Instituto de Estudos da Linguagem
DANIELLE PATRICIA ALGAVE
Escrita de Caso e a Neurolinguística
Discursiva
Campinas
2016
DANIELLE PATRICIA ALGAVE
Escrita de Caso e a Neurolinguística
Discursiva
Tese de doutorado apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Doutora em Linguística.
Orientadora: Profª Drª Maria Irma Hadler Coudry Coorientadora: Drª Alessandra Caneppele
Este exemplar corresponde à versão final da Tese defendida pela aluna Danielle Patricia Algave
e orientada pela Profa. Dra. Maria Irma Hadler Coudry
Campinas
2016
BANCA EXAMINADORA:
Maria Irma Hadler Coudry Sonia Maria Sellin Bordin
Andrea Carvalho Bezerra de Menezes Masagão Vera Lúcia Colucci
Silvana Perottino
Raquel Salek Fiad
Michelli Alessandra Silva Elenir Fedosse
IEL/UNICAMP 2016
Ata da defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no processo de vida acadêmica do aluno.
AGRADECIMENTOS
Agradeço a Deus pela sua constante presença de amor e aos meus queridos mentores que me mantiveram perseverante e dedicada no cumprimento de meus compromissos.
À Profª Drª Maria Irma Hadler Coudry (Maza) e à Drª Alessandra Caneppele por terem me conduzido ao longo de todo o percurso. Agradeço pela paciência e incentivo oferecido, e por terem dedicado tantas horas de leituras e releituras a fim de compartilharem seus ensinamentos tão valiosos. Gratidão pelo aprendizado, pelas reflexões e pela contribuição em minha formação profissional, acadêmica e pessoal.
À Profª Drª Sonia Sellin Bordin e à Profª Drª Silvana Perottino que participaram do Exame de Qualificação com sugestões tão preciosas e por terem aceitado compor a banca de Defesa, juntamente com a Profª Drª Vera Lúcia Colucci e a Profª Drª Andrea Menezes Masagão, a quem também devo minha gratidão pelas contribuições.
À Profª Drª Raquel Salek Fiad e as queridas Drª Michelli Alessandra e Profª Drª Elenir Fedosse pela disponibilidade em participarem como membros suplentes da banca de Defesa.
Aos demais docentes e aos colegas do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL/UNICAMP) que também participaram da minha formação acadêmica, compartilhando novos conhecimentos e me fazendo refletir sobre questões que vão além dos muros da Universidade.
À Vera e seus familiares, e aos demais sujeitos afásicos que acompanhei ao longo do doutorado na busca por compreender mais sobre o sujeito e sua relação com a afasia.
dia na luta por (re)descobrir-se.
Ao CNPq pelo apoio financeiro.
Aos amigos (velhos e novos) e familiares que sempre foram grandes companheiros de jornada, colaborando de alguma maneira para o meu crescimento e para a minha descoberta.
Ao meu amado marido Elblins pelas diversas discussões teóricas e filosóficas e por ter me mostrado a importância do “outro” na constituição do “eu”. Gratidão pela atenção dedicada, pela compreensão, pelo carinho e pelo cuidado que vão muito além do período desta tese.
“Escrevo sem pensar, tudo o que o meu inconsciente grita. Penso depois: não só para corrigir, mas para justificar o que escrevi”.
Mário de Andrade
“Escrever é pois “mostrar-se”, dar-se a ver, fazer aparecer o rosto próprio junto ao outro”
RESUMO
Na presente tese analiso, através de uma bibliografia diversificada, diferentes formas de escrita de casos clínicos, a fim de investigar como vem sendo constituída a Escrita de Caso na Neurolinguística Discursiva (ND) e como se daria a relação entre a linguagem oral e escrita como um dos processos alternativos de significação possíveis ao funcionamento linguístico e de subjetivação nas afasias. Assumo uma posição crítica buscando fortalecer os alicerces da ND diante do desconforto e da insatisfação quanto à visão de linguagem e cérebro da Neurologia Tradicional. Para isso, parto da tese de que a teoria pré-psicanalítica freudiana é fundamental não apenas para estabelecer tal crítica, mas também para o que a ND poderia conceber como a função da escrita e, particularmente, da Escrita de Caso, ao utilizar da inspiração da maneira de escrever de Freud em seus casos clínicos. Movida pelo interesse em definir e discernir o que vem a ser a Escrita de Caso, me comprometo a escrever o caso clínico de Vera, acompanhando-a em seu movimento de (re)incursão na língua pela escrita, a partir da minha posição de terapeuta e investigadora. Saliento o papel organizador, de constituição do sujeito e de invenção e deslocamento que a escrita pode desempenhar naquele que escreve, bem como a constante presença do escritor, através de marcas e indícios, que busca em um leitor o reconhecimento de sua própria prática clínica.
ABSTRACT
In this work, supported by a diverse literature, I analyze different ways of writing clinical cases in order to investigate how has been established the writing of clinical cases in Discursive Neurolinguistics (DN). Furthermore, I bring a reflection about how could be the relationship between oral and written language, considering the latter as an alternative process of signification possible for the linguistic requirements and subjectivity in aphasia. I take a critical position searching for strengthen the foundations of DN that is founded on discomfort and dissatisfaction about the vision of language and brain by Traditional Neurology. Therefore, I start from the idea that Freud’s pre-psychoanalytic theory is essential to establish what could be conceived as a function of writing by DN and particularly the Writing Case, using Freud as an inspiration to write clinical cases. I was taken by the interest in defining and discerning about what is the Writing Case. For this, I propose to write Vera’s clinical case, as a therapist and researcher, accompanying the patient in her return to language through the writing. I emphasize the language in its organizer role, in its constitutive of the subject role and in its invention one. Writing can promote the displacement of the writer's position and shows the constant presence of the writer, through marks and signs. This one is always looking for a reader that can recognize his clinical practice.
