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VIROSES ALIMENTARES: UMA REVISÃO

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Academic year: 2021

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VIROSES ALIMENTARES: UMA REVISÃO

K.B. Massaut

1

, C.O. Wanglon

2

, T.M. Moura

3

1- Departamento de Nutrição - Faculdade de Nutrição – Universidade Federal De Pelotas – CEP: 96010-610 – Pelotas – RS – Brasil, Telefone: 55 (53) 3284-3234 – e-mail: ([email protected])

2- Departamento de Nutrição - Faculdade de Nutrição – Universidade Federal De Pelotas – CEP: 96010-610 – Pelotas – RS – Brasil, Telefone: 55 (53) 3284-3234 – e-mail: ([email protected])

3- Departamento de Nutrição - Faculdade de Nutrição – Universidade Federal De Pelotas – CEP: 96010-610 – Pelotas – RS – Brasil, Telefone: 55 (53) 3284-3234 – e-mail: ([email protected])

RESUMO – Doenças Transmitidas por Alimentos podem ser provocadas por diferentes grupos de microrganismos, incluindo bactérias, protozoários e vírus. As bactérias representam o grupo mais associado, seguido pelos vírus. A diarreia infecciosa é uma das principais causas de morbimortalidade no mundo e a gastroenterite viral é a segunda doença mais comum. Os principais vírus entéricos humanos são Rotavírus, Norovírus e o vírus da hepatite A. Sua disseminação ocorre por alimentos contaminados irrigados e/ou lavados com água não potável ou durante sua preparação, por contaminação cruzada. As formas de prevenção são práticas de higiene pessoal, de utensílios e alimentos, evitar consumo de alimentos crus ou malcozidos e saneamento básico adequado. Sabe-se que viroses alimentares são subestimadas e negligenciadas pelos órgãos de saúde, não se encontram muitas publicações e poucos casos são notificados. Este estudo teve por objetivo realizar uma revisão das principais viroses alimentares, bem como identificar possíveis causas e consequências.

ABSTRACT – Foodborne diseases can be triggered by different groups of microorganisms, including bacteria, protozoa and viruses, in which bacteria the most associated group, followed by viruses. One of the main causes of morbidity and mortality worldwide is infectious diarrhea, with viral gastroenteritis being the second most common disease. The main human enteric viruses are Rotavirus, Norovirus and Hepatitis A virus; the spread is by contaminated food irrigated and/or washed with non-potable water or by cross-contamination during their preparation. Contamination prevention methods are good practices of personal hygiene, of utensils and foods, to avoid consumption of raw or poorly cooked foods and adequate basic sanitation. It is remarkable that the numbers of cases of food viruses are underestimated and neglected by health agencies, moreover in literature, there are not many publications and few cases are reported. The aim of this study were to perform a review of the main food viruses, as well as the characteristics of the main enteroviruses, its causes and consequences.

PALAVRAS-CHAVE: contaminação; surtos; gastroenterite viral; DTA.

KEYWORDS: contamination; outbreaks; viral gastroenteritis, foodborne disease.

1. INTRODUÇÃO

Doenças Transmitidas por Alimentos (DTAs) são aquelas comumente de origem infecciosa ou tóxica, que podem ocorrer de forma individual ou em surtos, constituindo um dos problemas de saúde pública mais frequentes do mundo (WHO, 2002; Forsythe et al, 2002).

Podem ser provocadas por diversos grupos de microrganismos, incluindo bactérias, protozoários e vírus e, sabe-se que apenas um reduzido número de casos de DTA é notificado aos

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órgãos de inspeção de alimentos e agências de saúde. Tal fato, se deve, em parte aos inúmeros patógenos presentes em alimentos, à sua capacidade de causar sintomas brandos, e aos doentes que não buscam auxílio médico (WHO, 2002; Amson et al, 2006).

