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A complexidade da sociedade industrial do momento e a necessidade de organização do espaço urbano exigiu o estabelecimento de regras por parte dos principais agentes na produção da cidade. Assim, na tentativa de organizar o espaço urbano da cidade, a administração municipal se viu obrigada a tomar uma medida mais racional de planejamento e controle urbano, estabelecendo mudanças que foram além das ações higienistas. Como os planos de saneamento realizados eram insuficientes para garantir a racionalidade do crescimento urbano foi necessário um plano de ordenação para toda a cidade, um plano que conversasse com a cidade existente, criando uma cidade moderna sobre a cidade tradicional (SOARES, 2002).

À frente da prefeitura, o Coronel Pedro Osório foi o responsável por várias alterações na gestão da cidade. Segundo ele, as formas de crescimento, até então praticadas deveriam ser evitadas, pois se constituíam em um “método natural de crescimento”, onde se construíam os edifícios “de forma aleatória, dispersando a população e encarecendo, pelas distâncias, os serviços públicos”. Acreditava que a cidade deveria ter um plano geral para "promover o desenvolvimento saudável e racional, em harmonia com o progresso e gosto moderno" (PELOTAS, 1922).

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Assim, no dia 20 de abril de 1924 foi publicado, no jornal Diário Popular de Pelotas, o primeiro plano geral de ordenação da cidade de Pelotas, juntamente com o memorial do projeto de ampliação da cidade, estudos de urbanismo e suas regras gerais, desenvolvido por técnicos municipais, pelos engenheiros Ildefonso Simões Lopes e Manuel Luis Osório e pelo arquiteto Fernando Rullmann, que coordenava o projeto, e aprovado pelo Coronel Pedro Osório (DIÁRIO POPULAR, 1924).

O Plano Geral (Figura 18) havia sido publicado anteriormente no Relatório da Intendência em 1922 e apresentado ao Conselho Municipal em 20 de setembro de 1924. Foi o primeiro plano de desenvolvimento urbano para Pelotas em que o município foi pensado no seu conjunto e não de forma pontual. A publicação esclarecia que o plano, além de ter um desenvolvimento racional em harmonia com o progresso e o gosto moderno, evitava reformas grandiosas e a destruição do caráter peculiar da cidade existente, mantendo assim o seu passado histórico e a sua fisionomia, respeitando, na área central, os antigos alinhamentos (PELOTAS, 1922).

Figura 18 – Projeto de Ampliação de 1922 da cidade de Pelotas. Em destaque as áreas já existentes. Fonte: (PELOTAS, 1922).

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Segundo Rullmann a cidade deveria ser ao mesmo tempo “científica e artística”. Embora reconhecesse a monotonia das ruas retas, nota-se no projeto de 1922 que o passado histórico e a fisionomia urbana foram respeitados e o traçado urbano existente foi mantido. Assim, embora não tenham feito grandes alterações na área central, houve preocupação de criar diferentes zonas funcionais com diferentes traçados, grandes avenidas e vários espaços abertos para inserir vegetação na cidade (PELOTAS, 1922).

Fernando Rullmann nasceu na Alemanha em 22 de maio de 1893 e em 25 de abril de 1938 tornou-se cidadão brasileiro. As razões de sua vinda para Pelotas assim como a natureza da sua formação profissional são informações que não foram obtidas. No ano de 1934, sabe-se que Fernando Rullmann ingressou com processo junto ao Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura – CREA solicitando seu registro profissional. Apesar de não aparecer no processo o título que o profissional estava requerendo, à época ele era funcionário da Prefeitura Municipal de Pelotas. Entre os trabalhos anexados ao processo constava “cópia do Projeto de Ampliação da Cidade de Pelotas”. Sabe-se também que projetou a residência de Augusto Simões Lopes no Bairro Simões Lopes (MOURA, 1998).

Em 1922, Pelotas contava com 8.228 edifícios (6.970 urbanos e 1.258 suburbanos). A rede de esgotos estava conectada em 4.738 edifícios. A divisão espacial da cidade definia a área central (área de edificação consolidada) e os bairros, ao norte (Bairro da Luz), oeste (Estação de Trens e Avenida 20 de Setembro), leste (Bairro da Várzea) e sul (Porto e margem do Canal de São Gonçalo). Os subúrbios constituíam os bairros distantes do centro e carentes de infraestruturas urbanas, como era o caso dos bairros Fragata, Areal, Dunas e Três Vendas. Estes bairros, onde vivia a maioria da população operária, ainda não eram considerados nas plantas urbanas da cidade na época (PELOTAS, 1922).

