Na sequência de anteriores Notas publicadas nesta mesma revista, reunimos neste novo artigo pequenos estudos sobre topónimos relacionados com sítios que tiveram ocupação romana e cha-mamos a atenção para o contributo que a arqueologia e a epigrafia podem trazer à toponomás-tica. Para uma cabeça feminina monumental encontrada em Mértola, sugerimos a identificação com uma Fortuna Redux. Finalmente, revemos alguns pormenores da villa romana de S. Cucufate (Vidigueira).
Following previous Notas in past numbers of this journal, attention is paid here to some place-names in Portugal that can be explained by archaeological and epigraphical evidence. Two other notes are added: one on a female monumental head from Mértola that seems to be Fortuna Redux, and another on some aspects of the Roman villa of S. Cucufate (Vidigueira) that deserve reconsideration.
Jorge de Alarcão*
* Professor catedrá-tico (aposentado) do Instituto de Arqueolo-gia da Faculdade de Letras de Coimbra. O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1945.Abstract
Resumo
53. Sobre Milreu / Mirleu / Mileu
O nome de Milreu dado às ruínas da famosa villa romana de Estói (Faro) repete-se, também sob as formas Mirleu e Mileu, noutros lugares de Portugal. Dieter Kremer (1988) inventariou todos os lugares com estes nomes, incluindo um na Corunha. Posteriormente, em comunicação pessoal, revelou-nos que havia encontrado, em documentos do século XIII, mais dois exemplos do topónimo na região de Orense.
Milreu é, mais do que provavelmente, resultado da metátese de uma forma mais antiga, Mir-leu ou MirMir-leus. Teríamos aqui o mesmo fenó-meno que em Sarleo > Salreu ou em “melro” por merlo. Sarleo é forma antiga, registada em 1106, do actual topónimo Salreu (Estar-reja) (DP III, n.º 208). Merlo é forma popular de “melro”. Curiosamente, a forma popular é mais erudita que “melro”, visto que mais pró-xima do latim merullus.
O topónimo Mileu derivará de Mirleu pela sín-cope do /r/. Viterbo (1984, voc. Empareda-das) cita um documento de 1299 que se refere à emparedeada do Mirleu — e este lugar só pode ser o que hoje se chama Póvoa de Mileu (Guarda).
Esta síncope do /r/ é comum no grupo /tr/, como em rostrum > rosto ou em terrestre > terreste (neste caso, forma popular); mas também já vimos o topónimo Almortão (Beira Baixa) escrito Almotão e Almoutão por gente menos letrada (correspondendo a pronúncias populares). Em 1087, D. Sesnando, no seu testamento (DC 667 = LP 19 e 78), contemplou illam ecclesiam novam quam edificavi in Colimbria, pro remedio anime mee, in loco quem vocitant Mirleos. Poucos anos depois, em 1093, João Gondesen-des fez uma doação à igreja de S. Salvador que est fundata in Colimbria civitate juxta illos Mirleos qui dicuntur (DC 793 = LP 41).
Nestes dois documentos coincidem a forma Mirleos e a localização: a igreja de D. Ses-nando era a que antecedeu a de S. João de Almedina, hoje anexa ao Museu Nacional de Machado de Castro; a igreja de S. Salvador de 1093 foi reconstruída nos finais do século XII, mas no mesmo local: nas traseiras (a norte) do Museu (Fig. 1).
Nos dois documentos citados, podemos admi-tir que Mirleos é um acusativo do plural, a que corresponderia um nominativo do singular *Mirleus; mas não é de excluir a hipótese de o
nome se usar em Coimbra, nos fins do século XI, no plural, sem que se usasse o singular, e que, na linguagem falada, já se não fizesse distinção entre nominativo e acusativo. Neste caso, Mirleos seria a única forma da linguagem falada (eventualmente ainda sem ditongação, Mir-le-os).
Aos fins do século XI poderão também atribuir-se os documentos LF 15 e 552, nos quais encontramos a delimitação da diocese de Braga. Aí lemos que o bispado ia … ad radice alpis Sispacio, et inde per cacumina montium usque ad bovia qui dicitur de Vaccas et inde ad portum de Mirleus per illa aqua de Estola usque in Durio …
O documento LF 15 apresenta esta demarcação como tendo sido realizada em 572; LF 552 atribui-a a um concílio de Lugo supostamente reunido em 569. Neste documento lê-se Mirieus com o /i/ entrelinhado.
Não repetiremos aqui a análise que fizemos deste documento para tentar apurar se estas fronteiras eram as da diocese de Braga já nos fins do século VI, ou as que poderão ter sido fixadas por Afonso III (866–910) na sequência da reconquista cristã (Alarcão, 2015). Mesmo na hipótese de os documentos serem cópias de um original, hoje perdido, do século VI, os nomes que nesse original se encontrariam podem ter sido actualizados nas cópias fei-tas no século XI. Devemos admitir, porém, que
Fig. 1 – Pormenor da planta actual da cidade de Coimbra, com localização da igreja de S. Salvador (românica, mas no local do templo do século XI da mesma invocação), da igreja construída por D. Sesnando nos Mirleus e da igreja de S. Pedro (desaparecida nas obras da Cidade Universitária).
nesta última data havia um portum de Mirleus. Corresponde talvez ao lugar hoje chamado Dehesa de Misleo, sobre o rio Esla, afluente do Douro.
Os documentos do LF e os dois citados de D. Sesnando e de João Gondesendes consti-tuem as atestações mais antigas do nome: Mir-leus / Mirleos existia, pelo menos, nos fins do século XI.
Em 1138 ou 1139, D. Afonso Henriques doou a Jeremias e seus confrades, que viviam na ermida de Santa Comba do Corgo (Santa Marta de Penaguião), uma herdade cujos limi-tes passavam per illa fonte quos vocitant Mirleu (DR 169 e Chanc. D. Afonso III, Liv. II, 145). Donde vem e o que significa este nome de Mir-leos, Mirleus, Mirleu que os documentos men-cionam como locus, portum ou fonte?
