A racionalidade econˆ
omica das greves
Yuri Chagas Lopes
Programa de Educa¸c˜ao Tutorial – Departamento de Economia Universidade de Bras´ılia
1 Introdu¸c˜ao
2 O modelo de agˆencia
3 Modelos de informa¸c˜ao privada
A ideia do decaimento de oportunidades
Incorpora¸c˜ao de regras institucionais: possibilidade de holdout
4 Discuss˜ao emp´ırica
Motiva¸c˜
ao
Mercados de trabalho altamente sindicalizados;
• Decis˜ao coletiva de ajustes salariais;
Elevados custos sociais percebidos;
Parodoxo de Hicks
O que levaria agentes racionais a utilizarem greves para distri-buir os ganhos de troca?
Paradoxo de Hicks: Se fosse poss´ıvel explicar tanto a ocorrˆencia de greves quanto seus termos de solu¸c˜ao, n˜ao haveria raz˜ao para a greve.
Hicks (1932): A presen¸ca de conhecimento perfeito em uma
negocia¸c˜ao salarial sempre possibilitaria a obten¸c˜ao de um acordo.
• Greves resultariam de problemas de negocia¸c˜ao decorrentes de assimetrias de informa¸c˜ao entre os agentes.
Cr´ıtica de Ross
´
E dif´ıcil explicar fenˆomenos t˜ao dispendiosos e potencialmente prolongados apenas por problemas de negocia¸c˜ao.
Arthur Ross (1948): Comportamento pol´ıtico e estrat´egico
da lideran¸ca sindical:
• Sobrevivˆencia e crescimento dos sindicatos;
Modelos convensionais (hicksianos)
Situa¸c˜oes com 2 jogadores: firma e sindicato;
• Sindicatos maximizadores de uma fun¸c˜ao de utilidade;
• Firmas maximizadoras de fluxos de lucro.
Altos custos associados `a manuten¸c˜ao da greve para ambas as partes;
Resultado: tendˆencia em dire¸c˜ao ao ajustamento de posi¸c˜oes a tempo de prevenir uma greve.
Possibilidade de greve nos modelos convencionais:
1 Possibilidade de que uma das partes julgasse incorretamente as
inten¸c˜oes da outra;
2 Irracionalidade de uma das partes.
Problema: n˜ao surge qualquer rela¸c˜ao sistem´atica que associe greves `as vari´aveis observ´aveis do sistema.
• Bloco te´orico pouco ´util para a deriva¸c˜ao de implica¸c˜oes quanto `
Modelo de Ashenfelter e Johnson (1969)
Modelo de agˆencia com 3 agentes:
1 Firma; 2 Base Sindical; 3 L´ıder Sindical.
Cabe `a lideran¸ca conectar as expectatvas de ajuste salarial da base sindical `a disposi¸c˜ao a ajustar sal´arios da firma.
Apenas na improv´avel coincidˆencia entre as expectativas da
firma e da base sindical seria poss´ıvel chegar a um acordo a baixos custos.
Decis˜
ao do l´ıder sindical
No caso mais prov´avel de a disposi¸c˜ao a pagar ser inferior `a expectativa de ajuste dos trabalhadores:
1 Aceitar a proposta feita pela firma; 2 Recusar a proposta e iniciar uma greve.
Alternativa 1 pode desencadear insatisfa¸c˜ao e disputas internas no sindicato.
Entrar em greve serve como mecanismo de ajuste das expecta-tivas da base sndical:
• A medida que se prolongam as negocia¸` c˜oes, mais claro fica que a resistˆencia da firma indica proximidade de sua real disposi¸c˜ao a pagar.
Greves terminam quando a lideran¸ca perceber que o custo pol´ıtico de aceitar uma proposta ´e inferior aos benef´ıcios de por fim `a paralisa¸c˜ao.
Implica¸c˜
oes do modelo de agˆ
encia
Menor tendˆencia a chegar a acordos:
• quanto maior o ajuste salarial visto como aceit´avel pelos traba-lhadores;
• quanto maior a taxa de decrescimento das expectativas de ajuste durante a greve;
Implica¸c˜
oes do modelo de agˆ
encia
Maior tendˆencia a chegar a acordos:
• quanto maior a rela¸c˜ao entre lucratividade e folha de sal´arios (contrato a expirar);
• quanto maior a taxa de desconto intertemporal do fluxo de lucros das firmas;
• quanto maior o m´ınimo aumento salarial aceit´avel pelos traba-lhadores;
Funcionamento do modelo
Hip´oteses centrais:
• Firma conhece todos os parˆametros que definem o ajuste salarial aceit´avel pela base sindical;
• Lideran¸ca sindical consegue estimar com relativa precis˜ao a real disposi¸c˜ao a pagar da firma.
