UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA
ROSI ISABEL BERGAMASCHI CHRAIM
Escrita, morte-vida
Diários com Lúcio Cardoso
FLORIANÓPOLIS
2017
ROSI ISABEL BERGAMASCHI CHRAIM
Escrita, morte-vida
Diários com Lúcio Cardoso
Tese apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Literatura da Universidade
Federal de Santa Catarina para obtenção
do título de Doutora em Literatura.
Área de concentração Literaturas, linha
de pesquisa Arquivo, Tempo e Imagem.
Orientadora: Profa. Dra. Ana Luiza
Britto Cezar de Andrade.
Florianópolis
2017
Ficha de identificação da obra elaborada pelo autor,
através do Programa de Geração Automática da Biblioteca Universitária da UFSC.
Chraim, Rosi Isabel Bergamaschi Chraim
Escrita, morte-vida: Diários com Lúcio Cardoso / Rosi Isabel Bergamaschi Chraim Chraim ; orientador, Ana Luiza Britto Cezar de Andrade Andrade, 2017. 234 p.
Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Expressão, Programa de Pós-Graduação em Literatura, Florianópolis, 2017.
Inclui referências.
1. Literatura. 2. Escrita. 3. Morte-vida. 4. Palavra. 5. Diário. I. Andrade, Ana Luiza Britto Cezar de Andrade. II. Universidade Federal de Santa Catarina. Programa de Pós-Graduação em Literatura. III. Título.
___________________________________________
ROSI ISABEL BERGAMASCHI CHRAIM
ORIENTANDA
____________________________________________
Profa. Dra. Ana Luiza Britto Cezar de Andrade
Programa de Pós-graduação em Literatura
Universidade Federal de Santa Catarina
ORIENTADORA
BANCA EXAMINADORA
____________________________________________
Profa. Dra. Simone Zanon Möschen
Programa de Pós-graduação em Psicanálise: Clínica e Cultura
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
____________________________________________
Profa. Dra. Tania Cristina Rivera
Programa de Pós-graduação em Estudos Contemporâneo das Artes
Universidade Federal Fluminense
____________________________________________
Profa. Dra. Maria Aparecida Barbosa
Programa de Pós-graduação em Literatura
Universidade Federal de Santa Catarina
____________________________________________
Profa. Dra. Patricia Peterle
Programa de Pós-graduação em Literatura
Universidade Federal de Santa Catarina
____________________________________________
Prof. Dr. Wladimir Antônio da Costa Garcia
Programa de Pós-graduação em Educação
Para Macul Chraim,
meu amor.
AGRADECIMENTOS
“Toda gratidão precisa ser testemunhada”, nesse sentido, cunho aqui meus
agradecimentos:
A minha orientadora, mestre, amiga, Dra. Ana Luiza Britto Cezar de
Andrade, que, durante este percurso, esteve ao “meu lado” compartilhando,
generosamente, seu conhecimento e seu desejo de escrita;
A banca de qualificação e defesa desta tese, mestres-amigos, que testemunharam
minha trajetória;
Aos escritores-mestres, que serviram de “pilares” para meus estudos;
Aos amigos-colegas de estudos na literatura e na psicanálise;
As minhas filhas e meu filho e, em especial, as minhas netas e meu neto, que
despertaram em mim (novamente) o desejo de vida.
RESUMO
Desde a palavra “rio”, a primeira forma que escrevi meu nome, a escrita esteve
presente em meu cotidiano, quiçá bem antes, instigando e me colocando a
trabalhar. E é nas escritas de vida que direciono meu olhar e minha escuta.
Nesse sentido, nas bordas da literatura e da psicanálise, transitando no espaço
“entre”, esta tese visa trabalhar sobre escrita, morte-vida em uma relação
com a palavra, tendo como objeto de companhia e mostração as escritas do
Diários de Lúcio Cardoso, pensando as formas narrativas que se apresentam
neste evento de linguagem — as escritas diárias. Para isso, propõe-se
morte-vida como termo único e a palavra-escrita como um lugar possível, mesmo que
tangente e sempre frustrante, da experiência enquanto limite, enquanto tentativa
de nomear o inominável — daquilo que transita e insiste na morte-vida. Visa,
também, pesquisar que relações se desprendem do desejo de escrever em
diários, fazendo do próprio “ato” de escrita uma forma de trabalhar, de lidar
com os conceitos. Para tanto, foram organizados quatro momentos de escrita,
quatro formas topológicas: meu escrito-texto de tese, as citações entremeando o
texto, as notas de rodapé e as escritas de Meus cadernos. Este último, as escritas
dos meus cadernos, caminham paralelo aos outros escritos, no intuito de lidar
com o limite do vivido e a ficção, visitando aquilo que é da ordem da memória
— lembrar-esquecer — em um processo de (re)construção e (re)inscrição da
própria vida. Foram tomados como amparo teórico principal Walter Benjamin,
Sigmund Freud e Maurice Blanchot, entre outros.
PALAVRAS-CHAVE
RIASSUNTO
Dalla parola “rio”, il primo modo in cui ho scritto il mio nome, la scritta è
stata presente nel mio quotidiano, anzi molto prima, istigando e mi mettendo a
lavorare. Ed è nelle scritte della vita che punto il mio sguardo e il mio ascolto. In
questo senso, nelle margini della letteratura e della psicanalisi, transitando nello
spazio tra di loro, questa tesi ha lo scopo di lavorare sulla scritta, morte-vita in un
rapporto con la parola, avendo come oggetto di compagnia e di studio le scritte
del Diarios di Lúcio Cardoso, pensando nelle forme narrative che si presentano
in questo evento di linguaggio – le scritte quotidiane. Perciò si propone
morte-vita come unico termini e la parola-scritta come un luogo possibile, anche se
in modo periferico e sempre frustrante, l’esperienza come un limitrofo, come
tentativo di nominare l’innominabile – di quello che transita e insiste nella
morte-vita. Obbiettiva, anche, ricercare quale relazioni si staccano dal desiderio
di scrivere in diari, facendo del proprio “atto” di scrivere un modo di lavorare, di
affrontare i concetti. Pertanto, sono stati organizzati quattro momenti di scritta,
quattro forme topografiche: il mio scritto-testo di tesi, le citazioni intervallando
il testo, le note e le scritte del Meus cadernos. Quest’ultimo, le scritte dei miei
quaderni, vanno in parallelo agli altri scritti, con lo scopo di affontare i limiti
del vivace e della finzione, visitando quello che è dell’ordine della memoria –
ricordare-dimenticare – in un processo di (ri)costruzione e (ri)scrizione della
propria vita. Sono state utilizzate come sostegno teorico principale Walter
Benjamin, Sigmund Freud e Maurice Blanchot, tra altri.
PAROLA-CHIAVE
RÉSUMÉ
Dès le mot “rio”, la premiére manière que j’écrit mon nom, l’écrit a été présent
à mon quotidian, peut-être bien avant, elle, l’écrit, est déjà lá, à me mettre
incitation à travailler. Et il est sur les écrits de la vie, que moi, je prends mon
regard et mon écoute. En ce sens, aux bords de la littérature et la psychanalyse,
je me suis promenée sur l’espace du “entre”. Donc, cette thèse vise à travailler
l’écriture, la vie-mort dans une rélation avec le mot vie, et en ayant comme objet
de passion et d´étude les journaux écrits par Lúcio Cardoso, je me mis a penser
sur ses formes narratives e ses langages — les écrits du quotidien. Pour celle,
il est proposé la mort-vie comme un seul terme et le mot écrit comme un lieu
possible, même si tangente et toujours frustrant, de l’expérience comme limite,
comme téntatif de nommer l’innommable — de ce qui bouge et insiste à la
mor-vie. La thèse vise aussi rechercher quels relations se détachent du désir d’écrire
aux journaux, en faisant du propre “acte” d’écrit une manière de travailler, avec
ele même et ses concepts. Par conséquent, ils ont été organisés quatre fois de
l’écriture, quatre formes topologiques: la thèse, les citations que intercalent
la thèse, les notes et les écrits de “Meus Cadernos”. Ce dernier, les écrits de
“Meus Cadernos”, marchent parallèlement avec les autres écrits, afin de faire
face aux limites du vécu et de la fiction, en visitant c’est qui est de l’ordre de la
mémoire — rappeller/oublier — dans un processus de (re) construction et (re)
description de la vie pour elle-même. Ils ont été pris comme support théorique
principal Walter Benjamin, Sigmund Freud et Maurice Blanchot, d’entre autres.
