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Da cidade tradicional à cidade-jardim: modernidade em Pelotas na primeira metade do século XX.

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE PELOTAS FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO TEORIA, HISTÓRIA, PATRIMÔNIO E CRÍTICA DA ARQUITETURA E URBANISMO

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

Da cidade tradicional à cidade-jardim: modernidade em

Pelotas na primeira metade do século XX

Danielle Souza da Silva

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Danielle Souza da Silva

Da cidade tradicional à cidade-jardim: modernidade em

Pelotas na primeira metade do século XX

Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas, como requisito à obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.

Orientadora Profª. Drª. Célia Helena Castro Gonsales.

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Danielle Souza da Silva

Da cidade tradicional à cidade-jardim: modernidade em Pelotas na

primeira metade do século XX

Dissertação aprovada, como requisito parcial, para obtenção do grau de Mestra em Arquitetura e Urbanismo, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal de Pelotas.

Data da Defesa: 29 de setembro de 2017.

Banca examinadora:

... Prof. Drª. Célia Helena Castro Gonsales (Orientadora)

Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidad Politecnica de Cataluña, UPC, Espanha.

... Profª. Drª. Aline Montagna da Silveira

Doutora em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo, USP, Brasil.

... Profª. Drª. Ana Lúcia Costa de Oliveira

Doutora em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, Brasil.

... Profª. Drª. Nirce Saffer Medvedovski

Doutora em Estruturas Ambientais Urbanas pela Universidade de São Paulo, USP, Brasil.

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À minha maravilhosa mãe, Reoni. Ao meu noivo, Sergio.

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AGRADECIMENTOS

A decisão da realização de uma dissertação é uma escolha que se faz sozinha. No entanto, talvez eu não tivesse conhecido o ambiente científico se não fosse a maravilhosa experiência que tive de trabalhar com pesquisa durante um período da graduação. Portanto, não posso deixar de agradecer primeiramente a duas colegas, Luiza Baggio e Valentina Machado, que me apresentaram e colaboraram para que eu entrasse no Núcleo de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo – NAURB – da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pelotas. Dito isso, também devo agradecer a coordenadora Profª. Drª. Nirce Saffer Medvedovski pela amizade e todos os ensinamentos que levarei para sempre comigo.

Apesar do processo solitário que envolve uma investigação científica, no andamento da pesquisa e da elaboração do trabalho, o envolvimento de outras pessoas e suas contribuições em diversos âmbitos e momentos tornou a empreitada mais fácil. Assim, agradeço a todos que me auxiliaram neste trabalho.Entretanto, cabe uma menção especial a Deus, pela vida, por me dar força, coragem e sentido a tudo.

Agradeço à minha orientadora Célia Gonsales, por acreditar e confiar no trabalho, por suas orientações, conselhos, sugestões e paciência diante as minhas dificuldades, na busca de sempre melhorar a dissertação.

Agradeço aos professores e funcionários do Programa de Pós-Graduação de Arquitetura e Urbanismo – PROGRAU – da Universidade Federal de Pelotas, em especial à Cristiane Miritz, assim como aos integrantes da banca examinadora do Exame de Qualificação, Profª. Drª. Nirce Saffer Medvedovski e Profª. Drª. Aline Montagna da Silveira pelas contribuições na dissertação.

Agradeço a CAPES pela bolsa concedida, que contribuiu, além dos estudos, a me sustentar, e também à Biblioteca Municipal de Pelotas, pela disponibilização de documentos e materiais para o desenvolvimento da pesquisa.

Por fim, sou muito grata à minha mãe Reoni Sebastiana Maciel de Souza e meu noivo Sergio Ferraz Fonseca, por entenderem as minhas ausências e preocupações e pelo incentivo dado desde a graduação e muito antes disso.

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“A vida urbana pressupõe encontros, confrontos das diferenças, conhecimentos e reconhecimentos recíprocos (inclusive no confronto ideológico e político) dos modos de viver, dos ‘padrões’ que coexistem a cidade”.

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RESUMO

As teorias urbanas são importantes e devem ser estudadas e analisadas pelo valor propositivo que tiveram ao longo da história como instrumento de configuração da cidade em prol da melhoria da vida urbana. No início do século XX, os conceitos inovadores da teoria da cidade-jardim, como instrumento de política urbana no controle do desenvolvimento físico-espacial e como organizador do espaço ao tentar unir características do campo e da cidade e melhorar a qualidade de moradia das pessoas, refletiram-se em diversos planos urbanos de vários países. Em Pelotas, como em outras cidades do Brasil, devido ao rápido crescimento urbano foram necessárias transformações no seu tecido. Se as primeiras concepções urbanísticas adotavam o traçado ortogonal como elemento estruturante da cidade, as novas ideias urbanas que surgiram na Europa durante o século XIX e XX, em resposta aos problemas gerados pela Revolução Industrial, chegaram até o sul do Brasil trazendo novos traçados que geraram novas configurações no espaço urbano. Assim, o objetivo desse trabalho é analisar como a teoria da cidade-jardim repercutiu no Plano Geral de Pelotas de 1922, idealizado pelo arquiteto Fernando Rullmann, e no Plano de Expansão de 1927, elaborado pelo engenheiro Saturnino de Brito. No que diz respeito à metodologia de desenvolvimento do trabalho, o estudo das teorias urbanísticas, assim como o da teoria da cidade-jardim, que estava sendo muito disseminada na época, são fundamentais para a análise dos planos de Pelotas, visto que a cidade foi uma das pioneiras na aplicação desses princípios nos seus planos urbanísticos.

Palavras-chave: Teoria cidade-jardim; Plano Geral de Pelotas; Plano de Expansão de Pelotas; Fernando Rullmann; Saturnino de Brito.

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ABSTRACT

The urban theories are important and must be studied and analyzed by the propositional value they had throughout history as an instrument of the city’s configuration for the improvement of the urban life. In the beginning of the twentieth century, the innovative concepts of the garden-city theory, as an instrument of urban policy in the control of physical-spatial development and as a space organizer by trying to bond country areas and city’s characteristics and improve people housing quality, have been reflected in several urban plans in many countries. In Pelotas, as in other Brazilian cities, due to the the urban growth it was necessary to transform its fabric. If the firsts urbanistic conceptions adopted the orthogonal route as structuring element of the city, the new urban ideas that emerged in Europe during the nineteenth and twentieth centuries, in response to the problems generated by the Industrial Revolution, arrived in the south of Brazil bringing new traces that generated new forms of urban space. Therefore, the aim of this work is to analyze how the garden-city theory has influenced Pelotas’ General Plan of 1922, idealized by the architect Fernando Rullmann, and in the Expansion Plan of 1927, made by the Engineer Saturnino de Brito. Regarding the development methodology of this work, the study of the urban theories, as well as the garden-city theory, which was being very widespread at the time, are essential for the analysis of Pelotas’ plans, since the city was one of the pioneers in the application of these principles in its urbanistic plans.

