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pedrohenriqueleaocoelho

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Academic year: 2021

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(1)Universidade Federal de Juiz de Fora Pós-Graduação em História Mestrado em História. Pedro Henrique Leão Coelho. Terra e trabalho no Sul de Minas: produção de alimentos e mercado interno no século XIX. Juiz de Fora 2015.

(2) Pedro Henrique Leão Coelho. Terra e trabalho no Sul de Minas: produção de alimentos e mercado interno no século XIX. Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Historia da Universidade Federal de Juiz de Fora, para obtenção do título de mestre em História. Linha de Pesquisa: Poder, Mercado e Trabalho.. Orientadora: Profª. Drª. Mônica Ribeiro de Oliveira. Juiz de Fora 2015.

(3) Agradecimentos Mesmo aparecendo no inicio do texto, o agradecimento foi a última parte escrita desse trabalho. Não pelo descaso, mas pela dificuldade em ter de colocar tantos sentimentos de obrigados em poucas palavras. Esse trabalho não foi fruto apenas do período da pós-graduação, mas do que considero como “longa-duração” em uma vida ainda breve. Desde meados da graduação as ideias contidas nesse trabalho foram discutidas e rediscutida, umas abandonadas e outras adicionadas mediante meu contato com pessoas tão maravilhosas dessa trajetória. Sendo assim, nada mais justo do que começar agradecendo aos meus pais e minha irmã. Janinho, Mirian e Paula, assim como todos os outros familiares, pelo apoio incondicional que deram a esse trabalho. Muitas vezes, sem nem mesmo entenderem certos assuntos que eu estava apresentando em nossas conversar, sempre se mantiveram atentos e interessados em cada fala – principalmente naqueles resumos de livros e mais livros em uma fala de alguns segundos. Aos amigos de lavras tenho muito a agradecer por serem fundamentais nos momentos de alegria e por ajudarem a distrair a cabeça quando o texto parecia não avançar. Aos jovens e infinitos amigos do curso de história, Mariana, Clara, Thiago, Paulinha, Mariane, Manu, Laiz, Marcelo e Dievani agradeço não só pelas companhias em várias tardes de café, varias mesas de bar, mas sobretudo por apontar outros caminhos quando o texto também parecia não avançar. Aos meus amigos de republica portuguesa Malta Fixe, Mateus, Felipe, Quaresma, Mari, Fábio e Lauren, como os de Juiz de Fora, Fabrício e Babi, por terem se tornado irmão de uma vida, a quem compartilhamos não só de ideias de trabalhos, mas aprendizados para toda a vida. Aos amigos da Melancia, Cláudia, Virna, Vitor, Gaspa, Riva, Mara Le e Lu, por conseguirem manter o combinado de nunca tratar de assuntos acadêmicos em mesa de bar. Agradeço a Ana Paula, cativa das coisas do coração. Presente não só nos momentos de alegria, mas sempre muito próxima nos momentos de tensão. Um obrigado em forma de desculpa, por nunca reclamar de acordar para responder as mensagens durante as madrugas, e sempre responder com um ensolarado “bom dia”..

(4) A Raphaela do Centro de Memória do Sul de Minas em Campanha, por ter facilitado as horas passadas no arquivo, e permitido que a documentação para a realização desse trabalho fosse coletada. Por fim gostaria de agradecer aos integrantes da banca de qualificação. Ao Professor Roberto Guedes que com muita simpatia apresentou criticas e sugestões que contribuíram com o avanço desse trabalho. A Professora Carla Almeida, não só pelos comentários construtivos e pertinente a pesquisa, mas por ajudar a solucionar várias outras duvidas entre “gritos” no corredor. A minha orientadora Mônica Ribeiro, que desde os anos iniciais da graduação vem sendo um grande amiga, dispondo do seu tempo para ajudar ao máximo que essa pesquisa se concluísse com rigor e competência. Durante esta pesquisa fui bolsista Capes, o que possibilitou minha manutenção e dedicação exclusiva..

(5) Resumo Esse trabalho consiste em um esforço inicial de analisar o comportamento economia de mercado interno nos meados do século XIX, no Sul de Minas, utilizando a documentação referente a Lavras, entre os anos de 1831 a 1868 – período de inicio das leis anti-tráfico de escravos. Através de uma analise sistemática dos inventários post-mortem, utilizados como a principal fonte para essa pesquisa, e o seu cruzamento com os registros paroquiais de terras de mapas de população, procura-se comparar a importância dos atribuídos aos escravos e a terra nos períodos anteriores e posteriores as leis. Na tentativa de perceber se o fim do trafico negreiro permitiu a existência de investimentos em outras atividades econômicas. E se a terra assumia uma dupla importância, atuando como fator de reprodução da economia de alimentos e como reserva de valor, podendo ser vendida ou hipotecada em caso de dificuldades..

(6) Sumário INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................... 9 CAPITULO 1 – MERCADO INTERNO COLONIAL E AS MINAS GERAIS ................................. 18 1.1 - A historiografia até a década de 1970 ................................................................................... 20 1.2 - Lavras do Funil, passagens do século XVIII ao XIX ............................................................ 46 CAPÍTULO 2: LAVRAS NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX ......................................... 57 2.1 - Inventários e o universo amostral ......................................................................................... 58 2.2 - Demografia populacional mineira ......................................................................................... 63 2.3 - Estrutura da posse de escravos .............................................................................................. 66 2.4 - Composição da riqueza lavrense .......................................................................................... 73 2.5 - Produção rural, agricultura e pecuária ............................................................................... 85 2.6 - Mão de obra escrava ............................................................................................................. 92 CAPÍTULO 3: FIM DO TRÁFICO E AS TERRAS DO SUL DE MINAS ..................................... 113 3.1 - O Fim do Tráfico Africano para o Brasil (perspectiva historiográfica) .......................... 113 3.2 - Historiografia e o debate sobre a legislação de terras ........................................................ 122 3.3 - Uma comprovação necessária: a perspectiva das fontes .................................................... 131 3.4 - Comparações de riqueza ..................................................................................................... 142 3.5 - Quatro décadas de escravidão .............................................................................................. 164 3.6 - O Perfil dos Escravos ............................................................................................................ 171 CONCLUSÂO ........................................................................................................................................ 182 BIBLIOGRAFIA .................................................................................................................................... 184.