LES MOTS CLÉS
Não discuto o mérito da obra a ser feita —– é mesmo possível
que não interesse a ninguém —– mas só ela me explica perante
mim mesmo e é o único testemunho que posso apresentar de
uma existência que, devidamente examinada, é inútil a toda
gente.
Lúcio Cardoso,
Poesia completa
ESCRITA, MORTE-VIDA
DIÁRIOS COM LÚCIO CARDOSO
1. PRESENTAÇÃO
A palavra iniciante: canto do pressentimento ... 21
2. ENVOLVIMENTO
2.1. Do território na/da palavra: linguagem, morte-vida ... 57
2.2. Escritas de vida ou a vida escrita?
Lucio Cardoso e a palavra agonizante ... 99
2.3. Um lampejo: morte-vida, a topologia do trânsito ... 187
3. OCLUSÃO
Do corpo à terra: a penúltima palavra ...207
1.PRESENTAÇÃO
1Tenho uma vaga ideia do que quero; mas não sei dizer.
Lúcio Cardoso
A palavra iniciante: canto do pressentimento
Minas, esse espinho que não consigo arrancar do meu
coração – fui menino em Minas, cursei Minas e os seus
1 Três questões se fazem importantes no título de meu trabalho. Uma: esta tese, Escrita,morte-vida: Diários com Lúcio Cardoso, não é uma sequência de minha dissertação de mestrado
em termos de autor tomado como “companheiro de empreitada”. Mas sinto-a sim como uma sequência no sentido de uma pesquisa que desenvolvo desde que iniciei meu trabalho como professora-alfabetizadora, em 1982, na cidade de Ijuí no Rio Grande do Sul, e que tomou um sentido mais definido em 1994, em minha escuta clínica psicanalítica, em que as questões da escrita e sua relação com a constituição do sujeito do inconsciente, bem como com os efeitos da escrita sobre o sujeito escreve, sempre foram por mim questões que me instigavam a trabalhar. Em minha dissertação, trabalhei com o conto O milagre secreto, de Jorge Luis Borges. BERGAMASCHI, Rosi Isabel. Escrita: Morte-origem em psicanálise. 2006. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Programa de Pós-graduação em Psicologia, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. Duas: nesta tese, tentarei escrever onde a própria escrita terá um intuito de mostração. O termo “mostração” é utilizado como conteúdo que é escrito e, ao mesmo tempo, deixa ver-se, “mostra”, mo(n)stra, des-monta na própria forma de escrita — mostra, por ser ela mesmo o objeto de uma mostração. Nesta “mostração” há um intuito de escrever com um caráter fragmentário, quase por aforismas, respeitando a escrita de Lúcio Cardoso (e dos autores que sustentam teoricamente esta escrita) e fazendo-o aparecer em minha tese, como uma tentativa de mimetizar suas escritas — fazendo carne dessa escrita. Escrita em que as palavras constroem uma borda ou uma ponte no/do abismo que é a morte. Escrita entre o limiar da tese acadêmica e o limiar da criação, entre o limiar da teoria e o limiar do ensaio, entre o limiar dos diários de Lúcio Cardoso e o limiar de meu próprio diário (diário de quem aqui narra), no limiar da mão que escreve e a mão que é escrita, no espaço mínimo entre a palavra e ela própria, entre a palavra vivendo e a palavra morrendo — a palavra agonizante de Lúcio Cardoso. Enceno quatro momentos, fazendo, inclusive, uma analogia ao quarto nó borromeano (na escrita topológica da nodalidade, no nó borromeano, Lacan inclui o quarto elo: o Sinthome. O Sinthome é o que permite ao Real, ao Simbólico e ao Imaginário ficarem juntos, onde se localiza o sinthoma-metáfora). 1. O da minha escrita. 2. O das citações destacadas permeando minha escrita. 3. As notas de rodapé onde estão colocadas as fontes das citações e aquilo que sustenta alguns conceitos específicos da psicanálise bem como o que salta do texto e se refugia em outro espaço. 4. Os fragmentos de Meus Cadernos e as imagens. Saliento que o subtítulo, Diários com Lúcio Cardoso, pode ser pensado em dois ângulos, um é o livro Diários, organizado por Ésio de Macedo, que contém todos os diários de Lúcio Cardoso escritos entre 1942 a 1957, e outro é a questão relacionada às escritas em diários.
‘O corpo é a casa da alma!’. Sim, disso já sabia há
tempos. Porém, naquele instante, parecia como se
fosse da primeira vez – o tempo do ontem se fazendo
hoje. Seria o sangue negro da tinta tipográfica na
página branca revisitando antigas cicatrizes e
fazendo (re)viver a intensa dor? [...] Sentia uma
lentidão nos braços, um certo ‘torpor’ nos lábios e
um cansaço e fraqueza se faziam presentes. Dia
após dia, os olhos embaçados e o peso do corpo
embaralhavam os pés e a queda ce-deu machucando
a face [...]. Acostumada aos lapsos e aos chistes, não
percebia que a memória também falhava; a palavra
se fazia presente na imagem, porém a voz não se
pronunciava. Depois de idas e vindas, o diagnóstico:
uma miopatia inflamatória afetando todos músculos
do corpo, uma doença autoimune se manifestando a
partir de traumas [...]. Foi preciso, então, o corte,
a ruptura do contínuo — um parêntese, uma lacuna
no tempo, não somente em um tempo cronológico, mas
no tempo das intensidades, ‘o tempo para falar e
o tempo de escutar, o tempo que mede o desvio das
memórias’. O repouso, o cuidado, para só então o
Sprung Benjaminiano, o ‘salto de tigre’, ou ‘salto
Blanchotiano’ do Ser que questiona, para só então,
em uma outra posição, retomar. Porém, as suturas, as
marcas in-corpo-radas, são reconhecidas e
fazem-se escrita.
córregos, vi nascer gente e nome em Minas, na época
em que as coisas contam. O que amo em Minas é sua
força bruta, seu poder de legenda, de terras lavradas
pela aventura que, sem me destruir, incessantemente me
alimenta. O que amo em Minas são os pedaços que me
faltam, e que, não podendo ser recuperados, ardem no
seu vazio, à espera de que eu me faça inteiro – coisa que
só a morte fará possível.
2As palavras me habitam. Sou feita de palavras. Às vezes por palavras inteiras,
outras por pequenos pedaços. Em meu todo estão os textos, aqueles que li,
escrevi
3e os que ainda estão por vir, talvez estes sejam os mais presentes, os
que me instigam, me sopram e me sustentam, avisada, porém, que “a palavra
é desde sempre insuficiente para abarcar a vida,”
4mas é justamente nesta
insuficiência que se aloja a possibilidade de seguir — seguir palavreando.
2 CARDOSO, Lúcio. Diários. Editado por Ésio Macedo Ribeiro. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2012, p. 504.
3 Trata-se de minhas anotações; escritas feitas ao longo do tempo (desde que aprendi a escrever)
naquilo que intitulei Meus Cadernos. São cadernos feitos por mim, com folhas sem pauta e capas elaboradas, normalmente com fotografias-imagens que dizem da minha história. Neles vou anotando acontecimentos, sentimentos, interrogações, dores e amores. Durante o doutorado, escrevi neles o per-curso, desde as aulas, orientações, palavras que pulsam, sonhos com a tese, divagações, sugestões bibliográficas, angústias, e até pequenos desvios que considero “sustentações transferenciais”, ou mesmo “alimentação do desejo” — desejo de escrita.
