os indivíduos pertencentes às classes abastadas sejam conservadores ou reacionários apenas porque são ricos. Embora em sua maioria o sejam, também é certo que obtiveram o consenso ativo daqueles que não se beneficiam do cálculo econômico que privilegia os “de cima” na pirâmide social. Os de baixo também aprenderam a barganhar, utilizando-se muitas vezes das mesmas técnicas. Porém, o saber que desvenda os elos que determinam as relações de dominação pode ser melhor aproveitado por aqueles que não têm o conhecimento do que realmente acontece no nível da infraestrutura social. Portanto, baseado nos estudos de Gramsci, penso que a passagem para uma outra fase da história exige a mudança de base econômica, simultaneamente acompanhada de uma transformação cultural. Aí reside o papel pedagógico do partido, seus órgãos de imprensa, intelectuais vinculados a essas ideias etc.

Essa passagem também não pode ser obra dos situados no topo da sociedade, porque o projeto histórico dessas classes se expirou no tempo. O que faz

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o agir histórico dessas classes ser conservador ou reacionário é o fato de que, por circunstâncias concretas, atinentes à obtenção do lucro, do luxo e da extravagância, por meio das trocas internacionais, elas não entram em confronto com o imperialismo, ainda que esse tipo de dominação externa ocorra em prejuízo da nação. Portanto, a burguesia brasileira não é portadora da missão histórica de tornar o Brasil um país independente e democrático, como supunha-se a partir dos exemplos clássicos das burguesias francesa e norte-americana.

Prova disso, é que o projeto clássico burguês se esgotou sem nem ter sido levado às últimas consequências. A promessa de autonomia, que viria com a industrialização e se estenderia na forma de outros benefícios à toda a sociedade, se mostrou irrealizável. No lugar dessa proposta original, o Brasil experimentou colossal acumulação de capital e concentração de riquezas, que jamais foram repartidos. São estas condições que, em última análise, permitem que todos os anos seja transferida diretamente dos cofres públicos para a esfera privada uma soma astronômica na forma de juros e serviços das dívidas interna e externa.

Em 2014, o governo federal gastou R$ 978 bilhões com juros e amortizações da dívida pública, o que representou 45,11% de todo o orçamento efetivamente executado no ano. Essa quantia corresponde a 12 vezes o que foi destinado à educação, 11 vezes aos gastos com saúde, ou mais que o dobro dos gastos com a Previdência Social1.

O que é resultado direto das sucessivas restaurações conservadoras, que interromperam projetos que propunham a redistribuição da riqueza no Brasil.

É dessas contradições que emana o conflito entre as classes, que se projeta como luta das massas, das quais o PT foi o partido que melhor acolheu e soube levar adiante as demandas das maiorias, na medida em que o Brasil apresenta estruturas de produção análogas aos países do capitalismo avançado, sem repetir o padrão civilizatório daqueles países. Aqui, somente as elites econômicas auferem, de fato, os benefícios da civilização moderna.

Diante do exposto, avalio que o PT não é ainda um partido hegemônico na

1

FATORELLI, M.L; ÁVILA, R. Gastos com a Dívida Pública em 2014 superaram 45% do Orçamento

Federal Executado. Disponível em: <

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sociedade brasileira. Por isso, ao final, lembro que isso não é possível em função de que valores dominantes de uma determinada sociedade são os valores da classe dominante, hostil não apenas ao PT, mas a toda política socialista e da esquerda. Todavia, reconheço problemas no PT e esboço uma técnica política para poder superá-los. O desenvolvimento profundo dessa técnica, porém, só poderá ser elaborado no futuro, quem sabe numa tese de doutoramento.

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CAPÍTULO I – IMPERIALISMO, SUBDESENVOLVIMENTO E A OBSTINADA OBSTRUÇÃO DA REFORMA

Na definição de partido político, Roberto Romano sugere a reunião de um número ponderável de pessoas, que propõe à sociedade mais ampla certo projeto de Estado e de organização coletiva.

Assim, um agrupamento conservador, que considere as instituições sociais, políticas e jurídicas desprovidas de controle e disciplina, avança ideias moldadas em projetos de ordem e atenuação das liberdades. Uma reunião progressista que julgue certa sociedade excessivamente centrada nos privilégios de setores econômicos, propõe que o Estado acentue os direitos coletivos, atenue ao máximo as vantagens de alguns cartéis, classes, dirigentes do Estado.2

Com base nisso, passo a analisar, adiante, os elementos econômicos e políticos que historicamente condicionam a ocorrência de grupos sociais que buscam alcançar o poder, para realizar ideais de transformação da sociedade brasileira. Este é o caso do Partido dos Trabalhadores.

No instante da formação do PT, o Brasil vivia os estertores de uma ditadura civil-militar que, segundo Florestan Fernandes, foi gerada como pressuposto de solução da crise do poder burguês3. O que é essa crise? Como se manifesta? A presente abordagem, com esse recorte inicial, tem por objetivo definir o quadro histórico no qual surgiu e se desenvolveu o PT.

1.1 - Pressupostos conceituais acerca do Imperialismo

São as exigências globais do sistema que engendram uma forma de dominação internacional própria, segundo define Rosa Luxemburgo. Haja vista ser o capitalismo um modo de produção que se expande sempre e com muita força, inerente a ele próprio.

2

ROMANO, R. A autocracia palaciana do século XXI e a crise do Estado Democrático. Entrevista concedida à Andriolli Costa e Ricardo Machado. Rio Grande do Sul: Instituto Humanitas Unisinos, ano 15, ISSN 1981-8793 (online). Disponível em:

<www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5833&secao=461>. Acesso em: 30/32015.

