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Escrita, morte-vida: Diários com Lúcio Cardoso

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA

ROSI ISABEL BERGAMASCHI CHRAIM

Escrita, morte-vida

Diários com Lúcio Cardoso

FLORIANÓPOLIS

2017

(2)
(3)

ROSI ISABEL BERGAMASCHI CHRAIM

Escrita, morte-vida

Diários com Lúcio Cardoso

Tese apresentada ao Programa de

Pós-Graduação em Literatura da Universidade

Federal de Santa Catarina para obtenção

do título de Doutora em Literatura.

Área de concentração Literaturas, linha

de pesquisa Arquivo, Tempo e Imagem.

Orientadora: Profa. Dra. Ana Luiza

Britto Cezar de Andrade.

Florianópolis

2017

(4)

Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor,

através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.

Chraim, Rosi Isabel Bergamaschi Chraim

Escrita, morte-vida: Diários com Lúcio Cardoso / Rosi Isabel Bergamaschi Chraim Chraim ; orientador, Ana Luiza Britto Cezar de Andrade Andrade, 2017. 234 p.

Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Expressão, Programa de Pós-Graduação em Literatura, Florianópolis, 2017.

Inclui referências.

1. Literatura. 2. Escrita. 3. Morte-vida. 4. Palavra. 5. Diário. I. Andrade, Ana Luiza Britto Cezar de Andrade. II. Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Literatura. III. Título.

(5)

___________________________________________

ROSI ISABEL BERGAMASCHI CHRAIM

ORIENTANDA

____________________________________________

Profa. Dra. Ana Luiza Britto Cezar de Andrade

Programa de Pós-graduação em Literatura

Universidade Federal de Santa Catarina

ORIENTADORA

BANCA EXAMINADORA

____________________________________________

Profa. Dra. Simone Zanon Möschen

Programa de Pós-graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

____________________________________________

Profa. Dra. Tania Cristina Rivera

Programa de Pós-graduação em Estudos Contemporâneo das Artes

Universidade Federal Fluminense

____________________________________________

Profa. Dra. Maria Aparecida Barbosa

Programa de Pós-graduação em Literatura

Universidade Federal de Santa Catarina

____________________________________________

Profa. Dra. Patricia Peterle

Programa de Pós-graduação em Literatura

Universidade Federal de Santa Catarina

____________________________________________

Prof. Dr. Wladimir Antônio da Costa Garcia

Programa de Pós-graduação em Educação

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(7)

Para Macul Chraim,

meu amor.

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AGRADECIMENTOS

“Toda gratidão precisa ser testemunhada”, nesse sentido, cunho aqui meus

agradecimentos:

A minha orientadora, mestre, amiga, Dra. Ana Luiza Britto Cezar de

Andrade, que, durante este percurso, esteve ao “meu lado” compartilhando,

generosamente, seu conhecimento e seu desejo de escrita;

A banca de qualificação e defesa desta tese, mestres-amigos, que testemunharam

minha trajetória;

Aos escritores-mestres, que serviram de “pilares” para meus estudos;

Aos amigos-colegas de estudos na literatura e na psicanálise;

As minhas filhas e meu filho e, em especial, as minhas netas e meu neto, que

despertaram em mim (novamente) o desejo de vida.

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RESUMO

Desde a palavra “rio”, a primeira forma que escrevi meu nome, a escrita esteve

presente em meu cotidiano, quiçá bem antes, instigando e me colocando a

trabalhar. E é nas escritas de vida que direciono meu olhar e minha escuta.

Nesse sentido, nas bordas da literatura e da psicanálise, transitando no espaço

“entre”, esta tese visa trabalhar sobre escrita, morte-vida em uma relação

com a palavra, tendo como objeto de companhia e mostração as escritas do

Diários de Lúcio Cardoso, pensando as formas narrativas que se apresentam

neste evento de linguagem — as escritas diárias. Para isso, propõe-se

morte-vida como termo único e a palavra-escrita como um lugar possível, mesmo que

tangente e sempre frustrante, da experiência enquanto limite, enquanto tentativa

de nomear o inominável — daquilo que transita e insiste na morte-vida. Visa,

também, pesquisar que relações se desprendem do desejo de escrever em

diários, fazendo do próprio “ato” de escrita uma forma de trabalhar, de lidar

com os conceitos. Para tanto, foram organizados quatro momentos de escrita,

quatro formas topológicas: meu escrito-texto de tese, as citações entremeando o

texto, as notas de rodapé e as escritas de Meus cadernos. Este último, as escritas

dos meus cadernos, caminham paralelo aos outros escritos, no intuito de lidar

com o limite do vivido e a ficção, visitando aquilo que é da ordem da memória

— lembrar-esquecer — em um processo de (re)construção e (re)inscrição da

própria vida. Foram tomados como amparo teórico principal Walter Benjamin,

Sigmund Freud e Maurice Blanchot, entre outros.

PALAVRAS-CHAVE

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RIASSUNTO

Dalla parola “rio”, il primo modo in cui ho scritto il mio nome, la scritta è

stata presente nel mio quotidiano, anzi molto prima, istigando e mi mettendo a

lavorare. Ed è nelle scritte della vita che punto il mio sguardo e il mio ascolto. In

questo senso, nelle margini della letteratura e della psicanalisi, transitando nello

spazio tra di loro, questa tesi ha lo scopo di lavorare sulla scritta, morte-vita in un

rapporto con la parola, avendo come oggetto di compagnia e di studio le scritte

del Diarios di Lúcio Cardoso, pensando nelle forme narrative che si presentano

in questo evento di linguaggio – le scritte quotidiane. Perciò si propone

morte-vita come unico termini e la parola-scritta come un luogo possibile, anche se

in modo periferico e sempre frustrante, l’esperienza come un limitrofo, come

tentativo di nominare l’innominabile – di quello che transita e insiste nella

morte-vita. Obbiettiva, anche, ricercare quale relazioni si staccano dal desiderio

di scrivere in diari, facendo del proprio “atto” di scrivere un modo di lavorare, di

affrontare i concetti. Pertanto, sono stati organizzati quattro momenti di scritta,

quattro forme topografiche: il mio scritto-testo di tesi, le citazioni intervallando

il testo, le note e le scritte del Meus cadernos. Quest’ultimo, le scritte dei miei

quaderni, vanno in parallelo agli altri scritti, con lo scopo di affontare i limiti

del vivace e della finzione, visitando quello che è dell’ordine della memoria –

ricordare-dimenticare – in un processo di (ri)costruzione e (ri)scrizione della

propria vita. Sono state utilizzate come sostegno teorico principale Walter

Benjamin, Sigmund Freud e Maurice Blanchot, tra altri.

PAROLA-CHIAVE

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RÉSUMÉ

Dès le mot “rio”, la premiére manière que j’écrit mon nom, l’écrit a été présent

à mon quotidian, peut-être bien avant, elle, l’écrit, est déjà lá, à me mettre

incitation à travailler. Et il est sur les écrits de la vie, que moi, je prends mon

regard et mon écoute. En ce sens, aux bords de la littérature et la psychanalyse,

je me suis promenée sur l’espace du “entre”. Donc, cette thèse vise à travailler

l’écriture, la vie-mort dans une rélation avec le mot vie, et en ayant comme objet

de passion et d´étude les journaux écrits par Lúcio Cardoso, je me mis a penser

sur ses formes narratives e ses langages — les écrits du quotidien. Pour celle,

il est proposé la mort-vie comme un seul terme et le mot écrit comme un lieu

possible, même si tangente et toujours frustrant, de l’expérience comme limite,

comme téntatif de nommer l’innommable — de ce qui bouge et insiste à la

mor-vie. La thèse vise aussi rechercher quels relations se détachent du désir d’écrire

aux journaux, en faisant du propre “acte” d’écrit une manière de travailler, avec

ele même et ses concepts. Par conséquent, ils ont été organisés quatre fois de

l’écriture, quatre formes topologiques: la thèse, les citations que intercalent

la thèse, les notes et les écrits de “Meus Cadernos”. Ce dernier, les écrits de

“Meus Cadernos”, marchent parallèlement avec les autres écrits, afin de faire

face aux limites du vécu et de la fiction, en visitant c’est qui est de l’ordre de la

mémoire — rappeller/oublier — dans un processus de (re) construction et (re)

description de la vie pour elle-même. Ils ont été pris comme support théorique

principal Walter Benjamin, Sigmund Freud et Maurice Blanchot, d’entre autres.