Lista de Figuras
Tipo Descrição Página
Figura 1 Primeira página do diário de Vera para seu primogênito. Escrita em 1974 36 Figura 2 Página do diário escrita à segunda filha, em 1977 38 Figura 3 Despedida do diário para a filha mais nova, iniciado em 1984. Parte I 40 Figura 4 Despedida do diário para a filha mais nova, iniciado em 1984. Parte II 41 Figura 5 Esquema psicológico da representação de palavra 99
Dados Analisados em Situação Dialógica
Tipo Descrição Página
Dado 1 Apresentando o álbum de fotos (10-10-13) 27 Dado 2 Contando sobre o fim de semana com a família (27-11-13) 29
Dado 3 Reumatismo (17-10-13) 44
Dado 4 Frederico (23-04-14) 45
Dado 5 Enunciados (31-10-14) 47
Dado 6 Contando estórias 1 (14-11-14) 48
Dado 7 Contando estórias 2 – Reflexão epilinguística (14-11-14) 49 Dado 8 Mensagens do Facebook (21-08-15 e 15-01-16) 67
SUMÁRIO
Apresentação
... 14CAPÍTULO I
Caso Clínico
Vera e o valor da escrita na afasia ... 18CAPÍTULO II
Neurolinguística Discursiva e o aparelho da linguagem... 701. A Neurolinguística Discursiva ... 71
1.1. O CCA ... 79
2. A Neurolinguística Discursiva e a interdisciplinaridade ... 80
3. A Neurolinguística Discursiva e a crítica freudiana à teoria das localizações cerebrais ... 83
4. As obras pré-psicanalíticas de Freud e sua importância para a reflexão sobre a linguagem e a função da escrita ... 96
4.1. A Concepção das Afasias (1891) ... 97
4.2. Projeto para uma Psicologia Científica (1895) ... 104
4.3. A linguagem no Projeto ... 108
4.4. A Carta 52 e outros escritos ... 113
4.5. Um caso de cura pelo hipnotismo (1892-1893): um esboço freudiano de escrita de caso... 117
CAPÍTULO III
Escrita de Caso: quantas formas têm?... 120
1. O caso da medicina tradicional e a Escrita de Caso freudiana: dois exemplos limite ... 120
2. Análise e discussão sobre as escritas de caso ... 126
2.1. O caso clínico da Srta. Anna O. (S. Freud) ... 128
2.1.1. Quem foi Anna O. ... 129
2.1.2. Considerações sobre a escrita de Freud ... 132
2.2 O caso clínico de Patricia H (O. Sacks) ... 136
2.2.1. Quem foi Patricia H. ... 137
2.2.2. Considerações sobre a escrita de Sacks ... 139
2.3. Escritas autobiográficas de casos de afasia ... 150
2.3.1. De Profundis - Valsa Lenta (J. Cardoso Pires) ... 156
2.3.1.1. A escrita de um poeta ... 159
2.3.2. A cientista que curou seu próprio cérebro (J. Bolte Taylor) ... 163
2.3.2.1. A escrita de uma neurocientista ... 168
3. Diário de Narciso - Escrita de Caso e Neurolinguística Discursiva ... 172
Considerações Finais ... 182
Apresentação
“Fragmentos de palavras fervilhavam em sua mente, colidindo e bloqueando-se uns aos outros, de modo que, no processo de tentar formular uma ideia, ele esquecia o que queria dizer... Queria anotar alguma coisa que lhe tivesse vindo à mente. Isso era mais fácil do que conversar, pois tinha a chance de ler de novo o que havia escrito”
(LURIA, 2008: 121-122)
O interesse pela relação cérebro-linguagem atingiu seu ápice na segunda metade do século XIX com a emergência de estudos que buscavam localizar a linguagem no tecido cerebral (BOUILLAUD, 1825; LORDAT, 1843; BROCA, 1861; WERNICKE, 1874). Nesse período, uma nova condição patológica advinda de um dano cerebral e conhecida como afasia foi revelada, gerando uma infinidade de pesquisas sobre a organização cerebral e, paralelamente, sobre o funcionamento linguístico (tanto normal quanto patológico). Surgiu nesse momento o campo de estudos da
afasiologia, o qual, ao lado dos estudos neurológicos, traz consigo a indagação sobre o
que acontece ao sujeito privado do funcionamento de sua própria fala e linguagem. O que acontece nessas patologias em que a própria fala cotidiana e rotineira torna-se um problema? O que é que um afásico experimenta diante do seu silêncio (ou quase silêncio), ou ainda com a impossibilidade de quebrá-lo? Essas e outras questões, próprias ao sujeito da linguagem, vieram junto com a atenção aos casos clínicos das lesões cerebrais estudados pela afasiologia.
Tendo como ponto de partida a alta incidência de casos de afasia (LEITE et al, 2011) e o quanto esse território se tornou rico para os estudos da Neurolinguística Discursiva (ND) desde sua inauguração (COUDRY, 1986), busquei produzir um trabalho direcionado aos profissionais tanto na área da saúde quanto da linguística que tenham
interesse no campo da afasiologia e que partilham - ou que manifestem interesse em conhecer - a perspectiva discursivamente orientada.
No entanto, meu objetivo vai mais além do que estudar e relatar o funcionamento linguístico na afasia. Analiso uma bibliografia diversificada e me inspiro nas publicações de autores com os quais dialogamocapítulos com frequência na ND, os quais me conduzem na reflexão de diferentes formas de escrita de casos clínicos, a fim de não somente relatar um caso clínico de afasia, mas também investigar o que poderia ser uma Escrita de Caso na Neurolinguística Discursiva (ND) e, a partir dessa análise, tecer minhas considerações sobre subjetividade, afasia e linguagem (fala, leitura e escrita).
Para a ND, ao colocar no centro de sua teoria e prática terapêuticas o sujeito atuante com, sobre e pela linguagem, permite-se o regaste do sujeito afásico e a compreensão dos fenômenos linguísticos relacionados à sua condição, justamente porque a linguagem analisada em suas diferentes manifestações (oral e escrita) não é dada, fixa e pronta, mas um fenômeno socio-histórico, uma atividade humana tomada como lugar de interação e interlocução de sujeitos, indeterminada, incompleta e passível de (re)interpretação, onde tanto o sujeito quanto ela própria se constituem em um movimento dinâmico (FRANCHI, 1977/1992; COUDRY, 1986).
A tese está organizada em três capítulos. No primeiro deles, parto da clínica fonoaudiológica sob a perspectiva da ND para recontar a história de Vera, um dos sujeitos afásicos que acompanhei no CCA (Centro de Convivência de Afásicos – IEL/Unicamp). Abro a tese com a minha escrita de um caso, declaradamente inspirada no diálogo da Neurolinguística Discursiva com diversos autores, de diferentes áreas, tais como Freud, Luria, Pêcheux, Foucault, Benveniste e Lordat, e suas correspondentes narrativas de casos - diálogo presente desde os primeiros relatos de caso dos estudos discursivos da afasia iniciados por COUDRY (1986). O caso clínico que trago, no entanto, não tem a finalidade de servir de exemplo ou modelo de escrita de caso na ND, mas funcionará como parâmetro pessoal para o qual retornarei ao final da tese, após meu percurso de estudos sobre a diversidade de narrativas dedicadas a episódios patológicos, neurológicos ou não. Nesse capítulo, procuro não somente discutir sobre o funcionamento linguístico da afasia de Vera e a relação dela com a escrita - tomada como ato linguístico (SANTANA, 2002), com função de construção
intermediária (ABAURRE & COUDRY, 2008), organizadora da linguagem e constitutiva do sujeito (FRANCHI, 1977/1992) -, mas também enfatizar a concepção de sujeito e de linguagem que permeiam a prática na ND e que privilegio, atribuindo atenção à interlocução e ao papel do outro como intérprete das manifestações do sujeito afásico e participante das mudanças de posição subjetiva do afásico.
No segundo capítulo, intitulado “Neurolinguística Discursiva e o aparelho da linguagem”, apresento os pressupostos teóricos da relação entre cérebro e linguagem da ND a partir de sua fundamentação nas obras pré-psicanalíticas de Freud. Mas, buscando aprofundar a análise sobre a relação entre a ND e essa base teórica, dedico-me também à apresentação do que foi a escrita de caso nesses primórdios da psicanálise. Descrevendo as bases teóricas da ND e o funcionamento do Centro de Convivência de Afásicos (CCA), interessa-me aqui refletir sobre como o pensamento freudiano que funda a psicanálise auxiliaria na construção também dos pressupostos teóricos e práticos desse outro campo de atuação dentro da clínica das lesões cerebrais (CANEPPELE, 2008). Saliento que esse mergulho teórico é fundamental para apresentar o universo de trabalho no qual essa tese está inscrita.
No terceiro e último capítulo, “Escrita de caso: quantas formas têm?”, me dedico a apresentar e discutir diversos textos que poderíamos classificar como “escritas de caso”: (1) O caso de Anna O., relatado por Sigmund Freud em 1895; (2)
Chamada de volta à vida, capítulo narrado por Oliver Sacks em seu livro ‘O olhar da
mente’, publicado em 2010; (3) De Profundis: Valsa Lenta, auto narrado pelo poeta e escritor português José Cardoso Pires, em 1997; (4) A cientista que curou seu próprio
cérebro1, auto narrado pela neuroanatomista Jill Bolte Tayler e publicado em 2006 e;
(5) Diário de Narciso: discurso e afasia, escrito pela linguista Maria Irma Hadler Coudry em 1986, e que inaugura a Escrita de caso no campo da ND propriamente.
A partir da análise desse pequeno apanhado de textos, pretendo trazer um arcabouço teórico que permita duas reflexões distintas, mas relacionadas. Por um lado, busco elaborar a discussão sobre a função organizadora e inventiva da escrita para um afásico - conforme alguns autores da ND bem chamam a atenção em seus trabalhos (FLOSI, 2003; MURAI, 2005). Interessa-nos avaliarnas afasias a relação entre
1 Do original My stroke of insight: a brain scientist's personal jorney. Estados Unidos, Hodder &
a fala e a escrita, mediadas pelo outro e como lugar em que acontecem processos alternativos de significação, marcados por processos de subjetivação. Por outro lado, abro um campo de reflexões que nos conduz à discussão sobre o valor e a função da Escrita de Caso, em especial na ND, para a construção da teoria e do saber daquele que a pratica.