4 BRUM, Eliane. Meus desacontecimentos: a história da minha vida com as palavras. São
Paulo: LeYa, 2014, p. 82. Lúcio Cardoso, em seus diários, se pergunta: “De que adoecemos nós, todos que estamos doentes?” E responde: “De impaciência de viver”. E eu saliento: as palavras são insuficientes para abarcar a vida. E, quando a vida se coloca no limite, o corpo se faz palavra (sintoma). CARDOSO, Lúcio. Op. cit., p. 510.
Um recorte. Foi preciso buscar na escrita de Lúcio Cardoso
5pilares para o
meu texto. Pilares que fundam, que sustentam, no emaranhado das palavras, o
desenho conceitual e arquitetônico na construção de uma obra. E, semelhante a
um arquiteto, vislumbro um desenho onde as primeiras vigas se fazem como o
esqueleto de uma morada
6. Porém, é preciso, antes de seguir adiante, que eu “me
demore” um pouco mais. Sim, é preciso que certo contorno se faça para que o
peso da obra, ou do próprio obrar, se transforme em palavras, pois é justamente
disso que se trata: de letras que postas ordenadamente na pauta-linha possam,
deslocadas, formar uma melodia — um texto com suas des-continuidades.
Na infância, as palavras despertavam em mim o sabor
7pela pronúncia.
Lembro que ainda menina brincava de nomear as coisas, degustando cada
sílaba e traçando na terra as letras,
8semelhante ao arado que, com a pá, lavra,
5 Lúcio Cardoso é autor do livro Diários que tomei como objeto para minha tese. Trata-se dos
diários escritos por ele, dos 30 aos 50 anos de idade (1942-1962). CARDOSO, Lúcio. Diários. Editado por Ésio Macedo Ribeiro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.
6 Morada: faço aqui uma alusão ao livro “Morada: Maurice Blanchot”, um dos mais belos
escritos de Jacques Derrida. Logo, em seu início, Derrida fala do título do livro, Demeure, salientando as voltas que foi preciso para colocar este nome, nomear — fazendo uma relação entre ficção e verdade autobiográfica, entre a literatura e a morte. É por esse caminho que ele envereda, escrevendo sobre a “impossibilidade de decidir, mas também a impossibilidade de
permanecer [demeurer] no indecidível”. Este nome que “Oculta nas sombras dessas sílabas,
mora [demeure] — a gramática obscura de tantas frases”. DERRIDA, Jacques. Morada,
Maurice Blanchot. Tradução de Silvana Rodrigues Lopes. Rio de Janeiro: Edições Vendaval,
2004, p. 9-10.
7 Desde Freud, a infância é o lugar por excelência das marcas na memória e, neste período, o apreender ainda está muito preso ao corpo como experimentações, como sensações eróticas (toda curiosidade é de fundo sexual). Neste sentido, lembro Roland Barthes quando fala em saber-sabor, renunciando a uma leitura-escrita sistemática e reivindicando o prazer do texto em uma escritura incitadora das pulsões, dos fetiches. O leitor-escritor “adota uma linguagem de criança do peito”, são “movimentos de sucção sem objeto”, um vestuário que se entreabre mostrando e escondendo — um texto-corpo. BARTHES, Roland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 2006, p. 9.
Sabia que o caminho era longo e, por mais que o dia
estivesse começando, sentiu que aquele só não bastaria.
Ergueu os olhos, adiantando o olhar, para que este, ao
avistar ao longe, lançasse o desejo que lhe serviria como
guia. Primeiro revisou suas coisas, uma a uma, tentando
ver no conjunto o que poderia deixar, já que o peso lhe
fazia curvar os ombros. Apertou mais uma vez os cadarços,
pois sentir o contorno do pé lhe auxiliava na firmeza do
passo. Passo que, com o passar das horas, em ritmo de
batidas tambolares, compassava as mesmas batidas que lhe
faziam pulsar o sangue. Mesmo que seu olhar parecesse
adsorvido ao rumo, percebia tudo o que se encontrava
na volta, como se a vista re-avistasse os objetos, um a
um. E, numa leitura talmúdica, valorizava o que seu olhar
recortava. Dependendo a paisagem, sentimentos viscerais
lhe apoderavam, como criança que, adaptando o intestino ao
leite, se contorce em dores. Nada lhe passava em branco
e aquele caminho aos poucos se transformava em folha que
precisava ser grafada, cifrada. Folha que, ainda verde,
portava o sulco que lhe permitia a marca. De quando em
quando uma sombra. Por um momento lembrou o caminho de
Santiago, mesmo não sendo disto que se tratava: nem reza,
nem promessa. Mas restos, sem saber de onde vindos,
lhe tomavam as lembranças. O orvalho da noite, ainda
presente na relva, escorria com os primeiros raios de sol,
umedecendo a terra. Terra que regada exalava perfume,
e, então, passadas em forma de dança — acompanhando a
sinuosidade da trilha — assemelhavam-se a rituais, sugerindo
tempos de colheita. Porém, foi num só depois, quando o sol a
pino não fazia mais sombra e seu rosto já queimado portava
a cor da fruta madura, que percebeu que aquele caminho
era o mesmo e que estaria ali para sempre, para sempre
encarnado, encarnado em seu peito, em sua face, em suas
veias.
cortando o solo para torná-lo fértil. Somente hoje, com as marcas que o tempo
esculpiu em meu corpo e em minha alma, compreendo, junto com outras vozes,
que “a essência linguística do homem está no fato de ele nomear as coisas”.
9Se as montanhas que circundavam a terra onde nasci limitavam o que meus
olhos podiam ver, era além delas que pousava o olhar, lançando meu desejo. E
foi justamente isso que me levou a alcançar a outra margem do rio, remando,
às vezes, por águas desconhecidas, mas mantendo as mãos firmes no leme para
que o barco não ficasse à deriva, escriturando na silhueta das águas e deixando
restos na memória como diário de bordo que registra, em cada página, as
experiências da viagem. Agora, ao buscar estas escritas (escritos)
10, reconheço
a trajetória: os traços, as letras, as palavras — e por trás delas, os murmúrios,
os silêncios...
Mas, para colocar uma questão, uma ideia, mesmo que seja para o outro, é
necessário primeiro que se coloque ao sujeito. Pois, o que é uma ideia? A ideia
é “uma potência em alguma coisa ou sobre alguma coisa. É preciso ter uma
necessidade”.
11Sim é preciso ter uma necessidade mesmo que a princípio ela
se mostre ainda nebulosa, turva e que, no seu percurso de definição, passe por
9 BENJAMIM, Walter. Escritos sobre mito e linguagem. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34,
2011, p. 55.
10 Durante esta tese, nesse tempo que se fez (nesta morada), revisitei alguns escritos que fiz
(hábito que tenho desde muito pequena) e percebi o quanto as questões que me volto agora já estavam em mim.
11 DELEUZE, Gilles. O que é o ato de criação? Conferência proferida na fundação europeia de imagem e som em 17 de março de 1987. Disponível em: http://www.dailymotion.com/video/ x1dlfsr_gilles-deleuze-o-que-e-o-ato-de-criacao-egendas-em-portugues_creation. O itálico é meu. Saliento a palavra necessidade (desde o lugar da psicanálise): aquilo que se institui para o sujeito como uma demanda inconsciente, mais forte que o próprio sujeito e que, mesmo que ele não perceba esta necessidade, está atrelada ao desejo e se impõe.
inúmeras rasuras, recortes até grafar aquilo que pode alumiar os contornos e se
deixar ver-ler.