LES MOTS CLÉS

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(17)

Não discuto o mérito da obra a ser feita —– é mesmo possível

que não interesse a ninguém —– mas só ela me explica perante

mim mesmo e é o único testemunho que posso apresentar de

uma existência que, devidamente examinada, é inútil a toda

gente.

Lúcio Cardoso,

Poesia completa

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(19)

ESCRITA, MORTE-VIDA

DIÁRIOS COM LÚCIO CARDOSO

1. PRESENTAÇÃO

A palavra iniciante: canto do pressentimento ... 21

2. ENVOLVIMENTO

2.1. Do território na/da palavra: linguagem, morte-vida ... 57

2.2. Escritas de vida ou a vida escrita?

Lucio Cardoso e a palavra agonizante ... 99

2.3. Um lampejo: morte-vida, a topologia do trânsito ... 187

3. OCLUSÃO

Do corpo à terra: a penúltima palavra ...207

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(21)

1.PRESENTAÇÃO

1

Tenho uma vaga ideia do que quero; mas não sei dizer.

Lúcio Cardoso

A palavra iniciante: canto do pressentimento

Minas, esse espinho que não consigo arrancar do meu

coração – fui menino em Minas, cursei Minas e os seus

1 Três questões se fazem importantes no título de meu trabalho. Uma: esta tese, Escrita,

morte-vida: Diários com Lúcio Cardoso, não é uma sequência de minha dissertação de mestrado

em termos de autor tomado como “companheiro de empreitada”. Mas sinto-a sim como uma sequência no sentido de uma pesquisa que desenvolvo desde que iniciei meu trabalho como professora-alfabetizadora, em 1982, na cidade de Ijuí no Rio Grande do Sul, e que tomou um sentido mais definido em 1994, em minha escuta clínica psicanalítica, em que as questões da escrita e sua relação com a constituição do sujeito do inconsciente, bem como com os efeitos da escrita sobre o sujeito escreve, sempre foram por mim questões que me instigavam a trabalhar. Em minha dissertação, trabalhei com o conto O milagre secreto, de Jorge Luis Borges. BERGAMASCHI, Rosi Isabel. Escrita: Morte-origem em psicanálise. 2006. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. Duas: nesta tese, tentarei escrever onde a própria escrita terá um intuito de mostração. O termo “mostração” é utilizado como conteúdo que é escrito e, ao mesmo tempo, deixa ver-se, “mostra”, mo(n)stra, des-monta na própria forma de escrita — mostra, por ser ela mesmo o objeto de uma mostração. Nesta “mostração” há um intuito de escrever com um caráter fragmentário, quase por aforismas, respeitando a escrita de Lúcio Cardoso (e dos autores que sustentam teoricamente esta escrita) e fazendo-o aparecer em minha tese, como uma tentativa de mimetizar suas escritas — fazendo carne dessa escrita. Escrita em que as palavras constroem uma borda ou uma ponte no/do abismo que é a morte. Escrita entre o limiar da tese acadêmica e o limiar da criação, entre o limiar da teoria e o limiar do ensaio, entre o limiar dos diários de Lúcio Cardoso e o limiar de meu próprio diário (diário de quem aqui narra), no limiar da mão que escreve e a mão que é escrita, no espaço mínimo entre a palavra e ela própria, entre a palavra vivendo e a palavra morrendo — a palavra agonizante de Lúcio Cardoso. Enceno quatro momentos, fazendo, inclusive, uma analogia ao quarto nó borromeano (na escrita topológica da nodalidade, no nó borromeano, Lacan inclui o quarto elo: o Sinthome. O Sinthome é o que permite ao Real, ao Simbólico e ao Imaginário ficarem juntos, onde se localiza o sinthoma-metáfora). 1. O da minha escrita. 2. O das citações destacadas permeando minha escrita. 3. As notas de rodapé onde estão colocadas as fontes das citações e aquilo que sustenta alguns conceitos específicos da psicanálise bem como o que salta do texto e se refugia em outro espaço. 4. Os fragmentos de Meus Cadernos e as imagens. Saliento que o subtítulo, Diários com Lúcio Cardoso, pode ser pensado em dois ângulos, um é o livro Diários, organizado por Ésio de Macedo, que contém todos os diários de Lúcio Cardoso escritos entre 1942 a 1957, e outro é a questão relacionada às escritas em diários.

(22)

‘O corpo é a casa da alma!’. Sim, disso já sabia há

tempos. Porém, naquele instante, parecia como se

fosse da primeira vez – o tempo do ontem se fazendo

hoje. Seria o sangue negro da tinta tipográfica na

página branca revisitando antigas cicatrizes e

fazendo (re)viver a intensa dor? [...] Sentia uma

lentidão nos braços, um certo ‘torpor’ nos lábios e

um cansaço e fraqueza se faziam presentes. Dia

após dia, os olhos embaçados e o peso do corpo

embaralhavam os pés e a queda ce-deu machucando

a face [...]. Acostumada aos lapsos e aos chistes, não

percebia que a memória também falhava; a palavra

se fazia presente na imagem, porém a voz não se

pronunciava. Depois de idas e vindas, o diagnóstico:

uma miopatia inflamatória afetando todos músculos

do corpo, uma doença autoimune se manifestando a

partir de traumas [...]. Foi preciso, então, o corte,

a ruptura do contínuo — um parêntese, uma lacuna

no tempo, não somente em um tempo cronológico, mas

no tempo das intensidades, ‘o tempo para falar e

o tempo de escutar, o tempo que mede o desvio das

memórias’. O repouso, o cuidado, para só então o

Sprung Benjaminiano, o ‘salto de tigre’, ou ‘salto

Blanchotiano’ do Ser que questiona, para só então,

em uma outra posição, retomar. Porém, as suturas, as

marcas in-corpo-radas, são reconhecidas e

fazem-se escrita.

(23)

córregos, vi nascer gente e nome em Minas, na época

em que as coisas contam. O que amo em Minas é sua

força bruta, seu poder de legenda, de terras lavradas

pela aventura que, sem me destruir, incessantemente me

alimenta. O que amo em Minas são os pedaços que me

faltam, e que, não podendo ser recuperados, ardem no

seu vazio, à espera de que eu me faça inteiro – coisa que

só a morte fará possível.

2

As palavras me habitam. Sou feita de palavras. Às vezes por palavras inteiras,

outras por pequenos pedaços. Em meu todo estão os textos, aqueles que li,

escrevi

3

e os que ainda estão por vir, talvez estes sejam os mais presentes, os

que me instigam, me sopram e me sustentam, avisada, porém, que “a palavra

é desde sempre insuficiente para abarcar a vida,”

4

mas é justamente nesta

insuficiência que se aloja a possibilidade de seguir — seguir palavreando.

2 CARDOSO, Lúcio. Diários. Editado por Ésio Macedo Ribeiro. Rio de Janeiro: Civilização

Brasileira, 2012, p. 504.

3 Trata-se de minhas anotações; escritas feitas ao longo do tempo (desde que aprendi a escrever)

naquilo que intitulei Meus Cadernos. São cadernos feitos por mim, com folhas sem pauta e capas elaboradas, normalmente com fotografias-imagens que dizem da minha história. Neles vou anotando acontecimentos, sentimentos, interrogações, dores e amores. Durante o doutorado, escrevi neles o per-curso, desde as aulas, orientações, palavras que pulsam, sonhos com a tese, divagações, sugestões bibliográficas, angústias, e até pequenos desvios que considero “sustentações transferenciais”, ou mesmo “alimentação do desejo” — desejo de escrita.