CAPÍTULO I
Caso Clínico
Vera e o valor da escrita na afasia
“O AVC é aquele que seca a fonte de onde está o pensamento ou perturba o rio por onde ele escoa, e assim é difícil, se não impossível, explicar aos outros como se dissolve a memória, se suspende a fala, se embota a sensibilidade, se contém o gesto (...) Então, comecei a escrever”.
Prefácio de João Lobo Antunes (Cardoso Pires, 1997)
Na ocasião de seu episódio neurológico, em 2012, Vera2 tinha 59 anos de idade. Nascida em Campinas em uma família de dez irmãos, casou-se aos 18 e se mudou para Valinhos, onde ainda reside.
Mãe de três filhos (duas mulheres e um homem), avó de seis netos pequenos, irmã e esposa, Vera sentia prazer em participar de comemorações e de organizar eventos familiares, embora se revelasse como uma pessoa introspectiva e caseira. Adorava passar horas na cozinha experimentando receitas, tricotava peças novas em seu sofá e frequentava a missa semanalmente. Detinha uma vida regrada e que, segundo ela, a mantinha feliz e satisfeita, pois sua família era um sonho de infância.
Tendo completado o Ensino Médio, tinha por hábito diário a leitura de jornais, revistas, receitas e livros. Seu grande sonho, se não fosse a dedicação exclusiva ao lar, era se tornar professora. A escrita também sempre se fez presente em seu
cotidiano. Tanto que seus filhos sabiam que poderiam contar com sua ajuda para escrever as melhores redações do colégio.
Não apresentava quaisquer problemas de saúde e se envolvia sem problemas aparentes em sua rotina diária, até que numa quinta-feira, enquanto tomava banho, sentiu uma dor de cabeça aguda e pontual. Espantou-se com o fato, pois nunca sequer havia experimentado qualquer dor de cabeça. Dirigiu-se imediatamente com o marido para o hospital mais próximo, onde foi medicada com morfina intravenosa, voltando para casa em seguida. Não tendo realizado nenhum exame neurológico, ficaram sem saber o motivo de tamanha dor.
Logo na segunda-feira que se seguiu, ás 6h da manhã, quando se levantou para mais um dia de afazeres, ela desfaleceu. Socorrida pela nora enfermeira, retornaram ao hospital e receberam o diagnóstico de um AVC hemorrágico. De acordo com a tomografia computadorizada, tratava-se de uma lesão parenquimatosa hipodensa3 na região temporal esquerda e lesões discretas na região parietal e frontal esquerda.
Vera não relata detalhes do que experimentou no momento do AVC, pois não detém a recordação de nada que tenha acontecido dias antes e dias depois do episódio. São sempre seus filhos que recordam os fatos daqueles dias. Em certa ocasião, ela revelou a mim que, por longas semanas, sua mente se tornou um grande vazio e nem mesmo conseguia sonhar. Sua experiência era muito semelhante àquela recontada por Luria (2008: 30-31), em O homem com um mundo estilhaçado: “Eu
apenas dormia, acordava, mas simplesmente não conseguia pensar (...) Parecia que eu era um recém-nascido que só olhava, ouvia, observava, repetia, mas ainda não tinha mente própria”.
Vera mal tinha forças para buscar por uma maneira de se comunicar. Experimentava de uma sonolência profunda que, por sinal, é a mesma relatada por muitos afásicos - presente, inclusive, na história da neuroanatomista Jill B. Taylor que conheceremos mais adiante - e que revela a necessidade do cérebro se recuperar e reestabelecer suas conexões mais primordiais.
3 Uma lesão parenquimatosa hipodensa se refere a uma lesão ocasionada no parênquima cerebral -
parte essencial especializada de um tecido que forma a parte funcional de alguns órgãos. No cérebro, é encontrado nos neurônios - devido à hemorragia.
Depois de dois meses transcorridos em meio a um sofrimento persistente, um amigo da família e neurologista identificou a necessidade de colocação de uma válvula com o objetivo de drenar o excesso de líquido para fora do cérebro, devido à hidrocefalia que se formara - um aumento anormal do fluído cefalorraquidiano dentro da cavidade craniana, acompanhado de expansão dos ventrículos cerebrais e alargamento ósseo, que poderia resultar em comprometimentos neurológicos mais severos. Após a instalação da válvula, Vera começou a apresentar sinais de melhora mais aparentes e relata que, numa dada noite, voltou a sonhar e foi como se tivesse recuperado um pouco de si. E, nesse sonho estava justamente o seu pai; uma figura afetiva da qual, ainda hoje, sente muita saudade e não deixa de recordá-lo em nenhum de nossos encontros.
Durante esse período, Vera provou da dissolução de suas funções cerebrais, conforme se referiu Jackson (1915; 1958), pois a lesão perturbou todo o funcionamento do sistema cerebral, obrigando-a a recuar para padrões inferiores. Apresentou hipotonia em todo hemicorpo direito, inclusive em face, e sua mobilidade se tornou bastante reduzida. Atividades básicas da vida diária passaram a ser laboriosas e quase impossíveis de serem realizadas sem a ajuda de alguém. Ela não conseguia mais se alimentar - estava disfágica -, vestir-se, fazer a higiene pessoal, controlar os esfíncteres e andar, havendo a necessidade de adaptações para as refeições, uso de fraldas e cadeira de rodas.
Apesar de ter sido um processo profundamente doloroso tanto para a família quanto para ela própria, Vera aprendeu a aceitar e superar em um pequeno período de tempo as situações trazidas pelo AVC. Suas melhoras cognitivas (memória, raciocínio, linguagem) começaram a se manifestar avidamente após seis meses do episódio e muitas sessões com fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais4.
4Ela chegou, até mesmo, a realizar 10 sessões com a aplicação de Estimulação Magnética Transcraniana
(TMS) na USP, um tratamento não medicamentoso no qual um aparelho estimulador cria um campo magnético alternado de alta intensidade que é aplicado sobre o crânio através de uma bobina de estimulação. Com ele, Vera conquistou uma grande melhora na mobilidade da mão direita, conseguindo voltar a fazer tricô, e teve a sensibilidade da hemiface direita recuperada.
Nessa época, tendo transcorrido seis meses do episódio neurológico, em março de 2013, começou a frequentar as sessões em grupo e individuais no CCA, às sextas-feiras pela manhã. Relacionou-se com outros afásicos, criou vínculos, trabalhou algumas dificuldades linguísticas, aprendeu sobre seu quadro clínico, compartilhou angústias, tristezas e pequenas conquistas. Sempre tímida e reservada, mas determinada em superar suas dificuldades cotidianas pós-AVC, sobretudo relacionadas à fala e à escrita.
Nesse mesmo período, eu também participava do CCA como estagiária graduanda em Fonoaudiologia, mas já detinha meu diploma de Linguística e havia concluído meu mestrado no Departamento de Linguística da Unicamp (2010-2012) sobre as alterações de linguagem nas epilepsias na perspectiva da ND. Após minha formação como fonoaudióloga ser completada, mantive as sessões individuais com Vera, as quais se prolongaram pelos anos de 2013 e 2014 devido meu interesse em estudar seu caso no doutorado. Além desses encontros semanais videogravados, também me encontrei por algumas sessões esporádicas com Vera e a família em 2015 e 2016, buscando me manter em contato com ela e acompanhar a evolução de seu quadro.
Posso dizer que o motivo que me conduziu na escolha da escrita desse caso, em detrimento de outros que acompanhei também no CCA ou na clínica fonoaudiológica, se justifica pela minha necessidade em investigar e compreender as afasias, enquanto pesquisadora e terapeuta, diante de um sujeito afásico que mantinha uma relação tão próxima da escrita já há tantos anos. Não só as dificuldades linguísticas trazidas por sua afasia me tomaram a atenção, mas as mudanças na subjetividade de Vera: ela não se reconhecia mais como sujeito, se estranhava, e se tratava em terceira pessoa. Em contrapartida, Vera também se identificou comigo como sua terapeuta, provavelmente por enxergar em mim características muito semelhantes às de suas filhas, como idade, traços físicos e de personalidade.