Para a elaboração do plano, foram discutidos os inconvenientes do traçado e o modo de melhorar as condições de higiene, saneamento, circulação e o embelezamento da cidade em geral. Entretanto, outros elementos também foram considerados, como a densidade e o sentido do trânsito; a localização das zonas suburbanas; as potencialidades de expansão e a arquitetura característica do local. Para os planejadores, a cidade adotou o traçado geométrico em função da atividade comercial. Com o seu desenvolvimento houve o aumento nos serviços e comércio gerando uma deficiência em relação aos monumentos arquitetônicos, que não tinham qualquer visibilidade ou relevância na paisagem urbana existente (AGUIAR, 2009).

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Por se ter maior liberdade nas áreas não ocupadas, na parte de ampliação da cidade, foi proposto no plano um novo sistema de ruas, dando preferência às sinuosidades e às ruas cortadas, considerado uma das formas mais modernas de traçado das cidades na época. Para Rullmann foi um método conveniente de delineação da cidade, mantendo o sistema retangular já existente, combinando-o com o novo, composto por artérias curvas de raios amplos (AGUIAR, 2009).

Segundo Rullmann, “o prazer de contemplar uma cidade com praças, pavimentação, ruas arborizadas e edifícios modernos não se deveria experimentar somente depois de penetrar em seu coração". Assim, entre as melhorias do plano estavam algumas correções necessárias na forma urbana, principalmente nas áreas onde ainda predominavam terrenos vazios, considerando que a cidade deveria ser homogênea no que diz respeito à qualidade do ambiente construído (PELOTAS, 1922).

As obras maiores seriam nas zonas sul e leste da cidade. Uma delas foi proposta no porto, com a construção de um novo cais e a sua consequente expansão. Este projeto tinha o objetivo de transformar uma área pantanosa em terreno edificável. O porto deveria cobrir todo o comprimento do Canal São Gonçalo, terminando em um parque de proteção na desembocadura do Arroio Santa Bárbara. Outra grande obra seria a canalização do Arroio Santa Bárbara e a transformação de seu ponto final em um atracadouro para pequenas embarcações (PELOTAS, 1922).

Deve-se levar em conta que a economia da cidade era fortemente ancorada no setor de exportação, o que justificava essas intervenções. Além disso, elas ganhavam o apoio das elites locais, que apostavam na continuidade e expansão dessa economia. Assim, houve a criação de uma “zona industrial de carne” (distinta do centro industrial), que se localizaria entre o Canal São Gonçalo e o Arroio Pelotas, onde já existia o Frigorífico Pelotense e algumas charqueadas. O plano também previa a conversão do antigo “Corredor das Tropas” – o caminho do gado entre as charqueadas e a feira da Tablada – em uma estrada (PELOTAS, 1922; AGUIAR, 2009).

A insuficiência de drenagem das áreas pantanosas era considerada de fácil solução para Rullmann. A construção de canais secundários que transportassem as águas afluentes do Arroio Santa Bárbara até o canal central faria a cidade ganhar terrenos edificáveis até o bairro Fragata. Assim, a Avenida 20 de Setembro, ainda não totalmente urbanizada seria ampliada, ganhando o aspecto de avenida, com um alinhamento definido e vasta arborização (PELOTAS, 1922).

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A proposta de Rullmann foi submetida à aprovação dos poderes administrativos da cidade e, especialmente, do prefeito Coronel Pedro Osório. As áreas já construídas foram avaliadas e as necessidades – classificadas em atuais, imediatas e distantes – foram estipuladas. As regras para a execução – que eram as que mais afetavam os interesses dos proprietários e das imobiliárias – foram deixadas em segundo plano, pois necessitavam de estudos prévios das ruas que seriam construídas posteriormente. Assim, mesmo que o trabalho técnico fosse realizado, havia uma distância entre as propostas urbanísticas e a sua execução efetiva (PELOTAS, 1922).

O discurso oficial concentrava-se sobre a regulamentação do espaço urbano. O prefeito justificava que a administração tinha o dever “de traçar as grandes linhas a fim de evitar soluções justapostas”. Alegava também que a ausência de um plano geral para a cidade e a realização de construções não regulamentadas permitia que a especulação imobiliária aumentasse e que os novos edifícios fossem construídos de forma aleatória sem obedecer a propostas racionais (PELOTAS, 1922).