4 BRUM, Eliane. Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras. São

Paulo: LeYa, 2014, p. 82. Lúcio Cardoso, em seus diários, se pergunta: “De que adoecemos nós, todos que estamos doentes?” E responde: “De impaciência de viver”. E eu saliento: as palavras são insuficientes para abarcar a vida. E, quando a vida se coloca no limite, o corpo se faz palavra (sintoma). CARDOSO, Lúcio. Op. cit., p. 510.

(24)
(25)

Um recorte. Foi preciso buscar na escrita de Lúcio Cardoso

5

pilares para o

meu texto. Pilares que fundam, que sustentam, no emaranhado das palavras, o

desenho conceitual e arquitetônico na construção de uma obra. E, semelhante a

um arquiteto, vislumbro um desenho onde as primeiras vigas se fazem como o

esqueleto de uma morada

6

. Porém, é preciso, antes de seguir adiante, que eu “me

demore” um pouco mais. Sim, é preciso que certo contorno se faça para que o

peso da obra, ou do próprio obrar, se transforme em palavras, pois é justamente

disso que se trata: de letras que postas ordenadamente na pauta-linha possam,

deslocadas, formar uma melodia — um texto com suas des-continuidades.

Na infância, as palavras despertavam em mim o sabor

7

pela pronúncia.

Lembro que ainda menina brincava de nomear as coisas, degustando cada

sílaba e traçando na terra as letras,

8

semelhante ao arado que, com a pá, lavra,

5 Lúcio Cardoso é autor do livro Diários que tomei como objeto para minha tese. Trata-se dos

diários escritos por ele, dos 30 aos 50 anos de idade (1942-1962). CARDOSO, Lúcio. Diários. Editado por Ésio Macedo Ribeiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.

6 Morada: faço aqui uma alusão ao livro “Morada: Maurice Blanchot”, um dos mais belos

escritos de Jacques Derrida. Logo, em seu início, Derrida fala do título do livro, Demeure, salientando as voltas que foi preciso para colocar este nome, nomear — fazendo uma relação entre ficção e verdade autobiográfica, entre a literatura e a morte. É por esse caminho que ele envereda, escrevendo sobre a “impossibilidade de decidir, mas também a impossibilidade de

permanecer [demeurer] no indecidível”. Este nome que “Oculta nas sombras dessas sílabas,

mora [demeure] — a gramática obscura de tantas frases”. DERRIDA, Jacques. Morada,

Maurice Blanchot. Tradução de Silvana Rodrigues Lopes. Rio de Janeiro: Edições Vendaval,

2004, p. 9-10.

7 Desde Freud, a infância é o lugar por excelência das marcas na memória e, neste período, o apreender ainda está muito preso ao corpo como experimentações, como sensações eróticas (toda curiosidade é de fundo sexual). Neste sentido, lembro Roland Barthes quando fala em saber-sabor, renunciando a uma leitura-escrita sistemática e reivindicando o prazer do texto em uma escritura incitadora das pulsões, dos fetiches. O leitor-escritor “adota uma linguagem de criança do peito”, são “movimentos de sucção sem objeto”, um vestuário que se entreabre mostrando e escondendo — um texto-corpo. BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 2006, p. 9.

(26)

Sabia que o caminho era longo e, por mais que o dia

estivesse começando, sentiu que aquele só não bastaria.

Ergueu os olhos, adiantando o olhar, para que este, ao

avistar ao longe, lançasse o desejo que lhe serviria como

guia. Primeiro revisou suas coisas, uma a uma, tentando

ver no conjunto o que poderia deixar, já que o peso lhe

fazia curvar os ombros. Apertou mais uma vez os cadarços,

pois sentir o contorno do pé lhe auxiliava na firmeza do

passo. Passo que, com o passar das horas, em ritmo de

batidas tambolares, compassava as mesmas batidas que lhe

faziam pulsar o sangue. Mesmo que seu olhar parecesse

adsorvido ao rumo, percebia tudo o que se encontrava

na volta, como se a vista re-avistasse os objetos, um a

um. E, numa leitura talmúdica, valorizava o que seu olhar

recortava. Dependendo a paisagem, sentimentos viscerais

lhe apoderavam, como criança que, adaptando o intestino ao

leite, se contorce em dores. Nada lhe passava em branco

e aquele caminho aos poucos se transformava em folha que

precisava ser grafada, cifrada. Folha que, ainda verde,

portava o sulco que lhe permitia a marca. De quando em

quando uma sombra. Por um momento lembrou o caminho de

Santiago, mesmo não sendo disto que se tratava: nem reza,

nem promessa. Mas restos, sem saber de onde vindos,

lhe tomavam as lembranças. O orvalho da noite, ainda

presente na relva, escorria com os primeiros raios de sol,

umedecendo a terra. Terra que regada exalava perfume,

e, então, passadas em forma de dança — acompanhando a

sinuosidade da trilha — assemelhavam-se a rituais, sugerindo

tempos de colheita. Porém, foi num só depois, quando o sol a

pino não fazia mais sombra e seu rosto já queimado portava

a cor da fruta madura, que percebeu que aquele caminho

era o mesmo e que estaria ali para sempre, para sempre

encarnado, encarnado em seu peito, em sua face, em suas

veias.

(27)

cortando o solo para torná-lo fértil. Somente hoje, com as marcas que o tempo

esculpiu em meu corpo e em minha alma, compreendo, junto com outras vozes,

que “a essência linguística do homem está no fato de ele nomear as coisas”.

9

Se as montanhas que circundavam a terra onde nasci limitavam o que meus

olhos podiam ver, era além delas que pousava o olhar, lançando meu desejo. E

foi justamente isso que me levou a alcançar a outra margem do rio, remando,

às vezes, por águas desconhecidas, mas mantendo as mãos firmes no leme para

que o barco não ficasse à deriva, escriturando na silhueta das águas e deixando

restos na memória como diário de bordo que registra, em cada página, as

experiências da viagem. Agora, ao buscar estas escritas (escritos)

10

, reconheço

a trajetória: os traços, as letras, as palavras — e por trás delas, os murmúrios,

os silêncios...

Mas, para colocar uma questão, uma ideia, mesmo que seja para o outro, é

necessário primeiro que se coloque ao sujeito. Pois, o que é uma ideia? A ideia

é “uma potência em alguma coisa ou sobre alguma coisa. É preciso ter uma

necessidade”.

11

Sim é preciso ter uma necessidade mesmo que a princípio ela

se mostre ainda nebulosa, turva e que, no seu percurso de definição, passe por

9 BENJAMIM, Walter. Escritos sobre mito e linguagem. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34,

2011, p. 55.

10 Durante esta tese, nesse tempo que se fez (nesta morada), revisitei alguns escritos que fiz

(hábito que tenho desde muito pequena) e percebi o quanto as questões que me volto agora já estavam em mim.

11 DELEUZE, Gilles. O que é o ato de criação? Conferência proferida na fundação europeia de imagem e som em 17 de março de 1987. Disponível em: http://www.dailymotion.com/video/ x1dlfsr_gilles-deleuze-o-que-e-o-ato-de-criacao-egendas-em-portugues_creation. O itálico é meu. Saliento a palavra necessidade (desde o lugar da psicanálise): aquilo que se institui para o sujeito como uma demanda inconsciente, mais forte que o próprio sujeito e que, mesmo que ele não perceba esta necessidade, está atrelada ao desejo e se impõe.

(28)
(29)

inúmeras rasuras, recortes até grafar aquilo que pode alumiar os contornos e se

deixar ver-ler.