(7) Lista de Quadros Quadro 1: Minas – população das comarcas entre 1776 e 1835....................................54 Quadro 2: População de livres e escravos em termos da Comarca do Rio das Mortes 1831.................................................................................................................................64 Quadro. 3:. Participação. cativa. mineira. segundo. regiões. por. décadas. (%)...................................................................................................................................65 Quadro 4: Estrutura de posse de escravos de Lavras durante os anos de 1832 a 1848.................................................................................................................................67 Quadro 5: Composição da riqueza dos proprietários escravistas da Vila de Lavras de 1832 a 1848.....................................................................................................................75 Quadro 6: Distribuição de inventários por tamanho de monte-mor 1832 a 1848...........80 Quadro 7: Relação dos tipos de propriedade como urbanos ou rurais............................85 Quadro 8: Vocação produtiva por tamanho de plantel escravista...................................89 Quadro 9: Menções aos tipos de propriedades e terrenos nos inventários......................91 Quadro 10: Origens dos escravos nos inventários de 1832 a 1848.................................94 Quadro 11: Sexo dos escravos nos inventários entre 1832 a 1848................................100 Quadro 12: Sexo dos escravos de origem Africana nos inventários.............................102 Quadro 13: Sexo dos escravos crioulos nos inventários................................................102 Quadro 14: Idade dos escravos nos inventários de Lavras 1832 a 1848.......................103 Quadro 15: Idade dos africanos registrados nos inventários.........................................104 Quadro 16: Idade dos crioulos registrados nos inventários...........................................104 Quadro 17: Relação dos credores por categorias de valores de empréstimos...............108 Quadro 18: Principais credores de acordo com valor....................................................110 Quadro 19: Principais ativos de riqueza, 1850 a 1860..................................................133 Quadro 20: Distribuição de riqueza por categorias de plantel 1850 a 1868..................136 Quadro 21: Participação dos proprietários em cada tipo de ativo.................................140 Quadro 22: Formas de aquisição de Terras nos Registros.............................................148 Quadro 23: Crescimento da população escrava por província6 1819 e 1872...............154 Quadro 24: Estrutura de posse de escravos de Lavras durante os anos de 1850 a 1868...............................................................................................................................166 Quadro 25: Escravos por origem 1850 a 1868..............................................................172 Quadro 26: Relação entre sexo e origem dos escravos 1850 a 1868.............................176 Quadro 27: Faixa de idade dos escravos por décadas 1850 a 1868...............................179.

(8) Lista de Gráficos Gráfico 1: Participação dos principais ativos na composição de riqueza por período.............................................................................................................................77 Gráfico 2: Número de escravos nos anos anteriores a lei de fim do tráfico..................119 Gráfico 3: Principais ativos por décadas 1832 a 1868...................................................143 Gráfico 4: Preço dos escraços homem por biênio 1832 a 1868.....................................151 Gráfico 5: Proprietários de escravos por tamanho de plantel 1832 a 1868...................168 Gráfico 6: Total de escravos por tamanho de plantel 1832 a 1868...............................170 Grafico 7: Origens dos escravos entre 1832 a 1868......................................................170 Gráfico 8: Sexo dos escravos entre 1832 a 1868...........................................................177.

(9) Introdução Como o título da pesquisa já informa, esse trabalho consiste em analisar o comportamento economia de mercado interno nos meados do século XIX, no Sul de Minas, utilizando a documentação referente a Lavras, presente no Centro de Memória do Sul de Minas em Campanha e no Arquivo Público Mineiro. Utilizamos como marco temporal da pesquisa os anos que vão de 1831 a 1868, período marcado pelo inicio da legislação que combatia o tráfico atlântico de escravos – ainda que somente a partir de 1850 tal medida passasse a ser respeitada – e por permitir um estudo de longa duração.. Durante essas quase quatro décadas, podemos observar o crescimento. populacional e desenvolvimento econômico, até a data limite da qual temos documentos disponíveis para consulta no citado arquivo. Temos como objetivos principais analisar os impactos do fim do tráfico negreiro e os efeitos da lei de terras sobre a região, ambos de 1850, uma vez que são questões muito pouco estudadas para o Sul de Minas. Somente a partir da década de 1970 foi que se começou a repensar as lógicas de produção voltadas para atender o mercado interno. Com a difusão dos programas de pósgraduação novos trabalhos passaram a focar nas características regionais trazendo novos espaços de estudos. Isso permitiu que a região do Sul de Minas, por muito tempo tratada como marginal por uma historiografia que priorizava as áreas agroexportadoras, ganhasse cada vez mais importância. Por outro lado, posteriormente, esses estudos se concentraram mais no século XVIII e primeira metade do século XIX, focando sempre o papel de região abastecedora da corte. E como se comportou essa região após esse período? Como foram os impactos das transformações do ano de 1850, marcado pelo fim do trafico negreiro e criação da Lei de Terras? Nesse sentido, nossa pesquisa procura responder estas questões a partir do estudo das vilas localizadas nessa região durante o século XIX. Através de um exaustivo levantamento de fontes, foi localizada uma série de inventários post-mortem, pertencentes ao Centro de Memória do Sul de Minas, na cidade de Campanha, que dizem respeito aos moradores da vila de Lavras do Funil e de seus distritos. Diante da descoberta desses documentos e da leitura dos demais trabalhos acerca dessa temática, pudemos levantar questões que permitem comparar o 9.

(10) caso de Lavras com as demais freguesias do Sul de Minas e analisar questões ainda lacunares para a compreensão do comportamento socioeconômico no período em foco. A análise inicial das fontes permitiu que observássemos o caráter agropecuário da vila, uma vez que a presença de lavradores e roceiros foi marcante. A presença de numerosos fogos se dedicando ao plantio de alimentos e criação de animais, com diferentes vínculos com o mercado, nos permite, através da comparação com as demais freguesias da Comarca do Rio das Mortes, apontar a vila de Lavras do Funil como uma importante região de economia de alimentos. Sobretudo após a instalação da família real na colônia, no inicio do século XIX, quando o Rio de Janeiro se tornou o principal consumidor desses produtos, o que levou a uma nova onda de concessões de sesmarias para o povoamento e cultivo de roças de alimentos. Assim como nas demais regiões do sul de minas, a presença da escravidão foi marcadamente notada, uma vez que se observa uma alta porcentagem de escravos no número total de habitantes. Percebemos difusão da propriedade escrava, distribuída, sobretudo, entre os pequenos proprietários, de até três cativos, que os utilizavam como mão-de-obra complementar ao trabalho familiar. Havia a presença concomitante de grandes e médios proprietários, responsáveis pela maior parcela do número total de cativos. O que esses dados têm nos apontado, é que a região não era ocupada apenas por proprietários de baixos estratos sociais. As atividades econômicas praticadas em Lavras do Funil, essencialmente aquelas ligadas à agricultura e a pecuária, possibilitaram o enriquecimento de alguns proprietários, apresentando uma estrutura hierarquizada típica das áreas produtoras de alimentos mais consolidadas, como São João Del Rei, por exemplo. Essa estrutura agrária, muito semelhante as demais encontradas nos trabalhos a respeito do Sul de Minas, nos fez questionar a respeito das mudanças sofridas a partir da segunda metade do século XIX e que não receberam devida atenção pelos historiadores. O fim do trafico deu inicio a transformações que continuaram a refletir sobre a região no decorrer do período, com a implantação de medidas que gradativamente viriam por fim ao trabalho escravo.1 Seus efeitos logo foram sentidos, especialmente no aumento considerável do preço dos cativos, consequência da diminuição no volume de escravos que passaram a desembarcar na costa brasileira devido à constante fiscalização inglesa. A grande mudança processada era 1. SOUZA, Sônia Maria. ALÉM DOS CAFEZAIS: produção de alimentos e mercado interno em uma região de economia agroexportadora - Juiz de Fora na segunda metade do século XIX. Dissertação de Mestrado: UFF, 1998. 10.