Viterbo (1984) registou as formas Milreu, Mir-leo, Mirlau, Millreu e Milireu. Não abonou todas com documentos, pelo que ficamos na dúvida sobre se algumas não serão formas populares, corruptas, que o autor pode ter ouvido, e não lido. É certo que, no Elucidário, encontramos: “Com toda esta variedade escreveram, anti-gamente, os Portugueses, esta palavra, que parece nada mais significa que francês ou estrangeiro, cousa de França ou estrangeira” (sublinhado nosso).
Relacionou Viterbo Milreu com “albergaria” e explicou:
“Poderíamos avançar que do alemão Mirle ou Schmirling, que significa uma espécie de açor, da grandeza de um melro, o qual se cria na Noruega e Suévia, e de inverno se acha de arribação em Portugal, a que chamamos esmi-rilhão, nasceria o nome de mirleu, aludindo ao mirle que, vindo a Primavera, se torna ao seu país, pois os que vinham de França e outras partes, regularmente falando, só aqui se demoravam enquanto os seus interesses os detinham.”
Não cuidou Viterbo de verificar se em Portu-gal houve, na Idade Média, albergarias com o nome de Mirleu. Apoiou-se no único exemplo de Coimbra — o qual, como já veremos, é mais do que equívoco.
Contestada por Leite de Vasconcelos (1928– –1929, p. 254, considerando “muito aventu-roso” o étimo proposto por Viterbo), esta expli-cação foi retomada por Dieter Kremer (1988) e acolhida no Dicionário Houaiss (s.v. milreu). Outras explicações foram, entretanto, propostas.
A. Ferraz de Carvalho (1943, p. 105) suge-riu, como étimo, o cognome latino Merulus; Pierre David (1943, p. 22) pensou “na palavra merlellus, da raiz que deu o francês merlon e o italiano merletti”; J. Pedro Machado (19932)
derivou Milreu de mil, que seria palavra cél-tica para “outeiro” + reo, “regato”; e Maria Luísa Azevedo (2005, p. 117, n. 243) interro-gou-se sobre a eventualidade de termos uma raiz gótica mil-.
Nenhuma destas etimologias é sustentável. Merula é conhecido como cognomen latino — como Merulius e Merulinus (Kajanto, 1982). A evolução normal seria, porém, Merula > Merla (e, com eventual metátese, Melra). Acresce que o nome pessoal, sendo conhecido na Aquitânia, não está atestado na Lusitânia e o único registo conhecido na Península Ibérica parece ser o de Calahorra (Logronho) (Abascal, 1994). São duvidosos dois exemplos da Bética.
Quanto à sugestão de Pierre David, aduziu o autor, como argumento, o facto de a área de Mirleus, em Coimbra, ficar junto das muralhas. Ora, como vimos, a documentação coimbrã mais antiga aponta para a localização do topónimo na área do actual Museu Nacional de Machado de Castro e não junto das muralhas da cidade. Além disso, o nome repete-se, em Portugal, em lugares onde não há nem nunca houve mura-lhas ou castelos. Por último, o nome merlão, do italiano merlone, não se usava em Portugal nem na Espanha na Idade Média: o nome usado era mena, amena ou almena, depois, ameia (Pérez de Tudela & alii, 1991, p. 86).
A suposta raiz gótica mil- não explica o segundo elemento do topónimo. Da mesma forma, ficaria por explicar esse elemento se admitíssemos uma hipotética raiz, também gótica, mir-, presente em nomes pessoais e topónimos (Piel, 1936, pp. 211–212; Piel & Kre-mer, 1976, pp. 203–204, 311–312).
Quanto à etimologia de J. Pedro Machado, é certamente correcta a sua interpretação de Milreu como palavra composta de dois elementos. A forma mais antiga parece ser, porém, a de Mirleu. Neste caso, teríamos uma raiz mir-, e não mil-. Essa raiz remete-nos para um elemento hidronímico (Lambrino, 1959, pp. 488–491; Pedrero, 1996). Quanto ao signifi-cado de reo-, poderemos considerar a sua alu-são a “água” ou a “corrente de água” (Prós-per, 2002, pp. 140–144).
topónimo com o elemento aquático, tomaremos primeiro outro caminho para tentar explicar o nome.
A relação de Milreu ou Mirleu com “alberga-ria” poderia sustentar-se se encontrássemos o topónimo em sítios que, comprovadamente, funcionaram na Idade Média como pousadas, estalagens ou albergues. Não é o caso, por-que o único exemplo por-que pode aduzir-se — o de Coimbra — é, como já dissemos, equívoco. Em 1511 refere-se o hospital dos Myryleus situado na cidade de Coimbra junto dos paços d’alcaçova; em 1527 alude-se ao ospital dos Mirleus que está defronte da porta principal da igreja de Sam Pedro (Carvalho, 1943, p. 104). Viterbo transcreveu parcialmente um docu-mento de 1344: super decimam possessionem ad hereditatum ospitali seu albergaria Domini Regis sitae praedictae ecclesiae S. Petri.
Um documento de 1615 ainda se refere à albergaria de Mirleus, cujos bens foram nessa data incorporados no Hospital Real (Correia, 1952, pp. 7–9).