No início, eu havia nomeado minha tese de: “Escrita morte-vida em Lúcio

Cardoso”, porém, ao começar a escrever, ao materializar meus pensamentos,

minhas ideias em uma escrita, certo incômodo fazia ruído: como poderia eu

escrever sobre escrita morte-vida em Lúcio Cardoso? Como poderia eu saber

dos espinhos ou tentar preencher os vazios de que Lúcio comenta? E, semelhante

a um insight

12

de análise, pude juntar minhas letras e fazer delas outra coisa:

quem sabe trabalhar os pedaços que me faltam ou afinar minha escuta

13

do

vazio que arde em todo sujeito submetido na linguagem.

Então, outro nomear se fez: “Escrita, morte-vida: Diários com Lúcio Cardoso”

14

,

podendo com este giro, na solidão que a escrita

15

impõe, sentir-me acompanhada

12 Insight significa compreensão súbita de alguma coisa ou determinada situação, também

está relacionado com a capacidade de discernimento, pode ser descrito como uma espécie de epifania. Surgiu no inglês arcaico, é formada pelo prefixo in, que significa “em” ou “dentro” e a palavra sight que significa “vista”. Assim, insight pode significar “vista de dentro” ou ver com os olhos da alma ou da mente.

13 Ao falar de “escuta” faço referência a minha experiência de trabalho com a clínica

psicanalítica desde 1994.

14 “Com”: Ginette Michaud, na apresentação de Demanda, faz uma preciosa colocação em relação ao “com” (ao “cum” tantas vezes citado nas obras de Nancy), ele relembra o Mitsein e o Mitdasein heideggeriano, ou seja, o ser-em-comum, “esse co-existente, esse ‘com’ constitutivo do existente”, entendido de maneira existencial. “O que significa que não se deve tomá-los como uma simples determinação extrínseca, mas como uma condição intrínseca da possibilidade mesma da ek-sitência, isto é, nada menos do que pôr em jogo o próprio sentido do ser ou o sentido de ser”. Uma “co-presença de todos os entes” se configurando indefinidamente. NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura e filosofia. Florianópolis: Ed. UFSC, 2016, p. 16.

15 Nesta tese, aparece em diferentes momentos a palavra “escrita”, como também, “escrito”

e “escritura”. Gostaria de fazer aqui uma demorada discussão sobre isso, o que fiz, de certa forma, em minha dissertação de mestrado (mas então se trataria de outra tese). Porém, considero importante salientar desde que lugar eu as situo. Estas palavras tiveram, ao longo dos últimos

(30)
(31)

das escritas de Lúcio, tê-las como companheiras de empreitada para

ancorar-me quando necessário, para, nas sombras das letras de Lúcio, ganhar fôlego e

seguir o meu próprio trabalho: escrever com Lúcio Cardoso, não para esclarecer

sua escrita, mas, através do amor em comum (esse que eu busco!) pela escrita,

abrir caminhos nela e, nos ecos de sua voz (junto com outras vozes), poder

construir a minha própria voz, porque é disso que somos feitos, de outras vozes

que (re)soam dentro de nós — as palavras de Lúcio Cardoso ressoam em mim.

O nome é em si mesmo, de início, uma marca sem-nome e é preciso fazer-lhe

dizer, (de)morar no nome para que se nomeie, pois o “nome e a coisa nomeada,

permanecem, tanto quanto paixões, enigmas sem fundo”.

16

Porém, ao

fazê-lo trabalhar, vai-se revelando a “filiação do nome, exporta-se e abastarda-se

anos — de uma geração —, modificações de sentido, especialmente a partir de Roland Barthes e Derrida, em função da tradução da palavra (ou do termo) écriture. Nesta tese, “escrita” está do lado daquilo que se escreve e “escrito” e “escritura” mais do lado do “efeito do ato de escrever” — aquilo que faz sentir. Jean-Luc Nancy diz que escrita “não é senão a forma em que se exemplifica se amplificando — pela inscrição material onde se retém e se expõe o movimento — o percurso do proferimento e pro-dução, a facilitação do sentido rumo a sua escapada. Na escrita se inscreve concretamente, com essa escapada infinita, a dissociação do sujeito da fala [parole]”. NANCY, Jean-Luc. Demanda. Florianópolis: Editora UFSC; Chapecó: Argos, 2016, p. 68-69. “O termo facilitação aparece muito cedo em Freud na descrição do aparelho neurológico humano, descrevendo a operação por meio da qual uma excitação abre passagem de um neurônio ao outro vencendo uma certa resistência” (N.T.). Saliento também que “escritura” designa a voz do sujeito; onde o sujeito se manifesta. Lembro o que Blanchot escreve no texto A palavra ascendente quando se refere a Mallarmé, “só o poeta pode falar” ou a Valéry, “O verdadeiro escritor é um homem que não encontra suas palavras, e por isso ele as

busca”, e, então, se refere sobre seu engajamento em relação à poesia e à escrita, e diz: “Não só em espirito, mas em minha vida — escritura — espirito”. BLANCHOT, Maurice. Cartas a Vadin Kozovoi. Tradução de Amanda Mendes Casal e Eclair Antonio Almeida Filho. São Paulo:

Lumme Editor, 2012, p. 321.

16 DERRIDA, Jacques. Morada, Maurice Blanchot. Tradução de Silvana Rodrigues Lopes.

Rio de Janeiro: Edições Vendaval, 2004, p. 13. Derrida, falando da Literatura, diz: “O nome e a coisa nomeada, ‘literatura’, permanecem para mim até hoje, tanto quanto paixões, enigmas sem fundo”.

(32)

Restos arqueológicos, cinzas de antigos

incêndios, brasas que, ao soprar da escrita,

ardem com desejo de labaredas — de vida.

Vida se fazendo no entremear da leitura e

escrita lembrando a negra rendeira morta

de Avalovara, percorrendo as ruas de São

Paulo a caminho do cemitério como a tinta

percorre o papel. Mas a palavra não é

senão resto, resto de tinta que enegrece a

página, resto de sentimento para se calar

nela ao contar-se e que renasce no leitor

quando a lê, fazendo-o lembrar de sua

própria experiência.

(33)

para além dos confins e das afinidades mas sempre nas vizinhanças das

fronteiras”

17

naquilo que ficou dos idiomas maternos ou paternos ou mesmo

na hospitalidade de outras línguas. Mas como, a partir do nome, construir uma

narrativa em se tratando de escrita? Em se sabendo da solidão e do abandono

que impera naquele que escreve e que não há outro jeito a não ser fielmente

seguir adiante?

Sim, fui meu pai e fui meu filho, fiz perguntas a mim mesmo

e respondi o melhor que pude, me fiz contar a mim mesmo,

noite após noite, a mesma história, que eu sabia de cor sem

poder acreditar nela, ou andávamos, de mãos dadas, calados,

mergulhados em nossos mundos, cada um em seus mundos,

com as mãos esquecidas, uma na outra. [...] E esta noite de

novo parece que tudo vai indo bem, estou em meus braços,

me seguro em meus braços, sem muita ternura, mas fielmente,

fielmente. Durmamos, como se à luz daquele remoto lampião,

entrelaçados, de tanto ter falado, tanto escutado, tanto penado,

tanto brincado.

18

Viragens internas, restos arqueológicos de um lugar já habitado, escreve-se e

reescreve-se na folha branca para chamuscar, enegrecer a superfície na tentativa

de mascarar o vazio imposto pelo branco. O traço pede, busca uma surpresa,

uma novidade para “fazer nascer” no mais profundo da intimidade entre a folha

e a mão que escreve, entre a mão que escreve e é escrita. Mas o poeta sabe que

17 DERRIDA, Jacques. Morada, Maurice Blanchot. Tradução de Silvana Rodrigues Lopes. Rio

de Janeiro: Edições Vendaval, 2004, p. 14.

18 BECKETT, Samuel. Textos para nada. Tradução Eloísa Araujo Ribeiro, São Paulo: Cosac

(34)
(35)

a escrita é da ordem do imperativo e que marca com sons, com rumores, com

palavras que acossam a memória.

B: Mas por que você escreve?