3

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E é isso que se chama imperialismo [...] o imperialismo não é um estágio do capitalismo, é uma característica central do próprio capitalismo desde sempre. Desde o início, o capitalismo precisou capturar mercados externos para ter razão de ser da sua própria expansão. O capitalismo se expande via Estado, via conquista, transforma economias naturais que não são mercantis em economia de mercado4.

Lênin também alertou para a tendência monopolizante do capitalismo, não da concorrência e da livre iniciativa, ao indicar um verdadeiro processo de cartelização da economia rumo à monopolização da atividade econômica, o que deixa um espaço econômico e político reduzido para as nações periféricas. Em contrapartida, os recursos naturais, ativos produtivos e financeiros são apropriados pelas nações centrais.

(...) não nos encontramos já em presença da luta da concorrência entre pequenas e grandes empresas, entre estabelecimentos tecnicamente atrasados e estabelecimentos de técnica avançada. Encontramo-nos perante o estrangulamento, pelos monopólios, de todos aqueles que não se submetem ao monopólio, ao seu jugo, à sua arbitrariedade5.

À ação dos cartéis, que consiste na manipulação dos preços, das finanças e do mercado, sempre sob a orientação de quebrar as empresas e países que não se submetem ao jugo monopolista, sucedem-se os levantamentos formulados por um exército de engenheiros, no intuito de criar a demanda que os consumidores de todo o mundo devem comprar, assim como são estudadas e inventariadas todas as reservas de matérias-primas e financeiras disponíveis no planeta: terras, minérios, cursos d'agua, dados empresariais, companhias de energia, navegação, férreas etc; fundos, fluxos financeiros e de capitais, cuja exploração deverá ser controlada pelas grandes corporações econômicas6.

O imperialismo é partilha do mundo, diz Lênin,

(...) não no sentido de ser impossível reparti-lo de novo – pelo contrário, novas partilhas são possíveis e inevitáveis –, mas no sentido de que a política colonial dos países capitalistas já completou a conquista de todas as terras não ocupadas que havia no nosso

4 Idem, ibidem.

5

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planeta. Pela primeira vez, o mundo encontra-se já repartido, de tal modo que no futuro só se poderão efetuar novas partilhas, ou seja, a passagem de territórios de um proprietário para outro, e não a passagem de territórios sem proprietários para um dono.7

E, fundamentalmente, a concentração de capital em algumas empresas transnacionais e alguns bancos impõe a “falência da política enquanto instrumento legítimo da representação popular”. Mesmo entre as nações centrais o Estado serve apenas como representação das burguesias mais enriquecidas, “o imperialismo, de fato, é o domínio de um Estado, já capturado pela burguesia que se lança na conquista de outros Estados, a partir da exportação de capitais, do modo de vida das nações centrais e de técnicas de produção e dominação.”8

É aqui que se localiza um aspecto elementar da crise do Estado, a partir dela “os políticos tornam-se marionetes a tornam-serviço do poder econômico.”9

1.2 - Desvantagens gerais de uma economia integrada ao imperialismo

Na esteira das determinações econômicas, é preciso ter preliminarmente em conta que o Brasil assim como as demais “ex-colônias espanholas, portuguesas, e mesmo inglesas da América, foram inseridas no sistema capitalista mundial como produtores especializados de artigos coloniais – fumo, algodão, açúcar, café, salitre, cobre, prata etc –, que eram trocados pelos produtos de manufaturados ingleses ou pelos artigos de luxo da França10. Esta estrutura rígida, baseada na troca de produtos primários de exportação por bens industrializados, verificada originalmente desde a época colonial e ampliada a partir do século XIX, vem sendo apontada por estudiosos da realidade brasileira, como Caio Prado Jr., como a principal causa dos problemas econômicos do país. Segundo esse autor:

(...) é sem dúvida a função exclusiva a que originariamente se destinou a economia brasileira que condicionou a sua estruturação e seu desenvolvimento, e que ainda se mantém sob muitos aspectos, a saber, o fornecimento de mercados externos, é isso que forma as raízes e constitui a base de penetração e dominação imperialista em nosso país. (PRADO, 1968: 124)

6 Idem, ibidem. 7 Idem, ibidem. 8 Idem, ibidem. 9 ROMANO, R. ibidem.

10 O Brasil Republicano, v. 8; estrutura de poder e economia (19889-1930) por Fernando Henrique Cardoso e tal introdução geral de Sérgio Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.

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Florestan Fernandes acrescentou se tratar de um:

(...) drama crônico, que não é da essência do capitalismo em geral, mas é típico do capitalismo dependente. As impossibilidades históricas formam uma cadeia, uma espécie de círculo vicioso, que tende a repetir-se em quadros estruturais subsequentes. Como não há ruptura definitiva com o passado, a cada passo este se reapresenta na cena histórica e cobra seu preço, embora sejam muito variáveis os artifícios da conciliação (em regra, uma autêntica negação ou neutralização da reforma). (FERNANDES, 2005: 238) A marca indelével desta recorrência é a restituição permanente dos mecanismos que combinam máximo enriquecimento das burguesias nacional e estrangeira com vulnerabilidade política e econômica das demais classes, o que sempre lhes debilita as possibilidades de autodefesa. Este é o eixo estruturante da força selvagem do capitalismo na periferia e do poder burguês.

