CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. Porto: Porto Editora. Edição Digital
Simão, o primeiro vértice do triângulo amoroso
Manuel, o mais velho de seus [de Domingos Botelho] filhos, tem vinte e dois anos, e frequenta o segundo ano jurídico. Simão, que tem quinze, estuda humanidades em Coimbra. As três meninas são o prazer e a vida toda do coração de sua mãe.
O filho mais velho escreveu a seu pai queixando-se de não poder viver com seu irmão, temeroso do génio sanguinário dele. Conta que a cada passo se vê ameaçado na vida, porque Simão emprega em pistolas o dinheiro dos livros, convive com os mais famosos perturbadores da academia, e corre de noite as ruas insultando os habitantes e provocando-os à luta com assuadas. O corregedor admira a bravura de seu filho Simão, e diz à consternada mãe que o rapaz é a figura e o génio de seu bisavô Paulo Botelho Correia, o mais valente fidalgo que dera Trás-os-Montes.
Manuel, cada vez mais aterrado das arremetidas de Simão, sai de Coimbra antes de férias e vai a Viseu queixar-se, e pedir que lhe dê seu pai outro destino. D. Rita [mãe de Simão] quer que seu filho seja cadete de cavalaria. De Viseu parte para Bragança Manuel Botelho, e justifica-se nobre dos quatro costados para ser cadete.
No entanto, Simão recolhe a Viseu com os seus exames feitos e aprovados. O pai maravilha-se do talento do filho, e desculpa-o da extravagância por amor do talento. Pede-lhe explicações do seu mau viver com Manuel, e ele responde que seu irmão o quer forçar a viver monasticamente.
Os quinze anos de Simão têm aparência de vinte. É forte de compleição; belo homem com as feições de sua mãe, e a corpulência dela; mas de todo avesso em génio. Na plebe de Viseu é que ele escolhe amigos e companheiros. Se D. Rita lhe censura a indigna eleição que faz, Simão zomba das genealogias, e mormente do general Caldeirão que morreu frito. Isto bastou para ele granjear a malquerença de sua mãe. O corregedor via as coisas pelos olhos de sua mulher, e tomou parte no desgosto dela, e na aversão ao filho. As irmãs temiam-no, tirante Rita, a mais nova, com quem ele brincava puerilmente, e a quem obedecia, se lhe ela pedia, com meiguices de criança, que não andasse com pessoas mecânicas. (p. 9-10)
Teresa, o segundo vértice 1.
Amava Simão uma sua vizinha, menina de quinze anos, rica herdeira, regularmente bonita e bem-nascida. Da janela de seu quarto é que ele a vira a primeira vez, para amá-la sempre. Não ficara ela incólume da ferida que fizera no coração do vizinho: amou-o também, e com mais seriedade que a usual nos seus anos.
Os poetas cansam-nos a paciência a falarem do amor da mulher aos quinze anos, como paixão perigosa, única e inflexível. Alguns prosadores de romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor aos quinze anos é uma brincadeira: é a última manifestação do amor às bonecas; é a tentativa da avezinha que ensaia o voo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe, que está da fronde próxima chamando: tanto sabe a primeira o que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe.