A: Eu não sou daqueles que pensam tendo na mão a pena

molhada; tampouco daqueles que diante do tinteiro aberto

se abandonam a suas paixões, sentados na cadeira e olhando

fixamente para o papel. Eu me irrito ou me envergonho do ato

de escrever; escrever é para mim uma necessidade imperiosa –

falar disso, mesmo por imagens, é algo que me desgosta.

B: Mas por que você escreve então?

A: Cá entre nós, meu caro, eu não descobri ainda outra

maneira de me livrar de meus pensamentos.

B: E por que você quer se livrar deles?

A: Por que eu quero? E eu quero? Eu preciso.

B: Basta! Basta!

19

Sim, o poeta-mestre sabe. Porém, desde o lugar de aprendiz, percebo o quanto

se faz necessário o tempo para decantação, mas, este tempo

20

(essa “de-mora”

19 NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo:

Companhia das Letras, 2001, p. 119.

20 Lacan, em seu texto O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada, escreve, a partir de um sofisma, sobre a “imprevisibilidade” do tempo quando o que está em jogo é o tempo subjetivo — do sujeito do inconsciente. Ele coloca o tempo em três momentos: “instante de ver”, o “tempo de compreender” e o “momento de concluir”. O primeiro, “o instante de ver”, dominado pelo olhar e pela presença de um referente, é o momento de fulguração, em que o tempo é igual a zero. Esse tempo não é suficiente para se resolver a situação desconhecida; torna-se necessário um tempo para compreender. Esse segundo tempo exige a espera; supõe a duração de um tempo de meditação, de imersão. A espera, nesse segundo tempo, se interrompe com a emergência precipitadora do ato, que é o terceiro tempo. “O momento de concluir”, como Lacan chama o terceiro tempo, exige a urgência, levando o sujeito a agir. LACAN, J. O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. Escritos. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 197-213.

(36)

Espera. Ansiosa ela espera. As horas passam lentamente.

Os olhos faíscam, vibram de um lado para outro. De quando

em quando, como que por chispas, percebe um vulto e, por

instantes, seu coração palpita, mas, logo em seguida, percebe,

como quem pena no deserto: a miragem — o desejo se faz

ver. E, então, retorna a espera. Senta-se cansada onde o

corpo se dissipa e o pensamento se esvai. Tenta, em vão,

compreender sua posição. Neste instante, os olhos já não

mais resistem à umidade e o rosto banha-se alterando o seu

semblante. As lembranças vão e- vem como um pêndulo que a

cada volta deixa fragmentos de memória. Sente-se embalada

como os tempos de menina, porém o embalo não a adormece,

mas tonteia e, tudo gira. Novamente o mundo falta-lhe aos

pés e, como que num impulso ou sobressalto, busca novamente

um chão onde calcar o peso. As horas, os minutos, os dias se

confundem, como séculos que se somam compassados. O marulho

lhe lembra outro sentar. Sente como quem estivesse em um

cargueiro onde a língua tropeça no escuro e a esperança

ainda lhe toma o corpo e o pensar: novamente o desejo se

faz ver e as apostas de verdade se sobrepõem uma após

outra e, como quem tivesse o dom, vê o mundo num depois.

Sabe, porém, a diferença e outra vez retoma o seu lugar.

Sente, agora, o pousar do corpo na cadeira de descanso e os

olhos, por entre as brumas, veem o amanhecer. Percebe que

aquele instante, onde o tempo assemelha-se à eternidade,

lhe auxilia a juntar retalhos. Porém, as linhas enodadas

dificultam a ensambladura. Centra-se retomando o ponto e

o desenho se faz ver na peça inteira e, como quem se

rende às evidências, respira fundo buscando o ar que lhe

dá a vida...

(37)

entre a morte e a vida da palavra) não se marca, foi preciso permanecer imersa

na escuridão e no limbo para só então vislumbrar, de quando em quando, um

lampejo e perceber o solo fértil — um solo de conteúdos.

Em alguns momentos, há, em meu texto, um caráter de transgressão (também

observado nos textos de Lúcio Cardoso) e, em outros, uma aparente oposição

conceitual, porém, alerto que existe uma cumplicidade na oposição (um certo

flerte) e, se transgrido, é na tentativa de migrar neste solo, entre os conceitos,

entre os autores, revestindo-os de outro sentido, sempre na tentativa de uma

“mostração” pela escrita. Os autores que sustentam meus escritos, fazem fundo,

dão o tom, “abrem, fecham e arrastam” essa tese que escrevo — essa tese

praticamente impossível.

21

Tendo o possível dentro do impossível, partilho das

vozes, (uma partilha sempre em transformação) compondo — com-pondo —

com Lúcio, no dia-a-dia, dois diários: o dele e o meu. A escrita, neste sentido,

convoca e

o próprio mundo vem nela para formar-se nela: forma formans,

formação infinita de cores, de pinceladas, de vibrações, de

densidades, de torneios, nuances, tons, reflexos, brilhos,

sombras [...] obras-mundos [...] apanhar ali – saudar ali –

a vinda de um mundo em processo de nascer em uma forma

21 Faço uma alusão ao que Jean-Luc Nancy escreve em “As razões do escrever”. Ele, por sua

vez, faz alusão a Derrida. Fiz questão de deixar o que Nancy coloca e não Derrida, para mostrar as “camadas” de uma escrita — uma escrita palimpsesto ou um feltro deleuziano. NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura e filosofia. Florianópolis: Ed. UFSC, 2016, p. 39.

(38)

O escuro da noite se fazia há tempo e

a direção da estrada era acompanhada

somente por aquilo que estava na

lembrança. Os passos, com-passados, já

sabiam desviar as pedras que apareciam

pelo caminho, os pés com alpargatas

sentiam a terra batida pelo andar de

quem passava [...]. O vento soprava em

sua face e, mesmo com as mãos dormentes

pelo frio do inverno que denunciava o mês

de junho, segurava firme o que para si

parecia precioso: cadernos... Olhou para o

céu cheio de estrelas e lembrou dos

vaga-lumes sentindo saudades, pois sabia que

este não era ainda o tempo de buscar

amor. Foi então que, ao fazer a curva,

percebeu pontos de luz que lumiavam ao

longe. Esfregou os olhos embaçados pelo

sono e, ao abri-los, a escuridão igualmente

estava lá.

(39)

ainda não dada, não ainda fixada: uma forma que joga de

novo e relança o ex nihilo que é [a] partilha do mundo.

22

Uma escrita-tese continuamente em processo (e haveria outra forma?), entrar

nos textos, esburacar até deixá-los “ocos” — caminhos-ruinas —, “fazê-la

causa de si”.

23

Uma causa que necessita, de quando-em-quando, erguer os

olhos, caminhar, pois,

são as caminhadas que trazem as palavras até você, que lhe

permitem ouvir os ritmos das palavras à medida que as vai

escrevendo mentalmente. Um pé para frente, depois o outro, a

batida dupla do coração. Dois olhos, dois ouvidos, dois braços,

duas pernas, dois pés. Isso, depois aquilo. Aquilo, depois isso.

A escrita começa no corpo, é a música do corpo, e ainda que

as palavras tenham sentido, a música das palavras é onde os

sentidos começam.

24

22 Aqui lembro o que Nancy escreve sobre o mundo ser um mundo de relatos de recitações — relatos mitos. NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura e filosofia. Florianópolis: Ed. UFSC, 2016, p. 20.

23 MILNER, Jean-Claude. O amor da língua. Tradução Paulo Sérgio de Souza Júnior. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012, p. 7. Lembro que “causa” é um substantivo feminino, do latim

causa, -ae, causa, razão. Agente eficaz que dá existência ao que não existia. Fonte, motivo. O

que antecede um fenômeno. Fato ou acontecimento. Ação ou processo. Em causa: Que está em análise ou em discussão. Risco, perigo. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. priberam.pt/ [consultado em 16-08-2016].