No início, eu havia nomeado minha tese de: “Escrita morte-vida em Lúcio
Cardoso”, porém, ao começar a escrever, ao materializar meus pensamentos,
minhas ideias em uma escrita, certo incômodo fazia ruído: como poderia eu
escrever sobre escrita morte-vida em Lúcio Cardoso? Como poderia eu saber
dos espinhos ou tentar preencher os vazios de que Lúcio comenta? E, semelhante
a um insight
12de análise, pude juntar minhas letras e fazer delas outra coisa:
quem sabe trabalhar os pedaços que me faltam ou afinar minha escuta
13do
vazio que arde em todo sujeito submetido na linguagem.
Então, outro nomear se fez: “Escrita, morte-vida: Diários com Lúcio Cardoso”
14,
podendo com este giro, na solidão que a escrita
15impõe, sentir-me acompanhada
12 Insight significa compreensão súbita de alguma coisa ou determinada situação, também
está relacionado com a capacidade de discernimento, pode ser descrito como uma espécie de epifania. Surgiu no inglês arcaico, é formada pelo prefixo in, que significa “em” ou “dentro” e a palavra sight que significa “vista”. Assim, insight pode significar “vista de dentro” ou ver com os olhos da alma ou da mente.
13 Ao falar de “escuta” faço referência a minha experiência de trabalho com a clínica
psicanalítica desde 1994.
14 “Com”: Ginette Michaud, na apresentação de Demanda, faz uma preciosa colocação em relação ao “com” (ao “cum” tantas vezes citado nas obras de Nancy), ele relembra o Mitsein e o Mitdasein heideggeriano, ou seja, o ser-em-comum, “esse co-existente, esse ‘com’ constitutivo do existente”, entendido de maneira existencial. “O que significa que não se deve tomá-los como uma simples determinação extrínseca, mas como uma condição intrínseca da possibilidade mesma da ek-sitência, isto é, nada menos do que pôr em jogo o próprio sentido do ser ou o sentido de ser”. Uma “co-presença de todos os entes” se configurando indefinidamente. NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura e filosofia. Florianópolis: Ed. UFSC, 2016, p. 16.
15 Nesta tese, aparece em diferentes momentos a palavra “escrita”, como também, “escrito”
e “escritura”. Gostaria de fazer aqui uma demorada discussão sobre isso, o que fiz, de certa forma, em minha dissertação de mestrado (mas então se trataria de outra tese). Porém, considero importante salientar desde que lugar eu as situo. Estas palavras tiveram, ao longo dos últimos
das escritas de Lúcio, tê-las como companheiras de empreitada para
ancorar-me quando necessário, para, nas sombras das letras de Lúcio, ganhar fôlego e
seguir o meu próprio trabalho: escrever com Lúcio Cardoso, não para esclarecer
sua escrita, mas, através do amor em comum (esse que eu busco!) pela escrita,
abrir caminhos nela e, nos ecos de sua voz (junto com outras vozes), poder
construir a minha própria voz, porque é disso que somos feitos, de outras vozes
que (re)soam dentro de nós — as palavras de Lúcio Cardoso ressoam em mim.
O nome é em si mesmo, de início, uma marca sem-nome e é preciso fazer-lhe
dizer, (de)morar no nome para que se nomeie, pois o “nome e a coisa nomeada,
permanecem, tanto quanto paixões, enigmas sem fundo”.
16Porém, ao
fazê-lo trabalhar, vai-se revelando a “filiação do nome, exporta-se e abastarda-se
anos — de uma geração —, modificações de sentido, especialmente a partir de Roland Barthes e Derrida, em função da tradução da palavra (ou do termo) écriture. Nesta tese, “escrita” está do lado daquilo que se escreve e “escrito” e “escritura” mais do lado do “efeito do ato de escrever” — aquilo que faz sentir. Jean-Luc Nancy diz que escrita “não é senão a forma em que se exemplifica se amplificando — pela inscrição material onde se retém e se expõe o movimento — o percurso do proferimento e pro-dução, a facilitação do sentido rumo a sua escapada. Na escrita se inscreve concretamente, com essa escapada infinita, a dissociação do sujeito da fala [parole]”. NANCY, Jean-Luc. Demanda. Florianópolis: Editora UFSC; Chapecó: Argos, 2016, p. 68-69. “O termo facilitação aparece muito cedo em Freud na descrição do aparelho neurológico humano, descrevendo a operação por meio da qual uma excitação abre passagem de um neurônio ao outro vencendo uma certa resistência” (N.T.). Saliento também que “escritura” designa a voz do sujeito; onde o sujeito se manifesta. Lembro o que Blanchot escreve no texto A palavra ascendente quando se refere a Mallarmé, “só o poeta pode falar” ou a Valéry, “O verdadeiro escritor é um homem que não encontra suas palavras, e por isso ele as
busca”, e, então, se refere sobre seu engajamento em relação à poesia e à escrita, e diz: “Não só em espirito, mas em minha vida — escritura — espirito”. BLANCHOT, Maurice. Cartas a Vadin Kozovoi. Tradução de Amanda Mendes Casal e Eclair Antonio Almeida Filho. São Paulo:
Lumme Editor, 2012, p. 321.
16 DERRIDA, Jacques. Morada, Maurice Blanchot. Tradução de Silvana Rodrigues Lopes.
Rio de Janeiro: Edições Vendaval, 2004, p. 13. Derrida, falando da Literatura, diz: “O nome e a coisa nomeada, ‘literatura’, permanecem para mim até hoje, tanto quanto paixões, enigmas sem fundo”.
Restos arqueológicos, cinzas de antigos
incêndios, brasas que, ao soprar da escrita,
ardem com desejo de labaredas — de vida.
Vida se fazendo no entremear da leitura e
escrita lembrando a negra rendeira morta
de Avalovara, percorrendo as ruas de São
Paulo a caminho do cemitério como a tinta
percorre o papel. Mas a palavra não é
senão resto, resto de tinta que enegrece a
página, resto de sentimento para se calar
nela ao contar-se e que renasce no leitor
quando a lê, fazendo-o lembrar de sua
própria experiência.
para além dos confins e das afinidades mas sempre nas vizinhanças das
fronteiras”
17naquilo que ficou dos idiomas maternos ou paternos ou mesmo
na hospitalidade de outras línguas. Mas como, a partir do nome, construir uma
narrativa em se tratando de escrita? Em se sabendo da solidão e do abandono
que impera naquele que escreve e que não há outro jeito a não ser fielmente
seguir adiante?
Sim, fui meu pai e fui meu filho, fiz perguntas a mim mesmo
e respondi o melhor que pude, me fiz contar a mim mesmo,
noite após noite, a mesma história, que eu sabia de cor sem
poder acreditar nela, ou andávamos, de mãos dadas, calados,
mergulhados em nossos mundos, cada um em seus mundos,
com as mãos esquecidas, uma na outra. [...] E esta noite de
novo parece que tudo vai indo bem, estou em meus braços,
me seguro em meus braços, sem muita ternura, mas fielmente,
fielmente. Durmamos, como se à luz daquele remoto lampião,
entrelaçados, de tanto ter falado, tanto escutado, tanto penado,
tanto brincado.
18Viragens internas, restos arqueológicos de um lugar já habitado, escreve-se e
reescreve-se na folha branca para chamuscar, enegrecer a superfície na tentativa
de mascarar o vazio imposto pelo branco. O traço pede, busca uma surpresa,
uma novidade para “fazer nascer” no mais profundo da intimidade entre a folha
e a mão que escreve, entre a mão que escreve e é escrita. Mas o poeta sabe que
17 DERRIDA, Jacques. Morada, Maurice Blanchot. Tradução de Silvana Rodrigues Lopes. Rio
de Janeiro: Edições Vendaval, 2004, p. 14.
18 BECKETT, Samuel. Textos para nada. Tradução Eloísa Araujo Ribeiro, São Paulo: Cosac
a escrita é da ordem do imperativo e que marca com sons, com rumores, com
palavras que acossam a memória.
B: Mas por que você escreve?