Keywords: Garden-city Theory; Pelotas’ General Plan; Pelotas’ Extension Plan; Fernando Rullmann; Saturnino de Brito.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Esquema ilustrativo da evolução da quadra de Ernst May ... 17

Figura 2 – Gravuras de Gustave Doré retratando Londres ... 23

Figura 3 – Interpretação dos diagramas de Howard ... 27

Figura 4 – Imagens retratando os planos e a cidade de Letchtworth ... 28

Figura 5 – Imagens retratando o projeto e o bairro-jardim de Hampstead ... 30

Figura 6 – Imagens retratando o projeto e as residências de Welwyn ... 31

Figura 7 – Plano do bairro Jardim América ... 37

Figura 8 – Residência localizada no bairro Jardim América ... 38

Figura 9 – Anúncios da Companhia City no O Estado de S. Paulo ... 39

Figura 10 – Mapas do crescimento urbano de Londres ... 41

Figura 11 – Centro urbano da cidade do Cairo ... 42

Figura 12 – Exemplos de crescimentos espaciais ... 44

Figura 13 – Crescimento linear do Rio de Janeiro ... 44

Figura 14 – Exemplo de um polo de crescimento ... 45

Figura 15 – Mapa de Porto Alegre em 1840 ... 52

Figura 16 – Planta de Pelotas em 1835 ... 56

Figura 17 – Mapas da evolução urbana de Pelotas entre os anos de 1815 a 1926 .... 58

Figura 18 – Projeto de Ampliação de 1922 da cidade de Pelotas ... 61

Figura 19 – Foto de Saturnino de Brito e do livro Obras completas de 1943 ... 66

Figura 20 – Mapa com as cidades em que Saturnino desenvolveu projetos ... 70

Figura 21 – Comparação de Saturnino entre o traçado geométrico previsto para Belo Horizonte por Aarão Reis, desconsiderando a topografia e os cursos d’água e o traçado sanitário proposto por Brito ... 71

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Figura 22 – Anteprojeto de extensão de Saturnino para Pelotas em 1927 ... 76

Figura 23 – Redesenho mapa de Pelotas de 1926 ... 78

Figura 24 – Redesenho mapa de Pelotas de 1926 destacando os limites físicos ...79

Figura 25 – Redesenho do Plano de Rullmann, destacando as ampliações ... 81

Figura 26 – Redesenho do Plano de Saturnino, destacando as ampliações ... 82

Figura 27 – Redesenho do Plano de Rullmann, destacando o zonemanto ... 84

Figura 28 – Redesenho do Plano de Rullmann, destacando as vias ... 86

Figura 29 – Redesenho do Plano de Saturnino, destacando as vias ... 87

Figura 30 – Redesenho do Plano de Rullmann, destacando as áreas verdes ... 89

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ... 12

CAPÍTULO 1 A TEORIA DA CIDADE-JARDIM E SUAS RESSONÂNCIAS 1.1 As ideias urbanísticas europeias na virada do século XIX-XX ... 22

1.2 Teoria da cidade-jardim e seus desdobramentos projetuais ... 25

1.3 As ressonâncias da teoria cidade-jardim pelo mundo ... 32

1.4 Os reflexos da teoria cidade-jardim no Brasil ... 34

CAPÍTULO 2 SUBSÍDIOS DE ANÁLISE URBANA 2.1 Elementos urbanos e as formas de crescimento ... 41

2.2 Os princípios urbanísticos da teoria cidade-jardim ... 46

CAPÍTULO 3 PLANO GERAL DE 1922 3.1 O início do pensamento urbanístico no Rio Grande do Sul ... 51

3.2 A conformação urbana de Pelotas ... 55

3.3 O Plano Geral de Fernando Rullmann ... 60

CAPÍTULO 4 PLANO DE EXPANSÃO DE 1927 4.1 Saturnino de Brito e o urbanismo sanitarista ... 65

4.2 O Plano de Expansão de Pelotas ... 73

CAPÍTULO 5 OS PLANOS E A TEORIA DA CIDADE-JARDIM ... 77

CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 92

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 95

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INTRODUÇÃO

Devido à Revolução Industrial e ao domínio do comércio ultramarino, na primeira metade do século XIX, o Império Britânico se constituiu como a economia dominante no planeta. Em contradição à prosperidade crescente, as grandes cidades britânicas encontravam-se em situação de insalubridade. Com a expansão demográfica sem precedentes, tornaram-se evidentes os contrastes entre áreas com qualidade de projeto e equipamentos, exclusiva das classes abastadas, e os bairros das camadas populares, com condições de vida, tanto física quanto moral, degradantes. A maioria da população estava instalada precariamente e, à miséria, somavam-se epidemias que atingiam partes da cidade (OTTONI, 1997).

As ideias dos chamados “socialistas utópicos”, de reestruturação da sociedade e do espaço, prosperaram junto com as crescentes reinvindicações populares por direitos civis e sociais. Dentro deste quadro da sociedade em transição, os recentes Estados Nacionais1 foram obrigados a intervir, produzindo alternativas destinadas ao controle urbano. Essas alternativas iam desde normas higienistas até a reorganização profunda das metrópoles, reestruturando seus fluxos e usos para também melhor atender às necessidades produtivas (OTTONI, 1997).

Em resposta à situação existente, a passagem do século XIX ao XX trouxe ideias que delinearam propostas inovadoras. Entre as novas alternativas, em 1898, Ebenezer Howard publica a obra Tomorrow: A Peaceful Path to Real Reform, reeditada em 1902 com o título de Garden Cities of Tomorrow, na qual ele conciliava valores políticos e sociais com o apreço à natureza. Em resumo, sua proposta consistia em reunir as vantagens das cidades com as do campo, em novos núcleos com todas as funções urbanas (HOWARD, 1996; OTTONI, 1997).

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Surgiram principalmente no fim do século XVIII início do século XIX, a partir do processo de industrialização como mecanismo de divisão do espaço geográfico internacional, estabelecendo uma nova configuração política e espacial. Levam em consideração as pessoas que vivem no território e que possuem características singulares segundo a sua identidade (língua, religião, moeda, hino do país etc.) cultural, histórica, étnica, colocadas em prática dentro do estado. FREITAS, Eduardo de. Surgimento dos Estados Nacionais; Revista Brasil Escola.

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Assim, os princípios da teoria cidade-jardim – uma das origens do urbanismo moderno – foram formulados como solução para o impasse civilizatório enfrentado pelas grandes cidades britânicas do século XIX, atribuindo à criação de cidades-satélites a função de controle de crescimento de metrópoles. Através dessa síntese conciliadora, as ideias de Howard atendiam aos anseios por melhoria do ambiente urbano sem conflitar com os que desejavam controlar a expansão populacional das metrópoles (TREVISAN, 2014).

No Brasil, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, nas principais cidades do país sucederam-se diversas transformações urbanas, indicando a passagem da situação colonial para capitalista e industrial. Este movimento atingiu a capital federal – na época Rio de Janeiro – as capitais estaduais, as cidades portuárias e as mais importantes cidades do interior. Com a industrialização apareceram problemas urbanos relativos ao crescimento acelerado e desordenado das cidades. Além disso, nas cidades maiores também houve a necessidade de modernização, com a criação de um centro que contemplasse atividades comerciais, financeiras, de serviços e institucionais. Assim, a partir de planos que tinham como objetivos expansão, reforma e melhoramentos, algumas das principais cidades iniciaram reformas urbanas (CAMPOS, 2002).

A cidade de Pelotas, situada no interior do estado do Rio Grande do Sul, também passou por um processo de transição. Na segunda metade do século XIX, o município tornou-se o centro de uma economia baseada na produção e comercialização do charque, tendo um intenso crescimento populacional e urbano. Com isso, foram necessárias a construção de novas infraestruturas – redes de saneamento, energia elétrica, gás, bondes, telefones – a constituição de regulamentos urbanísticos, assim como a confecção de planos de melhoramentos, embelezamento e crescimento (SOARES, 2004).

No final do século XIX e princípios do século XX foram realizadas as primeiras iniciativas de planejamento urbano em Pelotas. Elas constituíram-se em regulamentos urbanísticos de caráter geral e eram baseados em princípios higienistas, que buscavam garantir principalmente a circulação do ar, a qualidade das águas e a limpeza das ruas, bem como a necessidade de uma localização periférica das atividades insalubres. Na época, as normas do urbanismo, comum em grande parte do país, estavam geralmente em meio às normas de conduta social que deveriam ser cumpridas pelos habitantes dos municípios (SOARES, 2004).

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Entretanto, além das normas de melhoramentos e embelezamento, havia outra preocupação dos planificadores da cidade de Pelotas e estava relacionada com a paisagem urbana: o sistema geométrico do município era considerado um modelo “antiestético” por apresentar muita uniformidade. Entre os inconvenientes da retícula citavam a monotonia, a má distribuição de luz solar – fato importante dado a umidade da cidade – e a não renovação do ar (PELOTAS, 1924).

Com isso, percebe-se que a administração municipal de Pelotas considerava que a cidade necessitava de uma proposta com um plano urbano detalhado. Através dela se deveria promover a salubridade e o desenvolvimento racional da cidade, em harmonia com o progresso e a predileção moderna do momento. Assim, foram realizados o Plano Geral de Pelotas (1922), idealizado pelo Fernando Rullmann e o Plano de Expansão (1927), elaborado por Saturnino de Brito.