Diante do que eu observava, me questionava, sobre como ela teria conseguido superar seu estranhamento enquanto sujeito - agora particionado em S1 (aquele que se reconhece como antes ao AVC) e S2 (aquele sujeito novo, que não se reconhece, estrangeiro em relação a si e à língua, consequentemente), conforme ressalta COUDRY (2002) - e se reconstituir pela linguagem, sobretudo usando a escrita
como ferramenta. De que forma eu, como terapeuta, poderia auxiliá-la nessa redescoberta em seus diferentes estados de afasia? Como ela aprendeu a lidar e conviver com aquilo que fora perdido ou fragmentado? E, mais que isso, qual a função que sua própria escrita revela para a constituição do sujeito e a reestruturação da linguagem após o AVC?
Logo após o episódio neurológico, no período em que Vera descreveu sua mente como um imenso vazio, ela não conseguia sequer compreender o que lhe era dito, tampouco falar. Com o passar dos dias, graças ao fenômeno da neuroplasticidade e a inserção da paciente em terapias de reabilitação, ela experimentou alguns estados de afasia conforme foi se recuperando, até atingir uma estabilização em seu quadro de alterações linguísticas.
De início, pude identificar que se tratava tanto de uma afasia sensorial quanto de uma afasia motora, nos termos de Luria (1977), devido à extensão da lesão e às dificuldades linguísticas observadas em avaliação e acompanhamento.
Foi Wernicke (1874) quem postulou que no terço posterior do giro temporal superior esquerdo estão localizadas as imagens sensoriais das palavras e, uma lesão que incida nessa área, tem como sintoma básico a dificuldade de compreensão, correspondendo à afasia sensorial. Muitos estudos especularam sobre o motivo de tal prejuízo, sugerindo hipóteses que alegaram que na afasia sensorial há um desarranjo parcial da audição e uma redução das capacidades mentais. No entanto, já na monografia de Wernicke, encontramos esclarecimentos sobre tais hipóteses não serem plausíveis, uma vez que não há evidências de alterações auditivas nem declínio cognitivo na afasia.
Nos anos 30, Jakobson (JAKOBSON e HALLE, 1956) e Troubetzkoy (1939) descobriram que um sistema auditivo preservado não é o suficiente para garantir que uma pessoa compreenda o que está sendo dito e que o discurso é baseado em um código fonológico diferente para cada língua. Logo, para compreender o que o outro fala, temos que discriminar traços básicos desse código a fim de qualificar os sons de acordo com o sistema fonêmico usado em nossa língua. Tal mecanismo cerebral está intimamente associado à área de Wernicke, pertencente à área secundária da estrutura cortical acústica. Por isso, lesões nessa região não interferem na capacidade
da audição, mas resultam numa inabilidade para discriminar traços significantes (traços fonêmicos).
O primeiro resultado desse desarranjo, conforme Luria (1977), é o distúrbio da diferenciação fonêmica e a inabilidade para compreender o significado das palavras, tornando as irreconhecíveis. Com o intuito de tornar mais didática essa explicação, o próprio Wernicke, em seu trabalho, ressalta que um afásico sensorial está na mesma situação que um indivíduo diante de uma língua estrangeira que não domina. E, nesses casos, como sintomas associados ao primeiro, surgem também a dificuldade para encontrar as palavras, desordem de escrita e severo prejuízo na leitura.
Vera compreendia apenas algumas ordens simples e se baseava nos gestos e expressões faciais de seus interlocutores: processos não verbais que também são cruciais para a produção e interpretação de sentido, conforme menciona o linguista francês Benveniste (1969: 285), “Todos os sistemas de sinais rudimentares ou
complexos acompanham a subjetividade pela linguagem”. Entretanto, em poucos
meses - antes mesmo de frequentar o CCA -, sua compreensão foi se ampliando e Vera retornou a reconhecer e discriminar os traços fonológicos de sua língua. Começou a apresentar dificuldades na compreensão de ironia e provérbios, que poderiam ser resultantes de uma afasia semântica, a qual também não persistiu por muito tempo. Nos termos lurianos, esse tipo de afasia tem uma natureza complexa, pois envolve uma palavra em meio a uma rede semântica de designações inter-relacionadas (KAGAN e SALING, 1997).
No caso da ironia, ou das piadas, Coudry e Possenti (1993) discutem que há muitos elementos envolvidos para sua interpretação de forma que alguns, mais sutis, podem escapar ao afásico por demandarem um domínio linguístico e discursivo mais apurado. Nesses casos, aciona-se as ambiguidades lexicais e estruturais, a segmentação da cadeia sonora, põem-se em jogo uso e menção, infere-se, pressupõe, considera-se conhecimento prévio de mundo - como questões culturais e ideológicas - e leis discursivas.
Para Vera, esse estado de afasia não foi duradouro. Na verdade, era quase imperceptível. Apenas em atividades direcionadas em que piadas e provérbios eram trabalhados foi possível notar a demanda por explicações mais minuciosas de seu
interlocutor para compreendê-los. Depois de algumas tentativas, o riso tardio e a expressão de quem descobriu algo novo apareciam como resultado do sucesso.
Apesar das questões de compreensão, o que realmente chamava a atenção no caso de Vera foram as dificuldades na produção da fala. Essas, sim, persistiram mesmo em nossos últimos atendimentos fonoaudiológicos. Se antes sua fala era natural, ela percebeu que as palavras já não estavam mais à sua disposição como antes. Sabia o que queria dizer ao seu interlocutor, mas os gestos articulatórios lhe faziam falta ou falhavam, ocasionando perceptível sofrimento.
A afasia motora foi identificada topograficamente por uma lesão na parte posterior da terceira circunvolução frontal do hemisfério esquerdo, por Broca, em 1861. De acordo com Luria (1977; KAGAN e SALING, 1997), a expressão motora requer pelo menos dois fatores: o primeiro proporciona um esquema cinestésico5 para a articulação e está relacionado com a área sensório motora do cérebro (principalmente giro pós-central), enquanto o segundo forma a base cortical do discurso fluente e requer a atividade de partes mais inferiores da área pré-motora do hemisfério esquerdo. Assim, dois tipos diferentes de afasia podem ser descritos: a afasia motora aferente (AMA) com lesões no opérculo rolândico6, e a afasia motora eferente (AME), ou cinética, que é aquela conhecida como afasia de Broca, stricto sensu.
No caso de Vera, trata-se de uma manifestação característica da AMA. A complexa combinação de delicados movimentos de língua, lábios e laringe requer um direcionamento preciso do nosso cérebro que, nesse caso, não é possível pela presença de uma apraxia: impossibilidade em executar os movimentos de maneira coordenada. É difícil para o afásico encontrar a posição e o movimento para articular os sons e, mesmo com o auxílio de prompting linguístico, ele não produz a palavra.
Há um desarranjo nas unidades da fala e perde-se a sua distinção fonêmica, sendo difícil para afásicos com AMA discriminar entre unidades opostas e selecionar a mais apropriada dentre as alternativas similares (exemplo: palatolinguais /d/, /t/, /n/ ou labiais /b/, /p/, /m/). A discriminação acústica de cada um desses sons está preservada, mas sua produção está alterada. Como consequência, podem ocorrer
5 Sistema que permite a percepção dos movimentos musculares, peso e posição dos membros.
6 Reúne as circunvoluções frontal e parietal ascendente, é parte do giro pós-central e envia ordem para
parafasias fonológicas (na fala) e paragrafias (na escrita), pois as dificuldades presenciadas na fala são semelhantes às da escrita, embora possam se manifestar em graus diferentes.
