1 O HOMEM DENTRO DO CORPO DE UMA MULHER
Susy Fabiana dos Santos Machado Thaíssa Machado Vasconcelos Universidade Estadual da Paraíba - UEPB
Resumo
Diante das diversas transformações herdadas da modernidade, a sexualidade humana não poderia ficar de fora. A sexualidade guardada, escondida, hoje aparece estampada nos corpos. Travesti: homem ou mulher? As transformações do corpo travestido por vezes deixam dúvidas, dúvidas para quem vê, mas como seria essa compreensão por parte de quem constrói minuciosamente o seu corpo? Dúvidas ou certezas? Quem é essa pessoa? Sua essência é masculina ou feminina? A fim de responder essas indagações, o objetivo principal deste estudo é entender como o homem, macho se vê dentro desse corpo de mulher, recriado em uma perspectiva feminina, um universo inacabado. Para alcançar esse objetivo, estão sendo realizadas entrevistas semi-estruturada com travestis, gravadas para posterior transcrição e submetidas à análise de conteúdo. Será que a adequação do corpo ao desejo, faz com que o sujeito conviva com esse novo corpo sem grandes conflitos? Ou será que esse corpo recriado o fará um individuo despersonalizado? São hipóteses que podem ser pensadas em relação às novas manifestações da sexualidade.
Palavras-chave: Travesti. Sexualidade. Corpo. Gênero.
Introdução
A homossexualidade descoberta cedo ou tarde, passa por inúmeros processos de identificação. Primeiro a identidade masculina perdida, em seguida a despersonalização, essa muito mais cruel e segue uma linha tênue que quase sempre vai se dar na perda de si mesmo.
O gay, “bicha”1, são invariavelmente figuras que se põe no centro das atenções, mesmo sem estar nele. Seja pelo olhar curioso ou preconceituoso. “A homossexualidade transgride os modelos hierárquicos que a cultura moldou para cada um dos sexos”
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(CASTLE, 1999: 218), tais transgressões atacaram as rígidas fronteiras de comportamento entre os gêneros.
Ao enfrentar preconceitos, os homossexuais assumiram características políticas fundamentais para os estudos acerca da sexualidade. Surgiram inúmeros avanços na cultura mundial, onde a repressão à sexualidade fora secular.
Na década de 1970, nasce o primeiro bebê de proveta e com ele inúmeras discussões éticas e religiosas. O nu, sempre tão severamente reprimido, ganha espaço na TV, cinema, revistas e desta forma o debate em torno das questões sexuais torna-se popular. Com a década de 1980 surge a AIDS, e o mundo se depara com a doença que nasce do sexo, trazendo à tona a realidade de que, o discurso sexual não pode ficar à margem. O diálogo acerca de uma educação sexual, torna-se necessário. A sexualidade não é um aspecto isolado da sexualidade humana.
Nada em se falando de cultura, é mais freqüentemente alvo de tabus e interdições que a sexualidade. As diferenças individuais do comportamento humano, provavelmente tenha sido o capítulo mais importante e controverso.
Este trabalho traz uma discussão acerca da travesti, suas relações com o corpo, sua sexualidade, adentrando pela discussão de gênero, e a ambigüidade presente no corpo deste. Um corpo biológico de homem, que não coincide com o desejo e resulta em um novo corpo, corpo de mulher (NARDI, et all, 2003).
Se travestir seria só o silicone e o orgulho no peito? A força na peruca, o andar mais feminino quanto possível? A travesti seria um homem montado, um homem às aversas?
“O corpo é este lugar pelo qual as pessoas moram e investem toda uma história de vida. A partir do momento que nascemos, estamos intrinsecamente ligados a um processo cultural, e é a partir dele que construímos nossa identidade” (MACHADO, 2001). O homem é aquilo em que acredita ser, e se este homem não acredita em seu próprio corpo irá procurar outro, independente ao que tenha que se submeter. Pós transformado a travesti recria uma identidade social, que, para Heilborn (1996), esta identidade social é a possibilidade de existência desses sujeitos num mundo social.