Notam-se nos dois planos algumas características de ideias urbanísticas inovadoras – como a expansão com novas formas de traçado na malha urbana e setorização de usos – que estavam sendo desenvolvidas em vários países e também em alguns dos grandes centros urbanos brasileiros, e que de alguma forma serviram de modelo nas suas concepções. Nesse contexto, é importante frisar que embora o ideário cidade-jardim estivesse em voga, também havia outras propostas e modelos urbanísticos renovadores, como serão vistos adiante, que construíram o panorama do pensamento urbanístico dessa época (TREVISAN, 2014).

Com base nesse panorama, se investiga nesse trabalho como tais teorias inovadoras aparecem nos dois planos urbanísticos realizados para a cidade de Pelotas – o Plano Geral de Pelotas (1922), de Fernando Rullmann e o Plano de Expansão (1927) elaborado pelo engenheiro Saturnino Rodrigues de Brito – e através de quais meios esses preceitos chegaram aos autores dos planos.

A relevância dessa investigação dá-se, primeiramente, devido à importância que as teorias urbanas renovadoras, principalmente a da cidade-jardim, tiveram como instrumento de política urbana no controle do desenvolvimento físico-espacial e como organizadora do espaço da cidade na época. Além disso, esses novos conceitos tiveram uma grande difusão mundo afora, e trouxeram para Pelotas, vale-se dizer que precocemente em relação a muitas das cidades brasileiras, o que havia de mais avançado em planejamento urbano no início do século XX.

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Os objetivos específicos dessa investigação constituem-se em estudar as teorias urbanas vigentes no período da produção dos dois planos, compreender a produção e o pensamento dos autores dos planos e compreender o contexto histórico do município de Pelotas no momento em que essas novas ideias chegaram à cidade.

No que diz respeito à metodologia de desenvolvimento do trabalho, os procedimentos são constituídos dos seguintes itens: a) estudo das teorias urbanísticas; b) estudos e análise dos planos; c) relações entre os planos e as teorias.

a) Estudo das teorias urbanísticas:

Foi realizada uma revisão bibliográfica com o intuito de conhecer as teorias urbanas vigentes no período da produção dos planos da cidade e seus contextos de formação. Pela razão já indicada anteriormente – a detecção do ideário cidade-jardim – houve um maior empenho no estudo da teoria da cidade-jardim e a sua abrangência, através da análise dos princípios estabelecidos por Ebenezer Howard na virada do século XIX e urbanisticamente formalizados por Raymond Unwin e seu sócio Richard Barry Parker no início do século XX, no projeto das duas cidades-jardim inglesas de Letchworth e Welwyn e também do bairro-jardim londrino de Hampstead.

Assim, a metodologia dessa etapa consistiu basicamente em uma revisão de literatura. Nesse estágio de pesquisa, alguns trabalhos acadêmicos também foram importantes para o desenvolvimento da investigação. As principais referências bibliográficas foram reunidas em três grupos:

- Teorias urbanísticas europeias; - Urbanismo brasileiro;

- Urbanística de Pelotas.

- Teorias urbanísticas europeias:

Através do estudo dessa bibliografia foi possível a observação e interpretação dos conceitos e planos urbanísticos que serviram de referência à diversas cidades. Destacam-se os estudos de autores e pesquisadores que retratam o modo de pensar e planejar as cidades a partir das transformações da sociedade durante o período da industrialização: Ebenezer Howard, Raymond Unwin, Françoise Choay, Leonardo Benévolo, Philippe Panerai e Carlos Roberto Monteiro de Andrade.

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Ebenezer Howard, com o texto “Cidades-jardins de amanhã” de 1902, tornou-se ícone para o urbanismo moderno ao apresentar um novo modelo urbano – uma cidade diferenciada em seu aspecto físico e em sua organização econômica, política e social – com a união das qualidades existentes no campo com as qualidades existentes na cidade. Com isso, também estabeleceu o controle de crescimento de metrópoles pela criação de cidades-satélites. Essa referência é uma das bases fundamentais para a pesquisa e será detalhada no capítulo 1 deste trabalho.

Raymund Unwin foi um dos maiores adeptos das teorias howardianas, ele defendia a criação de "subúrbios-jardins" nos arredores de cidades já consolidadas para frear a expansão urbana e a especulação imobiliária no centro e proporcionar boas condições de vida nas periferias. Com o livro “Town Planning in Pratice” de 1909, Unwin exerceu forte influência sobre a urbanística da época e se tornou um dos maiores expoentes do urbanismo do início do século XX.

Francoise Choay, no livro “O urbanismo”, de 1965, discorre sobre a formação das ideias que forneceram a base do urbanismo do século XX. A autora denomina de pré-urbanistas os primeiros pensadores sobre as reformulações da cidade industrial, pois eram de diferentes áreas do conhecimento, sendo os urbanistas geralmente arquitetos. A classificação apresentada por ela consiste no urbanismo progressista, o culturalista – que tem como exemplo a teoria cidade-jardim, de Ebenezer Howard, e está por trás da criação da cidade com baixa densidade na periferia – e no naturalista. Embora esta classificação restrita tenha sido superada, apresentando-se os planos e as cidades mais como uma fusão desses modelos, o estudo dessa autora ainda é uma referência importante na abordagem sobre esse tema.

Leonardo Benévolo, no livro “As origens da urbanística moderna”, de 1981, afirma que surgiram novas ideologias no tratamento do espaço urbano. Segundo ele, a Revolução Industrial proporcionou uma alteração na sociedade europeia em poucas décadas, modificando a estrutura do processo de organização do território europeu e dos espaços das cidades. Assim, inicia-se, juntamente à sociedade industrial, uma nova disposição do espaço urbano: a substituição das morfologias que eram empregadas desde a Idade Média, rompendo bruscamente com seus antecedentes e preparando a constituição de várias cidades modernas.

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Philippe Panerai, em sua obra “Formas urbanas – A dissolução da quadra”, de 1986, mostra a formação, crescimento e evolução das cidades, e sob que lógica ocorre tal processo. Além das reflexões em um percurso histórico contemporâneo sobre cidades-símbolo, realiza uma análise do desenvolvimento do espaço urbano a partir do estudo do quarteirão e seu processo de dissolução ao longo do século XX.

Dentro do tecido urbano, Panerai considera a quadra um elemento determinante do espaço. A partir do estudo das diversas configurações é possível observar a relação da arquitetura com a cidade e sua evolução. No século XIX, as quadras apresentavam características de altas densidades e grande compacidade. Com o tempo, essa quadra vai se transformando (Figura 1), a periferia vai sendo mais organizada e a parte central subtraída, originando pátios de usos coletivos. Outra fase dessa evolução é marcada pela abertura das extremidades, os pátios tornam-se caminhos públicos e a densidade é menor. Logo, as quadras formaram duas fileiras autônomas de moradias e sua localização se deu em função da trajetória solar. A continuidade da quadra em relação à rua e sua submissão ao traçado urbano foram desaparecendo aos poucos.

Figura 1 – Esquema ilustrativo da evolução da quadra de Ernst May. Fonte: (PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

- Urbanismo brasileiro:

Maria Cristina da Silva Leme, uma das autoras brasileiras dedicadas ao estudo do espaço urbano, no livro “Urbanismo no Brasil: 1895-1965” de 1999 relaciona vários textos sobre a história das ideias urbanísticas em oito cidades brasileiras: Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte, Niterói e Vitória. Obra de importância para o trabalho, pois estabelece uma conexão entre as ideias presentes na evolução urbana de outras cidades brasileiras nessa época.

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O livro de Silvia Wolff, “Jardim América: o primeiro bairro-jardim de São Paulo e

sua arquitetura”, de 2001, traz uma importante contribuição no campo da história da

arquitetura e do urbanismo ao relatar a história social e cultural de São Paulo. É relevante para a pesquisa ao apresentar vários documentos, mapas, fotos e reproduções de peças publicitárias, pertencentes ao acervo do arquivo da Companhia City, especialmente na parte dedicada ao levantamento e análise da arquitetura e urbanismo do bairro Jardim América desde a sua fundação.

