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ÓrfãosdoEldorado

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Academic year: 2021

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Órfãos do

Eldorado

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Órfãos do Eldorado(Milton Hatoun)

• Numa cidade à beira do rio Amazonas, um passante vem procurar abrigo à sombra de um jatobá e, incauto ou curioso, dispõe-se a ouvir um velho com fama de louco. É o que basta para Arminto Cordovil começar a contar a história de Órfãos do

Eldorado: a história de seu próprio amor desesperado por Dinaura, mas também a crônica de uma família, de uma região e de toda uma época que, à base da seiva da seringueira, quis encarnar os sonhos seculares de um Eldorado amazônico. Essa miragem mítica e histórica serve de pano de fundo a Órfãos do Eldorado e ao destino de Arminto Cordovil, dividido entre o amor pela moça misteriosa e as pretensões

dinásticas do pai, Amando, armador enriquecido com a borracha. Na casa elegante em Manaus ou no palacete de Vila Bela, Amando nutre fantasias de proprietário e armador, que seu filho único teima em minar. Entre esses extremos que mal se tocam, uma galeria notável de mulheres -Angelina, a mãe morta; Florita, o anjo da guarda morena; Estrela, a bela sefardita - e os homens - de Estiliano, o advogado grego, a Denísio Cão, o barqueiro infernal - que vivem na própria pele o fausto e os conflitos do ciclo da borracha nos anos que antecedem a Primeira Guerra Mundial. E, no centro de tudo, Dinaura, corpo estranho entre as órfãs das Carmelitas em Vila Bela, moça que parece filha do mato, lê romances, enfeitiça Arminto e sonha com a Cidade Encantada, a Eldorado submersa de que tanto se fala à beira do rio

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• no centro da trama tem-se a paixão louca de Arminto

por Dinaura, uma menina criada pelas freiras carmelitas

e cuja história guarda um segredo, que só ao final vai,

em parte, se revelar. Paixão que, no dizer de Florita, o

deixa “com o demônio no coração”.

Quando Arminto Cordovil cruza seus olhos com os de

Dinaura, reconhece que sua vida mudaria. E mudou.

Toda a novela de Milton Hatoum é a história dessa

mudança. Mas uma mudança que não consegue

extirpar o passado: ele prossegue, resiste, prolonga-se

pelas artimanhas da memória.

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• Nota-se, portanto, que Órfãos do Eldorado é inspirado no mito amazônico da cidade encantada de Eldorado, um paraíso que existiria no fundo de algum dos rios da região, segundo lendas locais.

• Na novela de Milton Hatoum, Eldorado é também um barco da

companhia da família Cordovil que afunda e leva a firma à falência. Os dois Eldorados - o fictício, que representa um lugar ideal, e o real, que é uma grande tragédia material - constituem uma

presença forte na vida dos personagens, em sua busca pela felicidade.

• Uma busca sempre frustrada, pois o percurso que leva ao idílio da cidade desaparecida (representada pelo amor romântico e pela harmonia filial) exige a provação de uma catástrofe. Arminto, em sua narrativa repleta de lacunas e pontos obscuros, torna-se refém dessas contradições de Eldorado.

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• A história em que todos se enredam é a crônica de violência e tragédia na Amazônia entre a Cabanagem e o fim do ciclo da borracha. O que há de mais interessante no novo livro de Hatoum são os paralelismos que se

podem apreender da narrativa. A tragédia grega de Arminto se confunde, e muito, com o fim da pujança do extrativismo da borracha, então a nova riqueza do país, e a desilusão de uma nação próspera, saqueada por interesseiros e corruptos oportunistas.

Amando, o pai, enriquece com as conveniências oferecidas pela primeira corrida da história provocada não por um minério, mas por uma planta. Dono de uma empresa de navegação, colabora com as tramóias de homens oportunistas enquanto distribui esperanças à população de Vila Bela, cidade ficcional inspirada na verdadeira Parintins. Milton Hatoum não abandona as mazelas sociais. Ao narrar a utopia de uma elite indigna, o autor acaba retratando o desenredo de uma sociedade. “Queria ser

diferente, mas uma sombra do meu pai estava dentro de mim, como um caroço numa fruta podre”, diz o protagonista.