(11) que reprodução da mão-de-obra não poderia mais ser feita através da introdução de novos braços do outro lado do Atlântico como anteriormente. Para atender à demanda e para que o regime escravista continuasse a existir como sustentáculo da sociedade brasileira, restavam aos proprietários duas medidas a partir de então: um maior investimento na reprodução natural e/ou no tráfico interno de cativos2. Sobre a Lei de Terras, temos o projeto de lei aprovado no senado (lei nº 601 de 18 de setembro de 1850). Nos seus artigos iniciais, a lei proibia a aquisição de terras devolutas por outro meio que não a compre e estabelecia uma nova definição para o conceito de terras devolutas3. O objetivo da lei era justamente, alem de regularizar a propriedade daqueles terrenos que já estavam ocupados, determinar às normas de acesso as terras devolutas, daquela data em diante. A lei deveria constituir um marco na história da apropriação territorial: os terrenos já ocupados até 1850 haviam se beneficiado de normas e costumes que a lei estava dando por encerradas, as concessões gratuitas, mas condicionais de sesmarias e posse “mansa e pacifica”. A lei previa a regularização dessa forma de ocupação, determinando as condições dentre das quais os possuidores se transformariam em propriedade. Por outro lado, determinada que daquela data em diante as terras devolutas só poderiam ser adquiridas pela compra, que a mesma lei autorizava o governo a promover e regulamentar. Torna-se muito importante, portanto analisar como a lei pretendia, por meio de seus dispositivos, funcionar como marco divisório entre duas épocas. Contudo, o uso dessa documentação deve ser feito com muito cuidado, como nos mostra Márcia Motta, no seu trabalho, “Nas fronteiras do poder: conflito de Terra e direito agrário no Brasil de meados do século XIX”. A autora demonstra como os Registros Paroquiais não podem ser vistos como um retrato da estrutura fundiária de cada região. Nem tão pouco seus dados são meros reflexos de uma realidade estatística. É preciso considerá-lo como resultado de um processo bastante complexo. Mª Yedda Linhares e F. Carlos Teixeira apontaram a mesma preocupação, apontando que o tratamento técnico do registro é muito problemático. Ainda assim, muito dos historiadores optaram por quantificar os dados de uma. 2. FLAUSINO, Camila Carolina. Negócios da escravidão: tráfico interno de escravos em Mariana (1850-1886). Dissertação de Mestrado, UFJF: Juiz de Fora, 2006. 3 SILVA, L. O. Terras devolutas e latifúndio: efeitos da lei de 1850, Campinas: UNICAMP, 1996.. 11.

(12) região pesquisada, o que os levou a conclusões, se não invalidadas, muito pouco expressivas da dinâmica do acesso a Terra4. Obviamente, esse procedimento não invalida as conclusões acerca do processo de concentração fundiária, na medida em que o pesquisador generaliza a metodologia para todos os declarantes dos registros de terras de uma localidade. Desta forma, é possível encontrar as maiores fazendas do local em tela, a relação entre o numero de fazendas e outras de apropriação, como sítios e chácaras. Entretanto, muitos historiadores, ao estudarem uma determinada região, quantificaram os dados daqueles que declararam a forma de aquisição nos registros paroquiais e generalizam, a partir daí, suas conclusões5. Hebe Mattos, ao analisar a apropriação fundiária do município de Capivary, no Rio de Janeiro, através da analise desses registros, demonstrou a existência de um incipiente mercado de terras antes mesmo da promulgação da lei. Uma vez que uma série de declarantes afirmaram terem adquirido suas terras através da compra. Outro dado importante apresentado pela autora diz respeito à formação de áreas rurais mais consolidadas, onde os declarantes haviam recebidos suas terras pela doação de sesmarias. E também as novas zonas de expansão de fronteira, onde posseiros e compradores de terras declaravam suas propriedades6. Dentre esses documentos citados, nossa principal fonte é composta pelos inventários post-mortem da vila de Lavras do Funil, presentes no Centro Cultural de Memória do Sul de Minas, localizados atualmente na cidade de Campanha. Para a totalidade do nosso período em estudo – 1831 a 1868 – foram registrados 321 inventários post-mortem no Centro de Memória do Sul de Minas, localizado na cidade de Campanha. Nossa tentativa inicial procurou dar conta da coleta da totalidade das fontes, mas devido à quantidade de tempo hábil para a realização da pesquisa, somadas com uma série de dificuldades no acesso a esses documentos, foi necessário a elaboração de uma amostragem que se torna viável a pesquisa dentro do tempo proposto. Optamos assim por selecionar a totalidade dos inventários de todos os anos pares dentro da periodização. Tal escolha nos permite acompanhar uma série longa de anos e não compromete a representação do universo de fontes – uma vez que o número de inventários coletados diminui de 321 para 180. 4. MOTTA, Márcia Mendes. Nas fronteiras do poder: conflito de Terra e direito agrário no Brasil de meados do século XIX. Tese de Doutorado, UNICAMP, 1996. 5 Ibdem, pp. 256 6 MATTOS, Hebe M. Ao sul da história: lavradores pobres na crise do trabalho escravo. São Paulo: Brasiliense, 1987.. 12.

(13) inventários – mantendo uma porcentagem de 60% do total de documentos existentes para a região no período. Para além de permitir que a pesquisa possa ser concluída, essa forma de amostragem mantém um importante equilíbrio para o nosso objetivo - primordialmente pensando em analisar o impacto do fim do tráfico no ano de 1850 para uma região produtora de alimento - uma vez que são nove datas coletadas para a primeira metade - 1832; 1834; 1836; 1838; 1840; 1842; 1844; 1846 e 1848 - e mais 10 para a segunda metade do século XIX - 1850; 1852; 1854; 1856; 1858; 1860; 1862; 1864; 1866 e 1868. Não só a quantidade de anos selecionados nos é importante, mas a soma da quantidade de inventários entre as duas metades também se mantém próxima uma da outra - foram encontrados 82 inventários durante o intervalo de 1832 a 1848; e mais 98 inventários para 1850 a 1868 - não havendo, portanto uma discrepância muito grande entre o número de documentos coletados nos períodos anteriores ou posteriores ao ano de 1850, que fossem capazes de gerar alterações significativas nas conclusões desse trabalho. Esses documentos nos forneceram não somente as inversões produtivas de cada unidade, mas também seus bens móveis e imóveis, traduzindo traços da cultura material das propriedades. A descrição dos bens móveis constitui um indicador do padrão de vida, da riqueza dos indivíduos e da maneira como esta se distribuía individualmente. Os utensílios domésticos permitem aferir sobre a rusticidade e riqueza, devido à presença de certos bens de consumos; as atividades profissionais desempenhadas também ficam claras ao observarmos a utilização de certas ferramentas, principalmente aquelas ligadas a atividades agropecuárias, como enxadas, foices, facão e atividades artesanais. Em seguida descreve-se a relação dos animais, separados como gado vacum, novilho, porco e cavalar. Além da quantidade e valor, também é descrito quantas eram as crias que acabaram de nascer, e quantos animais estavam com barriga. Essa categoria foi analisada com bastante cuidado, uma vez que os investimentos em pecuária foram de grande importância para a região, e a distribuição desse ativo na participação da riqueza é um dos indicadores da estrutura produtiva da localidade. A categoria dos escravos recebeu uma importante atenção. Foram descritos com nome, idade, estado conjugal, origem, profissão, nome do cônjuge caso houvesse, estado de saúde e em alguns casos o nome dos pais. A análise sistemática dessa categoria nos servirá para perceber como a vila estrutura suas unidades produtivas e também uma das questões centrais do trabalho, de tentar perceber qual foi o impacto do fim do trafico para região. Através desses 13.