Carlos Roberto Monteiro de Andrade é professor e pesquisador com ênfase em História do Urbanismo e possui diversos trabalhos publicados sobre o tema do urbanismo moderno, cidades novas planejadas, cidade-jardim e bairro-jardim, historiografia da cidade e do urbanismo, urbanismo sanitarista, e também sobre as trajetórias profissionais de engenheiros, arquitetos e urbanistas. Seus trabalhos, assim como sua tese de doutorado intitulada “Barry Parker: um arquiteto inglês na cidade de

São Paulo” de 1998 foram muito relevantes para esse estudo.

- Urbanística de Pelotas:

A obra do engenheiro Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, tanto o “Memorial

de Saneamento de Pelotas”, de 1927, como seus demais textos e projetos, é de grande

importância como fonte primária para a pesquisa. Associando racionalidade técnica a um estilo inovador, Saturnino foi um dos pioneiros na aplicação de princípios do planejamento urbano moderno no Brasil. Seus planos de saneamento, expansão ou melhoramentos criaram um novo cenário urbano, com bulevares, canais de drenagem a céu aberto e equipamentos sanitários que, por meio de novas concepções e soluções técnicas, redefiniram a fisionomia de várias cidades.

A tese de Paulo Roberto Rodrigues Soares, “Del proyecto urbano a la

producción del espacio: morfologia urbana de la ciudad de Pelotas, Brasil (1812-2000)”,

de 2002, é uma boa referência de pesquisa, pois traz uma análise da morfologia urbana da cidade de Pelotas com um recorte temporal compatível com o trabalho. Além disso, o autor considera os agentes de produção espacial do município, estudando o desenvolvimento urbano e os ciclos de crescimento e expansão da cidade. Soares também possui outros estudos de relevância para a pesquisa por abordarem temas relacionados à história do urbanismo de Pelotas.

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A dissertação de Roberta Taborda Santa Catharina, “Ordenanças urbanas e

ideia de cidade: o primeiro e o segundo plano diretor de Pelotas e os temas de urbanismo do século XX”, de 2012, também é de importância para essa investigação

porque faz uma reflexão sobre as ideias urbanísticas identificadas nos planos e legislações desenvolvidas para Pelotas até 1980.

b) Estudo e análise dos planos:

Nessa etapa realizou-se o levantamento histórico-documental dos planos, feito através de pesquisa de dados e informações sobre suas concepções e seus autores. Entretanto, antes do estudo dos planos foi realizada uma revisão bibliográfica com a intenção elencar os subsídios de análise urbana.

As obras selecionadas são referências do papel da legislação urbana e dos elementos que compõe a forma urbana e estruturam o crescimento da cidade, itens necessários para analisar a morfologia dos planos e plantas do trabalho. Pertencem a este conjunto os escritos de José M. Ressabi Garcia Lamas, a obra de Joaquín Sabaté, Philippe Panerai e Manuel Solà-Morales i Rubió. Embora não se tenha utilizado todas as categorias de classificação e de análise dos respectivos autores citados – devido ao fato dos dois planos não terem sido executados e por isso não serem mais detalhados – as leituras dessas referências foram importantes e auxiliaram na composição dos subsídios de análise urbana de ambos os planos.

Lamas, no livro “Morfologia urbana e desenho da cidade”, de 1992, relaciona dados retirados de disciplinas diversas – economia, geografia, história, sociologia – com a intenção de explicar a cidade como um fenômeno físico e construído. Explicação que determina a compreensão da forma urbana e seu processo de formação. Assim, ele aborda os aspectos exteriores do meio urbano e os elementos estruturantes do espaço urbano: o quarteirão, o logradouro, a rua, a praça, o monumento, entre outros. Considera o edifício como o elemento mínimo do espaço urbano, pois através dele se organizam os diferentes espaços da cidade – a rua, a praça, o beco, a avenida etc. – havendo uma mútua influencia entre a morfologia urbana e a edificação. Segundo Lamas, o quarteirão pode basear-se na sua forma construída como no processo de traçado e divisão fundiária. Além disso, o quarteirão agrega e organiza também outros elementos da estrutura urbana: o lote e o edifício, o traçado e a rua e as relações que estabelecem com os espaços públicos e privados.

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Sabaté, na obra “El proyecto de la calle sin nombre. Los regulamentos urbanos

de la edificación París – Barcelona”, de 1999, argumenta que a importância das leis

urbanas reside no fato de que elas resultam uma condição que está muito vinculada à forma das edificações. Outro indicativo do valor das ordenanças é a importância que tiveram ao longo da história como instrumento de configuração da cidade e consenso em prol da melhoria da construção urbana.

Nesse caminho, Sabaté indica diferentes tipos de regramentos que refletiram a maneira de observar a cidade em diferentes momentos na história. Esses diferentes olhares podem indicar as mudanças fundamentais no conteúdo das ordenanças: o controle indireto na forma urbana (ordenança da atividade construtiva; da boa construção e da boa vizinhança) e controle direto do espaço da cidade (ordenanças de ornamento público; ordenanças de higiene; ordenanças de zoneamento). O autor sistematiza as ordenanças urbanas em seis categorias diferentes e assim as define:

• Ordenança da atividade construtiva: relaciona a forma da cidade e suas construções;

• Ordenança de boa construção: preocupada com as regras de estabilidade e segurança das construções arquitetônicas;

• Ordenança de boa vizinhança: regulariza o direito da construção, mais especificamente com a separação de aberturas, paredes, altura das edificações, abertura nas fachadas etc.;

• Ordenança de ornamento público: relacionado essencialmente com as fachadas públicas;

• Ordenança de higiene: retrata a preocupação com a higiene na circulação de luz e ar na cidade;

• Ordenança de zonificação: separação dos diferentes usos da cidade.

Os estudos produzidos por Solà-Morales, em “Las formas de crecimiento

urbano”, de 1997, analisam as teorias de crescimento, com o argumento que para um

projeto urbanístico dar forma a um processo físico e arquitetônico que combine solo, edificação e infraestrutura, necessita de três operações: parcelamento (P), urbanização (U) e edificação (E). Nem sempre são processos simultâneos e encadeados de mesma maneira, mas é através dessas três combinações que surgem as diferentes morfologias das cidades.

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c) Relações entre planos e teorias:

Nessa etapa, através dos subsídios de análise – elencados a partir da bibliografia indicada e das características dos exemplos de projetos de cidade-jardim – foi possível analisar e detalhar os elementos presentes nos dois planos.

O presente trabalho está estruturado em introdução, cinco capítulos, considerações finais, referências bibliográficas e fontes de pesquisa. Na introdução são apresentadas a caracterização do projeto, a justificativa do tema de investigação, as perguntas, os objetivos gerais e específicos, os procedimentos metodológicos e o estado da arte pertinente à pesquisa e desenvolvimento do trabalho.

No Capítulo 1 – A teoria da cidade-jardim e suas ressonâncias – através da revisão de literatura, são abordados dados e informações sobre a origem da teoria da cidade-jardim, seu autor, sua concepção, sua difusão pelo mundo e sua ressonância no Brasil. Este capítulo pretende contribuir para um melhor entendimento desse modelo urbanístico, tão importante na história do urbanismo.

No Capítulo 2 – Subsídios de análise urbana – são apresentados, listados e comentados, conforme o embasamento conceitual, os elementos que servirão de análise na morfologia urbana dos dois planos desenvolvidos para a cidade de Pelotas. Foram divididos em dois tópicos: a) Elementos urbanos e as formas de crescimento b) os princípios urbanísticos da teoria cidade-jardim.

No Capítulo 3 – Plano Geral de 1922 – são apresentadas informações antecedentes até a concretização do plano de Fernando Rullmann – como a conformação urbanística da cidade de Pelotas e as legislações que regeram o município – assim como dados relativos à sua concepção.