Entretanto, apesar de estar relativamente de acordo com as necessidades de crescimento da cidade, o plano de Rullmann, para a extensão da cidade de Pelotas, foi um projeto ambicioso, uma vez que propôs profundas mudanças que demandavam operações de longo alcance. Assim, o Plano de Ampliação de 1922 pode ser considerado uma espécie de projeto derivado de certa reflexão “filosófica” sobre a cidade, que, segundo Soares (2002), demonstra ser excessivamente formalista e esteticista e, portanto, desligado da realidade política e social existente.

Por essa e outras razões, com a necessidade de um grande número de obras e o consecutivo alto custo para serem realizadas, o Projeto de Ampliação não foi implantado, sendo que somente algumas das orientações sugeridas no plano foram consideradas. Na administração seguinte, de Augusto Simões Lopes, o Conselho solicitou um novo plano para o município, desta vez ao engenheiro Saturnino de Brito, um dos maiores urbanistas brasileiros da época (PELOTAS, 1922).

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CAPÍTULO 4

PLANO DE EXPANSÃO DE 1927

4.1 Saturnino de Brito e o urbanismo sanitarista

As cidades que passaram por grandes processos de industrialização sofreram significativas mudanças em seu espaço urbano. Todas estas mudanças repercutiram no pensamento e na produção de ideias, sobretudo na organização da sociedade. Com relação ao planejamento urbano, este processo foi muito influenciado tanto pelos movimentos utópicos, como pelo pensamento higienista (CHOAY, 1992).

As teorias urbanísticas de inspiração higienistas foram desenvolvidas em resposta aos efeitos da Revolução Industrial nas cidades europeias. O saneamento incitou melhoramentos urbanos e com isso houve uma expansão das funções urbanas e uma valorização do solo nas áreas centrais onde as principais funções estavam assentadas. Assim, a implantação de infraestrutura foi um dos fatores que colaborou na inversão de valores na relação centro versus periferia (AGUIAR, 2009).

No Brasil, a Proclamação da República deu abertura às ideias higienistas. Para Villaça (1999), a repercussão foi maior em cidades de maior complexidade das funções urbanas, como nos centros industriais, nas cidades portuárias e nas capitais. No país, os primeiros planos que discutiam o saneamento, as vias, a beleza e a expansão da cidade foram os Planos de Melhoramentos – de cunho higienista e de embelezamento urbano. O urbanismo higienista era estruturado basicamente na ciência – eixo dominante e orientador da civilização e da modernização da sociedade europeia – na engenharia e na medicina. Em resumo, tratava-se de um urbanismo baseado no conhecimento científico e com resultados obtidos através de rigorosas análises.

A expressão “embelezamento urbano” sintetizou o planejamento de origem renascentista que enfatizava, acima de tudo, a beleza monumental. Os planos de melhoramentos e embelezamento tiveram ascensão de 1875 a 1906, e a partir de 1906 até 1930, houve um grande declínio (VILLAÇA, 1999; MENDONÇA et al, 2009).

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Visando corrigir problemas e adequar as formas urbanas à modernidade, vários projetos foram propostos. Os modelos adotados no Brasil concentravam-se mais sobre questões estéticas e de eficiência do traçado urbano – circulação de veículos, da água, do ar – assim, não incorporavam propósitos e reformas sociais presentes em muitas concepções urbanísticas europeias (NASCIMENTO, 2013).

As intervenções feitas visavam a drenagem dos terrenos, a canalização de cursos d’água, as melhorias em abastecimento de água e esgoto sanitário, a regulamentação de novas construções segundo regras sanitárias, a regularização e limpeza de lotes, a arborização de praças e espaços públicos, a pavimentação de ruas, e a limpeza pública. Nesse contexto, tanto as técnicas de urbanização e de gestão urbana quanto o conhecimento especializado de base sanitarista dos engenheiros e médicos interessados pela saúde pública e pela salubridade das cidades brasileiras adquiriram progressiva importância (NASCIMENTO, 2013).

O urbanismo sanitarista brasileiro resume-se quase totalmente na obra do engenheiro Francisco Rodrigues Saturnino de Brito (Figura 19). Nascido em Campos dos Goitacazes, no Rio de Janeiro, Saturnino (1864-1929) desenvolveu sua formação técnica como engenheiro civil a partir de 1887, na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, adquirindo embasamento teórico e capacitação para atuar em diversos campos de sua área. Entre 1887 e 1895 obteve aperfeiçoamento em medição topográfica e na familiarização de questões urbanas (MENDONÇA et al., 2009).

Figura 19 – Foto de Saturnino de Brito e o Volume IV do livro Obras completas de 1943. Fonte: (NASCIMENTO, 2013).