(14) dados podemos perceber se as pequenas e médias propriedades estão revendendo seus escravos os grandes produtores, uma vez possuem maior capacidade de compra. Os bens de raiz, ou imóveis, engloba propriedades rurais (seja fazendas ou sítios ou até mesmo terras não ocupadas) e propriedades dentro da freguesia, como casas ou pontos de comércio. Já a categoria roça/colheita era essencial para tentarmos perceber em que tipo de produção agrária estava envolvida a vila. Assim como para a categoria dos animais, procuramos demonstrar como a participação desse ativo pode ter contribuído para um maior investimento dos recursos, seja na compra de novos escravos, imóveis ou até mesmo a possibilidade de realizar empréstimos. E por ultimo, a presença das dividas ativas, com o nome do devedor, local, tipo de operação e valor. Isso nos permite verificar se o padrão analisado por Alcir Lenharo se mantém. Com a presença de unidades produtivas conjugadas com agentes comerciais, os tropeiros, na qual encontramos a produção de gêneros aliadas a comercialização. Ou se existia setores mercantis separados dos que realmente produziam. A presença dessas dívidas permitiu verificar se a vila possuía linhas de créditos internas ou estavam buscando linhas de financiamento externas, abastecendo as unidades de dinheiro. Analisando a documentação recorrente, demonstramos o caráter agropecuário dessa região, com a presença de roças de alimentos e criação de gado. A pobreza de algumas propriedades foi marcante, mesmo com a presença de escravos entre os seus bens. Isso nos permitiu comparar como os traços escravistas se comportaram ao longo das quatro décadas de estudo. Isso nos permitiu entender como essas unidades responderam à crise da escravidão, seja através da reprodução natural, trafico interprovincial ou intraprovincial, ou mesmo revendendo seus cativos no mercado. Através do Registro Paroquial de Terras, já digitalizado pelo Arquivo Público Mineiro, localizamos para a vila de Lavras um total de 591 registros, o que nos permite ter uma visão geral do comportamento do sistema de propriedade. Os registros paroquiais de terra também serão cruzados aos inventários, para que possa ser analisado o impacto do fim trafico em relação à terra, uma vez que a legislação buscava criar as condições para o surgimento de um mercado de trabalho livre para a grande lavoura e aumentar os índices de mercantilização das terras com vista a que viessem substituir a renda capitalizada no escravo7. 7. MATTOS, Hebe M. Ao sul da história: lavradores pobres na crise do trabalho escravo. São Paulo: Brasiliense, 1987.. 14.

(15) Em. termos. de. apliação. teorica/metodologica,. utilizamos. uma. abordagem. predominantemente quantitativa, definimos seu critério através do “campo de observação”. De forma muito bem apresentada por José D'Assunção Barros, a História Quantitavia pretende observar da realidade aquilo que está atravessado pela noção do “número”, da “quantidade”, de valores a serem medidos. As técnicas a serem utilizadas pela abordagem quantitativa serão estatísticas, ou baseadas na síntese de dados através de gráficos diversos e de curvas de variação a serem observadas de acordo com eixos de abscissas e coordenadas8. Para realizar nosso objetivo de apresentar o dinamismo dessa região, e sua capacidade de reinvestimentos dos seus ganhos na própria produção. Uma reflexão quantitativa sobre tal documentação permitiu demonstrar a existência de unidades produtivas com diferentes vínculos ao mercado. Proprietários capazes de adquirir grandes quantidades de mão de obra escrava via tráfico conjugando os mesmo espaços de pequenos proprietários dependentes da reprodução natural, bem como unidades que contam apenas com o trabalho familiar. Pela proposta de avaliar um problema, tentamos contornar um problema que Barros apresenta como incidentes nos novos trabalhos sobre história quantitativa – sobretudo pela insuficiência de dados coletados – de acabarem por realizar uma história meramente descritiva. Para o autor, se a História Quantitativa se resumir a uma exposição de quantidades, de informações numéricas, sejam estas relativas à população ou à economia, terminará por se constituir meramente em uma História Descritiva, não-problematizada9. Como a intenção desse trabalho é também de servir de exercício para a aplicação de metodos e praticas recorrentes na historiografia atual, nos arriscamos na empreitada de tentar resgatar algumas experiencias individuais. No seu texto sobre os usos da biografia, Giovanni Levi chama a atenção sobre as formas de se utilizar a chamada “biografia modal, ou prosoprografia”10. Nessa ótica, as biografias individuais só despertam interesse quando islustram os comportamentos ou as aparências ligadas as condições sociais estatisticamente mais frequente. Portanto não se trata de biografias verídicas, porem mais precisamente de uma utilização de dados biográficos para fins prosoprograficos. Os elementos biográficos que constam das prosoprografias só são considerados historicamente relecantes quando tem alcance geral.. No fundo, a relação entre habitus de grupo e habitus individual estabelecida por. 8. BARROS, José D'Assunção. O Campo da História. Petrópolis: Editora Vozes, 2011. BARROS, José D'Assunção. Opt Cit. 10 LEVI, Giovanni. Usos da biografia. In: Janaína Amado e Marieta de Moraes Ferreira. Usos e abusos da história oral. - 8ª edição – Rio de Janeiro: Editora FGV, 2006. 9. 15.

(16) Bourdieu remete a seleção entre o que é comum e mensurável, “o estilo próprio de uma época ou de uma classe”, e o que diz respeito a “sigularidade das trajetórias sociais”11. Bourdieu levanta tanto a questao do determinismo quanto a da escolha consciente, mas a escolha consciente é antes constatada do que definida e a enfase parece recair mais nos aspectos deterministras e inconscientes, nas estratégias que não são fruto “de uma verdadeira intenção estratégica”12. Esse tipo de biografia “modal”, porquanto as biografias individuais só servem para ilustrar formas típicas de comportamento ou status, apresenta muitas analogias com a prosoprografia: na verdade, a biografia não é, nesse caso, a de uma pessoa singular e sim a de um individuo que concentra todas as características de um grupo. Partindo, portanto da analise dos 180 inventários, e dos citados 591 registros de terras, pretendemos observar através da comparação dos dados anteriores e posteriores a 1850, analisar se a terra assumia assim dupla importância, atuando como fator de reprodução da economia de alimentos e como reserva de valor, podendo ser vendida ou hipotecada em caso de dificuldades. Dessa forma, pesquisas sobre o impacto do fim do trafico e da criação de lei de terras ainda não foram realizadas para pequenas regiões que se dedicavam ao cultivo de alimentos e criação de animais. Essas medidas de capitalização da terra, em contraste com a rusticidade e pobreza da vila de Lavras do Funil, nos leva a questionar as formas como o trabalho escravo era empregado: os pequenos e médios proprietários venderam seus escravos para a aquisição de novas terras? Ou, o uso da mão-de-obra escrava no trabalho agropecuário era mais valioso que seu preço líquido? Estas são questão em aberto, cujo presente projeto busca responder. Para o desenvolvimento desse estudo, procuramos levantar logo no primeiro capitulo o apontamento de alguns dos trabalhos historiograficos a respeito da tematica do mercado interno não só no Brasil, mas também para o caso argentino. Para além desses pontos, foi fundamental o enfoque em pesquisas que discutiam o caráter da economia mineira durante os séculos XVIII e XIX. Tais trabalham norteiam essa pesquisa ao utilizarem abordagens quantitativas; serial e demografica em suas metodologias. Ainda na primeira parte, apresentamos da nossa localidade de estudo no que diz respeito a sua geografia e ocupação. No segundo capitulo do trabalho abordamos os anos anteriores a 1850, na tentativa de apresentar o comportamento socioeconômico da região através das analises de seus 11 12. LEVI, Giovanni. Opt cit. 174 LEVI, Giovanni. Opt cit. 115. 16.

