Órfãos do
Eldorado
Órfãos do Eldorado(Milton Hatoun)
• Numa cidade à beira do rio Amazonas, um passante vem procurar abrigo à sombra de um jatobá e, incauto ou curioso, dispõe-se a ouvir um velho com fama de louco. É o que basta para Arminto Cordovil começar a contar a história de Órfãos do
Eldorado: a história de seu próprio amor desesperado por Dinaura, mas também a crônica de uma família, de uma região e de toda uma época que, à base da seiva da seringueira, quis encarnar os sonhos seculares de um Eldorado amazônico. Essa miragem mítica e histórica serve de pano de fundo a Órfãos do Eldorado e ao destino de Arminto Cordovil, dividido entre o amor pela moça misteriosa e as pretensões
dinásticas do pai, Amando, armador enriquecido com a borracha. Na casa elegante em Manaus ou no palacete de Vila Bela, Amando nutre fantasias de proprietário e armador, que seu filho único teima em minar. Entre esses extremos que mal se tocam, uma galeria notável de mulheres -Angelina, a mãe morta; Florita, o anjo da guarda morena; Estrela, a bela sefardita - e os homens - de Estiliano, o advogado grego, a Denísio Cão, o barqueiro infernal - que vivem na própria pele o fausto e os conflitos do ciclo da borracha nos anos que antecedem a Primeira Guerra Mundial. E, no centro de tudo, Dinaura, corpo estranho entre as órfãs das Carmelitas em Vila Bela, moça que parece filha do mato, lê romances, enfeitiça Arminto e sonha com a Cidade Encantada, a Eldorado submersa de que tanto se fala à beira do rio
• no centro da trama tem-se a paixão louca de Arminto
por Dinaura, uma menina criada pelas freiras carmelitas
e cuja história guarda um segredo, que só ao final vai,
em parte, se revelar. Paixão que, no dizer de Florita, o
deixa “com o demônio no coração”.
Quando Arminto Cordovil cruza seus olhos com os de
Dinaura, reconhece que sua vida mudaria. E mudou.
Toda a novela de Milton Hatoum é a história dessa
mudança. Mas uma mudança que não consegue
extirpar o passado: ele prossegue, resiste, prolonga-se
pelas artimanhas da memória.
• Nota-se, portanto, que Órfãos do Eldorado é inspirado no mito amazônico da cidade encantada de Eldorado, um paraíso que existiria no fundo de algum dos rios da região, segundo lendas locais.
• Na novela de Milton Hatoum, Eldorado é também um barco da
companhia da família Cordovil que afunda e leva a firma à falência. Os dois Eldorados - o fictício, que representa um lugar ideal, e o real, que é uma grande tragédia material - constituem uma
presença forte na vida dos personagens, em sua busca pela felicidade.
• Uma busca sempre frustrada, pois o percurso que leva ao idílio da cidade desaparecida (representada pelo amor romântico e pela harmonia filial) exige a provação de uma catástrofe. Arminto, em sua narrativa repleta de lacunas e pontos obscuros, torna-se refém dessas contradições de Eldorado.
• A história em que todos se enredam é a crônica de violência e tragédia na Amazônia entre a Cabanagem e o fim do ciclo da borracha. O que há de mais interessante no novo livro de Hatoum são os paralelismos que se
podem apreender da narrativa. A tragédia grega de Arminto se confunde, e muito, com o fim da pujança do extrativismo da borracha, então a nova riqueza do país, e a desilusão de uma nação próspera, saqueada por interesseiros e corruptos oportunistas.
Amando, o pai, enriquece com as conveniências oferecidas pela primeira corrida da história provocada não por um minério, mas por uma planta. Dono de uma empresa de navegação, colabora com as tramóias de homens oportunistas enquanto distribui esperanças à população de Vila Bela, cidade ficcional inspirada na verdadeira Parintins. Milton Hatoum não abandona as mazelas sociais. Ao narrar a utopia de uma elite indigna, o autor acaba retratando o desenredo de uma sociedade. “Queria ser
diferente, mas uma sombra do meu pai estava dentro de mim, como um caroço numa fruta podre”, diz o protagonista.