A: Eu não sou daqueles que pensam tendo na mão a pena
molhada; tampouco daqueles que diante do tinteiro aberto
se abandonam a suas paixões, sentados na cadeira e olhando
fixamente para o papel. Eu me irrito ou me envergonho do ato
de escrever; escrever é para mim uma necessidade imperiosa –
falar disso, mesmo por imagens, é algo que me desgosta.
B: Mas por que você escreve então?
A: Cá entre nós, meu caro, eu não descobri ainda outra
maneira de me livrar de meus pensamentos.
B: E por que você quer se livrar deles?
A: Por que eu quero? E eu quero? Eu preciso.
B: Basta! Basta!
19Sim, o poeta-mestre sabe. Porém, desde o lugar de aprendiz, percebo o quanto
se faz necessário o tempo para decantação, mas, este tempo
20(essa “de-mora”
19 NIETZSCHE, Friedrich. A gaia ciência. Tradução Paulo César de Souza. São Paulo:
Companhia das Letras, 2001, p. 119.
20 Lacan, em seu texto O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada, escreve, a partir de um sofisma, sobre a “imprevisibilidade” do tempo quando o que está em jogo é o tempo subjetivo — do sujeito do inconsciente. Ele coloca o tempo em três momentos: “instante de ver”, o “tempo de compreender” e o “momento de concluir”. O primeiro, “o instante de ver”, dominado pelo olhar e pela presença de um referente, é o momento de fulguração, em que o tempo é igual a zero. Esse tempo não é suficiente para se resolver a situação desconhecida; torna-se necessário um tempo para compreender. Esse segundo tempo exige a espera; supõe a duração de um tempo de meditação, de imersão. A espera, nesse segundo tempo, se interrompe com a emergência precipitadora do ato, que é o terceiro tempo. “O momento de concluir”, como Lacan chama o terceiro tempo, exige a urgência, levando o sujeito a agir. LACAN, J. O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. Escritos. Rio de Janeiro, RJ: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 197-213.
Espera. Ansiosa ela espera. As horas passam lentamente.
Os olhos faíscam, vibram de um lado para outro. De quando
em quando, como que por chispas, percebe um vulto e, por
instantes, seu coração palpita, mas, logo em seguida, percebe,
como quem pena no deserto: a miragem — o desejo se faz
ver. E, então, retorna a espera. Senta-se cansada onde o
corpo se dissipa e o pensamento se esvai. Tenta, em vão,
compreender sua posição. Neste instante, os olhos já não
mais resistem à umidade e o rosto banha-se alterando o seu
semblante. As lembranças vão e- vem como um pêndulo que a
cada volta deixa fragmentos de memória. Sente-se embalada
como os tempos de menina, porém o embalo não a adormece,
mas tonteia e, tudo gira. Novamente o mundo falta-lhe aos
pés e, como que num impulso ou sobressalto, busca novamente
um chão onde calcar o peso. As horas, os minutos, os dias se
confundem, como séculos que se somam compassados. O marulho
lhe lembra outro sentar. Sente como quem estivesse em um
cargueiro onde a língua tropeça no escuro e a esperança
ainda lhe toma o corpo e o pensar: novamente o desejo se
faz ver e as apostas de verdade se sobrepõem uma após
outra e, como quem tivesse o dom, vê o mundo num depois.
Sabe, porém, a diferença e outra vez retoma o seu lugar.
Sente, agora, o pousar do corpo na cadeira de descanso e os
olhos, por entre as brumas, veem o amanhecer. Percebe que
aquele instante, onde o tempo assemelha-se à eternidade,
lhe auxilia a juntar retalhos. Porém, as linhas enodadas
dificultam a ensambladura. Centra-se retomando o ponto e
o desenho se faz ver na peça inteira e, como quem se
rende às evidências, respira fundo buscando o ar que lhe
dá a vida...
entre a morte e a vida da palavra) não se marca, foi preciso permanecer imersa
na escuridão e no limbo para só então vislumbrar, de quando em quando, um
lampejo e perceber o solo fértil — um solo de conteúdos.
Em alguns momentos, há, em meu texto, um caráter de transgressão (também
observado nos textos de Lúcio Cardoso) e, em outros, uma aparente oposição
conceitual, porém, alerto que existe uma cumplicidade na oposição (um certo
flerte) e, se transgrido, é na tentativa de migrar neste solo, entre os conceitos,
entre os autores, revestindo-os de outro sentido, sempre na tentativa de uma
“mostração” pela escrita. Os autores que sustentam meus escritos, fazem fundo,
dão o tom, “abrem, fecham e arrastam” essa tese que escrevo — essa tese
praticamente impossível.
21Tendo o possível dentro do impossível, partilho das
vozes, (uma partilha sempre em transformação) compondo — com-pondo —
com Lúcio, no dia-a-dia, dois diários: o dele e o meu. A escrita, neste sentido,
convoca e
o próprio mundo vem nela para formar-se nela: forma formans,
formação infinita de cores, de pinceladas, de vibrações, de
densidades, de torneios, nuances, tons, reflexos, brilhos,
sombras [...] obras-mundos [...] apanhar ali – saudar ali –
a vinda de um mundo em processo de nascer em uma forma
21 Faço uma alusão ao que Jean-Luc Nancy escreve em “As razões do escrever”. Ele, por sua
vez, faz alusão a Derrida. Fiz questão de deixar o que Nancy coloca e não Derrida, para mostrar as “camadas” de uma escrita — uma escrita palimpsesto ou um feltro deleuziano. NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura e filosofia. Florianópolis: Ed. UFSC, 2016, p. 39.
O escuro da noite se fazia há tempo e
a direção da estrada era acompanhada
somente por aquilo que estava na
lembrança. Os passos, com-passados, já
sabiam desviar as pedras que apareciam
pelo caminho, os pés com alpargatas
sentiam a terra batida pelo andar de
quem passava [...]. O vento soprava em
sua face e, mesmo com as mãos dormentes
pelo frio do inverno que denunciava o mês
de junho, segurava firme o que para si
parecia precioso: cadernos... Olhou para o
céu cheio de estrelas e lembrou dos
vaga-lumes sentindo saudades, pois sabia que
este não era ainda o tempo de buscar
amor. Foi então que, ao fazer a curva,
percebeu pontos de luz que lumiavam ao
longe. Esfregou os olhos embaçados pelo
sono e, ao abri-los, a escuridão igualmente
estava lá.
ainda não dada, não ainda fixada: uma forma que joga de
novo e relança o ex nihilo que é [a] partilha do mundo.
22Uma escrita-tese continuamente em processo (e haveria outra forma?), entrar
nos textos, esburacar até deixá-los “ocos” — caminhos-ruinas —, “fazê-la
causa de si”.
23Uma causa que necessita, de quando-em-quando, erguer os
olhos, caminhar, pois,
são as caminhadas que trazem as palavras até você, que lhe
permitem ouvir os ritmos das palavras à medida que as vai
escrevendo mentalmente. Um pé para frente, depois o outro, a
batida dupla do coração. Dois olhos, dois ouvidos, dois braços,
duas pernas, dois pés. Isso, depois aquilo. Aquilo, depois isso.
A escrita começa no corpo, é a música do corpo, e ainda que
as palavras tenham sentido, a música das palavras é onde os
sentidos começam.
2422 Aqui lembro o que Nancy escreve sobre o mundo ser um mundo de relatos de recitações — relatos mitos. NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura e filosofia. Florianópolis: Ed. UFSC, 2016, p. 20.
23 MILNER, Jean-Claude. O amor da língua. Tradução Paulo Sérgio de Souza Júnior. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2012, p. 7. Lembro que “causa” é um substantivo feminino, do latim
causa, -ae, causa, razão. Agente eficaz que dá existência ao que não existia. Fonte, motivo. O
que antecede um fenômeno. Fato ou acontecimento. Ação ou processo. Em causa: Que está em análise ou em discussão. Risco, perigo. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. priberam.pt/ [consultado em 16-08-2016].