3 Sexualidade(s)
O termo sexualidade nos remete a um universo onde tudo é relativo, pessoal, e muitas vezes paradoxal. Pode-se dizer que é o traço mais íntimo do ser humano, e como tal, se manifesta diferentemente em cada indivíduo de acordo com a realidade e as experiências vivenciadas pelo mesmo.
A sexualidade sempre fora vista de forma pecaminosa e a história sempre procurou estabelecer lacunas entre amor e sexo. São valores culturais já incorporados pela humanidade. O amor é espiritual, puro. Já o sexo, pecado, sempre ligado à restrições e castidade, e desta forma associado à procriação. A Sexualidade que por muito tempo ficou guardada como um segredo, escondida, contida e calada, hoje explode em uma overdose de discursos, práticas, e orientações diversas, como pontua Foucault (1997). A sexualidade vai para além do quarto do casal heterossexual, onde se podia apontar com clareza quem é homem e quem é mulher. Hoje, entre esses dois pólos dicotômicos, e excludentes entre si, há uma gama de novas sexualidades. O homossexual, o bissexual, travestis, transexuais, drag Queens, transformistas, dentre outras variações entre os dois sexos.
Foucault chama a atenção ao século XIX, onde começam a surgir de forma mais livre e à luz do dia essa multiplicação de sexualidades, e considera este século, como iniciador das heterogeneidades sexuais. Heterogeneidades essas perceptíveis a olho nu em nosso século, onde as sexualidades caminham a um modelo cada vez mais andrógino, se misturam, se confundem. Hoje se tem o sexo que se escolhe, o sexo possível. Somos o que acreditamos e montamos o personagem. Nos remetemos à infância, onde o que tinha por dentro das roupas povoava o imaginário infantil. Hoje nosso imaginário torna-se aguçado, não se sabe quem é homem, quem é mulher, não existe mais apenas homem e mulher.
Nesse universo de heterogeneidades, pequenos detalhes se misturam, traços sutis que formam cada nova identidade, vão se moldando, tomando forma e atrelando seus
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sentimentos. Os homossexuais, são aqueles que sentem desejo por pessoas do mesmo sexo. Os bissexuais por sua vez, caracterizam-se como aqueles que o objeto de desejo tanto pode ser do mesmo sexo, ou do sexo oposto, faltando a ele o caráter de exclusividade. O transformista (homossexual, ou não) são essencialmente aqueles indivíduos que se vestem com roupas do sexo oposto em ocasiões específicas, retornando após essa ocasião (uma festa por exemplo) as vestimentas de origem. A “Drag Queen”, transforma-se por sua vez de uma forma mais exagerada que o transformista, num típico molde de mulher às avessas, exagerando nos adereços e alegorias. A travesti é reconhecido por sua vez, como aquele que se transforma em uma mulher de forma permanente, usando artifícios que vão além das vestimentas, cirurgias plásticas por exemplo, porém mantém o órgão sexual masculino2. Já o transexual, caracteriza-se pela mudança de sexo, diferenciando-se da travesti, por este não perceber-se enquanto homem, ou manter relação conflituosa com seu órgão, optando por extirpá-lo.
Essas novas sexualidades “transgridem os modelos hierárquicos intransponíveis que a cultura moldou para cada um dos sexos” (SILVA & BILA, 1996). Progressivamente, o comportamento sexual se modificou, tornando-se cada vez mais liberto dos preconceitos. A sexualidade em nosso século vai além dos limites da genitalidade, e desta forma, torna-se parte integrante do ser humano (ARAÚJO, 1999)
O Gênero
A idéia de gênero, como afirma a historiadora Scott (1995), surge nas ciências sociais com base nas diferenças percebidas entre os sexos, bem como diante das relações de poder entre eles. Na cultura ocidental as definições de gênero, mesmo depois da “explosão das sexualidades heréticas” (FOUCAULT, 1997:48) ainda se configuram em uma visão dualista e excludente. Ancorada nas diferenças sexuais anatômicas, a questão: Gênero, reduz-se as possibilidades de se ser homem, ou mulher
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Nos detemos nesse trabalho às práticas masculinas, embora existam essas sexualidades entre as mulheres.