É óbvio que, junto da igreja de S. Pedro (desaparecida nas obras da Cidade Universitária de Coimbra, ficava defronte do actual Arquivo da Universidade, Fig. 1) havia um “hospital”, albergaria ou leprosaria. J. Pinto Loureiro (1964, p. 144) refere, em documento de 1235, uma vinha deixada ao cabido da Sé juxta murum Colimbriensis civitatis in loco que vulgariter dicitur Milleu, confrontando de um lado com a muralha, e, do outro, cum lepro-sis. Talvez a leprosaria do século XIII já não existisse no século XIV e no mesmo edifício, ou perto dele, se tivesse instalado um “hospital”. Hospital ou leprosaria não era pousada para viandantes. Daí a falta de fundamentação para a explicação avançada por Viterbo. Por outro lado, são do século XIII, XIV ou XVI os documentos que permitem situar Myryleus / Mirleus / Milleu nas imediações da igreja de S. Pedro. São de fins do século XI os que atestam a situação de Mirleus junto do actual Museu Nacional de Machado de Castro. É natural que tenha havido transferência de nome de um local para outro — ou, eventualmente, a extensão do nome a uma área mais vasta do que aquela a que a designação inicialmente se aplicava. Transferências ou transposições topo-nímicas sempre foram frequentes.
Alguns dos lugares que têm ou tiveram o nome de Mirleus, Milreu ou Mileu (em Coimbra, o
nome despareceu) estão indiscutivelmente ligados a ruínas romanas de considerável monumentalidade.
Em Coimbra, Mirleu ou Mirleos era original-mente o sítio do antigo forum romano, do qual subsistiriam, nos finais do século XI, notá-veis ruínas. Pelo menos subsistia, íntegro, o criptopórtico.
Milreu é, em Estói (Faro), o nome de uma das mais famosas villae romanas de Portugal. Na Póvoa de Mileu (Guarda) há ruínas de umas termas públicas romanas, hoje muito des-truídas, mas que poderiam ainda ter, na Idade Média, algum vulto. Não pode excluir-se a hipótese de ter sido aí a sede da civitas dos Lancienses Transcudani (Pereira, 2012; Cameijo, 2009).
No século XVII, Coelho Gasco deu notícia de uma inscrição consagrada pela civitas Aravo-rum ao imperador Adriano achada “em huus mileus” em Marialva (Encarnação, 2014). Os vestígios ainda hoje visíveis, designadamente os do templo do forum, e os que têm sido noti-ciados por vários autores, não deixam dúvidas sobre a importância da cidade antiga. No século XVIII ainda havia em Marialva uma ermida de Nossa Senhora dos Mileus (Rodri-gues, 2002, p. 257).
Esta associação de Mirleos, Milreu, Mileu a ruí-nas romaruí-nas de grande dimensão leva-nos a sugerir a etimologia mire letum, com o advér-bio mire, “admiravelmente” e a forma nomi-nal substantiva letum, do verbo leo, forma alternativa de deleo, “destruir”. Mire poderia, aliás, usar-se no século XI não como advérbio, mas como adjectivo. O sentido de mire letum seria “admirável, ainda que destruído (ou arruinado)”.
A evolução mireletum > mirledo > mirleo não põe problemas. O abrandamento do /t/ em /d/ é normal. A posterior síncope desta consoante verifica-se em pede > pee > pé ou na forma verbal debetis > deveis.
Há casos em que é possível, mas duvidosa, a relacionação do nome com ruínas ou sítios de interesse arqueológico.
Na freguesia da Raposeira, concelho de Vila do Bispo, o nome acha-se num local onde se ergue um conjunto notável de 21 menires (Gomes & Silva, 1987, pp. 51–52). Se bem que seja um monumento arqueológico que poderia impressionar as gentes da Idade Média, não se trata propriamente de ruínas. Os autores
dão ao local o nome de Milrei, mas a carta 1:25 000 regista Milreu.
Nas Memorias Parochiais de 1758 lemos:
Em o sítio da Herdade de Milreo, dis-tante tres legoas [de Alandroal], houve antigamente hum castelo, do tempo dos Mouros, que cahia sobre o Guadiana, o qual se acha hoje totalmente arruinado, e nam tem mais que os alicerces, e den-tro leva quaden-tro alqueyres de semeadura quando o lavraõ e semeaõ (Azevedo, 1886, p. 141).
Frei Agostinho de Santa Maria (1711, pp. 473– –474) alude à veneração de Nossa Senhora de Mileu em Calvinos (Tomar). Aqui há efecti-vamente ruínas. Carlos Batata (1997, pp. 166– –168) classificou o sítio como castro da Idade do Ferro com ocupação também romana. Segundo uma informação do século XVI, ficaria em Cal-vinos o castelo de Ceras doado por D. Afonso Henriques aos Templários em 1159 (DR 271): “abaixo de vendas de Çeras e de hua aldeia que se chama dos Calvynos, que he casy em meo da limitação desta terra; e ora nom se vee delle mais que algus pedaços de fundamentos” (apud Barroca, 1996–1997, p. 178).
Se, nalguns casos, o nome de Mirleu / Milreu / Mileu parece relacionado com ruínas, noutros, porém, a relacionação parece ser com águas. Atrás aludimos a illa fonte quos vocitant Mirleu em Santa Comba do Corgo, em documento de D. Afonso Henriques, e ao portum de Mirleus na delimitação da diocese de Braga.
No concelho de Fronteira, Mileu parece cor-responder a uma fonte na margem direita da ribeira do Beringelo. Não é fácil relacio-nar o nome com as ruínas de um povoado da Idade do Ferro (com indícios, todavia não ine-quívocos, de manutenção nas épocas romana e medieval) situado a cerca de 1500 m, no outeiro de S. Miguel (Carneiro, 2004, p. 235). Nestes casos, poderá o topónimo explicar--se através de mire laetus? Teríamos o mesmo advérbio mire, mas o adjectivo laetus.
A palavra latina laetus significava “alegre, agradável, que dá prazer”. Podia ter também o sentido de “gracioso, airoso, vistoso”.