Obs.:Cabanagem (1835-1840) foi a revolta na qual negros, índios e

mestiços se insurgiram contra a elite política e tomaram o poder no Pará (

Brasil). Entre as causas da revolta encontram-se a extrema pobreza das populações ribeirinhas e a irrelevância política à qual a província foi

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• Pela divagação psicológica, pode-se enxergar, guardadas as devidas proporções, uma similaridade entre Arminto Cordovil e Bentinho

(Dom Casmurro). Ambos são homens velhos que recontam seu passado. O estilo de Hatoum tem um eco machadiano: narrativa clássica, precisa e escorreita. Mas, se fosse possível fazer uma aproximação, Órfãos do Eldorado lembra muito Fogo morto, saga épica e clássico de José Lins do Rego - embora o Hatoum refute o conceito de que sua obra seja regionalista, pois ao contrário, há, na obra, um efeito que se costuma encontrar nos grandes livros: o

movimento do particular para o universal. E essa transição do individual para o coletivo se realiza por meio do mito.

Como personagem de fundo, o Rio Amazonas, que, com seu peso e obscuridade, lhe serve de cosmos. E ainda a cidade de Manaus,

desde os primeiros colonizadores confundida com o Eldorado. A

Amazônia é um mundo em que as palavras fracassam. Em que elas só resistem na forma mole dos mitos.

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características

• narrativa acelerada e cheia de elipses de “Órfãos do

Eldorado” tem um travo de irrealidade e vertigem que çhe

cai muito bem.

• O protagonista é apresentado no presente. Está velho,

louco e pobre;

• do tempo de fartura restam-lhe apenas lembranças. O

relato dessas reminiscências a um passante em busca de

abrigo constitui a diegese da obra.

• Não há linearidade

, porque a narrativa segue ao sabor da

memória, onde os fatos vividos surgem fragmentados,

partes de um mosaico que compõe a vida de Arminto

Cordovil, transcorrida entre a Cabanagem e o primeiro

ciclo da borracha;

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• Órfãos do Eldorado é uma história de amor,

perdas, ausências e buscas pela Cidade

Encantada, ainda não encontrada, mas que

pode existir em qualquer lugar para onde os

sonhos ou a imaginação possam levar.

• Mais do que um drama regional, a obra

representa um questionamento sobre a

essência da vida e o existir do ser humano no

mundo.

• Por tudo isso, pode-se afirmar que Milton

Hatoum oferece ao leitor um bom texto literário,

ao mesmo tempo, “dolce et utile”.

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• Com uma temática recorrente à cultura e

paisagens amazônicas, Hatoum prescreve um

caminho parecido com o de Jorge Amado:

alimentar a curiosidade e a sede do leitor

estrangeiro pelo exótico universo e costumes do

ainda desconhecido Norte brasileiro.

• De qualquer forma, Hatoum sabe como

ninguém descrever a riqueza e ambiência de

sua terra natal, com rigor de forma e fineza

poética. Neste livro, ele retoma essa linha,

assim como fez em Cinzas do Norte e Dois

irmãos, em um enredo sobre amor e decadência

no Amazonas do período Entre-Guerras.

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• Em certo trecho do livro, o protagonista se

pergunta: “Tinha sido ingênuo ou

irresponsável?”, no que logo responde:

“fui as duas coisas”. Seu sentimento,

embora de mea-culpa, resume fielmente

um capítulo da história brasileira. O livro

também traz à tona a figura mítica da

Cidade Encantada, como uma zona de

escape a esses males. Mas o leitor irá

perceber que a mera fuga só irá nos fazer

retornar ao ponto de partida.

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• No livro enxuto, Hatoum optou por abrir mão

da complexidade sem, no entanto, perder de

vista a dramaticidade e a carga poética e

fluência levemente regionalizada que

definem e individualizam seu romance.

