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Projeto Adote Uma Memória, Construa Nossa História

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Academic year: 2021

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Analice Rocha de Araújo*

RESUMO

A pesquisa histórica promove o estudo dos Direitos Humanos. O projeto “Adote uma memória, construa nossa história”1 trabalha com o estudo da memória de vítimas da ditadura militar entre 1964 a 1985, permitindo o conhecimento mais detalhado sobre o recorte histórico, abordando temas transversais como cidadania, direitos humanos e democracia. As pesquisas sobre esses personagens da História recente do Brasil resulta em um trabalho apresentado em vídeos, livreto, banners e apresentações artísticas.

Palavras-chave: Memória. Ditadura. Presos Políticos. Cidadania. Política.

*Mestre em História pela Universidade Federal de Pernambuco. Professora da Secretaria de Educação do

Estado de Pernambuco. [email protected]

1 É possível acompanhar parte da produção áudio visual e de mídia do projeto através de página de rede social

Projeto Adote Uma Memória,

Construa Nossa História

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REL AT O D E P RÁ TI

Introdução

O projeto descrito neste texto vem sendo vivenciado desde 2013 e constitui-se numa atividade de pesquisa histórica que promove o estudo dos Direitos Humanos. Os estudantes investigam sobre a memória de vítimas da ditadura militar entre 1964 a 1985, permitindo o conhecimento mais detalhado sobre o recorte histórico, abordando temas transversais como cidadania, direitos humanos e democracia. As pesquisas sobre esses personagens da História recente do Brasil resultam num trabalho que é apresentado em vídeos, livreto, banners e apresentações artísticas. Nesse sentido, a escola também pode colaborar no processo de rememoração das atrocidades cometidas.

Entendemos que trabalhar a história recente do Brasil é, entre outras coisas, estimular a percepção do estudante quanto ao seu pertencimento. Muitas vezes a aula tradicional (sala, quadro, fala) não dá conta do vínculo entre os atores históricos envolvidos, pois a hora aula é curta para a quantidade de informações necessárias à compreensão mais apurada do emaranhado histórico. A História é uma trama com uma enorme variedade de fios que vão dar a textura do presente. Entender essa tessitura é fundamental para nos dar um equilíbrio na emissão de opinião.

Dizer que os estudantes são politicamente alienados é muito reducionismo. Como sempre foi, existem jovens que se identificam ou não com discussões sobre política. Independente da identificação ou não, é importante que se forme um indivíduo cidadão ativo na sociedade. Esse jovem pode não gostar de questões político filosóficas, mas ele quer viver num mundo que lhe permita uma existência confortável. Para isso, ele tem que estar ciente que o bem comum é o dele também. Ele pertence a isso e precisa se inteirar de, no mínimo, como funciona a vida pública do lugar onde mora. E para entender como funciona, deve ter ciência que é uma construção histórica que lhe deu o lugar social que ocupa.

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com uma geração viva e que fez parte da construção da história que se vive hoje é, entre outras coisas, criar um espaço na percepção dos estudantes de Ensino Médio, prestes a entrar na vida adulta, de pertencimento ao contexto atual. É trazer à tona a observação de que ele é ator da história, e que sua conduta social será responsável pela construção da história futura. Surge então a discussão quanto ao mundo que se pretende construir. Justiça, igualdade, moralidade, honestidade e tantos outros conceitos a serem pensados para a construção desse futuro. Olhar o passado e perceber onde foi que o desejado para o futuro se perdeu ou se edificou.

Desenvolvimento

Na vivência do projeto, grupos de estudantes, divididos pelas séries e cursos, adotam a história de pessoas que tenham sido presas, mortas ou desaparecidas política durante o período de restrição democrática no Brasil. Essa adoção ocorre a partir de diversas atividades, relatadas abaixo. Com isso, promove-se o encontro entre diferentes gerações: os estudantes, que estão na escola hoje, e aqueles que viveram perseguições políticas durante o período dos governos militares (1964/1985). Permite que entre ambas ocorra uma troca de experiências. Para os estudantes do ensino médio, próximos a entrarem na vida adulta e exercerem suas obrigações civis, a proposta é reavaliar, aquilatar e conhecer a história recente do país dando ênfase a importância da participação nos processos políticos e no respeito aos Direitos Humanos. Para as pessoas que tiveram a memória adotada, seus parentes e/ou amigos, a possibilidade de receber o reconhecimento de que a participação política na luta pelo reestabelecimento da democracia foi de grande importância para as liberdades usufruídas hoje por toda a sociedade brasileira. A escola faz a sua parte no processo de “reparação” às vítimas da ditadura no Brasil, levando o agradecimento por esse espaço tão duramente conquistado.