No Capítulo 4 – Plano de Expansão de 1927 – são apresentadas informações antecedentes à concretização do plano de Saturnino de Brito – questões a respeito do urbanismo sanitarista, relevantes para compreender melhor o trabalho desenvolvido pelo engenheiro – assim como dados relativos à sua concepção.

No Capítulo 5 – Os Planos e a teoria cidade-jardim – é apresentada a análise dos dois planos através de subsídios elencados a partir da categorização dos elementos urbanos, das formas de crescimento da cidade e dos princípios urbanísticos da cidade-jardim, que assim se constituem: meio natural, malha urbana, eixos estruturadores, espaços públicos e quadras e lotes. Através da análise foi possível apontar quais características da teoria cidade-jardim estão presentes nos planos.

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CAPÍTULO 1

A TEORIA DA CIDADE-JARDIM E SUAS RESSONÂNCIAS

1.1 As ideias urbanísticas europeias na virada do século XIX-XX

Com a Revolução Industrial, as cidades europeias cresceram exponencialmente, romperam os limites de suas muralhas medievais e se espalharam, exercendo uma pressão sem precedentes sobre o território. Em 1800, as cidades europeias haviam se tornado no mínimo duas vezes mais densas que suas predecessoras medievais. Com isso, os centros urbanos foram se degradando e os bairros agradáveis cada vez mais pareciam ilhas isoladas entre um mar de cortiços industriais cinzentos, densos e esteticamente desagradáveis. Assim, cidades com superpopulação, repletas de poluição, fome, epidemias e mortes, eram os traços característicos da vida urbana para a grande maioria da população (KOTKIN, 2012).

Entre os anos de 1840 e 1901, a população da cidade de Londres triplicou. Esse crescimento ocorreu, especialmente, devido ao desenvolvimento da indústria do couro e vestuário, assim como ao crescimento do tráfego portuário. Isso atraiu a população rural, de modo que o crescimento de Londres até 1870 foi essencialmente o resultado da imigração de uma população sem trabalho no campo, ou de estrangeiros que abandonavam seu país devido às dificuldades. A partir de 1870, a imigração continuou, e, somado a isso, o número de nascimentos se tornou superior ao número de falecimentos (PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

No mesmo período, as atividades financeiras e comerciais aumentaram e fizeram com que a população do centro se transferisse para a periferia. A partir da metade do século XIX, o estabelecimento de redes de transporte suburbano facilitou a expansão desses subúrbios. Entre 1820 e 1914, o raio do espaço urbanizado londrino passou de cinco para quinze quilômetros. Esse crescimento foi consolidado pela construção de conjuntos habitacionais, com tipologia de casas em fita e construção sistematizada. Os bairros (Figura 2) cresceram em um ritmo acelerado e também desastroso (PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

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23 Figura 2 – Gravuras de Gustave Doré, ambas retratam Londres no período da Revolução Industrial.

Fonte: (BENÉVOLO, 1999).

Em resposta a essas condições urbanas e de habitação, alguns filantropos e planejadores urbanos propuseram novas maneiras de pensar a cidade. Para isso começaram a explorar novos modelos, principalmente para as cidades industriais. Com isso, novas formas urbanas surgiram, como o centro comercial linear – composto por lojas que se desenvolvem ao longo de corredores viários – e as cidades-satélites – povoamentos independentes que muitas vezes também incluíam comércio e serviços privados (KOTKIN, 2012; WALL & WATERMAN, 2012).

Por se tratar de uma época de grande crescimento urbano, com novos modelos urbanísticos pensados para novos estilos de vida, o período industrial se caracterizou também por muitos avanços em vários aspectos das cidades. Os planejadores compartilharam a crença de que novas cidades poderiam ser planejadas de modo a melhorar a situação do cidadão. Embora apenas algumas dessas cidades tenham sido executadas, as influências desses ideais utópicos nas sucessivas gerações de urbanistas foram grandes (WALL & WATERMAN, 2012).

Entre os planejadores e teóricos mais influentes do período Industrial destaca-se Ebenezer Howard (1850-1928). A concepção howardiana apresentou-se adequada ao plano de construção do espaço utópico. Longe da grande cidade e de seus problemas, como poluição, presença de cortiços e especulação imobiliária, Howard propunha cidades de pequena e controlada dimensão no interior da Inglaterra, com solo urbano pertencente a uma cooperativa – negando a propriedade privada – , habitadas por pessoas vindas da capital ou de outras cidades que apresentavam os mesmos problemas e dificuldades (HOWARD, 1996; HALL, 2013).

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Em meio a tantas mudanças, motivadas pela efervescência intelectual da época, começaram a surgir de todos os lados, publicações em formato de livros e revistas. Expoentes como Sitte e Howard, os quais publicaram seus princípios em livros que passaram a ser marcos na história da construção das cidades, provocaram reações e alavancaram movimentos (SOUZA, 2010).

Em 1889, Camillo Sitte publica “Der Städtebau nach seinen kunstlerischen

Gründsätzen” (A construção das cidades segundo seus princípios artísticos), criticando

a cidade moderna e o urbanismo francês. Seu livro se deu principalmente em reação às obras de Haussmann em Paris, na readequação da cidade do passado às necessidades da cidade moderna, assim como à abertura da Ringstrasse de Viena, na Áustria, modelos que ligavam a cidade antiga com as novas áreas em expansão através de grandes e importantes bulevares.

Sitte (1992) acreditava que a simetria de traçado, com casas regularmente alinhadas, provocava um mau efeito e também contribuía para o isolamento de monumentos. No campo da higiene, ele reconhecia o progresso alcançado nesse modo de planejamento, mas não acreditava que, para se obter tal benefício, fosse também necessário suprimir a beleza das cidades.

No urbanismo da virada do século XX, o livro de Sitte teve significativa importância, influenciando arquitetos e urbanistas europeus como Raymond Unwin, Berlage e Ernst May. Os princípios de sua teoria desencadearam uma linha de pensamento que influenciou uma geração de profissionais tanto das áreas de engenharia como de arquitetura e urbanismo.

É importante destacar que, concomitantemente ao desenvolvimento da teoria da cidade-jardim na Inglaterra, na Alemanha se desenvolviam estudos de modernização urbana que iriam dialogar com a teoria de Howard. Por volta de 1880, Inglaterra e Alemanha iniciaram diálogos que passaram a favorecer a prática e busca de soluções para os problemas urbanos comuns entre ambos os países, no que dizia respeito, principalmente, aos bairros operários. Como será visto posteriormente, a Alemanha passou a adotar princípios semelhantes aos da cidade-jardim em áreas próximas aos grandes centros de Berlim (SOUZA, 2010).

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25 1.2 Teoria da cidade-jardim e seus desdobramentos projetuais

Impressionado com a desordem, as doenças e a crescente criminalidade da metrópole, Howard defendeu a criação de cidades-jardim na periferia londrina, tornando-se um dos defensores mais influentes da dispersão urbana do século XIX. Como comentado anteriormente, em 1898, Howard publica a obra Tomorrow: A

Peaceful Path to Real Reform, reeditada em 1902 com o título Garden Cities of Tomorrow, onde apresenta os caminhos para a solução do inexorável crescimento de

Londres e suas periferias (OTTONI, 1997).

Para entender melhor a contribuição de Howard, é importante conhecer as experiências que contribuíram para a formação de suas ideias, desenvolvidas entre os anos de 1880 e 1890. Nascido em Londres em 1850, Howard cresceu em cidades interioranas do sul e leste do país. Aos 21 anos emigrou para Nebraska, Estados Unidos. Sua experiência como agricultor foi um desastre e no ano de 1872 foi morar em Chicago, onde começou a trabalhar como taquígrafo, profissão que exerceu pelo resto da vida (HALL, 2013; CALABI, 2015).

Como fazendeiro, Howard vivenciou a Lei de Distribuição de Terras de 1862, que cedeu porções de terras gratuitamente para os pioneiros, estabelecendo, com isso, uma economia e sociedade de fazendas prósperas e um sistema educacional voltado para a agricultura. Já em Chicago, presenciou a reconstrução da cidade após o grande incêndio de 1871. É importante frisar que, anteriormente à era dos arranha-céus, Chicago era conhecida universalmente como cidade-jardim, provavelmente a origem do título do trabalho de Howard (HALL, 2013).