(17) inventários. Procuramos apontar seu caráter agropecuário, e demonstrar como os diferentes proprietários investiam seus ganhos. Além dessa questão, iniciamos também uma apresentação da demografia escrava, buscando entender quais eram as principais características dessa mão de obra. Por utilizarmos uma abordagem de longa duração, tal capítulo permite iniciarmos o estudo comparativo entre o a primeira metade do século XIX com a segunda, visando com isso não apenas um estudo de cunho regional, mas sim, que possa servir de modelo para outros trabalhos do período e tema. Por ultimo, temos no terceiro capitulo os dados relativos à segunda metade do século XIX. Iniciamos com uma discussão em torno do debate historiográfico que perpassa as discussões sobre a Lei Eusébio de Queiroz e Lei de Terras, bem como uma apresentação dos contextos históricos em que ambas foram propostas. Seguindo as analises iniciadas no capitulo anterior, mantemos o uso dos inventários para concluir a comparação dos seus dados nas quatro décadas de estudos e concluirmos como tais promulgações das leis foram sentidas pelos seus indivíduos e estruturas produtivas.. 17.

(18) Capitulo 1 – Mercado interno colonial e as Minas Gerais Desde os primeiros anos da colonização, o sonho de descobrir o eldorado no Brasil se manifestava nas ações políticas da Coroa Portuguesa e de seus súditos. As riquezas extraídas das terras coloniais espanholas na América despertavam a ambição e a esperança de que na porção portuguesa - próximas das prósperas minas da região andina de Potosí - se encontrasse também os tão sonhados metais preciosos. Com o decorrer dos anos de colonização, a ânsia por descobrir tais metais preciosos nunca fora abandonada e os incentivos da Coroa para que os colonos persistissem nessa tarefa era contínuo. A princípio, o litoral brasileiro não ofereceu tais terras minerais como se desejava, mas à medida que a colonização foi se efetivando e a interiorização do continente acontecendo, esse ideal foi ficando mais próximo:. O governo metropolitano nunca perdera as esperanças de encontrar metais preciosos nas terras da América. Esta esperança era alimentada pelas lendas sedutoras da cidade de Manoa, das Serras das Esmeraldas e de Sabarabuçu. E para dar uma base mais concreta a essa esperança, havia o exemplo das minas de Espanha, em terras contíguas às do Brasil13.. Já havia quase dois séculos de colonização, quando a convicção de que a colônia devia possuir metais preciosos deixou de ser um contexto vislumbrado e se materializou. No final do século XVII, os colonos chegariam às regiões centrais da futura Capitania das Minas e encontrariam as riquezas minerais em expressiva quantidade. A notícia dessa descoberta logo chegaria a Corte e ao restante da colônia, provocando uma euforia geral no Império Português. Com isso, a história de Minas Gerais se confunde, em sua origem, com a história das catas de ouro e a faiscação dos diamantes, como fruto do privilégio que a geografia da região ofereceria para a extração desses metais nos córregos e nas minas que cortavam toda aquela região montanhosa. Ainda no primeiro século da colonização, a tentativa de penetrar naquela região promoveu várias entradas: pelo norte, vindos da Bahia; pelo leste, do Espírito Santo; e pelo sul, através do Rio de Janeiro e de São Paulo. De qualquer forma, nenhum povoamento efetivo 13. ZEMELLA, Mafalda. O abastecimento da Capitania das Minas Gerais no século XVIII. São Paulo: HUCITEC, 1990. p. 37.. 18.

(19) havia sido produzido a partir daquelas excursões naquele momento. Esses primeiros desbravadores encontraram situações extremas de sobrevivência, lidando com as adversidades, como o confronto com os indígenas, as doenças, a fome e o desconhecimento do território. Entretanto, as informações desencontradas sobre as possibilidades de terras minerais naquela região central de Minas foram ficando cada vez mais evidentes, o que estimulava ainda mais esses aventureiros. A partir de 1674, o movimento de povoamento da região foi frequente, sendo fundados os primeiros núcleos de aldeamento e feitas às aberturas de caminhos, com roças e paragens. Mas, foi somente na última década do século XVII que a corrida pelo ouro desenfreou também um processo de povoamento mais efetivo na região, principalmente a partir do primeiro relato oficial da descoberta aurífera por Antonio Rodrigues Arzão nos sertões do Rio Casca (1692) 14. Essa corrida desenfreada em busca do eldorado prometido fez surgir em pouco tempo um esforço de uma população que abria picadas e caminhos, construíam casas e roças e procuravam se instalar nos complexos auríferos e ao longo desse percurso. Foi dessa forma que se viu surgir os primeiros povoados, que em pouco tempo, se transformaram nas primeiras vilas daquela região, como Vila do Carmo (Mariana), Vila Rica (Ouro Preto) e São José Del Rei. Para dar condições de sobrevivência àquelas pessoas, as vilas recebiam produtos de todos os gêneros vindos de outras partes da colônia e até mesmo da metrópole. Além disso, para abastecer toda aquela população foi necessário criar uma estrutura de produção de alimentos ao redor dos núcleos auríferos e uma rede comercial que se estendia pelos caminhos e terras que ligavam aquela região até os portos do Rio de Janeiro e também de outras capitanias. Logo, essas roças e paragens das Minas passaram não só a contribuir para o sustento de seus povoados, mas também a escoar parte da produção agropecuária para lugares cada vez mais longínquos, o que iniciaria a gestação de um promissor mercado de abastecimento mineiro, que se desenvolveria ao longo do século XVIII e principalmente no XIX. A respeito da Capitania das Minas, dois momentos historiográficos distintos contribuíram para interpretações que procuraram reconstruir o cenário econômico mineiro entre o declínio do ouro do século XVIII e acomodação produtiva que iria até o século XIX. 14. Sobre os primeiros anos da ocupação no território mineiro, ver: ZEMELLA, Mafalda. op cit. p.39; VASCONCELLOS, Diogo. História antiga de Minas Gerais. Belo Horizonte: Itatiaia,1974.pp.141-161.. 19.

(20) Nesse sentido, torna-se importante traçar um panorama sobre a trajetória da historiografia sobre Minas Gerais.. 1.1 – A historiografia até a década de 1970.. O final do século XIX trouxe à luz teorias que repercutiram sobre a intelectualidade no Brasil. A teoria do evolucionismo social, o positivismo, o naturalismo e o social-darwinismo começaram a ser difundidos nos trabalhos no país a partir daquele momento. No campo da pesquisa histórica, a contribuição de Capistrano de Abreu foi fundamental para a constituição da disciplina como um lócus de estudo, pautando-se por um método científico, um objeto e uma escritura próprios. No caso que nos interessa, Capistrano de Abreu inauguraria uma percepção sobre a História do Brasil Colônia. Capistrano procurou chamar a atenção para a necessidade de um olhar voltado para o interior de nossa história, da sociedade colonial e de seu funcionamento. Representante de um grupo que procurava um método científico fundado na prova documental consistente e em procedimentos capazes de garantir objetividade por parte do historiador, Capistrano buscava uma história da identidade nacional de um povo; de sua “brasilidade” 15. Especificamente para o caso de Minas Gerais, as pioneiras “Efemérides Mineiras” (1897) e a Revista do Arquivo Público Mineiro, sob a direção de Xavier da Veiga até 1900, buscavam um cuidado com a narração e a cronologia, não esquecendo o forte teor das ações políticas em seus textos. Da mesma forma, aquele início de século traria as contribuições de Diogo de Vasconcelos com a narrativa sobre Minas Gerais, desde sua formação fundamentada na erudição, no factual, no zelo com as fontes e com as memórias de seus pares 16. O intuito dessas produções era a construção de uma identidade cultural estadual, de uma “mineiridade, de certa forma presumida necessária ao esforço político empreendido pelo estado para se impor na Federação” 17. Na primeira metade do século XX, surgiu uma concomitância de trabalhos que, por 15. ABREU, João Capistrano de. Ensaios e estudos (crítica e História). 4ªsérie. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976; ABREU, João Capistrano de . Capítulos de História Colonial; 1500-1800. 6ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1976 16 VASCONCELOS, Diogo. História média de Minas Gerais. 3ª ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974 17 Ângelo Carrara faz uma boa síntese desse período historiográfico, na obra: CARRARA, Angelo. op.cit. pp.1316.. 20.