Neste sentido, o projeto teve como objetivos incentivar a prática da pesquisa e a produção textual com embasamento histórico; estimular a discussão política e o sentimento de pertencimento a vida pública; identificar os elementos constituintes na

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durante o recorte histórico; promover a articulação entre o conhecimento propedêutico e o conhecimento técnico específico, a partir do desenvolvimento de tarefas específicas na socialização dos resultados das pesquisas.

Metodologicamente o projeto foi desenvolvido da seguinte maneira. No início do ano são distribuídas as memórias (nomes das pessoas que terão sua história pesquisada) entre as turmas. Em seguida, os estudantes recebem um prazo de três meses para realizarem as pesquisas em meio eletrônico, jornais, revistas, livros e fontes orais. Após a pesquisa, são elaborados um texto, banners e vídeos sobre cada memória. Também são elaboradas as apresentações artísticas. Além disso, um livreto é confeccionado com o conjunto dos textos.

Imagem 1 - Montagem do palco do auditório para apresentação do evento de culminância do projeto. Foto: Analice Rocha, Recife, 2014.

No mês de novembro ocorre a exibição dos resultados em um evento onde as "memórias" são assistidas, pelos familiares e/ou amigos e a comunidade escolar, em uma projeção dos vídeos elaborados, nas apresentações artísticas encenadas, além da apresentação de outros materiais em uma exposição dos banners, bem como a distribuição do livreto.

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gráfica. Os vídeos são filmados em aparelhos celulares dos estudantes e a edição é feita em aplicativos e programas gratuitos. No dia do evento, os estudantes vestem uma camisa que traz a identidade visual do projeto, desenvolvida por eles, e uma frase de alguma personalidade que carregue sentido relevante para o projeto. A arte das camisas é confeccionada na própria escola pelos estudantes.

Imagem 3 - Camisa exibindo a identidade visual do projeto desenvolvida pelos estudantes. Foto: Fellipe Bezerra, Recife 2014.

Imagem 4 - Camisa exibindo a identidade visual do projeto desenvolvida pelos estudantes. Foto: Fellipe Bezerra, Recife 2014.

A adesão da maioria dos estudantes do Ensino Médio ao projeto refletiu numa maior politização e reconhecimento dos Direitos Humanos. É recorrente na fala dos estudantes egressos a referência quanto à importância do projeto na formação da cidadania. Em 2016, um estudante que concluiu seus estudos na escola 2014, iniciou a elaboração de um documentário amador com os depoimentos de estudantes que retornam à escola desejando reviver o projeto. Alguns deles, ingressos nos cursos superiores na área de humanas, falaram que a participação no projeto foi fundamental

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para suas escolhas profissionais. Outros inseriram em seus currículos a experiência desenvolvida na área técnica quanto a execução de determinadas tarefas, como edição de banners e livreto. Os resultados da escola, na área de Ciências Humanas e suas tecnologias, no INEP, avançou e, em 2016, ocupou o primeiro lugar das escolas técnicas estaduais de Pernambuco.

Para enriquecer o trabalho, ao longo dos anos de vivência do projeto, os estudantes participaram de eventos e ações fora e dentro da escola. Em 2013, por exemplo, no primeiro ano do “Adote uma Memória”, ocorreu, na Universidade Federal de Pernambuco, uma audiência pública da Comissão Estadual Memória e Verdade Dom Hélder Câmara (CEMVDHC) sobre o caso de David Capistrano (memória adotada em 2013), onde foi ouvida sua filha Cristina Capistrano.

Imagem 5 - Estudantes da 3ª série do Ensino Médio assistindo audiência pública da Comissão Estadual de Memória e Verdade Dom Hélder Câmara (CEMVDHC) sobre o caso de David Capistrano onde foi ouvida

a Cristina Capistrano. Foto: Analice Rocha.

No Memorial da Justiça do Trabalho, foi feito um trabalho de observação quanto à importância da documentação e preservação da memória, onde os estudantes puderam ver a exposição que exibiu documentos sobre as ações trabalhistas que ocorreram durante os governos militares no Brasil.

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A escola também se articulou com a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos que proporcionou uma exposição intitulada “Anistia e Democracia” que também se fez presente no ano seguinte.

Imagem 7 - Exposição “Anistia e Democracia” promovida pela Secretaria de Justiça e Direitos Humanos. Foto: Analice Rocha.