Numa inscrição da igreja românica de S. Salva-dor, em Coimbra, datada de 1179, gravou-se Stephanus Martini sua sponte fecit hanc portalem leta fronte (Barroca, 2000, n.o 159). António de
Vasconcelos (1936) traduziu: “à sua custa e com satisfação”, mas parece mais razoável o entendimento “fez, à sua custa, este portal com sua graciosa (ou bela) fronte (ou fachada)”. De laetus derivou a palavra ledo, que na Idade Média se pronunciava com /e/ aberto e depois passou a pronunciar-se lêdo (Cunha, 1988). Com o sentido de “gracioso, alegre, prazen-teiro”, a palavra foi comum no português e no castelhano, mas acabou desusada em ambas as línguas.
Aplicado a uma fonte, mire laetus significaria “(água) agradável de beber” ou “(água) admi-ravelmente agradável”. Nomes como Águas Belas, Água Boa e Água Formosa, presentes na toponímia portuguesa, poderão servir de argumento para sustentar a hipótese de mire laetus se ter aplicado a águas ou fontes? Em Mirleu / Milreu / Mileu teríamos, assim, não uma palavra, mas duas, com diferentes etimo-logias e significados.
Impõe-se, todavia, a investigação de outras ocorrências.
No concelho de Vila de Rei temos Milreu e ribeira do Vale de Milreu. Aqui, são impres-sionantes as “conheiras”, isto é, grandes aglo-merados de seixos que resultaram de explo-rações aluvionares (de ouro?) (Batata, 2006, pp. 165–167; Domergue, 1987, II, p. 528). Em Alvares (Góis) temos Milreu e Foz de Milreu. Nesta área, concretamente em Escádia Grande e Covas dos Ladrões, há covas ou galerias de exploração aurífera antiga, designadamente romana (Alarcão, 1988, 4/117 e 4/118). Nestes casos em que Milreu se associa a tra-balhos vultuosos de mineração antiga que dei-xaram assinaláveis vestígios, poderemos ainda considerar como etimologia mire letum, no sen-tido de coisa morta ou abandonada, ma sur-preendente ou admirável?
Sem associação óbvia, temos Quinta do Mileu em Soutelo (S. João da Pesqueira), Mileu em Caria (Moimenta da Beira), Milreu em Casta-nheira de Pera e o culto da Senhora do Mileu em Veiros. Neste último caso, diz a lenda que os cristãos fugiam dos mouros quando lhes apareceu uma senhora com um menino ao colo e os incitou a enfrentarem os infiéis, dizendo-lhes: “Para mil, eu”. Frei Agostinho de Santa Maria (1711, pp. 473–474) confirma esta veneração de Nossa Senhora do Mileu em Veiros.
relacionar-se com Milreu, ainda que tal hipótese não possa afastar-se, visto que silva deu selva, vispa deu vespa, circa deu cerca. A evolução melredo > melreu parece, todavia, mais provável — e, neste caso, Melreu entraria na lista dos numerosos topónimos relacionados com a ave, melro.
Se a relacionação de Milreu / Mirleu / Mileu com “albergaria” deve abandonar-se, por falta de fundamentação minimamente con-vincente, as hipóteses que pomos aguarda-rão o veredicto de quem tenha sólida forma-ção linguística. Nesta matéria é óbvio o nosso amadorismo.
54. Contributos da epigrafia para a toponomástica
A nota anterior mostra que a Arqueologia pode ser útil na discussão da etimologia de certos topónimos. Não menos útil pode ser a Epigrafia e disso daremos exemplos.
Nas inscrições de época romana encontramos por vezes insuspeitados topónimos que resol-vem dúvidas ou corrigem erros de quem se dedica a estudos toponomásticos com forma-ção essencialmente linguística, mas ignorando dados epigráficos.
J. P. Machado (19932) considerou de “origem
obscura” os topónimos Nagosa, Nagosela, Nagoselo.
A. de Almeida Fernandes (1999), regis-tando, em documentação medieval, as formas Nagosa, Negosela e Negoselo, derivou estes nomes de *nucosa, *nucoso, de nux, “noz” e concluiu que se trata de topónimos relaciona-dos com “nogueira”.
Maria Teresa Veloso (2008–2009, p. 265, n. 42) entendeu derivar Nagosela do antropó-nimo Enego, através do patronímico *Enegozi. Se o nome pessoal Enego, através da forma Ennegot (Vasconcellos, 1928, p. 110), pode ter dado Ingote (topónimo conhecido em Coim-bra), é óbvio que nada tem a ver com Nago-sela. Este topónimo deve relacionar-se com um nome pré-romano de lugar, Nagoso ou Nacoso, mantido na Época Romana.
Numa casa em ruínas à entrada da povoação de Casais, na freguesia de S. João da Fresta, concelho de Mangualde, descobriu-se há anos uma inscrição em que se lê c(astelllo) Nacosos. A inscrição, votiva, põe problemas de leitura
e de interpretação (Vaz, 1997, pp. 223–224), mas é inequívoco o nome Nacoso e apenas é incerta a presença de um /s/ ou um /c/ como letra final.
Em DC 130, de 981, encontramos villa Negose-lla, na área do Dão.
Na freguesia e concelho de Penedono existe o topónimo Nagoselho. O Repertório Toponí-mico regista Nagosa, Nagosela, Nagoselo do Douro, Nagozelo. A dispersão do topónimo deixa supor que o nome pré-romano se repe-tia em diferentes lugares.
É também através de uma epígrafe que se contesta a etimologia de Bouro proposta por J. Silveira (1914, pp. 118–119) e por J. M. Piel (1936, p. 50). Consideraram estes autores pro-vável que na origem do nome esteja o gótico *bûr com o sentido de “casa”. Não conheceram a ara consagrada Laribus Buricis encontrada em Carrazedo (Amares) (Garcia, 1991, p. 361). Esta permite reconstituir um topónimo Burum. O nome de Bouro, em Terras de Bouro (no Alto Minho), terá, pois, origem pré-romana. Ptole-meu regista Burum entre os Callaici Lucenses (García, 2003, pp. 188–190).