Do ponto de vista freudiano (FREUD, 1891), podemos ainda dizer que a dificuldade de Vera se caracteriza como uma afasia verbal - que incide mais sobre a fala do que sobre a escrita/leitura -, pois a perturbação está nas relações existentes nos elementos da representação de palavra, isto é, no nível do sistema linguístico - sobretudo no nível fonético/fonológico e sintático. Tal afasia é de natureza motora prejudicando, assim, a transmissão de estímulos que se conectam com os músculos da linguagem (FREUD, 1891). Portanto, como incide no aspecto motor, rompe o vínculo entre o sonoro e motor, bem como a relação de concomitância entre eles, o que torna morosa a produção verbal, conforme analisam Coudry e Bordin (2012). Conforme argumentam as autoras, ancoradas em Jakobson (1969), tal condição modifica a relação entre o automático e o voluntário, seja para produzir os sons articulados da língua para compor as palavras, seja para combinar as palavras com outras para formar unidades de sentido mais amplas - respectivamente os eixos sintagmático e paradigmático, nos termos de Jakobson (1969).
Enquanto interagíamos, ao longo de nossos encontros, ela sabia exatamente o que queria dizer. No entanto, pelo efeito da apraxia, mesmo diante de atividades contextualizadas e situadas pragmaticamente, ela não conseguia produzir qualquer elemento acústico da palavra, dificultando assim o seu querer-dizer (no sentido bakhtiniano). Lembro-me que, na maioria das situações, Vera movimentava a boca incessantemente, mas com calma, sem produzir nenhum som, na tentativa de encontrar o ponto articulatório adequado para emitir uma palavra. Ao perceber que não seria capaz, olhava para meu rosto - enquanto sua interlocutora e intérprete de suas manifestações linguísticas - aguardando que eu fizesse o movimento para que ela, então, pudesse copiá-lo. E, dessa forma, numa espécie de imitação, produzia a palavra simultaneamente a mim. Embora apresentasse, ainda assim, uma imprecisão articulatória significativa e persistente.
Seu olhar, sempre expressivo e atento, demonstrava a intencionalidade de Vera, como sujeito, em realizar a atividade de interlocução e se fazer entender. E, especificamente nesse caso, meu objetivo, como terapeuta, era auxiliá-la a encontrar a
coordenação de movimentos para produzir as unidades de articulação que buscava. Era na minha fala que ela se apoiava na busca por produzir a dela, condição especular que o afásico experimenta, como mostra Coudry (1986).
Vera, apesar de apresentar notável dificuldade na articulação das palavras, ainda conseguia dizer os nomes de seus familiares. Apenas algumas palavras isoladas eram produzidas espontaneamente em seu discurso e, por questões afetivas, dizia o nome de suas filhas e o apelido do filho que conseguia dizer (“chuchu”). Além destes, ela conseguia demarcar sua identidade através da linguagem falando o seu próprio nome, pronunciando lentamente cada sílaba na tentativa de evitar imprecisões em sua pronúncia e, consequentemente, se firmar como sujeito.
Com o tempo, apesar da distorção de alguns fonemas, começou a falar também o nome do marido, da irmã e dos netos, mas não era toda vez que obtinha êxito. Nesses momentos, ela persistia incessantemente até conseguir produzir tais nomes com a menor imprecisão possível. Além destes, advérbios de afirmação e negação (“sim” e “não”), pronomes (“eu”, “ela”), expressões chamativas de atenção com o imperativo do verbo olhar (“olha!”) e expressões cotidianas (“bom dia”, “boa tarde”) eram as únicas palavras que não apresentava dificuldades em dizer. Meses depois de frequentar o CCA, para se fazer entender, utilizava algumas estereotipias na fala como “assim, assim” e “sim, sim, sim”, quando outras palavras não lhe vinham à boca pela efeito da apraxia.
Em uma de nossas sessões individuais, ainda no ano de 2013, Vera trouxe um álbum de fotografias para me apresentar os membros mais próximos de sua família e os terapeutas de diferentes especialidades que participaram de sua reabilitação. Nessa ocasião, tivemos a seguinte interação em que é possível identificar os elementos mais frequentes em sua fala, bem como as principais dificuldades decorrentes sobretudo da apraxia verbal. Trago estes dados com o intuito de revelar um pouco sobre como é a relação de Vera com a afasia e a linguagem e seu empenho em enfrentá-la por meio dos processos alternativos de significação (COUDRY, 1986), tais como a escrita, a gestualidade, a prosódia e as expressões faciais.
DADO 1: Apresentando o álbum de fotos (10-10-13)
Nº Sigla do Locutor
Transcrição Observação sobre o enunciado verbal
Observação sobre o enunciado não-verbal
1 Vera Olha! Assim, olha! Chama minha atenção e
aponta para a foto
2 Idp Quem é?
3 Vera Ma-ra-na Fala o nome de sua filha enquanto escreve “Alzira” - o nome de sua
mãe
4 Idp Alzira. Ah, essa é a sua mãe. Leio o nome que Vera escreveu
5 Vera É. Acena afirmativamente
e sorri 6 Idp Essa daqui é sua mãe, essa
aqui é a senhora, e quem é essa daqui?
Aponto para a foto
7 Vera Or-ne-la. Fala enquanto escreve 8 Idp E quem é Ornela?
É sua irmã?
9 Vera É. Sim, sim, sim. Acena afirmativamente
10 Idp E essas são as filhas da senhora?
Aponto para as moças da foto 11 Vera É. Ma-ra-na Escreve o nome de uma
das filhas 12 Idp Ah, é essa moça que eu
sempre converso por telefone Risos
13 Vera É. Olha... olha, assim, olha! Olha
Aponta novamente para mais fotos 14 Idp Sua netinha?
15 Vera É. Olha! Sorri e busca meu olhar
16 Idp Filha da Marana. Como é o nome da filha dela?
17 Vera É...Ma...ma... Fala enquanto escreve
Faz gesto com mãos de que está mais ou menos
correta a palavra 18 Idp Martina Digo porque já conheço
o nome de sua neta 19 Vera [na Fala juntamente comigo
o final do nome.
20 Idp E essas também são netas ou não?
Aponto para mais algumas crianças na
foto
21 Vera Ela. Ela. Aponta para duas
meninas 22 Idp Mais duas netinhas.
23 Vera É.
Assim, assim, assim? Tom de interrogação
Me oferece o achocolatado de caixinha que está tomando durante a
sessão
24 Idp Não, obrigada. Pode tomar. Risos
Banco de Dados em Neurolinguística - BDN - CNPq: 307227/2009-0
Apesar de ser laborioso para Vera dar início à fala, muito embora queira realizá-la, ela não apresenta dificuldade na iniciativa verbal. Inclusive, é ela que inicia e define os temas da maior parte de nossos diálogos. No entanto, como sua apraxia é severa, não permitindo que ela encontre a articulação precisa das palavras, Vera sente a necessidade de se apoiar na escrita para iniciar ou manter a interação (assim como no Dado 1, no qual percebemos que ela sempre recorre a escrita quando tem algo a dizer, mas não encontra o movimento articulatório). Ela somente persiste no discurso oral quando pode se apoiar nos demais elementos da oralidade, como gestos e expressões faciais, pois sabe que estes a auxiliarão na compreensão do seu interlocutor [conforme é possível verificar no final do Dado 1]. No entanto, é justamente nesses momentos em que as estereotipias verbais de Vera se manifestam
com maior frequência. O Dado 2 se mostra bastante produtivo para verificarmos a ocorrência desse fenômeno.
DADO 2: Contanto sobre o fim de semana com a família (27-11-13)
Nº Sigla do Locutor
Transcrição Observação sobre o enunciado verbal
Observação sobre o enunciado não-verbal 1 Idp E onde vocês foram no final de
semana?
2 Vera Assim, assim, olha! Em silêncio, escreve “shopping Valinhos” 3 Idp Foram no shopping em
Valinhos. E Valinhos só tem um shopping?
4 Vera Sim. Acena afirmativamente
5 Idp Eu também já fui naquele shopping.
6 Vera É? Tom de surpresa Risos
7 Idp Fui umas duas vezes.
8 Vera Sim? Sim?
Sim, sim, ó?