(21) muito tempo, insistiram na percepção de uma decadência econômica para a Capitania das Minas, logo após o período do auge minerador. Não conseguiria nem mesmo vincular qualquer relação de uma produção voltada ao abastecimento e para a mercantilização, nem mesmo durante a ascensão da extração aurífera. Foi a partir da década de 1970, do mesmo século, que uma nova linha interpretativa passaria a vislumbrar outro posicionamento econômico para a capitania. Amparado por uma nova metodologia e uma pesquisa massiva com as fontes, esse novo ramo historiográfico passou a criticar e a colocar à prova as velhas posições. Por isso, torna-se importante traçar a trajetória da historiografia sobre Minas Gerais para alinhá-la, mais tarde, com o objeto de estudo em questão nessa pesquisa. O século XX assistiu, já em suas primeiras décadas, um processo quase que heróico de alguns estudiosos que se aventuraram em trazer uma sistematização e orientação metodológica ao trabalho de pesquisa histórica no Brasil. O passado de nosso país seria revisitado a partir de um contato mais direto com as fontes, que receberiam maior atenção e seriam cada vez melhor aproveitadas pelos pesquisadores. Os anos de 1930 viram surgir no plano intelectual, em meio a grandes inquietações na vida política e social do país, várias obras de caráter histórico, que tinham em comum a preocupação de repensar as tradicionais explicações sobre a sociedade brasileira e seu passado. Para esta linha interpretativa, grosso modo, a ausência de um produto dominante entre os ciclos do ouro e do café em Minas marcaria um momento de decadência e estagnação da economia. Acreditavam esses pesquisadores que qualquer vínculo entre exportação e escravismo após a queda da produção aurífera, ao fim do século XVIII, seria impossível, já que Minas não teve capacidade de reverter à crise do ouro e se manter com outro tipo de produção, que gerasse riquezas para a capitania e que mantivesse um mercado de produção interna. Em 1937, Roberto Simonsen apresentaria em sua obra, “História Econômica do Brasil”, a noção de que a economia brasileira teria sofrido uma sucessão de “ciclos”, cujos elementos produtivos teriam sido o açúcar, a mineração e o café. Para o autor, a decadência do ouro em Minas deixou a capitania em pleno declínio produtivo, já que na estrutura colonial brasileira somente uma produção baseada na exportação poderia realizar lucros. Sendo assim, Simonsen desconsiderou qualquer possibilidade das produções agropecuárias, por exemplo, de gerir desenvolvimento econômico significativo e afirmou a existência de um vazio produtivo entre os ciclos do ouro e do café: 21.

(22) Cessada a mineração, mergulhou o Centro-Sul na sua primeira grande crise por falta de uma produção rica e exportável, numa organização social em que o atraso de seus habitantes, a falta de aparelhamentos técnicos e a alta proporção da população escrava não permitiam um comércio interno suficientemente rico para o seu progresso18.. Tempos depois, uma nova percepção da econômica colonial surgiria com Caio Prado Junior. Segundo Ângelo Carrara, os estudos de Caio Prado e Celso Furtado se distanciariam de Simonsen, contudo sem anular as idéias de ciclos, mas dando um novo “sentido” a elas, ou seja, “Caio Prado substituiu o primeiro plano ocupado pelos ciclos econômicos de Roberto Simonsen pelo sentido da colonização”. Em a “Formação do Brasil Contemporâneo”, Prado considerou importante entender o fim do século XVIII e a primeira metade do século XIX, como um momento crucial para se compreender o Brasil contemporâneo e caracterizar o que foi o período colonial16. Nessa mesma obra, Caio Prado apresentou um panorama estrutural acerca da economia colonial brasileira, interligando um “sentido histórico”, a uma produção de excedentes voltada para o mercado externo e aos interesses metropolitanos. A estrutura da economia mineira no século XVIII é, dessa forma, foco especial das análises que intentam desvendar os ritmos da formação econômica do Brasil. Segundo Caio Prado Júnior, o ouro mineiro se inseria no conjunto de produtos fornecidos à metrópole. Integrava-se ao sentido da colonização, sendo durante mais de meio século um dos grandes geradores de riqueza para a economia européia. Para a perspectiva, também externalista, de Fernando Novais, o produto atendia ao mecanismo do chamado exclusivo metropolitano. Dessa forma, toda a produção de gêneros alimentícios da região tinha a função de assegurar a subsistência de uma grande massa de pessoas que viviam em torno da economia da mineração direta ou indiretamente, sem gerar excedentes significativos19. Coerente com a visão clássica foi a afirmação de decadência dessa região defendida por Celso Furtado. Segundo ele, o decréscimo da extração aurífera gerou um contingente de escravos “semi-ociosos”, o que 18. SIMONSEN, Roberto. História Econômica do Brasil. 7ª ed. São Paulo: Ed. Nacional; Brasília:INL, 1977. p.294. 19 NOVAIS, Fernando. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808). São Paulo: Hucitec, 1984.. 22.

(23) facilitou a decolagem da economia cafeeira no Vale do Paraíba e o Oeste paulista. Encerrando o ciclo de um produto exportador, a mão-de-obra disponível não teria outro fim senão empregar-se na produção comercializada com o mercado externo20. Wilson Cano também enfatizou a incapacidade da agricultura e das atividades de transformação de gerarem um complexo econômico devido ao seu baixo potencial de acumulação. Segundo o autor, embora a mineração tivesse gerado um grande excedente, a economia mineira só teria retido localmente uma ínfima parcela do mesmo, e que tiveram como principais fatores de desestímulo ao desenvolvimento das atividades agropecuárias e manufatureiras aos altos custos da mão de obra (problema enfrentado também pela atividade principal) e por outro lado, o de os altos custos dos transportes que, ao mesmo tempo em que incentivavam a produção interna, também fechavam as possibilidades de comercialização com mercados mais significativos21. Com a "depressão" da mineração e a conseqüente transferência de mão de obra para esse tipo de produção estaria criado um paradoxo: apesar da possibilidade do aumento da oferta dos produtos agropastoris e manufatureiros, a demanda teria se retraído, não havendo, portanto, para quem produzir. Nesse sentido os escravos teriam se tornados inúteis e passariam a ser subutilizados, em uma economia em fase de desagregação22. No que diz respeito a Minas Gerais, deve ser destacado o clássico trabalho de Mafalda Zemella que centraliza a abordagem sobre o abastecimento da Capitania de Minas Gerais durante o período da mineração. De certa forma, esta autora acaba por reproduzir a idéia presente na tendência historiográfica que não consegue vislumbrar a possibilidade de existência de uma produção agropecuária mais dinâmica para o mercado interno na região das minas, durante o auge do período minerador23. Para Zemella, neste período havia uma carência de todo tipo de produtos, sendo a Capitania de Minas Gerais abastecida, principalmente, pelos mercados de São Paulo, do Rio de Janeiro, da Bahia e da Europa. Para a autora, todas as atenções estavam voltadas para as atividades mineradoras, e o produtor de alimentos, por não dispor de recursos suficientes, se via impossibilitado de concorrer com os mineradores pela 20. FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Ed. Nacional, 1976.. 21. CANO, Wilson. Raízes da concentração industrial em São Paulo. 2a ed. São Paulo: T.A. Queiroz, 1983, p. 17. Idbem, pp 41 23 ZEMELLA, Mafalda. O abastecimento da Capitania de Minas Gerais no século XVIII. São Paulo: USP/Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, 1951. 22. 23.