Desde sempre o intercâmbio internacional de mercadorias, sob essas bases, entra em contradição com os interesses gerais da nação, à medida que:

(...) em contraste com o que ocorre nos países capitalistas centrais, onde a economia está subordinada a relações existentes entre as taxas internas de mais-valia e de investimento, nos países dependentes o mecanismo econômico básico provém da relação exportação-importação, de modo que, mesmo que obtida no interior da economia, a mais-valia se realiza na esfera do mercado externo, mediante a atividade de exportação, e se traduz em rendas que se aplicam, em sua maior parte, nas importações. A diferença entre valor das exportações, ou seja, o excedente passível de ser investido, sofre, portanto, a ação direta de fatores externos à economia nacional. (MARINI, 2013: 51-52)

Na prática, de acordo com Hobsbawn (1988, p.79), a expansão do mercado resulta em ganho proporcional do exportador, portanto, “melhor ainda será o proveito das economias do núcleo central, para quem esse crescimento se traduza em mercados maiores e crescentes para a exportação de bens e capital.”11 Logo, a renda nacional será tanto menor quanto maior for a necessidade de adquirir no exterior bens industrializados, por ela ser composta do saldo das exportações subtraído das importações.

E esse não é um mecanismo superável pela substituição simples das funções econômicas do país exportador na divisão internacional do trabalho. Mantida a função original, mesmo industrializando-se, o país não escapa da desvantagem geral do sistema. E isso ocorre por muitos aspectos, dentre os quais o

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fato de que esta função pode ser a condição estrutural de acumulação de capital. Conforme observa Rosa Luxemburgo12, esse é o pressuposto do capitalismo, ou seja, esse sistema não pode se desenvolver a partir, exclusivamente, da demanda de suas categorias sociais mais avançadas. Pelo contrário, a obtenção de lucro prescinde de mercados e relações sociais para além da relação capital/trabalho13.

(...) o modo de produção capitalista é regido pelo interesse na obtenção de lucros. Para o capitalista, seja ele quem for, a produção só tem sentido e utilidade quando leva, ano após ano, a encher os bolsos de ´renda líquida´, ou seja, de lucros sobre o investimento de seu capital. Ao contrário do que sucede com qualquer outra forma de economia fundada na exploração, não apenas o lucro em ouro, mas o lucro crescente e contínuo que constitui a lei básica do modo e produção capitalista. Diferindo de outros tipos históricos de explorador, com essa finalidade o capitalista não se utiliza exclusiva ou principalmente do fruto de sua exploração para o luxo pessoal; usa-o cada vez mais para aumentar a própria exploração. A maior parte do lucro alcançado reverte de novo para o capital, visando à ampliação da produção. O Capital assim se avoluma, ou, para a utilizar a expressão de Marx, se acumula, e a produção capitalista cada vez mais se expande em função e decorrência da acumulação. (LUXEMBURG, 1988: 104)

A equação que leva Rosa Luxemburgo à tal conclusão é a de que se o circuito do capital se encerra nos limites das categorias sociais encontradas entre o capital e o trabalho, ou seja, se tudo o que for produzido na fábrica é destinado ao consumo necessário à reprodução da força de trabalho, ao luxo dos capitalistas e à manutenção dos “colaboradores do capital – os órgãos estatais, o exército, o clero e os profissionais liberais”, há a estagnação do desenvolvimento das forças produtivas e não o acúmulo crescente de capital, objetivo primeiro e último do sistema capitalista.

Portanto, para que o capital se avolume, é necessário encontrar demanda para vender o excedente da produção capitalista, superior à necessidade de reprodução da força de trabalho e à reposição permanente da opulência. Essa demanda é proporcionada pelo consumo das outras camadas sociais, que produzem sob modos tecnicamente inferiores, não capitalistas ou por meio de modelo mercantil simples. Essas camadas sociais se encontram dentro dos países capitalistas e nos “enormes continentes em que a produção capitalista apenas

12

LUXEMBURG, Rosa. A acumulação do capital: contribuição ao estudo econômico do imperialismo; Anticrítica. São Paulo: Nova Cultura, 1988.

13

(23)

acaba de criar raízes em pontos esparsos”14, cujas populações “apresentam as mais

diversas formas de economias paralelas, desde as comunistas primitivas até as feudais, agrícolas ou artesanais.”15

Trata-se de criar uma demanda externa para o mercado capitalista “e o mercado externo não quer dizer externo ao país, que dizer externo ao modo de produção.”16

A fim de demonstrar essa realidade intrínseca do sistema capitalista, a autora descreveu uma sequência empírica, na qual narra as epopeias da conquista da Índia pelos ingleses, da conquista do Oeste americano pelos colonos europeus. Segundo ela, uma lógica que impõe transformações violentas, forçadas, de economias autóctones, naturais e autossuficientes, em economias abertas, importadoras e, portanto, de mercado. No entanto, alertara que a história não termina aí, pois a economia penetra nessas economias de produção simples de mercadorias e as revoluciona mais uma vez.

(...) o estabelecimento de uma economia basicamente de produção simples de mercadorias em todo o Oeste, em toda a fronteira americana, e depois, num segundo momento, a entrada do capital ferroviário, a expropriação desses settlers, desses colonizadores, expropriadores de índios, que, por sua vez, são expropriados pelo capital ferroviário, industrial, comercial e bancário que, mais uma vez, revoluciona essa economia, transformando-a numa agricultura capitalista. (SINGER, 1991: 79-88)

Retomando a análise empírica, muito embora o domínio do capital industrial sobre “mercados externos”, inclusive após o fim da “hegemonia britânica e o início das rivalidades interimperialistas, cujos principais protagonistas seriam a Grã-Bretanha, a Alemanha e os Estados Unidos”17

, em muitos casos tenha significado a expansão

14

LUXEMBURG, Rosa. A acumulação do capital: contribuição ao estudo econômico do imperialismo; Anticrítica. São Paulo: Nova Cultura, 1988.