Tom de interrogação Aponta para mim
9 Idp Se eu moro em Valinhos?
10 Vera Não. Olha! Assim, sim. Começa a escrever 11 Idp Se eu conheço o shopping de
Valinhos?
Interpelo antes de ela começar a escrever
12 Vera. É. É.
13 Idp Conheço. Mas esse ano ainda não fui nenhuma vez
14 Vera É? Sim...sim Põe a mão no queixo,
pensativa 15 Idp Gosta de ir lá?
16 Vera Olha...olha. Sim, sim Acena afirmativamente
17 Idp Vai toda semana?
menos” 19 Idp E vai lá mais pra comprar ou
pra comer?
20 Vera É, sim, sim, sim... sim, sim, sim Faz gesto de quem está comendo 21 Idp E onde a senhora mais gosta
de comer lá?
22 Vera Olha... É... Tom pensativo
Começa a folhear seu caderno para recuperar
o nome do local. Mas não encontra 23 Idp Hum... Spoleto?
24 Vera É. É.
Sorrindo, confirma com empolgação com um
aceno de cabeça e fazendo sinal de positivo com o polegar
25 Idp Nossa, foi um chute e tanto! Risos
Banco de Dados em Neurolinguística - BDN - CNPq: 307227/2009-0
Por meio das estereotipias “sim, sim, sim” e “assim, assim” - bastante frequentes em todas as interações de Vera e utilizadas em diferentes contextos -, ela se faz atuante nos vários turnos de fala e, inclusive, inicia alguns turnos demonstrando a iniciativa discursiva já mencionada. Quando insatisfeita por não conseguir dizer aquilo que gostaria, e quando não opta pela escrita – movimento que acontece com maior frequência -, Vera lança mão de outros processos alternativos de significação (COUDRY, 1986) para interpretar e produzir sentido, marcando seus turnos pela gestualidade, expressões faciais e pela prosódia, como frequentemente fazem a maioria dos afásicos de expressão7.
Nesses momentos da interação, a construção do sentido está bastante fundamentada no engajamento do interlocutor no desenvolvimento do tópico discursivo. É o interlocutor que permite ao afásico a condição de recuperar e
7 Conforme demonstrado nos trabalhos realizados na Neurolinguística Discursiva, como os de FEDOSSE
determinar os traços necessários à expressão verbal pretendida, pois é ele que interpreta as manifestações do sujeito afásico e o auxilia a alcançar o seu querer dizer (BAKHTIN, 1997), assim como também é na fala dele que o afásico se apoia para construir a sua, como mostra Coudry (1986).
No Dado 2, pode-se perceber como a minha fala - constituindo-se como “a fala do outro”, a fala do sujeito não afásico - é necessária para a construção do sentido dos enunciados de Vera e permite a ela desenvolver sua conversa sobre o passeio no shopping de Valinhos. Ela se apoia na minha compreensão e no meu direcionamento para produzir seus enunciados e estes, por sua vez, surgem com muito esforço e mediante todos os processos alternativos de significação dos quais ela lança mão.
Nesse ponto, convém recordar o que Benveniste (1989) postula sobre a enunciação e que é mencionado por Fedosse (2000) nos estudos da ND. Na enunciação, aparecem envolvidos três elementos: o próprio ato de enunciar, as situações em que se realizam tais enunciados e os instrumentos para sua realização. No caso de uma dessas condições não se cumprir, o processo enunciativo se encontrará prejudicado.
O que se observa no caso Vera é que o “ato de enunciar”, apesar de estar alterado, ainda assim se cumpre, pois ela se introduz o tempo todo como falante, revelando a subjetividade da e na linguagem, dada a “situação de enunciação” - no caso do Dado 2, o questionamento e as informações sobre o passeio ao shopping. O que falha, porém, são os instrumentos da língua, ou seja, o emprego combinado dos elementos fonológicos da língua, que ao lado de outros sintático-semânticos, constituem-se parte da sistematização da língua.
Nesse sentido, portanto, a linguagem de Vera e de outros tantos afásicos se torna mais indeterminada (NOVAES-PINTO, 1999) por dispor parcialmente dos recursos da língua. O que acontece na situação enunciativo-discursiva de Vera, geralmente, é a ocorrência de estereotipias (“sim, sim, sim”) de elementos prosódicos que se apresentam insuficientes para que o sentido de sua produção oral seja determinado. Talvez, por esse motivo, na maioria das situações discursivas ela lance mão da escrita -outro recurso verbal que permite a ela se sentir mais confortável na interação, do qual falaremos com mais detalhes adiante. Há referências sobre a ocorrência de estereotipias (ou automatismos) desde os estudos de Broca e Jackson
que, apesar de defenderem representações diferentes de funcionamento cerebral, definiam tal fenômeno como a repetição da produção de um monossílabo no lugar de outras palavras reconhecidas na língua (VISCARDI, 2010). Estudos mais contemporâneos (BLANKEN, 1991; CODE, 1994 apud VISCARDI, 2010) denotam às estereotipias a característica de serem produções continuadas, repetitivas e involuntárias de sílabas, palavras ou enunciados, sendo praticamente as únicas acessíveis ao sujeito afásico nas interações. Também a prosódia é característica da produção desses segmentos, pois, na tentativa de se fazer compreender, o afásico busca salientar mais o tom nas palavras. Nesse caso, a prosódia não se presta a organizar a fala do afásico, mas a aferir a intenção do sujeito que fala.
A presença da estereotipia verbal na afasia permite que os afásicos se mantenham atuantes na interação, e se constituam como sujeito na e pela linguagem nesse momento. Este fenômeno, ao contrário de ser descartado ou minimizado, deve ser encarado como ocorrência importante no desenvolvimento dos turnos discursivos e tornam possíveis as interações entre afásicos e não afásicos. Lebrun (1986: 9) já afirmava que “Se, ao contrário, ele sabe que é monofásico, mas prefere usar sua
estereotipia ao invés de permanecer em silêncio, pode haver aí certo grau de crueldade requerer que a suprima, ao menos que alguém possa imediatamente ensiná-lo a pronunciar mais palavras que signifiquem”.
Outra alteração linguística importante e perceptível na fala de Vera diz respeito à prosódia, marcada por pausas e hesitações, as quais, segundo Nascimento e Chacon (2006), no caso dos afásicos funcionam como marcas de momentos de tensão entre elementos linguístico-discursivos. Comumente, a prosódia se constitui como um elemento de organização discursiva, contribuindo para o processo de construção de significados. É, por meio dela, que os interlocutores podem predizer o que será dito a partir do já dito e identificar atitudes, intenções e emoções. Assim como na música, podemos dizer que a fala apresenta melodia (entoação, tons) e harmonia (acento e ritmo).
No âmbito da função demarcativa da prosódia, podemos apontar o papel da pausa - silenciosa ou preenchida - para assinalar uma fronteira prosódica. As pausas, segundo Chacon e Schulz (2000), são aqui tomadas como elementos que contribuem decisivamente para a organização e construção da significação, trazendo
marcas de subjetividade. Balieiro (2002), ao analisar as falas de um diálogo com um sujeito afásico, concluiu que a prosódia é utilizada pelo sujeito cérebro-lesado como um dos processos de construção dos sentidos. Segundo o autor, a análise desses processos pode ser um instrumento valioso para a obtenção de entendimento sobre o fenômeno afásico.
O que observamos no caso de Vera é que sua fala é sempre demarcada pela entonação, sobretudo quando há a produção das estereotipias verbais [conforme Dado 2]. Estas surgem em oposição ao silêncio e reforçamos aqui o que já dissemos sobre a entonação orientar o significado do querer-dizer (BAKHTIN, 1997) do afásico para o interlocutor (VISCARDI, 2010) e por isso Vera enfatiza tanto o uso desse recurso nas situações enunciativas.
Pela dificuldade em encontrar os movimentos articulatórios adequados para a produção das palavras, a fala de Vera é marcada por frequentes momentos de pausas e hesitações. Momentos estes em que ela privilegia a escrita como lugar estruturante para o seu dizer, evitando que emerja uma produção maior de estereotipias que comprometa a compreensão de seu interlocutor.