• Obs.:Cabanagem (1835-1840) foi a revolta na qual negros, índios e
mestiços se insurgiram contra a elite política e tomaram o poder no Pará (
Brasil). Entre as causas da revolta encontram-se a extrema pobreza das populações ribeirinhas e a irrelevância política à qual a província foi
• Pela divagação psicológica, pode-se enxergar, guardadas as devidas proporções, uma similaridade entre Arminto Cordovil e Bentinho
(Dom Casmurro). Ambos são homens velhos que recontam seu passado. O estilo de Hatoum tem um eco machadiano: narrativa clássica, precisa e escorreita. Mas, se fosse possível fazer uma aproximação, Órfãos do Eldorado lembra muito Fogo morto, saga épica e clássico de José Lins do Rego - embora o Hatoum refute o conceito de que sua obra seja regionalista, pois ao contrário, há, na obra, um efeito que se costuma encontrar nos grandes livros: o
movimento do particular para o universal. E essa transição do individual para o coletivo se realiza por meio do mito.
Como personagem de fundo, o Rio Amazonas, que, com seu peso e obscuridade, lhe serve de cosmos. E ainda a cidade de Manaus,
desde os primeiros colonizadores confundida com o Eldorado. A
Amazônia é um mundo em que as palavras fracassam. Em que elas só resistem na forma mole dos mitos.
características
• narrativa acelerada e cheia de elipses de “Órfãos do
Eldorado” tem um travo de irrealidade e vertigem que çhe
cai muito bem.
• O protagonista é apresentado no presente. Está velho,
louco e pobre;
• do tempo de fartura restam-lhe apenas lembranças. O
relato dessas reminiscências a um passante em busca de
abrigo constitui a diegese da obra.
• Não há linearidade
, porque a narrativa segue ao sabor da
memória, onde os fatos vividos surgem fragmentados,
partes de um mosaico que compõe a vida de Arminto
Cordovil, transcorrida entre a Cabanagem e o primeiro
ciclo da borracha;
• Órfãos do Eldorado é uma história de amor,
perdas, ausências e buscas pela Cidade
Encantada, ainda não encontrada, mas que
pode existir em qualquer lugar para onde os
sonhos ou a imaginação possam levar.
• Mais do que um drama regional, a obra
representa um questionamento sobre a
essência da vida e o existir do ser humano no
mundo.
• Por tudo isso, pode-se afirmar que Milton
Hatoum oferece ao leitor um bom texto literário,
ao mesmo tempo, “dolce et utile”.
• Com uma temática recorrente à cultura e
paisagens amazônicas, Hatoum prescreve um
caminho parecido com o de Jorge Amado:
alimentar a curiosidade e a sede do leitor
estrangeiro pelo exótico universo e costumes do
ainda desconhecido Norte brasileiro.
• De qualquer forma, Hatoum sabe como
ninguém descrever a riqueza e ambiência de
sua terra natal, com rigor de forma e fineza
poética. Neste livro, ele retoma essa linha,
assim como fez em Cinzas do Norte e Dois
irmãos, em um enredo sobre amor e decadência
no Amazonas do período Entre-Guerras.
• Em certo trecho do livro, o protagonista se
pergunta: “Tinha sido ingênuo ou
irresponsável?”, no que logo responde:
“fui as duas coisas”. Seu sentimento,
embora de mea-culpa, resume fielmente
um capítulo da história brasileira. O livro
também traz à tona a figura mítica da
Cidade Encantada, como uma zona de
escape a esses males. Mas o leitor irá
perceber que a mera fuga só irá nos fazer
retornar ao ponto de partida.
• No livro enxuto, Hatoum optou por abrir mão
da complexidade sem, no entanto, perder de
vista a dramaticidade e a carga poética e
fluência levemente regionalizada que
definem e individualizam seu romance.