15

Idem. 16

SINGER, Paul. Rosa Luxemburg: a recusa da alienação. In: LOUREIRO, M.; VIGEVANI, T. (Org.). São Paulo: Ed. UNESP, 1991.

17

“esta expansão imperialista não se limitou a Grã-Bretanha. Entre 1870 e 1900, a França ‘adquiriu’ 3,5 milhões de habitantes, na África e na Indochina; a Bélgica ‘adquiriu’ 900.000 milhas quadradas com 8,5 milhões de habitantes no Congo (no Zaire); a Alemanha, uma vez unida, ‘adquiriu’ um milhão de milhas quadradas com 13 milhões de habitantes (Strachey, J., 1959, p.79). Há que acrescentar ainda a ‘aquisição’ pelos estados Estados Unidos do resto do Império espanhol - Cuba, Porto Rico e as Filipinas -, o que efetivamente incorporou estes países à economia capitalista mundial (...) entre 1870 e 1913, a Grã-Bretanha perde a primazia industrial: 'os maiores mercados da Grã-Bretanha tinham sido os Estados Unidos e estavam agora sendo disputados pelo desenvolvimento das indústrias americana e alemã. Entre 1880 e 1890, a produção de aço dos Estados Unidos superou a da Grã-Bretanha; em outra década a produção alemã também ultrapassou a nossa' (Barrat-Browm, 1963, p. 82)”. CARDOSO, Fernando H. et al. O Brasil

(24)

neocolonial, com direito à anexação de territórios, governos e populações, esse padrão capitalista competitivo entre nações centrais, define-se pela reformulação dos controles econômicos das nações centrais sobre as nações periféricas. No caso brasileiro, essaindirect ruleveio na forma de empresas de matriz estrangeira que aqui se instalaram com fulcro na exploração do mercado interno de bens e serviços por grandes empresas internacionais, por meio do qual o objetivo não era impor controles internos indiretos à organização e ao funcionamento das economias capitalistas emergentes, “mas constituir condições de controle externo que pudessem submeter o comércio internacional dessas economias a um condicionamento indireto”.18 Esses mecanismos podem ser representados pela exploração do mercado interno de bens e serviços, por grandes empresas internacionais,

[…] operando diretamente, por meio de filiais ou mediante concessionárias. As grandes corporações surgem aqui quase simultaneamente ao seu aparecimento nas economias centrais, explorando uma vasta gama de objetivos especulativos, nos mais diversos segmentos: produção e fornecimento de energia elétrica; operação de serviços públicos (transportes por bonde ou trem, gás, telefone etc.); exportação de produtos agrícolas ou derivados industrializados, carnes, minérios etc; produção industrial de bens de consumo perecíveis, semiduráveis e duráveis para o mercado interno; loteamento de terrenos, construção de casas ou venda de terras para fins agrícolas; comércio interno, especialmente nas esferas em que se tornara típico de uma sociedade urbano-comercial de massas, em transição industrial; operações de crédito, de financiamento e bancárias; projetos de desenvolvimento agrícola ou urbano, em conexão com a iniciativa privada ou o poder público etc. (CARDOSO, 2006: 299)

O processo de inversões produtivas, que se consolidaria como tendência irreversível do capitalismo no Brasil, consiste em substituir as importações pela produção industrial interna do que antes era remetido do exterior, “em proporção considerável que se pode avaliar grosseiramente em pelo menos 40%, fruto da implantação no país de subsidiárias e associadas de grandes trustes internacionais interessados no nosso mercado”19

, não elide o padrão anterior de drenagem para

republicano, tomo III: estrutura de poder e economia (1889-1930). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.

18 Idem, p. 274.

19

(25)

fora da riqueza nacional e controle internacional sobre nossa economia.20 Conforme Caio Prado Jr.,

[…] as imposições financeiras do imperialismo (remuneração dos capitais aqui aplicados e atividades exercidas por empresas estrangeiras, o que também é fruto das mesmas circunstâncias), que determinam o crônico e crescente desequilíbrio de nossas contas externas e graves dificuldades no atendimento dos nossos compromissos financeiros no exterior, como o que nos provinha da venda de nossos produtos no estrangeiro – única fonte de recursos internacionais com que contávamos. Será essa situação a principal responsável da constante depreciação da moeda e doutras graves consequências, inclusive a desordem financeira crônica, que vem desde sempre, podemos assim dizer, afligindo o país. (PRADO, 1968: 126)

Desse modo, o fator industrial estrangeiro na economia brasileira, na forma de inversões, acentua a dependência da indústria interna ao mercado exportador, porque os

(...) lucros auferidos pelos empreendimentos imperialistas no Brasil, somente se podem liquidar (e somente então constituirão para eles verdadeiros lucros) com os saldos do nosso comércio exterior, uma vez que é da exportação que provêm nossos recursos normais em moeda internacional. Descontada a parte desses recursos que se destina a pagar as importações, é do saldo restante, e somente dele que poderá sair o lucro dos empreendimentos aqui instalados pelos trustes. Na base do previsível para esse saldo, portanto, fixarão os trustes o limite de suas atividades; e, em consequência, o do

“O capital externo não foi sempre da mesma natureza e nacionalidade. No século XIX, o capital estrangeiro era formado, predominantemente, por capitais Ingleses e voltado para fazer dos países situados nas Américas economias integradas à economia Europeia. No século XX, a hegemonia inglesa é substituída pela norte-americana, cuja característica é a transferência de parte da produção industrial para as regiões conquistadas com vistas a direcionar essas economias à realização dos objetivos das grandes corporações econômicas. A despeito desta diferenciação, o que neste trabalho pretendo dar maior ênfase é ao fato de que, a lógica que prescreve a integração de países como o Brasil ao imperialismo é a da drenagem para fora das riquezas nacionais.