Vera encontrou na escrita uma forma de produzir significação. O fato de que, mesmo em condições adversas, ela tenha conseguido se reconstituir como boa leitora - pois, mesmo após a afasia, não perdeu o hábito de ler e comentar fatos e eventos lidos em jornais, revistas e livros - e continuar a escrever, apesar de ter uma escrita afásica como bem veremos, nos revela o grande valor afetivo que essa prática representa para ela.
Antes da afasia, tanto a leitura quanto a escrita eram atividades diárias e prazerosas que não se constituíam apenas como um afazer cotidiano, mas como momentos nos quais Vera podia se dedicar a si mesma e as suas vontades. Suas próprias filhas relatam que Vera não passava um dia sequer sem escrever. Era uma atividade que desempenhava com naturalidade.
Minha sensibilidade como terapeuta me permitiu identificar em Vera o prazer pela escrita revelado num acontecimento singular que persistiu ao longo de 21 anos. Pelo gosto da escrita, ela decidiu escrever um diário para cada um de seus três filhos, que foi entregue a eles como presente no dia de seus respectivos casamentos. Neles, Vera relatou desde as sensações físicas dos primeiros dias de gestação até suas
reflexões, questionamentos e estado emocional no decorrer de toda a criação de seus filhos - até que atingissem a puberdade ou se formassem no colégio. Buscava escrever informações e acontecimentos diários, contar fatos e eventos marcantes, apresentar a família, reservar espaços para que eles mesmo escrevessem ou desenhassem como contribuição para suas próprias histórias.
À medida em que eles se constituíam como sujeitos, Vera os acompanhava com a construção do diário. E, tendo-os como interlocutores dessa escrita, seu principal propósito com tal prática foi permitir a eles rememorar a vida e o carinho oferecido, conforme aparece revelado em pormenores mais adiante nas Figuras 3 e 4. A construção do diário foi um processo libertador para Vera, de invenção de si mesma - conforme ela mesma conta ao mostrá-los com orgulho -, pois a permitiu organizar para si o desenvolvimento de seus filhos, expressar suas emoções abertamente e revisitar uma memória (FREUD, 2006c) mediada pela escrita.
Entendemos que seus diários se constituem como uma espécie de testemunho ou confissão sobre sua relação com os filhos, que se desenvolve e se aprofunda com o tempo. São uma memória material das coisas pensadas e vividas por ela e se oferecem como um tesouro acumulado à releitura e à meditação posterior, tanto dela quanto de seus filhos. No entanto, como nos lembra Foucault (1992) ao falar sobre a escrita de si, não devem ser encarados apenas como um simples auxiliar de memória, que poderiam ser consultados de vez em quando na tentativa de resgatar uma recordação que, por ventura, teria se desvanecido. Antes de mais nada, constituem-se como um material e um enquadramento para exercícios tais como a leitura, a releitura, o entretenimento, a reflexão etc.
Além disso, ao constituir para si própria um equipamento de discursos a que se possa recorrer ou revisitar, seus diários representam um conjunto de escritos que não apenas falam sobre Vera, mas que se resumem nela própria, subjetivando-a. A escrita, portanto, se presta a ela como um veículo importante de subjetivação, que reúne aquilo que se pode ouvir ou ler, com uma finalidade que não é nada menos que a constituição de si. Ou seja, a escrita de Vera é um meio de estabelecer uma relação de si consigo própria. Para Bruss (1976), especialista em estudos autobiográficos, qualquer escrito sobre o eu pode ser visto como um ato autobiográfico performativo, isto é, “o sujeito (que fala ou escreve sobre si) não é o objeto (re)presentado por seu
discurso reflexivo, tampouco é o efeito, por assim dizer, gramatical de seu discurso. Falando e escrevendo, literalmente ele se produz”.
Assim, nem o sujeito é efeito do seu texto8, tampouco o texto é a representação do sujeito: o escrito autobiográfico é constitutivo do sujeito. Do conteúdo extraído de um diário ele pode esperar traçar sua identidade e significação (LEJEUNE, 1993; BORGES, 2002). Podemos ver o diário, então, como o próprio sujeito se constituindo enquanto tal. Nesse sentido, considera-se o diário como uma busca interior do eu espelhado em um outro materializado no papel e no registro do próprio eu. O autor do diário convida o leitor - no caso de Vera são principalmente os seus filhos - à cumplicidade e à empatia, visto que o caráter confessional instiga curiosidade, e a estrutura do diário projeta no possível leitor o outro, espelho de si (PIMENTEL, 2011).
Para alguns historiadores (BORGES,2002), o diário é uma interrogação do sujeito sobre sua nova posição no mundo e é produzido, dentre outras razões, para que ele reencontre o equilíbrio necessário mediante uma época de transição em sua vida. A maternidade de Vera, portanto, pode também ter gerado nela um sentimento novo e uma necessidade de se firmar diante das mudanças que a nova situação lhe trazia, tendo encontrado conforto nas palavras escritas. “São os escritos na primeira
pessoa - o ‘eu’ -, além dos diários, também as memórias e autobiografias, que melhor testemunham as transformações” (BORGES, 2002: 5) na vida de alguém.
O diário é uma voz falando de si mesma, que contém e cria uma imagem para seu leitor, o qual, em primeira instância, é sempre o próprio autor. Ao escrever um diário, o sujeito desenvolve uma imagem de sua vida interior: do ponto de vista psicanalítico, o indivíduo quer se interpretar, confessar, justificar e pensar mais claramente, conforme afirma Caligari (1998). O processo de escrita é, portanto, sempre seletivo e ordenado, capaz de auxiliar o sujeito nessa busca pelo equilíbrio e pela organização.
8 Utilizamos o termo texto conforme a concepção presente em Maingueneau (2000). Trata-se de
produções verbais orais ou escritas estruturadas de forma a perdurarem, a se repetirem, a circularem longe de seu contexto original. Por isso, em seu uso recorrente fala-se, de preferência, de “textos literários”, “textos jurídicos”, “textos políticos”, evitando chamar de texto uma conversa.
Como era seu costume, Vera iniciava os diários de seus filhos contando de quando ela e o marido souberam da gravidez. Em seguida, apresentava a família, o local onde moravam e expunha abertamente os acontecimentos diários e seu estado emocional. Com isso, levava para o papel tudo aquilo que acredita ser importante que seus filhos soubessem ou revivessem quando adultos, numa tentativa de trazer à memória fatos e acontecimentos que ligam o sujeito ao momento atual, de forma a torná-los objetos do presente. Trazia a discussão sobre a escolha dos nomes, os resultados dos exames e as opiniões médicas, as sensações de mal-estar, a alegria de sentir os primeiros movimentos na gestação, a descrição do dia do nascimento dos filhos e seus pensamentos mais singelos. Por vezes, ainda, copiava a elas uma poesia ou a letra de uma música que representasse o momento.
Ao passo em que escrevia os diários para seus filhos, ela própria reforçava a construção de sua identidade como uma figura materna, se reconhecendo dia a dia no papel de mãe, como se seus escritos funcionassem como um espelho para si mesma. E, hoje, as palavras que faltam a ela para contar suas recordações, naquela época já foram escritas.
1974
11 de fevereiro (segunda-feira)
Papai e eu estávamos tentando desde setembro para ter você.
No dia 13 de janeiro nós ficamos desconfiados que você já estava a caminho, mas não tínhamos certeza. Esperamos mais um pouco fiz o teste em casa o primeiro deu “Positivo” e o papai ficou feliz da vida mostrou para a titia Bete, não contentou-se foi para o serviço de lá telefonou para a titia Rose e ela disse que no momento que êle falou ela teve um pressentimento de que você seria um menino, a Bete acha que é uma menina, o papai um menino, mas não me importa o que será só quero que você vem ao mundo bem perfeitinho só isso.
Figura 2 - Página do diário escrita à sua segunda filha, em 1977.
Você está boazinha para a mamãe, continue assim, pois ficarei contente. Tchau!