De volta à Inglaterra, Howard dedicou-se a estudar. Declarou que as ideias centrais da teoria foram pensadas por ele, embora houvesse escritores precursores, como Edward Wakerfield, que lhe forneceram embasamento. Cinquenta anos antes, Wakerfield desenvolveu na Austrália a ideia de uma cidade planejada para pessoas pobres. Seu esquema definia que quando uma cidade atingisse determinado tamanho, dever-se-ia começar outra, separada por um cinturão verde, origem do seu conceito de cidade social, admitiu Howard (HALL, 2013).

Um artigo de 1884, do economista Alfred Marshall, provavelmente também tenha influenciado Howard. Marshall sugeria que a remoção para o campo de parte da população londrina seria, a longo prazo, economicamente vantajosa, beneficiando tanto os que se mudavam como os que ficavam na cidade. Para ele, as novas tecnologias iriam viabilizar essa dispersão (HALL, 2013).

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Segundo Howard, tanto a cidade, quanto o campo, podiam ser considerados como imãs que atraiam a população para si. O propósito do seu livro consistia em mostrar a direção para a construção do imã cidade-campo, o imã que uniria essas duas possibilidades em uma única. Portanto, a ideia de cidade-jardim nasceu da intenção de agregar as vantagens da vida ativa da cidade com a beleza e outras qualidades da vida do campo. A nova cidade seria construída com baixas densidades e com casas isoladas no meio do espaço verde. Com isso, era esperado que o nível da saúde e bem-estar dos trabalhadores fosse elevado (CHOAY, 1992).

Assim, a proposta de Howard pretendia reaproximar o homem da natureza por meio de reformas – sociais e territoriais. Isso fica evidente no trecho que o autor expõe em sua obra:

“A questão é universalmente considerada como se agora fosse (e assim devesse permanecer para sempre) completamente impossível para os trabalhadores viver no campo e apesar disto dedicar-se a atividades outras que não a agricultura (...). Essa falácia é aquela muito comum de ignorar por completo a possibilidade de alternativas além daquelas apresentadas à mente. Na verdade, não há somente duas alternativas, como se crê – vida urbana ou vida rural. Existe também uma terceira, que assegura a combinação perfeita de todas as vantagens da mais intensa e ativa vida urbana com toda a beleza e os prazeres do campo, na mais perfeita harmonia” (HOWARD, 1996 – p. 107-108).

As Cidades Jardins deveriam comportar uma população em torno de 32.000 habitantes, sendo 30.000 na área urbana e 2.000 no setor agrícola. A parte urbana era composta por seis setores, cada um deles servido por escola pública, cozinha coletiva, igreja, campos esportivos, áreas de lazer, clubes e lojas. Esse modelo de projeto seria um embrião do futuro conceito de “Unidade de Vizinhança” (OTTONI, 1997).

No núcleo central da cidade havia um anel de jardins rodeados por edifícios públicos como prefeitura, salas de concertos e conferências, teatro, biblioteca, museu, galerias de arte e hospital. O restante desse núcleo era circundado por uma arcada envidraçada – o “Palácio de Cristal” – jardim de inverno onde eram expostas manufaturas para a venda, abrindo-se diretamente ao parque público de recreação. Entre a parte central da cidade e o setor industrial externo, circundado pela ferrovia, localizavam-se as habitações, permeadas de vegetação (OTTONI, 1997).

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Através de suas ideias, Howard pretendia criar atrativos maiores do que as grandes cidades poderiam oferecer em termos de oportunidades de emprego, diversão e progresso pessoal. Em sua obra, composta também por cálculos e diagramas geométricos (Figura 3), através dos quais demonstrou suas principais ideias, Howard estabelece uma proporção de 32.000 habitantes para 1.000 acres de terra, onde a cada área de 5.000 acres haveria um cinturão verde (HOWARD, 1996).

Figura 3 – Interpretação dos diagramas de Howard – Esquema dos três imãs (esquerda) e esquema de distribuição de usos e espaços da cidade (direita). Fonte: Renato Saboya (2008) – Site Urbanidades.

Tendo o cuidado de que suas ideias incluíssem os desejos dos industriais, comerciantes, cooperados, artistas e eclesiásticos, oito meses após a publicação de seu livro, Howard criou a Garden City Organization para discutir ideias e possíveis alterações além de também formular um esquema prático de projeto. O projeto executado por arquitetos e urbanistas, para um terreno ideal e com um programa de necessidades detalhado, definiria a cidade a ser construída (HALL, 2013).

Em 1903, Howard criou a cidade de Letchworth e contratou os jovens arquitetos Raymond Unwin (1963-1940) e Richard Barry Parker (1867-1947) para a realização de seu projeto urbano. Antes desse projeto eles haviam trabalhado na urbanização de uma aldeia-jardim para um grupo empresarial, com isso já haviam experimentado aspectos que iriam desenvolver nas propostas de Howard (HALL, 2013).

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Unwin e Parker estipularam que suas atividades, antes de tudo, deveriam promover a beleza ou deleite: “Acima de tudo, precisaremos infundir o espírito do artista em nosso trabalho”. Entretanto, não deixaram de ter em mente os usuários e os respectivos espaços que eles iriam usufruir (UNWIN, 1984).

Em 1904, financiadas por uma sociedade anônima, iniciaram as obras da cidade de Letchworth (Figura 4). O conjunto era composto por usos residenciais, industriais e comerciais. Os arquitetos projetaram casas isoladas, recuados dos limites do terreno, com jardins fronteiriços. A vegetação permeava toda a cidade e se ligava ao cinturão verde rural que a contornava, sempre tomando a escala humana como referencial. No final, se obteve uma grande qualidade técnico-construtiva, propiciando maior área de habitação e preço acessível (OTTONI, 1997; TREVISAN, 2014).

Figura 4 – Plano de Parker e Unwin para a cidade de Letchtworth (esquerda), foto mostrando rua e residência de Letchworth (direita em cima) e detalhe da área central do plano (esquerda embaixo).

Fonte: (OTTONI, 1997; PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

A cidade de Letchworth tornou-se referência, atraindo estudiosos de todo o mundo e influenciando diversos subúrbios nas formas de ocupação. Além disso, também estimulou pesquisas de habitação social na Europa, resultando na busca por habitações dignas, com baixo custo para o operariado. Ligados a cidades existentes, os bairros-jardim se proliferaram mundialmente (WOLFF, 2001).

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Em 1906, foi promulgada a Lei de Planejamento Urbano, em Londres, que tornou obrigatório o controle dos projetos de parcelamento urbano, reunindo o cuidado da densidade dos loteamentos com a construção das habitações. Com isso, criou-se uma atmosfera propícia para novas pesquisas e experimentações urbanísticas. Além disso, a ideia de cidade-jardim e cidades-satélites tornou-se o centro dos debates dos urbanistas. A partir de então, o urbanismo passa a ter instrumentos legais e teóricos no controle do crescimento da cidade (PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

No ano de 1909, baseando-se em suas experiências de trabalhos, Unwin publicou o livro Town Planning in Practice. Em seu livro, sobre o planejamento das cidades e as relações entre edifícios e espaços, apresenta cidades e aldeias inglesas, francesas e alemãs (UNWIN, 1984; PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

Depois de analisar várias cidades europeias, Unwin estabeleceu algumas regras precisas para projetos urbanísticos: uma estrutura global clara, formada por centros densos e facilmente identificáveis, alguns bairros morfologicamente diferenciados, um limite e uma barreira ao crescimento da cidade, um eixo, um marco – uma construção excepcional, podendo ser até uma estrada – e baseando-se nas ideias de Camillo Sitte, um traçado urbano pitoresco (PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

Em 1910, houve uma exposição internacional sobre planejamento urbano em Londres, Berlim e Düsseldorf. A exposição mostrava a pertinência das teorias de Unwin e a atualidade dos problemas por ele abordados. Através disso percebe-se a rapidez da difusão das suas ideias (PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