24 AUSTER, Paul. Diário de inverno. Tradução de Paulo Henriques Brito. São Paulo: companhia das Letras, 2014, p. 203. Essa citação remete também a Avalovara onde Abel, o escritor, e a mulher sem nome encontram-se num ato sexual/textual, de qualquer modo, físico: “Cada vez, Abel, que me beijas os joelhos, duas vezes o fazes. Serás capaz de ver as letras, as palavras que, em certas horas, vejo ainda rastejarem sobre a minha pele e que, decerto, nunca silenciam? Ouço-as, multidão agrupada numa praça, não como se eu na praça estivesse, e sim,
Sim, a escrita começa no corpo. Um dentro e um fora que, marcados por
significantes, são contornados formando um contínuum. Um escrito, excrito,
ex-crito “em que se houve ainda um
ex-grito”,
25o grito daquele que uma
vez inscrito na linguagem
26, segue (per-segue) incessantemente esta escrita
inaugural, este traço primeiro perdido para sempre. Mas, ainda assim, mesmo
que errante, é necessário caminhar, deixar que os passos façam o caminho e que
o gesto do dedilhar marque a folha, ainda que deste escrito não se saiba, pois
como se fosse a praça, o murmúrio das palavras ecoa em minhas coxas, nos meus peitos, no ventre, flui e reflui, continuado, não sei se alegre, não sei se feroz, flui como se os limites do meu corpo fossem os limites da praça, e meus ombros e axilas fossem abóbodas onde chegassem os últimos ecos das vozes, e os meus braços — que estendo — fossem extensões da praça, avenidas também cheias de vozes.” LINS, Osman. Avalovara. Apresentação de Antonio Cândido, São Paulo: Melhoramentos, 1975, p. 34.
25 NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura e filosofia. Florianópolis: Ed. UFSC, 2016, p
33. Jacques Lacan também trabalhou sobre o “ex”, o ex-sistir, ex-sistência, entendida como algo que se sustenta topologicamente, do que está fora, do que possui uma propriedade de exterioridade íntima (ex-timité), que habita o seio do simbólico apesar de lhe ser exterior — ex do latim fora de; sistere, se sustentar.
26 Cabe salientar que, para a psicanálise, o sujeito é constituído pelo Outro. “É na criança, na
‘primeira carne’ que é escrito o desejo materno, já constituído na mãe, cujas primeiras letras ela desenha no corpo do filho. Estas letras marcam o desejo desse Outro – desejo de vida, de morte, traços que acompanham o sujeito numa determinada posição subjetiva. É por meio da mãe, desse Outro materno, que a inscrição se faz, seja pela voz (no traço contido no tempo silencioso da sílaba, em seus ruídos, em seus sons ou em seus gritos), seja pelo toque (em que a mãe acentua seu desejo, marcando, com linhas diferenciais, as bordas que contornam o vazio; vazio este que, ao ser contornado, transforma-se em espaço pulsante de demanda), seja no olhar (no instante em que ele pousa naquela ‘primeira carne’ e ali pressupõe, inventa, cria um suposto sujeito de seu desejo). O corpo, essa ‘primeira carne’, é então entremeado por escritas, tecido pelas marcas desse Outro. Esse corpo real é bordado com significantes, corpo que se produz em furos, crateras, espaços vazios, ‘borda orificial através da qual se produz toda e qualquer troca com o Outro’. Esses ‘furos’, que servem então de laços do corpo – aberto para o exterior – são utilizados como janelas, como ‘leitura da letra’, dessas letras que lhe são impressas, sulcadas, desses sulcos que dizem do inconsciente. Pode-se pensar, então, nesse instante em que as marcas do desejo são sulcadas na ‘carne’, onde o Outro faz linguagem e da linguagem faz-se outro. Onde as letras registram, escrevem e inscrevem o sujeito do inconsciente – inconsciente constituído como linguagem.” In: BERGAMASCHI, Rosi Isabel. Escrita: Morte-origem em
psicanálise. 2006. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Programa de Pós-graduação em
Ficou pensando sobre computador... Muitas coisas vieram
à sua mente... Primeiro teve a certeza de que não
era de máquina que se tratava, embora, em muitos
momentos, insistia que assim fosse. Computador,
com-puta-dor, computa-dor. Duas coisas logo lhe saltaram
aos ouvidos: ‘com’ e ‘dor’. Porém, era da falta que
sentia, seria, então do ‘puta’ que se tratava? Logo
ficou enrubescida, mas repeliu porque ‘putta’, do
latim, quer dizer menina e, com menina, até se
identificava...Voltou ao computador. Sim literalmente
voltou-se ao teclado. Teclava insistindo com força,
tentando espremer dele algo que explicasse...
Pensou no ‘com’, esta partícula usada em português
que auxilia na formação de locuções prepositivas,
sobretudo antecedendo verbos no infinitivo, indicando
companhia... Pensou também na ‘dor’ e esta sentia
na carne. Mas ‘computador’ continuava insistindo,
latejando em seu ouvido esquerdo, insistia, arranhava
como corda de violão tentando buscar afino. Quando,
já cansada, buscou auxílio encontrou: “Aquele que faz
cômputos, que calcula; cérebro eletrônico; máquina
capaz de receber, armazenar e enviar dados... com
o objetivo de resolver problemas...” Foi então que,
pela primeira vez, brigou com Aurélio. Sim porque até
aquele instante computador era o problema e não a
resolução dele. Algo mancava, faltava à sua mente
que pudesse dar conta da pergunta que insistia...
Computador? Sim: com puta dor.
A escrita é o desconhecido. Antes de escrever nada se sabe do
que se vai escrever. E em total lucidez. É o desconhecido de
si mesmo, de sua cabeça, de seu corpo. Escrever não é sequer
uma reflexão, é um tipo de faculdade que se possui ao lado da
personalidade, paralelo a ela, uma outra pessoa que aparece e
avança, invisível, dotada de pensamento, de cólera, e que por
vezes acaba colocando a si mesma em risco de perder a vida.
27Aqui lembro o que Derrida pontua: “só somos escritos escrevendo”
28. Este
duplo ato de escrever: escreve-se e inscreve-se. Marca-se e se é marcado,
pois “escrevo me afetando no próprio processo de escrever”
29, e esta afetação
muda-nos. “Não escrevemos segundo o que somos; somos segundo o que
escrevemos”
30. E, se somos segundo o que escrevemos, este ser escrevente fica
nos entremeios, nos espaços que pausam uma palavra da outra, fica na palavra
que nos fisga, fica no ritmo pulsante do acento nas palavras. E mesmo que
tentemos, com esforço, dominar a escrita,
nem sempre se pode levar a cabo as intenções racionais.
Frequentemente no próprio material existe algo que toma
conta de nós e nos devia de nossas intenções iniciais. Mesmo
uma realização banal como a organização de determinada
27 DURAS, Margarite. Escrever. Tradução de Rubens Figueiredo. Rio de Janeiro: Rocco, 1994,
p. 47-48.
28 DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. Trad. Maria Beatriz Marques Nizza da Silva. São Paulo: Perspectiva, 2005, p. 222.
29 BARTHES, Roland. A Preparação do Romance II – A obra como vontade. Trad. Leyla
Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 47.
30 BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco,
Conversávamos eu e ele, desta feita, outro tipo de
conversa. Eu ainda um pouco debilitada pelos ares
de meu reino e pelas atribulações de rainha. Ele,
porém, trazendo sob sua coroa a energia do brasão
de dois reinados — isso talvez o tenha feito sustentar
o mando. A conversa, entremeada com silêncios,
deixava ver com que cores o contorno se fazia.