8 de setembro (16h30) (quinta feira)
Sabe, Clarrisa você é a minha Princesa. Você fala baixo é tão delicada que eu tenho vontade de morder.
Você fica quietinha o dia todo eu fico contente porque você já brinca como a Mariane.
Que gostoso é isto.
vamos mudar no fim do ano.
Vou escrever um artigo muito lindo de “Schwab, que merece ser escrito neste diário é sôbre o abôrto é quando a mulher não quer mais seu filho ela mata-o antes de o bebê nascer. Nunca faça isto “Clarissa”, qual seja a situação.
Além de pequenos apontamentos semanais, Vera se preocupava em exercer seu papel de mãe e registrar algumas lições e ensinamentos que acreditava serem importantes para seus filhos. Por aproximadamente 21 anos, ela se dedicou a escrever esses diários que estão guardados com os filhos. Sua escrita a revela - para o outro e para si mesma - como uma mãe dedicada, assim como ela própria se define ao falar sobre o assunto. Alguém que se preocupou em registrar os momentos e lições de vida experimentados pela sua família com o intuito de compartilhá-los e mantê-los vivos por mais tempo.
Mas, além de todo esse contexto afetivo envolvido na produção de um diário, ao escrever sobre acontecimentos cotidianos da vida de seus filhos, Vera estava também exercitando uma prática que lhe era familiar e lhe causava prazer: o ato de escrever. Ela mesma conta que de alguma forma escrever lhe fazia bem, organizava sua mente e tornava tudo mais permanente e compartilhável. Ora, se a leitura e a escrita são atos de linguagem, então seria correto afirmar que são também modos de constituição do sujeito. Logo, para além de uma prática social, a escrita para Vera já se anunciava como constitutiva, de forma que sua voz podia ser ouvida muito mais nas milhares de linhas escritas em seus diários e cadernos no que na sua fala propriamente.
Este talvez seja o maior exemplo da importante relação afetiva que Vera estabelece com a escrita. Essa ligação que ela tem com a escrita desde cedo, que se fortaleceu com a construção desses diários, vai ser fundamental no pós-AVC para auxiliá-la, por um lado, a resgatar parte de sua linguagem que havia sido afetada gravemente pela afasia e, por outro, parte do sujeito que se perdeu ou que não se reconhece mais. Nesse sentido, o caso clínico dela nos revela os dois modos do sujeito estar na linguagem e, consequentemente, se constituir por ela: pela fala - que no caso dos afásicos é tomada por processos alternativos de significação (COUDRY, 1986, 2002) que emergem na interlocução -, e pela escrita, que no caso de Vera é o modo
predominante após o AVC. Ou seja, para além do hábito de escrever, que causava em Vera satisfação, parece ter havido também uma necessidade dela, como sujeito, inclusive após o AVC, de se constituir a partir da sua própria escrita, enquanto mãe, avó, mulher e dona de casa.
Figura 4 - Despedida do diário escrita para a filha mais nova, iniciado em 1984. Finalizado em 1995. Parte II
(...) relembre esses momentos que foram apagados de sua mente e você volte a lembrar como se fosse o presente.
Estou contente, porque eu pude acompanha-la em todos os momentos de sua vida se você acha que eu não quis ajuda-la está realmente enganada se tinha alguém que torce para que tudo desse certo isto você pode estar certa sou EU. Marana eu torço até pro DáLUA ficar com você, ou melhor namorar e casar (estou brincando).
Não sei se valeu eu escrever mais de 15 anos espero que goste e passe horas lendo e sabendo como você foi os seus primeiros acontecimentos, as suas primeiras
conquistas e guarda-lo talvez com carinho este diário que me acompanhou desde que você estava na minha barriga, tão pequenina e eu a guardava com muito carinho e nada queria que te acontecesse.
“A vida passa como um “relâmpago” se nós não escrevermos num papel ele se apaga e nada temos para lembrarmos” É da minha autoria, gostou?
Será que você irá continuar este diário? Eu acho que você Marana não é ligada a isto se é que te conheço.
Marana, os momentos que você irá passar será lembrados somente na sua memória, aqui vou despedindo na esperança que não escrevi à toa.
Abraços e beijos
A escrita faz parte de sua condição de sujeito falante e para Vera, sobretudo, exerce a função não só de organizadora da linguagem, (permanece no papel e pode ser retomada pela fala), mas também lhe confere uma condição de existência. Ao mesmo tempo em que ela escreve para se relacionar com seu interlocutor - e se apoia nessa escrita para posteriormente realizar os movimentos articulatórios da fala com maior precisão -, a escrita parece constituir-se para Vera como um instrumento que lhe garante uma motivação para existir, provido de um valor restaurador, conforme também podemos verificar em outros trabalhos da ND (FLOSI, 2003; MURAI, 2005).
Durante todo seu acompanhamento, pude constatar que o processo de significação faz uso dos mais diversos recursos da fala e da escrita. O que quero dizer é que, quando a fala era insuficiente para garantir a significação - devido à apraxia -, Vera recorria a gestos, expressões faciais e, sobretudo, à escrita. E é, justamente, na interlocução construída por diversos caminhos que Vera se restaura. Essa dinâmica enfatiza o que Coudry, já em 1986, sugeriu ao afirmar que o afásico recorre a diferentes processos de significação verbais e não verbais, ou seja, à língua em suas mais diversas formas de funcionamento e a outros sistemas semióticos.
Esse processo de significação nos remete à definição de afasia da ND. Consideramos que a afasia se caracteriza justamente por essas alterações nos
processos de significação de origem articulatória e discursiva produzidas por uma lesão
cognitivos (COUDRY, 1986). E, propor o conceito de processos alternativos de significação supõe que é sempre possível dizer aquilo que se quer de outra maneira que não se disse. Ou seja, significa rearranjar os sistemas e subsistemas da língua e o jogo da linguagem (COUDRY, 2008).
Dessa forma, diz a autora, “um sujeito se torna afásico quando, do ponto de vista linguístico, o funcionamento de sua linguagem prescinde de determinados recursos de produção e interpretação”. Em outras palavras, “um sujeito está afásico
quando lhe faltam recursos expressivos e interpretativos da linguagem” (COUDRY e
POSSENTI, 1993: 50). A afasia é, portanto, uma perturbação em processos de significação em que há alterações em um dos níveis linguísticos (fonético, fonológico, sintático, semântico e pragmático) com repercussão em outros (COUDRY, 1993).
A afasia modifica a dinâmica existente entre o que é automático e o que é voluntário, entre o que é tomado pelo afásico como velho, conforme Coudry (2008) com base em Freud (1891), e aquilo que se apresenta como novo. “Se antes a fala transcorria de maneira natural - com todas as imprecisões da fala humana -, no estado afásico as palavras já não se encontram mais à disposição, havendo interrupções no fluxo discursivo que afeta as condições em que se organiza a língua” (COUDRY, 2008).
Tomando por essa dinâmica, a ND considera a interlocução como a peça chave e o ponto de partida dos processos alternativos de significação, uma vez que é por meio dela que tais processos podem emergir e que o trabalho com, pela e na linguagem pode ser realizado efetivamente. É, por meio da interlocução que o sujeito comparece e não desiste do papel de falante mediante o outro. Por sua importância, a assumimos na ND como ponto de partida tanto para o acompanhamento longitudinal quanto para a reflexão teórico-metodológica, considerando os fatores que nela interferem: as relações entre os interlocutores, suas histórias particulares e o jogo de imagens que se estabelece entre eles, bem como as condições que envolvem uma interação particular incluindo aspectos histórico-culturais (COUDRY e FREIRE, 2010).
Do ponto de vista fisiológico, podemos afirmar que o cérebro humano detém uma característica incrível de reorganização funcional, dada pela plasticidade neuronal, que traduz justamente essa possibilidade que temos para percorrer novos caminhos e superar as dificuldades trazidas pela lesão cerebral. Criamos novos caminhos e utilizamos aqueles que estão mais facilitados - no sentido de Freud (1891) -