Mais incerta é a origem do nome serra de Bouro nas imediações de Caldas da Rainha. Neste caso, Bouro talvez se relacione com eburo, “teixo”, palavra que está na raiz de Eburobrittium, cidade que ficava no vizinho concelho de Óbidos (Moreira, 2002). Na Beira Baixa temos Eburobriga (Encarnação, 2008). Da mesma raiz é o nome indígena de Liberali-tas Iulia Ebora.
O teixo é árvore relacionada com a morte. Por ser venenosa, a sua folhagem foi usada como poção por suicidas. No século XIX era árvore que se plantava à entrada dos cemitérios (Abella, 2009). Nesse tempo, os féretros eram conduzidos em carretas puxadas por mulas. Os animais comiam a folhagem enquanto se pro-cedia, no interior do cemitério, às cerimónias fúnebres. Frequentemente, os animais ficavam doentes ou morriam pouco depois. Quando se descobriu a causa, foram os teixos suprimidos como árvores cemiteriais e substituídos pelos ciprestes.
55. Avaricini na Póvoa de Varzim?
Numa inquirição de 1288 feita na paróquia de S. Miguel de Argivai (hoje Argivai é freguesia
do concelho de Póvoa de Varzim) fala-se de Verasim de Jussãao, de Veraçim dos Cavaleyros (onde havia dois paços de filhos e netos de Lourenço Fernandes da Cunha) e de um porto de pesca (Inquirições de D. Dinis, pp. 559–561). O despacho régio, na sequência da inquiri-ção, confirma a existência de três localidades: Varazim de Jusaao (isto é, de Baixo), Varazim de Susaao (isto é, de Cima) e Varazim dos Cava-leyros; e deixa crer que Varazim de Jusaao era o porto (ou modesta povoação de pescadores, provavelmente coincidente com o núcleo origi-nário da cidade de Póvoa de Varzim).
Os descendentes de Lourenço Fernandes da Cunha (sobre a família vid. Ventura, 1992, pp. 641–618) cobravam indevidamente o navão (imposto sobre a pesca); no despacho régio diz-se que não lhes cabia essa cobrança, visto ser direito da coroa.
O nome de Verazini > Verazim > Varazim encontra-se atestado em 1033, 1198 e 1258. Em DC 281, de 1033, fala-se de villa Teroso (Terroso) et ave jacentia in loco predicto inter Verazini et Regaulfi (Regoufe) et Amorim (Amo-rim) alphe montis Lanutus (Laundos) prope litore maris.
Em 1198 fala-se de villa Verazim…subtus mons Lanudus e, em 1258, in loco qui dicitur Varazim na paróquia de S. Miguel de Argivai (Costa, 1959, II, pp. 2 e 51).
Mais antigo, de 953, é o documento DC 67 que, reportando-se a Vila do Conde, diz: in ripa maris prope ribulo Ave subtus montis Ter-roso id est villa de Comite (Vila do Conde) quo-modo dividet cum villa Fromarici (Fromariz) et cum villa Euracini.
Pode estranhar-se a forma Euracini. Admitindo que a esta grafia correspondia uma forma falada Evrazine ou Evaracine (ou Evracim / Evaracim), teríamos, em 953, a forma mais antiga do topónimo, com uma vogal inicial que teria posteriormente caído, como em Avicella / Vizela.
Não rejeitaremos inteiramente a proposta de J. P. Machado (19932), que deriva Varzim de
Veracini, genitivo do nome pessoal Veracius. Este nome (aliás, Veratius) está atestado. Se bem que o genitivo de Veratius devesse ser Veratii ou Verati, é fácil admitir um antropó-nimo Veratinus > Veracinus.
Iremos apresentar, porém, uma sugestão alternativa.
Mela II, 1, 15 menciona, no litoral setentrional
de Hispânia, os Avarigini. O nome da antiga cidade francesa de Bourges foi Avaricum. Pto-lemeu II, 6,1, alude ao cabo Avaron, que deve situar-se entre Póvoa de Varzim e Esposende. À forma grega do geógrafo corresponde a latina Avarum.
Não nos parece temerário supor que, de Ava-rum, com dupla sufixação -ic e -ini, se tenha formado o etnónimo Avaricini. Estará este na origem do nome de Póvoa de Varzim? E Ava-rum seria só o nome do cabo, ou também de povoação? No concelho de Póvoa de Varzim conhecem-se quatro castros: Terroso, Laundos, Estela e Navais (Silva, 1986, p. 82). Algum terá tido o nome de Avarum?
56. Uma estação romana na Quinta do Anascer?
No Museu Municipal do Fundão conserva-se uma pequena escultura romana de ninfa ador-mecida encontrada em Casal de José Francisco do Anascer, na freguesia de Benquerença, con-celho de Penamacor (Souza, 1990, n.º 25; Gon-çalves, 2007, n.º 127; Carvalho, 2007, p. 252). A execução da peça é medíocre. Do ponto de vista histórico-artístico, pouco interesse tem — a não ser o de confirmar que, na época romana, nunca houve, na Beira Interior, oficina de escultor de algum mérito. Também não se terão importado obras de qualidade. A está-tua couraçada da Póvoa do Mileu (Guarda) (Souza, 1990, n.º 132; Gonçalves, 2007, n.º 44) é uma excepção.
No local onde a estatueta foi encontrada registaram-se outros achados romanos (Carva-lho, 2007, p. 252; Banha & Ferro, 2018, p. 30). Haveria aqui modesta villa ou granja?