• A novela se inicia com uma profunda mágoa
entre pai e filho que não dissipa no passar
do tempo. Enquanto Manaus e a fortuna de
nome e das posses da família Cordovil se
afundam, Arminto vai contando sua vida de
amores e miragens, de feitiços e vinganças
sem razão, onde uma cidade é capaz de
enlouquecer e desperdiçar vidas, onde a
noite é capaz de turvar a memória, escurecer
a alma, até que um canto de pajé - ou o fim
da história - as acorde do transe.
• na abertura do livro, a citação do romance 'A cidade', de
Konstantinos Kaváfis (1910), deixa entrever a tristeza de
quem se aferra a lugares e arruina a própria vida na
covardia imóvel de quem não consegue mudar; no
Posfácio, Hatoum rende sinceras homenagens às
histórias, lendas e mitos que compõem a simbiose entre
a infância dos netos e a velhice dos avós, os primeiros,
ávidos por magias e surpresas que prendam seus
espíritos desassossegados num suspense dramático, os
últimos, experientes, mágicos e suficientemente solenes
para domar o tempo, o medo, e a arte de alimentar a
Milton Hatoun
• Órfãos do Eldorado,assim como outras obras do autor, expressam o cotidiano da vida na região Amazônica, tão fascinante e tão
misteriosa.
• O personagem principal, Arminto, parece estar sempre no terceiro espaço, vivendo entre a vida burguesa oferecida por sua condição social e a vida ribeirinha, da qual tanto gostava desde criança.
• Nessa mistura de olhares e costumes, a trama apresenta um personagem complexo que nos deixa a impressão de
imcompletude, e de busca da verdadeira identidade.
• Órfãos do Eldorado, apesar das críticas, é uma obra muito rica, tanto cultural quanto estruturalmente, o faz da mesma uma
verdadeira representação da região Amazônica, enquanto
costumes e lendas, e do estilo do próprio autor, que busca sempre expressar as riquezas de sua região de origem.
A voz no texto
• Outro ponto a abordar é sobre a índia, Dinaura, pela
qual o narrador é apaixonado. Ela não tem voz na
narrativa e o que sabemos a seu respeito é que está
entre as órfãs das carmelitas em Vila Bela, que lê
romances e enfeitiça Arminto.
• É a representação de uma personagem absolutamente
excluída na vida real, mas na ficção, o leitor, queria
muito ouvir sua voz. Seria interessante saber o que
pensa, como é seu olhar diante do outro, o civilizado.
• A voz feminina que mais prevalece na novela é da
mulher que criou Arminto, Florita. Mesmo assim uma
voz quase inaudita, mas objetiva e visionária, que tenta,
sem sucesso, advertir Arminto sobre a tendência de
• História é narrada por Arminto Cordovil que, velho e sozinho, às margens do rio Amazonas, relata a um viajante a trajetória de sua própria vida, que começa marcada pela morte: “Até hoje recordo as
palavras que me destruíram: Tua mãe te pariu e morreu”. Criado
pelo pai, que parece lhe culpar pela morte da esposa, ele mais parece um bastardo do que um filho legítimo; é, pois, duplamente órfão. Quando herda as propriedades e a empresa do pai, Amando Cordovil, grande capitalista que fez fortuna durante o Ciclo da
Borracha, Arminto se mostra sem capacidade e sem disposição para administrar a herança, o que o conduz do luxo à pobreza. Seu amor por uma índia-orfã, Dinaura, não só não se concretiza como o faz delirar e aos poucos, o sonho se torna uma espécie de
obsessão: “passava o dia fugindo dessas coisas irreais, absurdas,
mas que pareciam tão vivas que me davam medo”. Arminto, então,
começa a desejar ir para outro lugar, para um Paraíso: “Vou
embora para outra terra, encontrar uma cidade melhor. Para onde olho, qualquer lugar que o olhar alcança, só vejo miséria e ruínas”.