As ideias propostas por Unwin foram postas em prática parcialmente, pois o “espírito da época” não estava pronto para adotá-las totalmente. Ainda assim, algumas das experiências foram referências para as políticas de novas cidades e os cinturões verdes presentes na Inglaterra (PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

O conceito cidade-jardim não ficou restrito somente ao campo do planejamento de cidades novas. Em 1907, Unwin e Parker apresentam o projeto do subúrbio-jardim

Hampstead, localizado a 8 km do centro de Londres. No esboço de 1905, Unwin

concentrou os principais equipamentos comunitários em um denso centro e criou alguns centros menores com equipamentos para vários outros bairros. Este projeto preliminar não foi adiante em virtude de algumas contraposições entre as propostas de Unwin e os desejos de sua cliente: esta havia posto várias condições para o projeto, entre elas que todas as classes da sociedade pudessem conviver e que as divisas dos terrenos não fossem de muros (PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

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O projeto de 1909 (Figura 5) foi totalmente executado. Nele estavam evidentes alguns princípios de Unwin: desenho de uma estrutura viária geral, centro denso, locais de moradia diversificados, hierarquia espacial e o estabelecimento de limites urbanos. O tratamento dado às vias fez mais concessões ao pitoresco. Entretanto, a fama já alcançada por Unwin e Parker, o caráter experimental do empreendimento e a sua implantação o transformaram em um bairro com altos custos financeiros, dificultando o financiamento e facilitando para que a classe dominante se apropriasse de quase todas as moradias (PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

Figura 5 – Projeto de Unwyn e Parker para o bairro-jardim de Hampstead (acima), detalhe projeto (embaixo à esquerda) e tipologia das residências do bairro (embaixo à direita).

Fonte: (OTTONI, 1997; UNWIN, 1984).

Em 1919, para provar a viabilidade econômica e social de sua proposta, Howard decidiu construir a segunda cidade-jardim. Assim, ele dedicou-se à realização de

Welwyn Garden City. Ela fazia parte de um grupo de cidades que deveria circundar a

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Apesar de estar localizada a 22 km de Londres, e ser bem conectada com a capital por ferrovias, a cidade foi pensada para ter certa autonomia econômica. O interesse em Welwyn consistiu no fato dela juntar a ideia de cidade-satélite aos princípios da cidade-jardim de Howard – como administração autônoma e uma relação com o campo – e a materialização das ideias de Unwin sobre planejamento urbano (PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

Howard nomeou como arquiteto Louis de Soissons, considerado, na época, como um talentoso jovem arquiteto. O projeto de Soissons utilizou a topografia do terreno e aproveitou a curva da ferrovia para estabelecer uma composição axial, mantendo a vegetação e as construções existentes e ligando todo o conjunto por meio da vegetação, com normas definidas e uma arquitetura de grande homogeneidade (PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

Soissons utilizou as mesmas ferramentas de composição urbana de Unwin. Embora tenha evitado os efeitos pitorescos, ele sobrepôs duas ideias de cidade: a cidade medieval, com sua heterogeneidade, e a cidade clássica, com seu rigor e unidade. Welwyn (Figura 6) teve a rede viária construída com base nos caminhos já existentes. Um distrito industrial foi previsto e dotado de equipamentos urbanos (PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

Figura 6 – Projeto de Welwyn (esquerda) e imagens das residências, ruas e vegetações (direita). Fonte: (OTTONI, 1997; PANERAI, CASTEX & DEPAULE, 2009).

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Embora Howard não tenha utilizado conceitos originais em suas propostas, a combinação feita por ele foi única. Através dos diagramas e também de alguns dos esquemas com os quais ilustrou sua proposta, ele esquematizou todos os elementos que deveriam compor uma cidade ideal, criando assim uma base com alguns conceitos que compuseram a teoria de cidade-jardim (HALL, 2013).

Assim, destacando o caráter pragmático da sua proposta, Howard apresentou um modo de manutenção do equilíbrio social, ameaçado pelas condições de urbanização das camadas populares inglesas durante o século XIX. No que se refere à morfologia urbana, o aspecto original se constituiu na grande importância simbólica dada aos espaços verdes. Sua teoria serviu de referência e repercutiu em várias experiências do urbanismo do século XX (ANDRADE, 1998).

1.3 As ressonâncias da teoria cidade-jardim pelo mundo

O ideário cidade-jardim teve repercussão não apenas na Inglaterra, mas também em diversos outros países. Sua difusão se fez a partir de variados mecanismos: através de viagens e contatos profissionais, livros, exemplares, exposições, periódicos e também palestras. A circulação dos conceitos desse ideário em diversos países acarretou em cidades novas, cidades-satélites, subúrbios-jardins, ou simplesmente bairros-jardins, porém com variações que vão desde a reprodução física ou plástica simplesmente até a adequação dos conceitos originais às necessidades locais (ANDRADE, 1998; BEEVERS, 1988; TREVISAN, 2014).

A ressonância da cidade-jardim chegou a vários urbanistas por todo o mundo que projetaram diversos exemplares, como mostra o livro The Garden City, past,

presente and future de 1992, organizado por Stephen Ward. No Japão, o ideário foi

introduzido por Tomoichi Inouye em 1905 e por Yoshikasu Uchida para Tamagawadai em 1918. Houve também o exemplo de Milanino na Itália em 1910, na Austrália, onde os ingleses iniciaram um processo de urbanização, e nos EUA, com uma atenção maior para as Unidades de Vizinhança (TREVISAN, 2014).

Na França, o ideário foi concretizado no bairro de Suresnes na periferia de Paris a partir de 1925. Prefeito de Suresnes por 22 anos, Henri Sellier construiu as moradias de baixo preço, primeiramente nomeadas HBM, as primeiras habitações de aluguel barato, o Lycée Paul Langevin aberto em 1927 e ampliado em 1937 e a École de plein

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Na Alemanha, o modelo de cidade-jardim foi proposto inicialmente em 1910 por Bruno Taut para a vila de Hellerau de Dresden, e para a cidade-jardim de Falkenberg no ano de 1913. Durante a República de Weimar (1918-1933), a Alemanha começou a financiar cooperativas de sindicatos para a resolução de carências habitacionais que foram acentuadas pela Primeira Guerra Mundial. A ideia de cidades-jardins estava presente nos trabalhos dos arquitetos que procuravam qualidade na habitação e seu entorno. Isso ocorreu na medida em que o programa de construções ia absorvendo a necessidade de edifícios de vários andares, tecnologia de construção pré-fabricada e adotando alguns cuidados a respeito da insolação e da ventilação (OTTONI, 1997).

Em 1912, Bruno Taut era o arquiteto consultor da Sociedade Alemã de Cidades Jardins e também responsável por vários projetos na capital do país, e Ernst May era o arquiteto chefe do programa habitacional de Frankfurt. May produziu em torno de 15.000 habitações e afirmava que os arquitetos da nova arquitetura acreditavam, assim como Raymond Unwin, que o significado de uma cidade não se dava a partir da quantidade de habitantes, mas da qualidade de vida. Isso demonstra a intenção que se tinha de evitar nesse país prédios executados com extrema economia de maneira a se obter maior rentabilidade, produzindo baixa qualidade (UNWIN, 1984; OTTONI, 1997).

May acreditava que não se deveria criar uma “chaga urbana dissimulada”, mas em contraposição, construir elementos urbanos de qualidade. Isso mostra a influência que absorveu em Londres (1906-1907) e na sua estadia no escritório de Unwin em Hampstead (1910-1912). Significativamente, o Congresso Internacional de Arquitetura Moderna de 1929 foi realizado em Frankfurt sob o tema “A Habitação Mínima” confrontando resultados obtidos em vários países, mas, em especial, na Alemanha. No congresso foi debatida tanto a consolidação da arquitetura racionalista, como a construção da habitação social de qualidade assim como o seu relacionamento com a configuração da cidade contida nas propostas de Howard (OTTONI, 1997).