Perguntei sobre o mando e ele docemente respondeu:
é assim, e p(r)onto. Por vezes as palavras alteravam
seu semblante dobrando os lábios e silenciando aquilo
que abrolhava dano. Então, percebendo o efeito que
causava a imagem, retomou o mando e, postando-se
com corpo mais ereto, outra vez falou e, num tom em
que a voz realmente se fazia ouvir, arriscou uma
conversa — conversava para si. Eu, no entanto, ainda
temerosa, pois a fragilidade era notória, coloquei-me
mais na escuta esperando que ele se manifestasse,
mas o silêncio gritava ainda mais forte e seus olhos
perdiam-se em lugar nenhum. Novamente desviei,
desta feita inclinando a cabeça, pois não há olhos que
suportem o olhar do nada. Percebi que os pássaros
calam-se, as árvores, em respeito, fixaram-se no
instante e então pude pensar: como fazer para não
tornar meu o que não me pertence?...Sabia, desde
o início, que a infância distância não era minha e
que aquela dor havia-se feito em outra língua. Porém
por mais que meu esforço caminhasse nesta ordem,
o coração tremia e o medo se fazia sentir. Era
estranho, pensava eu: um, balbuciando “careço dengo”
e, outro, “eu só preciso ficar quietinho”. Matutei: como
conciliar Dois Ditos em um só mandato? Foi então que a
palavra “fioleta” como que num relâmpago rompeu-se
por si só e eu pude pensar no abandono. Mas, como
outrora já fora pronunciado: só se pode abandonar
uma criança — e eu me sabia adulta.
quantidade de material não depende inteiramente da escola
do autor; as coisas podem tomar o rumo que lhes apraz, e
tudo quanto se pode fazer é perguntar-se, após os fatos, porque
estes se passaram desta e não daquela maneira.
31No entanto, se esta forma, se este ser-sendo, se colocar
perto demais, dificultando
ou facilitando, saliento
que “é à distância de mim mesmo a que devo
arriscar-me aqui”
32, já que este ser-sendo está entremeado aos olhos no singir da tela, a
boca que sussurra as palavras escritas no intuito de encontrar o melhor tom, aos
dedos que se alternam e que, numa alegria trêmula, seguem.
É o corpo em seu todo (re)fazendo a língua-linguagem, semelhante ao poeta
que
“amava os livros, suas linhas seguidas com o dedo, suas páginas viradas
com lentidão para acompanhar sem ruptura a passagem de uma palavra a outra
entre a frente e o verso, as duas faces da mesma finura”
33, e, se algo se interpõe
neste trajeto, são as folhas sobrepostas, amontoadas “entre ele e o mundo, entre
ele e a coisa em si, entre ele e o ato”.
34Ato que não é pré-estabelecido, com
objetivos determinados a acontecer “ele é, ao contrário, o que não acontecendo,
abre a possibilidade de todo acontecer”,
35um ato potência em que o caminho
31 FREUD, Sigmund. Conferência XXIV [1917]. In: Conferências introdutórias sobre Psicanálise. Vol. XVI. Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996, p 380.
32 LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 10: A angústia. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 17. 33 NANCY, Jean-Luc. Demanda: literatura e filosofia. Florianópolis: Ed. UFSC, 2016, p. 328. 34 Ibidem.
Como um hiato na respiração: diário do dia seguinte
se abre no próprio caminhar e em que o pensamento e a vida mesma se juntam
ao ato (aqui, a este ato de escrita). Um ato que tem
errância e método, método de errância, errância metódica,
caminho que não é traçado, mas que é o próprio rastro de um
passo que vai avançando, que vai passando, que apenas vai
despertando para si mesmo a possibilidade de uma direção, de
um destino, de um desejo. Apenas fazendo conhecer seu desejo,
que ele mesmo se inventa a cada passo, sendo, no entanto,
apenas o desejo do próprio passo.
36Se Nancy aponta a errância como “possibilidade do passo”, Blanchot lembra
Artaud “que faz estilhaçar a linguagem silábica pelo espasmo, pela arritimia, pela
pulsação sem medida, o caminho subitamente aberto rumo a forma inatingida,
expulsão e retenção do vazio”,
37ou ainda, quando nos lembra Rimbaud: a
escrita escapando, “seus livros apodrecem no porão. Ele os esquece, ele se
aquece, ele se vai.”
38Rebotalhos de um discurso formal, a escrita produzindo sensações como o
badalar de um sino que pode ser de um “
suplício atroz, mas se pode também
compreendê-lo como anúncio de toda língua, como o chamado de toda
língua e a toda nominação — ou seja, ao desejo de abraço, a esse desejo
exasperado de ser enlaçado às coisas por seus nomes”.
39O badalar do sino —
36 Ibidem, p. 359.
37 BLANCHOT, Maurice. Cartas a Vadin Kozovoi. Tradução de Amanda Mendes Casal e
Eclair Antonio Almeida filho. São Paulo: Lumme Editor, 2012, p. 328.
38 BLANCHOT, Maurice. Cartas a Vadin Kozovoi. Tradução de Amanda Mendes Casal e
Eclair Antonio Almeida filho. São Paulo: Lumme Editor, 2012, p.331.
Seu Anjo está de frente, com
a cabeça levemente voltada
para trás. Os olhos abertos,
os lábios entre-costados e
as orelhas bem atentas. O
vento sopra levemente nas
vestes contornando o corpo.
Está firme, não tem mais
asas. O anjo desta história
tem este aspecto pois, se
se volta ao passado é para
iluminar o presente. As
ruínas que vê são potências.
Já não deseja acordar os
mortos.
o sino fala! — o “sino chama à palavra [...] e às preces da palavra que apazigua”.
40Mas, mesmo com apaziguamento (e talvez por isso), se faz imprescindível
lembrar-falar de Walter Benjamin, de seu Anjo com olhos esbugalhados, a
boca escancarada e as asas-orelhas seguradas pelo vento a escutar.
41Se faz
imprescindível lembrar-falar de Benjamim, mesmo por fragmentos, pois
seu olhar sobre as coisas, sobre o mundo é, também, “fragmentário, não por
renunciar à totalidade, mas por procurá-la nos detalhes quase invisíveis”
42.
E, se já não bastasse, se faz imprescindível lembrar-falar de suas citações, pois
ele as incorpora ao seu ‘método’ de escritura
corta-as e as repete, olha-as a partir de lados diferentes,
copia-as váricopia-as vezes, parafrcopia-aseia-copia-as e copia-as comenta, adapta-se a elcopia-as,
segue-as como quem segue a verdade de um texto literário;
esquece-as e volta a copiá-las. Faz com que restituam um
40 Ibidem, p 330.
41 BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Tradução de João Barrento. Belo Horizonte:
Autêntica Editora, 2013. “Há um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter este aspecto. Voltou o rosto para o passado. A cadeia de fatos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir de seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Esse vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até ao céu. Aquilo a que chamamos progresso é este vendaval”. Benjamin se utiliza desta imagem para falar sobre alguns de seus conceitos, em especial de “história”.
42 SARLO, Beatriz. Sete ensaios sobre Walter Benjamin e um lampejo. Tradução de Joana
sentido, intimando-as. Repete citações às vezes precedida de
um comentário curto, outras vezes as incorpora a um texto mais
extenso no qual ela já adquiriram o ar da prosa benjaminiana,
transformando-se até parecer que Benjamin as teria escrito, e
não copiado.
43Benjamin sabe da força de suas citações, ele mesmo diz: “As citações, no meu
trabalho, são como ladrões à beira da estrada, que irrompem armados e arrebatam
o consciente do ocioso viajante”.
44Ele fez da arte de citar “uma das mais altas
formas de escritura”
45, copiava em seus cadernos a próprio punho. Gostava de
sentir o traçado de cada letra, de cada palavra, para depois, embaralhá-las ao
seu texto, fazendo-as suas.
Ninguém soube, como Benjamin, encontrar a citação; ninguém
aprendeu, tanto quanto ele, a dispô-la no texto: fazê-la entrar
brutalmente, sem que nada anunciasse, ou, pelo contrário,
dilatar a espera por uma citação até que se abrisse o vazio
justo; ninguém como Benjamin conheceu a arte da repetição
da citação, da repetição do próprio texto como citação oculta,
que produz em seus leitores uma sensação de reconhecimento
que se esquiva, de estranha duplicação nunca totalmente
idêntica.