As bactérias constituem o grupo microbiano mais associado às DTAs, seguidas pelos vírus e, dentre os sinais e sintomas mais comuns tem-se dor de estômago, náusea, vômitos, diarreia e febre por período prolongado (Forsythe et al, 2002).

Os vírus são os menores e mais simples micro-organismos que existem, sendo considerados parasitas intracelulares obrigatórios, uma vez que necessitam de células vivas hospedeiras para se multiplicarem e sua transmissão pode ocorrer de forma vertical ou horizontal (Trabulsi et al, 2008; Santos et al, 2008).

Os principais vírus entéricos humanos são Norovírus, vírus da hepatite A e Rotavírus e os alimentos frequentemente envolvidos na transmissão são moluscos, frutas, legumes e vegetais irrigados e/ou lavados com água não potável, ou, contaminados durante a sua preparação, por contato com superfícies ou mãos de manipuladores infectados (FAO, 2012; Torok et al, 2018). As medidas de prevenção são práticas adequadas de higiene pessoal, de utensílios e de alimentos, tratamento adequado da água, não consumir alimentos crus ou malcozidos e o saneamento básico adequado (Barker et al, 2014).

É recorrente que as viroses alimentares têm sido subestimadas e negligenciadas tanto por órgãos de saúde quanto pela população em geral, pois não se encontram muitos dados ou relatos acerca do tema. Sendo assim, este estudo teve por intuito realizar uma revisão das principais doenças alimentares de origem viral, bem como identificar suas possíveis causas e consequências.

2. GASTROENTERITES VIRAIS

A diarreia infecciosa é uma das principais causas de morbidade e mortalidade no mundo, sendo responsável por 18% dos óbitos em crianças menores de 5 anos (OMS) e é a principal causa de mortalidade infantil em países em desenvolvimento. Além disso, a gastroenterite viral (GEV) é considerada a segunda doença mais comum, atrás de infecções respiratórias, e contabiliza 3/4 de todas as diarreias de origem infecciosa (Torok et al, 2018).

No que se refere aos custos com o tratamento de doenças de origem alimentar, os dados do Sistema Único de Saúde (SUS) do Paraná, Brasil, indicam que em 2000, o custo médio por internação foi de R$ 471,59. Neste mesmo ano, aconteceram 219 surtos de DTAs, 1000 pessoas foram hospitalizadas e, estima–se que 8.663 ficaram doentes. Dados do Hospital de Clínicas de Curitiba mostram que pacientes que são internados devido a enfermidades de origem alimentar ficam internados em média quatro dias, oferecendo um custo total médio de R$ 1.870,00, incluindo o número de diárias, honorários, materiais, medicamentos e exames. Considerando as informações estimou-se que no ano de 2000 foram gastos pelo governo R$ 1.870.000,00 somente em internações devido às doenças transmitidas por alimentos (BRASIL, 2016a,b).

No ano de 2014, foram registrados 886 surtos alimentares de DTA e 15.700 pessoas doentes, contra 861 surtos e 17.455 pessoas doentes no ano de 2013. No ano de 2015 ocorreu uma redução de 35% e 41% casos surtos e doentes, respectivamente, comparando ao ano anterior. Nos anos de 2016 foram notificados 543 surtos com 9.907 doentes acometidos. Nos últimos dez anos, 66,4% dos registros foi ignorado ou inconclusivo o alimento incriminado no surto. Os alimentos mistos continuam à frente como os mais envolvidos nos surtos com 8,6%, seguidos por água (6,2%), ovos e produtos à base de ovos (3,7%). A dificuldade de se identificar o agente causador é um fato que se repete historicamente (Brasil, 2017).

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3. VÍRUS ENTÉRICOS

Os vírus excretados são, geralmente não envelopados, o que lhes confere maior resistência a condições ambientais adversas. Sua transmissão se dá pela via fecal-oral sendo detectadas em indivíduos sadios e acometidos, uma população entre 105 – 1011 partículas virais por grama de fezes

(Fong et al, 2005).