Teresa de Albuquerque devia ser, porventura, uma excepção no seu amor. (p. 13)
2. Esta mansidão do fidalgo [Tadeu de Albuquerque], cujo natural era bravio, tem
a sua explicação no projecto de casar em breve a filha com seu primo Baltasar Coutinho, de Castro Daire, senhor de casa, e igualmente nobre da mesma prosápia. Cuidava o velho, presunçoso conhecedor do coração das mulheres, que a brandura seria o mais seguro expediente para levar a filha ao esquecimento daquele pueril amor a Simão. Era máxima sua que o amor, aos quinze anos, carece de consistência para sobreviver a uma ausência de seis meses. Não pensava errado o fidalgo, mas o erro existia. As excepções têm sido o ludíbrio dos mais assisados pensadores, tanto no especulativo como no experimental. Não era muito que Tadeu de Albuquerque fosse enganado em coisas de amor e coração de mulher, cujas variantes são tantas e tão caprichosas, que eu não sei se alguma máxima pode ser-nos guia, a não ser esta: «Em cada mulher, quatro mulheres incompreensíveis, pensando alternadamente como se hão-de desmentir umas às outras.» Isto é o mais seguro; mas não é infalível. Aí está Teresa que parece ser única em si. Dir-se-á que as três da conta, que diz a sentença, não podem coexistir com a quarta, aos quinze anos? Também o penso assim, posto que a fixidez, a constância daquele amor, funda em causa independente do coração: é porque Teresa não vai à sociedade, não tem um altar em cada noite na sala, não provou o incenso doutros galãs, nem teve ainda uma hora de comparar a imagem amada, desluzida pela ausência, com a imagem amante, amor nos olhos que a fitam, e amor nas palavras que a convencem de que há um coração para cada homem, e uma só mocidade para cada mulher. Quem me diz a mim que Teresa teria em si as quatro mulheres da máxima, se o vapor de quatro incensórios lhe estonteasse o espírito? Não é fácil, nem preciso decidir. E vamos ao conto. (p. 17-18)
coração de Teresa congelou de terror e repugnância. O morgado de Castro Daire, atribuindo a frieza de sua prima a modéstia, inocência e acanhamento, lisonjeou-se do virginal melindre daquela alma, e saboreou de antemão o prazer de uma lenta, mas segura conquista. Verdade é que Baltasar nunca se explicara de modo que Teresa lhe desse resposta decisiva; um dia, porém, instigado por seu tio, afoitou-se o ditoso noivo a falar assim à melancólica menina:
– É tempo de lhe abrir o meu coração, prima. Está bem disposta a ouvir-me?
– Eu estou sempre bem disposta a ouvi-lo, primo Baltasar.
O desdém aborrecido desta resposta abalou algum tempo as convicções do fidalgo, respeito à inocência, modéstia e acanhamento de sua prima. Ainda assim, quis ele no momento persuadir-se que a boa vontade não poderia exprimir-se doutro modo, e continuou:
– Os nossos corações penso eu que estão unidos; agora é preciso que as nossas casas se unam.
Teresa empalideceu, e baixou os olhos.
– Acaso lhe diria eu alguma coisa desagradável?! – prosseguiu Baltasar, rebatido pela desfiguração de Teresa.
– Disse-me o que é impossível fazer-se – respondeu ela sem turvação. – O primo engana-se: os nossos corações não estão unidos. Sou muito sua amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lembrou que o primo pensasse em tal.
– Quer dizer que me aborrece, prima Teresa? – atalhou, corrido, o morgado. – Não, senhor: já lhe disse que o estimava muito, e por isso mesmo não devo ser esposa de um amigo a quem não posso amar. A infelicidade não seria só minha…
– Muito bem… Posso eu saber – tornou com refalsado sorriso o primo – quem é que me disputa o coração de minha prima?
– Que lucra em o saber?
– Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem… É exacto? – É.
– E com tamanha paixão que desobedece a seu pai?
– Não desobedeço: o coração é mais forte que a submissa vontade de uma filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pai; mas eu não disse ao primo Baltasar que casava; disse-lhe unicamente que amava.
– Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de falar!… Quem pensaria que os seus dezasseis anos estavam tão abundantes de palavras!…
– Não são só palavras, primo – retorquiu Teresa com gravidade –, são sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se lhe eu mentisse, ficaria mais bem-vista de meu primo?
– Não, prima Teresa; fez bem em dizer a verdade, e de a dizer em tudo. Ora olhe: não duvida declarar quem é o ditoso mortal da sua preferência?
– Que lhe faz saber isso?
– Muito, prima; todos temos a nossa vaidade, e eu folgaria muito de me ver vencido por quem tivesse merecimentos que eu não tenho aos seus olhos. Tem a bondade de me dizer o seu segredo, como o diria a seu primo Baltasar, se o tivesse em conta de seu amigo íntimo?
pausando, como ele, as sílabas das palavras. – Pois nem para amigo me quer?!
– O primo não me perdoa a sinceridade que eu tive, e será de hoje em diante meu inimigo.
– Pelo contrário… – tornou ele com mal rebuçada ironia – muito pelo contrário… Eu lhe provarei que sou seu amigo, se alguma vez a vir casada com algum miserável indigno de si.