24 AUSTER, Paul. Diário de inverno. Tradução de Paulo Henriques Brito. São Paulo: companhia das Letras, 2014, p. 203. Essa citação remete também a Avalovara onde Abel, o escritor, e a mulher sem nome encontram-se num ato sexual/textual, de qualquer modo, físico: “Cada vez, Abel, que me beijas os joelhos, duas vezes o fazes. Serás capaz de ver as letras, as palavras que, em certas horas, vejo ainda rastejarem sobre a minha pele e que, decerto, nunca silenciam? Ouço-as, multidão agrupada numa praça, não como se eu na praça estivesse, e sim,

(40)
(41)

Sim, a escrita começa no corpo. Um dentro e um fora que, marcados por

significantes, são contornados formando um contínuum. Um escrito, excrito,

ex-crito “em que se houve ainda um

ex-grito”,

25

o grito daquele que uma

vez inscrito na linguagem

26

, segue (per-segue) incessantemente esta escrita

inaugural, este traço primeiro perdido para sempre. Mas, ainda assim, mesmo

que errante, é necessário caminhar, deixar que os passos façam o caminho e que

o gesto do dedilhar marque a folha, ainda que deste escrito não se saiba, pois

como se fosse a praça, o murmúrio das palavras ecoa em minhas coxas, nos meus peitos, no ventre, flui e reflui, continuado, não sei se alegre, não sei se feroz, flui como se os limites do meu corpo fossem os limites da praça, e meus ombros e axilas fossem abóbodas onde chegassem os últimos ecos das vozes, e os meus braços — que estendo — fossem extensões da praça, avenidas também cheias de vozes.” LINS, Osman. Avalovara. Apresentação de Antonio Cândido, São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 34.

25 NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura e filosofia. Florianópolis: Ed. UFSC, 2016, p

33. Jacques Lacan também trabalhou sobre o “ex”, o ex-sistir, ex-sistência, entendida como algo que se sustenta topologicamente, do que está fora, do que possui uma propriedade de exterioridade íntima (ex-timité), que habita o seio do simbólico apesar de lhe ser exterior — ex do latim fora de; sistere, se sustentar.

26 Cabe salientar que, para a psicanálise, o sujeito é constituído pelo Outro. “É na criança, na

‘primeira carne’ que é escrito o desejo materno, já constituído na mãe, cujas primeiras letras ela desenha no corpo do filho. Estas letras marcam o desejo desse Outro – desejo de vida, de morte, traços que acompanham o sujeito numa determinada posição subjetiva. É por meio da mãe, desse Outro materno, que a inscrição se faz, seja pela voz (no traço contido no tempo silencioso da sílaba, em seus ruídos, em seus sons ou em seus gritos), seja pelo toque (em que a mãe acentua seu desejo, marcando, com linhas diferenciais, as bordas que contornam o vazio; vazio este que, ao ser contornado, transforma-se em espaço pulsante de demanda), seja no olhar (no instante em que ele pousa naquela ‘primeira carne’ e ali pressupõe, inventa, cria um suposto sujeito de seu desejo). O corpo, essa ‘primeira carne’, é então entremeado por escritas, tecido pelas marcas desse Outro. Esse corpo real é bordado com significantes, corpo que se produz em furos, crateras, espaços vazios, ‘borda orificial através da qual se produz toda e qualquer troca com o Outro’. Esses ‘furos’, que servem então de laços do corpo – aberto para o exterior – são utilizados como janelas, como ‘leitura da letra’, dessas letras que lhe são impressas, sulcadas, desses sulcos que dizem do inconsciente. Pode-se pensar, então, nesse instante em que as marcas do desejo são sulcadas na ‘carne’, onde o Outro faz linguagem e da linguagem faz-se outro. Onde as letras registram, escrevem e inscrevem o sujeito do inconsciente – inconsciente constituído como linguagem.” In: BERGAMASCHI, Rosi Isabel. Escrita: Morte-origem em

psicanálise. 2006. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Programa de Pós-graduação em

(42)

Ficou pensando sobre computador... Muitas coisas vieram

à sua mente... Primeiro teve a certeza de que não

era de máquina que se tratava, embora, em muitos

momentos, insistia que assim fosse. Computador,

com-puta-dor, computa-dor. Duas coisas logo lhe saltaram

aos ouvidos: ‘com’ e ‘dor’. Porém, era da falta que

sentia, seria, então do ‘puta’ que se tratava? Logo

ficou enrubescida, mas repeliu porque ‘putta’, do

latim, quer dizer menina e, com menina, até se

identificava...Voltou ao computador. Sim literalmente

voltou-se ao teclado. Teclava insistindo com força,

tentando espremer dele algo que explicasse...

Pensou no ‘com’, esta partícula usada em português

que auxilia na formação de locuções prepositivas,

sobretudo antecedendo verbos no infinitivo, indicando

companhia... Pensou também na ‘dor’ e esta sentia

na carne. Mas ‘computador’ continuava insistindo,

latejando em seu ouvido esquerdo, insistia, arranhava

como corda de violão tentando buscar afino. Quando,

já cansada, buscou auxílio encontrou: “Aquele que faz

cômputos, que calcula; cérebro eletrônico; máquina

capaz de receber, armazenar e enviar dados... com

o objetivo de resolver problemas...” Foi então que,

pela primeira vez, brigou com Aurélio. Sim porque até

aquele instante computador era o problema e não a

resolução dele. Algo mancava, faltava à sua mente

que pudesse dar conta da pergunta que insistia...

Computador? Sim: com puta dor.

(43)

A escrita é o desconhecido. Antes de escrever nada se sabe do

que se vai escrever. E em total lucidez. É o desconhecido de

si mesmo, de sua cabeça, de seu corpo. Escrever não é sequer

uma reflexão, é um tipo de faculdade que se possui ao lado da

personalidade, paralelo a ela, uma outra pessoa que aparece e

avança, invisível, dotada de pensamento, de cólera, e que por

vezes acaba colocando a si mesma em risco de perder a vida.

27

Aqui lembro o que Derrida pontua: “só somos escritos escrevendo”

28

. Este

duplo ato de escrever: escreve-se e inscreve-se. Marca-se e se é marcado,

pois “escrevo me afetando no próprio processo de escrever”

29

, e esta afetação

muda-nos. “Não escrevemos segundo o que somos; somos segundo o que

escrevemos”

30

. E, se somos segundo o que escrevemos, este ser escrevente fica

nos entremeios, nos espaços que pausam uma palavra da outra, fica na palavra

que nos fisga, fica no ritmo pulsante do acento nas palavras. E mesmo que

tentemos, com esforço, dominar a escrita,

nem sempre se pode levar a cabo as intenções racionais.

Frequentemente no próprio material existe algo que toma

conta de nós e nos devia de nossas intenções iniciais. Mesmo

uma realização banal como a organização de determinada

27 DURAS, Margarite. Escrever. Tradução de Rubens Figueiredo. Rio de Janeiro: Rocco, 1994,

p. 47-48.

28 DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. Trad. Maria Beatriz Marques Nizza da Silva. São Paulo: Perspectiva, 2005, p. 222.

29 BARTHES, Roland. A Preparação do Romance II – A obra como vontade. Trad. Leyla

Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 47.

30 BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco,

(44)

Conversávamos eu e ele, desta feita, outro tipo de

conversa. Eu ainda um pouco debilitada pelos ares

de meu reino e pelas atribulações de rainha. Ele,

porém, trazendo sob sua coroa a energia do brasão

de dois reinados — isso talvez o tenha feito sustentar

o mando. A conversa, entremeada com silêncios,

deixava ver com que cores o contorno se fazia.