Curioso é o nome do lugar: Anascer. Junto do ribeiro do Casteleiro ficam a Quinta do Anas-cer, a Quinta do Anascer da Condessa e o Casal de José Francisco do Anascer.
Será este nome corruptela de “anaçar”? Bluteau (1789) regista “anaçar” com o sentido de remexer ou agitar líquidos.
No Dicionário Houaiss, “anaçar” tem o signifi-cado de “agitar bastante, revolver (especial-mente líquidos), bater, misturar”. Não dá ates-tações e, considerando controversa a etimolo-gia, cita, todavia, Adolfo Coelho, que propôs adnateare, de natare, “nadar”.
aldeia de Lousadela, sobre o Vouga, escreveu: “A aldeia rechina ao sol bravo. Vê-se treme-luzir a canícula, chamazinha branca e irreal como álcool puro a arder… De facto, é como se a atmosfera fosse composta de escamas, as pequeninas, convulsas e nacaradas escamas de um bordalo que, para se manter suspenso a meio da massa líquida, move, vai movendo as barbatanas de forma tão imperceptível que apenas pela irisão da luz se pressente a anas-sar a água”.
Talvez anaçar seja forma preferível a anassar. Aquilino Ribeiro, possivelmente, só conheceu a palavra de outiva.
O ribeiro do Casteleiro, junto do qual ficam aqueles lugares, parece-nos corresponder ao rio de Nocer mencionado no foral de Belmonte, datado de 1199 (DS 119). Em que medida Nocer e Anascer são deturpações de uma palavra que, mais correctamente, seria “ana-çar”? O ribeiro chamar-se-ia do Anaçar com alusão ao movimento das águas? Perdido o sentido do nome, aqueles lugares ter-se-iam chamado do Anascer?
57. Cibele ou Fortuna Redux em Mértola?
No Museu Nacional de Arqueologia (Lisboa) guarda-se uma cabeça feminina de grandes proporções, com coroa turriforme, encontrada em Mértola (Fig. 2).
Leite de Vasconcelos (1913, p. 333) foi quem primeiro deu notícia da peça, que identificou como representação de Cíbele.
Desde então, muitos outros autores se lhe refe-riram (Gonçalves, 2007, pp. 273–277, com ampla bibliografia). Não existe discordância quanto ao facto de se tratar de obra impor-tada, nem grande divergência quanto à crono-logia: é obra do tempo de Augusto ou Tibério. Hesitam os autores entre a identificação com Cíbele ou com Fortuna/Tyche — ainda que se tenha também proposto que representa Lívia (neste caso, divinizada).
As dúvidas só poderão esclarecer-se se vierem a ser achadas partes do corpo e, com elas, alguns elementos iconográficos complementa-res. A corona muralis não é, só por si, suficiente para optarmos por Cíbele ou Fortuna.
Considerações de ordem histórica e topo-gráfica levam-nos a admitir tratar-se de For-tuna Redux — embora reconhecendo que não
podemos apresentar argumentos suficiente-mente sólidos ou inteirasuficiente-mente convincentes. O culto de Cíbele foi introduzido em Roma em 204 a.C. e data de 191 a.C. o primeiro tem-plo que naquela cidade lhe foi dedicado. Não temos, porém, prova nem suspeita de que esta divindade de origem oriental tenha tido culto na Lusitânia no tempo de Augusto ou Tibério. Os testemunhos epigráficos não parecem ante-riores ao século II d.C., e talvez só na segunda metade do mesmo século ou no III se tenha este culto difundido na província.
Pelo contrário, o culto de Fortuna, muito antigo em Roma (Champeaux, 1982), é perfeitamente admissível em Mértola no tempo daqueles imperadores.
Fortuna foi venerada em todo o Império com muitos epítetos. Kajanto (1988) recolheu cerca de 80, embora admitindo que nem todos se podem considerar confirmados.
Um desses epítetos foi o de Redux. A Fortuna Redux era a divindade a quem se agradecia o regresso de alguém, são e salvo: por exemplo, o de um imperador vindo de expedição mili-tar ou de longa viagem. Ainda que não sejam muitos ou inequívocos os testemunhos de que se podiam dirigir preces a Fortuna Redux também no momento da partida, ou que a deusa era invocada comummente por particulares (ou por familiares de quem partia ou chegava), não parece temerário supor que tal prática podia ser frequente.
Fig. 2 – Cabeça recolhida em Mér-tola (hoje no Museu Nacional de
Data de 19 a.C. o primeiro templo construído em Roma a Fortuna Redux. Foi Augusto quem o mandou edificar (De Caprariis, 2005).
A cabeça de Mértola foi achada no lugar da Igreja da Misericórdia da vila, e esta fica sobranceira ao que seria, na época romana, o movimentado porto fluvial da cidade. Terá havido aí, já em tempo de Augusto ou Tibé-rio, algum templo a Fortuna Redux, a quem os marinheiros ou viajantes dirigiam suas preces quando partiam, ou agradeciam, quando che-gavam, a protecção que a deusa lhes havia concedido?
58. Notas sobre a villa romana de S. Cucu-fate (Vidigueira)
Uma domus na cidade e uma villa no campo, quando sobreviveram dois, três ou mais sécu-los, foram, naturalmente, objecto de remode-lações. Nalguns casos, essas obras não alte-raram plantas nem alçados e podem ter-se limitado a repintura das paredes, substituição de pavimentos, reparação de telhados. São comuns os casos em que os mosaicos de uma domus ou villa não são todos da mesma data — e isso demonstra que houve remodelação de pavimentos. Quando as pinturas murais não correspondem, pelo estilo, à suposta (ou provada) data da construção da vivenda, devemos também pensar que se trata de obras de remodelação interior.
Às vezes, sem que plantas ou alçados tenham sido substancialmente alterados, houve transformações maiores que as de simples repavimentação ou repintura de paredes. Duas domus de Conimbriga documentam esses casos (Alarcão, 2010).