Igualmente, não existiu, como alguns supunham, contradição entre a burguesia nacional e a variedade de interesses desses capitais, capaz de determinar a ocorrência de um conflito inter-burguês nos seguintes termos: a existência de uma burguesia atrasada pró exportação, portanto, pró Inglaterra contra uma burguesia moderna, industrial, logo, pró EUA. As atividades práticas das burguesias nacionais não pressupunham confronto decisivo com o capital estrangeiro. No entanto, ocorreram hiatos entre os interesses estrangeiros e nacionais que se expressaram nas sucessivas mudanças de estratégia econômica. Assim é que, diante da falta de interesse do capital privado estrangeiro, o capital estatal nacional teve maior importância durante o processo de instalação da indústria de base. No entanto, o capital estrangeiro predominou tanto antes da industrialização, quanto depois dela, já enquanto capital multinacional que aproveitou as oportunidades abertas pela indústria de base e integração do mercado interno, proporcionadas pela intervenção do capital nacional estatal.” O Brasil Republicano, Sociedade e Política (1930-1964). Confronto e compromisso no processo de constitucionalização (1930-1935). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

(26)

desenvolvimento brasileiro que no sistema vigente é por eles enquadrado.”(PRADO, 1968: 126)

Destarte, dadas essas mesmas circunstâncias, o imperialismo, “que nada mais é do que o sistema capitalista internacional na sua forma contemporânea”21

, transfere para fora as economias centrais uma parte variável da mais-valia, por meio da “estrutura de preços vigente no mercado mundial, pelas práticas financeiras impostas por essas economias, ou pela da ação direta dos investidores estrangeiros no campo da produção”.22

Diante disso, as classes dominantes se ressarcem dessas perdas através da superexploração do trabalho, o que “constitui o princípio fundamental da economia subdesenvolvida, com tudo que isso implica em matéria de baixos salários, falta de oportunidades de emprego, analfabetismo, subnutrição e repressão policial”.23

E por isso, uma abertura no plano político é tão perigosa, ainda que nos limites da democracia burguesa.

Outro aspecto que deve ser apontado, haja vista que se insere nessa composição mais ampla de fatores, diz respeito ao crédito concedido aos países subdesenvolvidos da periferia. Por meio desse instrumento, as nações centrais não só redimensionam a acumulação de capital, como definem o rumo que a periferia do capitalismo deve tomar para si. E aqui, inevitavelmente, devo aproximar este estudo das análises dispostas por Lênin, conforme o qual,

(…) num relatório do cônsul austro-húngaro em São Paulo (Brasil) diz-se: 'a construção dos caminhos de ferro brasileiros realiza-se, na sua maior parte, com capitais franceses, belgas, britânicos e alemães; os referidos países, ao efetuarem-se as operações financeiras relacionadas com a construção de caminhos de ferro, reservam-se as encomendas de materiais de construção ferroviária24.

Não é de espantar que os mecanismos de controle internacional e sucção da riqueza dos países periféricos persistam até os dias atuais, já sob a hegemonia do capitalismo financeiro, do conhecimento de patentes e dos direitos autorais sobre o capitalismo industrial. Recentemente publicado, o “Atlas da complexidade econômica”, elaborado por pesquisadores da Universidade de Harvard25

, demostra

21

PRADO Jr., Caio. A Revolução Brasileira. São Paulo: Editora Brasiliense, 1968.

22

MARINI, Ruy M. Subdesenvolvimento e revolução. Florianópolis: Insular, 2013. 23 Idem, ibdem.

24

LENINE, V. I. “O Imperialismo, fase superior do Capitalismo”. Disponível em:

<https://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/imperialismo/cap4.htm>. Acesso em: 11/5/2014.

25Atlas da Complexidade Econômica”, Universidade de Harvard. Disponível em:

(27)

que, ainda hoje a pauta de exportações é o critério de melhor aferição da riqueza das nações. Desse modo, os países desenvolvidos exportam produtos de elevado progresso tecnológico, enquanto os países pobres exportam produtos mais simples, primários, commodities ou de tecnologia já obsoleta nos países centrais. Absorver tal nível técnico exige, segundo o estudo, que o espaço econômico seja suficientemente dinâmico, o que tem início a partir da produção industrial, mas se amplia através da rede de empresas e de pessoas que trocam entre si conhecimento, isto é, técnicas de produção e comercialização sempre mais modernas que as anteriores. Assim, um país que exporta produtos primários e consome máquinas ou produtos acabados de tecnologia já obsoleta nas nações centrais, dificilmente deixa a condição econômica em que se encontra e é impossível que, a partir dela, parta para um estágio mais elevado da produção e da inovação.