Perguntei sobre o mando e ele docemente respondeu:

é assim, e p(r)onto. Por vezes as palavras alteravam

seu semblante dobrando os lábios e silenciando aquilo

que abrolhava dano. Então, percebendo o efeito que

causava a imagem, retomou o mando e, postando-se

com corpo mais ereto, outra vez falou e, num tom em

que a voz realmente se fazia ouvir, arriscou uma

conversa — conversava para si. Eu, no entanto, ainda

temerosa, pois a fragilidade era notória, coloquei-me

mais na escuta esperando que ele se manifestasse,

mas o silêncio gritava ainda mais forte e seus olhos

perdiam-se em lugar nenhum. Novamente desviei,

desta feita inclinando a cabeça, pois não há olhos que

suportem o olhar do nada. Percebi que os pássaros

calam-se, as árvores, em respeito, fixaram-se no

instante e então pude pensar: como fazer para não

tornar meu o que não me pertence?...Sabia, desde

o início, que a infância distância não era minha e

que aquela dor havia-se feito em outra língua. Porém

por mais que meu esforço caminhasse nesta ordem,

o coração tremia e o medo se fazia sentir. Era

estranho, pensava eu: um, balbuciando “careço dengo”

e, outro, “eu só preciso ficar quietinho”. Matutei: como

conciliar Dois Ditos em um só mandato? Foi então que a

palavra “fioleta” como que num relâmpago rompeu-se

por si só e eu pude pensar no abandono. Mas, como

outrora já fora pronunciado: só se pode abandonar

uma criança — e eu me sabia adulta.

(45)

quantidade de material não depende inteiramente da escola

do autor; as coisas podem tomar o rumo que lhes apraz, e

tudo quanto se pode fazer é perguntar-se, após os fatos, porque

estes se passaram desta e não daquela maneira.

31

No entanto, se esta forma, se este ser-sendo, se colocar

perto demais, dificultando

ou facilitando, saliento

que “é à distância de mim mesmo a que devo

arriscar-me aqui”

32

, já que este ser-sendo está entremeado aos olhos no singir da tela, a

boca que sussurra as palavras escritas no intuito de encontrar o melhor tom, aos

dedos que se alternam e que, numa alegria trêmula, seguem.

É o corpo em seu todo (re)fazendo a língua-linguagem, semelhante ao poeta

que

“amava os livros, suas linhas seguidas com o dedo, suas páginas viradas

com lentidão para acompanhar sem ruptura a passagem de uma palavra a outra

entre a frente e o verso, as duas faces da mesma finura”

33

, e, se algo se interpõe

neste trajeto, são as folhas sobrepostas, amontoadas “entre ele e o mundo, entre

ele e a coisa em si, entre ele e o ato”.

34

Ato que não é pré-estabelecido, com

objetivos determinados a acontecer “ele é, ao contrário, o que não acontecendo,

abre a possibilidade de todo acontecer”,

35

um ato potência em que o caminho

31 FREUD, Sigmund. Conferência XXIV [1917]. In: Conferências introdutórias sobre Psicanálise. Vol. XVI. Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p 380.

32 LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 17. 33 NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura e filosofia. Florianópolis: Ed. UFSC, 2016, p. 328. 34 Ibidem.

(46)

Como um hiato na respiração: diário do dia seguinte

(47)

se abre no próprio caminhar e em que o pensamento e a vida mesma se juntam

ao ato (aqui, a este ato de escrita). Um ato que tem

errância e método, método de errância, errância metódica,

caminho que não é traçado, mas que é o próprio rastro de um

passo que vai avançando, que vai passando, que apenas vai

despertando para si mesmo a possibilidade de uma direção, de

um destino, de um desejo. Apenas fazendo conhecer seu desejo,

que ele mesmo se inventa a cada passo, sendo, no entanto,

apenas o desejo do próprio passo.

36

Se Nancy aponta a errância como “possibilidade do passo”, Blanchot lembra

Artaud “que faz estilhaçar a linguagem silábica pelo espasmo, pela arritimia, pela

pulsação sem medida, o caminho subitamente aberto rumo a forma inatingida,

expulsão e retenção do vazio”,

37

ou ainda, quando nos lembra Rimbaud: a

escrita escapando, “seus livros apodrecem no porão. Ele os esquece, ele se

aquece, ele se vai.”

38

Rebotalhos de um discurso formal, a escrita produzindo sensações como o

badalar de um sino que pode ser de um “

suplício atroz, mas se pode também

compreendê-lo como anúncio de toda língua, como o chamado de toda

língua e a toda nominação — ou seja, ao desejo de abraço, a esse desejo

exasperado de ser enlaçado às coisas por seus nomes”.

39

O badalar do sino —

36 Ibidem, p. 359.

37 BLANCHOT, Maurice. Cartas a Vadin Kozovoi. Tradução de Amanda Mendes Casal e

Eclair Antonio Almeida filho. São Paulo: Lumme Editor, 2012, p. 328.

38 BLANCHOT, Maurice. Cartas a Vadin Kozovoi. Tradução de Amanda Mendes Casal e

Eclair Antonio Almeida filho. São Paulo: Lumme Editor, 2012, p.331.

(48)

Seu Anjo está de frente, com

a cabeça levemente voltada

para trás. Os olhos abertos,

os lábios entre-costados e

as orelhas bem atentas. O

vento sopra levemente nas

vestes contornando o corpo.

Está firme, não tem mais

asas. O anjo desta história

tem este aspecto pois, se

se volta ao passado é para

iluminar o presente. As

ruínas que vê são potências.

Já não deseja acordar os

mortos.

(49)

o sino fala! — o “sino chama à palavra [...] e às preces da palavra que apazigua”.

40

Mas, mesmo com apaziguamento (e talvez por isso), se faz imprescindível

lembrar-falar de Walter Benjamin, de seu Anjo com olhos esbugalhados, a

boca escancarada e as asas-orelhas seguradas pelo vento a escutar.

41

Se faz

imprescindível lembrar-falar de Benjamim, mesmo por fragmentos, pois

seu olhar sobre as coisas, sobre o mundo é, também, “fragmentário, não por

renunciar à totalidade, mas por procurá-la nos detalhes quase invisíveis”

42

.

E, se já não bastasse, se faz imprescindível lembrar-falar de suas citações, pois

ele as incorpora ao seu ‘método’ de escritura

corta-as e as repete, olha-as a partir de lados diferentes,

copia-as váricopia-as vezes, parafrcopia-aseia-copia-as e copia-as comenta, adapta-se a elcopia-as,

segue-as como quem segue a verdade de um texto literário;

esquece-as e volta a copiá-las. Faz com que restituam um

40 Ibidem, p 330.

41 BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Tradução de João Barrento. Belo Horizonte:

Autêntica Editora, 2013. “Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de fatos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir de seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Esse vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos progresso é este vendaval”. Benjamin se utiliza desta imagem para falar sobre alguns de seus conceitos, em especial de “história”.

42 SARLO, Beatriz. Sete ensaios sobre Walter Benjamin e um lampejo. Tradução de Joana

(50)
(51)

sentido, intimando-as. Repete citações às vezes precedida de

um comentário curto, outras vezes as incorpora a um texto mais

extenso no qual ela já adquiriram o ar da prosa benjaminiana,

transformando-se até parecer que Benjamin as teria escrito, e

não copiado.

43

Benjamin sabe da força de suas citações, ele mesmo diz: “As citações, no meu

trabalho, são como ladrões à beira da estrada, que irrompem armados e arrebatam

o consciente do ocioso viajante”.

44

Ele fez da arte de citar “uma das mais altas

formas de escritura”

45

, copiava em seus cadernos a próprio punho. Gostava de

sentir o traçado de cada letra, de cada palavra, para depois, embaralhá-las ao

seu texto, fazendo-as suas.

Ninguém soube, como Benjamin, encontrar a citação; ninguém

aprendeu, tanto quanto ele, a dispô-la no texto: fazê-la entrar

brutalmente, sem que nada anunciasse, ou, pelo contrário,

dilatar a espera por uma citação até que se abrisse o vazio

justo; ninguém como Benjamin conheceu a arte da repetição

da citação, da repetição do próprio texto como citação oculta,

que produz em seus leitores uma sensação de reconhecimento

que se esquiva, de estranha duplicação nunca totalmente

idêntica.