(24) mão-de-obra escrava.. A extração aurífera era absorvente. Enquanto a produção do ouro foi abundante, não houve margem para o aparecimento de uma agricultura ponderável ou de uma pecuária intensiva. A agricultura no apogeu do ouro não poderia desenvolver-se, porque não podia disputar com as mi nas na compra de escravos. O minerador pagava pelo negro, preços que o roceiro não alcançava24.. Ainda de acordo com Zemella, a implantação de uma produção agrícola e de uma pecuária mais dinâmica só se tornou possível com a decadência das atividades mineradoras, e assumiu tal importância que passou a abastecer não apenas os habitantes da Capitania, mas a suprir mercados como o do Rio de Janeiro. Além da crise da mineração, outros fatores que contribuíram para a prática da agricultura foram a alta dos preços dos gêneros alimentícios, o menor desgaste dos escravos – diminuindo a necessidade de reposição de mão-de-obra –, o menor custo e a maior segurança deste empreendimento25. O víeis metropolitano da interpretação dos ritmos a economia colonial fora questionado a partir das teses de Ciro Flamarion e Jacob Gorender. Esses dois autores elaboraram o conceito de modo de produção escravista colonial, subsidiário, porém, dissociado do chamado modo de produção capitalista26. As influências desse debate na História Regional foram salientadas por Paiva.. Este debate marcou profundamente os inúmeros trabalhos acadêmicos que surgiram a partir do início dos anos oitenta. As assim chamadas sociedades ‘coloniais’ passaram a ser objetos de grande interesse acadêmico e deram origem a importantes pesquisas que retomaram como objeto de investigação diferentes regiões do país, quer. 27 24. Idem. Op. cit., p. 211. Idem. Op. cit., p. 215-218. 26 O debate no âmbito teórico cercou o conceito de modo de produção, que para Ciro Cardoso, deve passar pela articulação historicamente dada entre as forças produtivas e as relações de produção. A proposição para o sistema escravista da América Portuguesa baseia-se na utilização estrutural da mão-de-obra escrava na reprodução da economia colonial 25. 24.

(25) sejam províncias quer sejam áreas específicas dentro destas províncias27.. Não se resumindo somente ao caso brasileiro, a revisão de antigos pressupostos a respeito da historia agrária também floresceu pela América latina. Escolhemos como exemplo o caso Argentino, uma vez que o debate acerca dos bens voltados para exportação sempre receberam muito destaque, e sua renovação historiográfica ao estudar o mercado interno colonial com a utilização de novos instrumentos de pesquisas, metodologias e fontes se aproximou muito do nosso caso28. No caso argentino, assim como no Brasil, havia uma grande necessidade de se revisar a historia rural, em um questionamento radical do modo de se interpretar o funcionamento da economia colonial. Os historiadores foram obrigados a partir de então, a prestar uma atenção especial acerca do mercado interno e o papel que certos polos econômicos do território americano haviam julgado em conformação com os da economia regional. Esta atenção aos mercados locais permitiu colocar em análise uma visão que desde os tempos coloniais só se prestavam a importância das exportações bens pecuários, demonstrando a presença não só dos cereais, hortaliças e carnes, mas também do resgate dos seus produtores, do papel da família, camponeses e estancieiros29. Se até então, os historiadores que se interessavam na economia colonial só se preocupavam em buscar essencialmente os dados sobre o comércio exterior, que supunham que sua evolução era um indicador suficiente do comportamento do conjunto econômico regional, passaram a procurar outras fontes que pudessem dar conta de fenômenos não necessariamente vinculados à exportação, mas sim, relacionados à economia e sociedade local. Um dos pontos levantados seria a respeito da mão de obra nas fazendas rio-platense, tema que se encontrava em meio a uma interpretação tradicional sobre a economia agrária argentina e havia servido de sustento para pensar as origens da historia “pampeana”, e que nesse novo momento historiográfico passaram a ser abordados por novas metodologias e fontes, de formas cada vez mais sistemáticas.. 27. PAIVA, Clotilde A. População e economia nas Minas Gerais do século XIX. 1996. Tese (Doutorado de História) USP, São Paulo, 1996. Pp. 8 28 FRADKIN, Raúl; GELMAN, Jorge. Recorridos y desafios de uma historiografía. Escalas de observacíon y funtes en la historia rural rioplatense. In. BRAGONI, Beatriz. Microanalisis: ensayos de historiografia argentina. Buenos Aires: Prometeus Libros. 2004. Pp. 31 29 Ibdem. Pp. 32. 25.

(26) Além de repensarem as questões dos trabalhadores, surgiram também novas perguntas sobre a identidade do colono rural com a figura do “gaucho”, que os historiadores logo trataram de resgatar novos atores e fenomenos como explicação. Repensaram a lógia “empresarial” das fazendas e seus proprietários – vistos até então como arcaiscos – e demonstraram seu carater bastantes ativo, que buscavam aproveitar as oportunidades que os mercados particulares da época criavam30. De todo modo, o modelo centrado na existência de algo que se espera chamar de Mercado Interno Colonial, e que vinha a questionar as formas de pensamento anteriores a respeito da economia colonial, também tinha de contornar algumas dificuldades. A onda de estudos que de alguma maneira desencadeou a revisão proposta por Assadourian demonstrou que nem mesmo com novas fontes e temas permitia dar conta totalmente das realidades regionais argentinas, e da complexidade social que se constatava em cada caso. Seria necessário ir às regiões mistas para poder explicar os comportamentos locais e não somente se limitar a descrever a relação dessas com o polo de Buenos Aires31. Essa identificação das localidades e regionalização dos estudos agrários veio também acompanhada com uma troca de paradigma sociológicos, dando inicio a um abandono das visões demasiadamente deterministas do comportamento social. Passando a observar cada vez mais as ações e praticas individuais e coletivas, aumentando as margens de atuações e liberdade dos agentes em relação ao curso geral da historia. Somente esta nova perspectiva poderia ajudar a dar conta da extrema diversidade de situações que os estudiosos regionais podiam encontrar. No caso da historia rural rio-platense, apesar de certos fatores atuarem de maneira bastante geral em todo o território, os estudos microscópicos passaram a revelar que as respostas eram muito mais diversas, às vezes até em casos cujas distancias não eram tão longas32. Em seguida, a perspectiva regional acompanhou ainda uma mudança de escala, que permitiu a passagem de uma visão estrutural do funcionamento da sociedade, para uma visão quer permitia uma maior liberdade de ação dos seus atores coletivos e individuais. Estes podiam incidir, às vezes de maneira decisiva, na conformação geral de uma sociedade. Dessa. 30. Ibdem. Pp. 33 Ibdem. Pp. 34 32 Ibdem. Pp. 35 31. 26.