Conclus˜ao: o modelo de agˆencia de Ashenfelter e Johnson
Retorno aos modelos hicksianos
Percep¸c˜ao de que a chave para compreender as greves encontra-se nos problemas informacionais:
• Firma disp˜oe de informa¸c˜ao privada sobre sua real disposi¸c˜ao a pagar;
• Tal informa¸c˜ao n˜ao est´a dspon´ıvel sem custos ao sindicato.
Relutˆancia dos sindicatos: como saber se a oferta realizada n˜ao poderia ainda ser melhorada?
Resistˆencia das firmas:
• Como sinal de proximidade de sua real disposi¸c˜ao a pagar;
A demora a chegar a um acordo ´e considerada um dispostivo de detec¸c˜ao da informa¸c˜ao privada;
Greves (ou ao menos sua amea¸ca) s˜ao utilizadas como testes
da validade do sinal apresentado pela firma:
• Firmas agindo oportunisticamente reavaliar˜ao sua posi¸c˜ao frente aos elevados custos de uma paraliza¸c˜ao;
• Risco: Se o sinal for verdadeiro, a greve pode prejudicar o ex-cedente produtivo, levando as firmas a reduzirem sua proposta.
Resultados dos modelos de informa¸c˜
ao privada
Firmas mais lucrativas:
• Costumam perder mais com greves;
• Tender˜ao a fechar novos acordos rapidamente (ajustes mais ele-vados).
Firmas pouco lucrativas:
• Costumam perder menos com greves;
• Estar˜ao preparadas para atrasar novos acordos at´e que a dis-posi¸c˜ao a aceitar ajustes salariais caia o suficiente para se ade-quar a sua disposi¸c˜ao a pagar.
A Conjectura de Coase
A demora a chegar a um novo contrato apenas ´e obtida nos
modelos de informa¸c˜ao privada quando se assume:
• Intervalo significativo de tempo entre as negocia¸c˜oes;
• Capacidade dos agentes de assumir compromissos quanto `as estrat´egias futuras de negocia¸c˜ao;
Embora seja plaus´ıvel que haja certo intervalo de tempo entre as rodadas de negocia¸c˜ao, seriam necess´arios intervalos pouco realistas para explicar longas greves.
O decaimento de oportunidades
Hart (1989): Incopora¸c˜ao de novo custo `as greves: redu¸c˜ao da lucratividade futura da firma.
1 Perda de espa¸co para concorrentes; 2 Defasagem de investimentos em inova¸c˜ao;
3 Deprecia¸c˜ao acelerada devido `a falta de manuten¸c˜ao; 4 Dificuldades de financiamento durante a greve;
Estoques como vari´avel sinalizadora do decaimento de
Possibilidade de holdout
Cramton e Tracy (1992):Nova possibilidade para o impasse entre firmas e sindicatos: work to rule.
Assume-se certa ineficiˆencia associada ao holdout;
Resultados: a quantidade de disputas depende do grau de incerteza:
• A medida que a incerteza aumenta, a amea¸` ca de greve torna-se menos atrativa em rela¸c˜ao `a de holdout;
• Greves deveriam envolver menos incerteza e ter taxas de efe-tiva¸c˜ao de novos contratos superior `a verificada em holdouts;
Incidˆ
encia de greves
Cerca de 10 a 15% das negocia¸c˜oes trabalhistas terminam em
greves na Am´erica do Norte;
A incidˆencia de holdouts chega a 47% das negocia¸c˜oes traba-lhistas nos Estados Unidos;
Car´ater proc´ıclico das greves: aumento de 1% na taxa de
de-semprego seria respons´avel por uma redu¸c˜ao de cerca de 2 a 3% na probabilidade de greves nos EUA.
Dura¸c˜
ao das greves
Dura¸c˜ao m´edia e mediana entre 40 e 50 dias nos EUA e 25 e
40 dias no Canad´a;
Fraco efeito negativo das taxas de desemprego sobre a dura¸c˜ao das greves;
Efeitos postivos de grande magnitude e significˆancia dos pre¸cos de venda sobre a dura¸c˜ao esperada das greves.
Greves e Sal´
arios
Rela¸c˜ao cntroversa nos estuds emp´ıricos, variando de base para base de dados:
• Farber (1978): sal´arios menores quanto mais longa a negocia¸c˜ao (correla¸c˜ao negativa);
• Riddel (1980) e Lacroix (1986): negocia¸c˜oes em que ocorrem greves est˜ao assciadas com ajustes significativamente maiores;
• McConnel (1989): encontra uma associa¸c˜ao negativa significante entre sal´aris e greves;
S´eria carˆencia de compila¸c˜oes confi´aveis e sistem´aticas de dados referentes a negocia¸c˜oes trabalhistas em pa´ıses em desenvolvi-mento;
Grande capacidade de identifica¸c˜ao do impacto das principais vari´aveis discutidas nos modelos te´oricos sobre a realidade dos mercados de trabalho dessas economias.