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(NARD, et all, 2003). Preso à idéia do determinismo dos órgãos genitais, o gênero tem-nos sido imposto, antes mesmo de nascermos, surgindo em resposta a este fato, diversos movimentos teóricos e políticos que tenham como objetivo combater a dualidade secular sexo/gênero, são por exemplo as teorias queer3, e os movimentos transgênero.
Homem ou mulher? Torna-se hoje, visível a gama variada de possibilidades de constituição de gênero entre os dois pólos citados (BUTLER, 2003). Em pleno século XIX, Freud (2006) já se referia a “casos onde os caracteres sexuais parecem confusos”(pag. 134), sendo portanto dificultada a possibilidade de se definir o sexo, seja essa dificuldade relacionada à questão anatômica, vivenciada pelos hermafroditas, ou quando as características dos dois “sexos” se conjugam no que ele chamou de “hermafroditismo psíquico”. No século XXI, modelos sexuais andróginos e porque não dizer híbridos, desfilam à luz do dia, são os homossexuais; bissexuais; travestis; transexuais, e a que classificação pertencem cada um deles (se é que nesses casos pode-se falar em classificações)? Qual o gênero? O que dizer daqueles que são ao mesmo tempo femininos e masculinos?
No que se refere ao objeto dessa investigação (os travestis), Butler (2002) introduz o termo “gêneros inteligíveis” ao se referir a adequação do corpo, aos desejos e práticas sexuais, realizada pela travesti. Um homem, que tem corpo de mulher, e para além do corpo, traz consigo características morais e psíquicas tipicamente femininas. Um homem, que se sabe homem, e que mesmo tendo inseridos em seu corpo, “símbolos do que é socialmente tido como próprio do feminino” (PELÚCIO,2005: 98), tem no próprio corpo feminino a grande marca da ambigüidade, a genitália. Ambigüidade, talvez seja essa a palavra que traduza a identidade de gênero vivenciada pelas travestis (CORNWALL, 1994).
As atuais discussões do movimento transgênero brasileiro sugere hoje que o gênero seja identificado a partir da aparência da pessoa, sendo a travesti então indivíduos do gênero feminino (LIMA, 2007). Sob esse ponto de vista, Kulick (1997) afirma que as travestis, mesmo tendo o aparato genital masculino, não são classificadas
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como homens, mesmo ainda não colocando a travesti no gênero feminino, ele dá à travesti a classificação de “não-homem”.
A travesti
Travestis são homossexuais singulares, diferentes das transformistas, da dreg Queen, e dos próprios transexuais. (OLIVEIRA, 1997). São eles antes de tudo homens, que assim se percebem (enquanto homens), e que relacionam-se com outros. São homens, que ainda se compreendendo enquanto tais, pertencem ao gênero “oposto”, são femininos. Homens que tem corpo de mulher, e órgão sexual de homem.
A existência do falo, neste corpo tão feminino,tão mulher, torna-se intrigante nesta recorrente construção em si do feminino. De um lado aparecem aqueles que desejam extirpar o órgão (classificam-se sobretudo como transexuais), e outros que desejam possuí-lo enquanto instrumento de prazer ou trabalho – comportamentos mais típicos dos travestis (OLIVEIRA, 1997).
A travesti busca a essência feminina, corpo de mulher. Mulher esta que não seria qualquer uma, mas sim, uma mulher bonita e desejável, o que os levam à construção de um corpo que se enquadre nas leis do belo. (PELÚCIO, 2005). Para Nardi, et all (2003) o ser travesti implica antes de tudo a destruição do seu corpo de macho, para que então ele surja enquanto sujeito. “O processo de transformação das travestis constitui uma luta pelo que eles chamam de feminino que lhes é próprio” (BENEDETTI, 2005). A identidade de travesti está antes associada a fabricação de um novo corpo, do que as práticas e orientações sexuais.
