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HABEAS CORPUS Nº PERNAMBUCO

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Academic year: 2021

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HABEAS CORPUS N

º

111.030 - PERNAMBUCO

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RIBUNAL DE

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USTIÇA

Senhor Ministro-Relator:

1.

O paciente, junto com outros corréus, foi denunciado em 19.4.2006

por infração aos arts. 288 (formação de quadrilha), 313-A (inserção de dados

falsos em sistema) e 319 (prevaricação), todos do Código Penal, no Juízo de

Direito da Comarca de Pombos/PE, que recebeu a peça acusatória. Pleiteando o

trancamento da ação penal, foi impetrado habeas corpus no Tribunal de Justiça

do Estado de Pernambuco, que denegou a ordem: “Não é possível o trancamento

da ação penal, pois as condutas imputadas ao paciente configuram crimes, em tese, não

se vislumbra causa extintiva da punibilidade e existem indícios do envolvimento do

acusado nos crimes narrados na peça acusatória. 2. Ademais, o habeas corpus não é o

meio adequado para se discutir questão de mérito, mostrando-se incabível, portanto,

qualquer análise aprofundada sobre a existência dos crimes por meio do remédio

heróico”. Dessa decisão foram opostos embargos de declaração, desprovidos.

(2)

2.

Interposto recurso ordinário, a Sexta Turma do Superior Tribunal

de Justiça, por unanimidade, conheceu parcialmente do recurso, mas negou

provimento, concedendo a ordem de ofício para reconhecer a prescrição da

pretensão punitiva em relação ao crime de prevaricação. O acórdão recebeu a

seguinte ementa:

RECURSO EM HABEAS CORPUS. CRIMES DE PREVARICAÇÃO, QUADRILHA E INSERÇÃO DE DADOS FALSOS EM SISTEMA DE INFORMAÇÃO. PRESCRIÇÃO, ATIPICIDADE DA CONDUTA E AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA. MATÉRIAS NÃO ANALISADAS NA ORIGEM. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. INÉPCIA FORMAL DA DENÚNCIA. INOCORRÊNCIA.

1. Por deficiência na instrução do feito na origem, a alegação específica de que no caso há a atipicidade da conduta (calcada no efetivo exame dos elementos trazidos pelo recorrente) e, também, a ausência de suporte probatório idôneo para a instauração da ação penal, não foram examinados. Tal circunstância inviabiliza, por via reflexa, a possibilidade de se adentrar no mérito do pedido, sob pena de nítida supressão de instância.

2. No que tange ao aspecto formal, observa-se que a exordial logrou apontar conduta do recorrente que, ao menos em tese, pode ser tida como delituosa. Destacou-se sua participação ativa na suposta quadrilha, facilitando a recepção de álcool combustível e sua passagem pelo Estado de Pernambuco sem a abertura de passes fiscais, em detrimento do fisco, além de dar baixa indevidamente no sistema informatizado da SEFAZ.

3. É apta, portanto, a denúncia que delineia, ainda que minimamente, a conduta do acusado, estabelecendo-se, outrossim, um vínculo mínimo necessário entre o comportamento e as atividades criminosas.

4. A pena prevista para o crime de prevaricação (art. 319 do Código Penal) varia de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa. O seu lapso prescricional, portanto, é de 4 (quatro) anos, conforme art. 109, inciso V, do Código Penal. No caso, verifico que a denúncia foi recebida em 19.4.2006 (e-fl.47) e, até a presente data, ainda não foi proferida sentença, inexistindo, portanto, outro marco interruptivo do lapso prescricional. Assim, forçoso reconhecer, como requer o recorrente, a incidência da prescrição em relação a tal crime.

5. Recurso conhecido em parte e, nessa extensão, nego-lhe provimento. Ordem concedida de ofício a fim de reconhecer a incidência da prescrição da pretensão punitiva em relação ao crime de prevaricação.

3.

Por isso o presente writ, no qual insiste o impetrante, em suma, no

trancamento da ação penal: “Claramente verifica-se que a denúncia foi oferecida a

(3)

minimamente a denúncia delineia a conduta do paciente/impetrante para que possa a

mesma ser considerada, ao menos em tese, delituosa. Vejamos: 1. Não existe na

denúncia uma única linha referente ao dado inserido, alterado ou excluído pelo

paciente / impetrante em qualquer sistema público; 2. O sistema informado na denúncia

não é público, não estava regulamentado à época dos fatos constantes da denúncia e,

muito menos, poderiam gerar algum dano ao erário público; 3. Não existe na denúncia

uma única linha referente a qual vantagem auferiu o paciente / impetrante com sua

conduta (atípica pelo simples aspecto material); 4. Não existe na denúncia nada

referente à que vantagem, quem quer que seja, obteve com a conduta do paciente /

impetrante; 5. Não existe na denúncia nenhuma menção ao dano causado ao erário

público originado pela ação do paciente / impetrante; 6. Apenas por amor ao debate, ad

absurdum, se cogitando como a suposta Sonegação Fiscal o dano causado ao Erário

Público oriundo da ação do Paciente / Impetrante, após o trancamento desse tipo penal

pelo STJ4, cairia por terra à tipicidade do artigo 313- A do CP contra o paciente /

impetrante; 7. Mercadoria constante das notas fiscais relacionadas ao Passe Fiscal

Interestadual – PFI baixados pelo paciente/impetrante sujeitas ao recolhimento

antecipado dos impostos. Devidamente recolhidos pelo substituto tributário conforme

credenciamento do mesmo junto a SEFAZ / PE. Inquestionável que os impostos foram

devidamente quitados e, só então, o paciente / impetrante realizou corretamente a baixa

dos Passes Fiscais”.