Outras vezes, os edifícios foram demolidos e reconstruídos de modo inteiramente novo. Isso terá sido menos comum nas domus urba-nas do que na pars urbana das villae. Tal facto entende-se se pensarmos que, nas cidades, os proprietários estavam condicionados pelo cadastro. Quem quisesse reconstruir sua casa não disporia, geralmente, de área superior à do edifício que pretendia renovar. Raramente poderia adquirir um prédio contíguo e, jun-tando dois lotes, dispor de uma área maior para edificação inteiramente nova.
O que nas cidades se pode observar, a partir do século IV, em vivendas que tinham pórticos
de fachada ao longo das ruas, é o tapamento desses pórticos e a instalação, aí, de pequenos estabelecimentos comerciais ou artesanais. A partir do século V, também se regista o abandono de algumas ricas domus pelos seus proprietários e a ocupação dos prédios por famílias modestas ou mesmo pobres que, sem fazerem grandes alterações nas paredes, transformaram completamente o uso dos com-partimentos. No triclínio instalaram, por exem-plo, suas dormidas; no que era quarto de dor-mir acomodaram cozinha ou, até, curral. Serve de exemplo a “casa dos mármores” de Mérida (Perich & Gris, 2015).
Nas villae, os proprietários não estavam con-dicionados pelo cadastro. Assim, era mais fácil demolir o existente e construir uma pars urbana inteiramente nova. Quando isso sucedia, a antiga construção mantinha-se, total ou par-cialmente, enquanto se erguia o novo edifício, de modo a que o proprietário pudesse acom-panhar, in loco, a edificação do novo prédio? O caso da villa de S. Cucufate é, sob este aspecto, exemplar. Discutindo-o, parece útil aproveitar a oportunidade para rever alguns pormenores do relatório apresentado há quase trinta anos (Alarcão, Étienne & Mayet, 1990). Em S. Cucufate identificámos uma pars urbana que, edificada em meados do século I d.C. (villa I), foi inteiramente reconstruída nos meados do século II (villa II) e sujeita a uma nova recons-trução nos meados ou na segunda metade do século IV (villa III).
Se pouco sabemos da villa I, pudemos recupe-rar a planta da villa II — que era uma villa de peristilo. A villa III adoptou um modelo comple-tamente diferente, que não tem paralelo até agora reconhecido na Lusitânia, mas recorda exemplos da África do Norte.
Na Fig. 3, reproduzimos, a negro, a planta da villa II, tal como agora a entendemos. São irrelevantes as diferenças relativamente à pro-posta apresentada em 1990 (Alarcão, Étienne & Mayet, 1990, Pl. XLIV). Residem fundamen-talmente no desenho das divisões 1 e 2. A nossa proposta deve, contudo, considerar-se com reservas, dada a grande destruição pro-vocada por um caminho carreteiro moderno que, dos muros antigos, apenas deixou disjecta membra.
Na mesma Fig. 3 representamos, com mancha cor de lilás, a área da villa III e, a verde, um corpo que o arquitecto projectou para essa
villa, mas que nunca passou dos alicerces. São insondáveis as razões que levaram à suspen-são desta obra. Dificuldades económicas do proprietário que, imprudente, terá encomen-dado obra maior do que aquela que as suas finanças recomendariam, são apenas uma explicação possível. Ter-se-á o proprietário achado, a certa altura, endividado e obrigado a interromper os trabalhos? Ou terá sido outra a razão da suspensão da obra?
Na Fig. 3, propomos, em 1, a entrada da villa II e, em 3, o triclínio. Não existe perfeita axia-lização. O eixo longitudinal da entrada não coincide com o do triclínio, e nenhum deles cor-responde ao eixo menor mediano do peristilo. No peristilo, e em face da entrada do triclínio, vemos um tanque ou fonte semicircular.
A sul ficavam as termas, alimentadas por um aqueduto que vinha de um grande tan-que nas traseiras da villa. O compartimento a que demos o número 2 seria uma sala que daria acesso do peristilo às termas; tinha um pequeno tanque.
As setas da planta 3 indicam as portas de comunicação: nalguns casos, seguras; noutros, apenas prováveis.
É óbvio que a parte da villa II a ocidente do peristilo foi sacrificada e demolida para a cons-trução da villa III. É também mais do que prová-vel que o projecto da villa III implicasse a des-truição das termas da villa II. Talvez o edifício que não passou dos alicerces se destinasse às novas termas. Esta hipótese é, todavia, incerta,
pois não vemos claramente onde é que se teria pensado instalar o praefurnium. Do lado noroeste?
A construção que representamos com man-cha de cor lilás na Fig. 3 pôde realizar-se e concluir-se sem que uma boa parte da villa II tenha sido destruída. Os próprios alicerces que desenhamos a verde foram erguidos sem que as termas tenham sido arrasadas. Abando-nada a elevação deste último corpo, as termas da villa II foram reutilizadas na villa III, even-tualmente com alguma remodelação.
O proprietário poderá, pois, ter acompanhado in loco a construção da villa III, residindo na parte da villa II poupada à demolição e uti-lizando as termas. Se o fez ou se se transfe-riu para outra sua residência (na cidade de Pax Iulia?) e apenas ocasionalmente veio à villa enquanto duraram as obras, não sabemos dizê-lo.