Quem é este homem? Onde mora a mulher nele? Travestir-se marca no homossexual uma nova construção de si, construção de identidade. O que esbarra em controvérsias que implicam necessariamente na gama de significados que ao se moldar, se recriar pode acarretar na vida desse indivíduo. “O corpo, evidentemente possui uma história geral, e uma historicidade pessoal, enquanto é lastro material de subjetividade.” (GAUDÊNCIO, 1999). Este corpo que transita entre ser homem e mulher, é provável
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que para a travesti tenha um julgamento próprio sobre o que são e o que podem se tornar.
E a essência masculina, será que cabe no corpo feminino? E o que de positivo e negativo, tais transformações podem trazer para a vida deste indivíduo? Serão capazes de desalinhar sua personalidade?
Posto isso, as opiniões divergem e as controvérsias se acumulam. Porque outra razão estamos tão preocupados em saber se o comportamento generificado corresponde aos atributos físicos? Partindo deste princípio, para Silvia & Florentino (1996) a situação vivenciada pela travesti, em relação à sua intensa transformação, está imbricada de fortes sofrimentos psíquicos, enquanto que para Pelúcio
as travestis são pessoas que se entendem como homens que gostam de se relacionar sexual e afetivamente com outros homens. Para tanto, procuram inserir em seus corpos,símbolos do que é socialmente tido como próprio do feminino. Porém, não desejam extirpar sua genitália, com a qual geralmente convivem sem grandes conflitos (2005: 97-98).
De todo modo, a travesti contraria a natureza e a ordem natural das coisas, nasceu menino, e agora é menina, menina por todo lugar. Entretanto, Freud pontua que mesmo que o sujeito “sinta-se como mulher e busque o homem”, ainda assim não se pode negar que esses homens preservam o caráter psíquico da virilidade.
A maioria dos estudiosos da sexualidade humana, concordam com a idéia de que a travesti não carrega conflitos relacionado ao seu corpo, sabem-se homens, embora existam em um corpo feminino. A travesti ousa unir “menino e menina” em um só corpo, e desta forma transgride as normas,e nessa fascinante transgressão sua identidade não seria desalinhada?
Um novo corpo, nova mulher, novo gênero. História de vida reconstruída, corpo comprado, mulher com sexo masculino.
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A sexualidade por muito tempo escondida, reprimida, ganha em nosso século um lugar de extrema importância, o lugar do discurso, do possível e porque não dizer do permitido.
As “aberrações sexuais” descritas por Freud no século XIX, davam espaço àqueles que tinham seu desejo voltado ao objeto sexual invertido, o que por muito tempo permaneceu na cultura ocidental no lugar do preconceito, e que hoje ocupam o lugar do cotidiano, do comum. Hoje poderíamos pensar que essa estranheza de sexualidades não se limita àquele que ama o seu igual, mas nas possibilidades de este transformar-se em seu oposto. Tem-se hoje o reconhecimento das múltiplas possibilidades de sexualidades entre o Homem e a Mulher, desvinculando a sexualidade de uma vez por todas com o caráter inato e indiscutível da genitalidade.
A idéia de gênero (que talvez se relacione de forma mais íntima com esta discussão), como sendo uma questão construída socialmente, na verdade não nos possibilitou ao longo dos tempos muitas possibilidades entre o feminino e o masculino, nem ao menos uma construção social dele (do gênero), dentro de nossas próprias vivências. O que em tese seria uma construção social, nos é imposto de forma quase que inata desde o momento em que antes de nascer nossos pais conhecem o nosso sexo, deixando-nos presos a uma identidade de gênero que nem sempre corresponde às nossas orientações ou desejos sexuais. Hoje se faz necessário uma discussão do transgênero, do queer, ou de algo a mais que se coloque entre esses dois pólos que já não mais dão conta das práticas que não se enquadram em nenhum dos dois.
A travesti é a prova dessa necessidade de “novos gêneros”, que embora sendo ele homem pertence ao gênero oposto, e, mesmo tendo ele um corpo de mulher, mantém no corpo a masculinidade. A travesti não pode ser homem, porque é em parte mulher, mas também, não pode ser mulher, porque é homem, marcando a contradição e a limitação das categorias sexualidade e gênero.
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