Para efetivar a sua infecção e replicação no trato gastrointestinal (TGI), precisam resistir às suas condições nocivas como o baixo pH estomacal, a inativação por sais biliares e proteases e a passagem pela camada de muco (Torok et al, 2018).

A diarreia infecciosa, um dos principais agentes de morbimortalidade no mundo, sendo responsabilizada por 18% dos óbitos em crianças menores de 5 anos (OMS), é a principal causa de mortalidade infantil em países em desenvolvimento. Além disso, a gastroenterite viral (GEV) é considerada a 2ª doença mais comum, atrás de infecções respiratórias, e contabiliza 3/4 de todas as diarreias de origem infecciosa (Torok et al, 2018). Os vírus entéricos têm sido cada vez mais reconhecidos como causas importantes de DTAs ao redor do mundo, e alguns dos vírus relacionados à viroses alimentares serão relacionados a seguir.

3.1 Rotavírus

Comumente responsáveis pela diarreia infantil, são estáveis à temperatura ambiente, a repetidos ciclos de congelamento/descongelamento, ao tratamento com detergentes e a pH extremos (3,5 – 10), como o do ambiente estomacal. Disseminam-se pela via fecal-oral e, possivelmente, por via respiratória. Sua ação citolítica se dá nas células epiteliais que cobrem as vilosidades do intestino delgado, impedindo a reabsorção de água e causando a perda de eletrólitos, o que ocasiona em uma diarreia aquosa. A enfermidade pode ser significativa em lactentes menores de 24 meses, porém é assintomática em adultos e, se não tratada, pode acarretar morte (Murray et al, 2009).

Estes vírus são encontrados no mundo todo, as crianças infectadas encontram-se geralmente na faixa etária de 3 – 5 anos e a doença é mais prevalente no inverno, especialmente em meses chuvosos, com ocorrência de dispersão entre 2 a 5 dias após o início da diarreia. O período de incubação é estimado em 48 horas sendo os principais sintomas: vômitos, diarreia, febre e desidratação sem a presença de leucócitos ou sangue nas fezes. É uma doença auto limitante (7 – 10 dias) e sem sequelas, não há um tratamento antiviral específico e disponível, contudo, recomenda-se a reposição hidroeletrolítica (Moreno et al, 2009).

Diversas pesquisas demonstraram um número similar de incidências de diarreia associadas ao Rotavírus em países desenvolvidos e em desenvolvimento, indicando que o controle desta enfermidade não melhora com o abastecimento de água potável, saneamento ou higiene (Murray et al, 2009).

3.2 Norovírus

Os norovírus são resistentes à pressão ambiental (detergentes, secantes e ácidos), à temperatura de 60°C e aos níveis de cloro na água potável. Sua transmissão é pela via fecal-oral através de águas e alimentos contaminados. Podem causar gastrenterites que regridem em 48h sem graves consequências, retardo no esvaziamento gástrico e diarreia aquosa devido ao prejuízo na absorção adequada de água e nutrientes (Murray et al, 2009; Pereira et al, 2010).

Encontrados no mundo inteiro, os NoV não apresentam incidência sazonal, atingem todas as faixas etárias, causando surtos relacionados a ingestão de água, moluscos, saladas e alimentos manipulados. Em países desenvolvidos, esta infecção tem sido descrita em escolas, hotéis, hospitais, casas de repouso, restaurantes e cruzeiros marítimos. Segundo o CDC, cerca de 50% dos surtos de gastroenterites de origem alimentar nos Estados Unidos, são atribuídos aos norovírus tornando-o

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principal ocasionador de surtos de gastroenterite aguda de origem não bacteriana em todo o mundo (Pereira et al, 2010).