No período anterior ao ano de 1920, algumas discussões foram fundamentais na urbanística germânica. Entre elas estava a escolha do traçado com ruas retas ou curvas, assim como da racionalidade versus a espontaneidade do desenho urbano, além do detalhamento das fachadas e os efeitos visuais decorrentes deste procedimento. Outra característica predominante do urbanismo germânico era a utilização do zoneamento, que era dividido em três categorias: a zona industrial, as zonas de comércio e as zonas exclusivas para residências (SOUZA, 2010).

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Devido à riqueza e importância de seu conteúdo, a urbanística germânica inspirou muitos planejadores, de modo que ainda hoje se discute sua importância na origem do urbanismo moderno no final do século XIX e início do século XX (1870-1914). Vários autores dão à Alemanha o reconhecimento de ser o país líder mundial do urbanismo, assim como também a consideram como a precursora na fundamentação do urbanismo enquanto campo disciplinar e científico (SOUZA, 2010).

Nos Estados Unidos, a Planning Association of New York, em 1909, indica o início do fim de um período de planejamento marcado pelo movimento City Beautiful, destinado basicamente ao embelezamento das cidades, em especial nas partes centrais. A partir de então, preocupações com a política, justiça social e economia começaram a promover estudos e trabalhos dando ênfase ao planejamento regional no desenvolvimento de cidades pequenas como modelo (OTTONI, 1997).

Neste movimento atuaram pensadores, planejadores e profissionais como Clarence Stein, Catherine Bauer, Frederick Akermann e Lewis Munford que mantiveram sintonia com o ideário cidade-jardim. Várias visitas a Letchworth e Welwyn foram realizadas e, por sua vez, Howard, Parker e Unwin também estiveram nos Estados Unidos. Três exemplos mostram aspectos dessa importante contribuição:

Sunnyside Gardens (1924), Radburn (1928) e Greenbelt (1935). A grande facilidade de

transporte por automóvel, ferrovia e metrô, facilitou a expansão dos subúrbios-jardins que se tornaram umas das marcas registradas em todo o país. Entretanto, em nenhum outro lugar dos Estados Unidos o ideal suburbano se manifestou com tanta intensidade e magnitude quanto na cidade de Los Angeles (OTTONI, 1997).

Dado o exposto, nota-se que a proposta de Howard apresentou grande ressonância no urbanismo que vigorou na primeira metade do século XX, difundindo-se por inúmeros países em vários continentes, chegando ao Brasil.

1.4 Os reflexos da teoria cidade-jardim no Brasil

A busca por áreas verdes no espaço urbano, ocorrida na Europa e nos Estados Unidos, tornou-se um hábito também no Brasil após o período colonial. Reflexo da cultura iluminista que adentrava o país e da expansão dos centros urbanos, o hábito começou a ser praticado principalmente nos jardins públicos que estavam sendo recém-inaugurados em vários estados (TREVISAN, 2014).

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Através das novas normas sanitárias, o uso de recuos possibilitou que áreas verdes fossem inseridas em maior quantidade no espaço residencial. Até então, o único recuo existente eram nos quintais de fundo. O processo de isolamento da habitação no lote iniciou-se nas classes abastadas, cujas residências eram implantadas inicialmente com recuos laterais e, depois, frontais. Com o tempo, também houve variação nos espaçamentos entre a construção e os limites do lote. Entretanto, foi com a chegada dos conceitos de cidade-jardim no Brasil que esta aproximação entre cidade e natureza se deu de forma mais acentuada (TREVISAN, 2014).

Dois fatos possibilitaram os profissionais brasileiros tomarem conhecimento dos conceitos howardianos. O primeiro se deu em 1915, quando a Companhia City contratou os arquitetos ingleses Raymond Unwin e Richard Barry Parker para elaborarem o projeto do bairro Jardim América na capital paulista. O segundo está relacionado à vinda do urbanista francês Donalt Alfred Agache ao Rio de Janeiro, em 1927. Através de suas palestras e de alguns meios de comunicação impresso, foram expostos os conceitos elaborados por Howard para diversos profissionais, acarretando a proliferação deste ideal em vários estados do país (WOLF, 2001).

A ideia de cidade-jardim no Brasil ocorreu com maior clareza, embora de maneira fragmentada, no estado de São Paulo. A expansão do complexo empresarial cafeeiro na capital paulista compreendeu grandes investimentos em terras, no sistema ferroviário, na formação de bancos, nas firmas de comércio de importação e exportação, na indústria, nos transportes e também nos demais serviços urbanos. Todo esse progresso econômico se fez articulado ao mercado internacional de consumo e de capitais e produziu uma intensa urbanização nas grandes cidades. A partir de 1872, a capital elevou-se rapidamente, de cerca de 30 mil para 240 mil habitantes, ampliando em quase oito vezes o mercado imobiliário da cidade (OTTONI, 1997).

Assim, a capital paulista, no início do século XX, crescia moldada pelo processo de industrialização. Entretanto, enquanto nos Estados Unidos e países europeus estavam sendo implantadas novas propostas urbanísticas, em São Paulo, a legislação proibia a aprovação de projetos com características pertencentes a novos movimentos urbanos. Portanto, a implantação do sistema viário estava sujeita ao uso do sistema ortogonal, com arruamentos em forma de tabuleiro de xadrez, mesmo em locais onde a topografia era desfavorável para esse tipo de ocupação. No início do século XX, pressões no sentido de readequar a legislação urbanística, de arruamento e parcelamento em São Paulo entraram em curso (COSTA, 2014).

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As criações de leis ao longo dos anos propiciaram a implantação de projetos de urbanização e trouxeram contribuições do urbanismo que estava em alta no exterior. Alguns dos protagonistas participantes desse processo foram os prefeitos Antônio Silva Prado (1899-1909), Raimundo Duprat (1910-1913) e Washington Luis (1914-1918), o professor da Escola Politécnica e futuro Prefeito Luiz Ignácio Mello, o Diretor de Obras Municipais Vítor da Silva Freire, o engenheiro-arquiteto Alexandre de Albuquerque e o consultor francês Joseph-Antoine Bouvard (COSTA, 2014).

O pensamento urbanístico germânico também se tornou tema de interesse no Brasil, uma vez que ressonâncias desse pensamento chegaram ao país através de publicações e também por meio de arquitetos, engenheiros e construtores que, ou tiveram sua formação naquele país, ou tiveram a oportunidade de contato com os seus expoentes. A influência de Sitte também é evidenciada em dois dos principais urbanistas brasileiros do início do século XX, os engenheiros sanitaristas Victor da Silva Freire e Saturnino Rodrigues de Brito (SOUZA, 2010).

No Rio Grande do Sul, especialmente em Porto Alegre, capital com grande presença de imigração alemã, era natural a influência cultural da Alemanha. Isso ocorria principalmente na Escola de Engenharia, criada dentro do modelo alemão, onde eram difundidos os ensinamentos de arquitetura e urbanismo, já que não havia uma escola de arquitetura. Além disso, a vinda de especialistas da Alemanha e a ida de estudantes para lá, reforçavam essa relação no Estado. Isso fica evidente no memorial do plano urbanístico de 1924 de Pelotas – objeto de estudo deste trabalho – que destaca “que o uso do método irregular é muito adotado na Alemanha por especialistas contemporâneos” (DIÁRIO POPULAR, 1924, p.5; SOUZA, 2010).

Em 1911, notícias sobre a expansão crescente do Brasil foram divulgadas no exterior e acabaram atraindo grandes investidores internacionais para a área imobiliária da cidade de São Paulo, que, com a colaboração de intermediários locais como Cincinato Braga e Horácio Sabino, criaram a City of São Paulo Improvements and

Freehold Land Company Limited, mais conhecida como Companhia City, empresa

loteadora que adquiriu enormes áreas em São Paulo e que contratou importantes profissionais para desenvolver seus projetos. Por não contar com um planejamento municipal e uma política de desenvolvimento urbano estruturado pelo poder público, a organização espacial de São Paulo tem muito a creditar à iniciativa privada. A constituição da Companhia City foi o marco para as transformações urbanas que se sucederam na capital paulista nos anos seguintes (COSTA, 2014).

Referências

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