Ocorre que, ao longo das últimas décadas do século XX, paulatinamente, houve o desmonte do Estado de Bem Estar Social, de inspiração keynesiana, que minimamente permitia a ocorrência de mecanismos de autodefesa das nações diante da ofensiva dos interesses das grandes corporações privadas. O levantamento histórico de Hobsbawm demonstra que, sobretudo, após a queda do socialismo na União Soviética, foram retomadas, com significativa importância teórica e consequências práticas, ideias ultra-ortodoxas do liberalismo ou o neoliberalismo, como são batizadas as teses de Hayek. Para quem a regulamentação da economia, do planejamento estatal e a recomendação de exultar gastos sociais correspondem necessariamente a entraves à expansão capitalista, na medida em que essas premissas, próprias do capitalismo de bem-estar social, tornam indisponíveis reservas de capital, segundo a matriz de orientação neoliberal, para a qual todo o esforço econômico deve ser orientado com vistas à iniciativa privada, sob pena de obstaculizar o objetivo exclusivo da economia, o lucro. Ocorre que a desregulamentação, proporciona um novo modelo de organização empresarial, as empresas off shore, sediadas em paraísos fiscais, que retiram do Estado os parcos controles democráticos obtidos na era do capitalismo competitivo. Engendrando, portanto,

(...) um capitalismo cuja realidade permanente vem a ser a conjugação do desenvolvimento capitalista com a vida suntuosa de ricas e poderosas minorias burguesas e com o florescimento econômico de algumas nações imperialistas também ricas e poderosas. Um capitalismo que associa luxo, poder e riqueza, de um

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lado, à extrema miséria, opróbrio e opressão, do outro. (FERNANDES, 2005: 354)

E uma onda privatizante que vem até hoje.

Como é de se esperar, os indivíduos não fazem história sozinhos. O prêmio Nobel de economia no ano de 1974, Friedrich Hayek e outros menores, contaram com amplo apoio da comunidade internacional de negócios e de governos. As consequências do modelo do Prêmio Nobel são conhecidas e ainda que, felizmente, suas teses não tenham sido aplicadas em estado puro, o neoliberalismo teve alcance suficiente para gerar uma onda privatizante na década de 1990, pondo grande quantidade de reservas naturais, empresas nacionais privadas ou estatais, mercado interno e finanças à disposição da exploração de empresas multinacionais sob quase nenhum controle soberano, por parte dos Estados onde essas empresas se instalaram. O que tem reforçado a tendência do capitalismo de concentrar cada vez mais a riqueza26.

O resultado da implementação, ainda que parcial do neoliberalismo, tem consequências catastróficas do ponto de vista social. Desde a década de 1980, a condução da economia sob esse modelo desloca a primazia da atividade produtiva, industrial, para o setor financeiro. O resultado disso é a prevalência da financeirização, em detrimento da atividade produtiva e da distribuição da renda via salários. Concretamente, no caso brasileiro é transferida, anualmente, cerca 5% de toda a riqueza nacional, via pagamento de juros, para 20 mil famílias que juntas respondem por 77% de toda a riqueza nacional. Somente a partir de 2003, sob o governo Lula, com o início de uma série de políticas sociais, foi retomada a tentativa de redistribuir a renda nacional abandonada após a ditadura de 1964, passando a ser distribuída cerca 0,5% da riqueza nacional para algo em torno de 10 milhões de famílias, via políticas de transferência de renda27.

26

PIKETTY, Thomas. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intríseca, 2014. 27

“Medidas de caráter neoliberal, fundadas estritamente na restrição dos gastos sociais, são

orquestradas pela lógica da racionalização dos recursos. E, em nome da responsabilidade fiscal, encontram-se em curso dois sistemas de sustentação de renda. De um lado, as taxas de juros básicas estabelecem o nível mínimo de garantia de renda para cerca de 20 mil famílias que vivem da aplicação de suas riquezas no circuito da financeirização. Desde o final da década de 1990, o Brasil vem transferindo anualmente de 5 a 8% de todo o Produto Interno Bruto na forma de

sustentação da renda mínima para os ricos. De outro lado, ganhou maior dimensão, desde 2001, a difusão de programas de complementação de renda mínima para os segmentos miseráveis da população. A cada ano, menos de 0,5% do PIB nacional tem sido transferido para mais de 10 milhões de famílias que vivem em condições de extrema pobreza. Percebe-se, assim, que mesmo na esfera das políticas públicas, as resistências ao enfrentamento da desigual repartição da renda se fazem presentes. POCHMANN, Marcio. “O país dos desiguais”. In: Jornal Le Monde

(29)

1.3 - O papel histórico da burguesia no Brasil

Karl Marx, ao chamar a atenção para o fato de que o desenvolvimento das forças produtivas, em qualquer época, é resultado direto do acúmulo que essas mesmas forças obtêm no processo histórico imediatamente anterior, detalhou:

(…) a escravatura direta é o pivô do nosso industrialismo atual, assim como as máquinas, o crédito, etc. Sem escravatura, não temos algodão; sem algodão, não temos indústria moderna. Foi a escravatura que deu valor às colônias, foram as colônias que criaram o comércio mundial, o comércio mundial é que é a condição necessária da grande indústria mecânica. Por isso, antes do tráfico dos negros, as colônias só davam ao velho mundo muito poucos produtos e não alteravam visivelmente a face do mundo28.