Com incubação geralmente, de 24 a 48 horas, a doença cursa com um início agudo de diarreia, náuseas, vômitos, além de cólicas abdominais, especialmente em crianças, sem a presença de sangue nas fezes, regredindo dentro de 12 a 60 horas sem maiores complicações. Os indivíduos infectados não desenvolvem imunidade capaz de prevenir futuras infecções e, devido à sua grande variabilidade genética, torna-se difícil o desenvolvimento de vacinas (Murray et al, 2009; Morillo et al, 2011). Não há ainda um tratamento característico, porém, o salicilato de bismuto pode atenuar a gravidade dos sintomas e, recomenda-se a reposição hidroeletrolítica, manusear os alimentos de forma segura e ingerir água fervida (Murray et al, 2009).

3.3 Vírus da Hepatite A (HAV)

Os HAV apresentam-se estáveis a pH 1, solventes (clorofórmio e éter), detergentes, água salgada e dessecação e possuem capacidade de resistir a temperaturas de 4°C (semanas), 56°C (30 minutos) e 61°C (parcialmente inativado após 20 minutos). É inativado pelo cloro (água potável), formalina, ácido peracético e radiação UV (Macedo et al, 2014).

Uma vez ingerido, acredita-se que sua patogênese ocorra pela penetração do vírus na corrente sanguínea via orofaringe ou pelo revestimento do epitélio intestinal, atingindo as células parenquimatosas do fígado, local onde ocorre sua replicação. Cerca de 10 dias antes da apresentação dos sintomas de icterícia, as partículas virais são excretadas nas fezes através da bile o que induz a uma disseminação pela via fecal-oral (Ferreira et al, 2004; Macedo et al, 2014).

Por não possuírem incidência sazonal, os HAV podem ser encontrados no mundo inteiro e são capazes de causar surtos, geralmente através de uma fonte em comum como água e/ou alimentos contaminados ou de pessoa para pessoa, podendo acometer todas as faixas etárias (Murray et al, 2009).

O período de incubação médio é de 30 dias (15 a 50) e a infecção regride dentro de 2 a 4 semanas, os sintomas causados são semelhantes aos da Hepatite B, porém mais brandos. 15 a 50 dias após a exposição ao vírus, a doença cursa com um início abrupto de febre, fadiga, náusea, perda de apetite, dores abdominais, urina escura (bilirrubinemia), fezes pálidas (acolia) e icterícia, podendo ser acompanhadas de dor abdominal e prurido. A evolução para um quadro de hepatite fulminante ocorre em 0,1% dos casos e está associada à taxa de mortalidade de 80% (Macedo et al, 2014; Murray et al, 2009).

Uma particularidade do HAV é causar surtos em viajantes (adultos) e em aglomerados (creches e populações em áreas sem saneamento) (Ferreira et al, 2004; Macedo et al, 2014). Seu tratamento inclui repouso até melhora da icterícia e cuidados na alimentação e higiene. Além disso, existem vacinas com vírus inativado para crianças de até 2 anos, adultos em risco (gestantes) e viajantes para áreas endêmicas (Ferreira et al, 2004; Murray et al, 2009).

4. CONCLUSÕES

Apesar das grandes implicações na população e dos elevados gastos financeiros para os governos, sabe-se que as viroses alimentares ainda são negligenciadas pelos órgãos de saúde, uma vez que não se encontram muitos dados ou publicações acerca do tema e poucos casos são notificados por dificuldade no diagnóstico ou devido ao curso auto limitante da doença. Devido à sua importância, se faz necessário maiores estudos sobre as doenças transmitidas por alimentos de origem viral no Brasil.

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5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Amson, G. V.; Haracemiv, S. M. C.; Masson, M. L. (2006). Levantamento de dados epidemiológicos relativos a ocorrências/surtos de doenças transmitidas por alimentos (DTAs) no Estado do Paraná - Brasil, no período de 1978 a 2000. Ciência e Agrotecnologia, 30(6), 1139-1145.

Barker, S. F.; Amoah, P.; Drechsel, P. (2014). A probabilistic model of gastroenteritis risks associated with consumption of street food salads in Kumasi, Ghana: Evaluation of methods to estimate pathogen dose from water, produce or food quality. Science of the Total Environment, 487, 130–142.

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