4.

Não assiste razão ao impetrante/paciente.

5.

Primeiramente, é de se ressaltar que, conforme reiterada

jurisprudência, o trancamento de ações penais por ausência de justa causa, na

via estreita do habeas corpus, só pode ser reconhecido se perceptíveis de plano: a

atipicidade da conduta, a incidência de causa de extinção da punibilidade, a

(4)

ausência de indícios mínimos de autoria ou de prova sobre a materialidade do

delito. Tais hipóteses não ocorrem na espécie.

6.

No caso, como asseverou o acórdão impugnado, a alegação “de

atipicidade da conduta (calcada no efetivo exame dos elementos trazidos pelo recorrente)

e, também, a ausência de suporte probatório idôneo para a instauração da ação penal,

não foram examinados. Tal circunstância inviabiliza, por via reflexa, a possibilidade de

se adentrar no mérito do pedido, sob pena de nítida supressão de instância”.

7.

Narra a extensa e minuciosa denúncia que:

Por intermédio de intenso trabalho investigatório levado a efeito pela Secretaria da Fazenda do Estado de Pernambuco – SEFAZ e pela Delegacia de Crimes Contra a Ordem Tributária – DECCOT, chegou ao conhecimento do Ministério Público a existência de fortes indícios do funcionamento no âmbito do Estado, de uma estruturada associação de mais de três pessoas, em atividade há pelos menos três anos, atuando de maneira concertada, voltada, notadamente, à prática de crimes tributários, envolvendo a comercialização de álcool combustível, com a finalidade evidente de ludibriar a fiscalização tributária estadual e de suprimir o pagamento de ICMS e, por consequência, obter benefício econômico. Além do citado delito, vislumbras-se sinais vigorosos da perpetração de crimes de lavagem de dinheiro, contra a economia popular, contra a fé pública, contra o patrimônio e contra a Administração Pública.

[…]

Como se vê, o cardápio de crimes é extenso e o grupo bastante organizado. Para sonegar tributo, a quadrilha, protegida por membros armados, se estruturou em diversos graus hierárquicos e funções bem definidas, chegando a infiltrar-se no Poder Público, infiltração essa realizada por meio dos denunciados LAERTE PEDROSA DE MELO JÚNIOR e HÉLIO

ROBERTO SOUTO MOREIRA, que, além de prevaricar em favor da quadrilha

nos termos já expostos, chegou a, enquanto de serviço no Posto Fiscal de Xexéu, fronteira com Alagoas, dar baixa de serviço no sistema informatizar da SEFAZ, por duas vezes, em passes fiscais utilizados pelo grupo para internar em Pernambuco mercadoria oriunda da paraíba (docs. 07 e 08, vol. VIII), acarretando dano/prejuízo ao Fisco, consumando, portanto, reiteradamente, o fato previsto no art. 313-A, do Código Penal.

Com tal conduta, tem-se como inequívoca a contribuição do agente público HÉLIO ROBERTO SOUTO MAIOR no móvel da quadrilha criminosa, sendo sua participação essencial para a supressão do crédito fiscal fazendário,

(5)

assim como nas práticas do grupo que possibilitam a concorrência desleal e o domínio parcial do mercado de combustíveis carburantes.

[…]

8.

Observa-se que a denúncia descreve, de forma objetiva e

pormenorizada, fatos que, ao menos em tese, configuram crimes, o que afasta a

pretensão de reconhecimento antecipado da atipicidade da conduta ou da

ausência de justa causa. Ademais, conforme entendimento dessa Suprema

Corte, “não se pode exigir da denúncia prova cabal e definitiva da prática do crime,

uma vez que tal exigência não é compatível com o disposto no art. 41 do CPP e com a

existência de uma fase probatória no processo penal.” (HC nº 83.266/MT, Rel.

p/acórdão Min. Joaquim Barbosa, DJe de 4.6.2004). Por outro lado, o exame da

materialidade e dos indícios de autoria, por exigir apreciação de fatos e provas,

é inviável no âmbito do habeas corpus: “O exame da alegada inocência do Paciente

não se coaduna com a via processual eleita, sendo essa análise reservada aos processos de

conhecimento, nos quais a dilação probatória tem espaço garantido, na forma

constitucionalmente assegurada.” (HC nº 91.158/PR, Rel. Min. Cármen Lúcia, DJe

de 31.10.2007).

9

.

Isso posto, opino pela denegação da ordem.

Brasília, 22 de março de 2012.

EDSON OLIVEIRA DE ALMEIDA

SUBPROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA

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