A passagem acima ilustra com precisão o padrão civilizatório que os europeus exportaram para as suas colônias além-mar. E esta é uma das causas objetivas para o relativo atraso das ex-colônias em relação às nações centrais, isto é, para engendrar um processo de transição da economia baseada na grande lavoura exportadora para uma economia competitiva nos trópicos. No Brasil:

Tanto no plano demográfico e econômico quanto no plano social e cultural (e aqui em termos simultâneos de tecnologia e de instituições fundamentais), uma sociedade escravista, recém-egressa do regime colonial, sem contar previamente com um setor capitalista bastante desenvolvido (como sucedeu nos Estados Unidos, na época da emancipação nacional), dificilmente poderia dispor dos recursos materiais, humanos e culturais necessários para fazer face ao referido processo (mesmo dentro de escalas possíveis no Brasil dos meados do século XIX). (FERNANDES, 2005: 271)

Todavia, isso não autoriza a conclusão de que todas as nações deverão repetir a mesma história das nações centrais do capitalismo. Embora esse engano tenha permeado e ainda permeie as mentes de muitos que procuraram interpretar o

Diplomatique. Disponível em: <www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=30>. Acesso em: 5/4/2015.

28

L'esclavage direct est le pivot de notre industrialisme actuel aussi bien que les machines, le crédit, etc. Sans esclavage vous n'avez pas de coton, sans coton vous n'avez pas d'industrie moderne. C'est l'esclavage qui a donné de la valeur aux colonies, ce sont les colonies qui ont créé le commerce du monde, c'est le commerce du monde qui est la condition nécessaire de la grande industrie mécanique. Aussi avant la traite des nègres, les colonies ne donnaient à l'ancien monde que très peu de produits et ne changeaient pas visiblement la face du monde. Ainsi l'esclavage est une catégorie économique de la plus haute importance”. MARX, Karl. “Carta par Annenkov”.

Tradução do autor. Disponível em: <www.marxists.org/francais/marx/works/1846/12/kmfe1846>. Acesso em:18/9/2015.

(30)

Brasil (por exemplo, Fernando Henrique Cardoso, para quem o único horizonte histórico possível para o Brasil é incontestavelmente burguês e dependente), há indícios contundentes que indicam o caminho contrário, no sentido de que aqui jamais houve um antigo regime para ser substituído pelo burguês moderno. E por essas mesmas circunstâncias, a presunção de que as economias periféricas podem realizar o mesmo percurso histórico das nações como Inglaterra, França e Estados Unidos desde que realizem a revolução anticolonial, mostra-se irrealizável.

(...) o que a parte dependente da periferia absorve e, portanto, repete com referência aos casos clássicos são traços estruturais e dinâmicos essenciais, que caracterizam a existência do que Marx designava como uma economia mercantil, a mais-valia relativa etc. E a emergência de uma economia competitiva diferenciada ou de uma economia monopolista articulada etc. (FERNANDES, 2005: 338)

Do contrário, não podem ser consideradas capitalistas. A professora Maria Sylvia de Carvalho Franco observa que:

(…) a civilização do café constituiu-se a partir de um universo econômico em expansão, em que o projeto de todos foi enriquecer e no qual os meios de enriquecimento não estiveram monopolizados. A apropriação não estava juridicamente limitada, nem mesmo convencionalmente estabelecida, como privilégio exclusivo de um determinado grupo de homens livres, observando-se a tendência inversa daquela que acompanha as formações estamentais. Nestas, o fechamento cada vez maior das camadas dominantes, o monopólio por elas exercido sobre os bens materiais, aliado à desqualificação do trabalho e da atividade lucrativa, têm por consequência o travamento da evolução dos mercados. Na sociedade aqui focalizada, a possibilidade de ganhar uma posição economicamente vantajosa e desta traduzir-se em posição social privilegiada, manteve abertos os estratos superiores, intensificando sua participação nas atividades mercantis. É certo que o latifúndio trabalhado por escravos implicava uma limitação das relações de troca. Mas, em certa medida, também esse efeito corrigiu-se pela referência aos mercados internacionais, que conferiu sentido a toda a atividade organizada no interior das fazendas, impedindo que elas se convertessem em unidades autossuficientes e fazendo com que o movimento tendesse no sentido contrário, para a diferenciação e integração, incipientes que sejam, da vida econômica. (FRANCO, 1997: 219)

(31)

jurídica estamental que inviabiliza o pleno desenvolvimento da ordem social burguesa, mas o enquadramento do Estado e das funções públicas em direção à realização de interesses privados. O que se dá através da utilização desmedida de mecanismos como o favor, a violência, as fraudes eleitorais, o apadrinhamento pelos grupos de poder, que não podem ser confundidas com formações sociais e econômicas estranhas ao modelo capitalista.

Não por acaso, autores como Oliveira Viana e Raymundo Faoro fixam o problema do privatismo das classes dominantes como principal obstáculo à formação do Estado Nacional propriamente dito, ou análogo ao existente nas nações centrais do capitalismo. O primeiro formula uma saída autoritária e antiliberal, já o segundo uma saída antiestatal que, todavia, não pode ser confundida com a apologia da desregulamentação ultraliberal, mas como crítica histórica “do Estado fundado sem contrato social democrático, encerrado em uma lógica patrimonial, sem um lógica simétrica de direitos e deveres, que se atualiza permanentemente pela particularização arbitrária da sua ação política e pela privatização de suas funções econômicas”.29

No mesmo sentido, não se pode inferir que, mais tarde, o Movimento Tenentista, manifestamente antiliberal, seja considerado conservador. O antiliberalismo dos tenentes expressava a irresignação com o domínio oligárquico e, lateralmente, contra a ideologia, ainda que de maneira deformada, se é que se pode dizer, do pressuposto teórico do poder oligárquico.