Incerto é o que o arquitecto, ao projectar a villa III, pensou para as traseiras do edifício, isto é, para a parte não destruída da villa II. Desenhamos na Fig. 3, a traço azul, cheio, um muro que é inequivocamente da villa III e que parece corresponder à base de um pór-tico. Talvez o arquitecto tenha projectado um vasto jardim envolvido por um quadripórtico cujo traçado hipotético representamos a azul, mas não a cheio. Infelizmente, não realizámos sondagens no alinhamento do suposto quadri-pórtico para verificar a hipótese. Certo é que, se essas sondagens tivessem sido feitas, e no
Fig. 3 – Planta sobre-posta das villae II e III de S. Cucufate (Vidigueira).
caso de não termos encontrado alicerces, não poderíamos excluir liminarmente a hipótese de um projecto de quadripórtico com a configu-ração e extensão que lhe demos. Assim como o corpo que desenhamos a verde não passou dos alicerces, podemos admitir um quadripór-tico projectado e não realizado.
O suposto jardim porticado teria exigido a demolição, se não da totalidade da pars urbana da villa II, pelo menos de mais alguns compartimentos dela que acabaram por ser mantidos.
A quadra que, na Fig. 3, identificamos com o n.º 3 foi, na villa II, o triclínio. Manteve-se na villa III, mas, destelhado, parece ter sido convertido num triclínio de ar livre.
Pavimentada de opus signinum, esta quadra
apresenta uma estrutura de alvenaria em arco de círculo ligeiramente ultrapassado (Figs. 4 e 5). Não soubemos, no relatório de 1990, inter-pretá-la. Parece-nos agora que se trata de um stibadium.
No século IV, abandonado o hábito de os comensais se reclinarem em três leitos (donde o nome de triclinium), passou a adoptar-se um banco arqueado onde aqueles se sentavam (ou reclinavam) (Dunbabin, 2003, pp. 169–174; Chavarría, 2007, pp. 100–103). Chamou-se, a esse banco, stibadium. É também conhecido por sigma.
Um baixo-relevo de Tróia que representa um banquete (Souza, 1990, p. 57; Gonçalves, 2007, pp. 396–400) (Fig. 6) permite-nos imaginar o aspecto que teria o stibadium de S. Cucufate. Fig. 4 – Planta do compartimento da villa de S. Cucufate com stibadium. Na planta, também a abside do “oratório”.
Uma estrutura similar observa-se na villa de El Ruedo (Almedinilla, Córdova) (Fig. 7), se bem que aqui se veja uma fonte nas traseiras do stibadium (Vaquerizo & Carrillo, 1995; Cha-varría, 2007, pp. 100–103, 243–244; Almon, 2016, pp. 66–69).
O pavimento de opus signinum está roto no centro da estrutura de S. Cucufate. Podemos supor aí uma coluna ou pilar de mármore que suportaria o tampo de uma mesa do mesmo material. Estas peças terão sido desmontadas em época tardo-antiga ou medieval — e daí a ruptura do pavimento.
No chão de opus signinum observam-se bura-cos. Pelo menos alguns deles poderão corres-ponder a postes de madeira que suportariam uma pérgula. O triclínio de ar livre seria, assim, sombreado.
Junto do triclínio de ar livre de S. Cucufate veio a construir-se, posteriormente, uma pequena “basílica” paleocristã (Fig. 4). Um caminho car-reteiro moderno destruiu a maior parte desta estrutura: do lado oriental não encontrámos nenhuns vestígios.
Como a “basílica” não destruiu os muros do lado oriental da villa (muros que, vindos da villa II, se mantiveram na villa III), parece--nos que devemos imaginar uma nave trans-versal de pequenas dimensões e uma entrada descentrada.
Dois fragmentos de pequenos fustes de már-more encontrados na área permitem suspeitar de uma tripla arcada na entrada da abside. Isto é, todavia, incerto, dado que as peças foram recolhidas em terras muito revolvidas pelo caminho moderno.
Nas basílicas da província de Cáceres, como em Los Santiagos, San Blas e Dios Padre (Mateos & Caballero, 2003), as naves são compridas, no sentido longitudinal. Nada proíbe, porém, a hipotética planta que propomos para S. Cucu-fate (diferente da que sugerimos em Alarcão, Étienne & Mayet, 1995).
A esta pequena “basílica” talvez devêsse-mos chamar “oratório”. Se em algumas villae tardo-romanas ou tardo-antigas se construí-ram basílicas de considerável dimensão, nou-tras ter-se-ão edificado modestos lugares de culto. Nalguns casos ter-se-á apenas sagrado ou “cristianizado” um aposento com aposição do chrismon pintado na parede.
A villa III teve um templo pagão (semelhante, na planta, ao de Milreu), em cujo períbolo se fize-ram sepulturas de inumação (Alarcão, Étienne
Fig. 5 – Fotografia do compartimento de S. Cucufate com stibadium. Fig. 6 – Fragmento de tampa de sarcófago recolhida em Tróia (hoje no Museu Nacional de Arqueologia, Lisboa).
& Mayet, 1995). Devemos admitir, por isso, que o templo foi, a certa altura, cristianizado (como, aliás, sucedeu na villa de Milreu, vid. Teichner, 2008, p. 253). Fica sem resposta a pergunta: a “basílica” ou oratório de S. Cucufate precedeu a cristianização do templo ou foi-lhe posterior? Porque a villa foi, a certa altura, convertida em mosteiro (Moura, Cabrita & Serrão, 1989), acaso o “oratório” deve atribuir-se ao cenó-bio? Infelizmente, não encontrámos elementos que nos permitam saber se houve algum hiato na ocupação de S. Cucufate e se o mosteiro
se instalou após um período de abandono do edifício. A villa pode ter sido abandonada na segunda metade do século V (Alarcão, Étienne & Mayet, 1990, pp. 47–48, 250–251) e reo-cupada, após um longo período de abandono, por uma comunidade monástica. Mesmo nessa hipótese, fica-nos a dúvida: o oratório terá sido feito nos últimos tempos da ocupação da villa enquanto tal? Ou, quando os proprietários da villa se converteram ao cristianismo, utilizaram o antigo templo pagão? O oratório terá sido erguido pela primeira comunidade monástica?
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