• A novela se inicia com uma profunda mágoa

entre pai e filho que não dissipa no passar

do tempo. Enquanto Manaus e a fortuna de

nome e das posses da família Cordovil se

afundam, Arminto vai contando sua vida de

amores e miragens, de feitiços e vinganças

sem razão, onde uma cidade é capaz de

enlouquecer e desperdiçar vidas, onde a

noite é capaz de turvar a memória, escurecer

a alma, até que um canto de pajé - ou o fim

da história - as acorde do transe.

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• na abertura do livro, a citação do romance 'A cidade', de

Konstantinos Kaváfis (1910), deixa entrever a tristeza de

quem se aferra a lugares e arruina a própria vida na

covardia imóvel de quem não consegue mudar; no

Posfácio, Hatoum rende sinceras homenagens às

histórias, lendas e mitos que compõem a simbiose entre

a infância dos netos e a velhice dos avós, os primeiros,

ávidos por magias e surpresas que prendam seus

espíritos desassossegados num suspense dramático, os

últimos, experientes, mágicos e suficientemente solenes

para domar o tempo, o medo, e a arte de alimentar a

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Milton Hatoun

• Órfãos do Eldorado,assim como outras obras do autor, expressam o cotidiano da vida na região Amazônica, tão fascinante e tão

misteriosa.

• O personagem principal, Arminto, parece estar sempre no terceiro espaço, vivendo entre a vida burguesa oferecida por sua condição social e a vida ribeirinha, da qual tanto gostava desde criança.

• Nessa mistura de olhares e costumes, a trama apresenta um personagem complexo que nos deixa a impressão de

imcompletude, e de busca da verdadeira identidade.

• Órfãos do Eldorado, apesar das críticas, é uma obra muito rica, tanto cultural quanto estruturalmente, o faz da mesma uma

verdadeira representação da região Amazônica, enquanto

costumes e lendas, e do estilo do próprio autor, que busca sempre expressar as riquezas de sua região de origem.

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A voz no texto

• Outro ponto a abordar é sobre a índia, Dinaura, pela

qual o narrador é apaixonado. Ela não tem voz na

narrativa e o que sabemos a seu respeito é que está

entre as órfãs das carmelitas em Vila Bela, que lê

romances e enfeitiça Arminto.

• É a representação de uma personagem absolutamente

excluída na vida real, mas na ficção, o leitor, queria

muito ouvir sua voz. Seria interessante saber o que

pensa, como é seu olhar diante do outro, o civilizado.

• A voz feminina que mais prevalece na novela é da

mulher que criou Arminto, Florita. Mesmo assim uma

voz quase inaudita, mas objetiva e visionária, que tenta,

sem sucesso, advertir Arminto sobre a tendência de

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• História é narrada por Arminto Cordovil que, velho e sozinho, às margens do rio Amazonas, relata a um viajante a trajetória de sua própria vida, que começa marcada pela morte: “Até hoje recordo as

palavras que me destruíram: Tua mãe te pariu e morreu”. Criado

pelo pai, que parece lhe culpar pela morte da esposa, ele mais parece um bastardo do que um filho legítimo; é, pois, duplamente órfão. Quando herda as propriedades e a empresa do pai, Amando Cordovil, grande capitalista que fez fortuna durante o Ciclo da

Borracha, Arminto se mostra sem capacidade e sem disposição para administrar a herança, o que o conduz do luxo à pobreza. Seu amor por uma índia-orfã, Dinaura, não só não se concretiza como o faz delirar e aos poucos, o sonho se torna uma espécie de

obsessão: “passava o dia fugindo dessas coisas irreais, absurdas,

mas que pareciam tão vivas que me davam medo”. Arminto, então,

começa a desejar ir para outro lugar, para um Paraíso: “Vou

embora para outra terra, encontrar uma cidade melhor. Para onde olho, qualquer lugar que o olhar alcança, só vejo miséria e ruínas”.

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• Numa Palestra uma menina quer

explicação para o final enigmático de

Órfãos do Eldorado. Está curiosa para

saber o que aconteceu. Hatoum ouve

protestos bem-humorados dos alunos

quando afirma que o romance não deve

ser explicado, as lacunas que existem são

importantes para a narrativa. “O final fica

para a imaginação de vocês”.

Referências

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