4643 Ibidem, p.36-37. Saliento que citar, citare, é pôr em movimento, fazer vir a si; Ex-citare é
despertar; sus-citare, fazer-se levantar. A citação excita, suscita e incita um dizer.
44 BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. Obras escolhidas. Vol. II. São Paulo: Editora
Brasiliense, 6ª reimpressão, 2011.
45 SARLO, Beatriz. Op. cit., p. 25.
46 SARLO, Beatriz. Sete ensaios sobre Walter Benjamin e um lampejo. Tradução de Joana
E, é para elas, também, que “volto meu rosto” (minha escuta) para poder escrever.
É, para uma transferência amorosa (identificatória, transferencial, talvez), que
me debruço. É, nesta escritura benjaminiana, freudiana, blanchotiana, que me
encontro
47, atravessada pelos diários de Lúcio, pois não há outra forma quando
Literatura e Psicanálise transitam, ambas se interrogando e estabelecendo
vínculos que podem iluminar o texto, ou, em outros momentos, se distanciando,
ficando na sombra, justamente para colocar em evidência aquilo que é específico
de cada escritura.
E, ainda sobre a pesquisa, Freud nos ajuda:
“...a tarefa consiste em descobrir, por trás das características
(qualidades) do objeto de investigação fornecidas diretamente
à nossa percepção, algo que seja mais independente da
capacidade receptiva particular de nossos órgãos sensoriais e
mais próxima do suposto estado real das coisas. Não esperamos
poder alcançar esse último em si mesmo, pois vemos que tudo
o que acabamos de deduzir tem que ser traduzido novamente
para a linguagem de nossas percepções, da qual simplesmente
não podemos nos libertar”
4847 A palavra “encontro” pode ser lida nos dois sentidos, como lugar e também como posição. 48 FREUD, Sigmund. Compêndio de psicanálise e outros escritos inacabados. Obras incompletas
de Sigmund Freud. Tradução de Pedro Heliodoro Tavares. Belo Horizonte: Autêntica Editora,
Há muito tempo conversávamos eu e ela, um exercício que fazíamos
desde a infância. Talvez desde o momento em que a linguagem
instalou-se na memória e que somente os traços, inscritos como marcas, lhe
sobravam na lembrança. Porém, sempre conversávamos...Disse-me
ela, um dia, que há muito havia amado. Um amor de muito tempo,
quem sabe, desde antes mesmo de nascer. Amava numa alegria
ainda pura, mas, aos poucos, percebia que este amor
modificava-se como modificava-seu corpo que crescia e tomava forma. E a modificava-separação modificava-se
impôs. Disse-me ela, novamente, que outra vez amou. Este já um
tanto diferente, em que o corpo já crescido tinha seu lugar e foi,
neste amor, que ce-deu a primeira entrega. Mas o tempo que
carrega os instantes, as horas e os dias, amargou os anos e seu
ser. Foi então que, sussurrando em meu ouvido — como quem, ainda
com medo, vigia suas palavras —, disse-me de seu desencanto, de
sua dor... Porém, quando pensei que já tinha dito tudo, percebi que
ainda balbuciava. Aproximei-me para emprestar mais de perto
meus ouvidos quando, surpreendida, escutei: ‘E, outra vez, amei’.
Desta com a força de quem, já madura, se entrega. Se entrega
já sem medos, sem ressalvas e sem pudor.... Porém (continuou ela),
com a corda bamba, num trapézio de picadeiro sem rede, sucumbi e
desta vez com a força e o peso de uma alma já cansada. Naquele
instante, seus lábios se selaram e o silêncio se fez grito. Afastei
meu corpo, respeitando seu pedido. Nada mais parecia restar em
seu semblante. E, neste instante, se fez ver uma imagem de um
corpo derruído, entregue como as águas que deslizam em um leito
em declive. Muitas horas ficamos neste tempo infinito do silêncio. Eu
a espreitar sua face, seus contornos imóveis e perdidos. Quando a
noite já se anunciava e a imagem perdia-se em vultos, percebi que
seu corpo fazia um pequeno movimento de quem se põe mais ereta
e decidida e, antes que algum toque meu quebrasse a cena, sua voz
se fez presente. Contou-me — lembrando o Banquete de Platão —
que havia conversado com o mar sobre o amor e este já sofrido lhe
disse que, enquanto houvesse água, as ondas se impunham ao vento
e à tempestade. Naquele instante, percebi que uma gota de água
caía em sua face...
Pois, “o real sempre permanecerá incognoscível”, mas, o “conhecimento nos
capacita a compreender algo no mundo exterior, prevê-lo e, possivelmente,
alterá-lo”.
49Sigo as sugestões de Freud, “tento” conhecer, rasurar, nomear, pois,
do contrário, seriam apenas
signos vazios. Convém, no entanto, dizer que “nas
coincidências fatais se encontram rastros de um destino”
50impossível de evitar.
Porém, método/pesquisa é também (e principalmente) ética/estética, se escreve
desde um lugar, de uma posição, pois “a atuação literária significativa só pode
instituir-se em rigorosa alternância de agir e escrever”.
51Agir e escrever. Sim,
a escrita aqui é também ação, vida, um
sentido sempre em ato, em formação ou
“em estado nascente”.
5249 Ibidem, p. 151.
50 SARLO, Beatriz. Sete ensaios sobre Walter Benjamin e um lampejo. Tradução de Joana Angélica d’Avila Melo. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2015, p.26.
51 BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. Obras escolhidas II. Tradução de Rubens Rodrigo
Filho e José Carlos Barbosa. São Paulo: Editora Brasiliense, p. 9.
52
“Estado nascente” é um termo utilizado por Blanchot, ele diz: “o texto não transporta somente um sentido autônomo que só importaria, mas quando o som, a imagem, a voz (a fonologia) e sobretudo o principado do ritmo são predominantes em comparação com a significação ou então fazendo sentido, de tal modo que o sentido sempre em ato, em formação ou ‘em estado
nascente’”. BLANCHOT, Maurice. Cartas a Vadin Kozovoi. Tradução de Amanda Mendes
2. ENVOLVIMENTO
A forma custa caro.
Paul Valéry
2.1. Do território na/da palavra: linguagem, morte-vida.
E, no entanto, um novo inominado avança, ou então avançamos
em direção a ele. No entanto, no mesmo instante posso abrir um
volume de páginas virgens e traçar a primeira palavra de uma
língua por inventar. Uma outra queimadura sem que saibamos,
pois sem que saibamos é o saber exato do inominado.
53A palavra é, desde há muito, uma questão trabalhada pelas diversas áreas
do conhecimento, quer se trate de sua forma ou de sua relação “com”.
54De minha parte, se trata de um interesse íntimo com a palavra, a escrita e a
morte, bem como o processo larvar, quando estas ainda se encontram atrás da
53 NANCY, Jean-Luc. Em meu peito, ai, duas almas... In: Demanda: literatura e filosofia.
Florianópolis: Ed. UFSC, 2016, p. 325-334. Neste impressionante texto, Nancy escreve sobre o desejo de “pensar e ser”, pois, “se pensar é ser, então não há mais nem objeto nem coisa”, somente o ato. Escreve sobre a escrita, os livros, o fogo, traz Fausto e os sinos, a sede do fogo, de queimar. “Eis porque, meus livros, eu vos queimo. Eu os devolvo à vossa gravidade [...] cor de fuligem, cor da noite [...] vós sobreviveis ainda, páginas enegrecidas sobre as quais se pode decifrar os restos de um poema, e se comover com sua beleza de ruína [...] eis o que quero: incendiar o signo e o sentido [...] e tudo irá se abismar ou se exaltar no ato puro”.
54 Lembro aqui a nota de rodapé 14 que faz alusão ao “com”. O “com”, no título, foi, também,
uma sugestão do professor Wladimir Garcia, quando da qualificação do projeto, assim como os termos “presentação”, “envolvimento” e “oclusão”.