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Engenheiro de formação erudita, permanentemente atualizado sobre trabalhos desenvolvidos no exterior em saneamento e urbanismo, Saturnino publicou muitos artigos científicos sobre sua especialidade, assim como também sobre economia, sociologia e gestão pública. Estabeleceu intenso diálogo com a comunidade científica e técnica de sua época, participando de inúmeros congressos de higienismo, urbanismo e medicina. Saturnino também acompanhava as teorias sobre modelos urbanísticos e regulamentação urbana de saneamento em diferentes países. Esse conhecimento repercutiu em seus escritos, onde citava autores renomados da França, Itália, Inglaterra, Bélgica, Alemanha e EUA (BRITO, 1943; NASCIMENTO, 2013).

Com elevada capacidade em associar reflexões sobre urbanismo com uma notável competência técnica em saneamento, Saturnino também tinha grande senso prático, consolidado a partir de sua experiência de campo. Isso contribuiu para o desenvolvimento de novas técnicas de saneamento que eram reconhecidas internacionalmente, como a proposta da fórmula para o cálculo de vazões máximas para o dimensionamento de redes pluviais e o desenvolvimento de reservatórios de descarga destinados à limpeza de redes de esgoto (NASCIMENTO, 2013).

Saturnino defendia a necessidade da elaboração de um plano urbano, antes mesmo de projetar as redes de infraestrutura e saneamento, já que para ele estas deveriam ser implantadas junto com o planejamento da cidade como um todo. Para ele, o plano era um meio de assegurar um desenvolvimento harmônico da cidade e de redefinir o conjunto de sua estrutura. Assim, o crescimento urbano só poderia ocorrer com algum regramento, podendo este estar mesclado de questões técnicas – saneamento da cidade, o escoamento das águas, a ocupação do solo de modo a garantir iluminação e ventilação das edificações – e artísticas – uma vez que para o escoamento natural das águas era necessário seguir a topografia, o traçado da cidade seria dotado de qualidades pitorescas (OLIVEIRA e SOUZA, 2015).

Essa metodologia levou Saturnino a estudar profundamente a cidade, conhecer diversos autores dessa área, escrever sobre o assunto, participar de congressos para então elaborar os planos, o que fez para muitas cidades brasileiras. Diversos autores europeus e americanos, assim como publicações e congressos que ocorriam na Europa sobre o saneamento são citados por ele ao defender a necessidade de planejar as cidades. Com isso, é possível perceber a proximidade que Saturnino tinha com os acontecimentos do urbanismo no exterior. Através de seus trabalhos, ele trouxe e implantou no Brasil ideias de diversos locais do mundo (OLIVEIRA e SOUZA, 2015).

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Para uma maior compreensão conceitual sobre os trabalhos de Saturnino é importante conhecer algumas referências de projetos urbanísticos da época. Uma das referências urbanísticas muito utilizada foi o modelo haussmaniano e seu foco na melhoria da circulação viária e de saneamento das cidades, assim como em seu embelezamento tendo por fundamentos princípios estéticos. O urbanismo visto como meio de redefinir a estrutura da cidade, em seu conjunto, conceito básico do Barão Haussman em Paris, apareceu em algumas cidades brasileiras, como o plano urbano de Belo Horizonte (1894-1897), nos projetos de expansão das cidades de Santos (1896-1910), de Vitória (1896), de João Pessoa (1913), de Recife (1910-1914) e de Porto Alegre (1913). No caso do Rio de Janeiro, a reforma urbana conhecida como “Pereira Passos” (1903-1906), apesar de contar com princípios urbanísticos haussmaniano, como o alargamento de ruas, o saneamento de bairros insalubres e iniciativas de embelezamento inspiradas na tradição neoclássica, não previa um projeto de desenvolvimento da cidade com um todo (ANDRADE, 1992).

O propósito de reformar as cidades com a adoção de princípios urbanísticos de inspiração haussmaniana explica-se por diferentes motivações. Por um lado, há razões ideológicas, apoiadas por uma parte da elite brasileira, de equipar o país com cidades modernas, saneadas, funcionais, capazes de facilitar e promover as atividades comerciais e industriais. Por outro lado, o processo de urbanização mostrava-se cada vez mais intenso e as cidades onde habitava maior contingente de população urbana sofriam com frequentes epidemias (febre amarela, varíola, cólera, malária, entre outras), causando inquietações e revoltas de seus habitantes e prejuízos às atividades comerciais, principalmente as de exportação (ANDRADE, 1992).