46

43 Ibidem, p.36-37. Saliento que citar, citare, é pôr em movimento, fazer vir a si; Ex-citare é

despertar; sus-citare, fazer-se levantar. A citação excita, suscita e incita um dizer.

44 BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. Obras escolhidas. Vol. II. São Paulo: Editora

Brasiliense, 6ª reimpressão, 2011.

45 SARLO, Beatriz. Op. cit., p. 25.

46 SARLO, Beatriz. Sete ensaios sobre Walter Benjamin e um lampejo. Tradução de Joana

(52)
(53)

E, é para elas, também, que “volto meu rosto” (minha escuta) para poder escrever.

É, para uma transferência amorosa (identificatória, transferencial, talvez), que

me debruço. É, nesta escritura benjaminiana, freudiana, blanchotiana, que me

encontro

47

, atravessada pelos diários de Lúcio, pois não há outra forma quando

Literatura e Psicanálise transitam, ambas se interrogando e estabelecendo

vínculos que podem iluminar o texto, ou, em outros momentos, se distanciando,

ficando na sombra, justamente para colocar em evidência aquilo que é específico

de cada escritura.

E, ainda sobre a pesquisa, Freud nos ajuda:

“...a tarefa consiste em descobrir, por trás das características

(qualidades) do objeto de investigação fornecidas diretamente

à nossa percepção, algo que seja mais independente da

capacidade receptiva particular de nossos órgãos sensoriais e

mais próxima do suposto estado real das coisas. Não esperamos

poder alcançar esse último em si mesmo, pois vemos que tudo

o que acabamos de deduzir tem que ser traduzido novamente

para a linguagem de nossas percepções, da qual simplesmente

não podemos nos libertar”

48

47 A palavra “encontro” pode ser lida nos dois sentidos, como lugar e também como posição. 48 FREUD, Sigmund. Compêndio de psicanálise e outros escritos inacabados. Obras incompletas

de Sigmund Freud. Tradução de Pedro Heliodoro Tavares. Belo Horizonte: Autêntica Editora,

(54)

Há muito tempo conversávamos eu e ela, um exercício que fazíamos

desde a infância. Talvez desde o momento em que a linguagem

instalou-se na memória e que somente os traços, inscritos como marcas, lhe

sobravam na lembrança. Porém, sempre conversávamos...Disse-me

ela, um dia, que há muito havia amado. Um amor de muito tempo,

quem sabe, desde antes mesmo de nascer. Amava numa alegria

ainda pura, mas, aos poucos, percebia que este amor

modificava-se como modificava-seu corpo que crescia e tomava forma. E a modificava-separação modificava-se

impôs. Disse-me ela, novamente, que outra vez amou. Este já um

tanto diferente, em que o corpo já crescido tinha seu lugar e foi,

neste amor, que ce-deu a primeira entrega. Mas o tempo que

carrega os instantes, as horas e os dias, amargou os anos e seu

ser. Foi então que, sussurrando em meu ouvido — como quem, ainda

com medo, vigia suas palavras —, disse-me de seu desencanto, de

sua dor... Porém, quando pensei que já tinha dito tudo, percebi que

ainda balbuciava. Aproximei-me para emprestar mais de perto

meus ouvidos quando, surpreendida, escutei: ‘E, outra vez, amei’.

Desta com a força de quem, já madura, se entrega. Se entrega

já sem medos, sem ressalvas e sem pudor.... Porém (continuou ela),

com a corda bamba, num trapézio de picadeiro sem rede, sucumbi e

desta vez com a força e o peso de uma alma já cansada. Naquele

instante, seus lábios se selaram e o silêncio se fez grito. Afastei

meu corpo, respeitando seu pedido. Nada mais parecia restar em

seu semblante. E, neste instante, se fez ver uma imagem de um

corpo derruído, entregue como as águas que deslizam em um leito

em declive. Muitas horas ficamos neste tempo infinito do silêncio. Eu

a espreitar sua face, seus contornos imóveis e perdidos. Quando a

noite já se anunciava e a imagem perdia-se em vultos, percebi que

seu corpo fazia um pequeno movimento de quem se põe mais ereta

e decidida e, antes que algum toque meu quebrasse a cena, sua voz

se fez presente. Contou-me — lembrando o Banquete de Platão —

que havia conversado com o mar sobre o amor e este já sofrido lhe

disse que, enquanto houvesse água, as ondas se impunham ao vento

e à tempestade. Naquele instante, percebi que uma gota de água

caía em sua face...

(55)

Pois, “o real sempre permanecerá incognoscível”, mas, o “conhecimento nos

capacita a compreender algo no mundo exterior, prevê-lo e, possivelmente,

alterá-lo”.

49

Sigo as sugestões de Freud, “tento” conhecer, rasurar, nomear, pois,

do contrário, seriam apenas

signos vazios. Convém, no entanto, dizer que “nas

coincidências fatais se encontram rastros de um destino”

50

impossível de evitar.

Porém, método/pesquisa é também (e principalmente) ética/estética, se escreve

desde um lugar, de uma posição, pois “a atuação literária significativa só pode

instituir-se em rigorosa alternância de agir e escrever”.

51

Agir e escrever. Sim,

a escrita aqui é também ação, vida, um

sentido sempre em ato, em formação ou

“em estado nascente”.

52

49 Ibidem, p. 151.

50 SARLO, Beatriz. Sete ensaios sobre Walter Benjamin e um lampejo. Tradução de Joana Angélica d’Avila Melo. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2015, p.26.

51 BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. Obras escolhidas II. Tradução de Rubens Rodrigo

Filho e José Carlos Barbosa. São Paulo: Editora Brasiliense, p. 9.

52

“Estado nascente” é um termo utilizado por Blanchot, ele diz: “o texto não transporta somente um sentido autônomo que só importaria, mas quando o som, a imagem, a voz (a fonologia) e sobretudo o principado do ritmo são predominantes em comparação com a significação ou então fazendo sentido, de tal modo que o sentido sempre em ato, em formação ou ‘em estado

nascente’”. BLANCHOT, Maurice. Cartas a Vadin Kozovoi. Tradução de Amanda Mendes

(56)
(57)

2. ENVOLVIMENTO

A forma custa caro.

Paul Valéry

2.1. Do território na/da palavra: linguagem, morte-vida.

E, no entanto, um novo inominado avança, ou então avançamos

em direção a ele. No entanto, no mesmo instante posso abrir um

volume de páginas virgens e traçar a primeira palavra de uma

língua por inventar. Uma outra queimadura sem que saibamos,

pois sem que saibamos é o saber exato do inominado.

53

A palavra é, desde há muito, uma questão trabalhada pelas diversas áreas

do conhecimento, quer se trate de sua forma ou de sua relação “com”.

54

De minha parte, se trata de um interesse íntimo com a palavra, a escrita e a

morte, bem como o processo larvar, quando estas ainda se encontram atrás da

53 NANCY, Jean-Luc. Em meu peito, ai, duas almas... In: Demanda: literatura e filosofia.

Florianópolis: Ed. UFSC, 2016, p. 325-334. Neste impressionante texto, Nancy escreve sobre o desejo de “pensar e ser”, pois, “se pensar é ser, então não há mais nem objeto nem coisa”, somente o ato. Escreve sobre a escrita, os livros, o fogo, traz Fausto e os sinos, a sede do fogo, de queimar. “Eis porque, meus livros, eu vos queimo. Eu os devolvo à vossa gravidade [...] cor de fuligem, cor da noite [...] vós sobreviveis ainda, páginas enegrecidas sobre as quais se pode decifrar os restos de um poema, e se comover com sua beleza de ruína [...] eis o que quero: incendiar o signo e o sentido [...] e tudo irá se abismar ou se exaltar no ato puro”.

54 Lembro aqui a nota de rodapé 14 que faz alusão ao “com”. O “com”, no título, foi, também,

uma sugestão do professor Wladimir Garcia, quando da qualificação do projeto, assim como os termos “presentação”, “envolvimento” e “oclusão”.

(58)

Referências

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