Em 2014, os estudantes participaram de uma panfletagem em frente a escola para lembrar dos 50 anos de início da ditadura no Brasil.

Imagem 8 - Estudantes vestidos de preto para representar o luto e fazendo a panfletagem para informar os 50 anos do golpe de 1964. Foto: Analice Rocha.

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Imagem 9 - Estudantes vestidos de preto para representar o luto e fazendo a panfletagem para informar os 50 anos do golpe de 1964. Foto: Analice Rocha.

No mesmo ano, o Memorial da Justiça do trabalho mais uma vez colaborou com a mesma exposição montada em 2013. Estiveram na escola, para proferir palestras para os estudantes, membros da Comissão Estadual da Verdade e o Juiz da Associação dos Magistrados falando sobre o período e da importância do empoderamento político do jovem estudante.

Imagem 10 - Palestra com Membros da CEMVDHC e com o Juiz Diretor da Associação dos Magistrados do Trabalho de Pernambuco na ETEPAM. Foto: Fellipe Bezerra.

Em 2015, o Centro Cultural Manoel Lisboa também passou a dar suporte promovendo palestras e articulando eventos nos quais os estudantes pudessem estar presentes a fim de enriquecer os estudos. Isso gerou uma produção artística mais intensa, tornando o acervo de vídeos do projeto mais rico. Em 2016, as parcerias continuaram, com palestras de ex-presos políticos e de representantes de instituições ligadas à temática do projeto. Na Semana da Anistia, promovida por várias entidades, entre elas a Comissão Memória Verdade e Justiça, exibiu um vídeo produzido por estudantes que participaram do projeto em vários Campus da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Nesse ano, entendendo que o projeto trata de memórias de

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Para melhor trabalhar a história de Chicão Xukuru, no dia 20 de maio, os estudantes participaram da Marcha do Povo Xukuru.

Imagem 11 - Estudantes e professores participando da Marcha do Povo Xukuru em Pesqueira (PE). Foto: Analice Rocha

Conclusão

A jornada de aulas extenuantes de 9h/a diárias para os estudantes das Escolas Técnicas Estaduais torna urgente as atividades que permitam o desenvolvimento de práticas diferenciadas, que criem um espaço de expressão artística para os jovens. A arte é expressão de visão de mundo e do extravasamento de ideias. Nesse sentido, o projeto "Adote uma memória, construa nossa história" cria esse espaço e ao mesmo tempo trabalha habilidades e competências referentes às disciplinas de Ciências Humanas e suas tecnologias em consonância com as Orientações Curriculares Nacionais, bem como abrindo espaço para o aprimoramento do instrumental técnico.

Segundo o documento “ORIENTAÇÕES CURRICULARES PARA O ENSINO MÉDIO” de 2008, no que diz respeito a Cidadania

Atualmente, o conjunto de preocupações que norteia o conhecimento histórico e suas relações com o ensino vivenciado na escola leva ao aprimoramento de atitudes e valores imprescindíveis ao exercício pleno da cidadania, tais como: atenção ao conhecimento autônomo e crítico; valorização de si mesmo como sujeito responsável pela construção da História; respeito às diferenças

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discriminação; busca de soluções possíveis para problemas detectados na comunidade, de forma individual e coletiva; atuação firme e consciente contra qualquer tipo de injustiça e mentira social; valorização do patrimônio sociocultural, próprio e de outros povos, incentivando o respeito à diversidade; valorização dos direitos conquistados pela cidadania plena, aí incluídos os correspondentes deveres, seja dos indivíduos, dos grupos e dos povos, na busca da consolidação da democracia. É de se ressaltar o papel central da História em alicerçar a prática da cidadania, especialmente ao colocar em evidência a diversidade das culturas que integram a história dos povos. (BRASIL, 2008, p.79)

Trabalhamos com o estudo da memória em consonância com as Orientações Curriculares Nacionais, agregando aos estudantes da Educação Profissional Integrada ao Ensino Médio a preparação para o exercício da cidadania e para o mundo do trabalho. A proposta do projeto é convidar os estudantes a se envolverem a discussão política no Brasil, tomando como referência a luta pela redemocratização. Repensar quanto à violação dos Direitos Humanos durante um período no país quando a maior reivindicação era o direito a liberdade de expressão e de participação política. Discute-se passado e preDiscute-sente, salientando que a luta de Discute-segmentos sociais pela redemocratização não foi em vão.

Referências

BRASIL. Secretaria de Educação Básica. Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino médio: ciências humanas e suas Tecnologias. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2008. 133 p. (Orientações curriculares para o ensino médio; volume 3)

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