– Casada!… – interrompeu ela; mas Baltasar cortou-lhe logo a réplica deste modo:
– Casada com algum famoso ébrio ou jogador de pau, valentão de aguadeiros, distinto cavaleiro, que passa os anos lectivos encarcerado nas cadeias de Coimbra… (p. 18-20)
(…)
– Desde que conheci Simão, não me consta que ele tenha dado o menor desgosto à sua família, nem ouço falar mal dele.
– E está por isso persuadida de que Simão deve ao seu amor à reforma de costumes?
– Não sei, nem penso nisso – replicou com enfado Teresa.
– Não se zangue, prima. Vou-lhe dizer as minhas últimas palavras: eu hei-de, enquanto viver, trabalhar por salvá-la das garras de Simão Botelho. Se seu pai lhe faltar, fico eu. Se as leis a não defenderem dos ataques do seu demónio, eu farei ver ao valentão que a vitória sobre os aguadeiros não o poupa ao desgosto de ser levado a pontapés para fora da casa de meu tio Tadeu de Albuquerque.
– Então o primo quer-me governar!? – atalhou ela com desabrida irritação. – Quero-a dirigir enquanto a sua razão precisar de auxílio. Tenha juízo, e eu serei indiferente ao seu destino. Não a enfado mais, prima Teresa. (p. 21)
4. Para finos entendedores, o diálogo do anterior capítulo definiu a filha de Tadeu
de Albuquerque. É mulher varonil, tem força de carácter, orgulho fortalecido pelo amor, despego das vulgares apreensões, se são apreensões a renúncia que uma filha fez do seu alvedrio às imprevidentes e caprichosas vontades de seu pai. Diz boa gente que não, e eu abundo sempre no voto da gente boa. Não será aleive atribuir-lhe um pouco de astúcia, ou hipocrisia, se quiserem; perspicácia seria mais correcto dizer. Teresa adivinha que a lealdade tropeça a cada passo na estrada real da vida, e que os melhores fins se atingem por atalhos onde não cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis são raros na idade inexperta de Teresa; mas a mulher do romance quase nunca é trivial, e esta, de que rezam os meus apontamentos, era distintíssima. A mim me basta, para crer em sua distinção, a celebridade que ela veio a ganhar à conta da desgraça. (p. 22)
Simão, diante das contrariedades
O académico, chegando ao período das ameaças, já não tinha clara luz nos olhos para decifrar o restante da carta. Tremia sezões, e as artérias frontais arfavam-lhe entumecidas. Não era sobressalto do coração apaixonado: era a índole arrogante que lhe escaldava o sangue. (p. 25)
Mariana, o terceiro vértice
Passou o estudante aquele dia contando as longas horas, e meditando instantes nos funestos resultados que podia ter a sua temerária ida [ao encontro marcado por Teresa], se Baltasar Coutinho era aquele homem que reservara para melhor relance a vingança da provocação insolente. Mas, de si para si, tinha ele que pensar em tal era mais covardia que prudência.
O ferrador [hospedeiro de Simão] tinha uma filha, moça de vinte e quatro anos, formas bonitas, um rosto belo e triste. Notou Simão os reparos em que ela se demorava a contemplá-lo, e perguntou-lhe a causa daquele olhar melancólico com que ela o fitava. Mariana corou, abriu um sorriso triste, e respondeu:
– Não sei o que me adivinha o coração a respeito de Vossa Senhoria. Alguma
desgraça está para lhe suceder…
– A menina não dizia isso – replicou Simão – sem saber alguma coisa da minha
vida.
– Alguma coisa sei… – tornou ela.
– Ouviu contar ao arrieiro?
– Não, senhor. É que meu pai conhece o paizinho de Vossa Senhoria, e também conhece o senhor. E há bocadinho que eu ouvi estar meu pai a dizer a meu tio, que é o arrieiro que veio com Vossa Senhoria, que tinha suas razões para saber que alguma desgraça lhe estava para acontecer…
– Por quê?
– Por amor duma fidalga de Viseu, que tem um primo em Castro Daire.
Simão espantou-se da publicidade do seu segredo, e ia colher pormenores do que ele julgava mistério entre duas famílias, quando o mestre ferrador João da Cruz entrou no sobrado, onde o precedente diálogo se passara. A moça, como ouvisse os passos do pai, saíra lestamente por outra porta. (p. 31)