(27) forma, somente os estudos detalhados das diferentes realidades históricas podiam dar conta das mesmas, e os modelos só teriam sentido como ferramentas para abordar esses estudos mais específicos, mas que não podiam explicar essas mesmas realidades, que se entendiam como a combinação original de uma serie de fatores e ações coletivas e individuais, que podiam ter lógicas que poderiam pensar desde certos modelos sociológicos, econômicos, antropológicos, mas que se combinavam de maneira diferente e incluíam princípios de liberdade limitada, que faziam poucos previsíveis e originais os resultados. Estes estudos salientaram que uma parte significativa do trabalho regular das mesmas, recaia sobre uma população escrava. A esta se somavam peões livres que permaneciam nas grandes estâncias por longos períodos, bem como muitos outros trabalhadores, também livres, que entravam e saiam do emprego constantemente. Já a abundante presença de trabalhadores escravos colocaria em evidencia a existência de uma atividade agrícola capitalizada por um lado, e simultaneamente, as dificuldades que certos senhores possuíam para obter uma mão de obra barata entre a população local, que crescia vertiginosamente ao final do período colonial33. Os estudos microanalíticos revelaram, por exemplo, ao estudarem as fontes administrativas da região de Colônia, na Banda Oriental Argentina, a existência de uma população composta majoritariamente por produtores independentes, ou mesmo alguns proprietários de terras, como uma população de ocupantes informal de terras renegadas ou pertencentes a algum outro grande senhor que não as necessitasse para tirar seus sustentos. A utilização da ocupação desse solo serviria como uma forma de complemento da produção familiar, sobretudo naquelas de caráter mais humilde ou em momentos de dificuldade e/ou crise econômica. Já com o estudo das listas nominativas, os historiadores constataram que os modelos de funcionamento econômico permitiam supor, como por exemplo, a presença de residentes instalados as margens de uma grande propriedade como trabalhadores assalariados temporários, que ajudavam na produção de maneira independente das colheitas agrárias e da criação de animais34. As mesmas listas também apontaram a presença de trabalhadores recém chegados, vindos, sobretudo de regiões menos favorecidas do interior. Dos que vinham, os homens ainda 33 34. Ibdem. Pp. 36 Ibdem. Pp. 37. 27.

(28) em idade juvenis eram os que se mostravam mais dispostos ao trabalho nas estâncias como mão de obra relativamente estável, carecendo das alternativas de independência que os trabalhadores mais velhos já possuíam e sem seus recurtos familiares que eram suas condições prévias. Essa renovação metodológica e temática passou a demonstrar também os processos de mobilidade geográfica e social. Seja dos trabalhadores que imigravam para trabalhar nas propriedades, que circulavam e podiam discutir as condições de serviço com seus empregadores; indivíduos que se utilizavam de estratégias de matrimonio para se inserirem em redes relacionais que possibilitassem iniciar algum oficio autônomo para atender as pequenas e médias propriedades. Esse estudo sistemático da população, da sua composição e dinâmica, trouxe outra importante modificação nas formas de se pensar a historia rural argentina. Em primeiro lugar, a constatação de uma intensa mobilidade espacial, inter e intrarregional, corroia a imagem fortemente estática e rígida da sociedade que foi construído anteriormente. Colocou-se em evidencia a forte articulação entre as diferenças regionais, e em especial, o intenso processo migratório que unia a todas as regiões e sustentava a atividade da região do rio do Prata. Da mesma maneira, se fez evidente a dificuldade de se pensar a historia do “campesinato interiorano” sem estar relacionada com o litoral, que às vezes permitia a população argentina à utilização de estratégias reprodutivas que incluíam as migrações temporárias ou permanentes de parte das famílias35. Essa aproximação com os estudos de mobilidade geográfica e social permitiu também revisar a posição dos escravos nesta sociedade, uma vez que tiveram grande importância para estabilizar a mão de obra nas médias e grandes propriedades, permitiram colocar em discussão todo o status do sistema escravista. Como muitos trabalhos apontaram, a presença dos escravos argentinos era considerada o núcleo estável de trabalho nas grandes empresas agrícolas, o que acabou gerando até mesmo o recrutamento de indivíduos não livres para a ocupação de cargos de hierarquia mais altas dentro das propriedades. A maioria dos postos de capatazes de uma estância recaía a funções da população escrava, e ainda em alguns casos, a própria direção geral de algum tipo de produto ficava as suas mercês. Sobre os escravos capatazes, possuíam sob sua “tutela” não só a direção de outros escravos, mas também de peões livres que eram contratados para trabalhos 35. Ibdem. Pp. 38. 28.

(29) temporários. Segundo os autores, não é difícil imaginar as dificuldades e os paradoxos desse tipo de relação, e simultaneamente, a capacidade de ação que esta situação favorecia entre as populações escravas, a ponto de colocar em questão alguns aspectos da própria questão do sujeito jurídico próprio da escravidão36. Muitos escravos conseguiam dessa maneira, incentivos muito mais próximos do universo dos trabalhadores livres – como salários, acesso à parcela de terras para uso próprio, etc – assim como forçar que o que alguns autores chamam de “limites de cor” da escravidão. A opção de matrimonio entre alguns escravos com mulheres livres – que os dariam filhos livres – ou às vezes conseguiam gerar acúmulos suficientes para lhes comprar a própria liberdade e integrarem a população camponesa mestiça da região37. Dessa forma, una aproximação menos determinista e mais atenta às realidades locais e a ação de pessoas e grupos, permitiu revisar temas como o de mão de obra, e no casa da escravidão, verificar os aspectos de negociação e resistência que eles mesmos utilizaram para discutir suas condições de vida e rigidez do status jurídico que os condenavam a serem considerados como objetos. Além disso, alguns estudos também procuraram detectar as expectativas sociais e individuais de alguns escravos, e seus esforços cotidianos para melhorarem suas condições38. Para Cristian Aguirre a historiografia já é consciente que a soma dessas ações possuíram um papel de destaque para o fim da escravidão rio-platense. Apesar de ter sido também influenciadas por movimentos internacionais anti-tráficos e por correntes ideológicas que infligiram certos setores da elite, tiveram como atores centrais as realidades locais, as conjunturas políticas e também a intervenção dos próprios escravos que puderam perceber tais acontecimentos e atuarem39. Assim como a questão do trabalho escravo, também se observou uma evolução acerca dos estudos sobre as formas de trabalho livre. Os modelos macroeconômicos previam um reforço da recriação de tal sistema, através da combinação entre abundancia de terra fértil, escassez de trabalhadores escravo e a existência de uma demanda internacional para os 36. Ver SCOTT, R. Definig the boundaries of freedom in the world of cane: Cuba, Brazil anda Louisiana after emancipations. American Historical Review, 99, 1, 1994. Pp 70-102 37 Ver PERRI, G. L. Los esclavos en el Buenos Aires tardocolonial. Una aproximación atrves de los expedientes judiciales. In AAVV. La fuente judicial en la construcción de la memoria. Buenos Aires, UNMdP, 1999. 38 AGUIRRE, C. Agentes de su propia libertad. Los esclavos de Lima y la desintegracions de la esclaviud. 18211854. Lima, PUCP, Fondo Editorial, 1995. 39 FRADKIN, R. GELMAN, J. Opt cit. pp 40. 29.

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