Apesar do projeto de Haussmann ter sido modelo de diversas intervenções urbanísticas no país devido a sua notoriedade mundial, nota-se que do modelo haussmaniano Saturnino aderiu somente à noção de conjunto urbano ao prever a área de expansão para a cidade, assim como de conferir ao setor público papel fundamental na execução do plano e na indicação de normas urbanísticas que iriam limitar e enquadrar o direito de construir. Tendo como referência principalmente os urbanistas franceses, com os quais compartilhava ideias através dos congressos que participava, Saturnino foi reconhecido na França por vários trabalhos relacionados com questões paliativas contra inundações, com questões de seca e de serviços urbanísticos, além de inventos e aperfeiçoamentos sanitários e soluções técnicas originais implantadas em cidades brasileiras (ANDRADE, 1992; MENDONÇA et al., 2009).

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Apesar de Saturnino apresentar um trabalho original e específico para a realidade brasileira, em alguns aspectos é possível identificar semelhanças entre as suas propostas e as concepções do arquiteto Camillo Sitte. A referência à Sitte é mencionada por Saturnino em algumas de suas obras e aparece na inserção da forma pitoresca, assim como na adequação dos novos elementos urbanos às características locais das cidades. Fazia parte da formação e do interesse profissional de ambos a preocupação com a arte, com a beleza e com os princípios estéticos das cidades. Além disso, é dito que eles entendiam a cidade como um corpo, um organismo em crescimento (ANDRADE, 1992; MENDONÇA et al., 2009).

A ideia de que os traçados geométricos das cidades, admirados por seu valor estético, deveriam adaptar-se às características naturais, históricas e culturais de cada lugar aparece em vários textos de Saturnino. Na obra Le tracé sanitaire des villes, publicada em francês em 1916 e sem tradução para o português, bem como em seus textos sobre o projeto para a cidade de Santos, ele enfatiza o interesse estético, a diversidade e a capacidade de surpreender das cidades antigas, com suas ruas curvas de largura variável, suas pequenas praças e largos recônditos, assim como seus grandes monumentos (BRITO, 1943; NASCIMENTO, 2013).

Em Sitte, Saturnino encontrou os argumentos urbanísticos em apoio à ideia de que o traçado das cidades deve respeitar a topografia, procedimento que ele utilizou já no seu primeiro projeto de expansão, denominado Novo Arrebalde, na cidade de Vitória em 1896. Ele defendia que, para desenvolver novos projetos urbanísticos, o engenheiro deveria associar-se ao artista com o propósito de conquistar uma boa circulação dos veículos, do ar e das águas quanto de valores estéticos, respeito ao patrimônio cultural das áreas urbanas mais antigas, às singularidades da topografia, da hidrografia e da cobertura vegetal (MENDONÇA et al., 2009).

É válido lembrar que Sitte, como já comentado anteriormente, foi um marco nas teorias urbanísticas do final do século XIX. Muito prestigiado por urbanistas como Parker, Unwin e também por Saturnino, ele foi um dos primeiros a se preocupar com a preservação das cidades históricas, assim como questionar o traçado ortogonal e as destruições promovidas pelas grandes obras urbanas. Adotando também essa postura, Saturnino buscava intervir o mínimo possível no traçado urbano existente. Suas intervenções se constituíam basicamente em aberturas de vielas sanitárias, utilização de avenida canal ao longo dos cursos d’água, implantação de espaços públicos e a valorização de visuais pitorescas (OLIVEIRA e SOUZA, 2015).

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“Um suposto defeito de plano, um acidente topográfico, se transformam em belezas quando o profissional competente as sabe criar ou expor à vista dos transeuntes. Os ilustres Snrs. Camillo Sitte, Vierendeel, e recentemente o Snr. Bouvar (arquiteto de Paris que passou pelo Rio de Janeiro para ir reformar Buenos Aires) dão aproveitáveis lições sobre os traçados dos novos arrabaldes e melhoramentos e embelezamentos [...]”.

(BRITO, 1943, p. 51 apud OLIVEIRA e SOUZA, 2015).

Saturnino trabalhou inicialmente como engenheiro ferroviário, até 1892, nos estados de Minas Gerais, Pernambuco e Ceará. Em seguida, passou a dedicar-se ao saneamento e ao urbanismo, entre 1893 e 1929 atuou em 53 cidades, em vários estados brasileiros (Figura 20). Somente no Estado do Rio Grande do Sul, ele trabalhou nas cidades de Rio Grande, Santa Maria, Cachoeira, Cruz Alta, Passo Fundo, Rosário, Santana do Livramento, São Leopoldo, Uruguaiana, São Gabriel, Iraí, Alegrete e Pelotas. No total propôs em torno de vinte e oito planos pelo Brasil