Florestan Fernandes, por sua vez, compreende que a ordem competitiva orientada pelo privatismo das classes dominantes, procura a máxima modernização econômica com a mínima descolonização possível. Assim, a persistência da escravidão, em que pese represente a “ausência de base para o mercado interno”30

e, portanto, não contribua para criar as condições propícias para abrir um processo de rápida industrialização -- como exemplo os Estados Unidos --, no caso brasileiro não significa um bloqueio total à diferenciação da atividade econômica. Isto somente seria verdadeiro “se o que entrasse em jogo fosse a passagem direta da economia escravista-capitalista neocolonial, para uma economia urbano-industrial avançada”31. Aqui, a transição é menos complexa, “a aristocracia agrária, bem como

os grupos ligados à dinamização do esquema de importação-exportação,

29

GUIMARÃES, Juarez R. Raymundo Faoro: Brasil, política e liberdade. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2009. v. 1.

30

CARDOSO, Fernando H. et al. O Brasil republicano, tomo III: estrutura de poder e economia (1889-1930). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2006.

31

(32)

empenhavam-se, de fato, na consolidação do mercado capitalista moderno e em sua difusão interna”32

.

A obtenção do maior lucro possível com as exportações exigiu desde o princípio o controle do Estado nacional, sob pena de as classes proprietárias locais experimentarem regressões neocoloniais indesejadas, como é o caso de várias ex- colônias latino-americanas, onde os empreendimentos externos são direcionados para a produção direta dos bens de exportação. Conforme observa Florestan Fernandes,

(...) mesmo a Inglaterra teve de enfrentar muitas dificuldades para manter privilégios acumulados sob a administração portuguesa; alcançou pouco êxito nas tentativas de solapar as bases de poder da aristocracia agrária (mediante o combate à escravidão e a interrupção do tráfico); e teve de desdobrar-se para lograr vantagens na competição com outras nações que disputavam sua posição hegemônica no mercado brasileiro. (FERNANDES, 2005: 268)

Com efeito, a relação entre modelo democrático burguês e desenvolvimento capitalista pode ser variável. Tal como já aludido em passagem anterior, o fator central da modernização da periferia do capitalismo é a permanente remodelagem das estruturas econômicas, jurídicas e políticas, para que não se constituam economias competitivas na periferia com as nações centrais. Por seu turno, o desenvolvimento capitalista, ainda que acelere a acumulação de capital e modernização institucional correspondente, não necessariamente repete, nos países periféricos, o modelo clássico de Revolução Burguesa encontrado em países centrais, “ao revés, o que esse concretiza, embora com intensidade variável, é uma forte dissociação pragmática entre desenvolvimento capitalista e democracia; ou, usando-se uma notação sociológica positiva: uma forte associação racional entre desenvolvimento capitalista e autocracia.”33

Aqui, ao contrário do que acontece no modelo clássico, onde as burguesias erguem sua hegemonia pela via do poder social e só buscam o Estado para arranjos mais complexos, a viabilidade da dominação burguesa se decide, “com frequência, por meios políticos e no terreno político.”34

Portanto, a dominação burguesa tende a obter o máximo de vantagens do imperialismo, limitar o alcance histórico da independência e, posteriormente, da industrialização e da democracia burguesa.

São Paulo: Globo, 2005.

32

Idem, ibdem. 33

(33)

Trata-se de dominação burguesa, não de hegemonia que busca o consenso das outras classes para a realização de um fim comum, que seleciona o inimigo interno, no passado o escravo, posteriormente as classes trabalhadoras, não só a obreira, mas todas sobre as quais foram lançados o peso e os custos da modernização. Não à toa, é uma sociedade marcada por profunda desigualdade e onde a ascensão dos de baixo é vista como ameaça à posição dos de cima, já que potencialmente pode retirar privilégios. Via de regra, os setores de renda alta ou muito alta são fartamente retribuídos pela nação, mas não assumem deveres na mesma proporção. Os mecanismos de sucção do sangue da economia viva, pelas mais variadas formas de exploração e de privilégios, são praticamente intocáveis e protegidos pelo manto sacro da “livre iniciativa”, do “direito de propriedade” etc.

Esta realidade insistente, que vem desde sempre, não considera os assalariados em geral nas relações de poder no Brasil:

(...) a Primeira República preservou as condições que permitiam, sob o Império, a coexistência de 'duas nações', a que se incorporava à ordem civil (a rala minoria, que realmente constituía uma nação de mais iguais), e a que estava dela excluída, de modo parcial ou total (a grande maioria, de quatro quintos ou mais, que constituíam a nação real). (FERNANDES, 2005: 242)

Sob essas condições estruturais iniciais, a Revolução Burguesa no Brasil não é instrumental, ao mesmo tempo para realizar uma revolução econômica e uma revolução política à moda clássica. Por isso, a burguesia se aproveita de toda a modernização que não pode conter, porque é imposta de fora para dentro, e absorve para si o máximo de excedentes possíveis. Eis onde a Revolução Burguesa obstrui a passagem da civilização escravista para a ordem social competitiva, à medida que a dominação autocrática burguesa torna o espaço político e econômico uma virtualidade, imobilizável pelas massas despossuídas e trabalhadoras. Daí que subdesenvolvimento e dependência não são somente impostos de fora, as classes dominantes, compreendidas aqui as burguesias urbana e rural – e nelas as oligarquias –, preservam estruturas do passado e modernizam-se onde é possível ou inevitável, porém jamais buscam revolucionar a sociedade de alto a baixo, sob pena de comprometer toda a estrutura econômica que é sua razão de ser.

34

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